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12/06/2009 - 09:39

Um discussão sobre a Universidade pública

Vamos pegar a deixa do João Vergílio e começar a discutir seriamente a USP. Colocarei algumas premissas, para tentar organizar um pouco a pauta.

Elemento 1 – a missão da Universidade.

Nos anos 90 houve grande discussão. De um lado, os que achavam que a Universidade deveria atender o mercado; do outro, os que consideravam que o único compromisso era com a ciência. E, para cumprir essa missão, o pesquisador deveria ficar solto, sem se amarrar a metas e avaliações.

Em um estudo clássico, o então reitor da UNICAMP, Britto Cruz, colocou a discussão nos devidos termos. O papel da Universidade é formar alunos e fazer ciência, prospectar as fronteiras do conhecimento. Aqueles alunos com vocação empreendedora, com tendência a desenvolver tecnologia, deveriam ser estimulados a montar sua empresa (as incubadoras), registrar suas patentes e ser colocado em contato com empresas. Escritórios de patentes foram criados na UNICAMP e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Uma das maiores asneiras propagadas nos anos 90 – especialmente pelo ex-Ministro Paulo Renato – é que os governos deveriam se preocupar apenas com o ensino básico, deixando Universidades para segundo plano. Cometeu um crime contra a educação, a ciência e a tecnologia nacionais.

Elemento 2 – os agentes da Universidade.

Definidos os fins (formar alunos e fazer ciência), há que se trabalhar os meios. Todas as análises de meio deverão ter como foco central os fins.

Os professores – Quem produz conhecimento e forma alunos são os professores. Eles devem trabalhar em um local que, numa ponta, forneça as melhores condições de trabalho. Na outra, modelos de avaliação que meçam sua produtividade e grau de excelência. Publicação de papers é um modo, mas não apenas isso. Geração de patentes é outro, mas não pode ser o foco. Análise do que aconteceu com seus ex-alunos, um terceiro indicador, mas não exclusivo. A reputação acadêmica do departamento, outro. A avaliação dos alunos e funcionários, outro.

Os alunos – são os receptadores do conhecimento transmitido pelos professores. Por isso mesmo, devem ser um agente ativo de avaliação dos mestres e das condições oferecidas pela Universidade. Tempos atrás, fui convidado para ser ombudsman de um jornal da ECA/USP, muito bem feito, por sinal. Havia reportagens acachapantes sobre as más condições de funcionamento da USP, falta de manutenção, restaurantes caindo aos pedaços etc. Obviamente, há limites para a atuação dos alunos. O caminho é a definição de fóruns adequados de manifestação mas, principalmente, de clareza sobre a busca permanente da excelência universitária.

Os funcionários – o papel dos funcionários é fornecer a retaguarda administrativa e de serviços para os professores. Sua estrutura, tamanho, custo deve seguir estritamente o que for necessário para o bom funcionamento da Universidade. Mas, em fóruns adequados, deve opinar sobre temas a que estão ligados, como as condições de trabalho, as sugestões para melhorias, os compromissos de melhorias contínuas.

A direção – há três instâncias de poder na Universidade: os departamentos, o Conselho Universitário e a Reitoria.

Vamos, primeiro, discutir o modelo de gestão na Universidade, antes de retomar essa questão da governança.

Elemento 3 – a governança na Universidade.

Gerir uma Universidade é tarefa muitíssimo mais complexa do que administrar uma grande corporação. Na empresa, há objetivos definidos (produzir, gerar lucros), cadeia de comando verticalizada (a ordem vem de cima e se impõe sobre os departamentos), e formas conhecidas de articulação dos departamentos. A lógica da Universidade é outra e exige um modelo de governança diferente.

Mas o que existe hoje em dia é o caos.

A primeira instância de poder são os departamentos.

Em geral, são caixas pretas. Alguns buscam a excelência, outros são arenas de disputas entre os professores. A politização começa por ali.
Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos. Em outros campos, a marmelada começa nos próprios concursos para professores, em um sistema de compadrio que compromete a missão da Universidade.

A indicação de acadêmicos para cargos departamentais é uma excrescência que impõe duas perdas: mata-se o acadêmico e cria-se um mau gestor.

Por outro lado, as regras do MEC – especialmente para as federais – não estimula nenhuma forma de aprimoramento de gestão. Se um departamento conseguir economizar em atividades-meio, não terá como utilizar os recursos para atividades-fim. No ano seguinte, esses recursos serão retirados por serem considerados excedentes.

