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12/06/2009 - 09:39

Um discussão sobre a Universidade pública

Vamos pegar a deixa do João Vergílio e começar a discutir seriamente a USP. Colocarei algumas premissas, para tentar organizar um pouco a pauta.

Elemento 1 – a missão da Universidade.

Nos anos 90 houve grande discussão. De um lado, os que achavam que a Universidade deveria atender o mercado; do outro, os que consideravam que o único compromisso era com a ciência. E, para cumprir essa missão, o pesquisador deveria ficar solto, sem se amarrar a metas e avaliações.

Em um estudo clássico, o então reitor da UNICAMP, Britto Cruz, colocou a discussão nos devidos termos. O papel da Universidade é formar alunos e fazer ciência, prospectar as fronteiras do conhecimento. Aqueles alunos com vocação empreendedora, com tendência a desenvolver tecnologia, deveriam ser estimulados a montar sua empresa (as incubadoras), registrar suas patentes e ser colocado em contato com empresas. Escritórios de patentes foram criados na UNICAMP e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Uma das maiores asneiras propagadas nos anos 90 – especialmente pelo ex-Ministro Paulo Renato – é que os governos deveriam se preocupar apenas com o ensino básico, deixando Universidades para segundo plano. Cometeu um crime contra a educação, a ciência e a tecnologia nacionais.

Elemento 2 – os agentes da Universidade.

Definidos os fins (formar alunos e fazer ciência), há que se trabalhar os meios. Todas as análises de meio deverão ter como foco central os fins.

Os professores – Quem produz conhecimento e forma alunos são os professores. Eles devem trabalhar em um local que, numa ponta, forneça as melhores condições de trabalho. Na outra, modelos de avaliação que meçam sua produtividade e grau de excelência. Publicação de papers é um modo, mas não apenas isso. Geração de patentes é outro, mas não pode ser o foco. Análise do que aconteceu com seus ex-alunos, um terceiro indicador, mas não exclusivo. A reputação acadêmica do departamento, outro. A avaliação dos alunos e funcionários, outro.

Os alunos – são os receptadores do conhecimento transmitido pelos professores. Por isso mesmo, devem ser um agente ativo de avaliação dos mestres e das condições oferecidas pela Universidade. Tempos atrás, fui convidado para ser ombudsman de um jornal da ECA/USP, muito bem feito, por sinal. Havia reportagens acachapantes sobre as más condições de funcionamento da USP, falta de manutenção, restaurantes caindo aos pedaços etc. Obviamente, há limites para a atuação dos alunos. O caminho é a definição de fóruns adequados de manifestação mas, principalmente, de clareza sobre a busca permanente da excelência universitária.

Os funcionários – o papel dos funcionários é fornecer a retaguarda administrativa e de serviços para os professores. Sua estrutura, tamanho, custo deve seguir estritamente o que for necessário para o bom funcionamento da Universidade. Mas, em fóruns adequados, deve opinar sobre temas a que estão ligados, como as condições de trabalho, as sugestões para melhorias, os compromissos de melhorias contínuas.

A direção – há três instâncias de poder na Universidade: os departamentos, o Conselho Universitário e a Reitoria.

Vamos, primeiro, discutir o modelo de gestão na Universidade, antes de retomar essa questão da governança.

Elemento 3 – a governança na Universidade.

Gerir uma Universidade é tarefa muitíssimo mais complexa do que administrar uma grande corporação. Na empresa, há objetivos definidos (produzir, gerar lucros), cadeia de comando verticalizada (a ordem vem de cima e se impõe sobre os departamentos), e formas conhecidas de articulação dos departamentos. A lógica da Universidade é outra e exige um modelo de governança diferente.

Mas o que existe hoje em dia é o caos.

A primeira instância de poder são os departamentos.

Em geral, são caixas pretas. Alguns buscam a excelência, outros são arenas de disputas entre os professores. A politização começa por ali.
Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos. Em outros campos, a marmelada começa nos próprios concursos para professores, em um sistema de compadrio que compromete a missão da Universidade.

A indicação de acadêmicos para cargos departamentais é uma excrescência que impõe duas perdas: mata-se o acadêmico e cria-se um mau gestor.

Por outro lado, as regras do MEC – especialmente para as federais – não estimula nenhuma forma de aprimoramento de gestão. Se um departamento conseguir economizar em atividades-meio, não terá como utilizar os recursos para atividades-fim. No ano seguinte, esses recursos serão retirados por serem considerados excedentes.

A segunda instância é o Conselho Universitário.

A implantação de eleição direta nas Universidades gerou, em muitas delas, o populismo acadêmico, de atendimento das demandas de professores e funcionários, deixando de lado a busca da excelência. No fundo, me parece ser um arquipélago de ilhas isoladas, cada qual buscando apenas o que interessa a si.

A terceira instância é a reitoria.

Veja bem, estamos falando em um desafio que o melhor CEO do país teria dificuldades em conduzir. Definir missão, enquadrar os departamentos em objetivos claros, criar modelos gerenciais (para as atividades-meio) que desobriguem os professores de serem atropelados pelas pequenas demandas do dia-a-dia, criar instâncias para as manifestações dos alunos e funcionários, ser o representante do contribuinte perante a comunidade universitária, cumprindo contratos de gestão, com objetivos claros.
Longe de mim criticar a reitora Suely – que foi orientadora da Ruiva e de quem ela tem a melhor das impressões. Mas não há a menor lógica de colocar uma boa pesquisadora, uma mestra exemplar, uma acadêmica premiada para um desafio de tal ordem, que nada tem a ver com sua formação.

Sem fóruns adequados, sem canais de comunicação, funcionários se organizam em torno do Sindicato, alunos em torno das Assembléias – legitimando seu ativismo com a barbeiragem dos gestores.

Vou parando por aqui para começarmos o debate.

Temas sugeridos:

1. Modelo de governança.

No modelo atual – Universidade com autonomia total (inclusive sem a obrigação de prestar contas), departamentos com autonomia total, professores que, depois de empossados, não são obrigados a manter o ritmo anterior de produção – é impossível romper esse círculo vicioso.

Minha proposta é que as Universidades passem a ser administradas por gestores acadêmicos – não um CEO de empresa, mas pessoas do meio, com conhecimento sobre a lógica da Universidade e que saibam manejar ferramentas de gestão. Não se trata de gerir a Universidade como uma empresa privada, isso é bobagem. O gestor tem que entender todas as especificidades, as necessidades operacionais, as características da produção acadêmica e prover os meios necessários. Mas tem que responder ao contribuinte com resultados.

Dizer isso é fácil. Difícil é definir um modelo de governça que permita a discussão da missão, da implementação de planos por sobre a estrutura de poder interno.

2. Modelo de departamentos.

Na era da interdepartamentalidade, é necessário pensar um novo modelo que acabe com as caixas pretas dos departamentos. De certo modo, eles estratificam o poder, como as velhas cátedras, impedem a renovação, o dinamismo, as novas ideias, os novos valores.

3. Modelo de financiamento.

A USP está presa, há anos, à questão dos aposentados, comendo cada vez mais seu orçamento, sem que o governo do Estado se proponha a agir. As Federais estão amarradas a procedimentos burocráticos que impedem a busca da eficiência na alocação de recursos.

Há que se aproveitar o momento para amarrar a questão do financiamento a novas formas de gestão acadêmica.

É muita coisa a discutir. Lanço aí as primeiras provocações.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Novo Modelo, Universidade Tags: , ,

65 comentários para “Um discussão sobre a Universidade pública”

  1. João Maria Fernandes disse:

    Nassif:

    a palavra “pelego” está no index?

    Bom dia.

  2. Lima disse:

    O apadriamento nao existe so na escolha de professores. Infelizmente, tambem na escolha de alunos para os cursos de po´sgraduaçao stritus. Se a linha de pesquisa do aluno nao contemplar a politica dos orientadores ele jamais entrara na universidade. Mesmo quando a pesquisa e de extrema relevancia para o desenvolvimento da sociedade. Me candidatei a uma vaga no mestrado da UFAL, passei nas 4 fases (avaliaçao do projeto, prova escrita, entrevista e proficiencia em ligua estrangeira) mas não consegui a vaga. Colegas que ja haviam passado pela mesma situação me disseram que o problema foi o meu projeto contemplar as dificuldades que os gestores das escolas publicas enfrentam na condução do eixo-pedagogico. logo, tal pesquisa nao contemplava a linha de pesquisa dos orientadores que estao voltados para pesquisas relacionadas com a propria unversidade. Pergunto: A UNIVERSIDADE TEM A RESPONSABILIDADE DE BUSCAR CONHECIMENTO QUE MELHORE A QUALIDADE DA EDUCAÇAO BASICA, OU SÓ DA EDUCAÇAO SUPERIOR?

  3. miope disse:

    Modelo departamental

    O modelo departamental segue a logica disciplinar. E.g. temos a disciplina de fisica, e um departamento de fisica.

    Ocorre que a ciencia moderna evolui em torno de problemas. E.g. combustiveis renovaveis precisam de solucoes da quimica e da biologia. Surge entao interdisciplinas: e.g. bioquimica.

    Louve-se dois novos campi e uma nova universidades montadas em torno do conceito interdisciplinar: USP Leste, Universidade Federal do ABC e Unicamp Limeira.

    Abracos,

    miope

    PS: feliz pelo 5o lugar no campeonato mundial da seguranca aerea (Santos Dumont deve estar rindo de orelha a orelha…)

  4. Maína disse:

    Sugiro a leitura do artigo do professor Vladimir Saflate publicado hoje na Folha de São Paulo sobre o desastre causado não pelos estudantes como o J. Virgilio quer acreditar e que já foi bem debatido lá no Biscoito Fino e a Massa do Idelber Avelar.

    Link para quem não assina o UOL: http://docs.google.com/View?id=dhhkd6qk_16fvt2fxhm

    Segue o link para quem tem FSP: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1206200908.htm

  5. Marko disse:

    Nassif, excelente levantamento de algumas questôes fundamentais. Sou professor, formado em escola pública e trabalhando numa estadual de Sp e numa particular. Da forma que está, tanto o modelo das públicas quanto o das privadas está falido. As públicas não dão conta da sua missão, não inovam na velocidade que o país demanda, não são de fato “públicas” (pois são cooptadas o tempo todo para demandas privadas, como é de notório conhecimento) e não conseguem se financiar adequadamente. As privadas, mesmo as melhores, decidiram nivelar por baixo, vivendo só de mensalidade, e muitas abriram mão de qualquer qualidade em favor do lucro imediato. Acho que as universidades públicas precisam de uma devassa como a que estamos fazendo com o congresso nacional, e muitos dos vícios seriam os mesmos. Não se pode continuar a financiar pesquisa com dinheiro público sem chegar a algum acordo quanto a avaliação dos resultados (por parte de alunos, e por parte de indicadores de resultados das pesquisas). Mas a questão do financiamento é um nó que precisa ser desatado. Venho conversando informalmente com colegas sobre o modelo de “endowments” usado nas universidades americanas, que eu conheci de perto e ajudam a tornar essas instituições as líderes no mundo, tanto em excelência acadêmica quanto em geração de inovação tecnológica e lucros (patente, etc). Uma coisa que seria interessante você analisar é a diferença entre as nossas fundações (que não conheço bem, mas muitos criticam) e os endowments, que são fundos 100% atrelados a atividades específicas (financiam cadeiras, laboratórios, etc). A questão da gestão, como você colocou, é central também, mas é uma questão cultural, de apropriação privada do público, que perpassa toda a nossa estrutura de estado, então acho muito difícil mudar de uma vez. Mas com certeza, se isso não muda, o resto também não.

