Sobre esquerda e direita
Reproduzo um comentário do Carlinhos CHATO (é o nick dele) e minha resposta, que pode dar uma boa idéia dos exageros de tentar reduzir todas as discussões à divisão esquerda-direita, Lula-anti-Lula.
Do Chato
Nassif, o macarthismo direitista investiu contra os valores fundamentais da cultura americana, também direitistas. O problema é que muitos comentaristas por aqui acham que direita é apenas “macarthismo” e “fascismo”, por isso acham que o mundo seria muito melhor sem ela.
São o equivalente à parcela da direita que acha que todo esquerdista é “comunista”.
O fato é que a criação da democracia moderna foi uma idéia, sim, “de direita”. A esquerda só foi aceitar a democracia com a consolidação dos partidos social-democratas na Europa.
Comentário
Washington, Jefferson e outros eram direita, antes mesmo da invenção das ideologias. Não exagere, né? É o mesmo que dizer que Keynes era esquerda, por propor papel mais ativo ao Estado. O racismo é direita ou esquerda? Os direitos humanos são de direita ou de esquerda? A Revolução Francesa era de esquerda ou de direita? Não dá. Há valores que estão acima dessas divisões – que, admito, são recorrentes nos comentários. Outro dia almocei com o Marcos Lisboa, que acaba de descobrir os programas de qualidade (que existem no Brasil desde os anos 80). E tentou associá-los ao ideário neoliberal. É por isso que as grandes mudanças se passam ao largo dessa compartimentalização de lado a lado.
A Ambev e o Bolsa Família recorrem aos métodos de gestão pela qualidade.
PS – No fim, estamos falando a mesma coisa. O Chato criou uma caricatura para demonstrar outra. Como deixei minha resposta por último aqui na nota, está aberto para a réplica dele.
Por Marcos Doniseti
Nassif, discordo do Chato de que a Esquerda somente aceitou a Democracia com a consolidação da Social-Democracia na Europa.
Na verdade, a divisão entre Esquerda e Direita começou com a Revolução Francesa. No começo, foi por causa da posição dos parlamentares no Parlamento francês.
Os representantes da alta burguesia sentavam do lado direito, enquanto os parlamentares ligados à pequena burguesia, aos operários e camponeses, sentavam do lado esquerdo do plenário. E no meio sentavam-se os centristas (o PMDB da época) que oras apoiavam as teses da burguesia (Direita) oras apoiavam as teses das camadas populares (Esquerda).
Agora, quanto à conquista da Democracia, pelo menos no momento em que estourou a Revolução Francesa, ela foi conquista de ambos os grupos, tanto da Direita como da Esquerda.
Quem era contra a Democracia, mesmo, eram os monaquistas absolutistas, que representavam os interesses do Rei, da alta nobreza e do alto clero.
Porém, naquela época, Democracia para a Direita era sinônimo de governo controlado exclusivamente pela burguesia.
E isso vale tanto para a Revolução Inglesa do século XVII, como para a Revolução Francesa do século XVIII, como para a Independência dos EUA.
Nestes 3 casos, a burguesia não admitiu que a massa popular (os pobres em geral, ou seja, operários, camponeses, etc) participasse efetivamente do processo político-eleitoral.
Tanto isso é verdade que tais revoluções burguesas implantaram o voto censitário, ou seja, que exigia uma renda mínima e que era bastante elevada, pois o objetivo desta medida era excluir a grande massa popular do processo político-eleitoral.
Na época da Revolução Francesa de 1789-1799, o único período em que o voto universal (apenas masculino, naquela época) foi adotado foi no período da chamada ‘República Jacobina’, cujo principal líder foi Rosbepierre e que durou de 1792-1794.
Quando a Burguesia retomou o poder, com Robespierre e Saint-Just sendo guilhotinados, ela imediatamente implantou, novamente, o voto censitário.
Foi somente com a Revolução de 1848 que o voto universal (masculino) foi implantado em definitivo na França.
Nos EUA, por exemplo, quando se proclamou a Independência, definiu-se que somente teria o direito de voto os homens, brancos e ricos.
Assim, a imensa maioria dos norte-americanos (mulheres, pobres, negros, escravos) foi excluído da ‘Democracia’ norte-americana. Os eram uma tipica ‘Democracia Burguesa’, portanto.
Nos demais países dominados pelos Burguesia Liberal (França, Grã-Bretanha, etc) não foi diferente e o voto censitário também vigorava.
Esse é um dos motivos pelos quais Marx dizia, na época, que existia uma ‘Democracia Burguesa’, pois o povo era totalmente excluído do processo político-eleitoral.
Assim, o voto universal foi, de fato, uma conquista da Esquerda, sim. Se dependesse apenas da Burguesia o voto censitário teria durado até os dias atuais.
Outra conquista da Esquerda foi o direito de voto para as mulheres, mas isso somente foi implantado no século XX após amplas mobilizações populares. No Brasil, o voto feminino foi adotado com a Constituição de 1934. Aliás, fomos um dos primeiros países a implantá-lo, até antes da França, que o adotou em 1936, quando um governo de Esquerda da época da ‘Frente Popular’ foi eleito.
