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11/06/2009 - 09:18

USP, greves e piquetes

O João Vergílio, corajosamente, expõe um tema que merece ampla discussão: o uso reiterado dos piquetes na Universidade e o desafio da legitimação das teses, sem o emprego da violência.

Vamos abrir uma discussão entre iguais aqui, com argumentos de ambos os lados e respeitando o contraditório. Aqui, não se está no terreno dos inimigos da Universidade pública, mas de seus defensores. Pautemos a discussão por esse prisma fundamental: o que é melhor para legitimar a grande USP.

Por João Vergílio

Agora que o pior já passou, é hora de nos sentarmos todos – professores, alunos e funcionários da Universidade de São Paulo – para fazermos uma reflexão a respeito dos gravíssimos incidentes ocorridos no campus durante a semana. O lugar por excelência da palavra foi invadido pela força bruta. Há algo de profundamente errado nisso tudo, e precisamos deixar de lado por um momento as paixões políticas e os partidarismos para buscarmos um solo comum onde todos possam se reconhecer.

Sei que é facílimo, num momento como este, refugiar-se na crítica à reitora. Sua situação não poderia ser mais frágil. Comprou briga com a “direita” quando não chamou a polícia, e agora comprou briga com a “esquerda”, ao chamá-la. Foi inábil? Talvez tenha sido, não sei. Um juízo depende, neste caso, do acompanhamento miúdo das negociações, e da consideração cuidadosa das opções disponíveis. Evitarei, por isso, este discurso fácil.

Na raiz de todos esses problemas que enfrentamos, não está uma reitora, mas o uso de certos instrumentos políticos que me parecem completamente incompatíveis com os ideais de universidade que, agora, todos parecem dispostos a invocar quando fazem a condenação das ações da polícia. Eu me refiro aos piquetes e às invasões de prédios públicos. Alunos e funcionários usam e abusam desses dois instrumentos de luta ano após ano, sob os olhares complacentes (quando não coniventes) de muitos professores. Chegou a hora de dizermos com toda a clareza que tais métodos são violentos e, nessa medida, absolutamente incompatíveis com a vida acadêmica – tão incompatíveis, ou mais, do que a presença da polícia dentro do campus.

A dificuldade de mobilizar a comunidade acadêmica para empunhar suas bandeiras leva lideranças radicais e insensatas a lançar mão desses instrumentos. As greves na USP são, em grande medida, dependentes dos piquetes e das invasões. Os piquetes garantem o esvaziamento das salas de aula e das repartições, enquanto as invasões dão à imprensa a dose de escândalo necessária às manchetes e às fotos de primeira página. O primeiro grande problema é que, ao fazer isso, os grevistas colocam-se fora dos marcos institucionais. Sou perfeitamente capaz de aceitar quebras da legalidade em situações extremas, que a justifiquem. Mas, exatamente para poder argumentar com alguma razão nesses casos extremos, não posso admitir a banalização da ilegalidade.

Piquetes são proibidos por lei. Invasões de prédios públicos também. Em ambos os casos, a lei faculta, sim, o recurso à força policial. Foi o que fez a reitora. Se foi prudente, ou não, é outra história. O fato é que alunos, professores e funcionários que insistem em recorrer a expedientes ilegais não têm nenhuma razão para reclamar quando a universidade dá a eles a resposta institucional prevista nas leis do país.

Mas não gostaria de falar aqui apenas na força da lei. Há um segundo grande problema que devemos enfrentar. O recurso aos piquetes e às invasões de prédios públicos fere também os marcos mais elementares da convivência acadêmica. Se um aluno, um funcionário ou um professor não quer entrar em greve, ele tem todo o direito de fazê-lo, e esse direito deve ser assegurado. Assembléias são instrumentos legítimos de decisão, mas devem inserir-se numa sociabilidade previamente dada. Devem satisfações a uma ordem que elas não podem pretender refundar. Como é possível invocar ideiais de convivência acadêmica para condenar a violência policial, quando esses ideiais foram solenemente ignorados durante todo o processo que antecedeu a chegada da polícia?

Greves são instrumentos normais de pressão. Ninguém deve ser perseguido ou estigmatizado pelo fato de estar defendendo ou simplesmente aderindo a um movimento grevista. Greves são normais. Piquetes não são normais, nem aceitáveis. Piquetes são intervenções físicas, violentas, que visam a impedir o exercício de um direito garantido pelas leis e sancionado pelas regras mínimas da civilidade. Se os grevistas querem adensar o movimento, devem argumentar, e não interpor corpos ou barricadas à entrada daqueles que, por quaisquer motivos, discordam deles.

Quem invade um espaço público, por outro lado, demonstra o mais completo desapreço por aquilo que deveria pautar as ações de pessoas que lutam por uma presença forte e decisiva do Estado no interior do sistema capitalista, corrigindo-lhe as distorções – o sentido do bem comunitário, que não é meu, nem seu, e do qual eu não posso dispor a meu bel prazer. Temos que renunciar firmemente a isso dentro da universidade. A comunidade acadêmica não age com os braços, nem com as botinas. Age com a palavra. As portas da reitoria arrebentadas a socos e chutes são um monumento à violência, são o oposto do diálogo, e nos expõem ao ridículo diante de toda a sociedade que paga os nossos salários.

A violência dentro da universidade tem que ser contida, meu caro Nassif. A qualquer custo. Está se criando o palco para enfrentamentos muitíssimo mais graves do que esses que as televisões mostraram, com seu habitual gosto pelo escândalo irrefletido. Não me refiro a uma volta da polícia, embora esta não esteja descartada. Estou me referindo a enfrentamentos entre estudantes. Rogo a meus colegas que examinem o material disponível na Internet. Há uma revolta imensa crescendo dentro de outras unidades da USP contra esses métodos toscos de “fabricar greves” a qualquer custo. Como podemos articular um discurso minimamente crível contra a violência, se nós mesmos a coonestamos? Quando caminhões de som do sindicato dos funcionários vão à Poli inviabilizar no berro as aulas nas unidades, o que podemos esperar como resposta? E, acima de tudo, que tipo de resposta estaremos em condições de dar, quando for preciso?

Temos que iniciar um grande movimento na universidade pelo fim dos métodos violentos de luta. Quem quiser participar de nossa comunidade tem que aceitar as regras do convívio democrático. Piquetes são ações violentas, e nenhuma assembléia de alunos, professores ou funcionários possui legitimidade para autorizar a sua prática. Invasões são ações criminosas. Quem as pratica merece ser processado nos termos da lei, e não tem condições de se inserir na vida universitária. É só rejeitando a violência que temos praticado de forma tão habitual e tranquila que expulsaremos a polícia do campus. Se não queremos a violência policial, devemos cuidar de não sermos, nós mesmos, violentos. De uma comunidade que deseja ser reconhecida pelo primado da racinalidade, o mínimo que se pode esperar, afinal de contas, é um pouco de coerência.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Universidade Tags: , ,

140 comentários para “USP, greves e piquetes”

  1. Ivan Moraes disse:

    “Sei que é facílimo, num momento como este, refugiar-se na crítica à reitora. Sua situação não poderia ser mais frágil”

    Ta, entao: eh falha da reitora ou eh falha sistemica? Saber eh facil, eh so descobrir se ela conseguiu aumento de salario depois da ultima greve porque quando eh falha sistemica, os abismo dos salarios aumenta, nunca diminui.

  2. Roberto Santos disse:

    Me impressionou o texto.
    Faz tempo que não vejo uma veemente defesa da violencia estatal como solucionadora dos conflitos como o texto acima.
    Mas se tratando em particular do campus de uma universidade, no caso a USP, foi estarrecedor.

    Essa linha de raciocínio, foi muito difundida no Brasil nos idos anos de 70 e 80.

  3. Renato disse:

    Sensacional o texto.

  4. Gustavo Amigo disse:

    João, pergunta simples, você já organizou alguma greve na sua vida? ou melhor, já aderiu a alguma?

  5. Marcelo Sobral disse:

    Bom texto, João, que detalha, responde e desenvolve algumas questões que postei anteriormente. Na verdade você foi bem além do que comentei então, pois meu questionamento era quanto á legitimidade do protesto dos estudantes e funcionários, porém sem tecer considerações sobre a forma com que vinha sendo conduzido. E a violência como ferramenta de protesto é um ponto crucial muito bem colocado em seu texto.
    Faz pouco li um artigo sobre fanatismo, e que ia além do fanatismo religiioso pois cobria as características desse fenômeno, entre elas “a intolerância diante de anseios contrariados”. Junto com o sentimento de infalibilidade (por estar iluminado por uma razão divina ou superior), cito aqui uma definição dada por Amós Oz: “a essência do fanatismo concentra-se na vontade de forçar as pessoas mudarem”. (esse artigo está na revista Leituras da História no 19)
    Bem, acalmados os ânimos e sentando-se à mesa, é hora de realmente se discutir a sério as razões para as queixas. Desejo sorte ao pessoal da USP :-)

  6. Yuri Ismael disse:

    A crítica do autor simboliza bem, a meu ver, a força da bancada “idealista pós-modernosa” da academia: a “violencia” contra símbolos (coisas e objetos) representados pela estrutura física da universidade, é nivelada e posta no mesmo patamar (se não num mais alto) da violencia contra pessoas (estudantes, professores, funcionários, etc.). Como já dizia o filósofo, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Recomendo que o senhor João Virgilio leia o depoimento do professor Pablo Ortellado, no site do Azenha: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/professor-denuncia-agressao-na-usp/ . Mesmo depois disso, Senhor Virgílio, ainda acha que dá para colocar no mesmo nível a “violencia” contra as coisas e a violencia contra seres humanos?

    Não há justificativa NENHUMA para o emprego de ações violentas contra protestantes PACÍFICOS.

    Gostaria de ver o Senhor escrever um texto sobre a violencia contra seres humanos e o exagero da resposta policial nesse caso. Se o faz para as coisas, por que não fazer para as pessoas, a bem da honestidade intelectual e da (pretensa) neutralidade academica?

  7. comentador disse:

    Primeiramente, como bem colocado, quero aqui defender a Universidade Pública como espaço para apresentação de idéias e da Política.
    O problema é que determinadas atitudes de gestores públicos e alunos diminuem o espectro da verdadeira ação política, fazendo com que esta seja vista em seu tom mais degradante. Ao assim agirem, ambos, gestores e alunos, diminuem o impacto das suas idéias sobre a Universidade.
    Erram os políticos, por não compreenderem que o uso da força é desmedido e reforça os seus oponentes. Erram os alunos, porque violam o direito da liberdade dos demais.

    Assim, não há sentido em posições que suprimem o direito dos demais, pois assim como os alunos rejeitam o uso da violência, acabam por fazer com os demais justamente aquilo que rejeitam

    Aqui em Brasília já houve grandes discussões com alunos da UNB que faziam piquetes e já me indispus com muitos, que confundiam o direito à liberdade dos outro com idéias de privatização e violência.

    Assim, em minha opinião, o espaço público pode e deve ser mantido. Os alunos podem e devem ter os seus direitos respeitados. Mas o uso da violência, de qualquer lado, deve ser mais bem equacionado e não ser de reiteradas práticas, como é a praxe.

  8. Jacy Lascaux disse:

    Concordo com o Vergílio em gênero, número e grau. Vamos avançar nessa linha. Favelas são invasões ilegais de terra. Quem constrói barraco em terra que não é sua está ferindo a LEI. Então, não pode reclamar se amanhã baixar polícia fazendo retirada à força. Ah, e dando tiros, tacando bombas… hummmm… que tal um pelotaozinho de fuzilamento, hein? Ah, só um incendiozinho, vai?!….

    Forçou a barra. A análise dele é exclusiva para o modelo USP.

  9. Luiz disse:

    O tema é interessante, mas, no meu modo dever, completamente descontextualizado.
    O que gerou a violência dos piquetes e das mob instituiçãopúblicailizações? Porque os professores apóiam (ou são complacentes) com tais práticas?
    Acredito que a questão é outra. Essas práticas somente se legitimam porque há umaoutra violência perpetrada contra a USP, a sua desvalorização como instituição pública de ensijo,pesquisa e extensão.
    Não é segredo de ninguém que os tucanos nunca apostaram nas universidades públicas. As federais passaram por isso. Somente agora vêm se recuperando do estrago de FHC e PR. Não é questão de partidarismo – embora eu não esconda minha posição política -, basta visitar qualuer federal hohe que, ao entrar, se sente que elas estão em franca recuperação. Há 3 anos não pipocam greve de professores (algumas há mais de 6 anos). Ampliaram-se os recursos, mudou a carreira dos docentes e servidores técnicos, há expansão de novas universidade e vagas (Reuni).
    A esquerda radical tentou boicotar o Reuni,mas não teve assistência. Portanto, a violência não foi compartihada pela comunidade universitária. Ni caso da USP, o que vejo é crescente tensão da comunidade comopoder executivo.

  10. Gustavo Amigo disse:

    Nassif,

    O argumento do João é de quem nunca organizou uma greve. Não sei se ele já organizou uma, mas quem já organizou sabe da importância do piquete no movimento de greve. E é perfeitamente possível fazer um piquete pacifico, que não fira o direito do cidadão de furar a greve.

    Em 2000, participei da organização da greve na USP em São Carlos. No dia seguinte a assembleia que deflagrou a greve no campus, nos organizamos as 5:00 da manhã para fazer piquete, que o doutor João tanto condena. Decidimos por um piquete pacifico, ou seja, não iriamos bloquear a entrada de ninguém que insistisse em entrar. Isso funcionou muito bem porque vários funcionários puderam aderir a greve sem aquela pressão de adesão exclusivamente pessoal, eles podem justificar o piquete.

    Numa greve é fundamental o piquete. Sem o piquete o trabalhador fica desarmado contra o chefe e os colegas. Com o piquete, que pode ser pacifico, o trabalhador fica amparado pelo movimento.

    Na minha visão, o piquete é legítimo, desde que seja pacífico, e fundamental para um movimento de greve.

    E por fim, quem disse que piquete é ilegal, com base no que?

  11. ISMAILSON ARAUJO DA SILVA disse:

    É CORROBORO TOTALMENTE COM ARTIGO ACIMA! É INADIMISSIVEL QUE PESSOAS DITAS CIVILIZADAS UTILIZEM-SE DE TAL EXPEDIENTE (VIOLENTOS E CRIMINOSOS) PARA LOGRAR EXITO EM SEUS ANSEIOS E IDEAIS DE ENSINO PUBLICO E DE QUALIDADE! A POLICIA SO USOU DA FORÇA LEGAL E NECESSARIA! AI NUM ATO DE TOTAL DESFARSATEZ (NO MOMENTO QUE A TELEVISAO MOSTRA AO VIVO O MOVIMENTO) ESTES PROTESTANTES JOGAM FLORES NA PM E AO PISCAR DOS CAMERAS JOGAM PEDRAS E OSTILIZAM A POLICIA, QUE ALI CUMPRIA ORDEM JUDICIAL! REALMETE ESTE TIPO DE ESTUDANTES SAO A VERGONHA DESTE PAIS! LAMENTAVEL!

    Sem exgaero. E a seleção de imagens na TV não costuma ser propriamente neutro.

  12. Guimarães disse:

    Sem dúvida!
    Violência só gera mais violência, de ambos os lados.
    A gente vê no vídeo estudante jogar pedra na polícia.
    Isso é barbarismo!

  13. A Folha estampou como imagem principal ontem a imagem de um estudante “atacando” um batalhão de soldados.
    Detalhe: o estudante estava “armado” com um caderno que nem chegava a ser de capa dura

  14. flavio disse:

    Só tem uma explicação. É a síndrome do pedófilo. Quem foi molestado (correu muito da policia) quando jovem usa os mesmos metodos quando adulto. E agora que o Serra pode acionar a policia, deve estar realizado.

  15. Alberto Cordiviola disse:

    A USP não é um mundo de anjos acadêmicos procurando a verdade filosófica da vida; a USP, como toda a universidade pública brasileira, é uma instituição em permanente transformação dialética, cheia de contradições portanto. Pensar que as contradições na universidade se resolvem com a palavra é como pensar que o problema do latifúndio e a reforma agrária se resolve na “democracia representativa”. É inerente à democracia o jogo de pressões, e nelas estão incluídas piquetes e invasão de edifícios públicos e privados. Claro que estão incluídos o uso da lei e da ordem por quem deles tem proveito: a reintegração de posse e a força policial. Cada qual paga suas consequências…
    “As portas da reitoria arrebentadas a socos e chutes são um monumento à violência, são o oposto do diálogo…” as portas fechadas da reitoria também.
    Apelar agora para o direito da maioria silenciosa é esquecer com quem estava essa maioria na época da ditadura, qual foi o papel do medo na in-mobilização de estudantes e professores durante o regime militar.
    Se não dermos espaço para os, poucos, que estão dispostos a uma luta desigual contra o peso das instituições e seus braços armados, estaremos matando a força que, historicamente, fez avançar a universidade brasileira. E que, aliás, gerou boa parte, senão a maioria, dos “quadros democráticos” que hoje ocupam as diferentes áreas de poder.
    E não se diga que aquilo era um regime de exceção e agora estamos num estado de direito. O estado de direito não é um limbo invariável mas uma construção permanente. E a maioria dos professores e alunos da USP ficou, aceitando aquele estado de exceção como a forma institucional vigente, quando foram demitidos os que se opunham ao regime.

  16. Mário Latino disse:

    Na verdade é que a USP não é mais que uma sombra do que outrora foi. Professores e alumnos alienados, sem nenhum interesse pelo que ocorre e está ocorrendo com a universidade pública (estadual). Nessas circunstâncias, como convencer a dita comunidade intelectual da necessidade de arregaçar as mangas e lutar por causas justas? E que era o que os grevistas pediam? Quase nada, reajuste salarial ínfimo, a descontinuação do projeto de universidade virtual, coisinhas de nada. E a reitora, incapaz de dialogar ou de manter canais de contato, fez a primeira coisa que podia, chamar a polícia. Com o apoio de Serra, é claro. Agora que enfrente as conseqüências.

  17. Jorge Verissimo Pereira disse:

    O autor diz que “Sua situação (da reitora) não poderia ser mais frágil. Comprou briga com a “direita” quando não chamou a polícia, e agora comprou briga com a “esquerda”, ao chamá-la. Foi inábil? Talvez tenha sido, não sei.” Mas espera um pouco, ela eh reitora da maior universidade brasileira e umas das maiores melhores do mundo. Como uma pessoa num cargo destes se deixa dobrar, seja por direita ou esquerda? Nao ha duvida, pode ser ate como ele disse algo facil culpar ela, mas nao tem como nao. A posicao que ela oculpa oferece prestigios e deveres tambem.
    “Piquetes são proibidos por lei. Invasões de prédios públicos também. Em ambos os casos, a lei faculta, sim, o recurso à força policial. Foi o que fez a reitora.” Deploravel isto. Um erro nao leva a outro muito maior. Um erro maior que pode ter efeitos devastadores com aumento de posicoes extremistas. O autor deve saber que nem tudo que eh legal eh aconselhavel ou ate etico. Em 2007 uma parte da UCLA, University of California, foi invadita por alunos. Eles montaram uma casa em cima de uma arvore para impedir a construcao de edificios na area que eles julgavam nao ser adequadas (motivo ecologicos). E tambem que a universidade nao tinha negociado com eles. O que fez a universidade? Segundo o Joao ela poderia tranquilamente jogar a policia e baixar a porrada, pq a universidade estava dentro da lei e os alunos nao. Pois bem, o que a UCLA fez foi so cerca a arvore, para as obras e negociar com alunos e nao deixar ninguem mais subir, e quem descesse da arvore nao conseguiria subir mais. Enquanto estive la, por 2 semanas, os alunos permaneceram la, sendo so enviado comida a eles.
    Quanto a estes piquetes, repito que antes eles nao eram assim. Mas o Nassif falou algo um tempo atras sobre greve na USP, algo como ser uma coisa q nao impacta na vida dos outros ai. Nao seria este o problema tb. O governo estadual e a reitoria nao estao nem ai, nao querem negociar pq uma hora eles teram que voltar a trabalhar, e pq tb esta greve nao desgataria o governo como uma greve no metro. Entao na falata de dialogo o extremismo aparece. Repito, antes nao se tinha invasoes assim. Ha erros de alunos fiuncionarios professores, logico que ha. mas foram potencializados pela desastrosa incapacidade da reitora. Sim Se ela esta la deve assumir os erros e acertos. Quem mais posso culpar pela falta de negociacao? O papa?

  18. André disse:

    Para esquentar o debate eu sugiro que todos vejam o vídeo do “sintusp wars” no youtube, simplesmente memorável.

  19. Cabocla disse:

    Na mosca, para variar, João…

    Quando eu era aluna da USP, a Medicina raramente aderia às greves.
    Éramos acusados-com razão- de não nos sentirmos pertencentes à Universidade, já que fazíamos – e parcialmente, nao sei como está hoje – apenas as matérias básicas na Cidade Universitária, durante os dois primeiros anos.
    Os outros 4 eram integralmente na Faculdade de Medicina, no HC e HU.

    Nos meus seis anos de Faculdade passei por apenas duas, ambas motivadas por problemas da própria Medicina:

    No meu primeiro ano porque a Congregação ameaçava não corresponder às regras do MEC para reconhecimento da Residência Médica, o que a transformaria em estágio, portanto sem o menor controle de horas trabalhadas, salários e título de especialidade – naquela época era automático sermos especialistas depois da Residência, desde que fosse reconhecida pelo MEC.
    Pois bem, os grevistas entravam nos intervalos da aula para falar conosco, exatamente como vc diz, agindo com as palavras.
    Quem aderiu, aderiu. Quem não, assistia às aulas normalmente.
    Paralelamente, o comando da greve fazia reuniões com a Congregação, que os recebia normalmente. Sem invasões, dentro da ordem.
    Apesar da Congregação ser reacionária e não muito preocupada com a opinião dos alunos, conseguimos, ela voltou atrás.

    No meu 5° ano tivemos greve dos residentes, que claro, tentavam nosso apoio. Aí pegou na veia. Sem residentes, os assistentes e professores tiveram que ir acompanhar os pacientes, ensinar os internos, toda essa “chatice” da vida de professor…
    Não foram expulsos, não sofreram sanções, não fizeram piquetes e conseguiram o pleiteado. Não houve violência de nenhuma das partes.

    Uma vez perguntei a uma amiga porque ela nunca entrava em greve. Ela me disse que as greves eram sempre para nosso interesse, para nosso umbigo. Não eram comprometidas com o público que nos custeava os estudos. Se eu já tinha visto greve por melhores condições de assistência à população. Fiquei passada de vergonha, mas era vero…

    No meu 6° ano – 1989 – foi o ano do massacre na Praça da Paz celestial na China, e era assim que o PS/HC era conhecido na grande imprensa…
    Pacientes nos corredores e até saguão de entrada, de tao lotado.
    Pos isso – pela falta de condições de atendimento decente à população – nem se pensou em greve….

    Uma greve que depende de uso da força, por não conseguir mobilizar com a palavra a comunidade acadêmica não é uma greve legítima, ainda que o instrumento o seja.

    De fato, chamar a polícia é radical, mas também como vc não sei julgar o que poderia ter sido feito e não foi pela reitora. Nem a estou defendendo. Mas a USP não é de quem estuda nela somente. É, como vc diz, um bem comum.

    A Medicina vive ainda uma outra dificuldade que não parece acontecer nos outros cursos. Os badalados professores – com as sempre raras e honrosas exceções – usam o estar ligado à Universidade para seu consultório, para a mídia, mas dar aulas?
    Isso fica para os residentes ou assistentes em início de carreira – até eles também chegarem lá e tirarem o corpo fora do ensino.
    Os internos fazem trabalho de auxiliar de enfermagem: empurram macas, levam pacientes a exames, colhem sangue…
    Enfim, a melhor Faculdade de Medicina do País poderia ser muito melhor.
    Nesses 20 nos de formada, nunca vi greve para isso.

  20. Cláudia disse:

    Uma boa forma de se conseguir avançar na discussão é começar a levar o assunto a sério, ou seja, parar de usar a situação para sustentar a ilusão do controle sobre o outro. Por exemplo, provocações bobocas como a falsa desqualificação (falsa porque o verdadeiro intuito é provocar, não desqualificar de fato) do pensamento alheio (”Evitarei, por isso, este discurso fácil”) não podem ter lugar na discussão. Porque é óbvio que se a decisão envolve a todos e deve ser tomada em conjunto, o reconhecimento da opinião do outro é condição sine qua non. Ou seja, tem de se olhar para o outro com um igual. Sorry. Depois, quando se declara pomposamente que se evitará o uso do discurso fácil, o mínimo que se espera do pretenso discurso difícil é que aponte para algum lugar real. Em lugar disso o que temos? Temos o velho e totalmente inobjetivo “temos”. “Temos que renunciar”, “Temos que iniciar…” , “É só rejeitando a violência que temos praticado”… Temos? Temos quem? Onde estão acontecendo as reuniões desse sujeito “nós”? Será no Gabinete da Reitora? No Palácio dos Bandeirantes, cujas posições claras e honestas tornam totalmente sem sentido esse apelo à violência no campus? Ou será ainda na sala de algum professor? Onde?
    É, que “temos” que conversar, “temos”. A questão é, podemos?

  21. Formiga disse:

    Tivemos um problema na UFG. O Conselho Universitário não conseguia se reunir pois toda vez que era marcada reunião (que é aberta) os estudantes “fechavam” seja com apitaços, seja tomando os microfones, etc. A “minoria” não queria ouvir o que a maioria da universidade decidiu. O Reitor colocou seguranças e disseram para que houvesse ordem e os estudantes disseram que ele era facista.

    Uma solução simples, seria abertura de processo administrativo, com expulsão sumária e rápida das pessoas que fizerem piquetes/invasões. No caso de funcionários e professores a demissão, mesmo para os efetivos, alei faculta isto.

    O problema é quando enfrentamos problemas sérios. Na outra universidade pública do estado (UEG), não fosse os piquetes a situação estaria pior.

