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29/04/2009 - 15:45

A carta que não foi publicada

De Dilma Rousseff

Senhor Jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva
Ombudsmann da Folha de São Paulo,

1.    Em 30/03/2009, a jornalista Fernanda Odilla entrevistou-me, por telefone, a pedido do chefe de redação da Folha de São Paulo, em Brasília, Melchíades Filho, acerca das minhas atividades na resistência à ditadura militar.

2.    Naquela ocasião ela me informou que para a realização da matéria jornalística, que foi publicada dia 05/04/09, tinha estado no Superior Tribunal Militar – STM. No entanto, eu soube posteriormente que, com o argumento de pesquisar sobre o Sr. Antonio Espinosa, do qual detinha autorização expressa para tal , aproveitara a oportunidade e pesquisara informações sobre os meus processos, retirando cópias de  documentos que diziam respeito exclusivamente a mim, sem a minha devida autorização

3.    A repórter esteve também no Arquivo Público de São Paulo, onde requereu  pesquisa nos documentos e processos que me mencionavam, relativos ao período em que militei na resistência à ditadura militar. Neste caso, é política do Arquivo de São Paulo disponibilizar livremente todos os dados arquivados e, em caso de fotocópia, autenticar a cópia no verso com os dizeres “confere com o original”, com a data e a assinatura do funcionário responsável pela liberação do documento.

4.    Os documentos pesquisados pela jornalista foram aqueles relativos ao Prontuário nº 76.346 e as OSs 0975 e 0029, sendo também solicitadas extrações de cópias.

5.    Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30/03 sobre minha participação ou meu conhecimento do suposto seqüestro de Delfim Neto, a matéria publicada tinha como título de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro do Delfim”. O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de “factóide”, uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha de São Paulo.

6.    O mais grave é que o jornal Folha de São Paulo estampou na página A10, acompanhando o texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site www.ternuma.com.br (“terrorismo nunca mais”), atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa.

7.    Após a publicação, questionei por inúmeras vezes a Folha de São Paulo sobre a origem de tal ficha, especificamente o Sr. Melchiades Filho, diretor da sucursal de Brasília. Ele me informou que a jornalista Fernanda Odilla havia obtido a cópia da ficha em processo arquivado no DEOPS – Arquivo Público de São Paulo. Ficou de enviar-me a prova.

8.    Como isso não aconteceu, solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 05/04/2009. Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de São Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob tortura ou não, sobre aqueles fatos.

9.    Mais estranho ainda é que a legenda da ficha publicada pela Folha dizia: “Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu”. Ora, se a Folha sabia que os chamados crimes atribuídos a mim não foram por mim cometidos, por que publicar a ficha? Se optasse pela publicação, como ocorreu, por que não informar ao leitor de onde vinha a certeza da falsidade? Se esta certeza decorria de investigações específicas realizadas pela Folha, por que não informar ao leitor os fatos?

10.    O Arquivo Público de São Paulo também disponibilizou cópia do termo de compromisso assinado pela jornalista quando de sua pesquisa, ficando evidente que a repórter não teve acesso a nenhum processo que tivesse qualquer ficha igual à publicada no jornal.

11.     Mais ainda: a referida não existe em nenhum dos arquivos pesquisados pela jornalista, seja o STM, seja o Arquivo Público de São Paulo. O fato é que até o momento a Folha de São Paulo não conseguiu demonstrar efetivamente a origem do documento.

12.    Considero ainda que a matéria publicada na sexta-feira,17 de março, em que a Folha relata as minhas declarações ao jornalista Eduardo Costa, da rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, não esclarece o cerne da questão sobre a responsabilidade do jornal no lamentável e até agora estranho episódio: de onde veio a ficha que afirmo ser falsa?

13.    Após 21 dias de espera, não acredito ser necessária uma grande investigação para responder à seguintes questões: em que órgão público a Folha de São Paulo obteve a ficha falsa? A quem interessa essa manipulação? Parece-me óbvio que a certeza sobre a origem de documentos publicados como oficiais é um pré-requisito para qualquer publicação responsável.

14.    Transcrevo abaixo o texto literal do termo de responsabilidade assinado pela jornalista em 22/01/09:

“Declaro, para todos os fins de Direito, assumir plena e exclusiva responsabilidade, no âmbito civil e criminal, por quaisquer danos morais ou materiais que possa causar a terceiros a divulgação de informações contidas em documentos por mim examinados e a que eu tenha dado causa. Ficam, portanto, o Governo do Estado de São Paulo e o Arquivo do Estado de São Paulo exonerados de qualquer responsabilidade relativa a esta minha solicitação.

Declaro, ainda, estar ciente da legislação em vigor atinente ao uso de documentos públicos, em especial com relação aos artigos 138 e 145 (calúnia, injúria e difamação) do Código Penal Brasileiro.

