Um discussão sobre a Universidade pública
Vamos pegar a deixa do João Vergílio e começar a discutir seriamente a USP. Colocarei algumas premissas, para tentar organizar um pouco a pauta.
Elemento 1 – a missão da Universidade.
Nos anos 90 houve grande discussão. De um lado, os que achavam que a Universidade deveria atender o mercado; do outro, os que consideravam que o único compromisso era com a ciência. E, para cumprir essa missão, o pesquisador deveria ficar solto, sem se amarrar a metas e avaliações.
Em um estudo clássico, o então reitor da UNICAMP, Britto Cruz, colocou a discussão nos devidos termos. O papel da Universidade é formar alunos e fazer ciência, prospectar as fronteiras do conhecimento. Aqueles alunos com vocação empreendedora, com tendência a desenvolver tecnologia, deveriam ser estimulados a montar sua empresa (as incubadoras), registrar suas patentes e ser colocado em contato com empresas. Escritórios de patentes foram criados na UNICAMP e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Uma das maiores asneiras propagadas nos anos 90 – especialmente pelo ex-Ministro Paulo Renato – é que os governos deveriam se preocupar apenas com o ensino básico, deixando Universidades para segundo plano. Cometeu um crime contra a educação, a ciência e a tecnologia nacionais.
Elemento 2 – os agentes da Universidade.
Definidos os fins (formar alunos e fazer ciência), há que se trabalhar os meios. Todas as análises de meio deverão ter como foco central os fins.
Os professores – Quem produz conhecimento e forma alunos são os professores. Eles devem trabalhar em um local que, numa ponta, forneça as melhores condições de trabalho. Na outra, modelos de avaliação que meçam sua produtividade e grau de excelência. Publicação de papers é um modo, mas não apenas isso. Geração de patentes é outro, mas não pode ser o foco. Análise do que aconteceu com seus ex-alunos, um terceiro indicador, mas não exclusivo. A reputação acadêmica do departamento, outro. A avaliação dos alunos e funcionários, outro.
Os alunos – são os receptadores do conhecimento transmitido pelos professores. Por isso mesmo, devem ser um agente ativo de avaliação dos mestres e das condições oferecidas pela Universidade. Tempos atrás, fui convidado para ser ombudsman de um jornal da ECA/USP, muito bem feito, por sinal. Havia reportagens acachapantes sobre as más condições de funcionamento da USP, falta de manutenção, restaurantes caindo aos pedaços etc. Obviamente, há limites para a atuação dos alunos. O caminho é a definição de fóruns adequados de manifestação mas, principalmente, de clareza sobre a busca permanente da excelência universitária.
Os funcionários – o papel dos funcionários é fornecer a retaguarda administrativa e de serviços para os professores. Sua estrutura, tamanho, custo deve seguir estritamente o que for necessário para o bom funcionamento da Universidade. Mas, em fóruns adequados, deve opinar sobre temas a que estão ligados, como as condições de trabalho, as sugestões para melhorias, os compromissos de melhorias contínuas.
A direção – há três instâncias de poder na Universidade: os departamentos, o Conselho Universitário e a Reitoria.
Vamos, primeiro, discutir o modelo de gestão na Universidade, antes de retomar essa questão da governança.
Elemento 3 – a governança na Universidade.
Gerir uma Universidade é tarefa muitíssimo mais complexa do que administrar uma grande corporação. Na empresa, há objetivos definidos (produzir, gerar lucros), cadeia de comando verticalizada (a ordem vem de cima e se impõe sobre os departamentos), e formas conhecidas de articulação dos departamentos. A lógica da Universidade é outra e exige um modelo de governança diferente.
Mas o que existe hoje em dia é o caos.
A primeira instância de poder são os departamentos.
Em geral, são caixas pretas. Alguns buscam a excelência, outros são arenas de disputas entre os professores. A politização começa por ali.
Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos. Em outros campos, a marmelada começa nos próprios concursos para professores, em um sistema de compadrio que compromete a missão da Universidade.
A indicação de acadêmicos para cargos departamentais é uma excrescência que impõe duas perdas: mata-se o acadêmico e cria-se um mau gestor.