    Foram os alunos e professores que ao invadir o prédio que conseguiram ser ouvidos nas suas propostas, que são relativamente simples:

    - contratação de professores efetivos (mais 70% são temporários)

    - o reitor deveria ser efetivo (não conseguiram devido a um absurdo mudaram o regulamento para que na última eleição, o atual reitor que não é concursado, pudesse ser eleito)

    - efetivo auxílio estudantil, o sistema era gerido pela esposa do ex-reitor, que não era formada ganhava um dos mais altos salários da universidade e não dava nada aos alunos.

    É difícil de distinguir manifestações justas, com radicais, e estas é uma das dificuldades da Universidade Pública. No entanto, sou totalmente contra a presença de Polícia na Universidade, pois uma hora ou outra, um policial irá dar um tiro em alguém.

    No caso das Federais, se não me engano, apenas a Policia Federal pode entrar.

  22. Edu Pedrasse disse:

    Este teu bom-mocismo chega ser romântico.
    Mas parece que tu não conheces o país que vive.
    Assististe a Trilogia “O Podereso Chefão”?
    Se ainda não viu assista. E preste atenção principalmente no 2º filme.
    Entenderás (espero) muita coisa sobre o lance da USP…
    Bom Feriado.

  23. Andre disse:

    João Virgílio,

    Você analisa a legitimidade das ações de radicalizaçao do movimento estudantil e dos sindicatos de professores e funcionários, e eu posso concordar com seus argumentos. Radicalização e violência nunca serão os meios mais saudáveis para reinvidicar direitos ou simplesmente protestar. No entanto, você não analisa o contexto histórico que culminou na situação atual, ou seja, quais os eventos históricos que levaram a essa radicalização ??? Talvez esteja aí as respostas para todo esse conflito.

    Eu sou baiano, nunca estive em São Paulo, mas fui do movimento estudantil durante toda a minha vida acadêmia. Fui presidente de Diretório Acadêmico, representante em congressões da Reitoria da UFBA. , memmbro de DCE, filiado à UNE.
    Eu sempre me pautei pela filosofia que você defende, o debate de idéias e manifestações pacíficas, mmas isso somente foi possível também por que os interlocutores acima de mim se mostraram susceptiveis à negociação. Por outro lado, houve certos momentos em que nos protestamos em massa e simplesmennte fomos ignorados, exatamennte por que o nosso movimento não interfiria ,na prática, no funcionamento normal da universidade, e a cúpula intransigente simplesmente não se interessava em debater e negociar. E no que isso deu ??/ Radicalização, violência e depredação, por conta do conflito gerado pela repressão imposta pela Reitoria.

    Então eu te pergunto….se você mesmo disse que não analisou “em miudos” as ações da reitora e as negociações anteriores à essa radicalização, é justo você pautar a sua crítiica somente analisando “filosofica, jurídico e politicamennte” as ações de um único lado da modea ????

    Da mesma forma que você faz essa análise unilateral eu posso também tecer o mesmo raciocínio pelo outro lado, ou seja:

    1 – A instrasigência da Reitora levou à radicalização do movimento
    2 – A presença da PM no Campus é foma de opressão às manifestações sociais no ambito da USP.
    3 – O uso de bombas e cacetetes foi completamente descabido e desproporcional.

    Posso citar como exemplo um caso em que o falecido ACM mandou a polícia invadir a UFBA, bater nos manifestantes que estavam em passeata pacífica, e foi o maior quebra-quebra depois.

  24. Vladimir disse:

    Olhando de fora o texto não merece reparos. Contudo,se observarmos ocorridos como a greve da Polícia Civil,consiguimos entender o que pode estar ocorrendo dentro da USP.
    O mandatário do Palácio dos Bandeirantes simplesmente ignora qualquer manifestação pacífica. Não negocia,não atende as lideranças e tão pouco qualquer um que esteja ao seu lado.
    O unico objetivo deste senhor é o permanente confronto cujo único objetivo é culpar ooutro lado e outros partidos políticos por tal situação.
    Enquanto isso o governo dele vai locupletando-se com compras de materiais pedagógicos sem licitaçao e assinatura de jornais e revistas que o adulam.
    Assim,fica difícil pedir legalidade somente a um lado da corda.É preciso que o estado democrático de direito seja um fato e não uma tese.

  25. Andre disse:

    Ai eu me pegundo para que sevem as Assembléias se as pessoas não respeita as decisões ???

    João é muito bonito você falar que deve-se procurar adensar o movimento por meio de argumentos…mas e quando as pessoas simplesmente não se interessam pelo coletivo ???/ quando elas simplesmente não participam de nada ?? Quando elas nem mesmo aceitam um convite para sentar, escutar e debater ??/ Quando elas se encarceram em seus laboratórios e gabinetes, recebendo tranquilamennte seus salários, e negociando contratos por fora, usufruindo de um bem público para benefício particular ???

    É a esse tipo de manifestação “tranquila” que você também se refere ???

  26. João disse:

    O João Vergílio toca em uma questão que é extremamente sensível a todos nós que trabalhamos em instituições de ensino superior públicas: como lidar com o autoritarismo dos “oprimidos”, digamos assim. Todos os que participaram deste lócus acadêmico, desde os últimos anos do regime militar como estudantes e, agora, como docentes saberão a que me refiro. As práticas não mudaram quase nada a não ser com a recorrência, cada vez maior, ao escândalo midiático como arma de pressão e constrangimento. Se isso se justificava, lá atrás, como mecanismo de enfrentamento da ditadura, hoje a justificativa é dada pela necessidade de denunciar e combater a ação do estado neoliberal e privatista do ensino público. Quando vejo em manchetes nacionais que uma das reivindicações estudantis é o fim dos cursos de ensino à distância ou quando vejo críticas de movimentos estudantis ou de sindicatos de professores ao aumento do número de vagas nas universidades federais só posso sentir-me pessimista diante do futuro do ensino superior público, no Brasil. É como se se pensasse que tudo o que cheira a modernização, a avanço tecnológico, a novas técnicas de gestão, a ampliação de acesso pudesse ser definido como ação privatista. Estamos na contramão do processo de ensino superior no mundo e alguns grupos passadistas, loucos por empunhar bandeiras anticapitalistas ou antiliberais ou anti qualquer coisa assumem a vanguarda do atraso. E o que é pior, com a repercussão desejada em veículos de comunicação que, cada vez mais se desesperam com a falta de interesse de leitores de textos longos e analíticos e recorrem à notas escandalosas como instrumento de captação de usuários.
    Outro aspecto desestimulante é que uma maioria silenciosa silencia diante do barulho desta vanguarda do atraso, que muitas vezes conta com o apoio de parlamentares e ou políticos de oposição ao poder estadual ou federal de plantão. Interessados em manter suas bases de sustentação eleitoral estes políticos fornecem todo o apoio logístico e midiático, por vezes ancorados em estruturas sindicais ou de coletivos políticos. A maioria silencia porque não quer ter que conviver, nos anos seguintes, com a pecha de direitista, neoliberal, alienado, e tantas outras adjetivações. O homo acadêmicus pode ser e é, muitas vezes, perseguidor e cruel.
    O tempo passa, nós nos acostumamos a conviver com isso e a vida universitária ganha força nos centros de ensino superior privados. Quando ou no dia em que estes centros começarem a investir naquilo que só as públicas fazem de forma sistemática no Brasil, a pesquisa acadêmica, o destino das públicas estará irremediavelmente destinado à decadência. Oxalá minha profecia pessimista esteja errada!

  27. Carlos França disse:

    Piquete é um direito legítimo da classe trabalhadora e é legal uma vez que é garantido o direito de reunião. São necessários em alguns prédios da USP devido às pressões da hierarquia universitária, que procura impedir o direito de greve, e votados em assembleias em que todos tem o direito a manifestação e decisão.

    Discordo de que o pior já passou. Mas precisamos sim sentarmos, professores, alunos e funcionários. As greves são recorrentes porque os problemas da universidade são recorrentes. Vamos sentar e conversar sobre democracia na universidade? Ou vamos coonestar um conselho universitário no qual metade de seus membros são indicados pelo reitor e que, através de processos internos, expulsa um de seus membros; justamente o representante votado pelos funcionários.

    Precisamos sim sentarmos. Precisamos conversar a respeito de terceirização e, principalmente, fundações de direito privado que estão enriquecendo alguns utilizando o patrimônio público do Estado de São Paulo.

  28. Luiz Lima disse:

    Caro João Vergílio,

    v. poderia elencar os dispositivos legais que proíbem a ocupação de prédios públicos ou a realização de piquetes?

  29. Wu Ming disse:

    Estudei 10 anos na USP (fiz dois cursos) e nunca vi essa violência que o João enxerga nas muitas greves pelas quais passei.
    A maior violência contra a USP não vem nem das greves, nem dos piquetes, nem das invasões dos seus prédios e tem um só nome: Fundações.
    Roubo descarado da coisa pública. Isso sim é violência, não piquete.

  30. Ivan Moraes disse:

    “Piquetes são proibidos por lei”: isso eh verdade, gente?

    Qual eh a logica? Se eh verdade, o que os grevistas estao supostos a fazer depois de greves que sao sempre causadas, essencialmente, por invisibilidade? Ir pra casa e chorar?

    Acabo de atravessar um piquete por quase duas semanas em Nova York. Eh uma greve de trabalhadores de construcao bem na 37 com 9a Avenida. Ninguem esta dando chiliques por causa deles, e nao so isso: a policia esta la todo dia, sem unzinho chilique tampouco.

    A “lei” de proibir piquete, se eh que existe, nao poderia ser mais burra.

  31. Alberto Porém jr. disse:

    Faça um exercício de volta ao passado.
    Segunda Grande Guerra:

    Tínhamos uma França ocupada pelos nazistas.
    O governo de Vichy que era colaboracionista.
    E os partisans.
    Pela sua lógica como a população francesa estava “satisfeita”, os partisans deviam ser calmos e tranquilos e buscar dialogo com a Gestapo e SS.
    Os partisans quebravam o ” bem estar” do restante da população e por ser minoria não representavam a vontade da nação.
    A SS e a Gestadpo estavam no direito de reprimir quando chamados por Vichy, com seus métodos, os partisans, fuzilamento sumário. Estavam pertubando a “paz” estabelecida pelo nazismo na França ocupada.

    Avançando um pouco mais, na época de chumbo de 1964 até 1984, todos os atos de repressão eram válidos pois a população em sua maioria estava “satisfeita”, guerrilheiro bom era guerrilheiro morto?
    Porque levantar armas contra os bons generais?
    sabe porque? porque chega uma hora que dói apanhar calado, ver no dia a dia a deterioração da sua Universidade e ser simplesmente ignorado por todos que estão interessados nas sua vidinhas Uspianas de montar no seu carro ir ter aula na Poli e sair de lá direto para os barzinhos da moda ( há excessões). Não estaríamos aqui falando da USP se não tivesse ocorrido o que ocorreu, simplesmente íamos estar nos preparando pra mais um feriadão fora de Sampa.

    Posso ter sido radical nas comparações, mas as vezes esquecemos o passado com a facilidade de guardar um livro de memórias na estante.

  32. eduardo disse:

    A criação e o funcionamento de Fundações dentro da USP onde professores pagos pelo dinheiro público fazem um bico bem remunerado destoando de toda a realidade da universidade e o uso particular das instalações públicas para fins privados, é o que? Saída inteligente para as amarras da burocracia estatal?

    A existência de fundações na USP que ganham dinheiro usando todo a estrutura pública e sobretudo a marca USP é sim a pior invasão que ela já teve.

    O autor só se preocupa com o simbolismo do quebra quebra. Eu nunca vi a polícia dando porrada em índio quando eles invadem sedes do Incra.

    Também sou contra esse velho sindicalismo, mas não podemos nos esquecer que a USP vem ficando, por um lado, cada vez mais privatizada com a procriação de Fundações e por outro cada vez mais estrangulada por um governo intransigente.

    Te faço uma pergunta: há quantas décadas existem greve na USP? E mais outra: desde quando existe porrada em greve da USP?

  33. Vivi disse:

    Sou funcionária pública estadual (judiciário) e do meu ponto de vista a radicalização de funcionários é diretamente proporcional ao desrespeio que todas as categorias vem recebendo nos últimos 16 anos dos governos tucanos. Desculpem a partidarização, mas sem querer comparar com outros partidos (não é essa minha intenção), afalta de habilidade mostrada desde Covas (quem nao se lembra dele sendo agredido por professores?), por Alckmin e levada ao seu ponto mais alto por Serra são indiscutíveis. Este último, para início de conversa, não respeita seu opositores. Ele não tolera ser contrariado e reage sempre de maneira agressiva, verbalmente através da ironia, do escárnio e até do xingamento(”partidecos”, etc.), sem falar de sua presença pestigiando publicações que achincalham seus oponentes ; ou fisicamente, fechando as portas às reivindicações, negando-se a negociar e mandado ver na repressão policial, o que aconteceu até contra a própria policia. Não quero aqui defender a tese de que todos os dirigentes sindicais e os manifestantes de modo geral sejam vestais, puros e inocentes. Há radicalismo em todos os lados, que é exacerbado quando o governante de plantão só consegue resolver as questões relacionadas ao salário (um dos piores do Brasil) e condições de trabalho (péssimas) do funcionalismo público, através do “convencimento” de sua tropa de choque.

  34. Divino disse:

    A USP é muito grande e teríamos muito a debater. No entanto ela não é grandiosa em tudo:

    Qual o papel dela na qualidade do ensino no estado?

    Existe várias “invasões” dentro da USP, algumas delas se dão por concurso público!

    Existe uma comunidade (São Remo) que desafia os poderes intra-muros.

    Existem Fundações que movimentam volumes enormes e ocupam espaços grandes dentro da universidade.

    A troca de grama e pderinhas nos CUASOS 1, 2 e 3 eram realmentes mais imoortantes do que as pessoas que ali trabalham e do que a despoluição do Pirajuçara que passa dentro da USP?

    A troca dos tijolinhos é realmente o bem maior que se faz à estrutura física da USP?

    Teria muitos outros detalhes da vida no Campus. Existe ainda uma vida de criação de conhecimento muito rica nos Campi. Tem programas de bolsas internas em todos os níveis e externas que envolvem estudantes de vários países da AL e de outras regiões que precisam ser preservadas e melhoradas!

  35. ? disse:

    Veja bem: não se trata aqui de defender, pura e simplesmente,o movimento grevista de suas acusações; mas, de propor uma ampliação da discussão, visando uma perspectiva mais política da coisa toda… (não sei se chego lá, porque primeiro é preciso arrumar o solo da discussão…)

    Primeiro, porque fundametal, a idéia de violência. É com demasiada naturalidade que o texto encontra violência apenas onde ela é explícita, evidente, e física (piquetes, ocupações, polícia). Proponho um exercício de reflexão: será que os piquetes não são justamente uma forma de garantir a liberdade de participação ou não na greve? Parece um contrasenso, eu sei. Explico. Há uma violência muito mais “eficaz” e inflexível que é a coação moral de funcionários – ou, nem tão moral, mas baseada em ameaças (se não de demissão, pelo menos de transferência para usp leste,por exemplo – ver reportagem no último jornal da usp, em que foram relatados vários casos, que deram abertura inclusive a processos judiciais). Sofrem mais, claro, os terceirizados. Será que os funcionários que não querem trabalhar para participar do movimento grevista podem fazer isso assim, simplesmente, alegando esse direito? Lembro que há pouco o presidente andou colocando em questão o direito de greve… Será que os alunos que querem aderir ao movimento não são coagidos (violentamente!) pelos professores que “vão dar aula e ponto”, alheios à discussão que possa ser feita, ou à decisão de sua própria categoria, em assembléia? Será que nenhum professor se sente constrangido diante das descaradas relações de poder e do assédio moral que envolve cada instância da universidade?

    Ocupação do prédio público. Lembro a todos que este ano não houve ocupação. Em 2007, sim. Há momentos em que não se consegue negociar – ser ouvido! – sem uma ação mais forte. Pode parecer pouco para quem vive nos jardins ou em perdizes, mas é graças à ocupação da reitoria em 2007 que mais de mil estudantes podem almoçar aos domingos no bandeijão (Restaurante Universitário). A reitoria comprometeu-se a permitir a entrada dos ônibus nos finais de semana, mas isso ainda não acontece, isolando essas mais de mil pessoas… mas não, claro, a classe média que vem fazer da usp um clube, nos finais de semana, acordando todos os moradores às seis e meia da manhã dos domingos com corridas: sublocação do espaço público?
    Bom, mas voltarei ao tema… ainda em 2007: reformas dos prédios que estavam caindo aos pedaços, construção de mais um bloco do crusp, reajustes salariais não cumpridos…

    é que a instituição é mais complexa do que esse “duelo” entre lei e violência! “agir com a palara” pode parecer bem bonitinho… mas eu quero ver o que se consegue negociar ou conversar assim, já que se parte de uma relação de poder muitíssimo assimétrica!

    Ainda sobre ocupações: em 2007 o foco era maior e mais grave, ultrapassava os muros da USP: a Secretaria de Ensino de SP, que na época tinha Pinotti a sua frente, e agora O ex-ministro do FHC, Paulo Renato (período de grandes greves das federais, especialmente em 1998 e 2001).
    Em 2005, o Alkimin vetou o aumento da porcentagem da verba que já havia sido aprovada pelos deputados…
    Sobre os “métodos toscos de “fabricar greves” a qualquer custo”, lembro que poucos professores da FFLCH aderiram ou apoiaram, de início (você apoiou??? se sim, pode nos contar melhor…), mas é graças à greve de 2002 que a FFLCH não deixou de existir…. 98 professores contratados, após a greve dos estudantes!

    A reitoria, é bom lembrar, sempre acaba funcionando normalmente, em outros prédios. Este ano, entretanto, não conseguiu se instalar no IPEN (!), pois os funcionários não permitiram – a reitora Suely chegou a descer do elevador, dizem, com o nariz fechado pelas pontas dos dedos por conta do “cheiro do elevador” (estava cheio de funcionários). ISSO é violêcia!! outra fundação também negou asilo. Depois disso, veio a polícia…

    Greves são deliberadas em assembléia: instância máxima de decisão de cada categoria, e que é o único meio de garantir que as decisões sejam baseadas em discussões políticas (democracia!), e não na gestão – administração – de poucos (lembrem-se de que a estrutura de poder da usp, no que concerne aos postos de representação, é determinada pelos poucos professores titulares, por meio de um processo fechado e bastante engessado de decisão).
    Pergunto: você participou de todas as assembléias, já que está tão interessado em garantir o diálogo e garantir as regras do convívio democrático? Poderia nos contar das discussões em detalhes…
    “Foi inábil? Talvez tenha sido, não sei. Um juízo depende, neste caso, do acompanhamento miúdo das negociações, e da consideração cuidadosa das opções disponíveis. Evitarei, por isso, este discurso fácil.”
    FÁCIL? Não: isso é que é difícil! Não falar de um ponto de vista tão abstrato, desconhecendo o “miúdo”…

    “Invasões são ações criminosas. Quem as pratica merece ser processado nos termos da lei, e não tem condições de se inserir na vida universitária.”
    Este discurso é super autoritário: você, vestal da justiça, julgou e condenou,sem considerar o momentos político, a pauta, as tentativas fadadas ao fracasso, as relações de violência, etc.

    “De uma comunidade que deseja ser reconhecida pelo primado da racinalidade”??? ou que inveja, em várias instâncias (que enxergam seu trabalho como algo distante e independente da gestão comum da universidade pública), do modo de gestão do mercado privado?

  36. Ivan Moraes disse:

    “Estudei 10 anos na USP (fiz dois cursos) e nunca vi essa violência que o João enxerga nas muitas greves pelas quais passei”:

    VISIBILIDADE em grevistas eh o que eh a agressao ao sistema, esta suposta a continuar a ser uma agressao ao sistema, nao vai parar de ser uma agressao ao sistema.

    VISIBILIDADE AGORA E JA!

  37. Pablo Castro disse:

    Quem acha que política se faz exclusivamente pela argumentação não entendeu nada. Podemos fazer a melhor tese em defesa de uma causa, sofisticada e embasada na literatura do assunto, e ela vai ter muito menos eficiência do que uma atitude política que envolva os indivíduos de uma forma coletiva no espaço público. Aliás, o próprio termo “invasão de prédio público” é uma contradição em termos, se é público, as pessoas devem poder entrar. Entendo que você, Nassif, queira dar um caráter mais plural para o se blog, ao publicar posts como esse, mas sinto que você acaba reforçando um conservadorismo “bom-moço” e “respeitador das leis” que hoje, francamente, é um bom disfarce pra teses reacionárias.

  38. A USP, UNICAMP, UNESP e FAPESP são instituições estaduais de São Paulo com valores e importâncias no país: formação acadêmica e profissional e pesquisa científica.

    Qual o gerador desse problema? Reajuste de salários, ou seja, reconhecimento das importâncias e funções dos agentes dessas instituições.

    Por que o governo Serra – que é do PSBD o qual segundo analistas políticos dizem alto bom som que prima pela competência técnica e gestão de qualidade – não reconhece o obvio? Remunerar bem os profissionais dessas instituições é uma simetria justa e necessária.

    Em vez e ao invés do governo Serra está comprando livros desqualificados, assinando jornais e revistas sem qualquer critério técnico, gastando vultosas quantias em publicidades por todo o país deveria se empenhar em praticar uma política de remuneração ao par do que os funcionários dessas instituições merecem.

    PS. Sou ex-aluno USP e não sou funcionário de nenhuma dessas instituições.

  39. Assim-ate-eu disse:

    Tenho uma idéia para eliminar de vez os piquetes. Quando alguém não quiser aderir a uma greve, será obrigado por lei a assinar um documento abrindo mão formalmente de todo e qualquer benefício salarial ou trabalhista conquistado por meio daquela greve. Pode destinar o percentual de salário obtido pelo movimento grevista a uma ONG, instituição de caridade ou qualquer coisa do gênero. Só não pode é ter todos os bônus da greve sem arcar com nenhum de seus ônus. Se baixarem esta lei, aposto que nunca mais haverá piquete em greve alguma.
    Aliás, por que o governo multa e até prende quem não paga imposto? Por que não apela para o convencimento, já que o dinheiro dos impostos é destinado a bens e serviços em prol da coletividade? Por que sonegador tem que ser submetido ao “piquete” da fiscalização? Por que não tem reconhecido seu direito a fazer o que bem entender de seu dinheiro? Não estamos numa sociedade de mercado? Por que não temos o direito de não pagar impostos que podemos até achar injustos, escorchantes, desviados para corrupção, etc. – impostos que não consentimos em pagar, pois não fomos consultado a respeito em assembléia nenhuma?
    Atenção: esse argumento foi desenvolvido por um cientista político liberal norte-americano!

  40. wilson cunha junior disse:

    “Se não queremos a violência policial, devemos cuidar de não sermos, nós mesmos, violentos.”

    Bonito isso. Pra falar pra bandido que quer se regenerar. Nesse caso da USP é perfeito pra justificar e legitimar a barbárie policial em cima de estudantes.

    E pelos relatos tudo começou quando uma estudante foi entregar uma flor para um soldado.

    Estudantes sempre foram considerados bandidos ou terroristas e o estado policial os reprimem como tal. Seja na USP ou em qualquer lugar.

    “Há uma revolta imensa crescendo dentro de outras unidades da USP contra esses métodos toscos de “fabricar greves” a qualquer custo.”

    Há também uma revolta bem mais antiga contra esses métodos toscos de “combater greves” a qualquer custo. Isso não pode ficar em segundo plano mesmo sendo importante discutir as formas de praticar a resistência.

    “Ao rio que tudo arrasta se diz violento.” Mas não dizem os motivos.

  41. Maria Clara disse:

    Esta discussão sobre a legitimidade da entrada da Polícia Militar no campus para coibir manifestações violentas de grevistas sofre de uma falha factual.

    Vamos lembrar aqui que a greve dos alunos e professores da USP teve início DEPOIS de a reitoria chamar a Polícia Militar para o campus.

    Os funcionários sim estavam em greve – mas seguidas assembleias dos dois outros grupos haviam decidido não entrar em greve.

    A greve dos estudantes, votada na quarta-feira passada, e a greve dos professores, votada na quinta-feira passada, tem como pauta primeira – justamente – a retirada da PM do campus.

    Ou seja, examinando a cronologia dos acontecimentos, não se pode justificar a vinda da polícia como medida legítima para coibir uma greve que teve início DEPOIS da vinda da polícia….

    Antes da chegada da polícia, não havia greve de estudantes e professores, e portanto, não havia piquetes “impedindo a realização das aulas”.

    Assim, os argumentos de que a reação da reitoria se justificaria por conta da “violência” dos manifestantes não se aplicam neste caso, não por uma questão de princípios, mas por uma questão de lógica.

  42. Bárbara disse:

    Tá na Folha hoje:
    “Segundo os professores, Vilela é responsável pelo que chamaram de “ação violenta da PM no campus”, que incluiu o uso de bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes. Do lado dos manifestantes, registraram-se agressões aos PMs com pedras e xingamentos.”
    É verdade. Tem um policial hospitalizado até agora por causa de um xingamento que ele levou na cabeça. Porque era um xingamento pesado, de uso exclusivo das forças armadas.

  43. Júlio Pubikher disse:

    “A comunidade acadêmica não age com os braços, nem com as botinas. Age com a palavra. ”
    ASSIM??? Esse é o modo de “discussão” que você propõe antes de jular??

    “Cada um no seu quadrado
    22/05/2009 · 3 Comentários

    por João Vergílio

    cadaumnoseuquadradoLá pelo meio do primeiro semestre, eles aparecem na porta. “Podemos dar um informe?” Claro, por favor. Informem. Sorriso amarelo. Eu só estava falando bobagem, mesmo. Isso pode muito bem ficar para depois. Enquanto vocês conversam, vou tomar um gole de água. Desço até a barraquinha da pipoca, tomo uma cocacola, como um prestígio, subo à secretaria, “oi” prá todo mundo, vasculho minha pasta, abro o holerite, o resto vai pro lixo, entro no banheiro, faço xixi, olho a inacreditável cara de cinquentão no espelho, e volto para a classe trazendo comigo o mesmíssimo sorriso que levei na boca. Claro, ainda estão por lá, cantarolando com estridência a milionésima variação sobre o mesmo tema. Aquele mesmo discursozinho tosco que, quando eu tinha a idade deles, já estava com mal de Parkinson. Mais ou menos assim.