Assumo, finalmente, o compromisso de citar a fonte dos documentos (Arquivo do Estado de São Paulo) nos casos de divulgação por qualquer meio (imprensa escrita, radiofônica ou televisiva, internet, livros, teses, etc).” (Cópia em anexo)

15.     Por último, cabe deixar claro que a ficha falsa foi divulgada em vários sites de extrema direita, como: a) Ternuma (Terrorismo Nunca Mais), blog de apoio ao Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, ficha falsa postada em 30 de novembro de 2008; b) Coturno Noturno – Blog do Coronel: ficha falsa  postada em 27 de março de 2009 (a ficha está “atualizada” apresentando uma foto atual) (http://coturnonoturno.blogspot.com/2009/04/desta-parte-dilma-lembra-tudo.html). A partir daí, outros sites na internet também divulgaram a ficha: a) http://fórum.hardmob.com.Br/showthread.php; b) http:/www.viomundo.com.Br/blog/dilma-terrorista/

16.    Estou anexando a este memorial cópia de alguns documentos que considero importantes para sua avaliação:

➢    Termo de responsabilidade assinado pela jornalista no Arquivo de SP;

➢    Cópia de fichas onde consta a foto (ou idêntica) à utilizada para montagem da ficha usada pela Folha de São Paulo

➢    Cópia da solicitação da jornalista Fernanda Odilla ao STM de acesso a informações sobre Antonio Espinosa

➢    Autorização do Sr. Antonio Espinosa para acesso aos seus documentos

➢    Termo de Compromisso assinado pela jornalista Fernanda Odilla junto ao STM.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Mídia, Sem categoria Tags: , ,

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94 comentários para “A carta que não foi publicada”

  1. George disse:

    Nassif, perdoe a minha ignorância. Se a carta não foi publicada, como você conseguiu? Ela enviou com cópia para você?

    Me enviou depois que constatou que não seria publicada.

  2. Sancho Brancaleone disse:

    O Bebê de Rosemary
    (Rosemary’s Baby, 1968)

    » Direção: Roman Polanski
    » Roteiro: Ira Levin (romance), Roman Polanski (roteiro)
    » Gênero: Drama/Suspense/Terror
    » Origem: Estados Unidos
    » Duração: 136 minutos

    Sem dúvida, um dos melhores filmes do gênero.

  3. Aldo Cardoso disse:

    30/04/2009 – 06:17 Enviado por: George

    Nassif, perdoe a minha ignorância. Se a carta não foi publicada, como você conseguiu? Ela enviou com cópia para você?

    Me enviou depois que constatou que não seria publicada.

    Ótimo!
    Que bom sabermos que esse blog-credibilidade circula em mesas que tais.

  4. nicolasn@ig.com.br disse:

    Parabéns NAssif…logo logo teu blog , o de PHA….baterão em leitores a folha e o pig !!!
    um abraço.

  5. Donizeti disse:

    Esse é um exemplo cabal do que o PIG – Partido da Imprensa Golpista considera como “liberdade da imprensa”, ou seja, liberdade para caluniar, injuriar, difamar, arruinar a vida e a reputação das pessoas impunemente, enfim, praticar todo tipo de canalhice para que seus protegidos (tucanos e Serra) possam atingir seus objetivos, e o País e a maioria do seu povo se danem.
    É porisso que esses picaretas são contra a Lei de Imprensa, que está na pauta de julgamento do STF, e querem sua revogação. Eles querem que seus crimes não tenham previsão legal alguma, para não correrem nenhum risco de responderem por seus crimes abjetos.
    A sociedade não pode deixar isso passar de forma impune, e espero que a Presidente Dilma Roussef não se esqueça do que tentam fazer contra ela.
    Acho que somente uma mulher de fibra como a Dilma vai ter coragem de enfrentrar de peito aberto essa corja de criminosos que se esconde sob o manto da “liberdade das empresas” da mídia conservadora.
    Acho que se o Movimento dos Sem Mídia – MSM não chamasse o ato do dia 7 de Março em frente à Folha protestando contra a DITABRANDA, eles já teriam feito coisa pior.

  6. Antes de julgar-mos, temos que ouvir a jornalista e a folha de São Paulo. Não podemos esquecer que a jornalista perderia muito publicando uma prova falsa.

