A estrela e o santo
Frei Betto montou seu marketing se anunciando amigo de Fidel; Patrus Ananias, trabalhando duro na periferia.
Betto leva apoio espiritual a políticos ilustres, jornalistas conhecidos, intelectuais afamados; Patrus se dedica aos pobres.
Betto fez sua opção preferencial pelas celebridades; Patrus, pelos anônimos.
Betto procura os holofotes; Patrus a ação discreta.
Betto tem os pecados capitais da soberba e da inveja; Patrus as virtudes da humildade e da sabedoria.
Betto coloca bandeiras a serviço da promoção pessoal; Patrus iça as bandeiras, e se esconde, com pruridos para não se beneficiar da própria obra.
Betto participou de um programa caótico, o Fome Zero; Patrus criou um programa modelo, o Bolsa Família.
Até hoje Betto busca holofotes para celebrar seu fracasso; raramente se vê Patrus celebrando seu sucesso.
O Fome Zero era um esforço de marketing; o Bolsa Família um trabalho que incorpora indicadores avançados, modelos de gerenciamento e parcerias com o setor privado para as chamadas portas de saída dos miseráveis.
Betto critica o Bolsa Família por não ter porta de saída; o Fome Zero não tinha porta de entrada. Era um mero programa que distribuía alimentos, mas nem contribuições conseguia receber por desorganização ampla e geral.
Em suma, é isso o que explica as catilinárias permanentes de Frei Betto, o soberbo, contra a obra de Patrus Ananias, o humilde. Um é candidato a estrela; outro, é candidato a santo.
No Estadão de hoje Betto volta à carga: “Bolsa-Família é política de governo e projeto de poder”. Nas suas memórias ele atribui o fracasso do Fome Zero à pouca vontade do governo em bancar campanhas promocionais. O fracasso não decorreu da falta de holofotes, mas do excesso de preocupação com o brilho.
Quando ambos morrerem, São Pedro os estará aguardando na porta do paraíso. Betto empurrará Patrus, acelerará o passo para chegar na frente: “Eu sou Frei Betto, amigo do Fidel, do Chico Buarque, orientador espiritual da dona Marise, da dona Risoleta, da Milu Vilella, de psiquiatras, escritores e intelectuais famosos”.
Com paciência, São Pedro o afastará educadamente com um braço, enquanto com o outro indicará a Patrus a entrada. Procissões de anjos celebrarão sua chegada.
Betto não receberá o castigo eterno. Apenas passará uma temporadinha no purgatório, para se livrar definitivamente dos pecados da soberba e da inveja.
Aliás, quando vejo Patrus, o irmão leigo, quase volto a acreditar. Aí vejo Betto, o religioso, e caio na real novamente.
Por Edmar Roberto Prandini
Tenho discordâncias fortes em relação ao texto.
1. Admiro profundamente à personalidade e competência do Ministro Patrus Ananias. Concordo com aqueles que reconhecem nele um homem de profunda espiritualidade, de profunda competência, de zelo ético e dotado de enorme senso de gestão. Oxalá pudesse ele ser candidato à Presidência, em algum momento de nossa história, e vencer, obviamente, para contribuir mais decisivamente com o desenvolvimento includente do país.
2, Admiro profundamente ao Freio Betto. Sua profundidade e rigor intelectual, além de poderoso vigor crítico, que aponta sempre referências além para estimular o avanço.
3. Defendi sempre o Bolsa Família, desde sua implantação, mas desde o princípio impelido pelo anseio de que se constitua num Programa de Renda Básica de Cidadania, como anseia o Senador Eduardo Suplicy, universal.
4. Defendi sempre o Fome Zero, mesmo antes de ter lido as mais recentes publicações de Frei Betto sobre o governo e sobre o programa.
5. É inegável que o governo Lula nasceu em condições que favoreceram o acirramento de ânimos. Condições macroeconômicas e ideológicas. As contradições inerentes às deliberações que se adotaram em relação à trajetória do PT e do Lula, foram objeto de acusações à direita e à esquerda do espectro político. As rupturas foram inúmeras: a posse de Meirelles no Banco Central; os lusitanos (não eram Portugal e Lisboa?) mantidos em funções chaves no Ministério da Fazenda; a tensão em torno da Reforma da Previdência; as expectativas concernentes à Reforma Agrária; a formatação da base parlamentar; etc…
6. O Fome Zero concebia um movimento de “conscientização”, “mobilização” e “organização” dos setores mais pobres, apontando para rupturas “radicais” com o “status quo” no Nordeste. Pretendia provocar mudanças não apenas no padrão de renda, mas na postura política das populações de baixa renda.
