USP, greves e piquetes
O João Vergílio, corajosamente, expõe um tema que merece ampla discussão: o uso reiterado dos piquetes na Universidade e o desafio da legitimação das teses, sem o emprego da violência.
Vamos abrir uma discussão entre iguais aqui, com argumentos de ambos os lados e respeitando o contraditório. Aqui, não se está no terreno dos inimigos da Universidade pública, mas de seus defensores. Pautemos a discussão por esse prisma fundamental: o que é melhor para legitimar a grande USP.
Por João Vergílio
Agora que o pior já passou, é hora de nos sentarmos todos – professores, alunos e funcionários da Universidade de São Paulo – para fazermos uma reflexão a respeito dos gravíssimos incidentes ocorridos no campus durante a semana. O lugar por excelência da palavra foi invadido pela força bruta. Há algo de profundamente errado nisso tudo, e precisamos deixar de lado por um momento as paixões políticas e os partidarismos para buscarmos um solo comum onde todos possam se reconhecer.
Sei que é facílimo, num momento como este, refugiar-se na crítica à reitora. Sua situação não poderia ser mais frágil. Comprou briga com a “direita” quando não chamou a polícia, e agora comprou briga com a “esquerda”, ao chamá-la. Foi inábil? Talvez tenha sido, não sei. Um juízo depende, neste caso, do acompanhamento miúdo das negociações, e da consideração cuidadosa das opções disponíveis. Evitarei, por isso, este discurso fácil.
Na raiz de todos esses problemas que enfrentamos, não está uma reitora, mas o uso de certos instrumentos políticos que me parecem completamente incompatíveis com os ideais de universidade que, agora, todos parecem dispostos a invocar quando fazem a condenação das ações da polícia. Eu me refiro aos piquetes e às invasões de prédios públicos. Alunos e funcionários usam e abusam desses dois instrumentos de luta ano após ano, sob os olhares complacentes (quando não coniventes) de muitos professores. Chegou a hora de dizermos com toda a clareza que tais métodos são violentos e, nessa medida, absolutamente incompatíveis com a vida acadêmica – tão incompatíveis, ou mais, do que a presença da polícia dentro do campus.
A dificuldade de mobilizar a comunidade acadêmica para empunhar suas bandeiras leva lideranças radicais e insensatas a lançar mão desses instrumentos. As greves na USP são, em grande medida, dependentes dos piquetes e das invasões. Os piquetes garantem o esvaziamento das salas de aula e das repartições, enquanto as invasões dão à imprensa a dose de escândalo necessária às manchetes e às fotos de primeira página. O primeiro grande problema é que, ao fazer isso, os grevistas colocam-se fora dos marcos institucionais. Sou perfeitamente capaz de aceitar quebras da legalidade em situações extremas, que a justifiquem. Mas, exatamente para poder argumentar com alguma razão nesses casos extremos, não posso admitir a banalização da ilegalidade.
Piquetes são proibidos por lei. Invasões de prédios públicos também. Em ambos os casos, a lei faculta, sim, o recurso à força policial. Foi o que fez a reitora. Se foi prudente, ou não, é outra história. O fato é que alunos, professores e funcionários que insistem em recorrer a expedientes ilegais não têm nenhuma razão para reclamar quando a universidade dá a eles a resposta institucional prevista nas leis do país.
Mas não gostaria de falar aqui apenas na força da lei. Há um segundo grande problema que devemos enfrentar. O recurso aos piquetes e às invasões de prédios públicos fere também os marcos mais elementares da convivência acadêmica. Se um aluno, um funcionário ou um professor não quer entrar em greve, ele tem todo o direito de fazê-lo, e esse direito deve ser assegurado. Assembléias são instrumentos legítimos de decisão, mas devem inserir-se numa sociabilidade previamente dada. Devem satisfações a uma ordem que elas não podem pretender refundar. Como é possível invocar ideiais de convivência acadêmica para condenar a violência policial, quando esses ideiais foram solenemente ignorados durante todo o processo que antecedeu a chegada da polícia?
Greves são instrumentos normais de pressão. Ninguém deve ser perseguido ou estigmatizado pelo fato de estar defendendo ou simplesmente aderindo a um movimento grevista. Greves são normais. Piquetes não são normais, nem aceitáveis. Piquetes são intervenções físicas, violentas, que visam a impedir o exercício de um direito garantido pelas leis e sancionado pelas regras mínimas da civilidade. Se os grevistas querem adensar o movimento, devem argumentar, e não interpor corpos ou barricadas à entrada daqueles que, por quaisquer motivos, discordam deles.
Quem invade um espaço público, por outro lado, demonstra o mais completo desapreço por aquilo que deveria pautar as ações de pessoas que lutam por uma presença forte e decisiva do Estado no interior do sistema capitalista, corrigindo-lhe as distorções – o sentido do bem comunitário, que não é meu, nem seu, e do qual eu não posso dispor a meu bel prazer. Temos que renunciar firmemente a isso dentro da universidade. A comunidade acadêmica não age com os braços, nem com as botinas. Age com a palavra. As portas da reitoria arrebentadas a socos e chutes são um monumento à violência, são o oposto do diálogo, e nos expõem ao ridículo diante de toda a sociedade que paga os nossos salários.