Por outro lado, as regras do MEC – especialmente para as federais – não estimula nenhuma forma de aprimoramento de gestão. Se um departamento conseguir economizar em atividades-meio, não terá como utilizar os recursos para atividades-fim. No ano seguinte, esses recursos serão retirados por serem considerados excedentes.
A segunda instância é o Conselho Universitário.
A implantação de eleição direta nas Universidades gerou, em muitas delas, o populismo acadêmico, de atendimento das demandas de professores e funcionários, deixando de lado a busca da excelência. No fundo, me parece ser um arquipélago de ilhas isoladas, cada qual buscando apenas o que interessa a si.
A terceira instância é a reitoria.
Veja bem, estamos falando em um desafio que o melhor CEO do país teria dificuldades em conduzir. Definir missão, enquadrar os departamentos em objetivos claros, criar modelos gerenciais (para as atividades-meio) que desobriguem os professores de serem atropelados pelas pequenas demandas do dia-a-dia, criar instâncias para as manifestações dos alunos e funcionários, ser o representante do contribuinte perante a comunidade universitária, cumprindo contratos de gestão, com objetivos claros.
Longe de mim criticar a reitora Suely – que foi orientadora da Ruiva e de quem ela tem a melhor das impressões. Mas não há a menor lógica de colocar uma boa pesquisadora, uma mestra exemplar, uma acadêmica premiada para um desafio de tal ordem, que nada tem a ver com sua formação.
Sem fóruns adequados, sem canais de comunicação, funcionários se organizam em torno do Sindicato, alunos em torno das Assembléias – legitimando seu ativismo com a barbeiragem dos gestores.
Vou parando por aqui para começarmos o debate.
Temas sugeridos:
1. Modelo de governança.
No modelo atual – Universidade com autonomia total (inclusive sem a obrigação de prestar contas), departamentos com autonomia total, professores que, depois de empossados, não são obrigados a manter o ritmo anterior de produção – é impossível romper esse círculo vicioso.
Minha proposta é que as Universidades passem a ser administradas por gestores acadêmicos – não um CEO de empresa, mas pessoas do meio, com conhecimento sobre a lógica da Universidade e que saibam manejar ferramentas de gestão. Não se trata de gerir a Universidade como uma empresa privada, isso é bobagem. O gestor tem que entender todas as especificidades, as necessidades operacionais, as características da produção acadêmica e prover os meios necessários. Mas tem que responder ao contribuinte com resultados.
Dizer isso é fácil. Difícil é definir um modelo de governça que permita a discussão da missão, da implementação de planos por sobre a estrutura de poder interno.
2. Modelo de departamentos.
Na era da interdepartamentalidade, é necessário pensar um novo modelo que acabe com as caixas pretas dos departamentos. De certo modo, eles estratificam o poder, como as velhas cátedras, impedem a renovação, o dinamismo, as novas ideias, os novos valores.
3. Modelo de financiamento.
A USP está presa, há anos, à questão dos aposentados, comendo cada vez mais seu orçamento, sem que o governo do Estado se proponha a agir. As Federais estão amarradas a procedimentos burocráticos que impedem a busca da eficiência na alocação de recursos.
Há que se aproveitar o momento para amarrar a questão do financiamento a novas formas de gestão acadêmica.
É muita coisa a discutir. Lanço aí as primeiras provocações.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Novo Modelo, Universidade Tags: deparamentos, Gestão, Universidade

“Aqueles alunos com vocação empreendedora, com tendência a desenvolver tecnologia, deveriam ser estimulados a montar sua empresa (as incubadoras), registrar suas patentes e ser colocado em contato com empresas.”
Ok, e as empresas vão pagar royalties a USP pelo desenvolvimetno e pesquisa?Ou vai continuar a patifaria da univesrersidade gastar tempo e dinheiro em pesquisa e desnvolvimento para entregar o “produto” pronto para as empresas apenas conabilizarem os lucros?
