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05/05/2009 - 17:00

Incompreensões em torno do Bolsa Família

Há uma enorme incompreensão que ainda remanesce em relação ao Bolsa Família.

A maior delas é em torno de uma dicotomia inexistentes: em vez de dar esmola o Estado deveria dar emprego.

Primeiro, não são políticas excludentes. Dá-se a base de sustentação mínima e oferece-se emprego.

Segundo, políticas de desenvolvimento – e de aumento de emprego – são inócuas sobre a base da pirâmide, se não vier acompanhadas de políticas de inclusão.

Numa ponta, tem-se a questão regional, os bolsões de pobreza. Essas regiões não se desenvolvem porque não tem consumo; não tendo consumo não atraem empresas; não atraindo empresas, não geram empregos.

Esse círculo vicioso está sendo rompido nas regiões mais pobres graças ao Bolsa Família e à Previdência Social. Criaram-se as bases para um consumo popular que estimulou empresas a investirem no atendimento à nova demanda. Em muitos lugares, o passo seguinte já foi dado, de instalação de empresas para atender à região.

Os valores da Bolsa e da aposentadoria são irrisórios mas permitiram uma estabilidade de ganhos. O que caracteriza a renda dos muito pobres, além do pequeno valor, é a inconstância do recebimento. Como não estão no mercado formal, dependem de bicos. Essa instabilidade impedia qualquer forma de comprometimento de renda com crédito. A Bolsa Família e a melhora nos benefícios da Previdência forneceram esse colchão mínimo. Com isso, a baixa renda pode ir às compras – a maior parte dos gastos, aliás, em alimentos e produtos de limpeza, mas parte em bens de consumo durável.

O segundo ponto é a inclusão dos miseráveis no mercado de trabalho. Também aí há uma incompreensão do que seja a miséria absoluta. E reflete a visão preconceituosa de que a miséria é fruto da vagabundagem.

A miséria absoluta é uma questão cultural. O sujeito vive na miséria porque aprendeu a viver apenas na miséria. Não tem noção do que seja sair da miséria. Aceita a condição como se fosse uma inevitabilidade.

O Bolsa investe em portas de saída do programa. A parceria com a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) mostra isso. Mas não se esperem resultados auspiciosos com os miseráveis. O máximo que se conseguirá, apertando as condicionalidades de colocar os filhos na escola, será salvar dessa tragédia a geração dos filhos.

Portanto espere-se da Bolsa Família o que ela pode dar: impedir a fome (só isso já seria suficiente para legitima-la); impedir a desagregação familiar; estimular a matrícula das crianças na escola.

A consolidação final do Bolsa Família será transformá-la em um ativo do Estado, do atual estágio da civilização brasileira e não um feito pessoal do governo Lula. Caso contrário, se entrar outro partido no poder, a tentação será “refundar” o Brasil. Essa é a verdadeira tragédia brasileira, praticada por todos os partidos independentemente de escolaridade.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Fome Tags: , ,

129 comentários para “Incompreensões em torno do Bolsa Família”

  1. Gabriel disse:

    Numa Carta Capital recente havia um artigo desmentindo a noção de que as pessoas param de trabalhar por causa do Bolsa Família. Esse texto é uma exceção na mídia, que costuma confrontar apenas idéias abstratas, sem colocar os números. Se o Bolsa Família fosse de um salário mínimo, seria uma coisa, sendo cerca de R$30 por pessoa, é outra completamente diferente.

  2. Maurício disse:

    Deveriam criar o Bolsa-Não-Família. O estímulo sobre um crescimento populacional não-planejado é catastrófico. Não há Estado ou mercado capazes de absorver tamanho contingente de pessoas que nascem sem as menores condições.
    No Brasil, há uma delegação da responsabilidade de cuidar das crianças carentes, sendo que aos pais nada é cobrado, em desrespeito ao que preconiza o próprio Estatuto da Criança, que prevê que os pais também são responsáveis pelos filhos menores. Na prática, não o são, e aí vemos favelas ( bairros) crescendo e só aumentando exponencialmente a miséria e a violência.