    Primeiro, a terra. Não é bem um país, mas é como se fosse. O nome é uma sigla, e só uns poucos habitantes realmente vivem nele, em abrigos improvisados. O resto são transeuntes. Passageiros. Em compensação, tem território fixo, fazendo fronteira com um rio, uma favela, uma vilinha de classe média e um ponto de travestis. Também tem orçamento próprio, instâncias administrativas, polícia, linhas de ônibus, garis, lanchonetes, livrarias, farmácia, aulas de forró, lojas de roupa e postos de gasolina. Verdade seja dita, o tempo por ali é um pouco irreal, marcado por ciclos letivos e feriais, ao longo dos anos, e epiciclos matutinos, vespertinos e noturnos, ao longo dos dias, sendo estes últimos subdivididos ainda em aulas e recreios interpostos. Mas há um relógio bem alto, no centro do território, que nos dá a ilusão de um ponto de contato com o universo externo.

    Depois, o homem. O país é governado por uma reitora malvada, e também por um punhado de comitês incumbidos de assessorá-la em suas malvadezas. Abaixo dessa casta dirigente, três categorias hierarquicamente dispostas, e mantendo relações mais ou menos tensas entre si: estudantes, funcionários e professores. Os professores, embora (por definição) ganhem muito mal, formam uma casta politicamente privilegiada. Têm poder de vida e morte sobre os estudantes, além de território próprio: confortáveis salas individuais, onde estudantes não podem entrar sem pedir licença. Funcionários têm menos poder, ganham (por definição) salários de fome , mas têm seu próprio estaço: enormes salas coletivas, a que os estudantes só têm acesso por intermédio de um balcão. Na parte mais baixa da pirâmide, oprimidos por tudo e por todos, estão eles, a casta estudantil. Não ganham nada, não ocupam nenhum espaço próprio, e passam os dias submetendo-se aos caprichos da casta professoral, ou mendigando favores no guichê das secretarias.

    Finalmente, a luta. O campo de batalha é o próprio centro do poder universitário: a reitoria. O território em disputa, um salão abandonado. De um lado, é claro, a reitora malvada, que está disposta a defender até a morte aquele precioso naco de seus domínios. Do outro lado, o estudantado oprimido, lutando por um espaço onde os outros é que tenham que pedir licença para entrar, e não eles. Mais ou menos como o espaço estudantil da FFLCH, atualmente ocupado por dois sofás velhos, com espumas à mostra, algumas carteiras aleatoriamente dispostas, e uma mesinha de bilhar perdida na imensidão. À luta, companheiros.

    É disso que eles falavam. Estão aqui, no ano da Graça de 2009, como se os últimos 50 anos não tivessem existido. Não mudou nada – nem no conteúdo, nem no estilo. No tempo irreal da universidade, o eterno retorno pode parecer um rumo, e os becos sem saída podem parecer passagens. O relógio da reitoria irá se incumbir de dotar essa farsa de uma aparência de realidade.

    Olhe, eu até não ligaria de ter minha aula interrompida por estudantes que estão sendo manipulados por partidecos políticos de décima categoria. Faz parte do processo educativo. Se o raciocínio tarda, a experiência pune. Serão tungados por retardados mentais trinta anos mais velhos que eles, que fracassaram em tudo na vida, menos na capacidade de controlar minúsculas células de partidos de extrema-esquerda que constroem essa ridícula agenda para vida universitária. Tudo bem. Dêem seus informes. Enquanto isso, eu tomo minha cocacola, distribuo meus cumprimentos e faço o meu xixi. Depois, volto a falar sobre o conceito de causalidade em Berkeley como se nada tivesse acontecido.

    O problema, na verdade, é outro. O problema é que a história está dobrando uma esquina. Tudo está acontecendo. Tudo está mudando. A nova face do mundo está sendo desenhada, e esses adolescentes estão preocupados com aquela porcaria de salão. Qual é o plano? Mergulhar de volta no passado? Ou no próprio umbigo? Se o mundo parece grande demais, que olhem pelo menos um pouco para a favela ali atrás do HU. Ou, indo só um pouquinho mais longe, para Brasília. Será que algum deles reparou que, agorinha mesmo, a cúpula dos três poderes da República se reuniu para salvar a pele de um criminoso de colarinho branco? Alguém se deu conta de que toda a grande imprensa ensaiou um vergonhoso coro de mentiras para acobertar o conluio? Será que não existe nada importante acontecendo fora do salão da reitoria? Vão todos ficar assim, batendo os pezinhos, meio festivos, meio revoltados, pintados para uma guerra imaginária, ramerrão desembestado, enquanto o crooner vai cantando ritmado, bonitinho, balançado, “cada um no seu quadrado”?”

    “E, acima de tudo, que tipo de resposta estaremos em condições de dar, quando for preciso?”

  44. Cabocla disse:

    “Serra: PM ‘não cometeu exageros’ em protesto na USP

    VANNILDO MENDES – Agencia Estado

    BRASÍLIA – O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), disse hoje que “caminha para uma solução” a situação criada ontem na Universidade de São Paulo (USP) com a ocupação do campus pela Polícia Militar (PM). Ele afirmou que os policiais “não cometeram exageros” na repressão aos estudantes. A PM usou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão, que protestava contra a presença de policiais no campus e exigiam sua retirada.

    Após audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, Serra disse que a PM, ao ocupar o campus, “apenas cumpriu uma ordem judicial para assegurar o livre ingresso e o direito de ir e vir na universidade”. No protesto de ontem, ao menos seis pessoas ficaram feridas e três foram detidas pelos policiais. ”

    Dizer que não houve exageros já forçou a barra, não?

  45. Ricardo disse:

    Olá,
    João, como você vê em vários comentários, a civilidade ainda está cada vez mais longe deste debate. “Vc. não conhece o país que vive” pode ser traduzido assim: a incivilidade deve ser superposta à civilidade, em qualquer espaço e em qualquer situação.
    Piquete, na prática, nada mais é do que colocar alguns “armários 3×4″ (que nem sabem o que é uma universidade ou uma empresa), cercados por alguns agitadores gritando palavras de ordem intimidando aqueles que querem cuidar de suas vidas.
    Não vou me estender muito não, mas assembléias deveriam ser espaço de debate e não de monólogos e atos políticos. Em países civilizados as próprias instalações (seja escola ou empresa) são usadas para estes debates, com argumentos objetivos e claros. Ao final dos debates as ações (greve, mobilizações, etc.) são votadas, com urnas e tudo. Simples não? Ao mesmo tempo tão distante…
    [ ]´s

  46. Cabocla disse:

    Mouro, vai aí um bom texto – achei – do Paulo Moreira Leite, tá na minha pg da comunidade.

    http://blogln.ning.com/profiles/blogs/por-tras-da-greve-da-usp-paulo

  47. Clovis Campos disse:

    O texto de Luis às 10:02 exprime minhas opiniões. Reduzi meu texto e observo

    Piquete não é nem nunca foi ilegal nas greves. Quando o foi, nos primordios do capitalismo e nas ditaduras, revelou-se sempre como forma de luta essencial para a conquista de posições. Sem piquete ainda hoje a jornada de trabalho seria de 14h, descanso semanal,férias,licença maternidade, 13º , e todos os demais benefícios e direitos dos trabalhadores- penduricalhos como dizem os neoliberais- estariam por vir ou no porvir. Ou alguem acredita que essas conquista foram presentes concedidos por almas generosas?

    Jacy Lascaux , que na opinião de LN forçou a barra, apontou para a ideologia subjacente por trás do texto de João Vergílo. O que Jacy fez foi apenas aumentar o som para que os ruidos de fundo aparecessem. Recurso inteligente e esclarecedor.

  48. casagrande disse:

    Nassif

    O blog esta plural mesmo. Veja o comentarista Ismaílson -”lograr êxito”.
    Até a PM se expressando por aqui. É um serviço público.

  49. Jossimar disse:

    alguém poderia dizer para os leitores deste blog qual foi a greve em que todo mundo respeitou a lei, não fez piquete, apenas negociou educadamente, que deu algum resultado. com resultado, quero dizer porcentagens e melhoria das condições de trabalho.

  50. José disse:

    Prezado João Vergilio,

    Concordo quase totalmente com você mas acredito que os piqutes devem ser permitidos mas somente os de convecimento. O que tem acontecido desde ha muito tempo são piquetes com fechamento da Universidade.

    O Gustavo disse acima que participou de greve em São Carlos que funcionous somente com piquetes deste tipo. Ótimo, mas sou professor aposentado da USP em São Carlos e vários anos antes de me aposentar fui impedido pelos funiconários de acessar a Universidade. A greve não era dos professores e assim mesmo não pude entrar na Universidade. Tive que pular muros longe dos portões onde os funcionários não se concentravam. Conheço professores portadores de deficiencia física que não necessitavam de carro para se locomover e que não tiveram acesso durante dias à sua sala.

    Um abraço.

  51. romeo disse:

    “Temos que deixar disso” é o mote do diálogo que o texto acima propõe entre estudantes, funcionários e professores. Ao fim e ao cabo, o prof. João concorda em gênero, número e grau com a postura da reitoria: se não quisermos a polícia no campus, temos que deixar disso, isto é, de reivindicar direitos trabalhistas, de refletir sobre a universidade, independentemente dos dirigentes de plantão, de respeitar a diversidade de pensamento etc. etc.
    O texto não propõe a retomada do diálogo (se é que isso é possivel agora, no calor dos acontecimentos), propõe seu encerramento definitivo. Em palavras pobres: submetam-se e calem a boca!
    Em face dos últimos e lamentáveis acontecimentos, todas as partes envolvidas (sindicatos, centros acadêmicos e órgãos diretivos) têm de repensar sua atuação, em benefício da campanha salarial, que deu ensejo à greve e aos seus desdobramentos, e das relações acadêmicas, com base nos mais elementares princípios democráticos.
    Mas antes de tudo: PM fora do campus, já!

  52. Assim-ate-eu disse:

    Como o mundo ideal é melhor do que o real! Como os homens sensatos, sábios, serenos e perfeitos dos filósofos são melhores que os de carne e osso! Ah, se os estudantes de vinte anos já pudessem ter a maturidade dos Vergílios de… de… (chute: cinquenta anos no mímino).

    Faço minhas aqui as palavras de Espinoza:

    “Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através de seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efetivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostariam que fossem. Daí por consequência, quase todos, em vez de uma Ética, hajam escrito artigos satíricos, e não tinham sobre Política nenhuma idéia que pudesse ser posta em prática, devendo a política, tal como a concebem, ser tomada por Quimera, Utopia de uma idade de ouro sem instituições humanas e seus defeitos inevitáveis.

    Por isso, entre todas as ciências que tem aplicação, é a política o campo em que a teoria passa por diferir mais da prática, e não há homens que se pense menos próprios para governar o Estado do que os teóricos, quer dizer, os filósofos”.

  53. Coaduno de modo geral com as idéias de Vergílio.

    O que eu proporia a mais é que, os que preferirem *não* aderirem à greve, abrissem mão dos ganhos eventualmente advindos dos movimentos grevistas.

    P.e., professores e funcionários que não fazem greve não deveriam receber aumentos que, por ventura, os professores grevistas conseguissem.

    []s,

    Roberto Takata

  54. Roberto G disse:

    Acho q o Luiz das 10:02 tem razão. Esse povo mais extremado só consegue fazer o q está fazendo agora na USP pq a direção fracassou em construir um consenso contra ele. Desculpem amigos tucanos e adjacentes: mas às vezes, qdo o outro não aceita seu argumento, não é só pq ele é surdo ou deficiente. É pq ele tb tem boas razões. Na Universidade na qual acontecem esses fatos lamentáveis falta democracia e falta um real sentido de serviço público. Se essas duas condições estivessem presentes, os arrombadores de porta e batedores de lata seriam impedidos pelo resto da comunidade. Mal ou bem, as universidades federais passaram por isso no passado recente e nos últimos 6 anos tais ocorrências são cada vez menos frequentes. Talvez valha a pena os colegas das estaduais prestarem um pouco de atenção nisso.

  55. Marco Vitis disse:

    Sr. João Vergílio
    Em 1975 eu assisti do alto do morro do Butantã, próximo ao Instituto de Química, a invasão da USP pelas viaturas do Exército.
    É uma cena amarga que trago na lembrança.
    Ao ver as cenas dos policiais batendo em alunos, professores e funcionários, veio à minha mente aquela imagem da ditadura que guardo.
    Só que, desta vez, a polícia foi chamada pela Reitora da USP. O que é, na minha opinião, muitíssimo mais grave.
    Sou contra o uso de piquetes. Porém, o seu discurso, sr. João Vergílio, é tendencioso e semelhante àquele da ditadura militar (Jarbas Passarinho, etc.) em defesa do Decreto 477 (o sr. já ouviu falar dele?).
    Modestamente, sugiro que o sr. se reposicione. Primeiro, repudiar a violência policial e quem pediu a sua entrada no campus. Em seguida, democraticamente, nas assembléias e nas aulas, contestar os piquetes como forma de luta social. Pessoas inteligentes, como o sr. é, saberão evoluir pelo diálogo.

  56. Orlando Fogaça Filho disse:

    Em 2002 tivemos uma greve. Houve uma grande adesão dos alunos do primeiro ano, até porque, nós, recém ingressos, não conhecíamos a universidade e suas mazelas. O CA busca a adesão do 1º ano, sabendo que na desinformação dos alunos está o primeiro passo para conseguirem aumentar o número dos apoiadores da greve. Duas professoras colaboraram participando das assembléias e dando validade ao discurso dos “representantes” dos alunos, isto é, passaram a falar por nós, que em terreno desconhecido nos apegamos às palavras bonitas e consistentes das nossas admiradas professoras e deixamos o barco correr. Não importa mais quais eram as pautas e se realmente tinham valor. O que eu estou tentando relatar é como adultos ( no caso da Filosofia, um grande número dos alunos eram trintões ou mais, fazendo um segundo curso de graduação, por curiosidade, amor, hobby, paixão pelo conhecimento, ou para não ficar assistindo novela em casa) podiam ser manipulados pelos interesses de poucos, sem reação contrária. Apoiamos a greve.
    Ninguém naquele meio mostra grande exaltação até porque os alunos da filosofia são esquisitos mesmo, mas enfim, ali estávamos, lutando pelos direitos da universidade livre, pública e de boa qualidade. Alguns professores não apoiavam a greve, mas não demonstravam isso claramente, levando-nos a confundi-los como tucanos em cima do muro… Claro, sempre sabemos e sempre somos os donos da verdade dos outros, pois as nossas são incontestáveis.
    Acho que duas semanas depois da paralisação total da Fefeleche, um dos mestres doutores (os títulos são de extrema importância na vida acadêmica – e para os prof.Dr. não existe vida fora da academia) a pedido de alguns seis alunos resolveu dar aula. Um grupo de alunos da escola invadiu a sala, cercou o professor, intimidou os colegas e triunfante impediu que a greve fosse “furada” na Filosofia, na Filosofia!!!! Caramba, a máscara tinha caído. Aquele papo de que a assembléia é soberana para justificar a atitude piqueteira e lutar contra o direito da minoria carregando esta bandeira era uma afronta a qualquer estudante de filosofia. E a ética? E o respeito? Na Filosofia? Ah!
    -Sim! Temos que ser pragmáticos! – que cassete é este de pragmatismo com a ética?
    Foi meu primeiro choque. Desisti no ato da greve e passei a reivindicar o direito de fazer o que eu quisesse e quando quisesse aceitando as conseqüências de meus atos, perante o grupo social da faculdade (não pensem que estou me vangloriando – só pensei isso, não fiz nada, absolutamente nada: um turbilhão de sensações me inundava e nada de ação – a maioria falsa, mas atuante e com o poder da persuasão continuou me dominando e paralisando).
    Nos quatro anos que estudei na USP, na FFLCH a mais aguerrida escola da USP, não vi nenhum estudante profissional, esta coisa informe que alguns comentaristas utilizam para justificar suas posições (parece o ouro de Moscou). Vi alunos jovens, bem intencionados travando suas lutas ideárias (tá bom, não achei no dicionário) na maior das boas intenções. No calor da luta contra os opositores reacionários e malvados ( atenção: é brincadeira) cometem mesmo atrocidades…. E o que faremos?
    Uma grande amiga, Célia, professora de sociologia de universidade federal, disse-me há 30 anos que achava bom ter tido que lutar contra o reacionarismo (no sentido de quem não quer mudança na situação) de seu pai porque isto a possibilitou ter um objetivo e uma meta, um inimigo que a levava para frente, e mais, que ela, como boa mãe moderna (pós-moderna) não tinha criado nos filhos a alma da liberdade…
    É bom que estas coisas aconteçam, e é bom que pessoas se manifestem, pois é disso que precisamos para termos ao menos uma vaga noção do chão que pisamos. É tateando que encontramos os caminhos. E aí é onde entra o João Vergílio, mostrando alguma coisa que ele já percebeu, um caminho.

  57. Ivan Moraes disse:

    “Quando alguém não quiser aderir a uma greve, será obrigado por lei a assinar um documento abrindo mão formalmente de todo e qualquer benefício salarial ou trabalhista conquistado por meio daquela greve. Pode destinar o percentual de salário obtido pelo movimento grevista a uma ONG, instituição de caridade ou qualquer coisa do gênero. Só não pode é ter todos os bônus da greve sem arcar com nenhum de seus ônus. Se baixarem esta lei, aposto que nunca mais haverá piquete em greve alguma”:

    Ok: AONDE foram os 6 salarios da reitora imediatamente apos a greve anterior?

    Nao da pra adiantar o assunto sem essa pesquisa! Isso eh elementar, gente.

  58. João Vergílio disse:

    Há vários pontos nas objeções que me fazem que exigem tratamento mais cuidadoso. Para não abusar do espaço, selecionarei alguns, que me pareceram os mais importantes.

    O primeiro diz respeito à legitimidade do uso de piquetes de convencimento, por oposição àqueles que recorrem à força física. Neste ponto, a exigência de clareza leva-me a inventar um neologismo. Chamarei de “biguetes” (por oposição aos piquetes) aquelas reuniões de grevistas feitas exclusivamente para distribuir panfletos e argumentar com as pessoas que querem entrar em seus locais de trabalho, ou em sala de aula. Obviamente, não sou contra biguetes. Pelo contrário. Esse é exatamente o tipo de manifestação que deveria ocorrer dentro de uma universidade. Piquetes são outra coisa. Envolvem sempre algum tipo de constrangimento físico. Pode ser uma barreira de pessoas postada na porta das salas, impedindo os alunos de entrar; ou, então, os famosos “cadeiraços”, com mesas e cadeiras viradas de cima para baixo, e impedindo fisicamente a ocorrência das aulas; ou, ainda, as correntes postas nos portões. Tudo isso deveria ser banido da vida universitária, pois é completamente incompatível com ela. São modalidades de violência? São, no mínimo, modalidades de ação que convidam à violência, que ficam no seu limiar, que não deixam ao adversário outra alternativa que não seja recorrer a ela, ou então chamar a polícia, para fazer valer os seus direitos.

    Ninguém está querendo estender automaticamente estas considerações àquilo que acontece na porta das fábricas. O que acontece lá é parte de um jogo de forças que cabe aos operários da fábrica analisar. O que falo diz respeito exclusivamente ao meu ambiente de trabalho – a Universidade de São Paulo. Nunca, nestes trinta anos como aluno, primeiro, e agora como professor, vi um único funcionário ser pressionado de qualquer modo que fosse para não participar de uma greve. Nunca pairou sobre nenhum funcionário a mais pálida ameaça por parte das chefias, até porque estamos protegidos, lá, pela estabilidade no emprego. Isso nunca aconteceu, nem deve acontecer. Mas tampouco podemos admitir que membros da comunidade queiram substituir o cérebro pelos bíceps. Isso não está certo, e precisa ser contido por meio de um pacto que exclua definitivamente o recurso à violência dentro da universidade.

    Acima de tudo, seria um absurdo querer estender o que eu disse a situações envolvendo pessoas miseráveis em condições que afrontam os direitos humanos mais básicos. Há inúmeras situações em que é legítimo, sim, ignorar a lei. Quando, por exemplo, presos se rebelam pelas condições carcerárias brasileiras, sua rebelião é mais do que legítima. É um absurdo analisar aquelas situações apenas na base de argumentos legalistas. “Mas, então, você não está sendo incoerente?”, alguém poderia perguntar. “Não deveria analisar também a situação dentro da universidade ultrapassando os marcos estritos da legalidade?” Eu responderia a isto de duas formas.

    Primeiro, faria a pessoa ver que não é isso que eu faço. Quando conclamo meus colegas a expelir de nosso convívio formas violentas de ação política, não estou me baseando apenas na lei, mas num certo padrão de convivência que deve imperar na academia. É o fim da picada, num ambiente protegido pela estabilidade no emprego, que colegas queiram obrigar outros colegas a aderir a uma greve na marra.

    Em segundo lugar, procuraria mostrar a meu opositor que o lastro para podermos justificar a ruptura da ordem legal democrática em determinados casos é dado pelo uso de critérios rígidos de seleção. Sem isso, a ruptura se banaliza, ocasionando o desgaste progressivo dessa noção imprecisa, mas absolutamente preciosa que a história contemporânea nos incumbiu de, na medida do possível, preservar: a noção de um conjunto de direitos que temos, não enquanto professores, alunos, ou funcionários da USP, mas enquanto seres humanos. Querer justificar as botinadas na reitoria e os piquetes violentos recorrendo a essa noção é demonstrar um profundo e lamentável desprezo por ela.

    Algumas respostas são bastante mal educadas. A elas, obviamente, não respondo, pois não há o que responder. Digo apenas que me sinto feliz por não ter identificado em nenhuma delas o nome de um colega.

  59. Ricardo Leao disse:

    Primeiro parabens para o Joao Virgilio que pegou na veia e expressou o que tento argumentar em outro blog. O sintusup vem frocando a barra a alguns anos. Quem acompanhou a primeira invasao em 2007 sabe que eles PEDIAM a presenca da PM. Quanto aos piquetes pelo menso em RP eles sim afetam o dia a dia do campus e sao intimidadors. Estou long de serem pacificos.

    Segundo nao sou fa da reitora atual, mas ouco muito se falra em intransigencai. E eu pergunto: que intransigencia? o que ela nao fez? Ela reabriria as negociacoes assim que os piquetes terminassem O Sintusp o que fez? Terminou os piquetes? Pelo contrario pos os estudantes para comprar briga com a PM (e conseguiram o que queriam. martitres do movimento) .
    Os grevistas pedem 17% mais 200 Reais para todos. A reitoria deu 6% 9alguem estah tendo aumento nessa crise?-aqui nos EUA nehum faculty teve aumento esse ano) aumentou o auxilio creche (que foi para 400 – era 70 Reais no inicio da gestao da Suely) e criou um auxilio para pessoas com filhos com necessidades especiais. A Suely tbm tinha aumentado o vale refeicao de uma merreca de 20 reais (vale-coxinha) para 350 que eh hoje. Ela eh tao capitalista sanguinolenta como diz o Sintusp? Eh bom lembrar que o SINTUSP BOICOTOU o congresso da USp ano passado por um mjotivo futil, uma das reinvidicacoes deles proprios e da ADUSP! (ateh o mais ferrenho ADUSpeiro do meu Departamento ficou revoltado)
    Eu sou docente e nao acho o meu salario a maior maravilha e acho que mereceo mais do que os 6%, mas sou realista e sei um pouco como acontece as negociacoes e se que a previsao de arrecadacao do ICMS para o ano que vem eh nebulosa com essa crise. Nao consigo ver a reitora como essa financista desumana como pintam. eh bom lembrar que os salarios dos funcionarios da USP sao superores ao do mercado, e se vc duvida veja a quantidade de concorrentes que tem apra cada vaga aberta. Participei de um processo de tecnico basico I o mais baixo (1100 reais mais os beneficios) com 5 vagas, 400 candidatos e todos os selecionados tinham curso medio ou superior.
    Eh bom lembrar que as negocioaoces nao sao isoladamente com a reitora da USP ams das 3 Estaduais por causa da isonomia. E que quem emperra tudo eh a UNESP que tem uns 95% do orcamento comprometido com pessoal. Entam vejam com o processo eh complicado.

    Naoe estou defendendo ninguem apenas tentando relativizar pq vejo o dialogo na Universidade sumindo sendo substituido por gritos, palvras de ordem e ameacas e violencia. e violencia soh leva ao que vimos e depois dessa feridas abertas ou todos se sentam e poem as armas de lado para dialogar como gente grande ou vira guerra. E quem vai perder com essa guerra eh a USP, e a sociedade.

  60. José disse:

    Concordo plenamente com o Prof João. Sou aluno da USP e, não posso aceitar a violência que a minoria de alunos desocupados e sem uma argumentação devidamente sustentada, para uma greve de alunos, bloquear o acesso dos estudantes às salas de aula, fechando corredores e prendendo um professor que, inutilmente, tentava acabar com um piquete. Foi o que presenciei esta semana na USP. Não estou tirando o mérito das pessoas que sofreram na ditadura, mas até quando terei que ouvir gritos como: “a ditadura”, o “AI-5″, etc. É tentar contextualizar esses acontecimentos, que sinceramente, nada tem de parecido com a situação atual. Ditadura? Foi a que passei durante esta semana quando fui impedido de entrar na sala de aula.

  61. Legal disse:

    Parabens ao Joao. Se ha funcionarios que fazem piquetes que sejam demitidos. E se ha estudantes invadindo predios que sejam expulsos.
    Nao se demite uns nem se expulsam outros.

