A culpa dos economistas
Viajei hoje de manhã e não tive tempo de colocar esse artigo que saiu no Valor, do Dani Rodrik. Mais uma crítica contundente contra os cabeças de planilha.
Culpe os economistas, não a economia
Dani Rodrik
13/03/2009
À medida que o mundo ruma atabalhoadamente para a beira de um precipício, críticos do ofício da economia vêm levantando questionamentos sobre a sua cumplicidade na crise atual. E com razão: os economistas têm muito pelo que responder.
Foram os economistas os que legitimaram e popularizaram a ideia de que um setor financeiro sem amarras representava um benefício para a sociedade. Eles falavam quase de maneira unânime quando se tratava dos “perigos da regulamentação excessiva do governo”. Seu conhecimento técnico – ou o que se assemelhava a isso à época – lhes conferiu uma posição privilegiada de formadores de opinião, bem como acesso aos corredores do poder.
Muito poucos dentre eles (exceções notáveis, como Nouriel Roubini e Robert Shiller) soaram os sinos de alarme sobre a crise que se anunciava. Pior ainda, talvez, a profissão fracassou em oferecer orientação proveitosa para desviar o mundo da sua rota de desordem atual. A respeito do estímulo fiscal keynesiano, as opiniões dos economistas variaram de “absolutamente essencial” a “ineficaz e prejudicial”.
A respeito da re-regulamentação das finanças, há um grande número de boas ideias, mas pouca convergência. Do quase consenso em torno das virtudes do modelo centrado em finanças do mundo, o ofício da economia passou para uma quase total ausência de consenso sobre o que deve ser feito.
Assim sendo, será que a economia está precisando de uma grande sacudida? Devemos deitar fogo nas nossas cartilhas atuais e reescrevê-las do zero?
Na verdade, não. Sem recorrer à caixa de ferramentas do economista, sequer poderemos começar a entender a crise atual.
Por que, por exemplo, a decisão da China, de acumular divisas estrangeiras, levou uma instituição de crédito imobiliário em Ohio a assumir riscos excessivos? Se a sua resposta não usar elementos de economia comportamental, teoria da agência, economia da informação e economia internacional, entre outros, provavelmente continuará seriamente incompleta.
A falta não reside no campo da economia, mas no campo dos economistas. O problema é que os economistas (e os que lhes dão ouvidos) ficaram excessivamente confiantes nos seus modelos preferidos do momento: os mercados são eficientes, a inovação financeira transfere risco aos melhor capacitados para arcá-lo, a auto-regulamentação funciona melhor e a intervenção do governo é ineficaz e prejudicial.
Eles esqueceram que havia muitos outros modelos que levavam a direções radicalmente diferentes. O orgulho arrogante gera pontos cegos. Se algo necessita de reparo, é a sociologia da profissão. As cartilhas – pelo menos as usadas nos cursos avançados – são ótimas.
Não-economistas tendem a enxergar a economia como uma disciplina que venera mercados e um conceito estreito de eficiência (de alocação). Se o único curso de economia que você frequenta é o típico giro introdutório, ou se você for um jornalista pedindo que um jornalista dê uma rápida opinião sobre um tema de política pública, é o que realmente vai encontrar. Mas pegue mais alguns cursos de economia, ou consuma mais tempo em salas de seminários avançados, e receberá um quadro diferente.
Economistas do trabalho se concentram não só na forma como sindicatos podem distorcer mercados, mas também, na forma como, sob certas condições, eles podem melhorar a produtividade. Economistas do comércio estudam as implicações da globalização sobre a desigualdade dentro de e através de países. Os teóricos das finanças escreveram abundantemente sobre as consequências do fracasso da hipótese de “mercados eficientes”. Macroeconomistas da economia aberta examinam as instabilidades das finanças internacionais. O treinamento avançado em economia requer aprendizagem detalhada das falhas de mercado, e sobre o sem-número de formas nas quais os governos podem ajudar os mercados a funcionarem melhor.
A macroeconomia pode ser o único campo aplicado na disciplina de economia no qual mais treinamento aumenta a distância entre o especialista e o mundo real, devido à sua dependência de modelos altamente irreais, que sacrificam a relevância em favor do rigor técnico. Lamentavelmente, em vista das necessidades atuais, os macroeconomistas fizeram pouco progresso em planos de ação desde que John Maynard Keynes explicou como as economias podem ficar atoladas no desemprego devido à demanda agregada insuficiente. Alguns, como Brad DeLong e Paul Krugman, dirão que o campo já regrediu.
A ciência econômica é na verdade um conjunto de ferramentas com múltiplos modelos – cada qual uma apresentação diferente e estilizada de algum aspecto da realidade. A habilidade de um economista depende da sua capacidade de escolher cuidadosamente o modelo apropriado para a situação.