  7. Regina rRamires disse:

    A jornalista da Folha de São Paulo deve satisfações a todos nós que estamos aqui e a sociedade. Chega de panos quentes!!!!
    Se ela não tem culpa no ‘cartorio’ (pouco provavel depois de tudo q li)
    que a mesma se retrate nas telinhas, nos meios de comunicação em geral e livre sua cara!!!! O que ela não deve e não pode é usar a sua função como veículo de difamação

  8. bebeto_maya disse:

    Vocês deviam ficar calados…porque, verdade seja dita, Dilma pode até ter escapado dessa, mas não escapou de ter partcipado de ações pra lá de ilegais na época da ditadura…Interessante o que é de direita e extrema-direita no Brasil, qualquer tendência direitista, já te rótula como extrema-direita. A margem para ser de direita no Brasil é cada vez menor. Em breve estaremos numa gulag russa, com o beneplácito, claro, de Dilma.

  9. bebeto_maya disse:

    “Pessoal e Nassif, vamos pensar da seguinte forma: se a “imprensa” se propõem a fazer matérias como esta, como a do “grampo” no presidente do Supremo, omitir escândalos como Austom e outros, o que virá pela frente até as eleições de 2010? A compustura, ética, moral, consideração, pudor não existirão para o PIG.”

    Assim como não existem para a esquerda, assim como não existe para o PT. Tudo que se fala na imprensa é pouco…Se abrissem a caixa de pandora, o PC do B e demais gramscistas não ganhariam nem pra representante de bairro.

  10. Julio Teixeira disse:

    Mas é mesmo verdade…
    Na hora certa a coisa vai pegar.
    Não se asalta cofres, comando matança de inocentes impunemente.
    A dona Estela não é estrela.
    É mesmo uma sombra grotesca de mulher.

  11. [...] Luis Nassif’s blog brought this to light [pt] by publishing a copy of her letter. She wrote: “Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30/03 sobre minha participação ou meu conhecimento do suposto seqüestro de Delfim Neto, a matéria publicada tinha como título de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro do Delfim”. O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de “factóide”, uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha de São Paulo. (…) “Por último, cabe deixar claro que a ficha falsa foi divulgada em vários sites de extrema direita, como: a) Ternuma (Terrorismo Nunca Mais), blog de apoio ao Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, ficha falsa postada em 30 de novembro de 2008; b) Coturno Noturno – Blog do Coronel: ficha falsa postada em 27 de março de 2009 (a ficha está “atualizada” apresentando uma foto atual) (http://coturnonoturno.blogspot.com/2009/04/desta-parte-dilma-lembra-tudo.html). A partir daí, outros sites na internet também divulgaram a ficha: a) http://fórum.hardmob.com.Br/showthread.php; b) http:/www.viomundo.com.Br/blog/dilma-terrorista/ “Despite my denials during a phone interview on 30 March about my participation in, or my knowledge of, the supposed kidnapping of Delfim Netto, the published article had “Dilma’s group planned Delfim’s kidnapping” as the headline on the front page. The title did not take into account my strong denials and had “factoid” features, although the event, which would have taken place 40 years ago, simply did not take place. Such reporting does not seem to be up to Folha de São Paulo’s standards. (…) “Additionally, it is worth clarifying that the fake file has been published by many extreme right-wing websites, such as : a) Ternuma (Terrorismo Nunca Mais), a blog that supports Col. Carlos Alberto Brilhante Ustra – the fake file was posted on the 30 November 2008; b) Coturno Noturno o Blog do Coronel – the fake file was posted on the 27 March 2009 (the file has been “updated” to feature a recent picture). Since then, other sites have also distributed the file. [...]

  12. [...] Luis Nassif’s blog brought this to light [pt] by publishing a copy of her letter. She wrote: [...]

  13. Pinheiro disse:

    è realmente lamentavel que um jornal de grande circulação tenha se envolvido em trapaças feitas por seus jornalistas, pois acredito que todos aqueles que publicam qualquer materia, tem obrigação de dizer a verda e tão somente a verdade, portanto, toda a calunia tem que ser apurada, e afinal de contas, esta parece ser uma das maiores até o momento., não tão grande, quanto ao mensalão, e tantos outros desvio de dinheiro publico, tambem, não sei porque a Exmª srª Ministra, não poe a publico a sua verdadeira identidade, justificando o motivo pelo qual levaram a fazer cirurgias e trocar de nome, tudo isto aconteceu por não gostar de seu verdadeira nome que até é muito interessante (ESTELA).

  14. Marcos disse:

    Todo mundo sabe como é a FOLHA, a GLOBO e seus afiliados PIG. Se a jornalista não concordasse com uma ordem vinda de cima, seria demitida ou coisa pior. Trabalho na imprensa e nem sempre o que o jornalista escreve é o que se publica. Eu quero ver a Folha explicar essa, certamente colocarão a jornalista – se é que não foi conivente – como boi de piranha.
    Ainda, nem comento sobre a falsa entrevista de Lula concedida pelo Chupim – Metropolitana FM SP – a diversos países. A falta de ética não tem limites.

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