A segunda instância é o Conselho Universitário.

A implantação de eleição direta nas Universidades gerou, em muitas delas, o populismo acadêmico, de atendimento das demandas de professores e funcionários, deixando de lado a busca da excelência. No fundo, me parece ser um arquipélago de ilhas isoladas, cada qual buscando apenas o que interessa a si.

A terceira instância é a reitoria.

Veja bem, estamos falando em um desafio que o melhor CEO do país teria dificuldades em conduzir. Definir missão, enquadrar os departamentos em objetivos claros, criar modelos gerenciais (para as atividades-meio) que desobriguem os professores de serem atropelados pelas pequenas demandas do dia-a-dia, criar instâncias para as manifestações dos alunos e funcionários, ser o representante do contribuinte perante a comunidade universitária, cumprindo contratos de gestão, com objetivos claros.
Longe de mim criticar a reitora Suely – que foi orientadora da Ruiva e de quem ela tem a melhor das impressões. Mas não há a menor lógica de colocar uma boa pesquisadora, uma mestra exemplar, uma acadêmica premiada para um desafio de tal ordem, que nada tem a ver com sua formação.

Sem fóruns adequados, sem canais de comunicação, funcionários se organizam em torno do Sindicato, alunos em torno das Assembléias – legitimando seu ativismo com a barbeiragem dos gestores.

Vou parando por aqui para começarmos o debate.

Temas sugeridos:

1. Modelo de governança.

No modelo atual – Universidade com autonomia total (inclusive sem a obrigação de prestar contas), departamentos com autonomia total, professores que, depois de empossados, não são obrigados a manter o ritmo anterior de produção – é impossível romper esse círculo vicioso.

Minha proposta é que as Universidades passem a ser administradas por gestores acadêmicos – não um CEO de empresa, mas pessoas do meio, com conhecimento sobre a lógica da Universidade e que saibam manejar ferramentas de gestão. Não se trata de gerir a Universidade como uma empresa privada, isso é bobagem. O gestor tem que entender todas as especificidades, as necessidades operacionais, as características da produção acadêmica e prover os meios necessários. Mas tem que responder ao contribuinte com resultados.

Dizer isso é fácil. Difícil é definir um modelo de governça que permita a discussão da missão, da implementação de planos por sobre a estrutura de poder interno.

2. Modelo de departamentos.

Na era da interdepartamentalidade, é necessário pensar um novo modelo que acabe com as caixas pretas dos departamentos. De certo modo, eles estratificam o poder, como as velhas cátedras, impedem a renovação, o dinamismo, as novas ideias, os novos valores.

3. Modelo de financiamento.

A USP está presa, há anos, à questão dos aposentados, comendo cada vez mais seu orçamento, sem que o governo do Estado se proponha a agir. As Federais estão amarradas a procedimentos burocráticos que impedem a busca da eficiência na alocação de recursos.

Há que se aproveitar o momento para amarrar a questão do financiamento a novas formas de gestão acadêmica.

É muita coisa a discutir. Lanço aí as primeiras provocações.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Novo Modelo, Universidade Tags: , ,

65 comentários para “Um discussão sobre a Universidade pública”

  1. João Maria Fernandes disse:

    Nassif:

    a palavra “pelego” está no index?

    Bom dia.

  2. Lima disse:

    O apadriamento nao existe so na escolha de professores. Infelizmente, tambem na escolha de alunos para os cursos de po´sgraduaçao stritus. Se a linha de pesquisa do aluno nao contemplar a politica dos orientadores ele jamais entrara na universidade. Mesmo quando a pesquisa e de extrema relevancia para o desenvolvimento da sociedade. Me candidatei a uma vaga no mestrado da UFAL, passei nas 4 fases (avaliaçao do projeto, prova escrita, entrevista e proficiencia em ligua estrangeira) mas não consegui a vaga. Colegas que ja haviam passado pela mesma situação me disseram que o problema foi o meu projeto contemplar as dificuldades que os gestores das escolas publicas enfrentam na condução do eixo-pedagogico. logo, tal pesquisa nao contemplava a linha de pesquisa dos orientadores que estao voltados para pesquisas relacionadas com a propria unversidade. Pergunto: A UNIVERSIDADE TEM A RESPONSABILIDADE DE BUSCAR CONHECIMENTO QUE MELHORE A QUALIDADE DA EDUCAÇAO BASICA, OU SÓ DA EDUCAÇAO SUPERIOR?

