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18/03/2009 - 11:00

O Sistema Brasileiro de Inteligência e o jogo político

Desenvolvendo melhor o post anterior.

Quando FHC saiu do governo, escrevi o artigo “Uma obra de arte política”, descrevendo a habilidade da sua estratégia de governabilidade – e o desperdício de não ter sido utilizada para um plano de desenvolvimento amplo.

A estratégia consistia em cooptar chefes regionais com migalhas do poder, mantendo incólumes os pilares centrais do governo.

Mas esta era apenas a perna conhecida do modelo criado por FHC.

A peça central, obscura, era o controle estrito sobre o Ministério da Fazenda e toda a estrutura debaixo dele – Banco Central, CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Secretaria da Receita Federal (SRF).

Não se tratava apenas de manter o controle técnico sobre a economia. Era nesses ambientes que se fortalecia a perna oculta do sistema de poder que estava sendo montado: a criação de um modelo sistêmico de aliança com o crime organizado (de colarinho branco), que se expandia na indústria de offshores, de bancos de investimentos, de gestores de recursos.

A maneira como Gustavo Franco autorizou as operações do Banco Araucária, os leilões da dívida pública (sempre com dúvidas sobre sua transparência), o caso emblemático do Banco Santos – desde 1994, um banco quebrado que, mesmo assim, enviava centenas de milhões de dólares para o exterior, com autorização do Banco Central – e, especialmente, o caso Opportunity, demonstravam uma ampla cumplicidade entre autoridades e transgressores. A estrutura de fiscalização do Estado ficou totalmente imobilizada pelas ordens que emanavam do centro do comando financeiro do governo.

O controle do Estado

Em entrevista que concedeu ao Terra Magazine, FHC definiu a Satiagraha como uma luta pelo controle do Estado. Estava completamente certo.

Quando o PT assumiu o poder, seguiu ao pé da letra a receita de FHC – tanto nos acordos fisiológicos inevitáveis, quanto na tentativa de cooptação desses grupos barras-pesadas.

Esse trabalho foi conduzido por dois estrategistas políticos de Lula, José Dirceu e Antonio Palocci. Palocci atuava especialmente através do Conselhinho (o Conselho que julga os recursos dos agentes financeiros) e da CVM – nas gestões Marcelo Trindade e Cantidiano. Livra-se o Banco Pactual de autuações severas por crimes fiscais, livra-se Dantas por crimes de lavagem de dinheiro e de desobediência às regras cambiais brasileiras, permite-se que o Banco Santos se torne o maior repassador de recursos do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) em uma leniência sistemática.

O Opportunity passa a financiar Delúbio Soares, através da Telemig Celular e Amazonia Celular. Palocci tornou-se próximo de André Esteves, do Banco Pactual. E o BC mantinha olhos fechados para os crimes de lavagem de dinheiro.

O Sistema Brasileiro de Inteligência

Esse esquema começa a esboroar não apenas com o chamado escândalo do “mensalão”, mas pela iniciativa histórica do Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, de montar o Sistema Brasileiro de Inteligência, de forma paralela com o que ocorre em outros países, quando os Estados nacionais se organizam para enfrentar a internacionalização do crime organizado.

Nesse momento, começa a ruir o modelo de governabilidade baseado na aliança com o crime organizado. Com o Sisbin, o funcionário do BC não responde mais à sua diretoria mas a uma estrutura superior e interdepartamental. O mesmo ocorre com outros funcionários da área econômica. O controle imobilizador acaba.

Sentindo que o processo era inevitável, e escaldado pelo “mensalão”, Lula dá ampla liberdade para o aparato do Estado se organizar.

Pela primeira vez, o Estado começa a cumprir suas funções e os funcionários públicos a se libertar das amarras impostas por esse pacto espúrio. Aumenta a colaboração com as forças internacionais anti-crime, surgem as grandes operações combinadas de combate ao crime organizado. Fiscais da Receita passam a conversar com a Polícia Federal, a Coaf troca informações com o Ministério Público, a ABIN é acionada. E dessa integração começa a nascer a esperança de uma mudança estrutural não apenas no combate ao crime organizado, como na redemocratização do Estado e no aprimoramento do jogo político.

Era inevitável o choque com a estrutura de poder montada. O ovo da serpente já estava incubado, eram muito profundas as ligações entre o crime organizado, estruturas de mídia, instâncias do Judiciário, Congresso Nacional, Executivo. O país havia se criminalizado.

Pior, criminalizou-se com status. Chefes de quadrilha passam a ser tratados como brilhantes executivos, aproximam-se de grupos de mídia, ajudam na capitalização de alguns deles.

Um dos fatores que leva à inibição do crime é a condenação social do criminoso, a não aceitação de sua presença nos círculos sociais. Por aqui, Daniel Dantas continuou a ser aceito por praticamente todas as lideranças políticas. O ato comprovado de tentar subornar um delegado não mereceu a condenação explícita de ninguém. Pelo contrário, Dantas é elogiado pelo mentor máximo da oposição, FHC, e defendido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal.

É essa lógica vergonhosa, para nós brasileiros, que explica toda a ofensiva para desmontar o Sistema Brasileiro de Inteligência.