A violência dentro da universidade tem que ser contida, meu caro Nassif. A qualquer custo. Está se criando o palco para enfrentamentos muitíssimo mais graves do que esses que as televisões mostraram, com seu habitual gosto pelo escândalo irrefletido. Não me refiro a uma volta da polícia, embora esta não esteja descartada. Estou me referindo a enfrentamentos entre estudantes. Rogo a meus colegas que examinem o material disponível na Internet. Há uma revolta imensa crescendo dentro de outras unidades da USP contra esses métodos toscos de “fabricar greves” a qualquer custo. Como podemos articular um discurso minimamente crível contra a violência, se nós mesmos a coonestamos? Quando caminhões de som do sindicato dos funcionários vão à Poli inviabilizar no berro as aulas nas unidades, o que podemos esperar como resposta? E, acima de tudo, que tipo de resposta estaremos em condições de dar, quando for preciso?
Temos que iniciar um grande movimento na universidade pelo fim dos métodos violentos de luta. Quem quiser participar de nossa comunidade tem que aceitar as regras do convívio democrático. Piquetes são ações violentas, e nenhuma assembléia de alunos, professores ou funcionários possui legitimidade para autorizar a sua prática. Invasões são ações criminosas. Quem as pratica merece ser processado nos termos da lei, e não tem condições de se inserir na vida universitária. É só rejeitando a violência que temos praticado de forma tão habitual e tranquila que expulsaremos a polícia do campus. Se não queremos a violência policial, devemos cuidar de não sermos, nós mesmos, violentos. De uma comunidade que deseja ser reconhecida pelo primado da racinalidade, o mínimo que se pode esperar, afinal de contas, é um pouco de coerência.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Universidade Tags: greve, piquete, USP

Sabe o que está me parecendo? Que as greves na USP simplesmente não estão sendo construídas. E isto tem a ver com a distância entre representantes e base.
Tomo por exemplo a minha experiência no Ensino Municipal em São Paulo: a nossa última grande greve foi em 2006 e durou 17 dias. Durante este período, foram formados comandos de greve, encarregados de conversar nas escolas que não aderiram à greve no início. Mesmo em outros momentos, como uma paralisação de um dia, procuramos discutir a posição dos professores em cada período de aulas e dos funcionários também, e com tempo hábil para avisar os pais dos alunos (pelo menos é assim na escola em que trabalho). Não forçamos ninguém a aderir, e os professores que não paralisam têm que avisar seus alunos para vir às aulas deles.
Pela dimensão da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, é inviável fazer piquete em cada escola, e quando eles acontecem, são em escolas com histórico de não-adesão. Mas não sem antes o comando de greve passar e conversar com os colegas dessas escolas. Isto tudo é possível porque temos uma estrutura de representantes por escola que se encontram bimestralmente (que, infelizmente, tem sido reduzida pela Prefeitura).
Me pergunto se o Sintusp e a Adusp têm esse tipo de representação por Departamento ou por setor. Como ex-aluna da ECA, sei que pelo menos formalmente deveria haver esta representação por curso entre os alunos, mas depende muito do empenho do DCE e dos CAs (para quem não sabe, as eleições do DCE e dos CAs são independentes, como as eleições, para prefeito, governador e presidente – ocorre de alguns CAs não estarem alinhados politicamente ao DCE e nem a qualquer outra organização).
Estou lendo o Estatuto do Sintusp. Ele prevê representantes por unidade (Faculdade, Escola, Instituto), mas não prevê nenhuma representação abaixo desta (por Departamento ou por setor).
Na Adusp, a representação também é por unidade, mas dependendo da unidade, bem que poderia ser por Departamento (pensem na ECA, por exemplo, onde cada Departamento é um curso).
Falta representação mais próxima da base, para ter um contato mais próximo, nos dois sindicatos da USP e no DCE. Não estou dizendo que a representação sindical na Rede Municipal de Ensino de São Paulo seja perfeita (também temos nossos problemas), mas pelo menos ela é um pouco mais arejada.
Uma melhor organização de base permite que mais pessoas tenham, se não consciência dos problemas, pelo menos informação para opinar. Só que, em posse da informação, é importante que elas vão à assembléia votar, ainda que seja para votar contra.
E, quanto à tropa de choque no campus, ela só serve para piorar as coisas – o trabalho dela é impor a ordem pela força, todo mundo sabe disso. A Magnífica Senhora Reitora deveria ter exercido a magnificência que se espera do cargo que ela ocupa e recorrido à negociação. Pelo que estou vendo, a reitora não chama pra si a responsabilidade de manter o funcionamento harmonioso da USP, passando a batata-quente para o governador, que, bem… não é um primor em resolução de crises, para dizer o mínimo.
Só mais uma coisinha: acho lamentável um professor ter uma postura negligente como a mostrada no comentário das 11:50 do Júlio Pubikher reproduzindo um texto do próprio João Vergílio. Por mais careca que ele esteja de saber cada palavra do discurso do movimento estudantil, cabe a ele ouvir e argumentar. Que adianta vir argumentar aqui no blog depois do estrago em vez de argumentar junto a seus alunos quando teve a oportunidade, antes do estrago acontecer? O compromisso de um professor para com seus alunos não é só passar a matéria, é também conversar com os alunos sobre os acontecimentos que os afetam – e que afetam o professor também.
Sinceramente, parei de ler na hora que o Vergílio diz que o probkeam não é a reitora mas os piquetes.
E depois ele quer uam discussão sem ‘partidarismos’. Ele é partidário de quem tem o poder de gestão.
Já foi dito aqui por testemunhas que o piquete na reitoria só foi feito pq os funcionários da reitoria erama meaçados caso aderissem à greve.
Tá certo, o problema são os grevista se os piquetes…
Pior é o reacionarismo do João Vergílio ser disfarçado de bom moço.
Prefiro os direitistas que pelo menos expõem claramnete o que são.
Sobre a demissão política e ilegal de um dirigente sindical, isso não é violência contra os direitos políticos!!! Certamente João Vergílio não s eimporta com isso.
