Crise da USP: um estado sem liderança
Não aprovo a maneira como o Sindicato dos Funcionários da USP atua. Vídeos colocados no Youtube por alunos da Poli mostram uma agressividade incompatível com o ambiente acadêmico. Condeno também o uso de piquetes para impedir professores e alunos de frequentarem as aulas.
Vou além: acho que a democracia na Universidade consiste em prestar contas aos contribuintes e à comunidade em geral. Essa história de pensar a Universidade como um ser autônomo, alvo de disputa de poder entre Conselho Universitário, professores, funcionários e alunos não cola. A Universidade deveria ser um centro de excelência, com metas definidas de produção acadêmica e formação de alunos, critérios de acompanhamento da qualidade, e com gestão profissional que colocasse todas as forças a serviço do cumprimento de sua missão.
Mas voltemos ao mundo real.
Tem-se um problema concreto: um sindicato agressivo e métodos condenáveis de impedir as aulas. Na outra face da moeda, tem-se uma gestão amadora, com acadêmicos assumindo funções de gestor sem entenderem do riscado, grupos internos de digladiando e esse amadorismo todo alimentando o ressentimento de funcionários e alunos.
Deslindar esse nó é função política das mais relevantes e está acima das atribuições da reitoria – que é parte do problema, não da solução. O que remete a cobrança ao governador José Serra. Teoricamente, ele seria o representante dos cidadãos e contribuintes de São Paulo para resolver uma questão essencial para o estado e para o país, que são esses problemas que amarram a USP.
E o que faz o governador? De um lado, insufla a radicalização da reitoria; de outro, tira o corpo.
Compare essas duas notas da Folha de hoje.
Aqui, as declarações de Serra em um evento na Vila Mariana:
“A questão é a seguinte: o governo está cumprindo ordem judicial. A reitora pediu segurança e o governo não tem outra alternativa senão cumprir a ordem judicial, dada por um juiz”, afirmou Serra.
E aqui outra nota, na própria Folha, mostrando a pressão que a reitora sofreu em 2007, ao demorar a pedir a intervenção da PM:
Em 2007, reitora foi criticada por “vetar” a polícia
DA REPORTAGEM LOCAL
Em 2007, durante a invasão de alunos à reitoria da USP, a reitora Suely Vilela foi criticada por membros do governo José Serra (PSDB) e por parte da comunidade acadêmica por não ter permitido que a polícia cumprisse a ordem de reintegração de posse. A reitoria ficou ocupada por 50 dias.
Vilela disse na época que o Executivo havia demorado para esclarecer decretos que, para os manifestantes, feriam a autonomia universitária. Os invasores concordaram em sair após a reitora aceitar, por escrito, quase todas as suas reivindicações.Segundo a Folha apurou, naquele episódio a reitora impediu que a polícia entrasse no prédio por temer um forte desgaste. No caso de ontem, dizem pessoas próximas a Vilela, ela quis mostrar força. (FÁBIO TAKAHASHI)
Em todos os episódios críticos do governo, o comportamento de Serra tem sido o mesmo. Na greve da Polícia Civil, ficou imobilizado, deixando o barco correr até que houve o confronto. Uma semana depois do confronto, recuou em todas as frentes: permitiu que a aposentadoria da Polícia caísse de 35 para 30 anos de trabalho, indo contra seu discurso histórico, de não jogar a conta para as gerações posteriores.
Na crise anterior da USP, a mesma trapalhada. Solta um decreto que dá margem a interpretações dúbias, mas dentro de uma lógica necessária de começar a articular as ações das Universidades dentro da uma estratégia do estado. Houve a reação. Serra deixou a corda esticar até arrebentar. Depois do balde entornado, simplesmente abandonou o projeto original.
Na crise atual, seu papel deveria ser montar uma estratégia que permitisse esvaziar o radicalismo, atender às demandas legítimas, recusar as ilegítimas, impedindo o confronto, dentro de um quadro de articulação política com forças internas e externas à Universidade.
Mas seguiu a regra que vem adotando sempre: inércia, inércia, inércia, insuflando o confronto numa ponta e tirando o corpo na outra.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Política Tags: José Serra, USP

Efeito Orllof
?
Prezado Nassif:
é absolutamente brilhante esse teu artigo.
Enfim alguém dá um passo à frente e põe o dedo na ferida.
Agora vai ficar clara a necessidade de uma séria e cuidadosa reflexão, pois são OS FATOS que atestam a total inépcia aliada ao descaso perverso com que o governador Serra instila seu desgoverno.