  3. alfredo machado disse:

    Caro Alexander Clasen Back:
    Entendo a sua proposta de otimização do PBF como bastante coerente, pois, de fato, a ignorância não torna ninguém inocente.
    Agora, os oito itens corretamente citados como Benefício, para surtirem o efeito desejado, têm que ser entendidos com tal pelas pessoas atendidas, o que não será tarefa fácil para a maioria delas, já que inteiramente alheias aos valores ali descritos, e para se corrigir esta deficiência se faz necessário um longo e hercúleo trabalho de convencimento/esclarecimento a ser desenvolvido por uma legião de agentes sociais, e estes, por sua vez, precisando estar perfeitamente sintonizados sobre a essência da tarefa, ou seja, outro enorme dificultador.
    Além disso, só Deus sabe como as vozes oposicionistas classificarão, e de forma veemente, tanto as atividades sugeridas quanto o tal “convencimento/esclarecimento”, nada mais que a tomada de consciência, por parte de muitos, sobre o seu papel como partícipe efetivo de uma comunidade, logo, menos coitadinhos, menos eleitores de araque a serem acintosamente manipulados pela classe política.
    Imagino que a sua idéia possa ser, em algum momento, a consequência natural e bastante positiva do PBF.
    Um abraço

  4. Carlos Silva de Paulo disse:

    Palmas para Arkx, que escreveu:

    “05/05/2009 – 19:22

    Enviado por: arkx

    e ao se avançar na crítica política ao Bolsa Família se chega a outra questão crucial:

    por que os setores dominantes brasileiros são contra o Bolsa Família?

    se o que é distribuído para a maioria, através do Bolsa Família, representa apenas 10% do que se transfe sob a forma de juros para uma minoria?

    por que estes setores dominantes, e a grande mídia que é seu porta voz, não estão então fechados com Lula?

    já que Lula executa magistralmente bem aquilo que FHC não teve competência para tal: um governo focado em atender os interesses da minoria (via juros altos) mas legitimando-se através de alguns benefícios para a maioria.

    responder esta questão não é apenas decifrar a contradição principal do governo Lula. é começar a construir uma alternativa par o Brasil.”

  5. Vera Passos disse:

    Se não estão pensando em faturar politicamente com o programa, por que não admitem que o bolsa familia é a unificação e ampliação de programas sociais ( bolsa escola, auxilio gás e cartão alimentação) já existente? graças a Deus que Lula aprimorou o que já existia de maneira capenga e desorganizada.
    Agora, esperteza é dizer que, nunca antes na historia desse País….

  6. luiz c l botelho disse:

    Prezado Nassif
    As pessoas esquecem muito facilmente que todos estes programas são provenientes dos impostos de todos os brasileiros!-É tudo dinheiro público.Acho até que a propaganda do governo presente e passado sobre os programas de Segurança Social foram intencionalmente colocados sob uma égide e foco de Programas Assistencialistas.Notem a diferença dos conceitos de Segurança Social-Um direito em princípio inerente a todos os cidadãos brasileiros necessitados; portanto exigindo todo um esforço de abrangencia e víes multi-partidário e aquele de Programas Assistencialistas Governamentais-certamente dependente dos”humores dos Partidos e Gabinetes” .Acredito ser uma velha técnica de Psicologia de confronto difamatória “Bolchevique” , tornar os “Dissidentes” todos “Porcos Capitalistas”-É claro que nenhum cidadâo brasileiro de bem será contra a Políticas de Estado de Segurança Social mínima!.O problema são as distorções intencionais de vés político-eleitoreiro em “personalizar” atos OBRIGATÓRIOS de governança, que então passam a ser percebidos como atos voluntariosos e de caráter revolucionário populista de partidos políticos e agremiações partidárias ,pelos tristes recipientes (Brasileiros em estado de pobreza extrema!) da tão necessária Bolsa-Família. .Acredito merecer uma CPI do Senado, a total investigação em relação as sub-reptícias utilizações de propaganda de atos governamentais, as quais só tem a sua legalidade constitucionalmente garantida se forem feitas com objetivos puramente educativos; e totalmente inapropriadas para um programa de política de estado !-A gestão é sempre do governo de “plantão”, mas as verbas são de todos os brasileiros!