Apenas para responder ao comentário do Eduardo Petrucci: atualmente, professor adjunto não é mais o fim da carreira; pode-se passar a professor associado (para isso, há uma avaliação de memorial e arguição em banca). De qualquer forma, professor titular continua a ser uma realidade muito distante, realmente. Quanto aos cargos de chefia de departamento: o adicional recebido é muito pouco. Não compensa a quantidade de problemas (nem sempre passíveis de resolução no âmbito do Departamento) e o tempo perdido (que poderia ser empregado em pesquisa, publicação…). No meu departamento, os professores “correm” dos cargos de chefia! Na última eleição, só apareceu um candidato e, mesmo assim, na última hora. Por isso, repito: em muitos casos (com exceções), onde há disputa pelos cargos de chefia, ela acontece por causa da visibilidade externa, e não pelo desejo em melhorar a situação interna. Melhorar a situação interna pode ser apenas um meio para projetar o chefe para a comunidade universitária e extra-universitária (mas, como não é a única forma de projetá-lo(a)… nem sempre os objetivos do departamento/da universidade e os da carreira do gestor estão coadunados!)
Ótimo comentário, do blog do Favre:
USP
“As ideias da reitora Suely Vilela e do professor José Arthur Giannotti (”Tendências/Debates”, ontem) são quase convincentes e, por isso, extremamente perigosas.
É importante revelar que elas se autodesmerecem por dois pontos:
1) A reitora aponta a chamada da Polícia Militar ao campus como resultado do “desrespeito a uma ordem judicial”, sendo que ela própria, no atual momento, está desrespeitando duas sentenças transitadas em julgado, que condenam a Universidade de São Paulo a recompor os salários dos professores que não receberam gatilhos devidos e a pagar os respectivos atrasados. Na Unicamp, por exemplo, essa dívida já foi saldada.
2) O professor José Arthur Giannotti fala em “pautas fantasiosas”.
Eu gostaria que ele respondesse se é fantasioso solicitar que nossos salários, que hoje carregam uma perda de 42% em relação ao que eram em 1989, sejam corrigidos para patamares minimamente decentes. Os índices por ele apresentados, aliás, são falsos. Índices corretos poderiam ter sido fornecidos a ele pela Adusp e pela própria reitoria.
PS: Votei, livremente, contra a greve dos professores decidida no dia 4 passado pela maioria e não represento, portanto, a categoria tão ofendida pelas palavras do professor Giannotti.
MARLENE SUANO, professora-doutora do Departamento de História da FFLCH-USP (São Paulo, SP)
Nassif, vc esqueceu de algo importante de qq universidade pública…os egos envolvidos. Ok, em qq lugar temos brigas de egos, mas nesses casos, ois empregos estão garantidos e muitos simplesmente não seguem qq ordem, por mais q seja vindo da reitora. Se não concordam com algo, a briga pode ser feia. Quero ver um CEO lidar com iso facilmente….
Nassif,
A amplidão dos temas que você levanta (e a relevância de todos eles) recomenda, a meu ver, a criação, no Portal, de uma seção dedicada exclusivamente à Educação – uma espécie de forum permanente, onde pudéssemos todos trocar idéias de maneira civilizada e sem preconceitos de parte a parte.
Tenho minhas dúvidas se deveríamos incluir questões sobre a universidade e questões sobre o ensino básico num mesmo lugar. Isso pode gerar congestionamento. Talvez o mais recomendável fosse mesmo criar abas separadas, com dinâmicas próprias.
Atualmente, os docentes da FFLCH estão debatendo alguns desses temas numa lista de discussão. O resultado é interessante, apesar de claramente parcial. Oitenta por cento das intervenções são feitas por pessoas com posições muito semelhantes, criando às vezes uma falsa impressão de hegemonia. Tenho quase certeza de que o mesmo cenário se repetiria aqui. Mesmo assim, o tema é tão importante que justifica os riscos. É preciso conquistar os colegas para o debate. Se você achar interessante a criação desse forum permanente, conte comigo. Serei fruguês de carteirinha.
