Um discussão sobre a Universidade pública
Vamos pegar a deixa do João Vergílio e começar a discutir seriamente a USP. Colocarei algumas premissas, para tentar organizar um pouco a pauta.
Elemento 1 – a missão da Universidade.
Nos anos 90 houve grande discussão. De um lado, os que achavam que a Universidade deveria atender o mercado; do outro, os que consideravam que o único compromisso era com a ciência. E, para cumprir essa missão, o pesquisador deveria ficar solto, sem se amarrar a metas e avaliações.
Em um estudo clássico, o então reitor da UNICAMP, Britto Cruz, colocou a discussão nos devidos termos. O papel da Universidade é formar alunos e fazer ciência, prospectar as fronteiras do conhecimento. Aqueles alunos com vocação empreendedora, com tendência a desenvolver tecnologia, deveriam ser estimulados a montar sua empresa (as incubadoras), registrar suas patentes e ser colocado em contato com empresas. Escritórios de patentes foram criados na UNICAMP e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Uma das maiores asneiras propagadas nos anos 90 – especialmente pelo ex-Ministro Paulo Renato – é que os governos deveriam se preocupar apenas com o ensino básico, deixando Universidades para segundo plano. Cometeu um crime contra a educação, a ciência e a tecnologia nacionais.
Elemento 2 – os agentes da Universidade.
Definidos os fins (formar alunos e fazer ciência), há que se trabalhar os meios. Todas as análises de meio deverão ter como foco central os fins.
Os professores – Quem produz conhecimento e forma alunos são os professores. Eles devem trabalhar em um local que, numa ponta, forneça as melhores condições de trabalho. Na outra, modelos de avaliação que meçam sua produtividade e grau de excelência. Publicação de papers é um modo, mas não apenas isso. Geração de patentes é outro, mas não pode ser o foco. Análise do que aconteceu com seus ex-alunos, um terceiro indicador, mas não exclusivo. A reputação acadêmica do departamento, outro. A avaliação dos alunos e funcionários, outro.
Os alunos – são os receptadores do conhecimento transmitido pelos professores. Por isso mesmo, devem ser um agente ativo de avaliação dos mestres e das condições oferecidas pela Universidade. Tempos atrás, fui convidado para ser ombudsman de um jornal da ECA/USP, muito bem feito, por sinal. Havia reportagens acachapantes sobre as más condições de funcionamento da USP, falta de manutenção, restaurantes caindo aos pedaços etc. Obviamente, há limites para a atuação dos alunos. O caminho é a definição de fóruns adequados de manifestação mas, principalmente, de clareza sobre a busca permanente da excelência universitária.
Os funcionários – o papel dos funcionários é fornecer a retaguarda administrativa e de serviços para os professores. Sua estrutura, tamanho, custo deve seguir estritamente o que for necessário para o bom funcionamento da Universidade. Mas, em fóruns adequados, deve opinar sobre temas a que estão ligados, como as condições de trabalho, as sugestões para melhorias, os compromissos de melhorias contínuas.
A direção – há três instâncias de poder na Universidade: os departamentos, o Conselho Universitário e a Reitoria.
Vamos, primeiro, discutir o modelo de gestão na Universidade, antes de retomar essa questão da governança.
Elemento 3 – a governança na Universidade.
Gerir uma Universidade é tarefa muitíssimo mais complexa do que administrar uma grande corporação. Na empresa, há objetivos definidos (produzir, gerar lucros), cadeia de comando verticalizada (a ordem vem de cima e se impõe sobre os departamentos), e formas conhecidas de articulação dos departamentos. A lógica da Universidade é outra e exige um modelo de governança diferente.
Mas o que existe hoje em dia é o caos.
A primeira instância de poder são os departamentos.
Em geral, são caixas pretas. Alguns buscam a excelência, outros são arenas de disputas entre os professores. A politização começa por ali.
Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos. Em outros campos, a marmelada começa nos próprios concursos para professores, em um sistema de compadrio que compromete a missão da Universidade.
A indicação de acadêmicos para cargos departamentais é uma excrescência que impõe duas perdas: mata-se o acadêmico e cria-se um mau gestor.
Por outro lado, as regras do MEC – especialmente para as federais – não estimula nenhuma forma de aprimoramento de gestão. Se um departamento conseguir economizar em atividades-meio, não terá como utilizar os recursos para atividades-fim. No ano seguinte, esses recursos serão retirados por serem considerados excedentes.
A segunda instância é o Conselho Universitário.
A implantação de eleição direta nas Universidades gerou, em muitas delas, o populismo acadêmico, de atendimento das demandas de professores e funcionários, deixando de lado a busca da excelência. No fundo, me parece ser um arquipélago de ilhas isoladas, cada qual buscando apenas o que interessa a si.
A terceira instância é a reitoria.