E essa reflexão é simples: HÁ ALGUMA CHANCE DE SE LEVAR A SÉRIO UM MANDATO PRESIDENCIAL DE JOSÉ SERRA?????
Acho que só para os doentes mentais.
Abraços
Nassif,
me emociona saber que ainda há no país pessoas capazes de fazer uma boa análise dos fatos, uma boa interpretação e, não expor, escancarar os reais problemas… talvez a gênese dos reais problemas… Obrigado!
Abraços
Volto aqui para repetir a citação feita lá em cima e que considero não oportuna, mas também importantíssima para a história, para a ética, para a moral e para a civilização:
“Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem.”
Bertold Brecht
A professora Adma Muhana escreveu uma carta e tentará publicar na mídia. Vou transcrevê-la aqui, do orcute, onde foi publicada pelo nosso colega Zani. Vamos divulgá-la em blogs e onde mais for possível.
A. Lucarezi.
“Mas há primaveras
A comunidade universitária e a opinião pública têm procurado, atônitas, acompanhar os acontecimentos recentes na Universidade de São Paulo. Como acreditar que professores, alunos e funcionários da USP, em especial da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, sejam criminosos cujos atos merecem ser severamente reprimidos com bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e gás pimenta? Como acreditar que querem destruir seu patrimônio, agir com violência e causar danos aos demais? quem acredita nisso? por quê?
Se se compararem as informações e declarações dos últimos dias, será possível repor a situação. Em plena negociação salarial, em 25 de maio, a Reitoria fechou as portas do prédio e não deixou parte da comissão de negociação entrar. Ao agir assim e quebrar a regra da cultura democrática instituída, não era improvável que soubesse da reação dos estudantes que, impedidos de entrar, poderiam forçar a porta e fazer uma “invasão” relâmpago. Mas, depois dos acontecimentos de 2007, havia uma resolução do Conselho Universitário autorizando a Reitoria a chamar a polícia quando julgasse necessário, a qual foi aplicada.
Docentes e estudantes sabem ensinar e estudar, principalmente. Talvez até, de um modo um tanto canhestro e desafinado, também saibam protestar. Alguns estudantes gritam e chegam a tirar cadeiras e pô-las diante das salas de aula, impedindo a entrada nelas – sinais de sua impotência, de sua insegurança e da desinformação acerca de outros canais de manifestação mais legítimos e eficazes, de que os professores (ainda) dispõem. Mas essa alegada “violência” estudantil não tem parâmetro com as armas usadas pela PM, treinadas para eliminar malfeitores, e descontentes… Inacreditavelmente, a atual reitora da Universidade de São Paulo pensa que sim!
Isto é ofender a USP e todos os seus membros. Pretextando grupelhos, radicais e sabe-se lá mais o quê, a Reitoria entregou a direção da universidade a um comandante policial. Ao ser alertada por um docente de que a presença da polícia no campus poderia causar graves danos físicos e morais a membros da comunidade, e de que as armas utilizadas pelas tropas contemplavam escopetas e metralhadoras, a reitora limitou-se a dizer que a escolha das armas adequadas à ação policial não era da sua alçada. A reitora transferiu sua responsabilidade pela vida dos estudantes, professores e funcionários, das crianças e adolescentes que estudam na Escola de Aplicação, e de todos aqueles que livremente transitam pelo campus Butantã da USP, a um coronel da PM.
Os professores da USP não estavam em greve. A campanha salarial e a carreira docente importam aos professores porque sabemos o efeito nefasto que salários aviltados causam ao ensino, como temos visto na precarização do ensino secundário. Os mais velhos se lembram de como o ensino médio público era padrão de qualidade para a escola privada, o que hoje nos parece um sonho desaparecido. A recuperação salarial nos importa para que a Universidade pública não passe a ter salários tão baixos que os melhores profissionais prefiram se afastar dela e servir apenas à iniciativa privada, com seu principal interesse no lucro, e levando ao desaparecimento das investigações independentes que interessam ao coletivo. Lutar por salários, todos sabem, é lutar por deixar uma universidade com melhor qualidade e para que a USP tenha o que comemorar daqui a 25 anos.
Os estudantes da USP não estavam em greve. O temor relativo à Univesp, ou Universidade Virtual do Estado de São Paulo, provém da convicção de que a expansão virtual da Universidade se fará à custa da qualidade do ensino e em detrimento das políticas de permanência estudantil por que vêm lutando, da construção de salas de aula presenciais, bibliotecas, laboratórios, moradias e restaurantes universitários, temor compartilhado por alguns professores que relataram desconfianças na implantação do Programa.