  6. E os departamentos, embora unidades de apoio administrativos, são capitaneados por docentes. No mais das vezes, sem treinamento. Por que?
    Com as novas exigências de doutorados nos concursos, os professores já entram, nas federais, em “fim de carreira”, visto que professor adjunto é o cargo máximo da carreira. Professor titular o é por um concurso a parte. Assom, entrando no fim de carreira, com o intuito de ganhar algum a mais, docentes tornam-se ocupantes de cargos eminentemente administrativos. Sem os conhecimentos e habilidades necessários, no mais das vezes. E lembremo-nos que mestrados e doutorados são voltados para a pesquisa. E administrar pesquisa é muito deferente de administrar universidades. Enquanto a primeira tem início, meio e fim, a segunda deve sobreviver a todos os que dela fazem parte.
    Vai ser uma discussão longa!

  7. Nassif,
    tua proposta de discussão é boa e bastante bem elaborada para as rodadas iniciais. Espero que o debate e os comentáqrios não fiquem no flaXflu nem se restrinjam a elencar a série de problemas e equívocos de gestão das universidades (não só brasileitras, diga-se de passagem) e para ta para o propositivo. Particularmente, penso que as IFES teriam muito a ganhar se olhássemos para o que vem fazendo em termos de gestão universitária o grupo de IES reunidos no COMUNG (Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas), especialmente a Universidade de Santa Cruz do Sul. Sobre o tema postei na comunidade há alguns meses minha dissertação demestrado que trata justamente da governança na Unisc.
    Abraço
    Caco Baptista

  8. mauricio disse:

    E as ciências humanas? Nesse pique de querer ciencia e prospecção e resultados, vai acabar acontecendo que ninguém quer financiar pesquisas sobre filosofia, historia, literatura etc. É preciso relevar isso e não adotarmos um modelo “capitalista” ou “mercadista” de universidade.

  9. Hans Bintje disse:

    O Luis Nassif fez uma ótima descrição do “Modelo Alice”. Do livro de “Alice no País das Maravilhas”: “Alice encontra um gato e pergunta: Como posso sair daqui? O gato responde: Isso depende muito de para onde você quer ir. Alice explica: Não quero ir para lugar nenhum. Apenas, sair daqui. O gato retruca: Se você não vai para lugar nenhum, qualquer direção serve.”

    Cito um exemplo de como assuntos universitários são tratados na Europa. Trecho de artigo da revista “Brasileiros” ( http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/10/textos/31/ ):

    “Em 1969, um grupo de estudos do qual Luciano fazia parte passou por um concurso público para a construção de um novo hospital psiquiátrico, na cidade de Bérgamo. Começava a se questionar na Itália o papel dos hospitais psiquiátricos e Luciano entrou de cabeça nessa questão. ‘Chegamos a abrir as portas de hospitais psiquiátricos e a fazer passeatas pela cidade, junto com os loucos, reivindicando tratamentos mais humanos.’

    Foi o estopim que desencadeou a consciência nos estudantes de arquitetura de que nunca teriam resolvido o real problema dos doentes mentais propondo um belíssimo e novo hospital. Era necessário levá-lo como um problema político. ‘Nesse período, do ponto de vista da nossa formação humana, houve uma revolução. Abrimos as nossas cabeças ali no provincianismo de Torino.’ Passeatas, salas de aula fechadas e cabeças abertas. Mudanças eram necessárias para seguir. (…)

    ‘Vivi aos 24 anos a magia de descobrir um mundo diferente e possível. Aprendi que só se podia resolver as coisas a partir de um pressuposto político.’ No entanto, passado o fervor desse rompante, a vida começou a tomar os seus velhos trilhos, embora algumas partes tenham descarrilado das antiquadas linhas.

    A efervescência estudantil se abrandou, alguns professores tidos antes como ‘imortais’ deixaram suas cátedras, a grade curricular se adaptou em partes às reivindicações estudantis, a política psiquiátrica foi repensada e reformulada.”

    Eu pergunto ao Luis Nassif:

    1) Você acredita que se a maneira de tratar os “loucos” não tivesse sido contestada pelos estudantes unversitários, haveria alguma mudança na política psiquiátrica, melhores hospitais teriam sido construídos e organizados?

    2) O gato questionaria: “Para onde você quer ir” com a Universidade?

  10. ? disse:

    Alguns pontos básicos:

    1 – Há uma HISTÓRIA da USP que não envolve esse tipo de idéia sobre a “missão” da universidade (a questão é importante, mas seria preciso recolocar o problema de forma adequada…). Pode-se começar lendo os textos de Franklin Leopoldo e Silva e de Irene de Arruda Ribeiro Cardoso sobre o assunto.

    2 – “Os alunos – são os receptadores do conhecimento transmitido pelos professores.” é uma péssima idéia sobre educação e pesquisa… os estudantes PRODUZEM pesquisas também, e aí a discussão de patentes fica bastante complicada… e nem é seu maior problema. Temos bons estudos sobre o tema na própria USP, e sugiro o trabalho de Maria Carlotto (sociologia) sobre o tema (que inclui análises sobre a lei de inovação tecnológica). O “controle” via NÚMERO de publicações (como “medir” a qualidade?) é muito questionado na academia (com argumentos racionais…) e não atende às especificidades de diferentes áreas.
    Falta perspectiva política nessa discussão toda.

    3 – o organograma da USP não é tão simples (ou, é mais complexo ainda…). Há as congregações, por exemplo, ou seja, diretorias de faculdades – são institutos independentes entre si, de certa forma. Enfim, seria preciso colocar novamente o problema, com informações corretas.

    Para efetivamente propor uma discussão a respeito da Universidade pública (ou da USP, especificamente?), de modo que saiam de cena acusações banais e genéricas como em relação às eleições diretas, é preciso escrever outro ou outros posts…

    “Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência” – é uma acusação seríssima, que supõe um idéia muito particular de excelência… e uma capacidade de julgamento incrível…

    Decepção.

  11. E mais, as universidades novas, federais, que vem sendo criadas, mantém os mesmos moldes, basicamente, e vícios. Perde-se uma oportunidade ímpar de desenvolver uma nova forma de governança.
    O “problema” é que gestão implica em mensuração e controle. Os docentes sentem-se “ameaçados” com cobranças. Cobranças descabidas, segundo eles, como a presença física nos horários de trabalho, aulas bem fundamentadas e com conteúdo ao invés de pesquisas de valor discutível… e por aí vai.

  12. Paulo disse:

    No elemento 1
    A respeito da asneira de Paulo Renato, além de propagar a centralização das preocupações no ensino básico, ele ainda distorceu o FUNDEB (proposta dos educadores após mais de 8 anos de discussão, que tramitava na câmara desde o Gov Itamar, e previa atuar: na quantidade, aumentando o acesso às escolas públicas, e na qualidade da “Educação Básica”. Para isso haveria uma previsão de 3,5 Bilhões de Reais por ano a ser bancado pelas três esferas).

    O grupo do Sr paulo renato mandou retirar do congresso projeto do FUNDEB e enfiou “guela abaixo” da sociedade o tal do FUNDEF (que atou principalmente no quesito quantidade, para atender as exigências dos organismos da ONU e assim manter as “aparências”- puro marketing – e que passou a prever 500 milhões por ano para o fundo. Os outros 3 bilhões “devem ter ido” para o mercado finaneceiro ou para financiar o PDV em que os principais cientistas das universidades públicas pularam fora e foram para as faculdades pariculares dos amiguinos de FHC). Se não fossem as atuações dos municípios, que tiveram que a função de gerir o ensino fundamental e com poucos recursos, nem mesmo o ensino fundametal teria sido contemplado nessa época.

    No elemento 2

    Cabe acrescentar a necessidade de uma remuneração digna aos educadores, que lhes dê tranquilidade para sair de casa e ficar em tempo integral na universidade não só atuando em pesquisa, mas também, gerando novas idéias e conceitos além de estarem à disposição dos alunos para orientação.

    A respeito da avaliação, concordo plenamente. Só tem que se tomar o cuidado de não fazer com está hoje com os alunos do ensino médio, estudando apenas para vestibular (Acredito que seja por isso que o MEC esteja tentando mudar o modo de acesso à Universidade).
    Dependendo do foco tomado para as avaliações, poderá forçar o educador a centralizar suas ações e conhecimentos apenas para passar na avaliação em detrimento de suas pesquisas e criação de suas idéias.

    No que tange os alunos, com certeza a Universidade tem sim de manter um ambiente propício para que os alunos exerçam a sua “vida acadêmica” com o máximo de qualidade. Tive sorte de estudar em uma Escola Técnica Federal-ETF (isso antes de FHC tentar desmantelá-las) em que eu passava o dia todo estudando. Havia refeição aos alunos de manhã, tarde e noite. Tinha uma biblioteca de ótima qualidade tanto para estudo de grupo quanto individual (alunos de faculdades particulares deixavam de estudar nas bibliotecas de lá para ir estudar na da ETF). Para os alunos mais pobres, havia a possibilidade de serem monitore (recebiam 70% do salário mínimo, mais vale transporte). Praticamente todas as semanas tinham palestras, teatro, mesas redondas em que se discutiam de tudo. Pude assim aprender não só o conteúdo específico de minha área profissional (telecomunicações), mas também cresci como pessoa. Hoje ela é uma CEFET e ministra cursos de nível superior (tecnólogo).
    Acredito queas faculdades devam tratar seus alunos como a ETF (em que eu estudei) tratava, lógico que o ambiente é outro, mais profundo no que tange conhecimento, e portanto deverá ter suas peculiaridades.

  13. rita disse:

    para lima:
    aconteceu isso comigo tambem. fui candidata ao mestrado e venci todas as etapas de provas. mas nao conquistei a vaga. estava num terreno no qual não conhecia ninguém, mas arrisquei ainda assim. cometi um erro enorme.

  14. André disse:

    Caro Nassif,

    Creio que o ponto de partida para discussão deve ser exatamente a administração da universidade ou, se prefere, o modelo de governança.

    “Universidade com autonomia total (inclusive sem a obrigação de prestar contas), departamentos com autonomia total, professores que, depois de empossados, não são obrigados a manter o ritmo anterior de produção – é impossível romper esse círculo vicioso.”

    Quem tem total autonomia é a Reitoria, apoiada pelo Co (abreviatura de Conselho Universitário).

    Realmente, falta “prestação de contas” tanto das ações quanto dos gastos.

    No passado, os aumentos eram limitados pela disponibilidade orçamentária, estabelecendo-se como teto o limite de 85% do orçamento.

    Hoje não se tem mais informações sobre compromentimento do orçamento com a folha de pagamentos e o reajuste de 6,05% foi concedido sem apresentação e discussão dos dados financeiros, como era no passado.

    (vide comunidado dos reitores em http://www.reitoria.usp.br/reitoria/index.php?q=node/2&nome=noticia&codntc=24167)

    Retomando o ponto central, novos rumos para a Universidade, evidentemente a maior barreira à mudança está no caráter burocrático e autoritário da administração universitária, que precisa ser modificado.