Veja bem, estamos falando em um desafio que o melhor CEO do país teria dificuldades em conduzir. Definir missão, enquadrar os departamentos em objetivos claros, criar modelos gerenciais (para as atividades-meio) que desobriguem os professores de serem atropelados pelas pequenas demandas do dia-a-dia, criar instâncias para as manifestações dos alunos e funcionários, ser o representante do contribuinte perante a comunidade universitária, cumprindo contratos de gestão, com objetivos claros.
Longe de mim criticar a reitora Suely – que foi orientadora da Ruiva e de quem ela tem a melhor das impressões. Mas não há a menor lógica de colocar uma boa pesquisadora, uma mestra exemplar, uma acadêmica premiada para um desafio de tal ordem, que nada tem a ver com sua formação.
Sem fóruns adequados, sem canais de comunicação, funcionários se organizam em torno do Sindicato, alunos em torno das Assembléias – legitimando seu ativismo com a barbeiragem dos gestores.
Vou parando por aqui para começarmos o debate.
Temas sugeridos:
1. Modelo de governança.
No modelo atual – Universidade com autonomia total (inclusive sem a obrigação de prestar contas), departamentos com autonomia total, professores que, depois de empossados, não são obrigados a manter o ritmo anterior de produção – é impossível romper esse círculo vicioso.
Minha proposta é que as Universidades passem a ser administradas por gestores acadêmicos – não um CEO de empresa, mas pessoas do meio, com conhecimento sobre a lógica da Universidade e que saibam manejar ferramentas de gestão. Não se trata de gerir a Universidade como uma empresa privada, isso é bobagem. O gestor tem que entender todas as especificidades, as necessidades operacionais, as características da produção acadêmica e prover os meios necessários. Mas tem que responder ao contribuinte com resultados.
Dizer isso é fácil. Difícil é definir um modelo de governça que permita a discussão da missão, da implementação de planos por sobre a estrutura de poder interno.
2. Modelo de departamentos.
Na era da interdepartamentalidade, é necessário pensar um novo modelo que acabe com as caixas pretas dos departamentos. De certo modo, eles estratificam o poder, como as velhas cátedras, impedem a renovação, o dinamismo, as novas ideias, os novos valores.
3. Modelo de financiamento.
A USP está presa, há anos, à questão dos aposentados, comendo cada vez mais seu orçamento, sem que o governo do Estado se proponha a agir. As Federais estão amarradas a procedimentos burocráticos que impedem a busca da eficiência na alocação de recursos.
Há que se aproveitar o momento para amarrar a questão do financiamento a novas formas de gestão acadêmica.
É muita coisa a discutir. Lanço aí as primeiras provocações.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Novo Modelo, Universidade Tags: deparamentos, Gestão, Universidade

Sou professor da USP desde 1966. Concordo com a maioria das propostas, destacando a necessidade de eliminar departamentos, avaliar a produtividade em todos o seus aspectos e entregar a gestao a especialistas. O grande problema e o de como implementar mudancas. Com o atual processo de decisao, acho muito dificil a mudanca se dar a partir do interior da Universidade. Como intervir de fora sem caracterizar uma violacao, o que provocaria reacoes conservadoras que poderiam inviabilizar o processo por muito tempo?
Prezado Nassif
Tomo a liberdade de divulgar uma sugestão minha ao CNPQ ,em relação ao atual processo de concessão de Bolsas de Produtuividade Cientìfica do CNPq, ao meu ver bastante distorçido em relação a análise quantitativa de artigos científicos publicados Pergunta: Prezado Sr Fernando Bacanelli-Física/CNPq Tomo a liberdade de apresentar algumas sugestões para aperfeiçoar em um nível institucional, as avaliações deste CNPq, em relação a quantificação de valor das publicações científicas unicamente usando o índice de impacto do Jornal onde o artigo é veiculado. Primeiramente, chamo a atenção deste Conselho para o fato de que este fator de citação tem o fundamental aspecto de ser aditivo. Por exemplo: 3 artigos de índice de impactação 0.5 tem o mesmo valor de impactação-citação de um artigo 1.5! e não ZERO, como é presentemente avaliado pela maioria dos Comitês Assessores deste CNPQ-especialmente aqueles da Área de Ciências Básicas. Outro ponto relaciona-se a muito justa e leal necessidade da existência de fatores de peso em tal avaliação quantitativa de artigos e levando em consideração o número de autores e os números de páginas dos artigos sob avaliação : Por exemplo ,aquele procedimento de agrupar em faixas,seria-em minha opinião-; um procedimento não controverso Se o artigo possui entre 1 até 3 páginas, um dado fator de peso deveria ser associado e naturalmente diferente do peso associado aquele artigo na faixa de 3 até 6 páginas, etc…Outro ponto crucial , e mandatório para estimular as publicações das pesquisas nacionais em veículos internacionais, seria o pagamento direto aos autores de um dado valor, depois da publicação e levando em consideração os devidos fatores de peso acima sugestionados, já que são as publicações em veículos internacionais, independente de eventuais valores de impacto associados as mesmas, é que realmente contam- em sua quantificação-; na feitura das estatísticas de resultados e contribuições da Ciência Brasileira em fóruns internacionais.