Todos estes são assuntos importantes para homens e mulheres que, trabalhando dentro da Universidade, abdicaram de ser meros consumidores e reprodutores de um saber para, com diversas dificuldades, se tornarem sujeitos de conhecimento, de ação e de transformação da sociedade. Requeriam, pois, que decisões dessa monta fossem tomadas com o conhecimento da ampla maioria da comunidade acadêmica, e não por decretos e resoluções. Todavia, recusando-se a negociar, a esclarecer, a Reitoria da USP teve como única resposta para a dificuldade do momento inventar uma ocupação para chamar a polícia. No dia 9 de junho os professores em assembléia, pensando em conjunto como retomar as negociações, ouviram tiros e gritos que dificilmente esqueceremos. Do prédio da Reitoria, de uma de suas janelas, umas dez cabeças assistiam ao lúgubre espetáculo de alunos e professores fugindo das bombas e sendo acuados no prédio da História. Apesar disso, e embora vários colegas tenham tentado contatos com a reitora, a fim de evitar um desfecho de proporções inimagináveis, ninguém, em momento algum, atendeu aos chamados dos docentes. Contatado, finalmente, o governador se calou: as armas já tinham falado por ele. Passado o furacão, reitoria e aliados vêm a público se manifestar e justificar atos injustificáveis.
O tecido universitário está desfeito. Todos os que defendem uma universidade pública, com direito a discussões, propostas, ações solidárias e coletivas, deixamos de reconhecer a reitora como interlocutora de nossa prática acadêmica. É verdade que, dentro e fora da Universidade, há os que aprovam a ação da polícia, alegando destruição do patrimônio público; desqualificam a decisão das assembléias em favor da greve, apelando para o direito dos que querem aula, embora não compareçam a elas; contestam os piquetes de funcionários e alunos, argumentando serem contra uma “violência generalizada”. Essas mesmas vozes recorrem a proposições vagas e metafísicas, que, descoladas de seu contexto político, ridicularizam o direito “à diferença”, “à opinião” etc.; mas se calam diante de questões materiais decisivas para a Universidade estadual, como a destruição do patrimônio público perpetrada, esta sim, pela polícia e por fundações privadas instaladas no interior da USP. Negando o direito à greve e a piquetes, propõem em seu lugar que cada um faça o que bem entender, desde que confortavelmente instalados em seus gabinetes particulares, ao abrigo do espaço coletivo e presencial de discussão. Parecem supor que a condenação das assembléias de professores e estudantes é feita ainda em favor do direito do aluno, como pagador de impostos, de ter sua mercadoria-aula. Ao sobreporem a figura do consumidor à do cidadão, transferem a cultura da universidade privada para dentro da Universidade pública, transformando os grevistas em anti-cidadãos-vendedores que não cumprem sua parte no troca-troca do mercado – como se estes não pagassem também seus impostos e não tivessem direito a forma alguma de dissidência. Certamente que, assim, esse discurso cala-se diante da destruição da Universidade pública levada a cabo por governos neoliberais e encobre sua adesão à mesma ordem de coisas, sob a capa de uma pretensa motivação pacifista.
Neste sentido, a Universidade deve se envergonhar de que uma parte do seu corpo docente e discente não condene a ação policial contra atos de caráter político: pois isso significa que essa parte não se importa com o coletivo e com o tipo de conhecimento e ética que estão sendo transmitidos nessa Universidade. A sociedade deve saber disso e querer que, na Universidade de São Paulo, os professores, os médicos, os arquitetos, os atores, os engenheiros, os biólogos, os psicólogos e todos os que aí se formam, com a contribuição de todos nós, visem mais ao bem coletivo que ao seu único e próprio lucro. E fazer parte da coletividade implica ter de olhar para além do seu escritório particular, do seu consultório e da sua sala de aula.
Agora a Universidade de São Paulo está em greve, exigindo a retirada imediata e definitiva da polícia no campus, para que retornem as condições de diálogo entre todos os envolvidos. Mas desde que a Universidade foi violentada com a permissão, ou pior, a mando de seus dirigentes, os professores requerem que a atual reitora se afaste do cargo e torne a ser algo de que possa se orgulhar: professora. Oxalá, assim, o próximo reitor compreenda que uma universidade não se faz virtualmente, nem com tropas militares, mas com docentes, estudantes e funcionários preocupados com o ensino e com a pesquisa, e sobretudo, com fazer parte de uma menos triste humanidade.”