A fertilidade dos economistas não se refletiu no debate público porque os economistas tomaram demasiada liberdade. Em vez de apresentar menus de opções e relacionar as vantagens e desvantagens relevantes – a razão de ser da Economia – muitas vezes os economistas preferiram transmitir suas próprias preferências políticas e sociais. Em vez de serem analistas, eles têm sido ideólogos, preferindo um conjunto de ordenamentos sociais em detrimento de outros.
Além disso, os economistas têm hesitado em compartilhar as suas dúvidas com o público, temendo “fortalecer os bárbaros”. Nenhum economista pode estar completamente seguro de que seu modelo predileto esteja correto. Mas quando ele e outros o defendem a ponto de excluir as alternativas, acabam transmitindo um grau exagerado de confiança sobre o tipo de rota de ação exigido.
Paradoxalmente, portanto, a desordem reinante na profissão representa, talvez, um reflexo melhor do verdadeiro valor agregado da profissão face ao seu enganoso consenso anterior. A economia pode, na melhor das hipóteses, tornar claras as opções para os formuladores de políticas; ela não pode fazer essas escolhas para eles.
Quando os economistas discordam, o mundo fica exposto a legítimas diferenças de opinião sobre como a economia funciona. É no momento em que eles concordam tanto que o público deve tomar cuidado.
Dani Rodrik é professor de economia política na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade Harvard e foi o primeiro a receber o Prêmio Albert O. Hirschman do Conselho de Pesquisa de Ciências Sociais © Project Syndicate/Europe´s World, 2009. www.project-syndicate.org
Autor: luisnassif - Categoria(s): Crise Tags: economistas, mercado, neoliberalismo

Da minha parte e modéstia, continuo a achar que não existe “ciencia” econômica. Os economistas apesar da arrogância nunca apresentaram uma idéia razoável da melhor evolução dos problemas econômicos financeiros da “sociedade humana” . Distante disto, sempre prevlegiaram a economia predatória. Correm simplesmente atrás do lucro, dos outros, de preferencia poucos. Sempre lutaram por menores salário, pelo menos para a grande maioria, preços de merdadorias mais altas, etc. Tudo puxado para a riquesa e principalmente para os ricos. Raciocínio direto, baixo, vassalo. Rarissimas as exceções.
Quem paga mais imposto: a comida do pobre. O salário é taxado de maneira incrível e cruel. Qual o resultado de um real a mais no salário mínimo? O tratamento é: o custo de um real vezes 40 milhões de trabalhadores vezes 13 meses vezes, sei lá, 2 anos, ou seja um ” prejuizo” para a economia do país de 1 bi e 40 milhões, com diz de boca cheia o Sademberg.
Vejamos um caso concreto: Petrobras, que nós amamos. O preço da gazolina é uma aberração total. Criam um lucro artificial e perigoso para o futuro da empresa, não lhe cobram qualidade de volta, a qualidade dos combustíveis é das piores. Qual o custo para a sociedade brasleira daquilo que se transfere quase ilegalmente para a Petrobrás??
E o meio-ambiente como valor econômico: zero, para os economistas, é um verdadeiro lixo, que aliás fazem questão de não contabilizar,
Sua idolatria pelo liberalismo recente era um exemplo acima do normal para qualquer crente em Deus. Em quem eles não acreditam, é claro, por ser rival. Banco Mundial, FMI (A Companhias das Indias, dos Holandeses de 1600), etc, idéias de mando político referendada e aplaudida pelos economista dos paises sob jugo. Critica, ainda construtiva, nenhuma.
Quanto devemos aos escravos e seus descendentes? Que dívida? Nem pensar! Nunca se faz um cálculo destes! Heresia! Nem cotas nas escolas, porque todos “são iguais” perante a lei.
Qual a idéia econômica para o mundo, para a Africa, senão o cáus, destes narizes-para-cima?
Qual a receita para o problema atual? Nenhuma. Tentam salvar bancos porque só existe esta recita na sua cosinha. “Os ricos são nossa salvação” pensam.!
Economista é um metereologo que erra a previsão até do dia anterior.
Democracia e economia ( como hoje) são excludentes. Roberto Campos diz “Antes o liberalismo total, depois como conseqência, a democracia” (está em seu livro Lanterna de Popa). Asneira e imbecilidade decantada.
Premio Nobel para a matemática, e sai fora a economia.
Acho engraçado Meirelles dizer isso:” juros reais rendendo por ano menos do que a poupança fariam o dinheiro migrar do financiamento das dívidas do governo para as aplicações bancárias.” Há poucas semanas o governo emprestou dinheiro para socorrer os bancos? Porque o governo não procura metodos cientificos e não especulação dos bancos parasitários?