Mudanças irreversíveis

A questão é que o mundo mudou. O crime organizado de colarinho branco tornou-se ameaça mundial, combatido por todos os países civilizados. A Internet rompeu com a barreira da informação. Pode custar mais ou menos, mas será impossível ao país não se curvar à grande onda anti-crime que se seguirá à queda da economia global.

Algumas vezes critiquei a superficialidade de FHC, sua incapacidade de perceber os ventos, os grandes fatores de transformação que permitissem lançar o país rumo ao desenvolvimento. Bobagem minha! Seu foco era outro.

É por isso quem para ele, Protógenes é amalucado e Dantas é brilhante.

A história ainda cobrará caro de FHC por ter institucionalizado o crime organizado no centro do jogo político brasileiro.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Política Tags: , , ,

314 comentários para “O Sistema Brasileiro de Inteligência e o jogo político”

  1. Marco Antonio disse:

    Alguém que tem 300 comentários em um blog cuja regra é a informação transparente, técnica sem ser prolixa e o respeito às opiniões diversas ( e olhe que eu quase não tive tempo para escrever meu ponto de vista, rsrs), mostra o poder que tem essa nova mídia e sua chance de escrever um novo futuro. Do qual, nós leitores, seremos cúmplices ( no bom sentido). Que a proliferação de informações e cultura_ por seu lado_ e de partipantes_ por nosso_ seja sempre uma constante e demonstre que a consequência do trabalho feito com brilhantismo, dedicação, mas principalmente, com honestidade e respeito é esse sucesso e esse nível que você alcançou.

  2. Maximiliano Marques disse:

    Nassif,

    Ou seja: Lula fez os mesmos acordos políticos e econômicos de FH. Com a diferença de que usou isso para realizar a maior (ou única) distribuição de renda que este país já teve, como diz Marilena Chauí. E isso está transformando o país, criando uma nova classe média, um movimento que, se não for interrompido pela vitória de Serra em 2010, acabará cobrando a reforma da democracia brasileira. Talvez a eleição presidencial de 2010 seja decisiva quanto foi os acontecimentos anteriores ao golpe de 1964. Naquela época, as forças do atraso venceram.

    Essas mesmas forças retrógradas estão se movimentando para tomar o poder novamente.

  3. Venicio Bueno disse:

    Parabéns Nassif! Aquela desvalorização no câmbio assim que ele ganhou a reeleição teria consolidado esta coluna oculta ? FHC é de fato um maestro, prova disso é que o Governo do Estado de São Paulo lhe entrega 100 milhões para “administrar” a OSESP-Orquestra Sinfônica.

  4. José Augusto Carvalho Costa disse:

    A história ainda cobrará caro de FHC por ter institucionalizado o crime organizado no centro do jogo político brasileiro, e esse pinóquio ainda vem a público fazer questiomentos.É por isso que para ele, Protógenes é amalucado e Dantas é brilhante e ainda quer calar o Protógenes. Quem poderá fazer alguma coisa pelo país?????

  5. wagner de almeida disse:

    Prezado Nassif,

    Supondo que seu racicionio esteja correto e que o governo FHC institucionalizou essa relação espúria com o crime organizado, isso certamente teve uma finalidade, que foi financiar a permanência do PSDB/DEM no poder. Ainda segundo seu artigo, no início o governo Lula usuou o mesmo sistema para se financiar, até estourar o mensalão.
    A pergunta que fica é: já que agora essas práticas estão coibidas, como esta o PT financiando a sua permanencia no poder?
    Saudações
    Wagner

    O sistema convencional é o de contribuições de empresas com interesses na área pública.

  6. Rubens possati disse:

    Gostaría de ver otema aprofundado, já como subsidiu para a história.

  7. Fábio Barros disse:

    Nassif,

    Texto brilhante!

    Só acho que faltou falar mais sobre a aliança ACM(Pefêlândia)-Tucanos-Globo-Abril que deu inicio a todo esse esquemão na era pré-FHC.

  8. José disse:

    Parabéns pela coragem. Precisamos de mais jornalistas com essa firbra. Por que não encetar uma campanha contra a corrupção e a impunidade. O poder que tem a Imprensa num regime democrático permite que se tome essa iniciativa. Não a corrupção, chega de impunidade.

  9. Lucelaine disse:

    Acho que todo brasileiro esprera que essa crise termine com o começo de um sistema mais justo, que se imponha sobre essa vergonha nacional.
    Vou recomendar o texto a todos que eu puder.

  10. Edu disse:

    No link acima a verdadeira história de FHC , dívida externa e Protógenes .

  11. joaquim disse:

    Magnífico é o texto, é a síntese da síntese da trajetória de dois Presidentes.

    Mas tenho um pulga atrás da orelha e essa pulga fica me indagando: será que com as leis e regras que temos daría para ser diferente? Se afirmativo o quão seria essa diferença? Daria para fazer o que ambos fizeram de bom para a economia e para o povo?

  12. Boas e sempre atuais informações. Créditos redobrados diretos ao leitor. O tema da articulação do estado com o crime organizado dos grandes bandidos é recorrente nas sociedades humanas. O diferencial é que seja aplaudido pubicamente, tipo ame e dê vexame, quando o comum, usual mesmo, era as pessoas terem o que minha mãe chama ainda hoje, aos 84 anos, de vergonha na cara. Artigo de luxo, tanto o teu, como a vergonha.

  13. Lurdes disse:

    Realmente é um texto com uma análise profunda! Magnífico!

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