Terça-feira estarei na manifestação. E se tiver que fazer piquete o farei.
Para rir no feriadão:
A invasão da USP pela PM, segundo o professor Hariovaldo Almeida Prado:
“Avantes irmãos soldados do bem com fé suprema em São Serapião, aqui não há quem vos derrote e nem quem desafie vossa galhardia! Alvíssaras!!!
Que esse ato de bravura e heroísmo desferido pelas forças policiais contra a cúpula marginal, baderneira, vermelha vermelha vermelha pra car****, filhos de Chaves; os exemplos do setor mais próspero do governo paulista: a Educação, modelo a ser seguido por toda a nação brasileira com os avultosos salários pagos aos profissionais desse setor; as forças de nosso amado e devoto São Serapião (São Serapião, São Serapião, não nos deixe na mão, Amém!), permitam a vitória do Governador José Serra ao merecido cargo de Presidente da República (Rogai por nós São Serapião).
Somente assim colocaremos fim às máculas criadas nesse país pela corrupção que nos assolou nos últimos tempos, manchas que jamais havíamos visto.
Que a ordem seja restabelecida e a tradição não se perca de vista.”
Texto reproduzido pelo PHA , ver post completo in: http://hariprado.wordpress.com/2009/06/09/debelado-foco-guerrilheiro-na-usp/#comment-2070
Casa de ferreiro espeto de pau
cnde deveriam ser usados argumentos
como armas de discussao
o que se ve e pau, pedra e palavras de baixo calao.
Para João Vergílio
Não moro em SP, mas leio em blogs que o governador não negocia com nenhum movimento revindicatório.
Seu texto muito bem escrito e argumentado, tem uma face de quem nunca participou de greve por achá-la justa, inclusive em algum comentário acima alguém fez um comentário semelhante.
Tem um romance de Emile Zola, Germinal, que descreve uma greve nas minas de carvão da França no início do século XIX. O que fazer quando os envolvidos a favor e contra têm níveis de consciência de classe bastante díspares? Os piquetes são justificáveis quando fura-greves, muitas vezes contratados para isso (mais na industria) forçam a entrada para criar o conflito e justificar a intervenção policial.
O histórico do governador não recomenda o benefício da dúvida. Tem por princípio não negociar, que ele aprendeu no período da ditadura aqui e com Pinochet.
Em algum lugar será que a imprensa verá isso?
http://www.youtube.com/watch?v=umPd5Sz9tjQ
André,
Digo que os sindicatos e organizações de estudantes perderam a capacidade de dialogar com aqueles que supostamente representam. Fui aluno de graduação e pós na FFLCH e, como muitos colegas, todas as vezes em que participei de assembléias e reuniões de alunos o que vi foram grupinhos organizados manipularem a pauta das discussões (incluindo questões como transgênicos, Oriente Médio etc.), sem falar em intervenções mais exaltadas e ofensivas, para deixar a votação sobre a realização ou não da greve e o modo de atuação para o fim de noite, quando o quorum havia se reduzido.
E se é uma falácia o argumento de que a maioria dos professores, funcionários e alunos não aderiu, como afirma “emr”, por que foram feitos os piquetes? Por que diversos alunos e professores de outras unidades afirmaram estar em sala de aula durante a manifestação? Estão mentindo?
Repudio a ação da polícia e as atitudes da reitora! Mas é importante que funcionários, alunos e professores reflitam seriamente sobre o que ocorreu, sobre novas formas de representação e reivindicação que ainda precisam ser construídas. E, principalmente, sobre o porquê de boa parcela da população ser alheia, quando não antipática, ao movimento, à universidade pública e academia em geral.
Enfim, é importante que a discussão não se polarize entre os defensores da “pseudo-comuna-de-paris” e os adeptos do “tem-que-baixar-o-pau-nesses-vagabundos”.
Indo na linha de pessoas que situaram os ultimos acontecimentos ao contexto de violência em que as universidades publicas estão inseridas, sugiro que se preste mais atenção ao que cada um pensa como violência, marco institucional e direitos. O João Vergílio deve saber que a greve já foi uma forma de ação ilegal, fora dos “marcos instituicionais” e rejeitada pelos mesmos argumentos que ele usa contra ocupações e piquetes. Estes últimos, aliás, costumam descambar para a força física por falta de diálogo.Coerção não é feita só com força fisica. Sou estudante de um instituto de humanas da Unicamp e, por isso, também preciso chamar a atenção para a heterogeneidade das universidades. As reivindicações das areas humanas são outras, e, normalmente, as menos ouvidas em relação às áreas que produzem patentes e solução para o mercado, que devem ter outras preocupações. Pode ver que quem mais se mobiliza é dessas áreas, pois são elas as que mais sentem os efeitos dessa violência. As ocupações e piquetes são as ações que podemos ver como extremas, mas a situação é extrema. Imaginem que os professores do meu instituto já estão falando em decretar concordata.
Nesse cenário, o que é violência?
João, leia:
Folha de São Paulo, 09 de maio de 1999. Caderno Mais!
A universidade operacional
Marilena Chaui
A Reforma do Estado brasileiro pretende modernizar e racionalizar as atividades estatais, redefinidas e distribuídas em setores, um dos quais é designado Setor dos Serviços Não-Exclusivos do Estado, isto é, aqueles que podem ser realizados por instituições não-estatais, na qualidade de prestadoras de serviços. O Estado pode prover tais serviços, mas não os executa diretamente nem executa uma política reguladora dessa prestação. Nesses serviços estão incluídas a educação, a saúde, a cultura e as utilidades públicas, entendidas como “organizações sociais” prestadoras de serviços que celebram “contratos de gestão” com o Estado.
