O Brasil e os sons da infância
Coluna Econômica – 19/04/21
No meio da entrevista para falar do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), em Belo Horizonte, a Ministra Dilma Roussef embatucou. Começou a falar de Minas, do sotaque de Minas, dos sons da sua infância e balançou.
A Ministra era leitora das crônicas que eu escrevia aos domingos na Folha, especialmente as que falavam de Minas. Em um encontro recente, presenteei-a com “A Casa da Minha Infância”, lançado no final do ano passado com algumas das crônicas familiares. Antes de começar a entrevista, ela começou a folhear o livro, procurando coisas por lá, uns cinco minutos folheando, até eu perceber o que ela procurava: Minas e trechos que pudessem lembrar a casa da sua infância.
Disse-lhe, então, que, desde que nossa casa foi vendida em Poços e me mudei da cidade, nunca mais substitui a casa da minha infância. Era como se tivesse sido inquilino de todas as outras. Ela ficou em silêncio, balançou a cabeça concordando e admitiu que, com ela ocorreu o mesmo. Até hoje está atrás da casa da sua infância.
***
Lembro-me quando escrevi a crônica “Ritual da passagem”, imaginando a cena da morte, com as diversas gerações reunidas no mesmo ambiente e o ponto nobre da mesa ocupado por meu pai e meu avô, do Delfim me enviar um email emocionado. Me surpreendi com a manifestação de um homem que viu de tudo na vida, um cético militante em relação à natureza humana.
***
Para nós, esses reencontros e afastamentos permanentes com a infância dói. Imagino nas figuras públicas, sabendo que, depois de feita a opção, terão apenas alguns minutos por semana, nos intervalos do dia-a-dia massacrante, para celebrarem, sozinhos, o acervo de afetos da infância. Imagino o Serra lembrando da banca do seu pai no mercado, o Lula lembrando do regaço materno para compensar a miséria e a fome, o Aécio lembrando o avô contando histórias da vida, o Ciro rememorando a saga familiar.
***
Por trás dessas rememorações, há o elo, o vínculo com as gerações anteriores, com os princípios que ajudaram a construir e a passar para frente, com esse acervo de emoções, valores e histórias. É assim que se formam povos e se constroem nações.
No fundo, o trabalho diário para melhorar o país, é como uma homenagem, uma prestação de contas, um compromisso com os que vieram antes. É como se disséssemos a eles: pegamos o bastão e não vamos deixar a peteca cair. Fiquem sossegados que trataremos de entregar um país melhor aos seus netos e bisnetos.
***
Nessas últimas décadas, os valores nacionais foram jogados de lado. Uma falsa noção de internacionalismo julgava a última moda a crítica impiedosa ao Brasil, ao modo de ser brasileiro.
Com o fim do ciclo financeiro, ocorre uma redescoberta dos valores nacionais, volta o “orgulho de ser brasileiro”. É esse sentimento, são os sons da infância, são as recordações das cantigas infantis, a lembrança dos pitos paternos, dos conselhos maternos que vão construindo a escala de valores que permitirá ao país, a cada geração, tocar o bonde e sonhar com avanços, com progresso, com redução das desigualdades sociais.
Que o dia de Tiradentes ajude nessas reflexões.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Coluna Econômica, Crônica Tags:

Nassif
Você me levou às lágrimas.
Texto emocionante, lindo, singelo.
Obrigado
Virgem Santa! Ingurgitei-me de nostalgia ao lembrar-me do casarão de minha infância, do som do vento nas folhas das mangueiras, de minha mãe cantando uma antiga e linda canção. A saudade e a emoção me provocaram um agradável engasgo. Senti o coração acelerar. Puxa vida! Será que tais lembranças nostálgicas, são típicas de mineiros?
Nassif, cadê meus comentários?
Prezado Nassif,
Obrigado pelo artigo.
O texto me faz buscar reminiscências e provoca reflexões intensas.
O que mantem o homem vivo.
Fraterno abraço.
Nassif
Depois de ver o video com a Dilma se emocionando, e fica claro que foi uma reação espontânea mesmo, algo totalmente inesperado, e como ela lidou com a emoção mostrando que é gente de carne e osso e emoção, fico aqui pensando que a Dilma vai dar um nó no Serra (sendo ele o candidato, claro) durante a campanha. Se ela souber levar a coisa, o Serra está frito.