    Pra piorar, aceita-se que estudantes facam TRAFICO DE DROGAS na universidade. E que alunos profissionais fiquem la anos e anos recrutando gente pro movimento. O que fazer? Expulsem os traficantes e jubilem os alunos profissionais.

    Sem os piqueteiros, os invasores de predios publicos, os traficantes e os estudantes profissionais toda a universidade ira ganhar e muito.

    E como uma casa. Se vc quer que tudo funcione tem que limpar e jogar a sujeira fora. Simples assim.

  62. Monier disse:

    A Folha tem sido um jornal meio esquisito. Mas os leitores continuam precisos:

    USP
    “A truculência da PM dentro do campus da USP é signo de uma atitude não menos violenta: o desprezo ao diálogo perpetrado pela reitora Suely Vilela. Se antes havia alguma dúvida, que se leia com atenção a reportagem feita por Laura Capriglione (”USP atribui confronto a ação de grupo radical”, ontem).
    Procurada dez vezes pela jornalista desde o dia 2, a reitora desdenhou esta Folha, tal como o fez com os funcionários e professores da universidade.” A universidade é o local do conflito de ideias e de propostas, da negociação, do exercício da razão e do esclarecimento.
    A conclusão é óbvia: a reitora está no lugar errado.”
    HAROLDO SOUZA DE ARRUDA , aluno da pedagogia da USP (São Paulo, SP)

    “Sou estudante da Escola Politécnica da USP e gostaria de esclarecer um ponto muito importante que a imprensa deixa de citar.
    Os poucos alunos em greve são dos cursos de humanas. Nos outros cursos, continuamos a ter aulas normalmente. A greve de menos de 10% de estudantes não reflete o pensamento da maioria e dificulta quem quer estudar.
    Eu apoio a presença da PM para garantir a funcionalidade do campus, pois há mais de 30 dias estamos tendo aula com carros de som, com o volume no máximo, passando ao lado de nossas classes e com grevistas entrando em nossas salas procurando pessoas para aderir ao movimento. Pessoas que dependem de benefícios do campus, como o bandejão, o ônibus circular ou até mesmo os laboratórios, não podem usá-los pois há piquetes.
    Acho extremamente importante o papel dos estudantes no passado, em movimentos como o das Diretas Já, mas é impressionante que ainda existam pessoas que não saíram da década de 70 e querem lutar contra algo que não mais existe.”
    VICTOR NOGUEIRA DOS SANTOS (São Paulo, SP)

    “É um absurdo, inaceitável e sem nenhuma justificativa a ação da tropa de choque da polícia na USP.
    Agredir violentamente estudantes, professores e funcionários da universidade nos faz relembrar cenas do período trágico da ditadura militar, que envergonha o nosso país. Concordemos ou não com a reivindicação dos manifestantes, não podemos admitir essa violência contra uma manifestação pacífica.
    A universidade e o governo do Estado devem, de forma competente e civilizada, prezar pelo diálogo, e não pelo confronto de forma covarde. Talvez isso justifique a ineficiência da polícia em impedir o assalto por parte de 35 ladrões a uma agência bancária em São Paulo; os policiais chegaram atrasados a um assalto que durou cerca de 40 minutos.
    Estavam preocupados com a universidade.”
    CRISTIANO MELO (Ribeirão Preto, SP)

    “Na hora de jogar a polícia em cima dos estudantes da Universidade de São Paulo, o governador José Serra diz que está apenas cumprindo ordens judiciais.
    É uma pena que o governador não aplique o mesmo princípio quando se trata de precatórios alimentares.”
    LUIZ ALBERTO TÃO (São Paulo, SP)

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1106200910.htm

  63. Orlando Fogaça Filho disse:

    PUTIS!! Leiam o texto!!!!! Cancei de ouvir na Filosofia e me deixava doido…
    Agora concordo (como sou burro!), leiam o que o Joâo Vergílio propõe, e aí,argumentem!

  64. Legal disse:

    “Nos quatro anos que estudei na USP, na FFLCH a mais aguerrida escola da USP, não vi nenhum estudante profissional”

    Entao pode ir no medico consultar da vista.

    E facil reconhecer um. E so conversar com o fulano. Em geral, o cara nunca vai na aula. Esta em todas as manifestacoes. E comecou e nunca acabou varios cursos. E todo mundo conhece o fulano.
    Assim como todo mundo sabe quem sao os piqueteiros. E sabe quem sao os professores picaretas das fundacoes.

    Ha poucos, muito poucos, jovens que lutam pela liberdade. Isto e lenga lenga. A maioria do pessoal esta vinculada a partidos politicos, especialmente o PCdoB.

    O tal do movimento estudantil e so um “trampolim” politico, tal como os cargos de reitor das universidades publicas. So que uns sao do PCdoB e outros do PSDB.

    Voltando ao movimento estudantil, o pessoal nao esta nem ai com o jovem que trabalha na Berrini, estuda em Santana e mora pra la de Itaquera. O discurso do movimento nao e pra eles. Nem pro fulano que fica preso no transito umas 3 horas por dia sendo castigado pela Jovem Pan. O discurso e pros amigos. O movimento e so pra formar as futuras liderancas.

    Muitos podem ser facilmente encontrados acumulando cargos em conselhos profissionais e sindicatos. Va a uma reuniao deles. Eles nao tao nem ai com a situacao do profissional. O negocio deles e a reestatizacao da vale e outras coisas do ramo. O Santo Graal e virar consultor e prestar servicos pros governos do partido. Superfaturado e claro :-) )))))

    Os medicos jamais viram um dirigente do sindicato ou do conselho no hospital. Engenherios jamais viram seus representantes em algum canteiro de obras. E pra outras profissoes e o mesmo.

    O que o pessoal quer sao duas coisas: monopolio da carteirinha de estudante pela UNE e o imposto sindical. O resto que se lasque.

  65. Gabriel disse:

    1) O argumento da legalidade/constitu cionalidade não tem nada de lúcido. É, ou deveria ser, óbvio para todo mundo que dispositivos constitucionais são muito bem pensados para, no mínimo, neutralizar ações de massa que pressionem o Estado e empresas privadas. Isso fica claro ao individualizar a sociedade – ao invés de tratá-la como um conjunto de entes coletivos (o que possibilita que apenas UMA pessoa, que quer usar o CEPEUSP, ligue para a polícia, e esta intervenha imediatamente) -, e garantir ao Estado o monopólio da força. O marco legal de qualquer sociedade é justamente para garantir o Estado enquanto ente superior à própria sociedade.

    2) Ele fala do direito de quem quer aderir à greve, mas não fala do direito de quem quer. Espero que não sejamos ingênuos de achar que assédio moral, ameaças baseadas em poder hierárquico etc sejam coisas que ficaram no passado. O próprio Jornal do Campus, produzido pela ECA, teve uma reportagem na edição passada sobre as condições de trabalho dos vigilantes da universidade, que constantemente sofrem assédio moral, ameaça de transferência etc, quando tentam denunciar as péssimas condições nas quais exercem sua atividade. Se eles, que são parte da estrutura de vigilância, “manutenção da ordem”, passam por isso, não dá para achar que funcionários ligados à reitoria, por exemplo, não estão passando pelo mesmo.

    3) Quanto à referência às assembléias. Eu acho engraçado como as pessoas invertem as coisas. A democracia representativa é, majoritariamente, apreciada como o grau máximo de sociabilidade; e, nesta forma de sociedade, representações de categorias são asseguradas por entidades, eleições para elas, fóruns de discussão etc, entre os diversos segmentos da sociedade. Como isso é assegurado antes do desejo de qualquer pessoa ou grupo, pela própria Constituição (defendida como um grande argumento pelo autor do texto e por MUITA gente nessa universidade) , tem legitimidade garantida a priori. As pessoas confundem ter opinião contrário com expressá-la: NÃO ESTAR em uma assembléia para expressar a posição é DIFERENTE de ESTAR na assembléia é fazê-lo. Ora, não ir é ABDICAR do próprio direito de voz e voto. Frequentemente usam essa abdicação como SUBENTENDIDO de posição contrária à quem normalmente está organizando as assembléias, as mobilizações, greve etc. Só que na sociedade democrática representativa tão defendida não é assim. Não ir não subentende posição contrária; é, explicitamente, abdicar do direito de se representar, permitindo que a decisão seja tomada por outros. Ou seja, o argumento da não-representativida de também é muito frouxo.

    4) As ocupações de prédios públicos não são crime. São métodos autênticos de manifestação e de cobrar negociações de pautas. Quem organiza greve, mobilização, sabe que uma passeata que não interfira no trânsito, uma greve que não afete a produção/o serviço, não surtem efeito, porque não exercem pressão alguma. O problema desse racionalismo puro é acreditar piamente que na sociedade não existem interesses díspares; é uma contemplação platônica da humanidade, que inverte totalmente o que existe concretamente, o que se movimenta concretamente. No caso dos funcionários, por exemplo, foram feitas pelo menos 3 ou 4 assembléias antes de deflagração de greve; a administração da universidade já sabia o que acontecia, e não teve um esforço mínimo de negociação de um aumento salarial ACORDADO EM 2007. No caso dos estudantes, entre outros pontos, a questão da UNIVESP: independente do mérito do projeto, sua aprovação foi decidida sem consulta à comunidade universitária, numa sessão do Conselho Universitário, a respeito da qual não foi informado local de realização. Enfim: diálogo no dos outros é refresco né? Claro que tem que ter; mas também é claro que a reitora não quer arriscar, como em 2007, receber críticas por não ter reprimido manifestação, por ter acatado reivindicações etc.

    5) Por fim, fazendo um recorte ultra-específico ele pode afirmar que “Agora que o pior já passou (…)”. Não passou; o que passou foi o gás das bombas, só. A estrutura de participação e de diálogo da universidade continua a mesma (basta ver o Estatuto para ver a composição “reprensentativa” dos colegiados), a reitoria não reabriu negociação, a PM continua no campus como pressão pra NÃO TER GREVE e pra gerar conflito na própria comunidade universitária (claro, pois aí a administração se ausenta de qualquer responsabilidade por tensões internas à USP). Violência é uma estrutura social como a nossa, com seus reflexos dentro e fora da universidade; violência não é a ação promovida por quem questiona, resiste e reivindica frente a ela.

  66. Gabriel disse:

    Obs.: CEPEUSP – Centro de Práticas Esportivas da USP.

  67. Legal disse:

    “Vi alunos jovens, bem intencionados travando suas lutas ideárias (tá bom, não achei no dicionário) na maior das boas intenções.”

    Curiosamente, nenhum deles reivindica um banheiro ou uma cantina decente na FFLCH. Vc que se vire pra desviar das pocas e que suporte a ma criacao do pessoal da lanchonete. E o que falam da FEA e pura inveja.

    Como diz um amigo meu, a FEA e um LUXO, ja a FFLCH ta um L…

  68. Gilberto Passos disse:

    Texto fraquíssimo, absolutamente unilateral. Uma pena, esse blog está se tornando mais um refúgio à direita cinicamente ordeira. Uma coisa é certa: o baixíssimo nível da “vida intelectual” nesse país é reflexo imediato do que está acontecendo na USP.

  69. Hans Bintje disse:

    São bastante estranhas as declarações de João Vergílio.

    Qualquer universitário deveria saber, conforme relata o professor Flávio Aguiar (1), que “polícia no campus ou contra manifestações de estudantes só deu baderna e agressão contra a universidade, essa é a regra desde sempre – acho que desde a fundação das primeiras universidades na Europa, no século XIII, quando já havia conflitos entre estudantes e autoridades em nome da autonomia universitária (as primeiras foram em Bolonha e em Paris).

    Na América Latina sempre foi assim, e no Brasil assim aconteceu desde as históricas lutas pela abolição da escravatura e pela república. É famoso o episódio da pancadaria em Recife entre a guarda policial e os estudantes que reivindicavam a abolição e a república em setembro de 1866, o que levou o então jovem Castro Alves a declamar, da sacada de um jornal, de improviso, seu poema ‘O povo ao poder’, com os célebres versos: ‘A praça, a praça é do povo / como o céu é do condor’.

    O tempo passou e o condor hoje é uma ave ameaçada de extinção a que cabe proteger. A liberdade, essa é uma ave sempre ameaçada de extinção, em qualquer canto do globo onde o autoritarismo obtuso e rombudo, mas também pontiagudo como a baioneta em riste, contra ela invista, ou onde a autoridade por detrás delas se esconda.”

    Creio que João Vergílio saiba que seu nome veio de um poeta latino, autor da frase “Libertas, quae sera tamen”.

    A wikipedia lembra (2) que “liberdade ainda que tardia é a tradução mais comumente dada ao dístico em latim ‘Libertas Quae Sera Tamen’, proposto pelos inconfidentes para marcar a bandeira da república que idealizaram, na Capitania de Minas Gerais, no Brasil do final do século XVIII.

    A expressão em latim acabou sendo aproveitada para adornar a bandeira do estado em que a capitania das Minas Gerais se tornou, já no século XIX, e foi isso que manteve a frase viva até os tempos atuais.”

    A liberdade virá e a Universidade tem uma enorme responsabilidade nisso, como afirma o professor Flávio Aguiar: “É esse o seu papel formador, e não o de se curvar à tradição das armas e do autoritarismo que tanto marcaram a vida brasileira. À polícia, portanto, só resta a retirada. À autoridade que a chamou, ou que consentiu em sua presença, só resta voltar atrás e reabrir as negociações. Se alguma razão tivesse em se mostrar reticente quanto a negociar – agora a perdeu completamente, e por suas ações ou omissões.

    O que cabe agora é a responsabilidade histórica de, por sobre as razões particulares, chamar à voz da razão, que manda negociar e parlamentar. Aos professores, funcionários e estudantes, da USP, solidariedade total, essa deve ser a consigna dos democratas que lutaram e lutam pela liberdade de expressão neste nosso país de violências inesgotáveis.”

    Notas:

    (1) http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4368

    (2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Liberdade_ainda_que_tardia

  70. Lauro disse:

    João, você está certo e está errado (muito). Certo: a violência é péssima. Mas o que vimos foi uma demonstração de:

    a) Clara Incompetência de reitora para lidar com a categoria reivindicante.

    b) Clara incompetência do Governo do Estado para conduzir a operação dentro da Universidade. Tivemos a impressão nítida de despreparo da polícia (até em função da forma como esse governo psdebista vem tratando a mesma).

    c) Percepção de falta de interesse do governador. Aliás, o que Serra está mesmo fazendo por SP? Alguém sabe? E ainda quer ser presidente?

    Sua análise, João, também é muito superficial, pois não entra no mérito da gestão da USP, lembrando que má gestão da coisa pública pode ser vista como uma forma de violência, na medida em que tira oportunidades de quem estuda.

    Os gestores da Universidade estão fazendo gestão boa e transparente? As regras do jogo são justas? A gestão das finanças está correta? A gestão de pessoas está correta? Desculpe-me, João, mas a visão demonstrada no seu texto acima é, no mínimo, estreita.

  71. Pedro Plaza disse:

    Concordo inteiramente com o Pablo Castro.

  72. Antonio Barros disse:

    É difícil ler todos os comentários postados, mesmo em um dia de feriado como este. Então, existe a possibilidade de meu texto já ter sido contemplado por várias destas falas.

    O primeiro ponto a ser discutido é justamente a questão da legitimidade do movimento social. Se formos recriminar toda e qualquer ação realizada pelos movimentos sociais tout court, corremos o risco de esvaziar sobremaneira a ideia de democracia, caindo num perigoso conceito que define como democráticas apenas as verbalizações, e não também as práticas. Mas vamos conceder, apenas por um momento, esta possibilidade teórica, e vamos encarar a democracia apenas como o conflito de ideias, e não de corpos.

    Sendo assim, por que é tão fácil legitimar aqueles que discordam do movimento sem que, entretanto, tenham participado ativamente da construção política do consenso? Em outras palavras: por quem numa greve como esta, a voz dissonante não aparece exatamente nos espaços públicos de construção da legitimidade (ou ilegitimidade) da reivindicação e dos rumos do movimento social? No fundo: por que temos a propensão de chamar de movimento social apenas aquelas reivindicações que partem da ação e somos incapazes de chamar de movimento social a inércia política dos que discordam da greve? Não são dois movimentos antagônicos, que delineiam, em última instância, as práticas aceitas ou recriminadas no âmbito social?

    O ponto a que quero chegar é muito simples: numa democracia feita só de palavras, de ideias, fica muito fácil resguardar, por princípio ético e moral, a participação daqueles que nunca se imiscuem no processo democrático (considerado, aqui, como o “palco das ideias”). É preciso lembrar que essas assembleias que definem a greve preveem a participação de absolutamente TODOS os interlocutores, com direito a voto. Então, qual é o receio desses que discordam dos rumos do movimento? Por que eles não dão voz às suas inquietações e aos seus planos de gestão da Universidade?

    Parece-me, caro Nassif e João, que estamos usando um diapasão errado, aqui, na tentativa de avaliar os fatos. Estamos tornando monolíticas duas vertentes do movimento social em torno da USP: os grevistas e os não-grevistas, como se se tratassem de esferas homogêneas. Essa simplificação grosseira joga uns contra os outros, escamoteando o fato de que, democraicamente, eles têm rigorosamente o mesmo status!

    A decisão de dar continuidade às atividades durante uma greve votada em assembleia fere, sim, o estatuto democrático dessas pessoas que se reúnem em torno de uma pauta, de um projeto, e que, por isso mesmo, planejam ações, interpelam as pessoas (às vezes de modo truculento, é verdade). Fere, porque minimiza a capacidade de diálogo; fere, porque dá de barato que os seus métodos ou ideais são, de partida, corrompidos.

    É claro que a decisão de fazer barricadas e piquetes é uma decisão que intervém diretamente sobre o direito do outro, aquele que quer trabalhar/estudar. Nesse sentido, ela “deslegitimiza” a voz pública dos discordantes. Mas, eu me pergunto, não seria, também, deslegitimizar o direito do grevista, especialmente quando não se reconhece neste um interlocutor?

    A inércia política, amigos, é, ela própria, um movimento social…

    Fica a provocação.

    Um abraço!

  73. Andre disse:

    É…eu concordo com a seguinte idea proposta acima:

    As pessoas tem o direito de não aderir a greve…..então tambem não deveriam usufruir dos benefícios conquistados em decorrência dela.

    Eu acho que se alguem não quer ir lá protestar tudo bem, mas ela deveria respeita as determinações de assembleia da categoria que a representa, cujas decisões foram tomadas ‘PELA MAIORIA” que compareceu às convocações.

  74. Gilberto disse:

    Mais um grande post. Parabéns ao autor, que demonstra com clareza a violência da coação física e moral que são esses piquetes. Coisa de quem não consegue convencer usando a palavra.

  75. Manoel Galdino disse:

    O Problema da Universidade é que ela não é democrática. Estudo na USP desde 1999 (estou no doutorado) e tem greve quase todo ano. É cansativo.
    Atrapalha a Universidade para conseguir pouca coisa. Não vale a pena.

    Por outro lado, como a USP não é democrática, ela não processa bem os conflitos. Vejam, faz sentido criticar o uso da violência. Se lutou pela democracia justamente para não termos que disputar as coisas na violência. Mas aí, a USP não é democrática. Como ela vai processar bem os conflitos? Não vai, pois há muita assimetria. E isso é uma contradição, pois acho mesmo que a USP não deve ser democrática. É uma insituição baseada no conhecimento, no acúmulo de conhecimento.

    Então, todo o argumento de que se deveria apenas usar a palavra, a racionalidade… Perde um pouco o sentido numa insituição não democrática. Conhecemos milhares de histórias de como as coisas na USP são decididas no atropelo, sem consulta aos vários setores, sem negociação enfim. Aí, como é que se pode exigir de alguém que recorra à palavra se a palavra dele não tem poder algum, pois a palavra (o Logos?) está imiscuida numa insituição hierárquica, com assimetiras de poder?

    Não é um contra-senso?
    Não tenho solução para o problema, mas acho que o prof. João Vergílio vai para um caminho mais fácil do que as coisas são. Ele está há mais tempo que eu na USP, e certamente pode trazer mais informações para o debate. Mas ele há de reconhecer que há hierarquias e assimetrias de poder (que devem existir, repito).

  76. Ari disse:

    Muito estranho tudo isso
    Como é que fica uma tradição desta pratica “estudantil” de agir diante de seus problemas?
    Parece que estamos diante de um quadro patológico. A academia está doente.
    Tudo. A lógica e os métodos, mostram um retrato vergonhoso do processo acadêmico e a realidade da universidade. Que nível de entendimento. Ora, é democracia ou não é? Se é democracia porque agem como se estivessem em ditadura. Imagine se todos os setores sociais (contem quantos) partissem para exigiram “seus direitos” com estes mesmos métodos?
    Isto é um exemplo ou é um privilegio?
    Olha, eu desisti da UFPB em 1985. Cansei de conviver com este pensamento retrógrado. Me arrisquei fora da universidade preste a me formar, mas abandonei também uma angustia. Graças a Deus, salvei minha saúde.
    Tenho pena de estudantes verdadeiros que têm que se submeterem aos apitaços desses baderneiros.
    Taí uma idéia. Deveria fazer cotas com as vagas destes baderneiros- Como diria na própria linguagem deles- Abrir vagas com a expulsão deles para afrodescendentes, gays, e todas estas minorias que brigam por privilégios em vez de méritos.
    Ufa!

  77. Gabriel Barbosa disse:

    Muito sensato o texto do João Vergílio (assim como o de Nassif postado ontem). E, ao contrário, do que alguns comentaristas acusam, ele não defende a reitora, tampouco a ação da polícia. Simplesmente, atenta para o outro lado da moeda: a violência perpetrada dentro do campus por alguns funcionários, alunos e professores.
    Muitos reivindicaram, aqui, “o contexto histórico” que leva às ações violentas. Mas parecem esquecer (ou omitir) que esse “contexto histórico” se caracteriza sobretudo pela total falta de comunicação dos sindicatos e organizações estudantis com aqueles que supostamente representam. Em suma, perda de representatividade e legitimidade!
    Isso é justamente consequência da falta e mal uso da palavra de que fala João Vergílio.
    Grupelhos políticos (este é o termo!) tomaram conta dessas organizações, afastando a maioria dos funcionários, estudantes e professores. Grande parte das reuniões e assembléias são controladas por esses grupos, que manipulam as pautas de discussão, votações e decisões (realizadas no final da noite, horas depois do horário combinado, quando as salas já estão vazias).
    O resultado não poderia ser outro. Perda de legitimidade e radicalização (o apelo para piquetes e a depredação dos prédios), assim como pancadaria!
    Cumpre notar que, durante a manifestação e repressão de quarta-feira, havia muitos professores e alunos em aula. Não só na POLI e FEA, mas em todo o campus, inclusive, na FFLCH. Por que será? Seriam eles “alienados”, “pelegos”, “entreguistas”? Ou será que não foram ouvidos por aqueles que decidiram fazer a greve e a manifestação?
    Este é um dos aspectos da questão, que precisa ser considerado e discutido, tanto quanto à inépcia da reitora e do governador, e a truculência da polícia.

  78. luiz c l botelho disse:

    Prezado Nassif e comentadores
    Certamente o instrumento da greve é sacro-santo, quando salários dignos e políticas de ensino de eficácia discutíveis ( alegada massificação SISTEMÁTICA, sem densidade e qualidade do ensino atravès de Radio- Lembrem-se do hilário Projeto Minerva dos Governos Militares ?, os cursos por Correspondencia em 10 lições , Televisão, Computador, Interiorização de cursos (salas de aulas no “butequim”) ,etc..);estão sob discussões de ordem políticas.O grande problema é manter-se o respeito pela dignidade do ambiente univérsitário!-pago por impostos de todos , (diretamente ou indiretamente), o qual é tristemente confundido com o enfervescente pátios das Fábricas ,quando em greve.

  79. Marcos disse:

    Sou aluno da Filosofia da USP e é o meu segundo curso na universidade. Assim como o colega comentou acima, eu também nunca vi qualquer tipo de violência mencionada no texto do João Virgílio. Mas, talvez ele tenha mais tempo de USP, comparado a nós comentadores, para dar esse depoimento. A experiência pessoal é algo a favor e deve ser mencionada, professor.

  80. george disse:

    triste e muito infeliz, o seu texto, prof. sou seu aluno e estou decepcionado.

  81. wilson cunha junior disse:

    De tudo isso acho que a maioria vai concordar com pelo menos uma coisa:

    Se o Serra não consegue dar uma resposta política para um problema localizado numa universidade pública de um estado que o escolheu governador, como dá-las para todo o Brasil?

  82. Baruck disse:

    Repudio totalmente o uso de forças de segurança contra manifestantes da forma como foi feito na USP. Essa prática, que parece, tem sido habitual em São Paulo, expõe uma certa dificuldade de negociação do governo.

    De qualquer forma, o que não justifica em nada a atitude oficial truculenta, é preciso rever os mecanismos de pressão social. Como as greves se iniciam sem muito consenso nas universidades, cria uma completa desorganização do período letivo, de forma que alguns cursos – e até professores dentro de cursos em greve – continuam as aulas “normalmente”. Já passei por situações em que tive 2 “períodos” em 1. Um durante a greve, com as aulas que não pararam. Outro após a greve.

    Acho que é preciso repensar o método. O problema é saber qual. Em serviços como museus e metrôs, por exemplo, uma iniciativa seria abrir as roletas. Causa o mesmo prejuízo (até maior) ao patrão e, ao mesmo tempo, guarda a simpatia da opinião pública. Mas em uma universidade não há roletas. Como se fazer ouvir?

  83. João Maria Fernandes disse:

    Estudantes, professores e funcionários ocupando instalações de uma universidade não estão “invadindo” prédios públicos, acontece que esta forma de manifestação torna-se uma das maneira de dizer ao mundo la de fora que alguma coisa não vai bem na comunidade universitaria.

    Esse expediente reinvidicatório não dá a nenhum tirano o direito “constitucional” de usar o aparato repressor do estado para repor “a lei e a ordem”; usem o aparelho de repressão para tocair os exércitos do tráfico de drogas por exemplo, ou será que o fato de eles não usarem cadernos nem flores para revidar, e sim armas de grosso calibre, faz a PM pensar em dialogar antes com seus advogados?