    Rompendo esta barreira, abrem-se espaço para o debate democrático do modelo de universidade que queremos.

    Abraços

  15. rogerio nacai disse:

    Lima,
    a admissão em programa de mestrado NÃO poderia estar atrelada às linhas de pesquisa dos possíveis futuros orientadores, mas, sim, ser função das qualificações e do mérito dos candidatos.

  16. nassif:
    há um trabalho denso,produzido pela unesco,sobre universidade.não pode ser desconsiderado.vou tentar localizá-lo (aqui em casa isso é uma aventura)
    e te comunico.
    romério

  17. Rui Daher disse:

    Nassif, reproduzo artigo meu, escrito há 5 anos, que mostra como pouca coisa mudou:

    MOMENTO DA INTERAÇÃO

    Não é de hoje que se ouve falar na dificuldade de interação entre a pesquisa desenvolvida nas
    universidades e o setor produtivo nacional. Depois de tanto tempo, seria de se supor que o problema estivesse resolvido ou, pelo menos, amenizado. Pois não é bem assim. Mesmo ampliadas as ações no sentido dessa aproximação, sobretudo por parte da universidade com a criação de agências, órgãos, núcleos e redes de pesquisa, o resultado obtido ainda é bastante incipiente.

    Em dezembro de 2003, organismos ligados ao assunto promoveram o seminário “Caminhos da Inovação Tecnológica na USP”. Nele, especialistas brasileiros e do exterior, na presença de pesquisadores da USP e de outras universidades e instituições de pesquisas, bem como de representantes da iniciativa privada, discutiram evoluções no sentido de superar o problema.
    Vários foram os assuntos expostos: casos reais de transferência de tecnologia; a estrutura das agências de inovação – particularmente a da USP; aspectos da política e gestão tecnológicas; o estágio da P&D na indústria brasileira; os aspectos legais da obtenção de patentes. Enfim, mostrava-se que há pessoas preocupadas com o assunto e quais organismos foram criados para catalisar essa aproximação.

    Apesar disso, a tônica, ao final de cada uma das exposições, recaía no fato de que os resultados práticos dessas ações eram muito pequenos, e que a universidade e o setor produtivo, em suas tarefas de gerar conhecimento para o desenvolvimento econômico, ainda mantinham uma distância abissal.

    Nos países mais desenvolvidos, o setor produtivo e a universidade interagem em expectativas que partem das duas pontas. Num sentido, a percepção das empresas de suas necessidades de novas tecnologias faz com que elas se juntem ao governo para investir em geração de conhecimento pelos pesquisadores. No sentido inverso, a pesquisa espontânea gerada nas universidades é percebida e apropriada pelo setor produtivo e transformada em novos produtos, processos e serviços. Não foi isso o que aconteceu no Brasil.

    Do lado do setor produtivo, a convivência com modelos econômicos fechados, reservando mercado e protegendo a indústria com benefícios, incentivos fiscais e barreiras alfandegárias, em nada estimulou a procura por novas tecnologias. E se, por acaso, alguma empresa delas precisasse, optava por comprá-las fora. Se naquela época já eram poucos os departamentos de P&D nas empresas, quase sempre desfocados pelo ambiente econômico, com os anos de estagnação que se seguiram, eles acabaram empobrecendo ou, simplesmente, desapareceram.
    Do lado da universidade, se o resultado do crescimento econômico da década de 70 ainda pôde garantir que as verbas concedidas pelo governo fossem suficientes para o desenvolvimento de novas pesquisas, essas eram apenas destinadas à publicação e à obtenção de graduações internas à universidade, pois, mal informadas pelo setor produtivo, desconheciam e, por isso desconsideravam, as necessidades da sociedade e do mercado.

    Na verdade, aquele foi um período em que a universidade priorizou o seu papel de aparelho de resistência à ditadura, o que a fazia, em determinados momentos, inclusive, a se opor à indústria.
    Pois é justamente esse o quadro que mudou de forma radical. Ao mesmo tempo em que, com o final da ditadura militar, a universidade exorcizou esses demônios e voltou a priorizar o seu papel histórico de gerar conhecimento para melhorar a sociedade, as transformações nas economias nacional e mundial fizeram com que ela tivesse que olhar para fora na procura de novos investidores, até porque duas décadas de estagnação já não permitiam mais uma irrigação de verbas que atendesse às suas necessidades.

    As empresas, por sua vez, não mais protegidas, combalidas por seguidos anos de crise econômica e que, antes, a arriscar, preferiam acomodar-se apenas ao já existente, agora, diante de um sistema econômico competitivo e internacional, não mais poderiam concorrer se não coadjuvadas pela geração de novas tecnologias.

    Hoje, já não é mais apenas recomendável que universidade e empresa se integrem, mas sim questão de sobrevivência para ambas, o que supõe, mesmo que as condições de crescimento da economia não estejam completamente asseguradas, urgência numa interação capaz de converter conhecimento científico em retorno financeiro.

  18. wilson cunha junior disse:

    Longe de mim nâo achar que discutir a Universidade Pública seja importante. Mas como simpatizante do blog lamento apenas que ela ocupe o lugar de uma discussão a meu ver mais crucial que é a forma do governo paulista lidar com problemas socias. Ainda mais quando o governador em questão é o favorito pra ser o nosso presidente daqui a um ano e meio.

    O que aconteceu na USP foi tão grave que só se assemelha ao que acontecia nos anos de chumbo.

    Nessa pauta quem está justamente indignado com a repressão do governo paulista acaba sendo rotulado como “netos e viúvas de 68″. Mas tudo bem. É do jogo.

    Mas para os que sentem que 68 nunca vai acabar aqui vai uma missiva:

    http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/06/aos-que-vieram-depois-de-nos.html

    “Os que sobrevivemos, ainda amargamos a incompreensão dos que se puseram a falar sobre nossas fraquezas, sem pensarem nos tempos sem sol de que tiveram a sorte de escapar.”

  19. Ana Dias disse:

    Nassif,
    gostaria de dar o meu “pitaco” como professora de universidade federal e ex-aluna da USP. A questão é muito complexa. Sobre a função da universidade pública, você já colocou muito bem a questão. Não se trata de só formar pessoas para o mercado, mas de pensar a “ponta”, ou seja, formar ideias, criar tecnologias e produtos e formar pessoas (pesquisadores, professores, empreendedores) que pensem a sociedade “para frente”, e não para como está hoje. Agora, a vida real. Com relação aos professores e aos alunos, a única forma de avaliação que temos é a publicação de papers. Na universidade em que trabalho, no momento da matrícula, todos os alunos devem avaliar os professores do período anterior, por meio de questionário online. O que é feito dessa avaliação? Nada, absolutamente nada. Simplesmente não somos avaliados quanto ao ensino. Claro que também não seria correto utilizar somente a avaliação dos alunos para avaliar um bom professor (há N vieses possíveis na avaliação feita pelos alunos), porém seria um primeiro indicador, que afinal já está disponível. No meu departamento, ministrar aulas para a graduação é claramente visto como um castigo. Claro: aulas para a graduação dificilmente geram papers, ao contrário da pós-graduação. Portanto, ainda que o professor goste de ministrar aulas na graduação, o fato é que, quanto mais se dedicar a isso, pior para sua carreira. Como você escreveu, e eu concordo, a avaliação por produtividade em papers deve existir, mas não deve ser a única forma de avaliação, como é hoje. Isso dá um gancho para explicar ao comentarista Lima que, se você quer entrar num programa de pós, e posso garantir que isso acontece em qualquer programa de pós do país, precisa, sim, ter um projeto que case direitinho com as linhas de pesquisa do programa. Para entender, é só saber como a CAPES avalia os cursos: número de papers/professor, número de papers produzidos por alunos e egressos e tempo total do aluno no programa são os indicadores principais. Portanto, é lógico que um aluno que esteja totalmente fora das linhas de pesquisa, provavelmente, levará mais tempo até a defesa e publicará menos do que alguém que entre já adequado às pesquisas que estejam sendo realizadas (se o postulante já estiver participando de alguma dessas pesquisas, melhor ainda!). Vale lembrar que os papers considerados pela CAPES são só aqueles publicados em revistas chanceladas pelo comitê de cada área na CAPES, que muitas vezes vai totalmente contra as tendências de um mundo transdisciplinar, mas isso é outra discussão. Quanto aos professores como administradores, de qualquer forma será um problema, acho. O ideal seria mesmo um acadêmico com formação de gestor, porque, como você bem coloca, uma universidade não é uma empresa; geri-la é muito diferente de gerir uma empresa, portanto. O gestor precisa entender muito bem as idiossincrasias da universidade, seus pontos fortes e problemas, tarefa difícil por si só. Mas é fato que as reitorias e outros cargos de direção, com raras e honrosas exceções, são vistos como passo para uma carreira para fora da universidade (ou seja, quem está na reitoria quer visibilidade externa e não necessariamente melhorar a situação interna). E, por mais que a Ruiva admire a Suely Vilela, é preciso lembrar que ela não foi colocada lá contra a vontade, né? Com relação ao financiamento, no caso das federais, tem-se outro dilema. Por causa de “escândalos das lixeiras” e que tais, por exemplo, a tendência é sempre burocratizar mais e mais a gestão dos recursos. É evidente que deve-se ter controle sobre o dinheiro público, mas é fato que é preciso repensar o controle burocrático, que só torna mais difícil o trabalho de quem quer trabalhar e, principalmente, não impede quem quer desviar recursos de fazê-lo! Esse é um debate que a sociedade precisa fazer. As pesquisas de ponta podem ser muito prejudicadas por causa dessa burocracia burra (o Miguel Nicolelis falou disso na FSP essa semana), e o trabalho do dia a dia também (comprar computadores para as tarefas mais simples é uma dor de cabeça terrível! e eu só consegui uma cadeira decente para trabalhar com o dinheiro de um projeto de pesquisa financiado por uma empresa). Enfim, essa é uma discussão importante e há muitos pontos mais que eu nem mencionei; espero para ler as opiniões dos comentaristas de dentro e de fora das universidades.

  20. romeo disse:

    Desculpe, Nassif, mas acho que seu texto, como proposta de discussão, deveria ser isento de observações do tipo:
    1. “Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos. Em outros campos, a marmelada começa nos próprios concursos para professores, em um sistema de compadrio que compromete a missão da Universidade.”
    - esse tipo de generalização pode obstruir e/ou tornar emocional a discussão. Quem lhe garante que nas Exatas não ocorram marmeladas e compadrios? Com que base você afirma que o compromisso das demais áreas da Usp não é com o padrão de excelência?
    2. “Longe de mim criticar a reitora Suely – que foi orientadora da Ruiva e de quem ela tem a melhor das impressões. Mas não há a menor lógica de colocar uma boa pesquisadora, uma mestra exemplar, uma acadêmica premiada para um desafio de tal ordem, que nada tem a ver com sua formação.”
    - ao que se sabe, a atual reitora candidatou-se ao cargo de livre e espontânea vontade. Ou não?
    Meus reparos decorrem do fato de que sua proposta de administração da universidade por gestores acadêmicos já é suficientemente provocativa. A questão do financiamento das universidades também já vai dar muito pano pra manga.
    Para começar, não seria interessante analisar os modos e os mecanismos de gestão atualmente disponíveis, levando-se em conta a questão da autonomia das universidades públicas? E ver se, onde e por que não funcionam?
    Outra questão de ordem prática: como e por que os “gestores acadêmicos” deverão ter mais sucesso do que no modelo atual de gestão, no que se refere a fazer com que os governos de plantão cumpram a Constituição, destinando às universidades as dotações orçamentárias de direito? E as fundações dentro das universidades, como são e como é que ficariam no modelo proposto? Que outras formas de captação de dinheiro seriam desejáveis, sem ferir a autonomia acadêmica e intelectual, para que as universidades pudessem depender menos das agências estaduais e federais de fomento à pesquisa?