A Reforma tem um pressuposto ideológico básico: o mercado é portador de racionalidade sociopolítica e agente principal do bem-estar da República. Esse pressuposto leva a colocar direitos sociais (como a saúde, a educação e a cultura) no setor de serviços definidos pelo mercado. Dessa maneira, a Reforma encolhe o espaço público democrático dos direitos e amplia o espaço privado não só ali onde isso seria previsível -nas atividades ligadas à produção econômica-, mas também onde não é admissível -no campo dos direitos sociais conquistados.
A posição da universidade no setor de prestação de serviços confere um sentido bastante determinado à idéia de autonomia universitária e introduz termos como “qualidade universitária”, “avaliação universitária” e “flexibilização da universidade”.
De fato, a autonomia universitária se reduz à gestão de receitas e despesas, de acordo com o contrato de gestão pelo qual o Estado estabelece metas e indicadores de desempenho, que determinam a renovação ou não renovação do contrato. A autonomia significa, portanto, gerenciamento empresarial da instituição e prevê que, para cumprir as metas e alcançar os indicadores impostos pelo contrato de gestão, a universidade tem “autonomia” para “captar recursos” de outras fontes, fazendo parcerias com as empresas privadas.
A “flexibilização” é o corolário da “autonomia”. Na linguagem do Ministério da Educação, “flexibilizar” significa: 1) eliminar o regime único de trabalho, o concurso público e a dedicação exclusiva, substituindo-os por “contratos flexíveis”, isto é, temporários e precários; 2) simplificar os processos de compras (as licitações), a gestão financeira e a prestação de contas (sobretudo para proteção das chamadas “outras fontes de financiamento”, que não pretendem se ver publicamente expostas e controladas); 3) adaptar os currículos de graduação e pós-graduação às necessidades profissionais das diferentes regiões do país, isto é, às demandas das empresas locais (aliás, é sistemática nos textos da Reforma referentes aos serviços a identificação entre “social” e “empresarial”); 4) separar docência e pesquisa, deixando a primeira na universidade e deslocando a segunda para centros autônomos.
A “qualidade” é definida como competência e excelência, cujo critério é o “atendimento às necessidades de modernização da economia e desenvolvimento social”; e é medida pela produtividade, orientada por três critérios: quanto uma universidade produz, em quanto tempo produz e qual o custo do que produz. Em outras palavras, os critérios da produtividade são quantidade, tempo e custo, que definirão os contratos de gestão. Observa-se que a pergunta pela produtividade não indaga: o que se produz, como se produz, para que ou para quem se produz, mas opera uma inversão tipicamente ideológica da qualidade em quantidade. Observa-se também que a docência não entra na medida da produtividade e, portanto, não faz parte da qualidade universitária, o que, aliás, justifica a prática dos “contratos flexíveis”. Ora, considerando-se que a proposta da Reforma separa a universidade e o centro de pesquisa, e considerando-se que a “produtividade” orienta o contrato de gestão, cabe indagar qual haverá de ser o critério dos contratos de gestão da universidade, uma vez que não há definição de critérios para “medir” a qualidade da docência.
O léxico da Reforma é inseparável da definição da universidade como “organização social” e de sua inserção no setor de serviços não-exclusivos do Estado. Ora, desde seu surgimento (no século 13 europeu), a universidade sempre foi uma instituição social, isto é, uma ação social, uma prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação, que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela. A legitimidade da universidade moderna fundou-se na conquista da idéia de autonomia do saber diante da religião e do Estado, portanto na idéia de um conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão.
Por isso mesmo, a universidade européia tornou-se inseparável das idéias de formação, reflexão, criação e crítica. Com as lutas sociais e políticas dos últimos séculos, com a conquista da educação e da cultura como direitos, a universidade tornou-se também uma instituição social inseparável da idéia de democracia e de democratização do saber: seja para realizar essa idéia, seja para opor-se a ela, a instituição universitária não pôde furtar-se à referência à democracia como idéia reguladora, nem pôde furtar-se a responder, afirmativa ou negativamente, ao ideal socialista.
Que significa, então, passar da condição de instituição social à de organização social?
Uma organização difere de uma instituição por definir-se por uma outra prática social, qual seja, a de sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de meios particulares para obtenção de um objetivo particular. Não está referida a ações articuladas às idéias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a operações definidas como estratégias balizadas pelas idéias de eficácia e de sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. É regida pelas idéias de gestão, planejamento, previsão, controle e êxito. Não lhe compete discutir ou questionar sua própria existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso, que para a instituição social universitária é crucial, é, para a organização, um dado de fato. Ela sabe (ou julga saber) por que, para que e onde existe.
A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e busca definir uma universalidade (ou imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais.
Como foi possível passar da idéia da universidade como instituição social
à sua definição como organização prestadora de serviços?
A forma atual do capitalismo se caracteriza pela fragmentação de todas as esferas da vida social, partindo da fragmentação da produção, da dispersão espacial e temporal do trabalho, da destruição dos referenciais que balizavam a identidade de classe e as formas da luta de classes. A sociedade aparece como uma rede móvel, instável, efêmera de organizações particulares definidas por estratégias particulares e programas particulares, competindo entre si.
Sociedade e Natureza são reabsorvidas uma na outra e uma pela outra porque ambas deixaram de ser um princípio interno de estruturação e diferenciação das ações naturais e humanas para se tornarem, abstratamente, “meio ambiente”; e “meio ambiente” instável, fluido, permeado por um espaço e um tempo virtuais que nos afastam de qualquer densidade material; “meio ambiente” perigoso, ameaçador e ameaçado, que deve ser gerido, programado, planejado e controlado por estratégias de intervenção tecnológica e jogos de poder.