O Governo se tornou refém do crescimento da economia sem produzir uma agulha… Como disse Marx – As grandes descobertas de Marx e sua atualidade, pág. 161 : “O fato de colocar-se do ponto de vista da produção tem uma significação de classe. Mas numa etapa do desenvolvimento econômico em que o capitalista, começa a aparecer como parasitário com relação ao organismo social da produção, continuar a colocar-se do ponto de vista da produção (como os grandes economistas clássicos contemporânes do periodo ascendente da burguesia, em que a função do capitalista desempenhava ainda um papel positivo) torna-se perigoso para a própria burguesia.
Produz, então, uma verdadeira “rendição histórica” da pesquisa científica da economia.
A atitude subjetivista em Economia Política consiste em separar a pesquisa econômica do estudo das relações de produção e em considerar que a base das relações econômicas não está na produção, mas na troca. Essa corrente subjetivista prolonga a tradição do que Marx chamava “a economica vulgar (de Say ou de Bastiat, por exemplo”.
Portanto, a raiz da alienação do país (antes ponto de vista pesquisa de verificação) se transformou na procedência do financiamento externo, o qual se situa na especulação recorrente da verificação da produção.
O meu método de avançar na solução desse problema, da pesquisa científica, está em tornar a verificação uma realidade, em relação aos números engendrados da produção, pela formação econômica e social, considerando que o valor do PIB tem a classificação fundamental para ser um concentrado de leis naturais de tempo e espaço, e repartido na moeda racional de sua própria circulação.
[...] Por que, por exemplo…. LEIA MAIS. [...]
MAEC, seria bom avançar mais na discussão dos seus argumentos. Parece que na Comunidade foi aberto um tópico para essa discussão. A conferir. Se você ainda não faz parte se inscreva, pelo menos para debater essa questão.
Nassif,
O artigo defende o contrario do que vc diz: os modelos matematicos dos cabeças de planilha sao necessarios. Ora, ele afirma:
“Por que, por exemplo, a decisão da China, de acumular divisas estrangeiras, levou uma instituição de crédito imobiliário em Ohio a assumir riscos excessivos? Se a sua resposta não usar elementos de economia comportamental, teoria da agência, economia da informação e economia internacional, entre outros, provavelmente continuará seriamente incompleta.
….As cartilhas – pelo menos as usadas nos cursos avançados – são ótimas.”
Ivanisa,
Obrigado pela dica. Tenho lido seus textos e por lá escrito alguns que passam despercebidos. A comunidade é fantastica para escrever, mas para debater economia ainda está pegando no tranco.
Concordo com o “docontra” quando ele diz que “[e]ssa lógica do nós-contra-eles não eleva o debate científico.”
Quanto à “marolinha”, bem Ivan, o economista disse isso repetindo uma caracterização feita pelo nosso presidente! Ele está criticando essa caracterização…basicamente dizendo que “de marolinha não tem nada”.
Concordo em parte com as críticas no seguinte sentido: aqueles economistas que usam da modelagem cegamente (esses sim!!) devem receber essas críticas. Nam inha opinião, esses economistas são, em geral, pessoas com uma formação ruim e/ou incompleta. Ou têm bacharelado (não estou criticando aqueles que só tem a graduação e muito menos dizendo que só com uma pós ele poderia se gabar como um economista sério) ou são “palpiteiros” de plantão.
Agora, simplesmente classificar a modelagem como algo “inútil” é, ao meu ver, um erro muito grande. A modelagem forte e aplicada emergiu com o crescimento da tecnologia. O uso consciente desses modelos só tem a nos ajudar.
Um economista de verdade tem noção de que o modelo é um mero instrumento (assim como outros, sejam eles diversos modelos, que ele tem a disposição) usado para ajudar na tomada de decisões. Os economistas com boa formação — digo isso sem medo de dizer que tb sou um economista — têm ciencia das limitações dos modelos usados por eles. E que, portanto, sabem que os modelos não são invariantes no tempo (pela própria definição, ou quase definião, de “modelos”: que são representações da realizadade, mas nem por isso replicam com perfeição a mesma).
A discussão seria outra se o foco do ataque fosse sobre a visão de mundo (corrente de pensamento) dominante no mundo da economia.
Alguns podem confundir a crítica aos modelos com a crítica ao mainstrean neoclássico dominante na economia. Em outras palavras, muitos podem achar que as duas coisas estão juntas e por isso “bater em uma é bater na outra”. Digo que não! As críticas devem ser feitas separadamente. Os modelos são usados por todas as correntes de pensamento (ou muitas delas) e não só na economia.
Dito isso, reforço o que foi dito anteriormente: “[e]ssa lógica do nós-contra-eles não eleva o debate científico.” Reflitam sobre isso…
Abraços