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06/04/2009 - 14:38

Fonte acusa Folha de manipulação

“Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada”

Por Antonio Roberto Espinosa

Á coluna painel do leitor

Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto”, e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal

Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no “Painel do Leitor” (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar.

Esclareço preliminarmente que:

1) Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em “investigações” telefônicas;

2) Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;

3) Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto. Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditato rial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).

Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas). A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:

1) A VAR-Palmares não era o “grupo da Dilma”, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;

2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;

3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que “informação política” é algo completamente distinto de “informação factual”. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como “vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?”. O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante na cional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;

4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou “doutorando em Relações Internacionais”, mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que “a ação chegou a ter data e local definidos”. Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;

5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só par ticiparia do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;

6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.

Osasco, 5 de abril de 2009

Antonio Roberto Espinosa

Jornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Mídia, Sem categoria Tags: , ,

156 comentários para “Fonte acusa Folha de manipulação”

  1. Fr@ncisco disse:

    Deu para captar:.

    A dita foi branda

    E a Dilma dura.

    O Serra só brando

    Na dita Folha

    De cara dura.

    Esse esquema subserrâneo de informacão, operado por ex stalinistas, quercistas e pefelistas em atividade, é tão ou mais manjado que manifestacão do Giilmar Dantas,

  2. Jucimara Reis disse:

    Outro ponto central da matéria é a contradição entre ela e a fonte. Ora, se a chamada do jornal é propositalmente ambígua, serve para mostar que a ministra mente.

    Mas a ministra conduziu-se bem e, no que me toca, subiu o meu conceito.
    É isso aí: a história dela merece ser mais conhecida por todos. Isso a fará mais ela mesma para o público, uma mulher digna de admiração, bastante consistente e inteligente. Deveria dar entrevistas na TV a jornalistas decentes contando a sua história com transparência.

  3. Edson disse:

    JURA . . . . .

    Lógico que DITABRANDA nao é ao acaso . . . . entre todos os motivos impera o de trazer à baila a época em que DILMA “aparece como guerrilheira” . . . . .

  4. Mauricio Machado disse:

    Como é que faz com esse povo (os jornalistas) que se permitem manipular nesse grau é um ponto. O outro ponto é que está na cara que o PIG já começa a detonar a Dilma…Mas tem um detalhe: isso é feito para uma pequena parcela da opinião pública, já alinhada como Lacerdismo…em suma, como batalha naval = ÁGUA! Os Frias tentam se redimir e ao mesmo tempo atiram a esmo….

  5. Nilson Fernandes disse:

    O Arquiteto e astuto da Ditadura foi Golberi do Couto e Silva. Quando ele propos a Anistia ampla geral e irrestrita foi justamente para não levar ao banco dos réus o Otavio Frias que cedia suas c-14 para a “ditabranda” do Otavinho.

  6. Edson disse:

    Dilma, a Maria Bonita que veio pra botar ordem na casa . . . . . . Serra, bem, Serra é apenas o Serra . . . . . .

  7. Soy Contra, ahora más que nunca radical disse:

    A Pholla cospe para cima a cada dia que passa, no desespero de viabilizar a volta dos demotucanos para seus paus-de-araras-de-choque-de-gestão a nivel nacional.

    É a desbandeirada geral depois que Lula ganhou um espaço político que poucos no mundo possuem, incensado por Obama e a imprensa mundial.

    Na reunião do G20 o Lula bombou na imprensa mundial ao lado da Rainha e com o Obama levantando a bola pra ele matar no peito na pequena área.

    Aí, logo depois aparece essa materinhinhazinha com cara de caca de foca trainee, provavelmente pautada por quem de direito de baraço e cutelo.

    Quem estará financiando a “descredibilização” da pholla, da vexa, do Ão,Ão,Ão?

    Em termos mercadológicos isso é suicídio puro. Eles não escrevem para que tem QI de ostra.
    Os ulstras e agripinos da vida, da tortura e da morte não representam nem 1% da população brasileira. E eles mal sabem ler…

    Quem financia esta terrorista imprensa-bomba midiática?
    Será o Benedito? O Al Qaeda? A CIA? O Chávez? O Cartel de Medellin?