Por isso mesmo, a permanência de uma organização depende muito pouco de sua estrutura interna e muito mais de sua capacidade de adaptar-se celeremente a mudanças rápidas da superfície do “meio ambiente”. Donde o interesse pela idéia de flexibilidade, que indica a capacidade adaptativa a mudanças contínuas e inesperadas. A organização pertence à ordem biológica da plasticidade do comportamento adaptativo.
A passagem da universidade da condição de instituição à de organização insere-se nessa mudança geral da sociedade, sob os efeitos da nova forma do capital, e ocorreu em duas fases sucessivas, também acompanhando as sucessivas mudanças do capital. Numa primeira fase, tornou-se universidade funcional; na segunda, universidade operacional. A universidade funcional estava voltada para a formação rápida de profissionais requisitados como mão-de-obra altamente qualificada para o mercado de trabalho.
Adaptando-se às exigências do mercado, a universidade alterou seus currículos, programas e atividades para garantir a inserção profissional dos estudantes no mercado de trabalho, separando cada vez mais docência e pesquisa. Enquanto a universidade clássica estava voltada para o conhecimento e a universidade funcional estava voltada diretamente para o mercado de trabalho, a nova universidade ou universidade operacional, por ser uma organização, está voltada para si mesma enquanto estrutura de gestão e de arbitragem de contratos.
Regida por contratos de gestão, avaliada por índices de produtividade, calculada para ser flexível, a universidade operacional está estruturada por estratégias e programas de eficácia organizacional e, portanto, pela particularidade e instabilidade dos meios e dos objetivos. Definida e estruturada por normas e padrões inteiramente alheios ao conhecimento e à formação intelectual, está pulverizada em microrganizações que ocupam seus docentes e curvam seus estudantes a exigências exteriores ao trabalho intelectual.
A heteronomia da universidade autônoma é visível a olho nu: o aumento insano de horas-aula, a diminuição do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade de publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões e relatórios etc. Virada para seu próprio umbigo, mas sem saber onde este se encontra, a universidade operacional opera e por isso mesmo não age. Não surpreende, então, que esse operar co-opere para sua contínua desmoralização pública e degradação interna.
Que se entende por docência e pesquisa, na universidade operacional, produtiva e flexível?
A docência é entendida como transmissão rápida de conhecimentos, consignados em manuais de fácil leitura para os estudantes, de preferência, ricos em ilustrações e com duplicata em CDs. O recrutamento de professores é feito sem levar em consideração se dominam ou não o campo de conhecimentos de sua disciplina e as relações entre ela e outras afins -o professor é contratado ou por ser um pesquisador promissor que se dedica a algo muito especializado, ou porque, não tendo vocação para a pesquisa, aceita ser escorchado e arrochado por contratos de trabalho temporários e precários, ou melhor, “flexíveis”. A docência é pensada como habilitação rápida para graduados, que precisam entrar rapidamente num mercado de trabalho do qual serão expulsos em poucos anos, pois tornam-se, em pouco tempo, jovens obsoletos e descartáveis; ou como correia de transmissão entre pesquisadores e treino para novos pesquisadores. Transmissão e adestramento. Desapareceu, portanto, a marca essencial da docência: a formação.
A desvalorização da docência teria significado a valorização excessiva da pesquisa? Ora, o que é a pesquisa na universidade operacional?
À fragmentação econômica, social e política, imposta pela nova forma do capitalismo, corresponde uma ideologia autonomeada pós-moderna. Essa nomenclatura pretende marcar a ruptura com as idéias clássica e ilustradas, que fizeram a modernidade. Para essa ideologia, a razão, a verdade e a história são mitos totalitários; o espaço e o tempo são sucessão efêmera e volátil de imagens velozes e a compressão dos lugares e instantes na irrealidade virtual, que apaga todo contato com o espaço-tempo enquanto estrutura do mundo; a subjetividade não é a reflexão, mas a intimidade narcísica, e a objetividade não é o conhecimento do que é exterior e diverso do sujeito, e sim um conjunto de estratégias montadas sobre jogos de linguagem, que representam jogos de pensamento.
A história do saber aparece como troca periódica de jogos de linguagem e de pensamento, isto é, como invenção e abandono de “paradigmas”, sem que o conhecimento jamais toque a própria realidade. O que pode ser a pesquisa numa universidade operacional sob a ideologia pós-moderna? O que há de ser a pesquisa quando razão, verdade, história são tidas por mitos, espaço e tempo se tornaram a superfície achatada de sucessão de imagens, pensamento e linguagem se tornaram jogos, constructos contingentes cujo valor é apenas estratégico?
Numa organização, uma “pesquisa” é uma estratégia de intervenção e de controle de meios ou instrumentos para a consecução de um objetivo delimitado. Em outras palavras, uma “pesquisa” é um “survey” de problemas, dificuldades e obstáculos para a realização do objetivo, e um cálculo de meios para soluções parciais e locais para problemas e obstáculos locais. Pesquisa, ali, não é conhecimento de alguma coisa, mas posse de instrumentos para intervir e controlar alguma coisa. Por isso mesmo, numa organização não há tempo para a reflexão, a crítica, o exame de conhecimentos instituídos, sua mudança ou sua superação. Numa organização, a atividade cognitiva não tem como nem por que realizar-se.