Olá a todos:
Uma correção: A carreira de docente de universidade federal tem várias etapas: A mais baixa é de auxiliar (com graduação), assistente (com mestrado), adjunto, associado e titular (com doutorado). Dentro das classes de auxilias, assistente, adjunto e associado existem os niveis I, II, III, e IV. Para ser auxiliar para assistente, basta concluir o mestrado, e de assistente para adjunto basta o doutorado. Para ser promovido de Adjunto I para II é por tempo de carreira (dois anos). Para ser promovido de Adjunto IV para Associado I deve haver comprovação de publicação, docencia, orientação, atividades admisnistrativas. De Associado I para II por tempo de carreira. Para titular, concurso publico. A cada promoção ocorre um pequeno aumento no salario. Assim é incorreto dizer que o docente entra no fim da carreira e dizer que não há um incentivo para crescer na carreira, até porque para chegar a titular o docente tem que mostrar uma carreira muito sólida. Ninguem chega a titular antes de 20 anos de muito esforço.
Uma observação: departamentos de melhor desempenho (por exemplo na avaliação da capes) geralmente são mais rigorosos nos concursos pois estão bem estabelecidos e temem comprometer sua qualidade e tem sido comum não contratarem nenhum candidato em determinado concurso, preferindo abrir novo edital 6 meses ou um ano depois. Departamentos com desempenho inferior geralmente são carentes de pessoas e preferem contratar imediatamente, mesmo se os candidatos forem inexpressivos. De qualquer modo, os melhores candidatos a docente acabam contratatos nos melhores departamentos, pois nem se candidatam a vagas em departamentos inferiores.
premio ao merito: o CNPq instituiu uma bosa de produtividade para os pesquisadores mais destacados na área de pesquisa. Essa bolsa vai do nivel 2 para o 1D, 1C, 1B e 1A. Para ganhar a bolsa o pesquisador deve apresentar um determinado nivel de produtividade e sua classificação vai depender de uma avaliação dos ultimos dez anos de pesquisa. Apenas os melhores são premiados.
As agencias de fomento somente dão recursos aos pesquisadores que mostram curriculo compativel. Pesquisadores em inicio de carreira geralmente conseguem poucos recursos e aqueles mais consolidados consegem mais recursos. Conforme os pesquisdores inciantes vão consolidando suas carreiras, vão conseguindo mais recursos e consolidando cada vez mais sua carreira.
assim, me parece que a carreira esta bem definida e premiando o merito.
Com certeza é um ganho para o país, mas muito maior para as empresas privadas.
As universidades não tem o direito de participar dos lucros obtidos através das suas pesquisas utilizados pelas indústrias?
Quando se fala em novas formas de financiamento da universidade pública, essa não seria uma forma JUSTA de se desenvolver as universidades e o país?
Se um laboratório de biotecnologia produzir uma espécie de cana-de-açúcar que creça mais rápido e produza mais açúcar não é lícito que ela tenha uma participação no que for produzido? Ou tem que se contentar com “computadores novos” em retribuição pelo trabalho desenvolvido?
Nassif,
São duas as questões que precisam ser distinguidas aqui.
Primeiro, em ambientes de dezenas de milhares de pessoas convivendo, com uma gama múltipla de interesses divergentes, é evidente que o impasse, do confronto político, do conflito existe e sempre existirá. É da natureza da universidade a polêmica e o conflito.
Então, a primeira questão consiste em como o conflito se processa. A existência da greve, das manifestações e até do piquete, que o João Vergílio condena, são fenômenos derivados da complexidade dessa sociedade que é a Universidade. Grave não é sua existência. Grave é a reitoria requerer para o enfrentamento desses conflitos não a institucionalidade existente na própria Universidade, mas o uso da PM.
A PM? Nem vem ao caso aqui levantar a discussão sobre o modelo da militarização da polícia e sua origem. Mas, acontecimentos recorrentes demonstram a completa inaptidão da PM para lidar com os conflitos sociais. A greve dos policiais civis, neste início de ano, como foram tratados pela PM? Se já no que se refere à criminalidade, a PM paulista já tem sido objeto de inúmeras suspeições quanto aos seus vínculos com as facções criminosas, no que se refere ao tratamento das manifestações políticas a PM está inapelavelmente marcada pela pecha de autoritarismo.