    O discurso deste senhor me parece uma tese bem disfarçadinha de como ser um pelego e conviver na boa com todo mundo depois uma manifestação como essa.

    Boa tarde

  84. Fabricio de Paula disse:

    Assistam o vídeo abaixo e me digam se a atitude dos alunos é pacífica:

    http://www.youtube.com/watch?v=zYnvT4nqK3M&feature=channel_page

    eu não acho nem um pouco pacífica.

  85. Fabricio de Paula disse:

    Leiam o relato abaixo e me digam: isso é piquete legítimo??

    ============================================================
    Manifesto dos alunos em repúdio ao incidente envolvendo a turma do período noturno da disciplina FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I no dia 09.06.2009
    São Paulo, 11 de Junho de 2009.
    Este último dia 09 foi um dia triste na história da Universidade de São Paulo. Presentes ou não, todos nós da comunidade USP vimos o poder da força tomando o lugar do poder das palavras: o diálogo foi negado a favor da violência.
    O diálogo, entretanto, manteve-se presente na disciplina FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I durante todo o curso. A viabilidade para realização da prova no dia 09.06, marcada anteriormente ao estabelecimento da greve, e a própria disposição ou não dos alunos em a realizarem também estiveram inclusas em nossos diálogos por meio do fórum de discussões do sistema Moodle (http://moodle.stoa.usp.br). Várias possibilidades foram abordadas e a decisão final foi: quem quisesse ir fazer a prova, que fosse, e quem não quisesse ir ou tivesse o acesso impedido faria uma prova alternativa via Moodle em data ainda a ser definida. A escolha ficou a critério dos alunos, que de maneira alguma seriam prejudicados pelo não-comparecimento. Segundo consta no Júpiterweb há 24 estudantes matriculados nessa matéria no período noturno – 12 alunos compareceram para a prova.

    Próximo ao término da prova, por volta das 20:44 horas, nós, estudantes, de dentro da sala, ouvimos alguém gritar “Hitler!” três vezes. Apesar de que pelo bom-senso ou conhecimento de mundo mínimo parecer desnecessário relatar tal atitude como ofensiva, parece-nos melhor esclarecer que a alusão a um dos maiores genocidas da história da humanidade para uma turma que por vontade própria está realizando uma prova é, para dizer pouco, repugnante. Mas, ainda, falar isso para uma turma de Alemão é de um generalismo absurdo, ignorante e inaceitável. Os estudantes de Letras poderiam lembrar-se (ou conhecer) as palavras do poeta judeu de língua alemã nascido em Czernowitz, que teve os pais mortos pelo regime nazista e foi submetido a trabalhos forçados no campo de concentração: “A língua permanece intacta, sim, apesar de tudo” (adaptação do original).

    Pouco tempo após isso, diversos estudantes abriram a porta para “falar sobre o que havia ocorrido na universidade”. Não foi uma tentativa de dialogar ou argumentar sobre a legitimidade de nossa presença em sala: foi uma série de insultos, baderna e julgamentos de caráter. Os alunos da sala se manifestaram dizendo que estavam lá porque queriam e que aqueles que não estavam presentes, ao contrário do que se gritava (afirmando que estávamos lá “sob coerção de nota”), não sairiam no prejuízo. Cada um como indivíduo pensante, como adultos que somos, estávamos lá exercendo aquele direito que a nossa sociedade ocidental tem como supremo: o direito de livre-arbítrio. Não seria esse o momento dos alunos que se dizem “a favor da democracia” respeitarem o direito de seus semelhantes? O fracasso do diálogo fez com que alguns alunos do Alemão tentassem fechar a porta: medida irrealizável e tomada à flor das emoções.

    Por fim, o que puderam fazer doze alunos quando cerca de cem, mais ou menos, alunos histéricos (fazendo uso aqui da acepção proposta no Dicionário Houaiss “comportamento caracterizado por excessiva emotividade ou por um terror, pânico”) os obrigam, por meio de intimidação verbal e gritaria, a deixarem a sala de aula? – Sair.

    ==============(ATENÇÃO NA PARTE A SEGUIR)===================

    Assim, saímos. Cinco alunos acompanharam a professora até a sala dela para discutir o que tinha acabado de acontecer e também porque temiam maiores retaliações direcionadas à professora. Ao perceberem isso, os estudantes chegaram a mais uma conclusão infundada: os alunos estariam indo para terminar a prova, “bando de puxa-sacos”. Eles vieram atrás desses alunos e da professora, que, temendo pela integridade física dos mesmos, trancou a porta de sua sala. Nisso, os estudantes começaram a bater com excessiva força na porta, como que tentando derrubá-la, e desligaram a luz do andar inteiro. Sentimento dos que estavam lá dentro? Perplexidade. Vinte ou trinta minutos depois os estudantes foram se dispersando e os vigilantes do prédio apareceram para ligar a luz e acompanhar os que estavam dentro da sala até a saída do prédio. Os alunos e a professora saíram, então, chocados, assustados, tristes.

    Foi dada como justificativa da ação a alegação de uma suposta aluna do Alemão ter sido agredida (levado um tapa na cara) pela professora. Isso é uma mentira e uma calúnia. Quem era do Alemão, repetimos, estava lá porque queria: teve direito de escolha. O fato dos estudantes terem reagido sem o menor conhecimento de causa, sem tentar averiguar o ocorrido só mostra como uma inverdade é capaz de manipular muita gente.

    ============================================================

    Tática totalitarista: uso de mentiras e da violência em defesa da “causa”…

  86. VIVA O BOM SENSO.

    Se vocês da USP se retirassem das salas de aula em silêncio, sem conversar com ninguém, muito menos com a “grande imprensa”, e simplesmente estendessem faixas com as suas reivindicações no campus, Serra ficaria pê da vida e vocês ainda estariam assistindo ao Bob Esponja toda manhã…

    E o melhor: as suas reivindicações seriam atendidas mais rapidamente.

    Serra e o PIG arrumaram o pretexto que queriam: colocaram vocês todos na marginalidade.

  87. OM disse:

    Parabéns pelo texto professor João Vergilio.!!! As viúvas e os netos “de 68″ brincando de “atores da história durões e justiceiros” são totalmente anacrônicos.. e risíveis!! Só falta eles quebrarem garrafas de coca-cola (ícone do imperialismo) na praça da reitoria …qua qua qua!!!

  88. Marcelo Cardoso Trindade disse:

    Parabenizando o João pela coragem em expor-se, pergunto:
    - seria o jovem massa de manobra tão maleável a ponto de seguir flautistas de Hamelim?
    - culpar esta juventude pelos acontecimentos não seria oportunismo em função da sua vulnerabilidade vivencial, educacional e econômica?
    -

  89. Adriano do ABC disse:

    Nassif,
    Ontem no post sobre a invasão da USP, escrevi sobre o que significou a leitura de um poema de Bertold Brecht, impresso num cartaz pró-reconstrução da UNE: “Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem.”

    Era 1978, hoje, sempre que leio alguém criticando as reivindicações e a violência dos movimentos sociais, do MST, da CUT e da ação dos grevistas, lembro de Brecht.
    Fiz parte da geração que estudou na USP entre 1978 e 1983, acompanhei e participei de várias lutas, greves e manifestações, reconstrução da UNE, UEEs e.DCEs. Vivíamos sob a ditadura militar e o Movimento Estudantil colaborou com o seu fim. Na época, embora adversários, estávamos do mesmo lado do front. O governo Serra seu pessoal da AP e do seu vice (Goldman era do antigo PCB, hoje PPS); com a invasão da USP, fez o que Erasmo Dias, Maluf e outros brucutus não tiveram coragem. Haja peito e cara para olhar nos olhos das gerações futuras. Tenho certeza que eles e seus adeptos que assediam nossos blogs não merecerão o rodapé da História.
    Acompanho vários blogs. Todos têm uma coisa em comum; alguns comentaristas (ou todos no blog do Noblat), falam dos baderneiros, comunistas e do satanismo petista. Quase todos – desse grupo, escondem suas identidades e sua verdadeira ideologia. São chauvinistas com idéias oriundas dos porões da sociedade. Pregam a moral e a tradição, mas não respeitam as divergências, os direitos e as liberdades democráticas. Assim, revelam todo seu ódio, através de termos como satã, pátria e respeito, para eles a os atos de Hitler, Opus Dei, Stalin, Comando de Caça aos Comunistas e Operação Bandeirantes serão sempre justificados; para eles não ocorreu o holocausto e os crimes da ditadura são brandos.
    Por sorte, o humanismo tanto de esquerda, como de centro e também da direita civilizada são maiores que o autoritarismo, o fundamentalismo arcaico, o stalinismo e a barbárie nazista.
    Xô Urubus!!!

  90. André Leite disse:

    Sinceramente considero os argumentos do João Vergílio absolutamente furados. Sei que esse começo dá a entender que estou motivado pelo mesmo flaxflu que alimenta tantas discussões em blogs de política. Acreditem, não é caso. O que mais admiro no blog do Nassif é o fato de ele ser ponderado, fugir do passionalismo que diminui o debate.

    Acho que conheço a dinâmica da USP a ponto de poder discutir o assunto. Sou um ex-aluno da USP. Fiz jornalismo até o último ano, mas não me formei. Fui jubilado porque levei o dobro de tempo necessário para chegar ao último ano do que era previsto no curriculum do meu curso.

    Nesses nove anos que passei na universidade, trabalhei como estagiário e jornalista em várias redações, algumas bem grandes, e durante dois anos trabalhei num veículo de comunicação mantido pela universidade. Isso me deu uma visão bastante ampla de como funciona o jogo de forças na USP.

    QUALIDADE X TRADIÇÃO

    A USP tem tradição. É inegável. Desde de a sua fundação, até hoje, ele foi um grande reduto de produção de conhecimento. Mas é importante frisar, menos porque ela tem uma excelente qualidade, mas muito porque no Brasil não há espaços parecidos.

    Mas o seu papel, de formação de conhecimento através de pesquisas e teses, e de formação de pessoas através dos cursos de graduação e pós, é pífio.

    Digo sem medo de errar, os cursos são absolutamente medíocres. O grande maioria dos professores é formada por gente paupérrima intelectualmente, e cerca de metade deles são golpistas descarados, que faltam muito e quando vão, ficam batendo papo com os alunos nas salas de aula, sem nenhuma preocupação em desenvolver um programa de aula.

    Onde está a raiz disso? No sistema de ingresso. Para ser professor basta seguir um caminho burocrático infinito. São bancas e mais bancas, centenas de carimbos, anos de espera, capacidade de ser ‘adotado’ por um professor titular que faça seu processo andar, e, finalmente, se consegue o título de professor da USP. Importa menos a qualidade do trabalho e mais a perseverança e resignição em vencer essa selva burocrática.

    E todos os passos decisivos para a admissão dos professores são decididos por outros professores. Então isso cria uma perpetuação da mediocridade.

    Quem vai até o fim e vira professor? Os egocêntricos! Aqueles que valorizam muito o título de ser professor da USP. Ou os profissionais que querem a estabilidade do salário vitalício e da estabilidade no emprego, gente que tende a inovar muito pouco. Infelizmente os bons, os competentes, desistem daquilo, porque ser competente importa menos.

    Claro, há exceções, mas na média é assim.

    Junte esses dois ingredientes – pessoas egocêntricas e uma burocracia imensa – e você terá o perfil médio de um professor da USP: arrogante e defensor dos seus ‘direitos adquiridos’ com tanto sacrifício. Alguém que valoriza muito o fato de ser parte de um clube fechado e que vai fazer o possível para manter o atual status das coisas para que seu título não perca importância.

    EXEMPLOS CONCRETOS

    No curso de jornalismo, acontece todo ano uma revolta dos alunos que estão entrando com o nível do ensino. Todo ano não é exagero. Ou eles pedem reuniões com a direção (professores que avançaram na burocracia viram diretores das unidades) para tentar mudar, o que é claro que não adianta. Ou adotam táticas guerrilheiras, como fazer painéis nas paredes com o número de faltas de cada professor. Sério mesmo, isso acontece todo ano!

    Eu passei por situações as mais esdruxúlas durante meu período lá. Elas acabam virando folclore nas conversas entre alunos. Por exemplo, fiz uma prova de ética em que uma das perguntas era:

    Enumere em ordem decrescente quais os telejornais da rede Globo são mais éticos

    a) Globo Rural
    b) Bom Dia Brasil
    c) Jornal Hoje
    d) Jornal Nacional
    e) Jornal da Globo
    f) Fantástico
    g) Globo Repórter

    Outro exemplo. Tínhamos aulas sobre a legislação que rege nossa profissão. Os cursos na USP são modulares, duram um semestre letivo, ou quatro meses. Nosso professor de legislação começou então a discutir as leis sobre a atividade jornalística desde o Império. Passou pela República Velha, Era Vargas, período pré-ditadura e ficou semanas discutindo os artigos da nossa terceira Constituição, de 1969.

    Quando entramos no último mês de curso, começamos a ficar preocupados com o fato de ele não comentar nada sobre a Constituição de 88, a que está valendo hoje.

    Um colega então perguntou para ele quando isso aconteceria, já que o curso estava perto do fim e o que vimos foi um professor irado, indignado, gritando. Ele dizia que não aguentava mais a petulância dos alunos, que todo semestre queriam mudar o curso. “Sou um professor parovado aprovado com louvor pela banca que permitiu meu ingresso na Universidade, e este curso é resultado de mais de 30 anos de refinamentos em sala de aula”, bradava.

    O curso poderia ser muito bom na década de 70, quando ele entrou, mas agora estava desatualizado. E ele era efetivo, tinha sua vaga garantida e não estava disposto a se atualizar.

    Parece que peguei dois exemplos folclóricos, mas não, esta é a média, está é a regra.

    VESTIBULAR

    O que faz a diferença na USP hoje é o vestibular. Melhor dizendo, a dificuldade de se passar no vestibular resultante da grande procura pela universidade. No ano que entrei, Jornalismo era o segundo colocado entre os cursos que exigiam melhor desempenho para passar, perdendo apenas para medicina.

    Essa peneira separa os mais empenhados, melhor preparados, mais aguerridos. E isso faz a diferença. As pessoas que conheci no meu curso eram todas geniais, com raciocínio rápido, grande conhecimento para sua pouca idade e grande capacidade de aprendizado.

    Esse o o maior legado que a USP me deixou. A convivência com esse pessoal fez a diferença para mim. Eu sempre estudei em escola pública e fiz de três anos de cursinho para conseguir entrar. Meus colegas até então eram uma mescla de pouca gente boa e muita gente ruim (desculpe o tom elitista, não é a intenção). Na USP não. A sala inteira é incrível. As pessoas que você conhece nas festas, nas viagens, nas disciplinas são quase sempre brilhantes. Isso te permite criar uma rede de contatos muito boa e muda sua vida para sempre.

    OS FUNCIONÁRIOS

    Durante dois anos trabalhei num veículo de comunicação da USP. Tive vários colegas que trabalharam em outros desses veículos. E tenho grandes amigos que são funcionários da USP.

    Primeiro, e mais importante, estes funcionários são o elo mais fraco da cadeia. Imagine o que acontece quando de um lado professores têm suas reivindicações, de outro os alunos têm suas reivindicações e por fim os funcionários que dão apoio administrativo têm suas reivindicações. Claro, eles sempre são relegados ao fim da lista de prioridades.

    Além disso os professores tem a garantia da manutenção do emprego, os funcionários administrativos não. A grande maioria é de celetistas. Na prática quase ninguém é demitido, mas eles podem sim ser demitidos. E os processo de promoção são bastante deturpados. Quem escolhe quem será promovido são os chefes. Uma vez promovido, você precisa passar alguns meses para incorporar ao salário o extra que se ganha por ocupar um cargo mais importante. Depois, você pode voltar para funções mais baixas na hierarquia, ter menos reponsabilidade e contribuir menos para o seu departamento, que o seu salário está garantido. E fazendo isso você abre espaço para que outro tenha a chance de ser promovido (ou diríamos comprado) pelos chefes.

    Outro ponto importante é que quem gerencia a Universidade são os piores professores. Num mundo ideal, os mais abnegados deixariam suas pesquisas e suas aulas para cuidar da parte chata que dá suporte aos colegas para pesquisar e lecionar. Na prática, os piores professores, aqueles afeitos ao jogo corporativo necessários para se ocupar cargos de confiança, aqueles interessados em poder, aqueles que querem gerenciar as verbas, estes são os que viram reitores, diretores de unidade etc.

    Quando chegam lá eles colocam nos níveis de gerência gente que faz parte do seu círculo de influência. Os cunhados, primos, colegas de longa data são os que ascendem aos cargos gerenciais.

    Claro que um reitor, ou um diretor não é capaz de preencher todos os cargos disponíveis, então os cunhados do reitor ou do diretor anterior passam a bajular e temer o novo chefe, fazendo o possível para ficar na cota dos que não serão trocados.

    Aí começa a surgir um movimento de greve. Alguma reivindicação importante se coloca, como por exemplo o caso da polícia no campus (que tratarei no próximo e último item). Isso sempre se soma a uma reivindicação antiga dos funcionários, que é a de ter um plano de carreira decente, baseado em competência e não em favores dos chefes.

    Aí, a chefia entra numa disputa doentia de qual dos gerentes conseguirá que seu departamento seja o que tenha menos grevistas, o que tenha a menor adesão.

    Criam-se estratégias de guerrilha (vamos mudar nossas atividades para outro prédio, vamos trabalhar de casa) e em nenhum momento discute-se se vale a pena entrar em greve, ou se o que se está reivindicando é válido.

    Se não houver piquete, o funcionário não tem opção, ou vai trabalhar ou é demitido, preterido nas promoções etc.

    Tenho um grande amigo que faz uma brincadeira. Uma greve na USP só acontece se o sindicato colocar anões nas portas dos prédios. Isso é porque a única coisa que segura o ímpeto fura greve da gerência é o medo de alguém do seu departamento entrar num embate físico que coloque seu nome numa repercussão na imprensa e faça todo esse lodo aparecer. Então os chefes dizem: vamos fazer o possível para não entrar em greve, mas em hipótese alguma entrem num embate com alguém do sindicato.

    Aí você chega para trabalhar, tem alguém, normalmente bem fraquinho, magrinho, na porta do seu prédio. Você não entra e quando a greve terminar você dirá ao chefe que fez o melhor para ele, que seguiu suas instruções, não enfrentando o pessoal do sindicato. Esse ‘piquete’ também garante que você não será o único a faltar.

    O João Vergílio diz que está isso cria um ambiente para enfretamentos muito mais graves do que o da última terça. Ou ele está sendo desonesto ou não sabe do que está falando. Os anões dos piquetes não são os responsáveis pelo último enfrentamento. Veja no próximo item.

    POLÍCIA NO CAMPUS

    O secretário de Educaçao paulista já foi reitor da Unicamp. Então ele sabe. O Serra também sabe. Mais importante, a reitora Sueli sem dúvida sabe.

    Até hoje a USP tem uma ferida aberta, difícil de cicatrizar, que é o que os governos militares fizeram na Universidade. Foi um período tenebroso, onde o terror se instalou. Qualquer aluno percebe isso rapidamente, conversando com professores, discutindo com colegas mais velhos etc.

    Muito professores e alunos foram torturados. Havia um terror de ser considerado subversivo porque os militares infiltraram gente que fazia se passar por aluno na Universidade. Esse pessoal era tosco, e claro não conseguir entender as discussões que se travavam no campus. Portanto tomavam as decisões de quem deveria ser preso e torturado baseado em esteriótipos.

    Ao fim do processo, houve uma consenso na comunidade uspiana, polícia no campus nunca mais. Isso cria uma situação que não só protege intervenções criminosas como as da ditadura, mas também cria um ambiente mais aberto, que todos da comunidade valorizam. Quer um exemplo. Não quero entrar na polêmica do que é certo ou errado, mas o consumo de maconha é muito comum no campus. Isso cria uma espécie de balão de ensaio, de ambiente inovador, onde você se sente fazendo parte do futuro, da vanguarda. (Me perdoem a piada, mas até o FHC é a favor da descriminação do uso). Claro que isso não é só benefício.

    Como é informalmente permitido consumir maconha no campus, há uma espécie de atração de traficantes para lá. Uma comunidade mais pobre que fica ao lado da USP, chamada São Remo, vive o drama de ser repleta de traficantes.

    Claro que isso é ruim, mas permite que se ouse, que novas dinâmicas se estabeleçam, que o novo surja, que é o que se espera de um ambiente universitário.

    Em contrapartida, a comunidade do São Remo é a preferida para qualquer projeto da Universidade. O curso de jornalismo produz um jornal para eles, o pessoal da arquitetura dá suporte para melhoria das moradias e há dezenas de outros projetos.

    Toda a comunidade uspiana preza isso. Até os diretores do passado. Tanto é que a USP tem uma guarda universitária que certamente é mais dispendiosa do que se houvesse a permissão de policiamento comum no campus.

    Isso é uma espécie de valor da USP. Não está escrito, não está gravado em placa, mas todo mundo compartilha isso. Mesmo quando há casos de estupro no campus, para citar um exemplo extremo, nunca vi alguém defendendo a entrada da polícia comum. O consenso é que o fato de cuidarmos da nossa segurança tem vantagens, e toda vantagem pressupõe responsabilidades.

    Quando você analisa as ações de um estadista de verdade você percebe que ele entende o que determinado público, seja ele o conjunto de eleitores, seja apenas uma parte da população, considera importante.

    O Serra, na minha opinião, está longe de ser um estadista. Por isso ele é capaz de usar um discurso tão pobre, medíocre, ridículo de que a polícia está no campus por causa da uma ordem judicial pedida pela reitoria.

    O fato da reitora não ter permitido a entrada de policiais durante a invasão da reitoria de alguns meses atrás mostra que ela acha isso inaceitável, entende os anseios da comunidade que lidera. (O João Virgílio diz que ela comprou briga com a direita. Pelo amor, de Deus, o que ele quer dizer com isso? Que direita?)

    Mas ela reproduz a dinãmica dos outros departamentos da universidade e precisa responder aos desejos do seu ‘chefe’ José Serra. Sem dúvida foi ele que a mandou pedir a polícia agora.

    Percebam que a reação da Unicampo foi imediata. Já entraram em greve. E essa questão vai gerar muita revolta lá no campos.

    Os tucanos tiveram uma década e meia para mudar, refinar, melhorar a dinâmica que rege o desempenho da USP. Nada fizeram. Só alimentaram um sistema retrógrado para se sentirem no comando da Universidade.

    E agora, a cereja do bolo vêm com o José Serra, político tíbio, incapaz de gerenciar interesses conflitantes (veja o caso PM x PC).

    Não tenho idéia de onde isso vai parar. Acho que não haverá nada que signifique uma revolução nas relações ou processos. Quase sempre esses problemas gerados pela incompetência do Serra e sua equipe terminam em nada.

    Mas a universidade tem memória (veja o caso da repressão na ditadura) e os tucanos estão conseguindo um lugar de destaque na história, como acontece com qualquer dirigente que seja muito bom ou muito ruim.

  91. Henrique A. Ré disse:

    Caro João Vergílio,
    Parabéns pelo seu texto. Discordo, entretanto, de alguns pontos dele.
    Se entendi bem, um de seus principais argumentos é o de que “o lugar por excelência da palavra foi invadido pela força bruta” e quando os grevistas desprezam os “marcos institucionais”, estas mesmas pessoas não possuem legitimidade para criticar a ação policial. Aqui você assume que somente os grevistas usam da “força bruta” e que só não houve negociação por incapacidade de diálogo dos manifestantes. A reitoria só chamou a polícia porque os grevistas não quiseram dialogar.
    Você não estaria confundindo aqui instâncias diferentes? Uma coisa é o ensino, a sala de aula, ambiente primordial de diálogo; outra é a parte administrativa. É óbvio que num modelo ideal ambas deveriam prezar “pela palavra”, mas infelizmente sabemos que não é isso o que acontece na USP. Acho que você despreza esse ponto e assume como dada uma realidade que não existe. Ou você não admite que a reitoria (ou o CRUESP) não quis negociar?
    Diante da recusa da negociação, como penso que é o procedimento da reitoria da USP, qual alternativa tomar? A isso você não apresentou argumentos.
    Outro argumento seu: “Greves são instrumentos normais de pressão. Ninguém deve ser perseguido ou estigmatizado pelo fato de estar defendendo ou simplesmente aderindo a um movimento grevista. Greves são normais”. Você assume essa posição para em seguida afirmar que “piquetes não são normais, nem aceitáveis”. Muito bem, para você condenar os piquetes, pois eles agridem as leis, você defende o direito de greve como legítimo, pois está amparado na lei. Parece-me que aqui novamente você parte de uma realidade ideal e que não é encontrada na USP.
    Num outro texto seu, você afirmara que desconhecia pressões aos funcionários da USP para que não entrassem em greve. Com todo respeito, penso que você está confundindo o ambiente da FFLCH – ou melhor, do Departamento de Filosofia – com o do restante da USP. Trabalhei na USP por quatro anos, três na reitoria. Posso lhe assegurar que 70-80% dos funcionários de lá não aderiam às greves por medo e pressão dos superiores. Por várias vezes ouvi deles que a única alternativa eram os piquetes. Era a maneira que encontravam para aderir à greve sem sofrer represálias. Aliás, quantos funcionários da FEA ou da POLI estão em grave? Será que não há ninguém nessas unidades que desejariam participar da greve? Então, por que não o fazem? Basta uma palavrinha com eles para saber o motivo…
    Por último, vejo que aquilo que você mais preza no processo democrático é a observância das leis e das instituições, embora tenha reconhecido que é “perfeitamente capaz de aceitar quebras da legalidade em situações extremas, que a justifiquem”.
    Mas lembremos um caso emblemático, a greve de 2007. Houve invasão da reitoria, piquetes, depredação do patrimônio público etc. Mas o que pediam os manifestantes? – Que a lei fosse respeitada. Ora, eles não pediam a mudança da lei nem contestavam a sua aplicação. Eles repudiavam a forma como a lei estava sendo desrespeitada pelo Governador e a Reitoria. De que lado estava a violência nesse caso?
    Ademais, a idéia de harmonia no processo democrático, que você tanto defende, não escamotearia uma perspectiva política que não lida bem com conflitos? (basta rever o início do pensamento liberal, em que a harmonia religiosa fora substituída pela harmonia presente na natureza, cujas regras deveriam reger a vida política e… o mercado. Sem harmonia, nada de bom funcionamento do mercado. Portanto, qualquer manifestação que colocasse em risco essa pretensa harmonia deveria ser rapidamente reprimida).
    Para você, todos os conflitos devem se resolver nos “marcos da legalidade”, exceto no caso das “situações extremas”. Ora, você toma os “marcos da legalidade” como completamente imparciais, sem considerar a luta de forças que regulou e regula esses “marcos”. Será que os “marcos da legalidade” são isonômicos? O poder da canetada da Reitora e do Governador é o mesmo dos que protestam? Em seu posicionamento você não estaria assumindo um posicionamento político que caracterizou praticamente toda a vida política brasileira, que foi o receio de deixar aflorar os conflitos? Você não estaria, ainda que sem querer, mimetizando um procedimento dominante que sempre viu qualquer conflito como uma quebra da ordem e, por isso, passível de ser contido e reprimido?
    Bem, essas são algumas questões só para pensarmos um problema que é de todos nós.
    Embora haja discordâncias entre nossos pontos de vista, mais uma vez parabéns por ter se disposto a dialogar sobre este tema tão ardiloso.
    Um grande abraço.