  3. miope disse:

    Modelo departamental

    O modelo departamental segue a logica disciplinar. E.g. temos a disciplina de fisica, e um departamento de fisica.

    Ocorre que a ciencia moderna evolui em torno de problemas. E.g. combustiveis renovaveis precisam de solucoes da quimica e da biologia. Surge entao interdisciplinas: e.g. bioquimica.

    Louve-se dois novos campi e uma nova universidades montadas em torno do conceito interdisciplinar: USP Leste, Universidade Federal do ABC e Unicamp Limeira.

    Abracos,

    miope

    PS: feliz pelo 5o lugar no campeonato mundial da seguranca aerea (Santos Dumont deve estar rindo de orelha a orelha…)

  4. Maína disse:

    Sugiro a leitura do artigo do professor Vladimir Saflate publicado hoje na Folha de São Paulo sobre o desastre causado não pelos estudantes como o J. Virgilio quer acreditar e que já foi bem debatido lá no Biscoito Fino e a Massa do Idelber Avelar.

    Link para quem não assina o UOL: http://docs.google.com/View?id=dhhkd6qk_16fvt2fxhm

    Segue o link para quem tem FSP: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1206200908.htm

  5. Marko disse:

    Nassif, excelente levantamento de algumas questôes fundamentais. Sou professor, formado em escola pública e trabalhando numa estadual de Sp e numa particular. Da forma que está, tanto o modelo das públicas quanto o das privadas está falido. As públicas não dão conta da sua missão, não inovam na velocidade que o país demanda, não são de fato “públicas” (pois são cooptadas o tempo todo para demandas privadas, como é de notório conhecimento) e não conseguem se financiar adequadamente. As privadas, mesmo as melhores, decidiram nivelar por baixo, vivendo só de mensalidade, e muitas abriram mão de qualquer qualidade em favor do lucro imediato. Acho que as universidades públicas precisam de uma devassa como a que estamos fazendo com o congresso nacional, e muitos dos vícios seriam os mesmos. Não se pode continuar a financiar pesquisa com dinheiro público sem chegar a algum acordo quanto a avaliação dos resultados (por parte de alunos, e por parte de indicadores de resultados das pesquisas). Mas a questão do financiamento é um nó que precisa ser desatado. Venho conversando informalmente com colegas sobre o modelo de “endowments” usado nas universidades americanas, que eu conheci de perto e ajudam a tornar essas instituições as líderes no mundo, tanto em excelência acadêmica quanto em geração de inovação tecnológica e lucros (patente, etc). Uma coisa que seria interessante você analisar é a diferença entre as nossas fundações (que não conheço bem, mas muitos criticam) e os endowments, que são fundos 100% atrelados a atividades específicas (financiam cadeiras, laboratórios, etc). A questão da gestão, como você colocou, é central também, mas é uma questão cultural, de apropriação privada do público, que perpassa toda a nossa estrutura de estado, então acho muito difícil mudar de uma vez. Mas com certeza, se isso não muda, o resto também não.

  6. E os departamentos, embora unidades de apoio administrativos, são capitaneados por docentes. No mais das vezes, sem treinamento. Por que?
    Com as novas exigências de doutorados nos concursos, os professores já entram, nas federais, em “fim de carreira”, visto que professor adjunto é o cargo máximo da carreira. Professor titular o é por um concurso a parte. Assom, entrando no fim de carreira, com o intuito de ganhar algum a mais, docentes tornam-se ocupantes de cargos eminentemente administrativos. Sem os conhecimentos e habilidades necessários, no mais das vezes. E lembremo-nos que mestrados e doutorados são voltados para a pesquisa. E administrar pesquisa é muito deferente de administrar universidades. Enquanto a primeira tem início, meio e fim, a segunda deve sobreviver a todos os que dela fazem parte.
    Vai ser uma discussão longa!

  7. Nassif,
    tua proposta de discussão é boa e bastante bem elaborada para as rodadas iniciais. Espero que o debate e os comentáqrios não fiquem no flaXflu nem se restrinjam a elencar a série de problemas e equívocos de gestão das universidades (não só brasileitras, diga-se de passagem) e para ta para o propositivo. Particularmente, penso que as IFES teriam muito a ganhar se olhássemos para o que vem fazendo em termos de gestão universitária o grupo de IES reunidos no COMUNG (Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas), especialmente a Universidade de Santa Cruz do Sul. Sobre o tema postei na comunidade há alguns meses minha dissertação demestrado que trata justamente da governança na Unisc.
    Abraço
    Caco Baptista

  8. mauricio disse:

    E as ciências humanas? Nesse pique de querer ciencia e prospecção e resultados, vai acabar acontecendo que ninguém quer financiar pesquisas sobre filosofia, historia, literatura etc. É preciso relevar isso e não adotarmos um modelo “capitalista” ou “mercadista” de universidade.