    Pode mandar as sugestões.

  21. hugo disse:

    “Aqueles alunos com vocação empreendedora, com tendência a desenvolver tecnologia, deveriam ser estimulados a montar sua empresa (as incubadoras), registrar suas patentes e ser colocado em contato com empresas.”

    Ok, e as empresas vão pagar royalties a USP pelo desenvolvimetno e pesquisa?Ou vai continuar a patifaria da univesrersidade gastar tempo e dinheiro em pesquisa e desnvolvimento para entregar o “produto” pronto para as empresas apenas conabilizarem os lucros?

    Na Unicamp e na UFMG a universidade participa. De qualquer modo, é um ganho para o país.

  22. Ana Dias disse:

    Apenas para responder ao comentário do Eduardo Petrucci: atualmente, professor adjunto não é mais o fim da carreira; pode-se passar a professor associado (para isso, há uma avaliação de memorial e arguição em banca). De qualquer forma, professor titular continua a ser uma realidade muito distante, realmente. Quanto aos cargos de chefia de departamento: o adicional recebido é muito pouco. Não compensa a quantidade de problemas (nem sempre passíveis de resolução no âmbito do Departamento) e o tempo perdido (que poderia ser empregado em pesquisa, publicação…). No meu departamento, os professores “correm” dos cargos de chefia! Na última eleição, só apareceu um candidato e, mesmo assim, na última hora. Por isso, repito: em muitos casos (com exceções), onde há disputa pelos cargos de chefia, ela acontece por causa da visibilidade externa, e não pelo desejo em melhorar a situação interna. Melhorar a situação interna pode ser apenas um meio para projetar o chefe para a comunidade universitária e extra-universitária (mas, como não é a única forma de projetá-lo(a)… nem sempre os objetivos do departamento/da universidade e os da carreira do gestor estão coadunados!)

  23. Júlio Pubikher disse:

    Ótimo comentário, do blog do Favre:

    USP
    “As ideias da reitora Suely Vilela e do professor José Arthur Giannotti (”Tendências/Debates”, ontem) são quase convincentes e, por isso, extremamente perigosas.
    É importante revelar que elas se autodesmerecem por dois pontos:
    1) A reitora aponta a chamada da Polícia Militar ao campus como resultado do “desrespeito a uma ordem judicial”, sendo que ela própria, no atual momento, está desrespeitando duas sentenças transitadas em julgado, que condenam a Universidade de São Paulo a recompor os salários dos professores que não receberam gatilhos devidos e a pagar os respectivos atrasados. Na Unicamp, por exemplo, essa dívida já foi saldada.
    2) O professor José Arthur Giannotti fala em “pautas fantasiosas”.
    Eu gostaria que ele respondesse se é fantasioso solicitar que nossos salários, que hoje carregam uma perda de 42% em relação ao que eram em 1989, sejam corrigidos para patamares minimamente decentes. Os índices por ele apresentados, aliás, são falsos. Índices corretos poderiam ter sido fornecidos a ele pela Adusp e pela própria reitoria.
    PS: Votei, livremente, contra a greve dos professores decidida no dia 4 passado pela maioria e não represento, portanto, a categoria tão ofendida pelas palavras do professor Giannotti.
    MARLENE SUANO, professora-doutora do Departamento de História da FFLCH-USP (São Paulo, SP)

  24. Paulo disse:

    Nassif, vc esqueceu de algo importante de qq universidade pública…os egos envolvidos. Ok, em qq lugar temos brigas de egos, mas nesses casos, ois empregos estão garantidos e muitos simplesmente não seguem qq ordem, por mais q seja vindo da reitora. Se não concordam com algo, a briga pode ser feia. Quero ver um CEO lidar com iso facilmente….

  25. João Vergílio disse:

    Nassif,

    A amplidão dos temas que você levanta (e a relevância de todos eles) recomenda, a meu ver, a criação, no Portal, de uma seção dedicada exclusivamente à Educação – uma espécie de forum permanente, onde pudéssemos todos trocar idéias de maneira civilizada e sem preconceitos de parte a parte.

    Tenho minhas dúvidas se deveríamos incluir questões sobre a universidade e questões sobre o ensino básico num mesmo lugar. Isso pode gerar congestionamento. Talvez o mais recomendável fosse mesmo criar abas separadas, com dinâmicas próprias.

    Atualmente, os docentes da FFLCH estão debatendo alguns desses temas numa lista de discussão. O resultado é interessante, apesar de claramente parcial. Oitenta por cento das intervenções são feitas por pessoas com posições muito semelhantes, criando às vezes uma falsa impressão de hegemonia. Tenho quase certeza de que o mesmo cenário se repetiria aqui. Mesmo assim, o tema é tão importante que justifica os riscos. É preciso conquistar os colegas para o debate. Se você achar interessante a criação desse forum permanente, conte comigo. Serei fruguês de carteirinha.

    Estou juntando material para montar o Grupo. Se puder mediar, será de grande valia.

  26. emerson disse:

    Olá a todos:

    Uma correção: A carreira de docente de universidade federal tem várias etapas: A mais baixa é de auxiliar (com graduação), assistente (com mestrado), adjunto, associado e titular (com doutorado). Dentro das classes de auxilias, assistente, adjunto e associado existem os niveis I, II, III, e IV. Para ser auxiliar para assistente, basta concluir o mestrado, e de assistente para adjunto basta o doutorado. Para ser promovido de Adjunto I para II é por tempo de carreira (dois anos). Para ser promovido de Adjunto IV para Associado I deve haver comprovação de publicação, docencia, orientação, atividades admisnistrativas. De Associado I para II por tempo de carreira. Para titular, concurso publico. A cada promoção ocorre um pequeno aumento no salario. Assim é incorreto dizer que o docente entra no fim da carreira e dizer que não há um incentivo para crescer na carreira, até porque para chegar a titular o docente tem que mostrar uma carreira muito sólida. Ninguem chega a titular antes de 20 anos de muito esforço.

    Uma observação: departamentos de melhor desempenho (por exemplo na avaliação da capes) geralmente são mais rigorosos nos concursos pois estão bem estabelecidos e temem comprometer sua qualidade e tem sido comum não contratarem nenhum candidato em determinado concurso, preferindo abrir novo edital 6 meses ou um ano depois. Departamentos com desempenho inferior geralmente são carentes de pessoas e preferem contratar imediatamente, mesmo se os candidatos forem inexpressivos. De qualquer modo, os melhores candidatos a docente acabam contratatos nos melhores departamentos, pois nem se candidatam a vagas em departamentos inferiores.

    premio ao merito: o CNPq instituiu uma bosa de produtividade para os pesquisadores mais destacados na área de pesquisa. Essa bolsa vai do nivel 2 para o 1D, 1C, 1B e 1A. Para ganhar a bolsa o pesquisador deve apresentar um determinado nivel de produtividade e sua classificação vai depender de uma avaliação dos ultimos dez anos de pesquisa. Apenas os melhores são premiados.

    As agencias de fomento somente dão recursos aos pesquisadores que mostram curriculo compativel. Pesquisadores em inicio de carreira geralmente conseguem poucos recursos e aqueles mais consolidados consegem mais recursos. Conforme os pesquisdores inciantes vão consolidando suas carreiras, vão conseguindo mais recursos e consolidando cada vez mais sua carreira.

    assim, me parece que a carreira esta bem definida e premiando o merito.

  27. hugo disse:

    Com certeza é um ganho para o país, mas muito maior para as empresas privadas.

    As universidades não tem o direito de participar dos lucros obtidos através das suas pesquisas utilizados pelas indústrias?

    Quando se fala em novas formas de financiamento da universidade pública, essa não seria uma forma JUSTA de se desenvolver as universidades e o país?

    Se um laboratório de biotecnologia produzir uma espécie de cana-de-açúcar que creça mais rápido e produza mais açúcar não é lícito que ela tenha uma participação no que for produzido? Ou tem que se contentar com “computadores novos” em retribuição pelo trabalho desenvolvido?

  28. Edmar Roberto Prandini disse:

    Nassif,

    São duas as questões que precisam ser distinguidas aqui.

    Primeiro, em ambientes de dezenas de milhares de pessoas convivendo, com uma gama múltipla de interesses divergentes, é evidente que o impasse, do confronto político, do conflito existe e sempre existirá. É da natureza da universidade a polêmica e o conflito.

    Então, a primeira questão consiste em como o conflito se processa. A existência da greve, das manifestações e até do piquete, que o João Vergílio condena, são fenômenos derivados da complexidade dessa sociedade que é a Universidade. Grave não é sua existência. Grave é a reitoria requerer para o enfrentamento desses conflitos não a institucionalidade existente na própria Universidade, mas o uso da PM.

    A PM? Nem vem ao caso aqui levantar a discussão sobre o modelo da militarização da polícia e sua origem. Mas, acontecimentos recorrentes demonstram a completa inaptidão da PM para lidar com os conflitos sociais. A greve dos policiais civis, neste início de ano, como foram tratados pela PM? Se já no que se refere à criminalidade, a PM paulista já tem sido objeto de inúmeras suspeições quanto aos seus vínculos com as facções criminosas, no que se refere ao tratamento das manifestações políticas a PM está inapelavelmente marcada pela pecha de autoritarismo.

    Então, como a reitora adota como medida recorrer à PM? Ao fazê-lo, a reitora deslegitima-se por completo, tornando absolutamente impossível prosseguir merecendo qualquer crédito do movimento que se instalou. Ao fazê-lo, ainda que ela obtenha vitória, será vitória ilegítima, que não conseguirá contar com o acolhilmento de suas posições pelo movimento. O movimento poderá submeter-se, dado o ônus da humilhação, mas, jamais, o vitorioso gozará de qualquer credibilidade. de tal sorte que todas as suas medidas, mesmo aquelas que contivessem racionalidade e justeza, jamais, jamais contarão com o respeito da comunidade universitária.

    A segunda ordem de questões refere-se ao problema da missão, da governança e da gestão. É um dramático problema que envolve a universidade estadual, mas também as federais e as privadas.

    Neste caso, a amplitude dos problemas é enorme, e não há hierarquia entre eles. Todos são dramáticos. Envolvem o eterno problema do orçamento. Da sua centralização e descentralização. Dos processos de contratações e compra. Das autonomias e controles na execução orçamentária. Da produtividade, e seus índices. Das bolsas. Das verbas de pesquisa. Do reconhecimento da importância do ensino. O que a Ana Dias comenta, quanto ao prejuízo à carreira do professor que esteja atuando na graduação é verdadeiro e gravíssimo! E, no caso, das universidades e faculdades privadas, há ainda o problema do lucro, que tende à exorbitância, e da desigualdade brutal na valorização docente.