    Henrique A. Ré

  92. Jedeão disse:

    Quando se tem um governador que se porta como uma pedra dentro de um bloco de concreto diante de qualquer movimento social, o que se pode esperar?
    João, lembra da batalha entre as polícias civil e militar? Do prefeito que caminha quilômetros e quilômetros e Serra não o recebe? Das perguntas que os jornalistas fazem e o Serra revida com ameaças e ligações para as redações?
    A raiz de tudo está na intransigência de quem ocupa o cargo de liderança e não tem jogo de cintura para lidar com as reinvidicações da sociedade.
    Meça quantas invasões, greves, bloqueios, manifestações, e piquetes aocnteceram sob o govverno Lula e diga quantos tiros, demissões, ameaças ou bombas foram desferidas?

  93. Djalma Lima disse:

    O texto do professor é bem contruído.
    Porém acho que ele está deesfocado. Ou seja, fugiu do TEMA PRNCIPAL.
    Faz isso sutilmente, mostrando-se muito educado, muito complacente, etc. Mas não vai ao ponto:

    A USP é antidemocrática porque as pessoas não tem participação política OU as pessoas não participam da política por julgarem que a USP é antidemocrática?

    Elenco só alguns fatos:

    1 – Os que não querem greves não se fazem representar nas assembléias, vão para suas casas;

    2 – A reitora toma decisões unilaterias, sob a tutela do governador, a fim de angariar maeketing político para Serra.

    3 – O sindicato também toma posturas intransigentes;

    4 – Os que não participaram das assembléias não se solidarizam com as greves, mas não deixam de receber as conquistas (lógica do puxa-saco);

    5 – Os alunos da FFLCH estão fadados a serem mal remunerados no mercado, pois o mercado não valoriza como deve o trabalho do professor;

    6 – Ampliamos os cursos de professores, pois os pobres e mais despreparados vão para lá – ampliando a insatisfação;

    7 – Por que não se propõe cursos à distãncia de medicina, direito, engenharia e jornalismo – já que essses é que são os mais concorridos e são esses os mais desejados? Por que criar cursos à distância para professores, aumentando o tamanho das humanas?? Será que os dirigentes querem mais greves, poxa?!!!

  94. Caetano disse:

    “Na raiz de todos esses problemas que enfrentamos, não está uma reitora, mas o uso de certos instrumentos políticos que me parecem completamente incompatíveis com os ideais de universidade que, agora, todos parecem dispostos a invocar quando fazem a condenação das ações da polícia. Eu me refiro aos piquetes e às invasões de prédios públicos. ”

    Desça do muro! Eu,

  95. Orlando Fogaça Filho disse:

    E aí.? Ningém vai ler a proposta do Vergílio? A questão proposta é ourtra, é da convivência entre opostos… Como faremos?

  96. Caetano disse:

    “Na raiz de todos esses problemas que enfrentamos, não está uma reitora, mas o uso de certos instrumentos políticos que me parecem completamente incompatíveis com os ideais de universidade que, agora, todos parecem dispostos a invocar quando fazem a condenação das ações da polícia. Eu me refiro aos piquetes e às invasões de prédios públicos. ”

    Desça do muro! Eu, que acompanho há um ano o drama da categoria os Policiais Civis, por estar ingressando na corporação, sei como é isso: Ser duro na negociação, é uma coisa. NÃO NEGOCIAR DE FORMA ALGUMA é outra coisa. E só o que José Serra faz é a outra coisa! Ele trata movimento social à borrachada. Não dialoga, pronto e acabou.
    Pra quem tá vendo de fora é fácil falar que certas ações e/ou manifestações são incompatíveis. Vai ser funcionário público do baixo escalão de SP, a base da máquina estatal, sofrendo com a total falta de condições de trabalho, negligência, desprezo, ainda ter que lidar com as ameaças da análise de desempenho que são simplesmente formas de se “boicotar” os funcionários contrários aos diretores comissionados das repartições, todos esses PSDBistas, claro. Aí você ia ver o que é incompatível.
    Quando o governo põe a PM para trabalhar para O GOVERNO – fazendo com que a polícia administrativa do Estado deixe, portanto, de trabalhar para O ESTADO, a revolta é tudo o que resta. E, se contra os Policiais Civis o combate já é desleal, pois ninguém briga à altura da tropa de choque, imagine contra estudantes e professores! Qualquer dia, alguém ainda mete umas balas em 2 ou 3 PM’s e aí eu quero só ver o Datena mostrando as coitadinhas das famílias dos PMs vtimas.

  97. Lais disse:

    Texto excelente. Muito bom o comentário do Fabricio de Paula. Os protestos tornaram-se sinônimo de baderna. Um conjunto de radicais que estão ali só por bagunça, não sabem nem por que lutam. Infelizmente, manifestações com um mínimo de planejamento e inteligência são raras.

  98. Andre disse:

    Gabriel você disse:

    “Muitos reivindicaram, aqui, “o contexto histórico” que leva às ações violentas. Mas parecem esquecer (ou omitir) que esse “contexto histórico” se caracteriza sobretudo pela total falta de comunicação dos sindicatos e organizações estudantis com aqueles que supostamente representam. Em suma, perda de representatividade e legitimidade!”

    Gostaria que você evidenciasse isso com fatos…pois eu acho bem difícil um sindicato ou uma organização estudantil ‘não tentar dialogar’, como você mesmo diz. Gostaria que você me trouxesse evidências, ao invés de um testemunho pessoal e visivelmente incrédulo em relação à essas organizações sociais.

  99. emr disse:

    a força utilizada pela pm, como sempre, me pareceu totalmente desproporcional a manisfestação dos estudantes. nas fotos que vi, não consegui enxergar nenhum estudante, funcionário ou professor sequer com um pedaço de pau em suas mãos; uma pedra ou um cabo de vassoura que fosse. também não vi nada disso pelo chão. em momento algum aquelas pessoas pareceram ter o nível de ameaça proporcional a força colocada pela pm.

    da maneira que está colocada, parece que aqueles manifestantes receberam o castigo merecido por ter atrapalhado algumas aulas e o acesso a alguns prédios.

    trata-se de uma falácia o argumento da maioria: “a maioria não aderiu”.

    ademais, como manifestantes poderão reivindicar ou questionar a ordem vigente sem fazer manifestações na frente de um prédio?

  100. Silvana disse:

    Sabe o que está me parecendo? Que as greves na USP simplesmente não estão sendo construídas. E isto tem a ver com a distância entre representantes e base.

    Tomo por exemplo a minha experiência no Ensino Municipal em São Paulo: a nossa última grande greve foi em 2006 e durou 17 dias. Durante este período, foram formados comandos de greve, encarregados de conversar nas escolas que não aderiram à greve no início. Mesmo em outros momentos, como uma paralisação de um dia, procuramos discutir a posição dos professores em cada período de aulas e dos funcionários também, e com tempo hábil para avisar os pais dos alunos (pelo menos é assim na escola em que trabalho). Não forçamos ninguém a aderir, e os professores que não paralisam têm que avisar seus alunos para vir às aulas deles.

    Pela dimensão da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, é inviável fazer piquete em cada escola, e quando eles acontecem, são em escolas com histórico de não-adesão. Mas não sem antes o comando de greve passar e conversar com os colegas dessas escolas. Isto tudo é possível porque temos uma estrutura de representantes por escola que se encontram bimestralmente (que, infelizmente, tem sido reduzida pela Prefeitura).

    Me pergunto se o Sintusp e a Adusp têm esse tipo de representação por Departamento ou por setor. Como ex-aluna da ECA, sei que pelo menos formalmente deveria haver esta representação por curso entre os alunos, mas depende muito do empenho do DCE e dos CAs (para quem não sabe, as eleições do DCE e dos CAs são independentes, como as eleições, para prefeito, governador e presidente – ocorre de alguns CAs não estarem alinhados politicamente ao DCE e nem a qualquer outra organização).

    Estou lendo o Estatuto do Sintusp. Ele prevê representantes por unidade (Faculdade, Escola, Instituto), mas não prevê nenhuma representação abaixo desta (por Departamento ou por setor).

    Na Adusp, a representação também é por unidade, mas dependendo da unidade, bem que poderia ser por Departamento (pensem na ECA, por exemplo, onde cada Departamento é um curso).

    Falta representação mais próxima da base, para ter um contato mais próximo, nos dois sindicatos da USP e no DCE. Não estou dizendo que a representação sindical na Rede Municipal de Ensino de São Paulo seja perfeita (também temos nossos problemas), mas pelo menos ela é um pouco mais arejada.

    Uma melhor organização de base permite que mais pessoas tenham, se não consciência dos problemas, pelo menos informação para opinar. Só que, em posse da informação, é importante que elas vão à assembléia votar, ainda que seja para votar contra.

    E, quanto à tropa de choque no campus, ela só serve para piorar as coisas – o trabalho dela é impor a ordem pela força, todo mundo sabe disso. A Magnífica Senhora Reitora deveria ter exercido a magnificência que se espera do cargo que ela ocupa e recorrido à negociação. Pelo que estou vendo, a reitora não chama pra si a responsabilidade de manter o funcionamento harmonioso da USP, passando a batata-quente para o governador, que, bem… não é um primor em resolução de crises, para dizer o mínimo.

    Só mais uma coisinha: acho lamentável um professor ter uma postura negligente como a mostrada no comentário das 11:50 do Júlio Pubikher reproduzindo um texto do próprio João Vergílio. Por mais careca que ele esteja de saber cada palavra do discurso do movimento estudantil, cabe a ele ouvir e argumentar. Que adianta vir argumentar aqui no blog depois do estrago em vez de argumentar junto a seus alunos quando teve a oportunidade, antes do estrago acontecer? O compromisso de um professor para com seus alunos não é só passar a matéria, é também conversar com os alunos sobre os acontecimentos que os afetam – e que afetam o professor também.

  101. Leo V disse:

    Sinceramente, parei de ler na hora que o Vergílio diz que o probkeam não é a reitora mas os piquetes.

    E depois ele quer uam discussão sem ‘partidarismos’. Ele é partidário de quem tem o poder de gestão.

    Já foi dito aqui por testemunhas que o piquete na reitoria só foi feito pq os funcionários da reitoria erama meaçados caso aderissem à greve.

    Tá certo, o problema são os grevista se os piquetes…

    Pior é o reacionarismo do João Vergílio ser disfarçado de bom moço.

    Prefiro os direitistas que pelo menos expõem claramnete o que são.

    Sobre a demissão política e ilegal de um dirigente sindical, isso não é violência contra os direitos políticos!!! Certamente João Vergílio não s eimporta com isso.

    Terça-feira estarei na manifestação. E se tiver que fazer piquete o farei.

  102. Adriano do ABC disse:

    Para rir no feriadão:

    A invasão da USP pela PM, segundo o professor Hariovaldo Almeida Prado:

    “Avantes irmãos soldados do bem com fé suprema em São Serapião, aqui não há quem vos derrote e nem quem desafie vossa galhardia! Alvíssaras!!!
    Que esse ato de bravura e heroísmo desferido pelas forças policiais contra a cúpula marginal, baderneira, vermelha vermelha vermelha pra car****, filhos de Chaves; os exemplos do setor mais próspero do governo paulista: a Educação, modelo a ser seguido por toda a nação brasileira com os avultosos salários pagos aos profissionais desse setor; as forças de nosso amado e devoto São Serapião (São Serapião, São Serapião, não nos deixe na mão, Amém!), permitam a vitória do Governador José Serra ao merecido cargo de Presidente da República (Rogai por nós São Serapião).
    Somente assim colocaremos fim às máculas criadas nesse país pela corrupção que nos assolou nos últimos tempos, manchas que jamais havíamos visto.
    Que a ordem seja restabelecida e a tradição não se perca de vista.”

    Texto reproduzido pelo PHA , ver post completo in: http://hariprado.wordpress.com/2009/06/09/debelado-foco-guerrilheiro-na-usp/#comment-2070

  103. Jenner disse:

    Casa de ferreiro espeto de pau
    cnde deveriam ser usados argumentos
    como armas de discussao
    o que se ve e pau, pedra e palavras de baixo calao.

  104. Sérgio disse:

    Para João Vergílio

    Não moro em SP, mas leio em blogs que o governador não negocia com nenhum movimento revindicatório.

    Seu texto muito bem escrito e argumentado, tem uma face de quem nunca participou de greve por achá-la justa, inclusive em algum comentário acima alguém fez um comentário semelhante.

    Tem um romance de Emile Zola, Germinal, que descreve uma greve nas minas de carvão da França no início do século XIX. O que fazer quando os envolvidos a favor e contra têm níveis de consciência de classe bastante díspares? Os piquetes são justificáveis quando fura-greves, muitas vezes contratados para isso (mais na industria) forçam a entrada para criar o conflito e justificar a intervenção policial.

    O histórico do governador não recomenda o benefício da dúvida. Tem por princípio não negociar, que ele aprendeu no período da ditadura aqui e com Pinochet.

  105. Bruno disse:

    Em algum lugar será que a imprensa verá isso?

    http://www.youtube.com/watch?v=umPd5Sz9tjQ

  106. Gabriel Barbosa disse:

    André,

    Digo que os sindicatos e organizações de estudantes perderam a capacidade de dialogar com aqueles que supostamente representam. Fui aluno de graduação e pós na FFLCH e, como muitos colegas, todas as vezes em que participei de assembléias e reuniões de alunos o que vi foram grupinhos organizados manipularem a pauta das discussões (incluindo questões como transgênicos, Oriente Médio etc.), sem falar em intervenções mais exaltadas e ofensivas, para deixar a votação sobre a realização ou não da greve e o modo de atuação para o fim de noite, quando o quorum havia se reduzido.
    E se é uma falácia o argumento de que a maioria dos professores, funcionários e alunos não aderiu, como afirma “emr”, por que foram feitos os piquetes? Por que diversos alunos e professores de outras unidades afirmaram estar em sala de aula durante a manifestação? Estão mentindo?
    Repudio a ação da polícia e as atitudes da reitora! Mas é importante que funcionários, alunos e professores reflitam seriamente sobre o que ocorreu, sobre novas formas de representação e reivindicação que ainda precisam ser construídas. E, principalmente, sobre o porquê de boa parcela da população ser alheia, quando não antipática, ao movimento, à universidade pública e academia em geral.
    Enfim, é importante que a discussão não se polarize entre os defensores da “pseudo-comuna-de-paris” e os adeptos do “tem-que-baixar-o-pau-nesses-vagabundos”.

  107. Karin disse:

    Indo na linha de pessoas que situaram os ultimos acontecimentos ao contexto de violência em que as universidades publicas estão inseridas, sugiro que se preste mais atenção ao que cada um pensa como violência, marco institucional e direitos. O João Vergílio deve saber que a greve já foi uma forma de ação ilegal, fora dos “marcos instituicionais” e rejeitada pelos mesmos argumentos que ele usa contra ocupações e piquetes. Estes últimos, aliás, costumam descambar para a força física por falta de diálogo.Coerção não é feita só com força fisica. Sou estudante de um instituto de humanas da Unicamp e, por isso, também preciso chamar a atenção para a heterogeneidade das universidades. As reivindicações das areas humanas são outras, e, normalmente, as menos ouvidas em relação às áreas que produzem patentes e solução para o mercado, que devem ter outras preocupações. Pode ver que quem mais se mobiliza é dessas áreas, pois são elas as que mais sentem os efeitos dessa violência. As ocupações e piquetes são as ações que podemos ver como extremas, mas a situação é extrema. Imaginem que os professores do meu instituto já estão falando em decretar concordata.
    Nesse cenário, o que é violência?

  108. Diogenes disse:

    João, leia:

    Folha de São Paulo, 09 de maio de 1999. Caderno Mais!

    A universidade operacional
    Marilena Chaui

    A Reforma do Estado brasileiro pretende modernizar e racionalizar as atividades estatais, redefinidas e distribuídas em setores, um dos quais é designado Setor dos Serviços Não-Exclusivos do Estado, isto é, aqueles que podem ser realizados por instituições não-estatais, na qualidade de prestadoras de serviços. O Estado pode prover tais serviços, mas não os executa diretamente nem executa uma política reguladora dessa prestação. Nesses serviços estão incluídas a educação, a saúde, a cultura e as utilidades públicas, entendidas como “organizações sociais” prestadoras de serviços que celebram “contratos de gestão” com o Estado.

    A Reforma tem um pressuposto ideológico básico: o mercado é portador de racionalidade sociopolítica e agente principal do bem-estar da República. Esse pressuposto leva a colocar direitos sociais (como a saúde, a educação e a cultura) no setor de serviços definidos pelo mercado. Dessa maneira, a Reforma encolhe o espaço público democrático dos direitos e amplia o espaço privado não só ali onde isso seria previsível -nas atividades ligadas à produção econômica-, mas também onde não é admissível -no campo dos direitos sociais conquistados.

    A posição da universidade no setor de prestação de serviços confere um sentido bastante determinado à idéia de autonomia universitária e introduz termos como “qualidade universitária”, “avaliação universitária” e “flexibilização da universidade”.

    De fato, a autonomia universitária se reduz à gestão de receitas e despesas, de acordo com o contrato de gestão pelo qual o Estado estabelece metas e indicadores de desempenho, que determinam a renovação ou não renovação do contrato. A autonomia significa, portanto, gerenciamento empresarial da instituição e prevê que, para cumprir as metas e alcançar os indicadores impostos pelo contrato de gestão, a universidade tem “autonomia” para “captar recursos” de outras fontes, fazendo parcerias com as empresas privadas.

    A “flexibilização” é o corolário da “autonomia”. Na linguagem do Ministério da Educação, “flexibilizar” significa: 1) eliminar o regime único de trabalho, o concurso público e a dedicação exclusiva, substituindo-os por “contratos flexíveis”, isto é, temporários e precários; 2) simplificar os processos de compras (as licitações), a gestão financeira e a prestação de contas (sobretudo para proteção das chamadas “outras fontes de financiamento”, que não pretendem se ver publicamente expostas e controladas); 3) adaptar os currículos de graduação e pós-graduação às necessidades profissionais das diferentes regiões do país, isto é, às demandas das empresas locais (aliás, é sistemática nos textos da Reforma referentes aos serviços a identificação entre “social” e “empresarial”); 4) separar docência e pesquisa, deixando a primeira na universidade e deslocando a segunda para centros autônomos.

    A “qualidade” é definida como competência e excelência, cujo critério é o “atendimento às necessidades de modernização da economia e desenvolvimento social”; e é medida pela produtividade, orientada por três critérios: quanto uma universidade produz, em quanto tempo produz e qual o custo do que produz. Em outras palavras, os critérios da produtividade são quantidade, tempo e custo, que definirão os contratos de gestão. Observa-se que a pergunta pela produtividade não indaga: o que se produz, como se produz, para que ou para quem se produz, mas opera uma inversão tipicamente ideológica da qualidade em quantidade. Observa-se também que a docência não entra na medida da produtividade e, portanto, não faz parte da qualidade universitária, o que, aliás, justifica a prática dos “contratos flexíveis”. Ora, considerando-se que a proposta da Reforma separa a universidade e o centro de pesquisa, e considerando-se que a “produtividade” orienta o contrato de gestão, cabe indagar qual haverá de ser o critério dos contratos de gestão da universidade, uma vez que não há definição de critérios para “medir” a qualidade da docência.

    O léxico da Reforma é inseparável da definição da universidade como “organização social” e de sua inserção no setor de serviços não-exclusivos do Estado. Ora, desde seu surgimento (no século 13 europeu), a universidade sempre foi uma instituição social, isto é, uma ação social, uma prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação, que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela. A legitimidade da universidade moderna fundou-se na conquista da idéia de autonomia do saber diante da religião e do Estado, portanto na idéia de um conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão.

    Por isso mesmo, a universidade européia tornou-se inseparável das idéias de formação, reflexão, criação e crítica. Com as lutas sociais e políticas dos últimos séculos, com a conquista da educação e da cultura como direitos, a universidade tornou-se também uma instituição social inseparável da idéia de democracia e de democratização do saber: seja para realizar essa idéia, seja para opor-se a ela, a instituição universitária não pôde furtar-se à referência à democracia como idéia reguladora, nem pôde furtar-se a responder, afirmativa ou negativamente, ao ideal socialista.
    Que significa, então, passar da condição de instituição social à de organização social?

    Uma organização difere de uma instituição por definir-se por uma outra prática social, qual seja, a de sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de meios particulares para obtenção de um objetivo particular. Não está referida a ações articuladas às idéias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a operações definidas como estratégias balizadas pelas idéias de eficácia e de sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. É regida pelas idéias de gestão, planejamento, previsão, controle e êxito. Não lhe compete discutir ou questionar sua própria existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso, que para a instituição social universitária é crucial, é, para a organização, um dado de fato. Ela sabe (ou julga saber) por que, para que e onde existe.

    A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e busca definir uma universalidade (ou imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais.

    Como foi possível passar da idéia da universidade como instituição social
    à sua definição como organização prestadora de serviços?

    A forma atual do capitalismo se caracteriza pela fragmentação de todas as esferas da vida social, partindo da fragmentação da produção, da dispersão espacial e temporal do trabalho, da destruição dos referenciais que balizavam a identidade de classe e as formas da luta de classes. A sociedade aparece como uma rede móvel, instável, efêmera de organizações particulares definidas por estratégias particulares e programas particulares, competindo entre si.

    Sociedade e Natureza são reabsorvidas uma na outra e uma pela outra porque ambas deixaram de ser um princípio interno de estruturação e diferenciação das ações naturais e humanas para se tornarem, abstratamente, “meio ambiente”; e “meio ambiente” instável, fluido, permeado por um espaço e um tempo virtuais que nos afastam de qualquer densidade material; “meio ambiente” perigoso, ameaçador e ameaçado, que deve ser gerido, programado, planejado e controlado por estratégias de intervenção tecnológica e jogos de poder.

    Por isso mesmo, a permanência de uma organização depende muito pouco de sua estrutura interna e muito mais de sua capacidade de adaptar-se celeremente a mudanças rápidas da superfície do “meio ambiente”. Donde o interesse pela idéia de flexibilidade, que indica a capacidade adaptativa a mudanças contínuas e inesperadas. A organização pertence à ordem biológica da plasticidade do comportamento adaptativo.

    A passagem da universidade da condição de instituição à de organização insere-se nessa mudança geral da sociedade, sob os efeitos da nova forma do capital, e ocorreu em duas fases sucessivas, também acompanhando as sucessivas mudanças do capital. Numa primeira fase, tornou-se universidade funcional; na segunda, universidade operacional. A universidade funcional estava voltada para a formação rápida de profissionais requisitados como mão-de-obra altamente qualificada para o mercado de trabalho.

    Adaptando-se às exigências do mercado, a universidade alterou seus currículos, programas e atividades para garantir a inserção profissional dos estudantes no mercado de trabalho, separando cada vez mais docência e pesquisa. Enquanto a universidade clássica estava voltada para o conhecimento e a universidade funcional estava voltada diretamente para o mercado de trabalho, a nova universidade ou universidade operacional, por ser uma organização, está voltada para si mesma enquanto estrutura de gestão e de arbitragem de contratos.

    Regida por contratos de gestão, avaliada por índices de produtividade, calculada para ser flexível, a universidade operacional está estruturada por estratégias e programas de eficácia organizacional e, portanto, pela particularidade e instabilidade dos meios e dos objetivos. Definida e estruturada por normas e padrões inteiramente alheios ao conhecimento e à formação intelectual, está pulverizada em microrganizações que ocupam seus docentes e curvam seus estudantes a exigências exteriores ao trabalho intelectual.

    A heteronomia da universidade autônoma é visível a olho nu: o aumento insano de horas-aula, a diminuição do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade de publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões e relatórios etc. Virada para seu próprio umbigo, mas sem saber onde este se encontra, a universidade operacional opera e por isso mesmo não age. Não surpreende, então, que esse operar co-opere para sua contínua desmoralização pública e degradação interna.

    Que se entende por docência e pesquisa, na universidade operacional, produtiva e flexível?

    A docência é entendida como transmissão rápida de conhecimentos, consignados em manuais de fácil leitura para os estudantes, de preferência, ricos em ilustrações e com duplicata em CDs. O recrutamento de professores é feito sem levar em consideração se dominam ou não o campo de conhecimentos de sua disciplina e as relações entre ela e outras afins -o professor é contratado ou por ser um pesquisador promissor que se dedica a algo muito especializado, ou porque, não tendo vocação para a pesquisa, aceita ser escorchado e arrochado por contratos de trabalho temporários e precários, ou melhor, “flexíveis”. A docência é pensada como habilitação rápida para graduados, que precisam entrar rapidamente num mercado de trabalho do qual serão expulsos em poucos anos, pois tornam-se, em pouco tempo, jovens obsoletos e descartáveis; ou como correia de transmissão entre pesquisadores e treino para novos pesquisadores. Transmissão e adestramento. Desapareceu, portanto, a marca essencial da docência: a formação.