Então, como a reitora adota como medida recorrer à PM? Ao fazê-lo, a reitora deslegitima-se por completo, tornando absolutamente impossível prosseguir merecendo qualquer crédito do movimento que se instalou. Ao fazê-lo, ainda que ela obtenha vitória, será vitória ilegítima, que não conseguirá contar com o acolhilmento de suas posições pelo movimento. O movimento poderá submeter-se, dado o ônus da humilhação, mas, jamais, o vitorioso gozará de qualquer credibilidade. de tal sorte que todas as suas medidas, mesmo aquelas que contivessem racionalidade e justeza, jamais, jamais contarão com o respeito da comunidade universitária.
A segunda ordem de questões refere-se ao problema da missão, da governança e da gestão. É um dramático problema que envolve a universidade estadual, mas também as federais e as privadas.
Neste caso, a amplitude dos problemas é enorme, e não há hierarquia entre eles. Todos são dramáticos. Envolvem o eterno problema do orçamento. Da sua centralização e descentralização. Dos processos de contratações e compra. Das autonomias e controles na execução orçamentária. Da produtividade, e seus índices. Das bolsas. Das verbas de pesquisa. Do reconhecimento da importância do ensino. O que a Ana Dias comenta, quanto ao prejuízo à carreira do professor que esteja atuando na graduação é verdadeiro e gravíssimo! E, no caso, das universidades e faculdades privadas, há ainda o problema do lucro, que tende à exorbitância, e da desigualdade brutal na valorização docente.
“Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência”
Como assim? essa frase resume a tosquera que a tempos impregna qualquer debate sobre a Universidade Pública. De um lado os “gestores”, defendidos por vc Nassif, e de outro lado os que não entendem nada de gestão e acham que pode gerir tudo como se fosse um relógio suisso. Como se pessoas e objetivos como o da Universidade constitui um esquema linear.
Vivo a 10 anos anos no meio universitário e não vejo e caos alardeado neste post! Não está as 1000 maravilhas, mas funciona.
Nassif, vc defende a Petrobras contra o “caos” que os interesses escusos querem implantar para tirarem vantagens e vem agora com essa de que está um “caos” na univeridade pública. Isso é conversa de quem se acha mais competente para gerir e entender algo tão complexo como a Universidade, mais precisamente dos paulistanos setentistas que “se achavam”, com sua USP única e impávida. Agora que o Brasil descobriu que pode haver pesquisa e desenvolvimento fora de São Paulo ficam achando que o “modelo” está errado. Fala sério, errado estão os paulistas de achar que só eles pensam!
“COLOCANDO ÁGUA NO CHOPP”
Moro na Zona Leste de S. Paulo, uma região carente e pobre da cidade, que tem hoje, 3,9 milhões de habitantes. Só para dar o sentido da grandeza disso aqui, Porto Alegre, possui 3,7 milhões de habitantes, Recife 1,5 milhões, Belo Horizonte 2.4, Brasilia com toda sua região metropolitana, soma 2,0 – e finalmente Campinas com menos e 1 milhão.
Em 2004 – foi inaugurado o CAMPUS DA USP-LESTE, fica aqui, do lado da minha casa, em Ermelino Matarazzo, e hoje tem 4 mil alunos. Sabem quais os cursos que tem aqui? – Gestão Ambiental, Enfermagem Geriatrica, Propaganda. Ou seja, nenhum dos curso tradicionais, e sabem por que? Tem uma lei, que OBRIGA, uma universidade a não ter os mesmos cursos, quando já tem um Campus naquela cidade.
Idéia de jerico, dos Srs. acadêmicos, que vivem enclausurados dentro da universidade, e vêem o mundo, através da sua janalinha mediocre.
Como a região é constituida de gente humilde, pobre, esses cursos estão bons, prá quê pobre quer ser médico, advogado, engenheiro?
Infelizmente, a política da Casa Grande & Senzala, continua em voga, e todo mundo acha absolutamente normal.
Finalizando: O pior defeito que a universidade pública tem, é que ela, e direcionada a uma elite, que estuda e desfruta de um bem público, pago com o dinheiro do contribuinte pobre em sua maioria, e quando se forma, dá uma banana para a comunidade, sem contra-partida, vai ganhar dinheiro muito longe dalí.