Em contrapartida, no jogo estratégico da competição no mercado, a organização se mantém e se firma se for capaz de propor áreas de problemas, dificuldades, obstáculos sempre novos, o que é feito pela fragmentação de antigos problemas em novíssimos microproblemas, sobre os quais o controle parece ser cada vez maior. A fragmentação, condição de sobrevida da organização, torna-se real e propõe a especialização como estratégia principal e entende por “pesquisa” a delimitação estratégica de um campo de intervenção e controle. É evidente que a avaliação desse trabalho só pode ser feita em termos compreensíveis para uma organização, isto é, em termos de custo-benefício, pautada pela idéia de produtividade, que avalia em quanto tempo, com que custo e quanto foi produzido.
Em suma, se por pesquisa entendermos a investigação de algo que nos lança na interrogação, que nos pede reflexão, crítica, enfrentamento com o instituído, descoberta, invenção e criação; se por pesquisa entendermos o trabalho do pensamento e da linguagem para pensar e dizer o que ainda não foi pensado nem dito; se por pesquisa entendermos uma visão compreensiva de totalidades e sínteses abertas que suscitam a interrogação e a busca; se por pesquisa entendermos uma ação civilizatória contra a barbárie social e política, então, é evidente que não há pesquisa na universidade operacional.
Essa universidade não forma e não cria pensamento, despoja a linguagem de sentido, densidade e mistério, destrói a curiosidade e a admiração que levam à descoberta do novo, anula toda pretensão de transformação histórica como ação consciente dos seres humanos em condições materialmente determinadas.
Também acho estranho o pao “paz e amor” do Joao, que é pra lá de reacionario, e endosso o comentario de Hans Bintje (# 11/06/2009 – 13:40)
O que cabe agora é a responsabilidade histórica de, por sobre as razões particulares, chamar à voz da razão, que manda negociar e parlamentar. Aos professores, funcionários e estudantes, da USP, solidariedade total, essa deve ser a consigna dos democratas que lutaram e lutam pela liberdade de expressão neste nosso país de violências inesgotáveis.”
no post anterior leia-se o PAPO “paz e amor”
Acredito que a discussão deve sair da superficialidade de “contra piquete e invasão usa-se a força do Estado para garantir o patrimônio público” O que esta no fundo dessa discussão é uma universidade sem autonomia política para resolver seus problemas. Ela pode ter autonomia para definir suas questões pedagógicas mas depende do Governo do Estado para liberar a suas verbas e para definir seus reitores. Não é a comunidade universitária que escolhe seus dirigentes. Além desse problema, que faz os retores terem compromissos com o Governador, existe o de que apenas uma categoria da comunidades universitária tenha a sua indicação do candidato a reitor valendo mais que a dos outros dois seguimentos da comunidade (alunos e funcionários). É uma questão de democracia não resolvida com a conquista, pela ação de alunos, funcionários e professores, da autonomia, parcial, universitária. Essa autonomia, na verdade, pode ser comparada à Revolução Burguesa. Uma classe, a dos docentes, ascendeu ao poder e legislam em causa própria até hoje. Na direção das universidades paulistas estão professores especializados em muitas áreas, produtores de conhecimento, mas sem capacitação para administrar, pois não são doutores em administração pública. Tomaram o poder mas não estão preparados para administrar conflitos. Além disso, impedem, através do assédio moral que funcionários e alunos defendam seus direitos fundamentais de ter um salário digno e um universidade pública gratuíta. Basta ficar atendo as decisões que são tomados pelos orgãos colegiados, que dirigem as universidades, para se constatar as facilidades dessa classe em detrimento das outras. Poderia usar muito mais espaço para relatar outras questões importantes, mas fico por aqui, encerrando dizendo que nos meus 36 anos de trabalho, a presença da policia no campus da Usp não se justifica. Estamos numa democracia onde o dialogo deveria prevalecer. É o que se espera de uma administração DOUTA!, com educação suficiente para promover a concordia!
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16028&alterarHomeAtual=1
Professor relata ação violenta da tropa de choque na USP
O professor Pablo Ortellado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da Universidade de São Paulo, relata com indignação a ação da tropa de choque da Polícia Militar no campus da USP. Ortellado defende que a comunidade acadêmica deve se mobilizar “diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação”. “Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos, autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário”, afirma.
Pablo Ortellado
Segue o relato do Prof. Dr. Pablo Ortellado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da Universidade de São Paulo, sobre os acontecimentos de ontem no campus da USP:
Prezados colegas,
Eu nunca utilizei essa lista para outro propósito que não informes sobre o que acontece no CO (transmitindo as pautas antes da reunião e depois enviando relatos). Essa lista esteve desativada desde a última reunião do CO porque o servidor na qual ela estava instalada teve problemas e, com a greve, não podia ser reparado. Dada a urgência dos atuais acontecimentos, consegui resgatar os emails e criar uma lista emergencial em outro servidor. O que os senhores lerão abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos de violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão de uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.
Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores tinham deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.
Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu
correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas).
Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.
Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que tinham sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado).
Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois
estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.
A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário.
Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais. Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.
Cordialmente,
Prof. Dr. Pablo Ortellado
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo
Leitores,
Aproveito o texto para uma reflexão.
Lembram, que há alguns anos no governo tucano já houve aquartelamento de policiais militares? Ou seja, a PM já entrou em greve e ocupou os quartéis.
O que ocorreria se um bando de contribuintes entrasse nos quartéis e tentassem dispersar os PMs?
Os PM armados, fardados, alimentados e amotinados nos quartéis reagiriam como?
A eficiência da PM tucana paulista se tornou conhecida mundialmente quando devolveram uma refém menor de idade a um seqüestrador armado há alguns meses, em Sto. André – SP.