    A desvalorização da docência teria significado a valorização excessiva da pesquisa? Ora, o que é a pesquisa na universidade operacional?

    À fragmentação econômica, social e política, imposta pela nova forma do capitalismo, corresponde uma ideologia autonomeada pós-moderna. Essa nomenclatura pretende marcar a ruptura com as idéias clássica e ilustradas, que fizeram a modernidade. Para essa ideologia, a razão, a verdade e a história são mitos totalitários; o espaço e o tempo são sucessão efêmera e volátil de imagens velozes e a compressão dos lugares e instantes na irrealidade virtual, que apaga todo contato com o espaço-tempo enquanto estrutura do mundo; a subjetividade não é a reflexão, mas a intimidade narcísica, e a objetividade não é o conhecimento do que é exterior e diverso do sujeito, e sim um conjunto de estratégias montadas sobre jogos de linguagem, que representam jogos de pensamento.

    A história do saber aparece como troca periódica de jogos de linguagem e de pensamento, isto é, como invenção e abandono de “paradigmas”, sem que o conhecimento jamais toque a própria realidade. O que pode ser a pesquisa numa universidade operacional sob a ideologia pós-moderna? O que há de ser a pesquisa quando razão, verdade, história são tidas por mitos, espaço e tempo se tornaram a superfície achatada de sucessão de imagens, pensamento e linguagem se tornaram jogos, constructos contingentes cujo valor é apenas estratégico?

    Numa organização, uma “pesquisa” é uma estratégia de intervenção e de controle de meios ou instrumentos para a consecução de um objetivo delimitado. Em outras palavras, uma “pesquisa” é um “survey” de problemas, dificuldades e obstáculos para a realização do objetivo, e um cálculo de meios para soluções parciais e locais para problemas e obstáculos locais. Pesquisa, ali, não é conhecimento de alguma coisa, mas posse de instrumentos para intervir e controlar alguma coisa. Por isso mesmo, numa organização não há tempo para a reflexão, a crítica, o exame de conhecimentos instituídos, sua mudança ou sua superação. Numa organização, a atividade cognitiva não tem como nem por que realizar-se.

    Em contrapartida, no jogo estratégico da competição no mercado, a organização se mantém e se firma se for capaz de propor áreas de problemas, dificuldades, obstáculos sempre novos, o que é feito pela fragmentação de antigos problemas em novíssimos microproblemas, sobre os quais o controle parece ser cada vez maior. A fragmentação, condição de sobrevida da organização, torna-se real e propõe a especialização como estratégia principal e entende por “pesquisa” a delimitação estratégica de um campo de intervenção e controle. É evidente que a avaliação desse trabalho só pode ser feita em termos compreensíveis para uma organização, isto é, em termos de custo-benefício, pautada pela idéia de produtividade, que avalia em quanto tempo, com que custo e quanto foi produzido.

    Em suma, se por pesquisa entendermos a investigação de algo que nos lança na interrogação, que nos pede reflexão, crítica, enfrentamento com o instituído, descoberta, invenção e criação; se por pesquisa entendermos o trabalho do pensamento e da linguagem para pensar e dizer o que ainda não foi pensado nem dito; se por pesquisa entendermos uma visão compreensiva de totalidades e sínteses abertas que suscitam a interrogação e a busca; se por pesquisa entendermos uma ação civilizatória contra a barbárie social e política, então, é evidente que não há pesquisa na universidade operacional.

    Essa universidade não forma e não cria pensamento, despoja a linguagem de sentido, densidade e mistério, destrói a curiosidade e a admiração que levam à descoberta do novo, anula toda pretensão de transformação histórica como ação consciente dos seres humanos em condições materialmente determinadas.

  109. Diogenes disse:

    Também acho estranho o pao “paz e amor” do Joao, que é pra lá de reacionario, e endosso o comentario de Hans Bintje (# 11/06/2009 – 13:40)

    O que cabe agora é a responsabilidade histórica de, por sobre as razões particulares, chamar à voz da razão, que manda negociar e parlamentar. Aos professores, funcionários e estudantes, da USP, solidariedade total, essa deve ser a consigna dos democratas que lutaram e lutam pela liberdade de expressão neste nosso país de violências inesgotáveis.”

  110. Diogenes disse:

    no post anterior leia-se o PAPO “paz e amor”

  111. Celso Palermo disse:

    Acredito que a discussão deve sair da superficialidade de “contra piquete e invasão usa-se a força do Estado para garantir o patrimônio público” O que esta no fundo dessa discussão é uma universidade sem autonomia política para resolver seus problemas. Ela pode ter autonomia para definir suas questões pedagógicas mas depende do Governo do Estado para liberar a suas verbas e para definir seus reitores. Não é a comunidade universitária que escolhe seus dirigentes. Além desse problema, que faz os retores terem compromissos com o Governador, existe o de que apenas uma categoria da comunidades universitária tenha a sua indicação do candidato a reitor valendo mais que a dos outros dois seguimentos da comunidade (alunos e funcionários). É uma questão de democracia não resolvida com a conquista, pela ação de alunos, funcionários e professores, da autonomia, parcial, universitária. Essa autonomia, na verdade, pode ser comparada à Revolução Burguesa. Uma classe, a dos docentes, ascendeu ao poder e legislam em causa própria até hoje. Na direção das universidades paulistas estão professores especializados em muitas áreas, produtores de conhecimento, mas sem capacitação para administrar, pois não são doutores em administração pública. Tomaram o poder mas não estão preparados para administrar conflitos. Além disso, impedem, através do assédio moral que funcionários e alunos defendam seus direitos fundamentais de ter um salário digno e um universidade pública gratuíta. Basta ficar atendo as decisões que são tomados pelos orgãos colegiados, que dirigem as universidades, para se constatar as facilidades dessa classe em detrimento das outras. Poderia usar muito mais espaço para relatar outras questões importantes, mas fico por aqui, encerrando dizendo que nos meus 36 anos de trabalho, a presença da policia no campus da Usp não se justifica. Estamos numa democracia onde o dialogo deveria prevalecer. É o que se espera de uma administração DOUTA!, com educação suficiente para promover a concordia!

  112. Diogenes disse:

    http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16028&alterarHomeAtual=1

    Professor relata ação violenta da tropa de choque na USP

    O professor Pablo Ortellado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da Universidade de São Paulo, relata com indignação a ação da tropa de choque da Polícia Militar no campus da USP. Ortellado defende que a comunidade acadêmica deve se mobilizar “diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação”. “Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos, autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário”, afirma.

    Pablo Ortellado

    Segue o relato do Prof. Dr. Pablo Ortellado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da Universidade de São Paulo, sobre os acontecimentos de ontem no campus da USP:

    Prezados colegas,

    Eu nunca utilizei essa lista para outro propósito que não informes sobre o que acontece no CO (transmitindo as pautas antes da reunião e depois enviando relatos). Essa lista esteve desativada desde a última reunião do CO porque o servidor na qual ela estava instalada teve problemas e, com a greve, não podia ser reparado. Dada a urgência dos atuais acontecimentos, consegui resgatar os emails e criar uma lista emergencial em outro servidor. O que os senhores lerão abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos de violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão de uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.

    Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores tinham deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

    Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu
    correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas).

    Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

    Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que tinham sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado).

    Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois
    estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

    A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário.

    Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais. Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.

    Cordialmente,

    Prof. Dr. Pablo Ortellado

    Escola de Artes, Ciências e Humanidades

    Universidade de São Paulo

  113. Leitores,

    Aproveito o texto para uma reflexão.

    Lembram, que há alguns anos no governo tucano já houve aquartelamento de policiais militares? Ou seja, a PM já entrou em greve e ocupou os quartéis.

    O que ocorreria se um bando de contribuintes entrasse nos quartéis e tentassem dispersar os PMs?

    Os PM armados, fardados, alimentados e amotinados nos quartéis reagiriam como?

    A eficiência da PM tucana paulista se tornou conhecida mundialmente quando devolveram uma refém menor de idade a um seqüestrador armado há alguns meses, em Sto. André – SP.

    Há poucos dias pudemos assistir na TV um assalto a banco em que foi utilizado até ônibus para bloquear rua e dezenas de pessoas foram obrigadas a auxiliar os bandidos.

    Embora estejamos na era do telefone celular e a PM possua helicópteros e motos eles somente chegaram depois que os bandidos haviam se retirado do local do crime. Levaram por volta de 30 minutos para chegarem ao local. Um caminhão enorme dos bombeiros certamente chegaria primeiro.

    Pelo despreparo fartamente demonstrado nas TVs não poderia esperar outro comportamento da PM no campus universitário senão o que vimos nas TVs, fotos e vídeos em blogs.

    Piquete não significa necessariamente ato de violência dos grevistas.

    Realiza-se piquete no mundo inteiro e este é aceito pela nossa justiça do trabalho, como legítimo ato de tentativa de pressão ao diálogo por parte dos manifestantes e de convencimento daqueles integrantes das categorias que não aderiram ao movimento.

    O piquete busca chamar a atenção da sociedade, dos governantes e da comunidade acadêmica.

    Aqui na Bahia a reitoria da UFBA já foi invadida por semanas pelos estudantes e nunca houve a necessidade ou iniciativa do reitor de chamar policiais para bater em estudantes..

    A única vez que o reitor chamou a PF foi para expulsar a PM baiana que havia invadido o campus federal para perseguir e agredir estudantes que lutavam pacificamente contra reajuste de tarifas de ônibus em Salvador.

    Estudei dez anos na USP, na década de 80 e conclui dois cursos de graduação.

    Fui presidente de centro acadêmico, participei de várias greves e manifestações.

    Nunca presenciei a agressão começar pelo lado dos manifestantes desarmados contra uma tropa de choque, mas já presenciei e vivenciei algumas agressões covardes por parte da PM paulista.

    Não isento qualquer PM das autorias de suas agressões, pois ninguém é obrigado a cumprir uma ordem manifestamente ilegal, como agredir um manifestante desarmado.

    A reação, quando necessária, deve ser proporcional à agressão sofrida senão deixa de ser um desacato à autoridade e passa a existir o abuso de autoridade.

    Sugiro aos leitores acessem o site do DCE-USP para se manterem informados sobre a posição dos estudantes e alguns blogs citados pelos leitores..

    Deixo minha solidariedade a todos os membros do campus da USP Cidade Universitária.

  114. Ricardo Maciel disse:

    O texto do João Vergílio do ponto de vista estilistico está bom, mas quando se considera o seu significado real, é (…) e falso como uma nota de três reais.
    Por parte de quem não quer a democratização da USP, há um esforço imenso para não discutir o fato de que o estatuto da Universidade remonta à ditatura militar, sendo ele autoritário e antidemocrático. O poder na USP não se concentra de fato na comunidade universirtária, mas está diretamente ligado ao Palácio dos Bandeirantes e a interesses particulares. Internamente são poucos que podem influenciar nos rumos da Universidade. E o que o Movimento Estudantil, funcionários e parte dos professores têm reivindicado é a democratização da Universidade, que só pode ser feita através de uma estatuinte soberana e democrática. No entanto esta ideia de estatuinte é negada sistematicamente pela burocracia universitária, burocracia esta que não dialogo com a comunidade. Lembre-se que a ocupação da Reitoria em 2007, foi deflagrada pelo fato de a Reitora não ter atendido a sistemáticos pedidos de audiência para tratar dos decretos do governo Serra, até que por fim conseguiu-se agendar uma audiêcia, a qual a reitorna não compareceu nem enviou representante. Aliás, diferente do que diz J Vérgílio, quem se nega à conversa são os gestores da Universidade, que apenas se dispõe a convesar quando a porta é arrombada, antes disto fazem ouvido de mercador enquanto seguem implantando projetos estranhos ao caráter público da instituição. É interessante lembrar que pelo menos duas reuniões do CO (Conselho Universitário) deliberou questões fundamentais para USP, ao arrepio do próprio regimento.
    Portanto, se alguém quer de fato ver a Universidade dentro de uma suposta normalidade (visto que a anomalia parte dos próprios gestores) por que não defende uma estatuinte soberana? por que não defende remover tudo o que a Ditatura Militar fez entrar no estatuto da USP?

  115. Villegagnon disse:

    O Sintusp do Sr. Brandão está doidinho para arranjar um novo Edson Luiz e jogar no colo do Serra.
    A visada não é a USP, mas a eleição presidencial.

  116. Silvana disse:

    Este comentário do Mario Abramo no Fora de Pauta de hoje tem que estar aqui:

    # 11/06/2009 – 09:52 Enviado por: Mario Abramo

    Caro João Vergílio
    Discursinho bonitinho. Funcionaria, desde que o CRUESP (e por extensão o governo do Estado) estivesse disposto a dialogar. Mas não está, nem nunca esteve.
    Contar uma historinha, passada em 79: reunião da CGP, Coordenação Geral Permanente da greve do funcionalismo. Lembro de algumas pessoas presentes: Modesto Carvalhosa, Menezes, Magno, Paulo Frateschi, David Capistrano Filho, Aitan Sipahi, bom, tinha mais ou menos umas cinquenta pessoas que se reuniam todas as noites. Lembro só que naquela época greve de serviço público era proibido. Um rapaz, de uma simpatia cativante, levanta e num economês carregado faz um pronunciamento que fez bem mais da metade do pessoal presente se interrogar de que lado estava. Perguntei quem era o fulano: José Serra. Depois esclareceu-se que ele estava se contrapondo ao Pastore e provando que existia dinheiro em caixa para o aumento. Ok, a greve finalmente foi vencida pelo cansaço, fomos derrotados e o salário que era ínfimo continuou do jeitinho que tava. Três anos depois, entra o Montoro: oba, agora a gente vai conseguir. Nada. Se tinha dinheiro, sumiu.
    Segunda historinha: greve na Prodesp em 85. Tínhamos feito tudo direitinho no script pra greve ser considerada legal. Piquete de convencimento, não impedia as pessoas de entrarem e saírem, nem colocou em risco as atividades essenciais (pena, a gente podia ter dado um jeito de bloquear a folha do Palácio dos Bandeirantes). Consultei minha assessora judiciária, a probabilidade da greve ser legal era grande. Na calada da noite, mudaram o juiz. Liguei pra assessora. O suspiro que ouvi do outro lado foi significativo. Não deu outra. Greve considerada legal para todas as outras empresas (que não haviam entrado), e ilegal na Prodesp. Chutaí quem era o diretor de lá (não, não era o Serra não, mas quase).
    Tou contando essas historinhas pra mostrar que nunca, em tempo algum, quer seja MDB, PMDB ou PSDB houve um tratamento correto do funcionalismo. Pelo menos aqui em SP. Não existe negociação. Se houve escalada de violência pelos movimentos sindicais, é fruto dessa incapacidade total de negociar. Jogar polícia em manifestante é criminoso. O batalhão de choque é completamente despreparado para controlar manifestação. Esse último ato do Serra (a reitorinha tanto faz, nunca prestou pra nada nem nunca vai prestar, bem feito pros tontos que votaram nela) é pior que a invasão da PUC-SP pelo Erasmo Dias. Naquele tempo a direita pelo menos se assumia.

  117. Wilson disse:

    É interessante notar que, justamente neste blog onde a mídia é tão criticada, muitos comentaristas compraram fielmente a versão da mídia, que adotou ipses literis a versão dos grevistas.

    A principal informação falsa que a mídia difundiu sobre a greve é que se trata de uma greve da USP. Não é, não.

    Vamos ser honestos. Esta é uma greve da FFLCH, não da USP. E mesmo dentro da FFLCH ela é minoritária.

    Tomando a USP toda, menos de 1% dos alunos (são 80 mil) aderiu à greve. Ah, a alienação ainda acaba com este mundo redondo.

    Alguns dirão que muitas aulas na FFLCH não foram dadas. De fato, não mesmo, mas por que não foram dadas? Por que essa minoria recorre aos piquetes violentos. O cardápio da moçada tem intimidação física, invasão de aulas, bloqueio das salas com cadeiras e mesas. Sempre foi e continua sendo na marra.

    A agressividade desta moçada é tal que muitos professores e alunos simplesmente desaparecem da FFLCH, não estão dispostos a enfrentar este tipo de baixaria. Quem já passou por estas situações sabe que não há diálogo. No entanto, não custa lembrar que esta valorosa e corajosa trupe só faz isso na FFLCH. Na Poli, na FEA, nas Biológicas, nas Químicas, eles nem aparecem, não se admite tamanho desrespeito.

    E por que a FFLCH?

    Fui aluno da FFLCH no finalzinho da ditadura e desde então acompanho as coisas da minha Faculdade, onde passei anos deliciosos e fiz tantos amigos.

    Os corredores da FFLCH são povoados por muitos mitos, alguns verdadeiros, louváveis, exemplos de grandeza e coragem de seus alunos, professores e funcionários. Mas alguns deles fugiram ao controle, ainda que tenham a melhor das origens.

    Dentre esses mitos, nenhum se inflou mais que o mito da FFLCH como principal, quase único, centro da resistência à ditadura.

    Essa imagem da FFLCH como um Don Quixote lutando sozinha pela democracia contra a ditadura é muito viva na cabeça dos alunos que estão chegando à Faculdade. A gente chega a pensar que só pessoas da Faculdade sofreram, nada ocorreu no resto do país naqueles anos de chumbo. Para muita gente que passou por lá, a FFLCH foi e continua sendo o centro do mundo.

    Lembro-me de que assim que Lula assumiu alguns professores apareceram na mídia com aquele ar de: “pai, perdoai-vos, eles não sabem que fazem. Daqui a pouco seremos chamados!” E estão esperando até hoje.

    Pois bem, muitos alunos, professores e funcionários jamais conseguiram ultrapassar a Rua Alvarenga. O seu mundo continuou a ser o grande umbigo chamado FFLCH. Para eles, a FFLCH continua sendo o timoneiro do Brasil. O futuro do Brasil começa, como sempre começou, na FFLCH.

    Ora, é preciso manter aceso o mito. Organizam assembléias, povoam-nas de crédulos. Palavras certas para certos ouvidos. Aplaudem, gritam, revivem os bons tempos. Somos os caras!Transe total.

    Por fim, o auge! O verdadeiro guerreiro não pode dispensar a batalha campal. Chamam a imprensa, saem às ruas, fecham tudo, provocam, lutam . . . viram mártires.

    68 continua vivo na FFLCH.

  118. Anarquista Lúcida disse:

    Acho muito estranho alguém falar do “direito” de pessoas furarem a greve de suas categorias. Não vão às assembléias onde poderiam votar contra, e acham que ninguém deve impedi-los de atrapalhar um movimento democraticamente decidido. Alguém bateu em alguém que quisesse furar? Violência de cadeiras empilhadas e portões fechados com correntes? Ora, ora… Na hora de receber os aumentos conquistados pelos movimentos, não têm vergonha nenhuma.

  119. Diogenes disse:

    Nassif,
    tem uma lista enorme de professores da usp que poderiam lhe ajudar a pautar essas questoes da usp, mas o J.Vergilio é um dos menos indicados. Ou voce colocaria o Demetrio Magnoli aqui tambem?

    Se for o caso, entao o seu blog já tem uma posição reacionaria declarada em relação às politicas publicas educacionais.
    Uma pena…mais um caso na midia…

    Diogenes, o Demétrio não entraria porque pratica um patrulhamento primário. Como você.

  120. Diogenes disse:

    Tive um post anterior não publicado, em que criticava os “joões” da usp e seus intentos politicos nas fundações…muito estranho…

    Nada de estranho. Os ataques pessoais destoavam dos demais comentários.

  121. ninguém disse:

    Algumas palavras:
    1. Sinto falta, na maior parte das mensagens, de uma consciência acerca do que é uma universidade, do que é produzir saber (inclusive tendo presente o que isso significa no mundo, não apenas no Brasil). A maior parte das manifestações aqui exprimidas parece não estar por dentro do que é aprender, ensinar, pesquisar… E do que se requer para tanto…
    2. A USP não é uma fábrica ou indústria, tampouco é governo, isto é, não é poder executivo. Isso deveria estar presente quando se trata de uma greve. Só por causa disso é uma tremenda bobagem falar em eleições diretas para reitor. Pois um aluno que está ingressando não se encontra no mesmo nível de um professor doutor.
    3. Que sentido há, por exemplo, em bloquear a aula de um professor por motivo de greve. O professor está dando algo ao aluno (embora ele mesmo tire vantagem de dar aula, pois lhe proporciona um enorme prazer e um avanço em sua própria pesquisa). A quem prejudica isso! Diante disso, palavras como piquete, protestos e represssão, PM precisam ser repensadas, soam como deslocadas e estranhas.
    4. Certamente a categoria do funcionário possui uma outra relação com a universidade: a de empregado e empregador, mas não os professores e os alunos. Infelizmente, a USP está tomando, nos últimos anos, o rumo de certas federais, que já estão nas mãos dos funcionários. Essa greve começou com os funcionários e, lamentavelmente, viu-se em seu início professores (ditos intelectuais) se curvarem diante de um lider sindical marginal. Que satisfação não deve ter sentido esse sindicalista, e que impulso não deve ter tido, ao ver que pessoas cultas se submeteram aos seus desvarios! Lembra o nosso Lula: raramente leio um livro, e sou mais inteligente que os que lêem!
    5. Seria interessante averiguar na USP quem são os apoiadores da (s) greve (s): o que produzem esses pouquíssimos professores e alunos que a apoiam…
    4. Acho que se está gastando muitos neurônios com um problema restrito. Importa pensar a relação da universidade com o mundo e a existência em geral. Aliás, nessa direção, as exigências colocadas na pauta de greve são completamente irealistas. A maior parte dos funcionários da USP deveria estar muitissimo satisfeita pelo pouco que produzem, em comparação com a média salarial da sociedade em geral.
    5. Essa greve tem um cunho político: provocar uma situação diante da eleição presi\dencial do ano que vem…
    6. Outro ponto: greve na USP ocorre de dois em dois anos. É uma atividade profissional de sindicalistas que necessitam justificar seus salários…
    7. É normal: no mundo existem os que são contra as instituições (certamente porque em algum momento tiveram algum problema com elas! ou porque vem de uma educação desajustada, tanto familiar quanto social!) e os que as aceitam (porque não vêem isso como injusto!, mas como algo necessário para a convivência!)

  122. Wilson disse:

    Lendo os comentários, muitos argumentos me fizeram voltar quase 30 anos no tempo. Santo deus, o tempo não passa para muita gente.

    Era 1982 e lá estava eu numa discussão no Centro Acadêmico de minha Faculdade na FFLCH, quando um colega, depois de ouvir muitos alunos, vira para mim e diz: é incrível, primário demais…alguns alunos transportam para dentro da universidade os conceitos de luta de classes: alunos e funcionários são a classe operária e os professores a burguesia opressora. Não dá para acreditar, disse ele.

    Pois bem, quase 30 anos depois, vejo os mesmos argumentos aqui reproduzidos. Entre todos, o comentário de Celso Palermo é insuperável. Há uma nova classe, diz ele, a dos professores, etc.

    Suely Vilela é o nosso José Sarney do século XXI.

    O melhor retrato disso é a proposta de eleição direta para reitor. Que negócio é esse de democratização da USP?

    Como se a Universidade fosse uma reprodução em escala diminuta da sociedade. Não, a Universidade é uma instituição financiada pelo dinheiro do povo, a quem ela deveria prestar contas, como bem lembrou o Nassif há alguns dias atrás. É uma instituição onde deve valer o mérito como critério de poder. Cheia de defeitos, cheias de imperfeições, com muita coisa para melhorar, mas é assim que ela deve ser.

    Mas, como diz um amigo, esse tal de mérito é um negócio muito trabalhoso.

  123. janes disse:

    Parece que estão falando sobre o meu estado, rs.A governadora yeda,psdb, tem o mesmo “estílo” do governador de sp, ambos extremamente arrogantes e, pior, incompetentes.Aconteceu a mesma coisa aqui e a pm “mandou pau”nos estudantes e a mídia, grande aliada desse tipo de governo, mostrava imagens que não tinham nada a ver com a realidade do que estava acontecendo.No final, ficaram os estudantes tachados de baderneiros, bandidos, violentos.Na verdade, a pm desses governos,é instruida para causar a violência para gerar violência e, assim, colocar a culpa nos mesmos de sempre: os que realmente tem coragem para tentar mudar alguma coisa. Não admiro os conseravdores, pois eles sempre terão medo.Não há espaço no seu mundinho para algo diferente, todos tem que ser iguais e aceitar o que lhes é mandado fazer.

  124. Diogenes disse:

    Patrulhamento primario…mas, como eu posso patrulhar se o blog não é meu, eu não faço os filtros, apenas coloco os argumentos…tá parecendo que esses posts estão sendo patrulhados como se faz no blog do Reinaldo Azevedo.

    Só que ele assume isso.

    E não fiz ataques pessoais ao Joao, mas aos “joões” que existem muitos por aí.

    OK. Tá mais claro pra mim as regras do jogo.