  9. Hans Bintje disse:

    O Luis Nassif fez uma ótima descrição do “Modelo Alice”. Do livro de “Alice no País das Maravilhas”: “Alice encontra um gato e pergunta: Como posso sair daqui? O gato responde: Isso depende muito de para onde você quer ir. Alice explica: Não quero ir para lugar nenhum. Apenas, sair daqui. O gato retruca: Se você não vai para lugar nenhum, qualquer direção serve.”

    Cito um exemplo de como assuntos universitários são tratados na Europa. Trecho de artigo da revista “Brasileiros” ( http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/10/textos/31/ ):

    “Em 1969, um grupo de estudos do qual Luciano fazia parte passou por um concurso público para a construção de um novo hospital psiquiátrico, na cidade de Bérgamo. Começava a se questionar na Itália o papel dos hospitais psiquiátricos e Luciano entrou de cabeça nessa questão. ‘Chegamos a abrir as portas de hospitais psiquiátricos e a fazer passeatas pela cidade, junto com os loucos, reivindicando tratamentos mais humanos.’

    Foi o estopim que desencadeou a consciência nos estudantes de arquitetura de que nunca teriam resolvido o real problema dos doentes mentais propondo um belíssimo e novo hospital. Era necessário levá-lo como um problema político. ‘Nesse período, do ponto de vista da nossa formação humana, houve uma revolução. Abrimos as nossas cabeças ali no provincianismo de Torino.’ Passeatas, salas de aula fechadas e cabeças abertas. Mudanças eram necessárias para seguir. (…)

    ‘Vivi aos 24 anos a magia de descobrir um mundo diferente e possível. Aprendi que só se podia resolver as coisas a partir de um pressuposto político.’ No entanto, passado o fervor desse rompante, a vida começou a tomar os seus velhos trilhos, embora algumas partes tenham descarrilado das antiquadas linhas.

    A efervescência estudantil se abrandou, alguns professores tidos antes como ‘imortais’ deixaram suas cátedras, a grade curricular se adaptou em partes às reivindicações estudantis, a política psiquiátrica foi repensada e reformulada.”

    Eu pergunto ao Luis Nassif:

    1) Você acredita que se a maneira de tratar os “loucos” não tivesse sido contestada pelos estudantes unversitários, haveria alguma mudança na política psiquiátrica, melhores hospitais teriam sido construídos e organizados?

    2) O gato questionaria: “Para onde você quer ir” com a Universidade?

  10. ? disse:

    Alguns pontos básicos:

    1 – Há uma HISTÓRIA da USP que não envolve esse tipo de idéia sobre a “missão” da universidade (a questão é importante, mas seria preciso recolocar o problema de forma adequada…). Pode-se começar lendo os textos de Franklin Leopoldo e Silva e de Irene de Arruda Ribeiro Cardoso sobre o assunto.

    2 – “Os alunos – são os receptadores do conhecimento transmitido pelos professores.” é uma péssima idéia sobre educação e pesquisa… os estudantes PRODUZEM pesquisas também, e aí a discussão de patentes fica bastante complicada… e nem é seu maior problema. Temos bons estudos sobre o tema na própria USP, e sugiro o trabalho de Maria Carlotto (sociologia) sobre o tema (que inclui análises sobre a lei de inovação tecnológica). O “controle” via NÚMERO de publicações (como “medir” a qualidade?) é muito questionado na academia (com argumentos racionais…) e não atende às especificidades de diferentes áreas.
    Falta perspectiva política nessa discussão toda.

    3 – o organograma da USP não é tão simples (ou, é mais complexo ainda…). Há as congregações, por exemplo, ou seja, diretorias de faculdades – são institutos independentes entre si, de certa forma. Enfim, seria preciso colocar novamente o problema, com informações corretas.