É um fato que é mais relevante para a Ciência Nacional ter 100 artigos publicados nos mais variados Jornais de Divulgação de nível internacional com árbitros, do que ter UNICAMENTE,por exemplo, a publicação de 20 artigos em revistas de alta impactação e sempre com a sua contagem dividida nas estatísticas e mérito acadêmico DESIGUALMENTE com instituições estrangeiras, devido a existência de ” co-autores menores “brasileiros em relação aos outros autores estrangeiros(e que muitas das vêzes se dizem autores principais das pesquisas apresentadas nestes artigos com autores brasileiros). Note que para as estatísticas internacionais de avaliação do fator de contribuição internacional da prática científica de um País, os 20 artigos “Qualis A” acima mencionados contam igualmente como 20 artigos de outras Qualis.È claro que tetos de pagamento para os autores,durante um dado período de tempo, deverá ser sempre limitado ao valor total de uma bolsa de Pesquisa, correspondente a este período. Acredito que estes procedimentos avaliatórios de artigos internacionais,caso aceito por este CNPq, certamente levará a um aumento considerável na colocação da Ciência Brasileira nas Estatísticas Internacionais, através do aumento de publicações de pesquisas nacionais de qualidade em Jornais Internacionais de todas as “Qualis” Atenciosamente Prof. Titular Luiz.C.L.Botelho-UFF
Resposta:
Prezado Sr. Luiz C.L.Botelho ,
O Serviço de Atendimento agradece muitíssimo as sugestões encaminhadas ao CNPq. É importante conhecermos a opinião das pessoas que utilizam os nossos serviços: dessa maneira poderemos aperfeiçoá-los. Elogios, críticas e sugestões são sempre bem vindos.
Assim, estamos encaminhando sua proposta para ser apreciada pela área responsável.
O CNPq agradece a oportunidade de contato e coloca-se à disposição.
Cordialmente,
Serviço de Atendimento do CNPq
Simplesmente a melhor análise da situação das Universidades no Brasil que já li. Alêm de trazer propostas extremamente coerentes, Parabéns Nassif.
Um comentário adicional. Como alguém que está a 17 anos no meio acadêmico, posso afirmar sem exagero:
O sistema departamental das Universidades e institutos de pesquisa é (com raríssimas excessões) um sistema FEUDAL. Não é força de expressão não, é feudal mesmo. Qq um que tenha um mínimo de noção do que era o sistema feudal e conheça a estrutura departamental em Universidades e institutos de pesquisa nesse país, se prestar atenção percebe a verdade daquilo que afirmo e a similaridade dos sistemas.
O que vemos são feudos dominados por senhores (chefes de departamento, chefes de laboratório, professores titulares etc) que delegam a quem desejam poderes e privilégios e todos alunos, pós-graduandos etc estão à mercê desses senhores.
Entra na pós graduação quem eles querem, é contratado quem eles aprovam em concursos frequentemente não confiáveis (marmelada mesmo, ou o famoso concurso com ” CPF” da pessoa), recebe financiamento quem essa elite permite ( pois são eles que analisam projetos que serão financiados pelo CNPq e outras agências), tem espaço em congressos e simpósios quem eles deixam, vai pra fora fazer pós-doutorado quem eles dão acesso a isso, etc etc etc ( e bota etc nisso! ).
Todos pagando tributos a eles, seja em forma de teses e publicações, ou de horas de trabalho, ou em bajulação e amaciamento de ego ou até mesmo formas que é melhor nem mencionar aqui, pois saem do campo da decência, seja ela moral ou profissional.
Sempre peço a meus colegas e alunos: Quando estivermos “lá em cima” (consequência natural do tempo, pois eles se aposentam e/ou morrem) vamos tentar fazer diferente!
Espero que um dia meus apelos sensibilizem ao menos uma fração das pessoas que leêm ou ouvem o que digo e eles façam diferente.Eu pelo menos fiz, faço e farei diferente.
Excelente o comentário:
12/06/2009 – 13:29
Enviado por: chris
Divido com ela a mesma visão da situação atual , da supervalorização da quantidade em detrimento da qualidade.
Caro jornalsita,
solicito uma informação, já que o senhor é uma pessoa bem informada: há possibilidade concreta de ser realizado um Mestrado ou Doutorado, à distância, com legalização/oficialização pelo MEC? Como posso fazer? Abraço.