  29. Laud Roces disse:

    “Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência”

    Como assim? essa frase resume a tosquera que a tempos impregna qualquer debate sobre a Universidade Pública. De um lado os “gestores”, defendidos por vc Nassif, e de outro lado os que não entendem nada de gestão e acham que pode gerir tudo como se fosse um relógio suisso. Como se pessoas e objetivos como o da Universidade constitui um esquema linear.
    Vivo a 10 anos anos no meio universitário e não vejo e caos alardeado neste post! Não está as 1000 maravilhas, mas funciona.
    Nassif, vc defende a Petrobras contra o “caos” que os interesses escusos querem implantar para tirarem vantagens e vem agora com essa de que está um “caos” na univeridade pública. Isso é conversa de quem se acha mais competente para gerir e entender algo tão complexo como a Universidade, mais precisamente dos paulistanos setentistas que “se achavam”, com sua USP única e impávida. Agora que o Brasil descobriu que pode haver pesquisa e desenvolvimento fora de São Paulo ficam achando que o “modelo” está errado. Fala sério, errado estão os paulistas de achar que só eles pensam!

  30. PAULO CAVALCANTI disse:

    “COLOCANDO ÁGUA NO CHOPP”

    Moro na Zona Leste de S. Paulo, uma região carente e pobre da cidade, que tem hoje, 3,9 milhões de habitantes. Só para dar o sentido da grandeza disso aqui, Porto Alegre, possui 3,7 milhões de habitantes, Recife 1,5 milhões, Belo Horizonte 2.4, Brasilia com toda sua região metropolitana, soma 2,0 – e finalmente Campinas com menos e 1 milhão.

    Em 2004 – foi inaugurado o CAMPUS DA USP-LESTE, fica aqui, do lado da minha casa, em Ermelino Matarazzo, e hoje tem 4 mil alunos. Sabem quais os cursos que tem aqui? – Gestão Ambiental, Enfermagem Geriatrica, Propaganda. Ou seja, nenhum dos curso tradicionais, e sabem por que? Tem uma lei, que OBRIGA, uma universidade a não ter os mesmos cursos, quando já tem um Campus naquela cidade.

    Idéia de jerico, dos Srs. acadêmicos, que vivem enclausurados dentro da universidade, e vêem o mundo, através da sua janalinha mediocre.

    Como a região é constituida de gente humilde, pobre, esses cursos estão bons, prá quê pobre quer ser médico, advogado, engenheiro?

    Infelizmente, a política da Casa Grande & Senzala, continua em voga, e todo mundo acha absolutamente normal.

    Finalizando: O pior defeito que a universidade pública tem, é que ela, e direcionada a uma elite, que estuda e desfruta de um bem público, pago com o dinheiro do contribuinte pobre em sua maioria, e quando se forma, dá uma banana para a comunidade, sem contra-partida, vai ganhar dinheiro muito longe dalí.

  31. José disse:

    É curioso como abafado atrás da grita dos grevistas há um eco de fundo que alimenta as manifestações. Esse eco, cuja existência poucos admitem no plano consciente, luta bravamente para que a maior universidade brasileira continue um instrumento exclusivo de determinadas classes e categorias sociais e não se abra para a população que não tem acesso a ela.

    Os interesses são muitos, mas ficando no terreno da simplificação das posições em ‘direita’ e ‘esquerda’ é possível dizer que esses dois lados entram em acordo quanto à necessidade de limitar a ampliação do acesso à universidade. A ‘direita’, com sua arrogância simplória, não gosta da expressão ‘elitização’, mas a ‘esquerda’ gosta, e ambas lutam para que ela se mantenha.

    No caminho certo, o governo paulista dá um passo importante para a democratização do ensino de qualidade das universidades públicas com o projeto de implantação da educação a distância, começando pela pedagogia. É péssimo ver que há professores e estudantes que lutam contra isso. Porque pensam que estudar na USP e desfrutar desse ensino deve continuar sendo exclusivo de alguns e não ser aberto para qualquer brasileiro.

  32. chris disse:

    O que vou relatar aqui diz respeito a minha opinião e vivência pessoal, logo, não necessariamente se traduz como realidade da graduação e pós-graduação no Brasil.
    O que eu vi durante os anos na Universidade:
    - A ênfase na quantidade (mais paper, mais alunos) muitas vezes significa perda da qualidade. Os alunos não têm tempo para amadurecer (tem que defender rápido), os professores tem muito mais alunos para “dividir” a atenção, as Teses (dissertações?) de Mestrado viraram um trabalho de iniciação científica melhorado. Quando eu pego hoje uma Tese de Mestrado antiga, batida a máquina, e comparo com uma Tese de Doutorado atual percebo que a discussão da primeira está até mais embasada, havia um maior esmero, os fundamentos eram bem discutidos, mesmo com um menor número de resultados pois não havia computador e nem a quantidade de equipamentos para análises sofisticadas como hoje em dia. Já vi muita gente defender “com o que tem”, pois o prazo é mais importante, se der para “fechar” o trabalho fica tudo bem.
    - O CNPq tenta melhorar a questão da qualidade através do índice de impacto das revistas mas não se resolve o problema dos caciques da pesquisa, aqueles cujo nome aparece em diversas publicações sem que, necessariamente, sequer saibam do assunto tratado.
    - A pesquisa básica ou que não tiver um resultado com aplicabilidade comercial imediata está prejudicada. Parece que ninguém percebe que as pesquisas básica e aplicada são complementares (uma não é melhor do que a outra). A pesquisa aplicada envolve mais a otimização e a básica mais a criação.
    - O sistema induz a uma excessiva especialização – saber mais sobre cada vez menos. E a trasndisciplinaridade tão necessária ao desenvolvimento sustentável? Onde está o conhecimento BÁSICO sólido para que qualquer um possa se familiarizar com outras áreas sem grandes dificuldades? A especialização se tornou um antolho, estamos virando “engrenagens adaptadas a um sistema” e não refletimos mais profundamente sobre o próprio sistema – pelo menos, a nossa formação acadêmica não está direcionada para isso.
    - Corremos o sério risco de nos tornarmos ignorantes pelo excesso de informação. Qualquer pesquisador não vai publicar um artigo se puder espichar o assunto e publicar três. Para que ele vai ser conciso? Afinal, ele precisa de um currículo extenso. Quem estiver interessado (e estiver com tempo!) que trate de ler tudo e garimpar o que interessa.

  33. Monier disse:

    Acompanhei de perto a USP como graduando, e também vi de perto a Unicamp, onde a minha namorada estudou medicina. É claro que uma análise bem fundamentada precisaria de dados concretos, estatística, etc., mas a minha percepção como testemunha distraída é que na Unicamp não há vergonha de se integrar na cadeia produtiva local como instituição-universidade.
    Enquanto na USP a frase mais ouvida é “meu professor tem uma empresa/instituto que faz…”, na Unicamp ouve-se mais “meu professor criou um método que é usado pelas empresas do setor de….”
    Ou seja, na USP temos uma espécie de cartão de visitas para apresentar a empresa/instituto próprios. Na Unicamp é a universidade é a “empresa”.
    Além disso, na Unicamp eles pesquisam o que está ao redor: carrapato-estrela, óleo de mamona, astrofísica, quartel do exército rosa, e por aí vai. Em São Paulo a pesquisa parece estar mais distante da realidade local. Em geral são os estudantes que se metem a pesquisar favela por conta própria, por exemplo (na experiência do Direito), ou montam grupos de estudos à parte para um monte de objetos diferentes, mas nada institucional. É quase uma aventura. Talvez se explique pelo tamanho das cidades.

  34. rita disse:

    para lima e rogerio nacai:

    mas ai é que está o problema. parece que os doutores da universidade somente orientam se o projeto de pesquisa do aluno estiver de acordo com as linhas de pesquisa do proprio orientador. pode até ser que o tema seja relevante, mas nada que desperte o interesse do professor orientador, quer dizer, vontade de ajudar o aluno do mestrado a buscar um campo de pesquisa que seja de seu interesse.eu conheci uma professora de antropologia na graduaçao e ela era a única que não recusava meus trabalhos de pesquisa. eu tinha muito interesse na área de história e ela me ensinou que mesmo na antropologia não me impede de trabalhar outras coisas. e eu me apaixonei pela coisa. porém, a minha professora faleceu antes que eu atingisse o mestrado, ela tinha cancer, e eu fiquei só. foi a única doutora que conheci na minha vida que não tinha medo de orientar alunos, mesmo que o interesse não fosse exatamente na área que a minha professora se especializou. tenho saudades dela.

  35. evandro condé disse:

    Paulo Renato, ensino básico, com o desmatelamento das escolas técnicas; Nassif, você deve estar brincando.

  36. Cara Ana Dias. Obrigado pela correção. O professor associado é uma criação mais nova, não me lembrei dela.
    Sei que as reuniões de departamento, para escolher chefia, são na base de que é votado o cara que vai ao banheiro. Quando volta, a eleição já ocorreu e ele foi o escolhido.
    A gratificação, FG, não compensa. Exatamente. Não compensa para quem estudou tanto, chegou a doutorados e além. Ainda assim, o departamento é administrativo, o colegiado é a dimensão acadêmica. Mas a chefia de departamento fica na mão de um docente, em parte das instituições federais. Se é tão ruim, por que não largam?
    E essa FG de chefia de departamento, já ouvi da boca de um doutor que ele não poderia abrir mão desse ganho sem alterar seu nível de vida.

    “)… nem sempre os objetivos do departamento/da universidade e os da carreira do gestor estão coadunados!)”
    Isso é verdade. E também é verdade que gestão está ainda mais fora da carreira de um doutor (que não seja da área de administração)

  37. Em tempo. Não é a instituição que tem que estar coadunada com a carreira do docente. O contrário é que deveria ocorrer.

  38. henrique rodrigues disse:

    Medir desempenho de professor pelo número de publicações tem provocado distorções horrorosas. Como ninguém produz nada de novo a cada 4, 5 meses, lemos continuamente o mesmo artigo reescrito com outras palavras. E isso quando lemos os artigos, porque muitas vezes não se publica para ser lido, mas apenas para cumprir os índices exigidos.

  39. E, Ana Dias, concordo com vc quando diz que a docência na graduação não é valorizada. Acho que devia ser o que mais pesa no Lattes, mas houve uma inversão de valores. “Velhos” docentes, habeis no saber fazer de professor, tornavam-se, um dia, doutores. Hoje, sem ser doutor nem se consegue fazer concurso. E, com a ditadura dos papers, perde-se o fazer de professor.
    Tanto a ser mudado. Que comece logo!

  40. Caro Hugo,

    “Se um laboratório de biotecnologia produzir uma espécie de cana-de-açúcar que creça mais rápido e produza mais açúcar não é lícito que ela tenha uma participação no que for produzido? Ou tem que se contentar com “computadores novos” em retribuição pelo trabalho desenvolvido?”

    Se toda essa pesquisa foi desenvolvida com dinheiro do povo, meu e seu, dentro de uma intituição federal de ensino sim, ele vai ter que se contentar com um “computador novo”.
    Se for com o dinheiro dele, se ele colocar, como o Bill Gates, o fiofó na reta… aí sim, que ele fique tão rico quanto o Bill.

    O que não dá para agüentar mais é a pesquisa pública com o ganho privado!