    Para efetivamente propor uma discussão a respeito da Universidade pública (ou da USP, especificamente?), de modo que saiam de cena acusações banais e genéricas como em relação às eleições diretas, é preciso escrever outro ou outros posts…

    “Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência” – é uma acusação seríssima, que supõe um idéia muito particular de excelência… e uma capacidade de julgamento incrível…

    Decepção.

  11. E mais, as universidades novas, federais, que vem sendo criadas, mantém os mesmos moldes, basicamente, e vícios. Perde-se uma oportunidade ímpar de desenvolver uma nova forma de governança.
    O “problema” é que gestão implica em mensuração e controle. Os docentes sentem-se “ameaçados” com cobranças. Cobranças descabidas, segundo eles, como a presença física nos horários de trabalho, aulas bem fundamentadas e com conteúdo ao invés de pesquisas de valor discutível… e por aí vai.

  12. Paulo disse:

    No elemento 1
    A respeito da asneira de Paulo Renato, além de propagar a centralização das preocupações no ensino básico, ele ainda distorceu o FUNDEB (proposta dos educadores após mais de 8 anos de discussão, que tramitava na câmara desde o Gov Itamar, e previa atuar: na quantidade, aumentando o acesso às escolas públicas, e na qualidade da “Educação Básica”. Para isso haveria uma previsão de 3,5 Bilhões de Reais por ano a ser bancado pelas três esferas).

    O grupo do Sr paulo renato mandou retirar do congresso projeto do FUNDEB e enfiou “guela abaixo” da sociedade o tal do FUNDEF (que atou principalmente no quesito quantidade, para atender as exigências dos organismos da ONU e assim manter as “aparências”- puro marketing – e que passou a prever 500 milhões por ano para o fundo. Os outros 3 bilhões “devem ter ido” para o mercado finaneceiro ou para financiar o PDV em que os principais cientistas das universidades públicas pularam fora e foram para as faculdades pariculares dos amiguinos de FHC). Se não fossem as atuações dos municípios, que tiveram que a função de gerir o ensino fundamental e com poucos recursos, nem mesmo o ensino fundametal teria sido contemplado nessa época.

    No elemento 2

    Cabe acrescentar a necessidade de uma remuneração digna aos educadores, que lhes dê tranquilidade para sair de casa e ficar em tempo integral na universidade não só atuando em pesquisa, mas também, gerando novas idéias e conceitos além de estarem à disposição dos alunos para orientação.

    A respeito da avaliação, concordo plenamente. Só tem que se tomar o cuidado de não fazer com está hoje com os alunos do ensino médio, estudando apenas para vestibular (Acredito que seja por isso que o MEC esteja tentando mudar o modo de acesso à Universidade).
    Dependendo do foco tomado para as avaliações, poderá forçar o educador a centralizar suas ações e conhecimentos apenas para passar na avaliação em detrimento de suas pesquisas e criação de suas idéias.

    No que tange os alunos, com certeza a Universidade tem sim de manter um ambiente propício para que os alunos exerçam a sua “vida acadêmica” com o máximo de qualidade. Tive sorte de estudar em uma Escola Técnica Federal-ETF (isso antes de FHC tentar desmantelá-las) em que eu passava o dia todo estudando. Havia refeição aos alunos de manhã, tarde e noite. Tinha uma biblioteca de ótima qualidade tanto para estudo de grupo quanto individual (alunos de faculdades particulares deixavam de estudar nas bibliotecas de lá para ir estudar na da ETF). Para os alunos mais pobres, havia a possibilidade de serem monitore (recebiam 70% do salário mínimo, mais vale transporte). Praticamente todas as semanas tinham palestras, teatro, mesas redondas em que se discutiam de tudo. Pude assim aprender não só o conteúdo específico de minha área profissional (telecomunicações), mas também cresci como pessoa. Hoje ela é uma CEFET e ministra cursos de nível superior (tecnólogo).
    Acredito queas faculdades devam tratar seus alunos como a ETF (em que eu estudei) tratava, lógico que o ambiente é outro, mais profundo no que tange conhecimento, e portanto deverá ter suas peculiaridades.

  13. rita disse:

    para lima:
    aconteceu isso comigo tambem. fui candidata ao mestrado e venci todas as etapas de provas. mas nao conquistei a vaga. estava num terreno no qual não conhecia ninguém, mas arrisquei ainda assim. cometi um erro enorme.

  14. André disse:

    Caro Nassif,

    Creio que o ponto de partida para discussão deve ser exatamente a administração da universidade ou, se prefere, o modelo de governança.