  125. fanon disse:

    Sobre piquetes serem ilegais:
    1º) Alguém já viu greve de verdade sem piquete? Nem no ascenso operário do final dos 70, nas metalúrgicas do ABC, conseguiriam aquela força não fossem os piquetes e outros métodos criados pelos trabalhadores na luta.
    2º) Esse papo de “direito democrático de ir e vir” não engana ninguém, que tenha certo conhecimento, ou experiẽncia, em lutar realmente contra a opressão, miséria, contra o patrão ou a polícia (ou contra o capitalismo se quiser). Que estado democrático temos? De quem, pra quem? Os pobres só podem ir e vir onde os pés e a barriga aguentam. A pequena-burguesia (ou “classe-médias”) em sua maioria, não fazem nada pra mudar as desgraças, ou evitar as injustiças, que slatam aos olhos de todos, mas ainda sim não agem, não lutam.
    Os que lutam, minoria, são xingados e amaldiçoados, pelos que nada fazem, que só reclamam que pagam impostos e bla bla. Pois incomoda a estes ver que tem pessoas que buscam fazer algo, que lutam mesmo sendo minoria, e tentam organizar uma resistẽncia e a “esperada mudança”.Jogam na cara dos acomodados, alienados, que estão extasiados em só consumir e viver “tranquilo” fora da realidade da grande maioria dos trabalhadores(as) e do povo pobre mesmo.
    Outra coisa simples que muitos “conceituados professores, especialistas, etc” esquecem: O estado atual funciona para uma determinada classe, e essa classe é a dos ricos capitalistas. Por isso é chamado de “Estado burguês”, pois serve de instrumento “legal” para “enquadrar” (oprimir e explorar) a outra (maior e principal) classe do sistema, a classe trabalhadora.
    Mas “esse” esquecimento sobre as classes socias, e do estado sempre estar a serviço de uma delas, etc, leva de cara aos mais cínicos discursos e apontamentos, como feito no texto acima (João V.).
    O Lula sempre preferiu “negociar”, com os patrões, com os generais, políticos de direita e da “esquerda” da época, e ajudou na “abertura lenta, gradual e [ir]restrita”. Mas ainda sim não podemos deixar de mencionar e saber, que se não fossem os piquetes, os métodos e táticas de luta de classes, próprios da luta dos trabalhadores(as), muito dificilmente teríamos aquela tal abertura, que muitos queriam, muitos festejaram, muitos agradecem, mas poucos foram os que realmente resistiram e alavancaram a luta, luta que não vive de discursos, nem só de teorias (sejam políticas, filosóficas, etc) mas lutas que são reais, cheias de violência, de corpo físico, e com certeza sempre serão, ou alguém acredita que os ricos (a burguesia) vão largar o osso “Brasil” assim, na paz.
    A força policial, militar, etc, na nossa história, já deveria servir de aula e lição para certos professores.
    O Florestan já enfrentava e denunciava a direita na USP, e ela continua na mão da direita, exemplo das aulas e das “mentes” da maioria de seus professores. Até os professores “marxistas” da USP (que se dizem), se prestar um pouco de atenção, fazem o mesmo dos reacionários, até pior, pois distorcem todo o possível conhecimento dos alunos ao que realmente interessa, e há de bom pra se conhecer.
    Que boa parte da USP nunca entra em greve muitos sabem, e citam, mas poucos dizem o porque. Não falam que boa parte da USP já está praticamente privatizada pelas fundações. Tenho colegas que estudaram na Poli, na FEA, na Química, e todos atestam o famoso “suporte” dados pelas fundações (bancos, corporações, construtoras, indústrias, etc) ao ensino publico superior. Professores que recebem salários e ajudas das fundações para “suas” pesquisas (para eles e empresas, claro, não para a sociedade). Os prédios reformados, salas bonitas com café e biscoitos, mas pagos, isso mesmo, cursos pagos na FEA, e caros, cobrados em dólar.
    Ou seja, dificilamente professores e até alunos de tais faculdades, dos prédios e salas “lindos” e com “tudo novo”, irão querer lutar, pra que? Pra eles não falta a “infra-estrutura”, que falta nas outras faculdades, FFLCH, Educação, etc, sucateadas pelo governo. Mas falta a liberadade de pensamento e principalmente de lecionar, pois um professor que receba um “salário” bem gordo de uma funadação não está enm aí se o salário que recebe da USP está caído (super caído). E este professor bancado pela fundação e outros “bicos” também não vai falar a verdade para seus alunos sobre quem manda e quem ganha e quem saõ os responsáveis pelas desgraças e miséias nesse nosso país. Se o fizer o banqueiro demite ele do projeto de pesquisa financiado pela fundação…
    Bem já chega de desabafo, vou gastar minhas energias noutro lugar.
    Abraço aos lutadores e até.

  126. Mario Abramo disse:

    Caro Nassif
    Tou achando muita vela gasta com mau defunto. Não a USP, mas esse libelo “cortina de fumaça” do João Vergílio. Tem alguma proposta concreta, fora “vamos todos nos dar as mãos e prometer nunca mais brigar”? Bom tema pro dia dos namorados, mas fora isso zero à esquerda.
    Tem gente falando em estatuinte. Essa é uma idéia razoável. Difícil de pegar, pq realmente as representações ainda estão muito viciadas. As estaduais não são nem democracia nem meritocracia: são uma QIcracia.
    Mesmo com o risco de parecer pretencioso, no meu entender a discussão deveria girar sobre o papel e o significado da universidade pública neste momento, de que forma as estaduais estão cumprindo (e dando condições a seus atores para cumprir) estas funções, e o que pode ser feito para melhorar.
    Abraços
    Mario Abramo
    PS: Cara Silvana, obrigado pelo resgate do post, mas na verdade eu nem pensei que isso seria levado a sério.
    PS2: Caro André Leite, um pouco mais de seriedade. Algumas afirmações suas são totalmente gratuitas. Prejudica muito.

  127. Mario Abramo disse:

    Ah, pqp, tá lá o “pretencioso”… joguem o liquid paper e leiam pretensioso. tnx

  128. Marcio Gaspar disse:

    “Greves são instrumentos normais de pressão. Ninguém deve ser perseguido ou estigmatizado pelo fato de estar defendendo ou simplesmente aderindo a um movimento grevista. Greves são normais. Piquetes não são normais, nem aceitáveis. Piquetes são intervenções físicas, violentas, que visam a impedir o exercício de um direito garantido pelas leis e sancionado pelas regras mínimas da civilidade. Se os grevistas querem adensar o movimento, devem argumentar, e não interpor corpos ou barricadas à entrada daqueles que, por quaisquer motivos, discordam deles.”

    Voce acredita nisso? O mundo para utopicos nao existe. Pergunta para os bancarios se eh possivel fazer alguma greve ou reinvidicacao sem a presenca dos sindicatos em qualquer agencia bancaria fazendo piquetes. Os funcionarios entram para trabalhar por medo de ser demitido por terem feito greve. Presencie isso. Muitos funcionarios falavam se o sindicato nao estivessem na porta teriam que entrar, pois o patrao estava de olho e fazendo pressao, caso nao entrassem seriam demitidos, mesmo concordando com a greve. Nao era porque discordava da posicao do sindicato, fazer greve, mas por medo de ser demitido. Se fizesse uma votacao secreta para saber quem concordava ou discordava da greve, o resultado para quem tem os salarios achatados anos apos anos seriam a favor da greve. Seraa que o Joao Vergilio ja trabalhou fora dos muros academicos? Conhece a realidade do dia a dia de uma empresa, principalmente dos bancos? Dificilmente voce conseguira fazer uma greve com grande mobilizacao pelo convencimento. Se convencer uma minoria a fazer greve seraa ideal para o patrao, pois o patrao dira que eh somente uma minoria baderneira que quer fazer greve. Nao eh isto que sempre dizem quando os bancarios fazem greve. O texto do Joao eh um belo texto para o mundo corporativo. Quem sabe para uma futura USP S.A.

  129. Adriano do ABC disse:

    Prosélitos do brilhante professor Hariprado

    Fiquei estarrecido com o desrespeito do comunista Mauro Carrara, ele contradiz o verdadeiro relato de nosso mestre:

    “a nossa USP, agora sucateada, emburrecida, transformada no balcão educativo da divindade protetora dos mercados. Lá, conforme decisão do ex-líder estudantil Serra, os brucutus da PM é que discutem o contrato social.”

    E ainda, ele ultrajou nossos amigos colonistas, ele considerou Miriam Leitão, Sardenberg, Clovis Rossi, Jabour, Eliane Catanhêde, como:

    “ARTICULISTAS CAFETINADOS PELOS BARÕES DA MÍDIA”

    Esquivem-se da crueldade desse agente vermelho, não leiam suas blasfêmias.

    http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/mauro-carrara-sobre-a-usp-o-corinthians-a-petrobras/

    Que São Serapião nos proteja

  130. Marlene Suano disse:

    Prezado Nassif,
    Você colocou a mão em um vespeiro. Independentemente de conordar ou não com o João vergílio(e eu concordo), a questão que embala número considerável de professores da Faculdade de Filosofia da USP é o desconhecimento das greves terem se banalizado além dos limites da tolerância pelo simples fato que…. aulas e professores perderam a importância e a autoridade(intelectual e moral) sobre os alunos.

    Em um debate entre professores e alunos convocado pela chefia do Depto de História para o dia seguinte aos tristes eventos do ataque da PM no campus, o anfiteatro estava lotado com mais de 200 alunos mas…. apenas 5 professores dos 60 do referido depto sentavam-se entre eles, dispostos a ouvi-los e a dialogar com eles. Considerando-se chefe e vice chefe, eram 7 os professores presentes. Claro, nenhum dos que apoiam e defendem esta greve, como as demais, estavam presentes.

    Isso é dizer muito e não passou desapercebido pelos alunos. Quando eu disse que nos anos 60-70 a PM invadia o campus para imepdir aulas e que isso, agora, era feito pelos próprios alunos, fazendo-nos um alerta para a necessidade de raciocinarmos sobre o atual valor de aulas e professores — sobretudo quando se é contra UNIVEST e a própria Adusp, em atividades grevistas, coloca…. aulas — a análise dos alunos não tardou: cara professora, como a senhora se permite essa comparação com os professores de então?

    Pois é, a comparação existe em minha cabeça e tentativa de prática acadêmica e também naquelas de colegas como João Vergilio e tantos outros que o apoiam no forum dos professores da FF. Mas não estamos conseguindo transmitir isso aos alunos. Ou melhor, conseguimos transmitir aos nossos, especificamente, mas não aos demais. A profa. Tika dava uma prova, em decisão com 50% da sala, depois de ter deixado bem claro que os demais não seriam prejudicados, que fariam a prova em outra data a ser escolhida. Vamos verificar se os alunos que a acossaram, aos gritos de Hitler, eram os outros 50% ????? Tenho certeza que não. Os outros 50% simplesmente acolheram a possibilidade de escolha que professora e classe estabeleceram. Foram respeitados e respeitaram.

    O que devemos fazer, em nossa faculdade, é conferir esses eventos, entendendo suas variáveis, e discutir o que pensamos com nossos alunos.

    Na próxima 4a. feira, dia 17, haverá outro debate professores-alunos no DH. Votei contra a greve mas estou presente em meu posto de trabalho, debatendo com alunos, conversando com colegas. Não fui retirar as barreiras dos corredores mas estarei lá para celebrar o momento em que os alunos as retirarem. Marlene Suano(DH-FFLCH-USP).

  131. Paulo disse:

    Ah, FFLCH….. Todo ano a mesma coisa!

  132. L@!r M@r+3$ disse:

    Difícil não ir para o confronto quando o governo tem uma cobertura da mídia totalmente parcial. O caso é que o governo do PSDB faz e desfaz a bel prazer e pouco é criticado na grande imprensa. Em cenários mais civilizados, talvez a solução civilizada fosse a melhor. Mas com uma imprensa provinciana e altamente hegemônica, isso é muito difícil.

  133. Fernão Carlos disse:

    O pensamento dos apoiadores da greve é completamente assimétrico. Pra eles e suas causas, vale fazer piquete, depredar, patrimônio público, impedir as aulas da grande maioria etc. Porém, o “outro lado” tem de cumprir todos os ritos democráticos, deixando até de cumprir uma ordem judicial, como se fossem robocops sem emoções. O ideal de democracia dessa turma é realmente impressionante, Nassif, que gente infantilizada.

  134. Celso Palermo disse:

    Não quero polemizar a discussão. Mas respondendo ao comentário do Wilson de 11/06/2009 – 20:55, apenas tenho a dizer que essa é a minha opinião sobre essa situação. Diria mais… Hoje, pelo menos na universidade onde trabalho, existe uma diferenciação entre professores e funcionários e alunos que, por exemplo, atribui 70% da composição dos membros dos órgãos colegiados, para os docentes. A justificativa é essa mesmo o mérito. Até hoje, depois de 36 anos de trabalho, nunca vi as universidades prestarem contas à sociedade. Pelo contrário, a produção da universidade foi mercantilizada e não socializada. Todos, pesquisadores, fomentadores e universidade ganham com essa produção através de suas patentes. Alguma universidades já prestou conta de quanto se gasta e em que se gasta?

    Como vc acredito que deveriam prestar contas à sociedade e, mais que isso, deveriam socializar sua produção para que a sociedade desfrute desse conhecimento sem ter que pagar por ele mais uma vez…

    Como em qualquer instituição da sociedade, seja ela pública ou privada, nelas se reproduzem, nas suas relações internas, as coisas boas e ruins dessa nossa convivência. Temos disputas pelo poder, onde o mais forte domina. Chame de bananas e espertinhos… ou qualquer outra coisas, mas essas relações existem.

    Em qualquer situação o respeito as idéias e pensamentos é uma premissa indispensável à está jovem democracia, que caminha buscando aprimorar-se e alguém já disse em outro comentário e eu interpreto: As universidades ainda vivem sob o domínio da uma legislação e administração autoritária, e ela, não se justificava e nem se justifica mais…

  135. Andre disse:

    QUEM AQUI FALOU EM PIQUETES PACÌFICOS??

    Manifesto dos alunos em repúdio ao incidente envolvendo a turma do período noturno da disciplina FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I no dia 09.06.2009

    São Paulo, 11 de Junho de 2009.

    Este último dia 09 foi um dia triste na história da Universidade de São Paulo. Presentes ou não, todos nós da comunidade USP vimos o poder da força tomando o lugar do poder das palavras: o diálogo foi negado a favor da violência.
    O diálogo, entretanto, manteve-se presente na disciplina FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I durante todo o curso. A viabilidade para realização da prova no dia 09.06, marcada anteriormente ao estabelecimento da greve, e a própria disposição ou não dos alunos em a realizarem também estiveram inclusas em nossos diálogos por meio do fórum de discussões do sistema Moodle (http://moodle.stoa.usp.br). Várias possibilidades foram abordadas e a decisão final foi: quem quisesse ir fazer a prova, que fosse, e quem não quisesse ir ou tivesse o acesso impedido faria uma prova alternativa via Moodle em data ainda a ser definida. A escolha ficou a critério dos alunos, que de maneira alguma seriam prejudicados pelo não-comparecimento. Segundo consta no Júpiterweb há 24 estudantes matriculados nessa matéria no período noturno – 12 alunos compareceram para a prova.

    Próximo ao término da prova, por volta das 20:44 horas, nós, estudantes, de dentro da sala, ouvimos alguém gritar “Hitler!” três vezes. Apesar de que pelo bom-senso ou conhecimento de mundo mínimo parecer desnecessário relatar tal atitude como ofensiva, parece-nos melhor esclarecer que a alusão a um dos maiores genocidas da história da humanidade para uma turma que por vontade própria está realizando uma prova é, para dizer pouco, repugnante. Mas, ainda, falar isso para uma turma de Alemão é de um generalismo absurdo, ignorante e inaceitável. Os estudantes de Letras poderiam lembrar-se (ou conhecer) as palavras do poeta judeu de língua alemã nascido em Czernowitz, que teve os pais mortos pelo regime nazista e foi submetido a trabalhos forçados no campo de concentração: “A língua permanece intacta, sim, apesar de tudo” (adaptação do original).

    Pouco tempo após isso, diversos estudantes abriram a porta para “falar sobre o que havia ocorrido na universidade”. Não foi uma tentativa de dialogar ou argumentar sobre a legitimidade de nossa presença em sala: foi uma série de insultos, baderna e julgamentos de caráter. Os alunos da sala se manifestaram dizendo que estavam lá porque queriam e que aqueles que não estavam presentes, ao contrário do que se gritava (afirmando que estávamos lá “sob coerção de nota”), não sairiam no prejuízo. Cada um como indivíduo pensante, como adultos que somos, estávamos lá exercendo aquele direito que a nossa sociedade ocidental tem como supremo: o direito de livre-arbítrio. Não seria esse o momento dos alunos que se dizem “a favor da democracia” respeitarem o direito de seus semelhantes? O fracasso do diálogo fez com que alguns alunos do Alemão tentassem fechar a porta: medida irrealizável e tomada à flor das emoções.

    Por fim, o que puderam fazer doze alunos quando cerca de cem, mais ou menos, alunos histéricos (fazendo uso aqui da acepção proposta no Dicionário Houaiss “comportamento caracterizado por excessiva emotividade ou por um terror, pânico”) os obrigam, por meio de intimidação verbal e gritaria, a deixarem a sala de aula? – Sair.
    Assim, saímos. Cinco alunos acompanharam a professora até a sala dela para discutir o que tinha acabado de acontecer e também porque temiam maiores retaliações direcionadas à professora. Ao perceberem isso, os estudantes chegaram a mais uma conclusão infundada: os alunos estariam indo para terminar a prova, “bando de puxa-sacos”. Eles vieram atrás desses alunos e da professora, que, temendo pela integridade física dos mesmos, trancou a porta de sua sala. Nisso, os estudantes começaram a bater com excessiva força na porta, como que tentando derrubá-la, e desligaram a luz do andar inteiro. Sentimento dos que estavam lá dentro? Perplexidade. Vinte ou trinta minutos depois os estudantes foram se dispersando e os vigilantes do prédio apareceram para ligar a luz e acompanhar os que estavam dentro da sala até a saída do prédio. Os alunos e a professora saíram, então, chocados, assustados, tristes.

    Foi dada como justificativa da ação a alegação de uma suposta aluna do Alemão ter sido agredida (levado um tapa na cara) pela professora. Isso é uma mentira e uma calúnia. Quem era do Alemão, repetimos, estava lá porque queria: teve direito de escolha. O fato dos estudantes terem reagido sem o menor conhecimento de causa, sem tentar averiguar o ocorrido só mostra como uma inverdade é capaz de manipular muita gente.

    O que fica dessa história toda? Repúdio. Repúdio pela ação autoritária, agressiva e ofensiva dos estudantes com a turma de FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I. Repúdio por no prédio de Letras da “maior universidade do Brasil” o diálogo não ter sido estabelecido, pelo valor da palavra como solucionadora de conflitos não ter sido aceito. E ainda: repúdio pela não-superação dos métodos autoritários e repressores por parte dos estudantes, que, alegando serem esses os métodos da PM, foram, neste caso, os próprios propagadores da irracionalidade e do desrespeito ao indivíduo. Tivesse vindo uma abordagem dessas de um grupo que se reconhece intransigente, seria outra coisa. Mas vindo de pessoas que dizem defender a democracia, o diálogo e, não obstante, os estudantes, é simplesmente inaceitável.

    Os argumentos de que houve uma assembléia para votação da greve e que a maioria votou pelo “sim” não convencem. Assembléia em que algumas centenas de estudantes comparecem para um curso que tem mais de cinco mil estudantes não é representativa. Procuremos outros meios, usemos a tecnologia a nosso favor, há formas de incluir aqueles que não têm disponibilidade de estarem presentes em todas as assembléias. Mas não declarem o favoritismo a uma greve por contraste. E não nos obriguem a aceitar isso.

    Nós sabemos que ao optar por fazer a prova estávamos, inevitavelmente, nos posicionando contra esta greve, mas não tínhamos sido avisados que a mobilização em favor de uma determinada ideologia é compulsória. Preferimos acreditar na autonomia da escolha do indivíduo. Nós lamentamos a truculência da polícia com os estudantes e nos posicionamos, também, contra isso. Porém, não admitimos que o nosso direito de escolha seja desrespeitado. Quando se tira o direito de escolha de alguém, tira-se sua alma. E não aceitamos que ninguém, nem mesmo os estudantes da Universidade de São Paulo, faça isso conosco.

    Este manifesto foi organizado e apoiado por parte dos alunos da disciplina em questão. Todos os alunos matriculados na matéria foram informados via e-mail sobre feitura do manifesto e receberam previamente uma cópia do mesmo. Nenhum aluno, até momento, se posicionou contrário à publicação desse texto.

    Sem mais,

    Alunos da disciplina Introdução à Tradução do Alemão I
    Departamento de Letras Modernas – Área de Língua, Literatura, Cultura, Lingüística e Tradução em Língua Alemã
    Letras – FFLCH/USP
    (Reiteramos que nem todos os alunos matriculados na disciplina quiseram comentar o caso. Dessa forma, não podemos afirmar que todos os alunos estão de acordo com este manifesto. Aqueles que estão de acordo optaram pela anonímia por temerem maiores retaliações.)

  136. marcelo disse:

    nassif,

    quando você vai dar destaque às inúmeras críticas que o professor joão vergílio recebe? Realmente, fica parecendo que nesses 30 anos ele realmente nunca participou de uma greve. As alternativas que ele propõe são no mínimo “inocentes”, digamos assim. A mesma inocência de que acusamos as decisões do Banco Central nas suas decisões.
    Pior, fica defendendo a expulsão da violência da USP como se ela não estivesse incrustada no planeta terra, na cidade de São Paulo.
    Os tradicionais métodos de negocioação entre as partes já foram usados. Rodadas e rodadas de negocioação, audiências públicas onde a reitora se compromete a ir e desmarca de última hora, e por aí vai.
    A mídia não dá visibilidade, e quando dá, é enviesada. Cobre as manifestações dando enfoque no trânsito que elas causam e na indignação dos motoristas.
    A justiça, só Deus sabe. Concedeu uma liminar ontem pedindo a reintegração do funcionário Claudionor Brandão, diretor do sindicato. Horas mais tarde, derruba a liminar sem dar maiores explicações.

    Não concordo com piquetes em salas de aulas. Se os alunos que querem ter aula e os professores querem dar aula não existe razão pra fazer piquete. Se os alunos decidirem não ter aula, eles simplesmente matam a aula do professor em conjunto e pedem reposição depois. Os alunos têm poder de barganha o suficiente para fazer isso. O curso de audiovisual da ECA conseguiu isso em 2007 e está em greve novamente esse ano.
    No caso dos funcionários é diferente: a possibilidade de ser punidos por não trabalharem é muito maior. O piquete se faz razoável para que ninguém possa ser individualmente identificado como “incitador de greve” e perseguido mais tarde.
    Mais: eles só existem nos locais onde seus próprios funcionários acham correto montar um. Os funcionários da reitoria decidiram pelo piquete muito tempo depois do sindicato ter decretado greve.

    Sinceramente, acho que o problema da USP começa com (falta de) transparência e diálogo. Faço jornalismo aqui e atualmente estou no jornal laboratório que o prof. vergílio, acredito eu, um dia foi ombusman. Publicamos diversas matérias falando dos problemas da universidade, das condições precárias de trabalho, dos desmandos do conselho universitário, e por aí vai. Precisamos da voz da reitoria em 90% das nossas matérias. Sabe em quantas conseguimos? A assessoria da reitoria é simpatissíssima, mas nos enrola que é uma beleza. O prazo para o fechamento termina e não conseguimos “o outro lado”. Depois, sai uma coluna do ombudsman no jornal seguinte nos acusando de parciais.
    É isso que acontece: ela nos mata por inanição. Vejo o mesmo acontecer inclusive com a grande imprensa, que demorou dias para ter alguma declaração da reitora (mesmo assim por e-maill). Imagine como fica o diálogo com os movimentos organizados aqui dentro.
    Culpar setores x ou y pelo radicalismo com que agem aqui dentro é fácil. Mas há um motivo para que eles tenham se sobressaido neste momento.

  137. Fernando disse:

    Gostaria de saber o porquê de minha resposta aos alunos da disciplina Introdução à Tradução do Alemão I ter sido deletada? Tenho direito de expor minha opinião.

    Todo mundo tem o direito de expor sua opinião em tom educado. Experimente.

  138. basilio disse:

    Responda as perguntas.

    Quem esta contra a greve?

    A greve é direito assim como também é direito “ir e vir”. Quem não quiser aderir, tem todo o direito de não aderir a nenhum movimento.
    Como fica casos exemplares de professores proibidos de dar aula para sua turma, mesmo que metade da turma queira ter aula. Como fica o direito daqueles que precisam de transporte público e de bandejão? A constituição não diz que é necessário manter um mínimo de serviço? Ou um mínimo de serviço só serve para atividades essenciais?

    Como ficar do lado de sindicatos que não representam, que não tem bandeiras, que fragmentou suas demandas, atirando para todos os lados. Como faço para aderir a uma greve que tem como pauta, assuntos tão dispares quanto ensino a distância e aumento salarial, além de defender questão pontual de demissão de funcionário, divergências jurídicas na contratação e reposição salarial?

    Se apoio reposição salarial, auomaticamente estarei apoiando o fim do projeto da Univesp? Venda casada não é proibida? Preciso realmente aderir ao pacote todo?

    Será que uma pesquisa, num universo de 7500 votos onde a a maioria esta contra a greve, não tem significado algum?

    Como apoiar pessoas que não admitem o debate e age deliberadamente para manipular assembleias poucos representativas, e quando a “oposição” ameaça se organizar estes são agredidos covardemente?

    Poderia escrever mais, só que tenho que voltar paras os estudos – tenho provas e trabalhos para entregar nos próximos dias.

    Basilio.

    http://greveusp.blogspot.com/

  139. Beatriz disse:

    Não tenho uma crítica a esse texto. Só acrescento que quando se trata de educação, greve não é o melhor caminho das coisas serem conquistadas. E a grande pergunta, greve por acaso consegue alguma coisa? Por que só o que eu vi ela conseguir foi deixar nossos banheiros da FFLCH sem papel, fazer com que perdêssemos nossas aulas, ficássemos sem circular e bandejão. Como os grevistas querem justiça semeando injustiça? Sou eu que vou colocar a univesp, sou eu que corto as verbas de educação, sou eu que não pago os funcionários? Não!! E é o meu banheiro que estava sem papel, minhas aulas que foram perdidas, meu ensino prejudicado! Que os revoltados arranjem um jeito de protestar sem prejudicar quem não fez nada de errado! O problema não é só tropa de choque, está TUDO errado…

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