  41. Luiz Alberto Vieira disse:

    Nassif,

    A mensuração da produtividade é algo bastante controverso, especialmente nas ciências sociais.
    Atualmente, a produção dos acadêmicos e dos departamentos é feita principalmente através da publicação dos papers.
    Como a distribuição de verbas públicas, através das avaliações da CAPES, é em grande medida dependente das publicações em periódicos, muitos departamentos tem se esforçado em elevar a quantidade de publicações.
    No entanto, grande parte dessas publicações não possuem relevância alguma e existe uma enorme diferença nas dificuldades de publicação.
    Nos departamentos de economia, tem ocorrido um corrida em direção à econometria em detrimento das pesquisas históricas, estas muito mais demoradas. Um econometristas com um bom banco de dados é capaz de reaplicar técnicas em moda nos EUA aos números brasileiros, os famosos “brazilian cases”, com grande velocidade e produtividade. Mas infelizmente, a maior parte desses trabalhos não leva em conta as condições instituicionais brasileiras e nem possuem algum verniz teórico.
    Na economia, os critérios da publicações tem levada à uma ditadura dos cabeças de planilha.
    Um caso interessantes foi o do IE-UFRJ, que para elevar a nota na Capes, decidiu que em sua pós apenas professores com publicação no exterior nos últimos anos dariam aulas. Mas esse critério excluía Fernando Cardim e Mario Possas, dois dos maiores economistas brasileiros. Felizmente, na UFRJ o bom senso venceu e o desistiram do absurdo critério, mas não é o que ocorre na maioria dos departamentos de economia do Brasil.

    Abraços,

    Luiz Alberto

  42. Marcio Gaspar disse:

    “Os professores – Quem produz conhecimento e forma alunos são os professores. Eles devem trabalhar em um local que, numa ponta, forneça as melhores condições de trabalho. Na outra, modelos de avaliação que meçam sua produtividade e grau de excelência. Publicação de papers é um modo, mas não apenas isso. Geração de patentes é outro, mas não pode ser o foco. Análise do que aconteceu com seus ex-alunos, um terceiro indicador, mas não exclusivo. A reputação acadêmica do departamento, outro. A avaliação dos alunos e funcionários, outro.”

    Ou o professor daa aula ou faz pesquisa. Fazer pesquisa e ainda ter que elaborar aula, orientar trabalhos de graduacao, mestrado e doutorado. Isso ira acabar por relegar o ensino da graduacao, pois o professor estaraa mais interessado em sua pesquisa, ja que tera que apresentar produtividade, palavra muito usada no mundo corporativo. Ja ouvi de muitos professores queixas sobre esta produtividade que a universidade cobra dos professores, aonde nao ee possivel elaborar uma boa aula.

  43. Anarquista Lúcida disse:

    Nassif, além da gravidade dessa sua divisao entre Exatas e Humanas, e do preconceito contra as Humanas — o que aliás mostra bem o que aconteceria numa possível gestao “profissional” das Universidades — o que você diz sobre a estrutura da Universidade está errado, pelo menos em relação às federais, e às estaduais do Rio de Janeiro, em que trabalhei. Chefia de Departamento nao tem poder nenhum, só aborrecimento. E há vários tipos de órgaos intermediários, tanto executivos quanto “legislativos”, entre o Departamento e o Conselho Universitário/Reitoria. As regras de eleição para os conselhos superiores (nao há só o Universitário, há tb o de Ensino e Pesquisa, e outros, conforme a Universidade) sao complexas: entre os membros docentes, há membros por categoria e por unidade, no mínimo; nao sei como sao decididos os representantes dos funcionários e dos docentes (que sao pouquíssimos em relação aos dos docentes; na maioria das universidades, os diretores de unidade e de centros têm cadeira cativa nos Conselhos, o que envieza a representação). E que preconceito contra eleição direta, hem? E o país? Tb deve ser governado por “gestores profissionais”?

    Quanto ao Joao Vergílio, é engraçadíssimo (para nao dizer triste…) ele dizer que há uma discussão a respeito na Faculdade dele, mas que 80% das pessoas que falam têm opiniões parecidas, o que cria uma “falsa” impressão de hegemonia. Interessante! Só seria verdadeira essa impressão se as posições coincidissem com as dele?

    Muito importantes sao as questoes levantadas pela Ana Dias. Ao contrário de nao haver avaliação de produtividade nas universidades, há sim, mas uma avaliação idiota, quantitativista e/ou com critérios qualitativos deslocados (seria o caso, mutatis mutandis, daquilo que Paulo Freire chamava de educação bancária). É exatamente a lógica dessa avaliação (a da cenoura e do bastao) que deturpa tudo, fazendo com que o ensino de graduação seja a última prioridade da maioria dos professores, porque nao rende nada em termos de avaliação. Até a orientação de teses de mestrado e doutorado, que dá um trabalho danado, acaba de ser “downgradada” na última mudança de critérios de avaliação da minha Universidade. E a orientação de monografias de graduação e de especialização passou a nao valer nada.
    No caso de uma Faculdade de Letras, e outras de “Humanas”, isso é particularmente grave, porque leva ao desprezo daquilo que seria mais importante para formar futuros professores, em proveito de conteúdos melhores para “render papers”.

  44. Rogério do Nascimento disse:

    Caro Nassif,
    Grande discussão esta aberta, a questão da universidade pública. Difícil não corroborar com pelo menos uma parte das opiniões, colocadas pelos leitores; em quase todas há um pouco de verdade e sonho de uma educação de qualidade no país.
    No entanto, deixo apenas algo aqui para que seja pensando. Muito se falou em USP, UNICAMP, etc. Mais no interior do país há universidades públicas onde pesquisa e desenvolvimento são feitos, e muitas vezes sem o apoio recebido pelas grandes dos órgãos financiadores da pesquisa no país. Vale, ao menos por um momento, refletir sobre nossos jovens que na busca do conhecimento ingressam nestas universidades, seja na gradução, no mestrado ou no doutorado.

  45. André disse:

    Nassif, concordo com muitas das suas colocações, e principalmente sua capacidade de síntese de vários problemas da universidade, em destaque o lance dos departamentos.
    Discordo quando você fala que o problema de contratação de “compadres” está nas Humanas, pois na verdade está em todas áreas, pelo menos é o que vejo na Unicamp e em outras universidades.
    Falta também a discussão ética das fundações e das pesquisas voltadas para o mercado, que representam uma parcela cada vez maior das pesquisas nas públicas…

  46. Laud Roces disse:

    Vi que um dos comentários reproduziu um outro erro – dentre as dezenas – sobre o ensino e a pesquisa Unvesitária: a de que a Universidade é para todos”. Não, ela É DE TODOS, mas não é para todos estarem em Universidades como a Unicamp ou USP.
    Esse erro é cometido correntemente no Brasil e é fruto de um sistema social baseado na crença de que a ascenção social só é possível através da graduação na Univerisade pública. É assim que pensam milhoes de pais ao pagar o ensino médio aos seus filhos. É assim que pensam muitos “gestores” que lêm este blog do Nassif. É assim que pensam muitos moradores da USP_LESTE, que imaginam que os cursos lá oferecidos são pra a demanda local, etc.
    Pensar assim é errado, é ficar a mercê de uma pressão por vaga e por mais cursos que nda ajuda as pesquisas.
    A sociedade deve exigir que se ensine nas escolas vias altermativas de ascenção social que não coloquem como obrigatoriedade um curso numa USP ou UNICAMP. Deve-se incentivar o setor privado a oferecer qualidade e não só quantidade.
    A sociedade deve valorizar as pesquisas feitas na Universidade e utilizá-las. Não ver a Universidade Pública apenas pelos seus diplomas. Devemos formar empreendedores, valorizar os cursos técnicos e uma série de outros recursos para que não se onere socialmente a universidade pública da forma como se está fazendo!
    Nassif e demais “gestores”, outra questão pertinente é a dos Hospitais Universitários. Eles representam um gasto enorme para a Unviversidade. Eles serviços relevantes à população, que, de outra forma, ficariam sem atendimentos básicos, como aqui em Campinas. No entanto, ao criticar o valor gasto pelo Estado para formar um aluno (crítica clássica), computam o dinheiro destinado aos hospitais Universitários e o valor vai lá pras alturas.

  47. Wu Ming disse:

    1. “Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos.”

    Não são os professores que trazem reputação aos departamentos de exatas. São os departamentos de exatas “da USP” que dão reputação aos professores.
    Ser professor da USP em departamentos de profissões liberais é o melhor cartão de visitas que eles podem ter.
    É por isso, aliás, que esses professores nunca estão nas greves. Pra que? Eles ganham rios de dinheiro na iniciativa privada e ainda podem posar de bacanas com seus cartões de visita uspianos! O salário da USP para eles é o dinheiro da pinga…

    2. Enviado por: hugo
    “Aqueles alunos com vocação empreendedora, com tendência a desenvolver tecnologia, deveriam ser estimulados a montar sua empresa (as incubadoras), registrar suas patentes e ser colocado em contato com empresas.”
    Ok, e as empresas vão pagar royalties a USP pelo desenvolvimetno e pesquisa?Ou vai continuar a patifaria da univesrersidade gastar tempo e dinheiro em pesquisa e desnvolvimento para entregar o “produto” pronto para as empresas apenas conabilizarem os lucros?

    Nassif:
    Na Unicamp e na UFMG a universidade participa. De qualquer modo, é um ganho para o país.”

    Qua, qua, qua… Depois vc fica bravo porque virou verbete do Diccionário de Bolso do Almanaque Philosophico Zero à Esquerda…

  48. nassif:
    o documento da unesco de que falei acima :
    “tendências da educação superior para o século XXI”
    (anais da conferência mundial sobre o ensino superior,paris,5 a 9 de outubro
    de 1998).
    o calhamaço, com 720 páginas ,foi editado no brasil pela unesco/crub,com o apoio da capes.
    romério

  49. Formiga disse:

    O MEC está propondo a criação de gestores nas IFES para substituir, em parte, o papel da fundações. Estes gestores seriam responsáveis pela administração dos convênios e projetos das universidades. Talves seja uma porta para a profissionalização dos gestores locais. Acho difícil mudar a figura do Chefes de Unidades, Reitores e Pro-Reitores dos professores (eles equivaleriam a cargos de ministros que ditariam diretrizes gerais). Porém a parte executiva poderia passar para os administradores, inclusive as coordenações de cursos, tanto de graduação quanto de pós. Uma vez que demanda um tempo muito grande que poderia ser gasto com atividades fins.

    O problema hoje da IFES está nos salários. O dos professores melhorou, e também está-se exigindo mais, o que é bom, porém o nível de exigencia poderia ser maior. Já os técnicos-administrativos têm um dos salários mais baixos da administração federal (Engenheiro novo ganha em torno de R$ 1500,00, o mercado paga R$ 4000,00). E não tem segredo só teremos bons servidores com bons salários, pois caso contrário eles irão prestar outro concurso de outra carreira mais promi$$ora.