    “Universidade com autonomia total (inclusive sem a obrigação de prestar contas), departamentos com autonomia total, professores que, depois de empossados, não são obrigados a manter o ritmo anterior de produção – é impossível romper esse círculo vicioso.”

    Quem tem total autonomia é a Reitoria, apoiada pelo Co (abreviatura de Conselho Universitário).

    Realmente, falta “prestação de contas” tanto das ações quanto dos gastos.

    No passado, os aumentos eram limitados pela disponibilidade orçamentária, estabelecendo-se como teto o limite de 85% do orçamento.

    Hoje não se tem mais informações sobre compromentimento do orçamento com a folha de pagamentos e o reajuste de 6,05% foi concedido sem apresentação e discussão dos dados financeiros, como era no passado.

    (vide comunidado dos reitores em http://www.reitoria.usp.br/reitoria/index.php?q=node/2&nome=noticia&codntc=24167)

    Retomando o ponto central, novos rumos para a Universidade, evidentemente a maior barreira à mudança está no caráter burocrático e autoritário da administração universitária, que precisa ser modificado.

    Rompendo esta barreira, abrem-se espaço para o debate democrático do modelo de universidade que queremos.

    Abraços

  15. rogerio nacai disse:

    Lima,
    a admissão em programa de mestrado NÃO poderia estar atrelada às linhas de pesquisa dos possíveis futuros orientadores, mas, sim, ser função das qualificações e do mérito dos candidatos.

  16. nassif:
    há um trabalho denso,produzido pela unesco,sobre universidade.não pode ser desconsiderado.vou tentar localizá-lo (aqui em casa isso é uma aventura)
    e te comunico.
    romério

  17. Rui Daher disse:

    Nassif, reproduzo artigo meu, escrito há 5 anos, que mostra como pouca coisa mudou:

    MOMENTO DA INTERAÇÃO

    Não é de hoje que se ouve falar na dificuldade de interação entre a pesquisa desenvolvida nas
    universidades e o setor produtivo nacional. Depois de tanto tempo, seria de se supor que o problema estivesse resolvido ou, pelo menos, amenizado. Pois não é bem assim. Mesmo ampliadas as ações no sentido dessa aproximação, sobretudo por parte da universidade com a criação de agências, órgãos, núcleos e redes de pesquisa, o resultado obtido ainda é bastante incipiente.

    Em dezembro de 2003, organismos ligados ao assunto promoveram o seminário “Caminhos da Inovação Tecnológica na USP”. Nele, especialistas brasileiros e do exterior, na presença de pesquisadores da USP e de outras universidades e instituições de pesquisas, bem como de representantes da iniciativa privada, discutiram evoluções no sentido de superar o problema.
    Vários foram os assuntos expostos: casos reais de transferência de tecnologia; a estrutura das agências de inovação – particularmente a da USP; aspectos da política e gestão tecnológicas; o estágio da P&D na indústria brasileira; os aspectos legais da obtenção de patentes. Enfim, mostrava-se que há pessoas preocupadas com o assunto e quais organismos foram criados para catalisar essa aproximação.

    Apesar disso, a tônica, ao final de cada uma das exposições, recaía no fato de que os resultados práticos dessas ações eram muito pequenos, e que a universidade e o setor produtivo, em suas tarefas de gerar conhecimento para o desenvolvimento econômico, ainda mantinham uma distância abissal.

    Nos países mais desenvolvidos, o setor produtivo e a universidade interagem em expectativas que partem das duas pontas. Num sentido, a percepção das empresas de suas necessidades de novas tecnologias faz com que elas se juntem ao governo para investir em geração de conhecimento pelos pesquisadores. No sentido inverso, a pesquisa espontânea gerada nas universidades é percebida e apropriada pelo setor produtivo e transformada em novos produtos, processos e serviços. Não foi isso o que aconteceu no Brasil.

    Do lado do setor produtivo, a convivência com modelos econômicos fechados, reservando mercado e protegendo a indústria com benefícios, incentivos fiscais e barreiras alfandegárias, em nada estimulou a procura por novas tecnologias. E se, por acaso, alguma empresa delas precisasse, optava por comprá-las fora. Se naquela época já eram poucos os departamentos de P&D nas empresas, quase sempre desfocados pelo ambiente econômico, com os anos de estagnação que se seguiram, eles acabaram empobrecendo ou, simplesmente, desapareceram.
    Do lado da universidade, se o resultado do crescimento econômico da década de 70 ainda pôde garantir que as verbas concedidas pelo governo fossem suficientes para o desenvolvimento de novas pesquisas, essas eram apenas destinadas à publicação e à obtenção de graduações internas à universidade, pois, mal informadas pelo setor produtivo, desconheciam e, por isso desconsideravam, as necessidades da sociedade e do mercado.