Belo texto Nassif, como sempre você foi no ponto.
Nassif,
teu texto mais que lindo, é oportuno para a democracia brasileira porque resgata a imagem humana do político que tem sido a nossa Geni em cujas costas extravasamos nossas frustações.
Um abraço
Nassif,
Julguei que vocë estava velho. Me enganei. Este post foi um primor de maturidade, não de velhice. Lembrar do que vocë lembrou nos rejuvenesce. Escrever como vocë escreveu, nos alegra.
Desculpem-me a mesquinharia em momento tão inoportuno.
Mas por que será que esse sentimento tão bonito de saudade da terra..
Não foi traduzido numa atenção um pouco maior…
Através de investimentos do PAC…?
Não falo que por ser mineira ela deva beneficiar o Estado.
Falo no sentido do tratamento dispensado ser tão desigual.
Em relação a outras regiões..
Não há um metro de ferrovia em construção por aqui (um absurdo)
No metrô são 80 milhões (uma merreca revoltante)
Em Confins serão 500 vagas de estacionamento (uma palhaçada)
Ou seja…
Agora que a campanha está nas ruas as raizes mineiras são lembradas?
Muito bacana isso. Aliás…esse filme eu já vi várias vezes…VÁRIAS.
Precisamos ganhar as eleiçoes…? Então vamos lá em Minas.
Melhor ainda se com um Vice das “montanhas”…o engodo é completo
Ganhamos as eleições…? Agora vamos virar as costas.
Estão duvidando do que eu digo:
Volto a escrever aqui os números do PAC:
Rio de Janeiro: 160 bilhões (sem contar o Pan)
São Paulo: 130 bilhões
(sem contar as facilidades do refinanciamento da dívda)
Minas: 30 bi (concentrados nas rodovias – o que seria uma obrigação)
Então alguém me responda por gentileza: Por que isso…?
Eliminação da concorrência por sufocamento…?
E digo mais.
Os petistas paulistas são tão ou mais gulosos e bairristas..
Que os tucanos.
Isso lembra uma frase do Antoine de Saint-Exupéry, que diz algo como se nosso lugar de origem é nossa infância, “On est de son enfance comme on est d’un pays”.
É Luiz ….
Quem tem sentimentos assim tem raizes, tem caráter.
Quanta saudade dos meus sons da minha infância, que todas as vezes me faz charar.
Mas a vida me tirou meu pai, me tirou minha infância, me tirou meus sonhos.
sucesso Luiz , sucesso Dilma, você não é de ferro.
Sinto muita saudade de um tempo em que se valorizava muito o ser. Infelizmente o que vemos hoje é o excesso de importância do ter.
Lendo o seu escrito lembro da minha vó Ana Paula. Ela foi uma figura que “parecia que nunca ia morrer” (Ouvi isso de um cantor nordestino muito sensível que a conheceu). Na verdade sua marca maior foi me ensinar que a honestidade deveria guiar todas as nossas ações. Esse valor carrego e defendo até hoje. Foi uma mulher valente, vaidosa, cujo sorriso estava sempre disponível para as pessoas. Seus valores me forjaram uma pessoa incapaz de enganar. Com todos os defeitos, são os valores ensinados por ela que me redimem.
Bendito é o fruto, destas Minas Gerais . . . . . .
Bons tempos em que eu acreditava em lágrima de político.
Não acredito mais, especialmente em político que teve sua formação moral de um lado que justificava terrorismo e guerrilha. E que até hoje não rejeitou enfaticamente esse passado.
Teria sido Dilma uma terro-branda???
Nassif, como é que você adivinhou que a gente estava precisando ver que os políticos também são humanos? Até o Serra. Mas para não perder a viagem eu digo que não consigo imaginar o Serra se emocionando e chorando numa coletiva. PS: Para o seguidor do Capitão Bolsonaro que perguntou se a Dilma chorava quando seu grupo assaltava e matava, eu respondo que não, apenas quando era barabaramente torturada
Seu Nassif,
Você mata a gente de emoção