7. Evidentemente, além de recursos financeiros importantes, tal movimentação seria dependente de um maciço investimento em formação política dessas comunidades, formação de lideranças, aos moldes de processos político-pedagógicos como aqueles pensados por Paulo Freire.
8. O MESA – Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar recém nascido tinha em seus quadros, “ideólogos”, enquanto outros ministérios foram ocupados por “administradores”, que tinham passado por instâncias de máquinas governamentais. O debate entre os “ideólogos” e os “administradores” veio se impondo no PT, com os “administradores” compondo com os “mandatos”, ao longo de vários anos, uma maioria bastante forte, que assegurou a hegemonia no partido, que por vezes, em nome do pragmatismo, sufocou o “debate político” e a “democracia interna”.
9. Neste contexto, era natural que o MESA, em que pese a simbologia contida no Programa Fome Zero, recebesse pouca atenção e apoio dentro do governo. Os escritos de Frei Betto revelam a ausência de retorno, sequer telefônico, às demandas que eram apresentadas. Por sua vez, a dimensão da iniciativa, a receptividade da sociedade, eram enormes. Como conciliar uma demanda social e política daquela dimensão sem orçamento e sem interlocução interna no governo?
10. A posse de Patrus, substituindo Graziano, representa a derrota dos ideólogos e sua substituição pelos “administradores”. Não que os “ideólogos” não soubessem ou não tivessem capacidade administrativa e gerencial. Mas, sem pessoal e sem orçamento, o Patrus também não faria avançar o Bolsa Família. A mudança no grupo político representou, simultaneamente, mudança na receptividade das demandas apresentadas. As demandas, por sua vez, também mudaram, e a discussão sobre os conselhos gestores exprime isso.
Concluindo, não penso que esteja correto e nem que conte com a simpatia de Patrus esse tipo de comparação. Não acho que seja justo com os “derrotados” tratar a derrota de sua proposta política como se fosse meramente resultante de suas idiossincrasias pessoais. Sem eles, com as propostas mais avançadas que lutaram por implantar, possivelmente o Bolsa Família seria muito mais tímido do que foi.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Fome Tags: Bolsa Família, Fome Zero. Frei Betto, Patrus Ananias

Lu Dias,
para não correr qualquer risco de perder seu comentário, ainda mais se for longo, antes de clicar em Enviar dê um ctrl c no seu texto. Assim, se surgir aquela mensagem fatal, é muito simples reenviar com um ctrl v.
Abs
Caro Nassif
Aqui entre nós…. É você mesmo o autor das respostas às missivas postadas no blog, ou delega, às vezes, a incumbêncio a outrem ???????
Pergunto porque noto, algumas vezes, que, além de não ser seu estilo, contém algumas, digamos,…. impropriedades.
depois é excomungado, não sabe porque… e toca fazer abaixo assinado.
Nassif, parabéns pelo cirúrgico texto.
Carrego, a tempo, a sensação que na undécima hora, Patrus apontará na curva, atropelando à reta.
Afinal de contas, como dizia Calderón, a vida é sonho.
Frei Betto tem a profundidade de um pires.
Leio seu blog há algum tempo e avalio que fazes um bom jornalismo. Me intriga, no entanto, notar que a boa prática não expurga os velhos costumes. Vejo leitores que reclamam por ‘imparcialidade’ e outros aos quais não agrada o excesso de ‘parcialidade’. Na verdade, procuram no seu bom jornalismo – e assim o identificam porque por vezes nele encontram – os velhos mitos, legado do que há de pior na área.
Me faz pensar que os muitos problemas que cercam a mídia e a comunicação social como um todo, não estão ligados apenas aos maus profissionais, mas, talvez, também aos ‘maus leitores’. Claro que a discussão é mais abrangente, os leitores assim são, porque assim foram ‘educados’. A imparcialidade já foi um valor admirável. No entanto, como disse, o que assusta é notar como as boas práticas caminham tão pouco no sentido de avançar na difusão de novos valores e ideias.
Sobre Frei Betto: concordo que talvez tenha havido exagero. Não por conta de sua formidável análise da conduta dele, mas pela ausência dos créditos que o bom Frei, enquanto membro de uma igreja medieval e conservadora – que excomunga mães que têm suas filhas estupradas – e homem de luta, conquistou no decorrer da vida e merecem ser reconhecidos.
PS: tive que redigir meu comentário duas vezes, por conta de erro no blog. Aperto agora o enviar, não sem antes apertar ctrl+c e torcendo para que dê certo.
Esse foi o segundo texto mais bonito que li.O primeiro, foi teu também.