    Na verdade, aquele foi um período em que a universidade priorizou o seu papel de aparelho de resistência à ditadura, o que a fazia, em determinados momentos, inclusive, a se opor à indústria.
    Pois é justamente esse o quadro que mudou de forma radical. Ao mesmo tempo em que, com o final da ditadura militar, a universidade exorcizou esses demônios e voltou a priorizar o seu papel histórico de gerar conhecimento para melhorar a sociedade, as transformações nas economias nacional e mundial fizeram com que ela tivesse que olhar para fora na procura de novos investidores, até porque duas décadas de estagnação já não permitiam mais uma irrigação de verbas que atendesse às suas necessidades.

    As empresas, por sua vez, não mais protegidas, combalidas por seguidos anos de crise econômica e que, antes, a arriscar, preferiam acomodar-se apenas ao já existente, agora, diante de um sistema econômico competitivo e internacional, não mais poderiam concorrer se não coadjuvadas pela geração de novas tecnologias.

    Hoje, já não é mais apenas recomendável que universidade e empresa se integrem, mas sim questão de sobrevivência para ambas, o que supõe, mesmo que as condições de crescimento da economia não estejam completamente asseguradas, urgência numa interação capaz de converter conhecimento científico em retorno financeiro.

  18. wilson cunha junior disse:

    Longe de mim nâo achar que discutir a Universidade Pública seja importante. Mas como simpatizante do blog lamento apenas que ela ocupe o lugar de uma discussão a meu ver mais crucial que é a forma do governo paulista lidar com problemas socias. Ainda mais quando o governador em questão é o favorito pra ser o nosso presidente daqui a um ano e meio.

    O que aconteceu na USP foi tão grave que só se assemelha ao que acontecia nos anos de chumbo.

    Nessa pauta quem está justamente indignado com a repressão do governo paulista acaba sendo rotulado como “netos e viúvas de 68″. Mas tudo bem. É do jogo.

    Mas para os que sentem que 68 nunca vai acabar aqui vai uma missiva:

    http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/06/aos-que-vieram-depois-de-nos.html

    “Os que sobrevivemos, ainda amargamos a incompreensão dos que se puseram a falar sobre nossas fraquezas, sem pensarem nos tempos sem sol de que tiveram a sorte de escapar.”

