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12/03/2009 - 08:00

Obama e as micro empresas

Por Arthur Selke

Obama se equivoca sobre o empreendedorismo

Uma das noções mais equivocadas das parcerias público-privadas embutidas no orçamento de Obama relaciona-se ao apoio a micro e pequenas empresas na tentativa de estimular a criação de empregos. Tentarei mostrar porque está é uma péssima idéia e também destrutiva, conduzindo a exatamente ao contrário do que se propõe.

Obama planeja criar um programa de incubadoras de negócios para ajudar potenciais empresários a iniciar um negocio próprio. O objetivo conforme consta do orçamento é:

“Criar uma rede nacional de incubadoras público-privadas: dar apoio e incentivar o empreendedorismo e estimular a criação no nível de emprego pela criação de rede nacional de incubadoras de negócios público-privadas e investir US$ 250 milhões por ano para aumentar o número e a dimensão de incubadoras em comunidades carentes afora.”

Incubadoras buscam ajudar empresários nos primeiros estágios de crescimento por meio da criação de uma infra-estrutura de recursos para a empresa que pode englobar o fornecimento de um escritório, acesso a uma rede de patrocinadores e financiamento, auxílio com requerimentos regulatórios e documentação burocrática. É digno de nota que nos EUA mais de 70% de incubadoras de negócios financiadas pelo governo ou institutos financiados por este (organizações de desenvolvimento econômico, universidades, etc.) sejam todas sociedades sem fins lucrativos enquanto somente 4% delas são com fins lucrativos.

US$ 250 milhões parecerem uma gota no oceano quando comparados aos trilhões de dólares desperdiçados com pacotes de salvamento. O valor irrisório já denota uma falta de convicção com tonalidades populistas. Entretanto, há uma questão mais fundamental: vale o esforço em se estimular o crescimento econômico ao se facilitar a criação destas incubadoras? Estas empresas criam empregos e que tipo de empregos?
Vamos então lançar mão da empiria e ver o que a pesquisa nos diz sobre micro e pequenas empresas e sua comparação com as grandes empresas.

Em contradição ao mito popular, empresas iniciantes geram praticamente nada em termos de novos empregos. Na realidade, após um ano de sua criação há uma perda líquida de empregos. Levantamento do Bureau of Labor Statistics embasa este fato (não sei se é possível publicar um anexo aqui).

Por exemplo, em 1998 havia cerca de 150.000 pessoas empregadas em empresas iniciantes no setor de lazer e hospedagem, número que declinou ano após ano até que nestas mesmas empresas deste mesmo setor em 2002 registrou-se perda líquida de 31% de empregos; setor de construção civil (com boom de construção civil e tudo), perda de 30%, recursos naturais e mineração, 24%, etc.

Em âmbito nacional, houve perda líquida global de empregos da ordem de 16% neste período. Todos os setores, exceto o setor de tecnologia de informação, apresentaram perdas. Pode-se optar por escolher QUALQUER PERÍODO. Em nenhum deles, houve criação líquida de empregos. Somente 44% dos novos negócios estão em funcionamento ao final de 4 anos. Após sete anos somente 33% das empresas que se mantiveram ativas, possuem um fluxo de caixa positivo.

Utilizando dados do último censo dos EUA, um estudo nesta área (posso publicar o estudo se for de interesse) pode-se concluir que para se criar UM EMPREENDIMENTO que empregue pelo menos UMA PESSOA EM DEZ ANOS, seriam necessários 43 empreendedores EM UMA DÉCADA. Ou seja, 43 pessoas tem que tentar montar empresas para que haja 9 EMPREGOS APÓS UMA DÉCADA.

Enquanto, em média, cada novo negócio é um desperdício de recursos, o que dizer de outras empresas que geraram e geram milhares de empregos, bilhões de dólares em receita e transformaram-se em multinacionais? Podemos pensar na Google, Dell, Microsoft, FedEx, eBay, etc. O elo em comum entre todas elas (em cultura liberal enraizada como nos EUA) é a solução de mercado de financiamento com capital de risco (venture capital), não a intervenção estatal.

Em tempos de universalização dos sistemas de saúde nos EUA, cabe uma observação com respeito aos benefícios do sistema de seguridade social das empresas com respeito à sua dimensão. O relatório da US General Accounting Office(GAO) de 2000 sobre planos de pensão demonstra que 82% de todas as empresas com menos de 25 funcionários não possuíam qualquer cobertura. Em compensação, o relatório evidencia que nas empresas com 100 empregados ou mais, 41% não possuíam qualquer tipo de cobertura. Número ainda elevado, mas menos escandaloso.