  50. Carlos Morais disse:

    Caro Nassif:

    A respeito deste trecho de seu texto: “Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos. Em outros campos, a marmelada começa nos próprios concursos para professores, em um sistema de compadrio que compromete a missão da Universidade”, informo que, nos próximos dias, lhe encaminharei relato detalhado do que aconteceu no recente concurso para Professor Adjunto de Literatura Portuguesa da UNIFESP (Campus de Guarulhos).
    Deixo aqui apenas uma pitada: docente universitário há 10 anos, docente em programa de mestrado há três, com um número razoável de publicações, orientações e participações em bancas de doutorado, mestrado e lato sensu, fui eliminado na primeira rodada do exame (a prova escrita), sendo que uma das selecionadas para o cargo nunca foi professora universitária, tem apenas experiência como professora de cursinho e ensino médio, baixíssima produção em termos de publicação, nenhuma em orientação.
    Logo lhe escreverei contando o milagre por inteiro… e os nomes e sobrenomes dos santos também, incluindo os que são professores da USP ou se formaram lá (o que foi meu caso também).
    Um abraço,

    Carlos

  51. Leandro disse:

    Ao Hugo e ao Eduardo Gigante:

    Colegas, na verdade o que temos na UNICAMP e UFMG, em relação à gestão da propriedade intelectual e transferência de tecnologia é a instituição de um NIT, para coordenar tais procedimentos.
    O que vem a ser isto? Núcleo de Inovação Tecnológica, estabelecido pela Lei da Inovação (art. 16, da Lei 10.973/04).
    Embora estas universidades já tivessem tradição nessa área, somente com o novo marco legal da inovação os NIT’s adquiriram a estrutura atual.
    E o mais animador é que várias instituições públicas de pesquisa e ensino (ICT’s, nos termos da Lei) implantaram o mesmo formato. A rede já é vasta em todo país, com destaque para o sudeste e o sul. E várias instituições privadas tem seguido o mesmo modelo, como exemplo posso citar a PUC/RS, referência nacional.
    Sendo assim, posso lhes assegurar que no atual contexto, na maior parte das universidades públicas não existe mais transferência de tecnologia sem contrapartida à instituição, nem tampouco descuido em relação à proteção intelectual.
    Ainda existem falhas, resistências de departamentos, de próprios pesquisadores, mas o cenário é positivo.
    Trabalho em um NIT, e se quiserem, posso fornecer mais detalhes, pois acho o tema apaixonante!
    Saudações!

  52. eufrasio disse:

    É uma tristeza ver o quanto se desperdiça de tempo na USP.
    Os caras tão discutindo relação…. Putz grila…

  53. Fabiano disse:

    Leigo nestes temas, mas profundamente consternado pelo espetáculo no campus da USP, que tem a virtude de fazer aflorar as contradições do modelo educacional brasileiro, registro minha surpresa em ler análise do nível de Edmar Roberto Prandini.

    Falhas na propositura dos temas, bem assinaladas por um professor por aí acima, não importa, trata-se de levar a experiência do blog aos seus limites.

    De resto, uma direção de direita (embora discreta, nem tanto) não vai prevalecer, mérito do formato do blog (reconheça-se a abertura, pontilhada, aqui e ali, por rasgos ditatoriais).

    Que volte Prandini, desenvolvendo o que esboçou.

    fabiano

  54. Heron disse:

    rogerio nacai, Lima e rita,
    Suponhamos que já fossem professores doutores orientadores de algum programa de mestrado/doutorado. Supostamente, seriam especialistas em alguma linha de pesquisa. Não conheço doutores especialistas no universo do conhecimento.
    Vocês orientariam alguém em uma linha de pesquisa na qual não são especialistas ?
    Não seria um CEGO guiando outro CEGO ?
    Como orientandos, o que achariam de um orientador que não é especialista no assunto no qual irão pesquisar ?
    Pq será que já temos algumas gerações de doutores formados e hoje orientadores e estes insistem em formar mestres e doutores nas áreas em que são especialistas ? Isso não é normal ?
    Sugestão a vocês:
    1. Ao decidir ingressar em uma pós-graduação, pesquisem pontenciais orientadores nas universidades em todo o Brasil (dependendo da área, talvez no exterior);
    2. Leia um pouco sobre os trabalhos de possíveis orientadores. Entre em contato com eles e fale sobre seu interesse em sua linha de pesquisa.
    3. Se necessário, e caso seja na sua mesma cidade, procure integrar-se ao grupo de pesquisa antes de submeter-se ao ingresso no programa.

    Certamente, com isso, suas chances seriam maiores. Especialmente em um doutorado.

  55. Waldyr Kopezky disse:

    Caro Nassif,

    Talvez uma pequena digressão sobre a USP ajude:

    De como as coisas nascem tortas, mas ficam direitas: a USP foi criada em 1934, na junção de várias faculdades paulistas. Até aí, nada demais – ela nasceu do conceito latino-americano de “universidade”, que é um conjunto de escolas, institutos e faculdades autônomas, cada um deles responsável por uma área do conhecimento – ela sendo gerada a partir de seu “embrião”, a FFCL (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras). Mas as verdadeiras razões de seu nascimento poucos sabem: a USP nasceu fruto do desejo da então elite paulista (os “Barões do Café”) de construir uma instituição de ensino superior com nível internacional, para que seus filhos não precisassem mais atravessar o oceano para estudar na Europa (eles haviam sido grandemente afetados pela crise de 1929, e já não possuíam mais os recursos frutos da exportação de uma commoditie valorizada). Só por isso.
    Por pressão desta elite, o governo do estado de SP assumiu a tarefa, trazendo da Europa várias missões de professores estrangeiros (principalmente franceses, italianos e alemães), que vieram dar aulas na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, cuja posterior divisão gerou boa parte das faculdades e institutos da Universidade.
    Incrivelmente, o que nasceu torto (voltado para as elites, que sabiam que conhecimento é poder) acabou por se endireitar com o tempo, tornando esta instituição pública uma potência, acessível a todas as classes. Senão, vejamos: é a universidade com o maior número de vagas de graduação e de pós-graduação no Brasil, sendo responsável também pela formação do maior número de mestres e doutores do mundo, bem como responsável por metade de toda a produção científica do estado de São Paulo e mais de 25% da brasileira. Como o Brasil é responsável por cerca de 2% da produção mundial, pode-se dizer que a USP é responsável por 0,5% das pesquisas do mundo.
    Da Wiki:
    “…Em 2008, foi classificada pela revista The Times”(The Times Higher Education Supplement) como a melhor universidade da América Latina e a 196ª do mundo…No Brasil, a USP tem assumido sistematicamente esse papel de destaque, atuando na criação de infra-estrutura científica e tecnológica e na formação da elite intelectual do país. A contribuição da USP para a história brasileira é evidente mesmo nos detalhes mais superficiais: mais de uma dezena de presidentes brasileiros se formaram na universidade,…que também formou 53 ministros na história do Supremo Tribunal Federal e cuja fundação precede em 108 anos a da própria Universidade….”.
    Agora, um pensamento: Por que o interesse em “matar” a USP, alijando-a de seu potencial humano (que é, afinal de contas, o seu maior patrimônio)? Porque informação e conhecimento são Poder (assim com maiúsculas). Matando a principal instituição de ensino do País, só poderão ter acesso a eles os filhos da elite, que terão condição de voltar a estudar no exterior, fazendo com que esta elite se perpetue pela mediocridade. Porque o dinheiro eles já recuperaram…Faltam apenas as posições na sociedade, perdidas para mentes mais brilhantes e menos favorecidas na escala social.

  56. Martins disse:

    Vale a pena lembrar que uma das grandes lutas do movimento estudantil de 1968 (com forte base na USP) era combater o famigerado acordo MEC USAID.
    Este acordo tinha como objetivo tirar de nossas Universidades o seu caráter de pesquisa transformando-a, em somente, reprodutora do conhecimento ( na época e até hoje em grande parte trazida do EUA).
    A Ditadura Militar mancumunada com os altos investimentos dos EUA no Brasil tratou de reprimir, prender e assassinar estudante que participavam das passeatas.
    A necessidade de transformar nosso ensino em mero reprodutor de conhecimento e formador de técnicos para atender as Industrias nascentes (principalmente a automobilistica) era revoltante.

    A USP como a principal Universidade do Pais, atraves de alunos e professores faziam barricadas de resistencia.
    A Ditadura Militar,usando a força das baionetas conseguiu calar esse movimento, venceu o acordo Mec Usaid.

    Encontrando um aluno de Economia da USP perguntei a ele se sabia o que eram os Juros e ele me respondeu:
    -é a remuneração justa do Capital.

    aí eu me calei e me convenci que o acordo MEC USAID venceu e vinga até hoje- A econometrização das Ciências Economicas foi feita.

  57. Mario Abramo disse:

    Caro Nassif,
    Tenho acompanhado com muito interesse este post. Aliás, parabéns pela excelente colocação inicial, embora eu discorde de pelo menos uns 70% ;-)
    Mas tou sentindo falta de uma coisa. Muito se falou da carreira do professor universitário, dos centros tecnológicos, da produção de conhecimento etc. e coisa e tal. Existe uma função (para mim, uma das mais sociais e importantes) precípua da Universidade que é a de formar professores para o ensino básico. São eles que irão dar o letramento científico (e aqui eu uso ciência em seu sentido mais amplo, não apenas nas exatas e biológicas, mas principalmente nas humanas) para os próximos alunos do ensino superior e para aqueles que ingressam de forma técnica no mercado de trabalho.
    Esta formação de professores vem sendo, há muito tempo, deteriorada. Bem antes do Paulo Renato, embora este tenha prestado um auxílio luxuoso para a deterioração, com a abertura das Uniesquinas e faculdades de pedagogia de fim de semana.
    Agora existe uma proposta da UNIVEST de “formar” professores em EaD. Eu não tenho nada contra EaD. Não vejo problema em formar engenheiros, nem economistas, nem cientistas de computação por meio de EaD. Mas professores ou médicos?
    Um professor não pode ser um “despejador de conteúdo”. Ainda mais quando existe uma tendência de privilegiar competências e habilidades. É necessária uma prática didática que só se conseguem em ambientes reais, interagindo com alunos reais.
    Abraços
    Mario Abramo
    PS: A Ruiva com certeza tem razão quanto à competência acadêmica da Suely. Já a Rainha tem uma visão da competência administrativa da Suely completamente oposta.

  58. fanon disse:

    Caro Nassif:
    Voce diz: “Na Unicamp e na UFMG a universidade participa. De qualquer modo, é um ganho para o país”.

    Já estamos cansados de ver discursos e “raciocínios” que insistem em chegar a maravilhosa conclusão de “QUEM GANHA É O PAÍS”.

    Só neste exemplo da educação, veja:

    Escola Pública > Universidade Pública = deve ser da e para a “sociedade” (aqui já cabe perguntar, quem da sociedade? A maioria – trabalhadores e pobres, “todos” indefinidamente, ou os de sempre, a minoria?)

    Vagas na universidade pública = o que existe hoje não faz nem cócegas na demanda da maioria da população, dos jovens, etc, que estão 85% pagando caro nas particulares (caça-níqueis), inclusive com Pró-uni, que ajuda à “todos” (300 mil vagas nas particulares) mas na verdade dá um dinheiro enorme para as privadas que daria para aumentar em 1 milhão o número de vagas nas públicas!!!.

    O que é ensinado na Universidade Pública: O que vem sendo ensinado na universidade pública no Brasil, pode citar “a melhor” ou “a mais eficiente”, tem cumprido qual papel? Está a seviço de quem? Tem transformado, ajudado, resgatado, criado, uma “sociedade” melhor? A universidade pública tem servido ao povo brasileiro? Ou ela tem ajudado a “todos” (leia-se a uma minoria)?