  7. Alexandre disse:

    Nassif, a incompreensão sobre a qual você discorreu têm sua razão de ser. A elite econômica e política de qualquer país que convive com desigualdades tão grandes procura sempre justificar o “status quo” do qual se beneficia com desculpas esfarrapadas. Em alguns países se apela mais para a religião (”Deus quis assim”), outros para a culpabilização do indivíduo (” Pobre é pobre por ser vagabundo”), ou mais comumente, uma mistura dos dois.
    Com a ajuda da mídia, tais sofismas são incorporados ao senso comum, e aí vemos toda essa gama de opiniões negativas em torno de programas sociais que são considerados uma violação aos princípios da meritocracia. Junta-se a ignorância e a falta de conhecimento sobre a realidade brasileira, e aí chega-se na tia da minha esposa: “Tem gente no nordeste tendo filho só para ganhar o bolsa-família.” Mas felizmente temos a internet como espaço de amplo debate, e com essa ferramenta cada vez mais pessoas terão a possibilidade de desenvolver uma visão mais ampla e lúcida da realidade.

  8. edu yeh disse:

    Nassif, i’m from the US, currently based in SP. Last week, I spoke to some personnel at an NGO called Oxigenio, which does workers’ training and capacitation program for the Federal Dept of Labor of Brazil. They are one of the NGO assisting the Government in the Planseq’s Program. They only qualification for this free gov sponsored program is that the person should be registered as Bolsista in the Bolsa Famila Program. They showed me a list of cities and the estimated no. of bolsistas in each region. Yes, the gov doesn’t have an updated list of all qualified bolsistas which is crazy, but that’s another discussion. The problem they are facing is that Bolsistas are “AFRAID” to take such courses for self improvement cause in case they learn to work, they fear losing their status as Bolsistas and losing the subsidy. Now that’s human yet it is the Government’s responsability to encourage citizens to develop, and the major issue here is that the Bolsa Familia doesn’t seem to have any mechanism for that. A simple mechanism based on a 18~24 month milestone based Bolsa Familia where each Bolsista is under a timeframe (w/ triggers) to put their acts together so to learn and find working opportunities seems so reasonable and effective. WHY? WHY ISN’T SOMEONE AT THE GOVERNMENT DISCUSSING THIS POSSIBILITY? AS IF NOBODY REALLY CARES? I WOULD LOVE TO GET YOUR INSIGHT SO I CAN SHARE WITH SOME KEY CONTACTS IN THE US.

    NInguém vai deixar de lado um emprego para ter direito a R$ 80,00 do Bolsa Família. É muito menos do que o mínimo. Só não vai procurar emprego quem não conseguir um salário superior a R$ 80,00. O salário mínimo nosso é superior a R$ 300,00. Se essa ONG não consegue passar esse dado óbvio a seus bolsistas, sugiro que feche.

  9. Alexander Clasen Back disse:

    Resposta para 06/05/2009 – 01:35 Enviado por: marcelo

    Eu falo claramente que minha proposta é trabalhar QUATRO HORAS POR MES. Tres hipoteses para voce:
    1. Voce está claramente distorcendo meu texto
    2. Voce sabe ler mas não sabe interpretar ou compreender a mensagem
    3. Voce só se deu ao trabalho de ler aquilo que te interessava, descartando aquilo que não concorda.

    Resposta para 06/05/2009 – 10:10 Enviado por: alfredo machado

    Não penso que seja necessário um trabalho hérculeo de esclarecimento. É muito simples: quer bolsa? Tenho aqui um trabalho de 4 HORAS POR MÊS, QUE VOCE PODE FAZER EM UM DOS SÁBADOS OU DOMINGOS. E se vão se levantar vozes hipócritas contra o trabalho digno, é necessário uma liderança ainda mais forte nas pessoas do presidente, ministros, etc. Propor trabalho para o sustento de alguém agora se tornou assédio moral???

    E um desabafo: Sou engenheiro eletricista e trabalho com projetos de pequenas centrais hidrelétricas, que muito raramente causam algum impacto social ou ambiental significativo (diferentemente dos grandes empreendimentos). Pois bem, a política ambiental existente hoje em nosso país torna mais fácil a instalaçao de uma usina térmica, que queimará gás, óleo ou carvão, em detrimento das energias renováveis abundantes em nosso país. Vejam a incoerência: Estamos trabalhando para atender as necessidades da população sempre crescente. Por que eu, que estou trabalhando para atender a necessidade da população sempre crescente, tenho que ter licença ambiental e as famílias podem ter quantos filhos quiserem, sem o menor planejamento, sem licença? O impacto ambiental é causado pela hidrelétrica ou pela necessidade que levou à hidrelétrica?

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