Com relação à seguro-saúde, pesquisa do Employee Benefit Research Institute de 2008 constatou que mais de 26% dos trabalhadores autônomos não tinham qualquer forma de seguro, enquanto para TODA a força de trabalho empregada 18,2% não possuíam alguma forma de cobertura. 99% de todas as empresas com mais de 200 empregados oferecem seguro-saúde.

Concluindo, as evidências empíricas revelam tão somente o quão inócuo será este pacote de estimulo na criação de empregos, e levanta sérias dúvidas quanto aos formuladores de política do novo César pós-moderno. E dá-lhe ativismo! Me engana que eu gosto.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crise Tags: , ,

16 comentários para “Obama e as micro empresas”

  1. Romanelli disse:

    hummm, analise incompleta

    empresa pequena gera ou não gera emprego ?

    vale o mesmo raciocínio pro Brasil e pros EUA ?

    Remos o mesmo índice de custo de MO ou de informalidade e encargos ?

    se for uma confecção, é o mesmo que dizermos se for uma de telemkt ou de concerto de televisão, um boteco ou uma lojinha no shopping 25 de março (de 3 a 5 funcionários …só que chineses)?

    há casos e casos …por isso que é difícil fazer política no atacado ..e tb escolher quem deverá ser o beneficiado

  2. estes dados de criação de empregos se referem somente a empresas que foram incubadas ou de uma maneira geral? admitindo-se uma maior eficiência entre as incubadas neste aspecto, o argumento central perde força.

  3. alexandre a. moreira disse:

    Vale lembrar que muito da política economica nos EUA é feita através de loobies “legais” em que as grandes empresas costumam ter uma vantagem inegável. Quanto deste “venture capital” é realmente de risco?Aparece em algum censo as relações duvidosas entrre as grandes empresas e o “aí meu deus” Estado Americano? Não tenho os dados, mas é bastante comentado que o maior empregador americano é “o estado” através das forças armadas! Bom, já que o ano é do Darwinismo, por quê não pensar que este investimento em micro e pequenas empresas se 1% deles gerar grandes empresas não terá valido a pena?Como diz o ditádo “O tempo é senhor da Razão” ou parafraseando “A César o que é de César”. Muito rápido no gatilho esta argumentação que parece ter mais cunho ideológico. A despeito de todos os números, basta um sucesso gerado a partir desta iniciatíva para botar em dúvida este raciocínio.Como dizem os “economistas” no melhor sentido da palavra…só os números náo bastam.

  4. Ana disse:

    Sinceramente, não devo ter entendido bem…

    Será que o destino dos meros mortais é serem operários das multinacionais, indefinidamente?

    Qualquer iniciativa diferente é desperdício de recursos?

    Não devo ter entendido mesmo…

    Abraços!

  5. Pequenas empresas geram muito mais empregos. Utilizam menos mecanização, por exemplo.
    O que falta ao Brasil e aos EUA é, justamente, empreendedorismo. Embora o mito reinante seja de que aqui, como lá, há muito dele.
    As pequenas empresas produzem riqueza real, mais do que as grandes. Estas, muitas vezes, acabam investindo no mercado financeiro ao invés de apostar no aumento da sua própria produção.

  6. Marc disse:

    Que artigo fraco.
    Mais um cabeça de planilha usando estatísticas para adulterar a verdade.

    O único ponto com o qual concordo é sobre o valor, 250 milhões não é nada.

    “Enquanto, em média, cada novo negócio é um desperdício de recursos, o que dizer de outras empresas que geraram e geram milhares de empregos, bilhões de dólares em receita e transformaram-se em multinacionais? Podemos pensar na Google, Dell, Microsoft, FedEx, eBay, etc. O elo em comum entre todas elas (em cultura liberal enraizada como nos EUA) é a solução de mercado de financiamento com capital de risco (venture capital), não a intervenção estatal.”

    Fala sério. A maior crise capitalista e o sujeito vem falar de venture capital para novos empreendimentos.

    Este artigo é uma provocação do Nassif

  7. Raí disse:

    O grande risco que o governo Obama corre,ao injetar esta dinheirama na mão de alguns empreendedores,que estão fora do mercado formal de crédito,para explorar suas potencialidades empresariais e criativas,é o mesmo que ocorre nos países em desenvolvimento,aonde tais incubadoras jamais mostraram capacidade de descobrir talentos economicos nos seus financiados com o dinheiro dos contribuintes.
    Sou favorável à inversão do foco do Estado nas pequenas e médias empresas já estabelecidas e com estrutura já preparadas,dando-lhes o suporte necessário para sua expansão,e acompanhando a aplicação e o uso do dinheiro público.
    Qualquer “invenção”como esta do governo americano,em colocar tais recursos nas mãos de “sonhadores”sem o compromisso de devolve-lo ao final de um tempo determinado,é apenas um paliativo,que será bancado pelos contribuintes.
    Aqui isto já foi tentado por dversas veses,e sempre que o novo empresário conseguia sair da inespressividade do seu pequeno negócio,logo contratava a “consultoria”de um analista/economista de mercado,e o que acontecia a seguir ? aquela velha história,aqui citada inúmeras veses: O conhecedor do mercado convencia ao pequeno e motivado empresário que “a crise vem aí”e este de tanto ouvir a mesma ladainha e acreditar nos conhecimentos do “doutor”diminuia os investimentos ,despedia funcionários,acabava com a propaganda,enfim aceitava que o único caminho era deitar e esperar a (morte)crise chegar !