    Estamos cansados de ver expressões do tipo “Isso vai ser bom para o ‘país’”, “Aquilo é bom pra ’sociedade como um todo’”, “Este projeto, esta obra, esta reforma, etc, vai ser bom pro ‘Brasil”, etc, etc….

    E o que vemos? Que é bom para “todos” uma ova, que é bom para o ‘Brasil” uma ova. è bom pra minoria de sempre, os ricos, “da elite”, etc.

    Em todos estes discursos, é só voce substituir as palavras:
    “Brasil”, “todos”, “sociedade como um todo”,
    por:
    Ricos, Burguesia, ou minoria de sempre, privilegiados, “elite”, empresários, banqueiros, indústriais, etc, que daí sim dará o sentido correto de tudo que é feito e planejado pelo “nosso” Estado brasileiro.

    Pois seria ridículo discurirmos, ou acreditarmos, que algo feito, planejado, ou administrado pelo Estado está errado, ou que não serve à toda população etc, sem antes termos claro a quem serve este ESTADO, quais os atores hegemônicos deste mesmo ESTADO, que detém de fato o poder e controle do Estado.
    Esta discussão tem que ser feita, senão fica parecendo que o Estado é algo transcendente, acima das classes socais, imparcial, sem controle e sem interesses.
    O ESTADO brasileiro está na mão de quem? Então, sendo assim, obviamente servirá a esta minoria, à “elite” (empresários, banqueiros, agronegócio, etc).

    Discutirmos os projetos de educação pública, de universidade, os planejamentos ou obras do estado (desde a Sudene, Sudam, Avança Brasil, PAC, etc) xingarmos, criticarmos, só estaríamos nos atendo aos instrumentos utilizados pelo Estado, mas não o cerne da questão: quem manda no Estado?
    Pois se considerarmos (lembrarmos!) na mão de quem está o Estado, de quem realmente manda nesse país, aí sim poderemos discuitir em melhores condições certas coisas. Por exemplo, chegaríamos a conclusão de que muitos (pra não falar todos) dos planejamentos e obras feitas pelo estado brasileiro, não deram “errado” ou foram “ruins” como muita gente (eu mesmo) fala. Em vista do real interresse por trás do estado, era isso mesmo que esperavam (aqueles que mandam nas coisas). O planejamneto (e administarção do estado) é apenas o instrumento pelo qual a classe dominante (do estado, da política, das leis, etc) mantém seu poder, riqueza, seu estatus ‘quo’.
    Achar que o Estado vai (ou iria) fazer um projeto, um plano, um investimento, para ajudar a maioria do povo brasileiro, é de uma inocência repugnante para um “intelectual” minimamente instruído. Ou é achar que a burguesia é trouxa, que ela vai deixar, debaixo da sua barba, acontecer do Estado ajudar os pobres, os trabalhadores, enfim, dar educação boa e gratuita, terra, trabalho, a maioria do povo brasileiro. Mas num vai mesmo.

    Se não for os “de baixo”, os trabalhadores(as), o povo pobre, sem terra, sem escola, etc, que lutarmos para conseguirmos as coisas, não vai ser meia dúzia de especialistas, intelectuais, jornalistas, professores cátedras, ou políticos de plantão, que irão convencer ‘os verdadeiros mandantes no país” a abrir a mão e dar algo.
    O Bolsa Família do Lula é o máximo que conseguem dar!!! Até o Bush gastava mais com assistencialismo, e ninguém lá era louco de falar que isso era uma política de “esquerda”, como já ouvi aqui sobre o Bolsa família.

    Nassif, “De qualquer modo, é um ganho para o país” já está batido.

    Abraço aos lutadores, até.

  59. rita disse:

    para Heron:
    eu não sei… mas a minha profesora fazia justamente o que voce condena..

  60. Uiran Gebara da Silva disse:

    Uma contribuição muito importante de Maurício Tratemberg para uma discussão como esta.

    http://www.espacoacademico.com.br/014/14mtrag1990.htm

    A Delinqüência Acadêmica*

    Maurício Tragtenberg

    O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

    A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

    No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

    Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

    A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

    A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

    A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

    A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

    A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”. [1]

    Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

    A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

    O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

    Já na década de 30, Frederic Lilge [2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

    Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

    Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

    O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

    Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

    Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

    A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

    A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

    A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

    A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

  61. Frederico Graeff disse:

    Sou professor da USP desde 1966. Concordo com a maioria das propostas, destacando a necessidade de eliminar departamentos, avaliar a produtividade em todos o seus aspectos e entregar a gestao a especialistas. O grande problema e o de como implementar mudancas. Com o atual processo de decisao, acho muito dificil a mudanca se dar a partir do interior da Universidade. Como intervir de fora sem caracterizar uma violacao, o que provocaria reacoes conservadoras que poderiam inviabilizar o processo por muito tempo?

  62. luiz c l botelho disse:

    Prezado Nassif
    Tomo a liberdade de divulgar uma sugestão minha ao CNPQ ,em relação ao atual processo de concessão de Bolsas de Produtuividade Cientìfica do CNPq, ao meu ver bastante distorçido em relação a análise quantitativa de artigos científicos publicados Pergunta: Prezado Sr Fernando Bacanelli-Física/CNPq Tomo a liberdade de apresentar algumas sugestões para aperfeiçoar em um nível institucional, as avaliações deste CNPq, em relação a quantificação de valor das publicações científicas unicamente usando o índice de impacto do Jornal onde o artigo é veiculado. Primeiramente, chamo a atenção deste Conselho para o fato de que este fator de citação tem o fundamental aspecto de ser aditivo. Por exemplo: 3 artigos de índice de impactação 0.5 tem o mesmo valor de impactação-citação de um artigo 1.5! e não ZERO, como é presentemente avaliado pela maioria dos Comitês Assessores deste CNPQ-especialmente aqueles da Área de Ciências Básicas. Outro ponto relaciona-se a muito justa e leal necessidade da existência de fatores de peso em tal avaliação quantitativa de artigos e levando em consideração o número de autores e os números de páginas dos artigos sob avaliação : Por exemplo ,aquele procedimento de agrupar em faixas,seria-em minha opinião-; um procedimento não controverso Se o artigo possui entre 1 até 3 páginas, um dado fator de peso deveria ser associado e naturalmente diferente do peso associado aquele artigo na faixa de 3 até 6 páginas, etc…Outro ponto crucial , e mandatório para estimular as publicações das pesquisas nacionais em veículos internacionais, seria o pagamento direto aos autores de um dado valor, depois da publicação e levando em consideração os devidos fatores de peso acima sugestionados, já que são as publicações em veículos internacionais, independente de eventuais valores de impacto associados as mesmas, é que realmente contam- em sua quantificação-; na feitura das estatísticas de resultados e contribuições da Ciência Brasileira em fóruns internacionais.É um fato que é mais relevante para a Ciência Nacional ter 100 artigos publicados nos mais variados Jornais de Divulgação de nível internacional com árbitros, do que ter UNICAMENTE,por exemplo, a publicação de 20 artigos em revistas de alta impactação e sempre com a sua contagem dividida nas estatísticas e mérito acadêmico DESIGUALMENTE com instituições estrangeiras, devido a existência de ” co-autores menores “brasileiros em relação aos outros autores estrangeiros(e que muitas das vêzes se dizem autores principais das pesquisas apresentadas nestes artigos com autores brasileiros). Note que para as estatísticas internacionais de avaliação do fator de contribuição internacional da prática científica de um País, os 20 artigos “Qualis A” acima mencionados contam igualmente como 20 artigos de outras Qualis.È claro que tetos de pagamento para os autores,durante um dado período de tempo, deverá ser sempre limitado ao valor total de uma bolsa de Pesquisa, correspondente a este período. Acredito que estes procedimentos avaliatórios de artigos internacionais,caso aceito por este CNPq, certamente levará a um aumento considerável na colocação da Ciência Brasileira nas Estatísticas Internacionais, através do aumento de publicações de pesquisas nacionais de qualidade em Jornais Internacionais de todas as “Qualis” Atenciosamente Prof. Titular Luiz.C.L.Botelho-UFF
    Resposta:
    Prezado Sr. Luiz C.L.Botelho ,
    O Serviço de Atendimento agradece muitíssimo as sugestões encaminhadas ao CNPq. É importante conhecermos a opinião das pessoas que utilizam os nossos serviços: dessa maneira poderemos aperfeiçoá-los. Elogios, críticas e sugestões são sempre bem vindos.

    Assim, estamos encaminhando sua proposta para ser apreciada pela área responsável.

    O CNPq agradece a oportunidade de contato e coloca-se à disposição.

    Cordialmente,

    Serviço de Atendimento do CNPq

  63. Octavio disse:

    Simplesmente a melhor análise da situação das Universidades no Brasil que já li. Alêm de trazer propostas extremamente coerentes, Parabéns Nassif.

    Um comentário adicional. Como alguém que está a 17 anos no meio acadêmico, posso afirmar sem exagero:

    O sistema departamental das Universidades e institutos de pesquisa é (com raríssimas excessões) um sistema FEUDAL. Não é força de expressão não, é feudal mesmo. Qq um que tenha um mínimo de noção do que era o sistema feudal e conheça a estrutura departamental em Universidades e institutos de pesquisa nesse país, se prestar atenção percebe a verdade daquilo que afirmo e a similaridade dos sistemas.

    O que vemos são feudos dominados por senhores (chefes de departamento, chefes de laboratório, professores titulares etc) que delegam a quem desejam poderes e privilégios e todos alunos, pós-graduandos etc estão à mercê desses senhores.

    Entra na pós graduação quem eles querem, é contratado quem eles aprovam em concursos frequentemente não confiáveis (marmelada mesmo, ou o famoso concurso com ” CPF” da pessoa), recebe financiamento quem essa elite permite ( pois são eles que analisam projetos que serão financiados pelo CNPq e outras agências), tem espaço em congressos e simpósios quem eles deixam, vai pra fora fazer pós-doutorado quem eles dão acesso a isso, etc etc etc ( e bota etc nisso! ).

    Todos pagando tributos a eles, seja em forma de teses e publicações, ou de horas de trabalho, ou em bajulação e amaciamento de ego ou até mesmo formas que é melhor nem mencionar aqui, pois saem do campo da decência, seja ela moral ou profissional.

    Sempre peço a meus colegas e alunos: Quando estivermos “lá em cima” (consequência natural do tempo, pois eles se aposentam e/ou morrem) vamos tentar fazer diferente!
    Espero que um dia meus apelos sensibilizem ao menos uma fração das pessoas que leêm ou ouvem o que digo e eles façam diferente.Eu pelo menos fiz, faço e farei diferente.

  64. Octavio disse:

    Excelente o comentário:

    12/06/2009 – 13:29

    Enviado por: chris

    Divido com ela a mesma visão da situação atual , da supervalorização da quantidade em detrimento da qualidade.

  65. Maria Edite disse:

    Caro jornalsita,
    solicito uma informação, já que o senhor é uma pessoa bem informada: há possibilidade concreta de ser realizado um Mestrado ou Doutorado, à distância, com legalização/oficialização pelo MEC? Como posso fazer? Abraço.

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