Só para acrescentar, cansei de ver reportagens televisivas sobre inaugurações de restaurantes populares aqui e acolá. E aqui em BH já havia um funcionando há muito. Qualquer dia será inaugurado o terceiro (São Pedro vai ajudar), e por dis reais toma-se café da manhã, almoça-se e toma-se um sopão à noite. E o Patrus caladidinho. E para esclarecer, eu ando meio desiludido com o PT
Ivanisa,
Procurei manter sempre entre aspas a oposição entre “ideólogos” e “administradores”. Não considero que ela exista de fato. Procurei ressaltar num dos itens da minha argumentação que com pessoal e orçamento, os ideólogos podem gerir bem, também.
O uso das aspas tinha por intuito aludir a tensóes internas ao PT, que também estiveram presentes no debate no interior do governo.
Quanto a conhecer a história, não a conheço bem. Tenho alguns amigos que participaram dos Talleres do Fome Zero, e o que sei são os relatos da inexistência de equipe para o desencadeamento das ações formativas.
Na verdade, surpreendi-me muito quando da notícia de que o Frei Betto deixaria o governo e, sinceramente, senti-me chateado. Mas, sentia como mais uma derrota daqueles que procuram investir no campo do fortalecimento da organização popular. Agora, não idealizo mais. Entendo como conflitiva a realidade e como fundamental apreciar as construções do possível. Além disso, como eu disse, admiro profundamente o Patrus. E, não tinha informação alguma sobre você antes do blog do Nassif.
Nassif,
Voce errou na mão.
Não é de hoje que voce coloca o Frei Beto como fonte permanente para jornais, quando estes precisam de uma opinião de esquerda, comparando-o ao Mailson da Nobrega. É muito duro.
A vaidade é o pecado por excelência de intelectuais, acadêmicos e toda sorte de sujeito que lida com ideias. Frei Beto tem dado uma grande contribuição aos avanços do pensamento progressista no Brasil, mesmo com todas as correções de rota que ele teve que tomar.
Qanto ao Patrus, esse bebeu na fonte de Alceu Amoroso Lima. Merece ser mais conhecido e respeitado, mas nao postumamente.
Diria que a vida deles se completam:Açao e Oraçao.
Cordialmente,
Jose Maria
Nassif, que clareza! Muito bem abordado o desempenho do “frei”. Lembram quando o Lula chamou a atenção do “frei”, por fazer críticas ao governo, logo no início de 2003? Certa vez no programa Espaço Púiblico , com Lúcia Leme, o dito assessor não abriu o bico para defender o governo que assessorava, apesar das críticas que ao goiverno eram feitas. E ao sair do governo, apresenta as idiosincrasias dos picados pela mosca azul. Ele um, picado pela venda de seus livros. Não conheço o “Frei” pessoalmente, mas tudo leva a perceber se tratar de um intelectual, formulador, com história de lutas e que deve ser respeitado como tal. Como executivo, em que tem que por a bun…na janela, já se viu que está longe. Que continue escrevendo. Outros terão capacidade e competência para as realizações.
Lembro-me que a Giselle Bitchem (?) doou um cheque para o Bolsa Família, não conseguiram descontar o tal cheque
Alguém pode me informar no que deu o cheque da Giselle?
Pela qualidade dos seus textos, é estranho o desequilíbrio nessa revelação do Santo Patrus e do Demônio Beto; da perfeição e da impureza completas e exclusivas. Fico achando que há motivação não revelada para tal atitude.
Nassif e suas idiossincrasias. A saída de Betto do governo é só a consequência da derrota do PT-militante frente ao PT-mensalista. Patrus é uma excelente pessoa, mas sua condução política em Belzonte levou à ascensão de Pimentel e a derrota do modelo petista de governo, frente aos métodos gerencias de Anástasia. A crítica de Betto é a crítica à esquerda de uma ação de governo (Bolsa-Famíllia), que amortece os conflitos sociais; não mobiliza os envolvidos na luta pela alteração do quadro de exclusão existente. A palava essencial em toda esta crítica é mobilização. É justamente isso que Lula não quer que os trabalhadores e desvalidos da sorte façam. É o governo do medo, em suma.
Comparações constumam ser muito pobres e essa não escapa a regra. Ninguém duvida da capacidade administrativa do Ministro Ananias não é isso que esta em questão na entrevista concedida pelo Frei Betto, no entanto é isso que o texto do Nassif tenta ressaltar. A critica de Frei Betto quer tão somente atingir o âmago da construção de um projeto de nação, que para ele era a chamada dos movimentos sociais para dentro da lógica do poder e que naquele momento (a)pareceu-lhe oportuno fazer a disputa por dentro do governo com a presença destes. Para Frei Betto, forjado no calor das lutas socias assim como para muitos que defendem e lutam pelo governo Lula (e é bom lembrar que há tantos outros tipos de interesse na defesa desse governo), a partilha do poder e a emancipação dos mais pobres é a tônica a ser dada por um governo que adota uma agenda de esquerda e cuja presença dos movinetos sociais para isso é fundamental. Mas para Nassif, mesmo que ele entenda isso, não do seu papel publicar e dar vazão a essa idéias. Cumpri-lhe apenas adotar a mesma e velha estratégia (dos grandes sertores da midia) do resumo empobrecido para marcar a ausência do debate.