    Ou serão as migalhas que estão pingando nas redações, provenientes das eternas, brandas e malemolentes obras de São Paulo como a dragagem do Tietê, Rodoanel, Metrô, CPTM, todas elas com problemas jurídicos e escândalos sufocados.

    Será que os trocentos mil funcionários do estado estão ganhando assinaturas grátis de revistas, pasquins e papel de embrulhar peixe e cocô de gato?

    Será porisso que depufedes e incitatus da situação e oposição decidiram não abrir a CPI da camargo pra não espalhar m…. no ventilador?

    Ou de acordo com a teoria da conspiração do nossos jurássicos garrastazunianos, o maquiavélico ultraesquerdismo petista, aliado aos cumunistas tucanodemos vem conspirando contra a volta da Revolução Redentora da Família com Deus, pela Liberdade, Propriedade, Tradição e Família?

    Ou porque, como disse Lampedusa: é preciso mudar tudo para que continue a mesma coisa?

  8. Juliano Guilherme disse:

    Era tão certo como a chuva cai para baixo que a intenção da Folha ao falar em brandura da dita, era pintar a Dilma como uma radical comunista terrorista sanguinária que só combateu os militares porque ela era isso tudo. Já que os militares não eram tão maus assim, pois torturaram e mataram “tão pouquinho”. Isso tem tudo a ver com a papaguaida anticomunista do Alberto Goldman. Você tem toda razão, Nassif, os caras são primários.

  9. Cascudo disse:

    Que vexame, dona Folha…

  10. Ricardo disse:

    Do Blog do Mello: Folha reconhece erro em reporcagem sobre Dilma
    “PRIMEIRA PÁGINA (5.ABR) O sobrenome de Antonio Roberto Espinosa, ex-colega da hoje ministra Dilma Rousseff na guerrilha, foi grafado incorretamente como “Spinoza” no texto “Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto”.
    Da contestaçao da reportagem que o Espinosa mandou para o painel do leitor, nem uma linha.
    Amigos, vamos ser sinceros: quem ainda assina a Falha, cancele logo , vamos fazer este pedante e mal educado “boss” sentir no bolso.

    Campanha contra a manipulaçao da informaçao

  11. Spok da Silva disse:

    O governo Lula se recusou a mandar a ditadura para o banco dos réus, inclusive designando o AGU para defender o torturador Cel. Ustra. Pois a ditadura vai colocar Dilma, vai julgar e condenar. Quem não faz gol, leva. Só nos resta esperar o resultado do júri popular em 2010.

  12. Arlindo Papal disse:

    Infelizmente, essa pratica da impressa não é única e nem tão pouco exclusiva da FSP. Sempre foi assim, porém hoje em dia, a pratica aumenta.
    O estilo atual do jornalismo é “vamos fazer uma versão bombastica, se colar, colou. Mas se alguem se incomodar, melhor ainda, por repercute a nossa matéria”
    É ou não é LN e ARE?

  13. wilson yoshio disse:

    Da série : não confunda

    Não confunda filosofia Ética, ateu , de Spinoza com entrevista cética, a toa, espinhosa .

    não confunda excomunhão dos sacramentos com confissão de excrementos.

  14. Daniela disse:

    Pois eu acho é uma pena que a Dilma não tenha sequestrado ela mesma o Delfim!

    Brincadeiras a parte, esse tiro da FSP vai sair pela culatra. Dilma paga de sonsa perante a opinião pública, sem contar que ainda por cima é mulher e velha (pra quem não sabe, existe MUITO sexismo e MUITO adolescentismo no Brasil). Se de repente vira guerrilheira sequestradora, estoura a boca do balão nas urnas.

    Um grande personagem, é isso encanta nossa nação noveleira.

  15. Denise disse:

    É revoltante como os veículos manipulam as informações!!!…
    Alguns jornalista estão esquecendo o que siginifica a palavra ÉTICA!!!
    Que vexamE….

  16. Eliezer disse:

    Pessoal…só vou falar uma coisa…… EU NÃO FALO MAIS NADA…quem tem poder é a mídia!! infelismente fazem o que querem e derrubam quem querem…. Não saão todas, felizmente..mas, EU NÃO FALO MAIS NADA

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