  8. Não entendi.
    Se precisa-se de 43 empresas novas para se gerar um novo emprego, onde ficam os 43 empreendedores que abriram esta empresa. Se elas existem eles estão trabalhando nelas e não em outras, daí entendo que em 43 empresas abertas existem 44 pessoas em pregadas, pelo menos assim que entendi.
    Selke diz: “Por exemplo, em 1998 havia cerca de 150.000 pessoas empregadas em empresas iniciantes no setor de lazer e hospedagem, número que declinou ano após ano até que nestas mesmas empresas deste mesmo setor em 2002 registrou-se perda líquida de 31% de empregos; setor de construção civil (com boom de construção civil e tudo), perda de 30%, recursos naturais e mineração, 24%, etc.”
    Ele apresenta números, só que se ele compara com empresas maiores, deveria colocar a perda destas empresas no mesmo período, pois assim saberíamos qual perdeu mais empregos, faltou isso no texto.
    Confuso o texto, ou ainda preciso fazer alguma faculdade de economia quem sabe pra entender melhor o que quiz dizer o autor.
    Gerinho da Terra

  9. Maria Isabel disse:

    Esse é o problema:avaliamos e enxergamos as rotas das possibilidades dirigindo no modelo antigo. E o cooperativismo?

  10. Carlos Henrique disse:

    Mas os EUA não eram a terra das oportunidades?

  11. Luiz Carlos disse:

    A análise é boa, mas peca por considerar somente o número de empresas. Avaliando-se os recursos empregados, qual investimento gera mais empregos? Investir em incubadoras ou em empresas grandes? Os bilhões de dólares aplicados nas grandes corporações vão gerar quanto na economia? Mais ou menos se o investimento for em pequenos empreendedores?
    Gostaria muito de saber esses números, só não sei se existe estudo a respeito.

  12. Arthur Selke disse:

    Romanelli,

    Esta análise se refere apenas à economia americana. Para o Brasil, ainda não tenho um quadro definido. Estou trabalhando sobre isto para minha tese de doutoramento sem ainda saber se poderei concluí-la, pois a busca de dados e indicadores mais desagregados no Brasil, e que tenham certa fidedignidade, é uma tarefa inglória.

    O que não se pode fazer definitivamente é cair no canto da sereia de querer automaticamente “IMPORTAR”modelos como indiscriminadamente se fez e se faz por estas praias. Isto é colonização subliminar e desonestidade intelectual. Cada país possui suas idiossincrasias culturais. Coisas que servem lá, podem não servir cá e vice-versa.Não existe essa estória de você abraçar uma ideologia particular e morrer afogado com ela mesmo quando a realidade é outra. É cegueira ideológica. Posso advogar um liberalismo radical para EUA e concluir que este mesmo receituário não faz sentido aqui.

    Luiz Carlos,

    Boa colocação. Publicarei oportunamente aqui trabalho sumariado sobre geração de emprego das grandes empresas e o seu impacto sobre o PIB americano nos últimos 30 anos com comparativo entre outros países. Infelizmente, o retorno de invesitmento em pequenas empresas nos EUA é pífio.

    Marc,

    Você sabe o que significa a expressão corriqueira: “in the grand scheme of things….” quando se inicia uma análise ou discurso. Pelo visto, creio que não. Você também não sabe o que é um cabeçudo-de-planilha. É um COLONIZADO que, infelizmente,tem dado certo, mas de validade limitada.Seus chavões e clichês não levam a nada.

    Carlos Henrique,

    Por favor não confundir o particular com o universal. Já que falo em “Universal”, lembro-me de filmes hollywoodianos que nos ensinam a admirar e louvar o espírito animal do empresário americano. Nada a discordar. Eu mesmo sou pequeno empreededor.Os Estados Unidos são a terra das oportunidades em comparação com todas as outras nações.Oportunidade quer dizer liberdade em ambiente favorável(macroeconômico, institucional,etc) para TENTAR. Basta ver em quanto tempo e a que custo abro uma empresa nos EUA e comparar com Brasil, Alemanha, França, etc. Muitos tentam, alguns poucos conseguem, mas estes poucos são em número significatimente maiores que todos os outros. Ninguém é contra pequenos empresários, inclusive eu pessoalmente sou um.