Essa posição é extensiva a todos os intelectuais porta-vozes da esquerda que escrevem e publicam em Jornais????
[...] http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/03/09/a-estrela-e-o-santo/ [...]
Nassif. Relendo o seu post tenho a ligeira sensação que você, subliminiarmente, padece de um pecado que acusa – o da inveja – pois o Betto, escreve um primor de clareza, concisão, e profundidade. Articula teoria e prática, considero um intelectual orgânica das classes subalternas, conforme Gramsci. As suas críticas ao governo não i(r)realistas e irresponsáveis, pois o Governo Lula e o PT sobrevive as contradições pois a vida é composta de contradição, trabalho em administração municipal e sinto o limite do governo federal. O Patrus é consenso, um primor de pessoa humana, mas é péssimo em comunicação, e Betto jornalista cumprindo com um papel de divulgar, um projeto alteromundista – um outro mundo é possível. Este projeto nego o capitalista, que alguns neo-oportunistas tenta surfar na onda.
Não quero inverter a roda: de acusador a acusado. As contradições são parte do processo da vida, descobri-las é o grande segredo com humildade.
Parece-me que alguns internautas que estão comentando o “post” “A Estrela e o Santo” não se deram ao trabalho de ler a entrevista do Frei Betto ao Estadão.
A entrevista é que provoca a justa posição do Nassif sobre Patrus. Não é gratuita a acidez.
Na verdade, Nassif faz um desagravo público em favor do ministro pela crueldade das respostas de Frei Betto. Um religioso que esqueceu-se da condição no momento em que respondia com farta maldade.
Ao responder ao internauta das “16h59″ Nassif lembra que há quinhentos exemplos de outras áreas que Beto poderia se esbaldar nas críticas que quer fazer. E eu concordo.
E o cândido Frei vai investir justo contra o Bolsa Família? E dizer que o programa é um projeto de poder? Dando a entender que concorda ele com a afirmação do Jarbas Vasconcelos que disse o que disse sobre compra de votos com o Bolsa Família? Logo o “MARAJarbas” e sua aposentadoria de 17,5 mil reais??
Eu tentei ajudar o Fome Zero, e toda aquela história de copo, prato, mesa, talheres, sei lá mais o quê. Mobilizar a tal da sociedade civil para atuar em programa governamental não dá certo nem nos conselhos de saúde e de educação (com raríssimas exceções). Os beneficiários do Fome Zero estariam esperando até hoje pela formação dos tais comitês. Fora a dificuldade de se entregar aos gestores as contribuições conseguidas.
Mas nada disso é importante. Se não deu certo, não deu. Ótimo que existe outro programa no lugar. E que está dando certo e, mais que isso, tranferindo dignidade para as pessoas, ao permitir fazerem suas próprias opções.
E ainda, elevando em muito a capacidade do nosso mercado interno, notadamente nas pequenas cidades desassistidas em todo o nosso interior, do extremo sul ao norte, do leste ao oeste.
O resto é pura bazófia do Frei Betto, que está permitindo a seu fígado dar o tom de suas críticas. Quem fala o que quer, sabe ouvir qualquer resposta.
Cordialmente, Sérgio – internauta livre e aposentado de Brasília.
Parabéns Nassif,
alguém finalmente tinha que falar umas verdades sobre o Frei, quem trabalhou com ele sabe que acima de sua fidelidade ao das alturas está sua ambiação e vaidade. Acho que se o Presidente Lula dissesse o que pensa seria muito parecido com suas opiniões.
Parabéns!
Nassif,
Parabéns pela bela peça literária sobre o Patrus.
Não conheço o Frei Beto e não o leio o suficiente para ter condições de criticá-lo como homem e figura pública, mas conheço Patrus e corroboro tudo o que foi dito sobre ele.
Comprovada capacidade na administração pública, extrema coerência quanto aos valores políticos, visão arguta para identificar e resolver problemas sociais, grande negociador político, integridade moral inquestionável, trabalhador incansável, essas são algumas de suas características. Sem dúvida, Patrus é um ótimo candidato ao cargo maior da nação, talvez o melhor.
Quanto ao bolsa família, gostaria de lembrar que os pobres têm o direito a este benefício uma vez que ele, de uma outra forma, já é dado aos ricos. A tabela de redução do imposto de renda não seria uma forma de benefício?