  19. Ana Dias disse:

    Nassif,
    gostaria de dar o meu “pitaco” como professora de universidade federal e ex-aluna da USP. A questão é muito complexa. Sobre a função da universidade pública, você já colocou muito bem a questão. Não se trata de só formar pessoas para o mercado, mas de pensar a “ponta”, ou seja, formar ideias, criar tecnologias e produtos e formar pessoas (pesquisadores, professores, empreendedores) que pensem a sociedade “para frente”, e não para como está hoje. Agora, a vida real. Com relação aos professores e aos alunos, a única forma de avaliação que temos é a publicação de papers. Na universidade em que trabalho, no momento da matrícula, todos os alunos devem avaliar os professores do período anterior, por meio de questionário online. O que é feito dessa avaliação? Nada, absolutamente nada. Simplesmente não somos avaliados quanto ao ensino. Claro que também não seria correto utilizar somente a avaliação dos alunos para avaliar um bom professor (há N vieses possíveis na avaliação feita pelos alunos), porém seria um primeiro indicador, que afinal já está disponível. No meu departamento, ministrar aulas para a graduação é claramente visto como um castigo. Claro: aulas para a graduação dificilmente geram papers, ao contrário da pós-graduação. Portanto, ainda que o professor goste de ministrar aulas na graduação, o fato é que, quanto mais se dedicar a isso, pior para sua carreira. Como você escreveu, e eu concordo, a avaliação por produtividade em papers deve existir, mas não deve ser a única forma de avaliação, como é hoje. Isso dá um gancho para explicar ao comentarista Lima que, se você quer entrar num programa de pós, e posso garantir que isso acontece em qualquer programa de pós do país, precisa, sim, ter um projeto que case direitinho com as linhas de pesquisa do programa. Para entender, é só saber como a CAPES avalia os cursos: número de papers/professor, número de papers produzidos por alunos e egressos e tempo total do aluno no programa são os indicadores principais. Portanto, é lógico que um aluno que esteja totalmente fora das linhas de pesquisa, provavelmente, levará mais tempo até a defesa e publicará menos do que alguém que entre já adequado às pesquisas que estejam sendo realizadas (se o postulante já estiver participando de alguma dessas pesquisas, melhor ainda!). Vale lembrar que os papers considerados pela CAPES são só aqueles publicados em revistas chanceladas pelo comitê de cada área na CAPES, que muitas vezes vai totalmente contra as tendências de um mundo transdisciplinar, mas isso é outra discussão. Quanto aos professores como administradores, de qualquer forma será um problema, acho. O ideal seria mesmo um acadêmico com formação de gestor, porque, como você bem coloca, uma universidade não é uma empresa; geri-la é muito diferente de gerir uma empresa, portanto. O gestor precisa entender muito bem as idiossincrasias da universidade, seus pontos fortes e problemas, tarefa difícil por si só. Mas é fato que as reitorias e outros cargos de direção, com raras e honrosas exceções, são vistos como passo para uma carreira para fora da universidade (ou seja, quem está na reitoria quer visibilidade externa e não necessariamente melhorar a situação interna). E, por mais que a Ruiva admire a Suely Vilela, é preciso lembrar que ela não foi colocada lá contra a vontade, né? Com relação ao financiamento, no caso das federais, tem-se outro dilema. Por causa de “escândalos das lixeiras” e que tais, por exemplo, a tendência é sempre burocratizar mais e mais a gestão dos recursos. É evidente que deve-se ter controle sobre o dinheiro público, mas é fato que é preciso repensar o controle burocrático, que só torna mais difícil o trabalho de quem quer trabalhar e, principalmente, não impede quem quer desviar recursos de fazê-lo! Esse é um debate que a sociedade precisa fazer. As pesquisas de ponta podem ser muito prejudicadas por causa dessa burocracia burra (o Miguel Nicolelis falou disso na FSP essa semana), e o trabalho do dia a dia também (comprar computadores para as tarefas mais simples é uma dor de cabeça terrível! e eu só consegui uma cadeira decente para trabalhar com o dinheiro de um projeto de pesquisa financiado por uma empresa). Enfim, essa é uma discussão importante e há muitos pontos mais que eu nem mencionei; espero para ler as opiniões dos comentaristas de dentro e de fora das universidades.

  20. romeo disse:

    Desculpe, Nassif, mas acho que seu texto, como proposta de discussão, deveria ser isento de observações do tipo:
    1. “Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos. Em outros campos, a marmelada começa nos próprios concursos para professores, em um sistema de compadrio que compromete a missão da Universidade.”
    - esse tipo de generalização pode obstruir e/ou tornar emocional a discussão. Quem lhe garante que nas Exatas não ocorram marmeladas e compadrios? Com que base você afirma que o compromisso das demais áreas da Usp não é com o padrão de excelência?
    2. “Longe de mim criticar a reitora Suely – que foi orientadora da Ruiva e de quem ela tem a melhor das impressões. Mas não há a menor lógica de colocar uma boa pesquisadora, uma mestra exemplar, uma acadêmica premiada para um desafio de tal ordem, que nada tem a ver com sua formação.”
    - ao que se sabe, a atual reitora candidatou-se ao cargo de livre e espontânea vontade. Ou não?
    Meus reparos decorrem do fato de que sua proposta de administração da universidade por gestores acadêmicos já é suficientemente provocativa. A questão do financiamento das universidades também já vai dar muito pano pra manga.
    Para começar, não seria interessante analisar os modos e os mecanismos de gestão atualmente disponíveis, levando-se em conta a questão da autonomia das universidades públicas? E ver se, onde e por que não funcionam?
    Outra questão de ordem prática: como e por que os “gestores acadêmicos” deverão ter mais sucesso do que no modelo atual de gestão, no que se refere a fazer com que os governos de plantão cumpram a Constituição, destinando às universidades as dotações orçamentárias de direito? E as fundações dentro das universidades, como são e como é que ficariam no modelo proposto? Que outras formas de captação de dinheiro seriam desejáveis, sem ferir a autonomia acadêmica e intelectual, para que as universidades pudessem depender menos das agências estaduais e federais de fomento à pesquisa?

    Pode mandar as sugestões.

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