  13. tomás angelo disse:

    Essa análise possui certas falhas. O autor pretende desqualificar a iniciativa de Obama de criar empregos incentivando as pequenas empresas por meio de incubadoras.
    1- Ele cita exemplos de empresas que hoje são grandes e que um dia foram pequenas. Bem, de início, isso demonstra que é possível se tornar gigante partindo do nada, embora este não seja o objetivo principal. Ele relaciona esse sucesso à solução de mercado aplicado às empresas. Negativo. Se essa fosse a solução, haveria mais de 4% de incubadoras com fins lucrativos. Esses números atestam que a taxa de insucessos das incubadoras de com fins lucrativos também é grande.
    2- O cerne da questão é saber quanto se deve investir para criar um emprego em grandes empresas e em pequenas empresas. O problema é que ele não trata do assunto e apenas tenta desqualificar o incentivo à pequena empresa.
    3- Quando um investimento de uma pequena empresa falha, ela fale. Quando o mesmo ocorre em uma grande empresa, isso não implica em falência. Mas em ambos os casos, gera-se demissão. E todos sabemos que existem projetos de grandes empresas que fracassam.
    4- Obviamente, quando as pequenas empresas fecham, seus empregados são demitidos. O mesmo ocorre quando um projeto de uma grande empresa fracassa. Ocorre que outras pequenas empresas são continuamente criadas e outros projetos de outras grandes são lançados, gerando novos empregos.
    5- Pequenas empresas de base tecnológica são matriz de avanços tecnológicos, mesmo as fracassadas.
    6- Se a análise fizesse sentido, concluiríamos também que a reprodução humana é um fracasso, já que a fecundação, quando ocorre, exige 200 milhões de espermatozóides.

  14. altamiro souza disse:

    na india e na italia dizem que deu certo…
    na italia me parece que pequenas empresas se reunem em cooperativas – nacionais?

    no parana o governonao cobra impostos das pequenas empresas e a propaganda governamental diz que foio estado que mais cresceu no pais apenar da crise…

    A agricukltura familiar e as cooperativas tambem soa fortes no parana…

    Fugi do assunto? Pra mim eh tudo criacao de emp[rego…Ou pelo menos uma forma de nao ser obrigado a virar escravo de demo-fazendeiro…

  15. Gesil Amarante disse:

    Prezado Arthur Selke (e demais),
    Acho a discussão interessante. só que umas coisas eu não entendi.

    Começando pelo óbvio: nenhuma empresa nasce grande, a não ser que ela seja um desmembramento de outra maior, o que não é exatamente uma nova empresa.
    Se é assim, creio que o correto é comparar a taxa de sucesso de empresas nascidas com apoio de incubadoras com aquelas que não tiveram apoio de incubadoras. Estou errado?
    A diferença entre as taxas de sucesso das empresas com e sem apoio de incubadora não seria também algo perfeito, já que muitas nem seriam iniciadas sem o aporte de recursos e apoios das incubadoras, mas é melhor que nada, afinal vc as vai comparar com empresas que poderiam ser iniciadas sem um empurrão (possivelmente seu modelo é mais simples e robusto).
    O correto mesmo acho que seria comparar empresas de tecnologia que contaram ou não com apoio de incubadoras ou qualquer outro apoio oficial ou de angel/venture capital.
    A minha suspeita (apenas suspeita, já que não posso me fiar no senso comum) é de que haverá uma grande taxa de insucesso também. A questão é se a diferença é positiva ou negativa.

    Se a diferença for positiva, talvez seja o caso dividir esta diferença pelo total investido (em todas as que tiveram investimento). Aí teria um número de empregos criados e mantidos “por causa das incubadoras”.
    Se custar menos investir nas grandes empresas para que elas retornem em criação de empregos (ou spin-offs, funcionando elas como incubadoras), aí dava um resultado interessante.

    Venture capital, angel capital e quetais vão sempre ser minoria ínfima, a menos que muito me engane… Se a peneira para chegar a estes capitais é tão grande quanto parece, é natural até que tenham uma taxa de sucesso maior.
    Se estamos falando de programas difusos, não dá para depender de algo tão restrito. Deve existir, mas sempre será a cauda da distribuição.

  16. duvidoso disse:

    Me parece que esta é uma política para criar uma rede para implantação das inovações que virão nos próximos anos.

    A pesquisa científica deve ser retomada e tem que existir emprendedores para colocá-las em prática. Se de cem, um ou dois despontarem, o retorno foi dado à sociedade.

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