Há poucos dias pudemos assistir na TV um assalto a banco em que foi utilizado até ônibus para bloquear rua e dezenas de pessoas foram obrigadas a auxiliar os bandidos.
Embora estejamos na era do telefone celular e a PM possua helicópteros e motos eles somente chegaram depois que os bandidos haviam se retirado do local do crime. Levaram por volta de 30 minutos para chegarem ao local. Um caminhão enorme dos bombeiros certamente chegaria primeiro.
Pelo despreparo fartamente demonstrado nas TVs não poderia esperar outro comportamento da PM no campus universitário senão o que vimos nas TVs, fotos e vídeos em blogs.
Piquete não significa necessariamente ato de violência dos grevistas.
Realiza-se piquete no mundo inteiro e este é aceito pela nossa justiça do trabalho, como legítimo ato de tentativa de pressão ao diálogo por parte dos manifestantes e de convencimento daqueles integrantes das categorias que não aderiram ao movimento.
O piquete busca chamar a atenção da sociedade, dos governantes e da comunidade acadêmica.
Aqui na Bahia a reitoria da UFBA já foi invadida por semanas pelos estudantes e nunca houve a necessidade ou iniciativa do reitor de chamar policiais para bater em estudantes..
A única vez que o reitor chamou a PF foi para expulsar a PM baiana que havia invadido o campus federal para perseguir e agredir estudantes que lutavam pacificamente contra reajuste de tarifas de ônibus em Salvador.
Estudei dez anos na USP, na década de 80 e conclui dois cursos de graduação.
Fui presidente de centro acadêmico, participei de várias greves e manifestações.
Nunca presenciei a agressão começar pelo lado dos manifestantes desarmados contra uma tropa de choque, mas já presenciei e vivenciei algumas agressões covardes por parte da PM paulista.
Não isento qualquer PM das autorias de suas agressões, pois ninguém é obrigado a cumprir uma ordem manifestamente ilegal, como agredir um manifestante desarmado.
A reação, quando necessária, deve ser proporcional à agressão sofrida senão deixa de ser um desacato à autoridade e passa a existir o abuso de autoridade.
Sugiro aos leitores acessem o site do DCE-USP para se manterem informados sobre a posição dos estudantes e alguns blogs citados pelos leitores..
Deixo minha solidariedade a todos os membros do campus da USP Cidade Universitária.
O texto do João Vergílio do ponto de vista estilistico está bom, mas quando se considera o seu significado real, é (…) e falso como uma nota de três reais.
Por parte de quem não quer a democratização da USP, há um esforço imenso para não discutir o fato de que o estatuto da Universidade remonta à ditatura militar, sendo ele autoritário e antidemocrático. O poder na USP não se concentra de fato na comunidade universirtária, mas está diretamente ligado ao Palácio dos Bandeirantes e a interesses particulares. Internamente são poucos que podem influenciar nos rumos da Universidade. E o que o Movimento Estudantil, funcionários e parte dos professores têm reivindicado é a democratização da Universidade, que só pode ser feita através de uma estatuinte soberana e democrática. No entanto esta ideia de estatuinte é negada sistematicamente pela burocracia universitária, burocracia esta que não dialogo com a comunidade. Lembre-se que a ocupação da Reitoria em 2007, foi deflagrada pelo fato de a Reitora não ter atendido a sistemáticos pedidos de audiência para tratar dos decretos do governo Serra, até que por fim conseguiu-se agendar uma audiêcia, a qual a reitorna não compareceu nem enviou representante. Aliás, diferente do que diz J Vérgílio, quem se nega à conversa são os gestores da Universidade, que apenas se dispõe a convesar quando a porta é arrombada, antes disto fazem ouvido de mercador enquanto seguem implantando projetos estranhos ao caráter público da instituição. É interessante lembrar que pelo menos duas reuniões do CO (Conselho Universitário) deliberou questões fundamentais para USP, ao arrepio do próprio regimento.
Portanto, se alguém quer de fato ver a Universidade dentro de uma suposta normalidade (visto que a anomalia parte dos próprios gestores) por que não defende uma estatuinte soberana? por que não defende remover tudo o que a Ditatura Militar fez entrar no estatuto da USP?
O Sintusp do Sr. Brandão está doidinho para arranjar um novo Edson Luiz e jogar no colo do Serra.
A visada não é a USP, mas a eleição presidencial.
Este comentário do Mario Abramo no Fora de Pauta de hoje tem que estar aqui:
# 11/06/2009 – 09:52 Enviado por: Mario Abramo
Caro João Vergílio
Discursinho bonitinho. Funcionaria, desde que o CRUESP (e por extensão o governo do Estado) estivesse disposto a dialogar. Mas não está, nem nunca esteve.
Contar uma historinha, passada em 79: reunião da CGP, Coordenação Geral Permanente da greve do funcionalismo. Lembro de algumas pessoas presentes: Modesto Carvalhosa, Menezes, Magno, Paulo Frateschi, David Capistrano Filho, Aitan Sipahi, bom, tinha mais ou menos umas cinquenta pessoas que se reuniam todas as noites. Lembro só que naquela época greve de serviço público era proibido. Um rapaz, de uma simpatia cativante, levanta e num economês carregado faz um pronunciamento que fez bem mais da metade do pessoal presente se interrogar de que lado estava. Perguntei quem era o fulano: José Serra. Depois esclareceu-se que ele estava se contrapondo ao Pastore e provando que existia dinheiro em caixa para o aumento. Ok, a greve finalmente foi vencida pelo cansaço, fomos derrotados e o salário que era ínfimo continuou do jeitinho que tava. Três anos depois, entra o Montoro: oba, agora a gente vai conseguir. Nada. Se tinha dinheiro, sumiu.