É curioso como abafado atrás da grita dos grevistas há um eco de fundo que alimenta as manifestações. Esse eco, cuja existência poucos admitem no plano consciente, luta bravamente para que a maior universidade brasileira continue um instrumento exclusivo de determinadas classes e categorias sociais e não se abra para a população que não tem acesso a ela.
Os interesses são muitos, mas ficando no terreno da simplificação das posições em ‘direita’ e ‘esquerda’ é possível dizer que esses dois lados entram em acordo quanto à necessidade de limitar a ampliação do acesso à universidade. A ‘direita’, com sua arrogância simplória, não gosta da expressão ‘elitização’, mas a ‘esquerda’ gosta, e ambas lutam para que ela se mantenha.
No caminho certo, o governo paulista dá um passo importante para a democratização do ensino de qualidade das universidades públicas com o projeto de implantação da educação a distância, começando pela pedagogia. É péssimo ver que há professores e estudantes que lutam contra isso. Porque pensam que estudar na USP e desfrutar desse ensino deve continuar sendo exclusivo de alguns e não ser aberto para qualquer brasileiro.
O que vou relatar aqui diz respeito a minha opinião e vivência pessoal, logo, não necessariamente se traduz como realidade da graduação e pós-graduação no Brasil.
O que eu vi durante os anos na Universidade:
- A ênfase na quantidade (mais paper, mais alunos) muitas vezes significa perda da qualidade. Os alunos não têm tempo para amadurecer (tem que defender rápido), os professores tem muito mais alunos para “dividir” a atenção, as Teses (dissertações?) de Mestrado viraram um trabalho de iniciação científica melhorado. Quando eu pego hoje uma Tese de Mestrado antiga, batida a máquina, e comparo com uma Tese de Doutorado atual percebo que a discussão da primeira está até mais embasada, havia um maior esmero, os fundamentos eram bem discutidos, mesmo com um menor número de resultados pois não havia computador e nem a quantidade de equipamentos para análises sofisticadas como hoje em dia. Já vi muita gente defender “com o que tem”, pois o prazo é mais importante, se der para “fechar” o trabalho fica tudo bem.
- O CNPq tenta melhorar a questão da qualidade através do índice de impacto das revistas mas não se resolve o problema dos caciques da pesquisa, aqueles cujo nome aparece em diversas publicações sem que, necessariamente, sequer saibam do assunto tratado.
- A pesquisa básica ou que não tiver um resultado com aplicabilidade comercial imediata está prejudicada. Parece que ninguém percebe que as pesquisas básica e aplicada são complementares (uma não é melhor do que a outra). A pesquisa aplicada envolve mais a otimização e a básica mais a criação.
- O sistema induz a uma excessiva especialização – saber mais sobre cada vez menos. E a trasndisciplinaridade tão necessária ao desenvolvimento sustentável? Onde está o conhecimento BÁSICO sólido para que qualquer um possa se familiarizar com outras áreas sem grandes dificuldades? A especialização se tornou um antolho, estamos virando “engrenagens adaptadas a um sistema” e não refletimos mais profundamente sobre o próprio sistema – pelo menos, a nossa formação acadêmica não está direcionada para isso.
- Corremos o sério risco de nos tornarmos ignorantes pelo excesso de informação. Qualquer pesquisador não vai publicar um artigo se puder espichar o assunto e publicar três. Para que ele vai ser conciso? Afinal, ele precisa de um currículo extenso. Quem estiver interessado (e estiver com tempo!) que trate de ler tudo e garimpar o que interessa.
Acompanhei de perto a USP como graduando, e também vi de perto a Unicamp, onde a minha namorada estudou medicina. É claro que uma análise bem fundamentada precisaria de dados concretos, estatística, etc., mas a minha percepção como testemunha distraída é que na Unicamp não há vergonha de se integrar na cadeia produtiva local como instituição-universidade.
Enquanto na USP a frase mais ouvida é “meu professor tem uma empresa/instituto que faz…”, na Unicamp ouve-se mais “meu professor criou um método que é usado pelas empresas do setor de….”
Ou seja, na USP temos uma espécie de cartão de visitas para apresentar a empresa/instituto próprios. Na Unicamp é a universidade é a “empresa”.