Segunda historinha: greve na Prodesp em 85. Tínhamos feito tudo direitinho no script pra greve ser considerada legal. Piquete de convencimento, não impedia as pessoas de entrarem e saírem, nem colocou em risco as atividades essenciais (pena, a gente podia ter dado um jeito de bloquear a folha do Palácio dos Bandeirantes). Consultei minha assessora judiciária, a probabilidade da greve ser legal era grande. Na calada da noite, mudaram o juiz. Liguei pra assessora. O suspiro que ouvi do outro lado foi significativo. Não deu outra. Greve considerada legal para todas as outras empresas (que não haviam entrado), e ilegal na Prodesp. Chutaí quem era o diretor de lá (não, não era o Serra não, mas quase).
Tou contando essas historinhas pra mostrar que nunca, em tempo algum, quer seja MDB, PMDB ou PSDB houve um tratamento correto do funcionalismo. Pelo menos aqui em SP. Não existe negociação. Se houve escalada de violência pelos movimentos sindicais, é fruto dessa incapacidade total de negociar. Jogar polícia em manifestante é criminoso. O batalhão de choque é completamente despreparado para controlar manifestação. Esse último ato do Serra (a reitorinha tanto faz, nunca prestou pra nada nem nunca vai prestar, bem feito pros tontos que votaram nela) é pior que a invasão da PUC-SP pelo Erasmo Dias. Naquele tempo a direita pelo menos se assumia.
É interessante notar que, justamente neste blog onde a mídia é tão criticada, muitos comentaristas compraram fielmente a versão da mídia, que adotou ipses literis a versão dos grevistas.
A principal informação falsa que a mídia difundiu sobre a greve é que se trata de uma greve da USP. Não é, não.
Vamos ser honestos. Esta é uma greve da FFLCH, não da USP. E mesmo dentro da FFLCH ela é minoritária.
Tomando a USP toda, menos de 1% dos alunos (são 80 mil) aderiu à greve. Ah, a alienação ainda acaba com este mundo redondo.
Alguns dirão que muitas aulas na FFLCH não foram dadas. De fato, não mesmo, mas por que não foram dadas? Por que essa minoria recorre aos piquetes violentos. O cardápio da moçada tem intimidação física, invasão de aulas, bloqueio das salas com cadeiras e mesas. Sempre foi e continua sendo na marra.
A agressividade desta moçada é tal que muitos professores e alunos simplesmente desaparecem da FFLCH, não estão dispostos a enfrentar este tipo de baixaria. Quem já passou por estas situações sabe que não há diálogo. No entanto, não custa lembrar que esta valorosa e corajosa trupe só faz isso na FFLCH. Na Poli, na FEA, nas Biológicas, nas Químicas, eles nem aparecem, não se admite tamanho desrespeito.
E por que a FFLCH?
Fui aluno da FFLCH no finalzinho da ditadura e desde então acompanho as coisas da minha Faculdade, onde passei anos deliciosos e fiz tantos amigos.
Os corredores da FFLCH são povoados por muitos mitos, alguns verdadeiros, louváveis, exemplos de grandeza e coragem de seus alunos, professores e funcionários. Mas alguns deles fugiram ao controle, ainda que tenham a melhor das origens.
Dentre esses mitos, nenhum se inflou mais que o mito da FFLCH como principal, quase único, centro da resistência à ditadura.
Essa imagem da FFLCH como um Don Quixote lutando sozinha pela democracia contra a ditadura é muito viva na cabeça dos alunos que estão chegando à Faculdade. A gente chega a pensar que só pessoas da Faculdade sofreram, nada ocorreu no resto do país naqueles anos de chumbo. Para muita gente que passou por lá, a FFLCH foi e continua sendo o centro do mundo.
Lembro-me de que assim que Lula assumiu alguns professores apareceram na mídia com aquele ar de: “pai, perdoai-vos, eles não sabem que fazem. Daqui a pouco seremos chamados!” E estão esperando até hoje.
Pois bem, muitos alunos, professores e funcionários jamais conseguiram ultrapassar a Rua Alvarenga. O seu mundo continuou a ser o grande umbigo chamado FFLCH. Para eles, a FFLCH continua sendo o timoneiro do Brasil. O futuro do Brasil começa, como sempre começou, na FFLCH.
Ora, é preciso manter aceso o mito. Organizam assembléias, povoam-nas de crédulos. Palavras certas para certos ouvidos. Aplaudem, gritam, revivem os bons tempos. Somos os caras!Transe total.
Por fim, o auge! O verdadeiro guerreiro não pode dispensar a batalha campal. Chamam a imprensa, saem às ruas, fecham tudo, provocam, lutam . . . viram mártires.
68 continua vivo na FFLCH.
Acho muito estranho alguém falar do “direito” de pessoas furarem a greve de suas categorias. Não vão às assembléias onde poderiam votar contra, e acham que ninguém deve impedi-los de atrapalhar um movimento democraticamente decidido. Alguém bateu em alguém que quisesse furar? Violência de cadeiras empilhadas e portões fechados com correntes? Ora, ora… Na hora de receber os aumentos conquistados pelos movimentos, não têm vergonha nenhuma.
Nassif,
tem uma lista enorme de professores da usp que poderiam lhe ajudar a pautar essas questoes da usp, mas o J.Vergilio é um dos menos indicados. Ou voce colocaria o Demetrio Magnoli aqui tambem?
Se for o caso, entao o seu blog já tem uma posição reacionaria declarada em relação às politicas publicas educacionais.
Uma pena…mais um caso na midia…