Além disso, na Unicamp eles pesquisam o que está ao redor: carrapato-estrela, óleo de mamona, astrofísica, quartel do exército rosa, e por aí vai. Em São Paulo a pesquisa parece estar mais distante da realidade local. Em geral são os estudantes que se metem a pesquisar favela por conta própria, por exemplo (na experiência do Direito), ou montam grupos de estudos à parte para um monte de objetos diferentes, mas nada institucional. É quase uma aventura. Talvez se explique pelo tamanho das cidades.
para lima e rogerio nacai:
mas ai é que está o problema. parece que os doutores da universidade somente orientam se o projeto de pesquisa do aluno estiver de acordo com as linhas de pesquisa do proprio orientador. pode até ser que o tema seja relevante, mas nada que desperte o interesse do professor orientador, quer dizer, vontade de ajudar o aluno do mestrado a buscar um campo de pesquisa que seja de seu interesse.eu conheci uma professora de antropologia na graduaçao e ela era a única que não recusava meus trabalhos de pesquisa. eu tinha muito interesse na área de história e ela me ensinou que mesmo na antropologia não me impede de trabalhar outras coisas. e eu me apaixonei pela coisa. porém, a minha professora faleceu antes que eu atingisse o mestrado, ela tinha cancer, e eu fiquei só. foi a única doutora que conheci na minha vida que não tinha medo de orientar alunos, mesmo que o interesse não fosse exatamente na área que a minha professora se especializou. tenho saudades dela.
Paulo Renato, ensino básico, com o desmatelamento das escolas técnicas; Nassif, você deve estar brincando.
Cara Ana Dias. Obrigado pela correção. O professor associado é uma criação mais nova, não me lembrei dela.
Sei que as reuniões de departamento, para escolher chefia, são na base de que é votado o cara que vai ao banheiro. Quando volta, a eleição já ocorreu e ele foi o escolhido.
A gratificação, FG, não compensa. Exatamente. Não compensa para quem estudou tanto, chegou a doutorados e além. Ainda assim, o departamento é administrativo, o colegiado é a dimensão acadêmica. Mas a chefia de departamento fica na mão de um docente, em parte das instituições federais. Se é tão ruim, por que não largam?
E essa FG de chefia de departamento, já ouvi da boca de um doutor que ele não poderia abrir mão desse ganho sem alterar seu nível de vida.
“)… nem sempre os objetivos do departamento/da universidade e os da carreira do gestor estão coadunados!)”
Isso é verdade. E também é verdade que gestão está ainda mais fora da carreira de um doutor (que não seja da área de administração)
Em tempo. Não é a instituição que tem que estar coadunada com a carreira do docente. O contrário é que deveria ocorrer.
Medir desempenho de professor pelo número de publicações tem provocado distorções horrorosas. Como ninguém produz nada de novo a cada 4, 5 meses, lemos continuamente o mesmo artigo reescrito com outras palavras. E isso quando lemos os artigos, porque muitas vezes não se publica para ser lido, mas apenas para cumprir os índices exigidos.
E, Ana Dias, concordo com vc quando diz que a docência na graduação não é valorizada. Acho que devia ser o que mais pesa no Lattes, mas houve uma inversão de valores. “Velhos” docentes, habeis no saber fazer de professor, tornavam-se, um dia, doutores. Hoje, sem ser doutor nem se consegue fazer concurso. E, com a ditadura dos papers, perde-se o fazer de professor.
Tanto a ser mudado. Que comece logo!
Caro Hugo,
“Se um laboratório de biotecnologia produzir uma espécie de cana-de-açúcar que creça mais rápido e produza mais açúcar não é lícito que ela tenha uma participação no que for produzido? Ou tem que se contentar com “computadores novos” em retribuição pelo trabalho desenvolvido?”
Se toda essa pesquisa foi desenvolvida com dinheiro do povo, meu e seu, dentro de uma intituição federal de ensino sim, ele vai ter que se contentar com um “computador novo”.
Se for com o dinheiro dele, se ele colocar, como o Bill Gates, o fiofó na reta… aí sim, que ele fique tão rico quanto o Bill.
O que não dá para agüentar mais é a pesquisa pública com o ganho privado!