Assim, foi somente através de sucessivas mobilizações populares (greves gerais, protestos, Revoluções, etc) que o povo conquistou o direito de participar do processo político-eleitoral e de ter as suas liberdades e garantias respeitadas.
Na Europa ocidental, durante todo o século XIX (e também no século XX pelo mundo afora), tivemos inúmeros movimentos populares que reivindicavam o voto universal e eles sempre foram brutalmente reprimidos pela Burguesia.
No Brasil, também tivemos, no século XIX, movimentos revolucionários que reivindicavam o voto universal (ex: a Revolução Praieira, que estourou em Pernambuco em 1848) mas o mesmo somente foi implantado com a Proclamação da República.
Mas, os governos da chamada ‘República Velha’ (1889-1930) fez uma outra ‘malandragem’ para excluir o povo, que foi exigir que para votar as pessoas tivessem que saber ler e escrever. Como a imensa maioria do povo brasileiro era analfabeto e os governos da burguesia agrária não se interessavam em alfabetizar a população, o povo continuou excluído do processo político, que continuou algo restrito aos mais ricos e letrados, ou seja, a uma elite. Assim, continuou como ‘dantes no quartel de Abrantes’.
Assim, embora a Democracia representativa tenha sido uma conquista tanto da Burguesia, como das camadas populares (ou seja, tanto da Direita como da Esquerda) a Democracia ampla, com voto universal (ai incluindo já o voto feminino), tal como é entendida hoje, foi uma conquista da Esquerda, sim. Sem as mobilizações populares o voto censitário masculino estaria vigorando até os dias atuais.
Por Pedro
Vejam só o absurdo da afirmação: “O fato é que a criação da democracia moderna foi uma idéia, sim, ‘de direita’. A esquerda só foi aceitar a democracia com a consolidação dos partidos social-democratas na Europa”.
Nada mais falso. A burguesia liberal na França, depois da Revolução de 1789, fez de tudo para barrar o projeto democrático mais radical dos jacobinos (Robespierre foi parar na guilhotina). Thomas Jefferson foi proprietário de escravos, e quando presidente dos EUA manteve o sistema elitista proposto pelos Federalistas (voto censitário, exclusão das mulheres, sistema eleitoral de segundo grau, senadores escolhidos pelos membros das Assembléias etc). Liberalismo pode viver muito bem sem democracia, como demonstram John Locke (também defensor da escravidão), Stuart Mill e Tocqueville (que sempre desconfiaram do povo), Hayek (que confessou preferir a liberdade econômica à liberdade política), Milton Friedman e os Chicago Boys (que também assessoraram Pinochet) etc etc etc.
As franquias democráticas atuais (sufrágio universal, políticas redistributivas, sistema pluripartidário, direitos trabalhistas que são o avesso do liberalismo manchesteriano etc) foram arrancadas pelo movimento operário ao longo da sua trajetória de LUTAS. A tese apresentada pelo Chato está mais para “ideologia da outorga”, pois atribui o “motor” da emancipação democrática não aos seus verdadeiros protagonistas, mas justamente aos seus antípodas! A idéia de democracia da direita nunca foi muito além de um sistema de participação política muito restrito, uma poliarquia (R. Dahl) ou governo das elites. Não tem nada a ver com “governo do povo, para o povo e pelo povo”.
Repito: os liberais sempre foram, historicamente e em sua maioria, antidemocráticos.
Quanto a John M. Keynes, sugiro uma leitura de seu artigo “I am a liberal?”, onde ele reivindica todos os valores da direita. E critica o partido trabalhista britânico, por ser um “partido de classe”, e logo uma classe que não era a sua! (o que confirma o comentário de Nassif).
Um pouco de conhecimento da história nos salvaria de afirmações flagrantemente equivocadas.
Vejam, por exemplo, dois autores importantes: Luís Felipe Miguel (Bases antidemocráticas do pensamento democrático moderno) e Domenico Losurdo (Democracia ou bonapartismo). Esse último, a propósito, faz uma crítica muito acertada ao seu conterrâneo Bobbio.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Novo Mundo Tags: ideologia

Luiz Horácio,
Bom o destaque ao texto do Ed Fidelis.
Ed Fidelis,
Muito bom, mas não é assim simples.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/01/2009
Ed Fidelis,
Talvez eu devesse ter dito que é assim, mas não é simples.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/01/2009
Luis Nassif,
Outra questão que parece não foi muito discutida é sobre o tamanho e força do Estado sob o enfoque da esquerda e da direita.
Quem quer um estado forte e grande é da direita ou da esquerda? Augusto Junho é um lídimo representante da direita elitista e, no entanto, é um grande defensor do Estado forte, até quando se usa o meu critério para definir estado forte: Estado forte é medido pelo tamanho da carga tributária.
Um pouco dessa discussão pode ser encontrada nos meus comentários enviados para dois textos no seu blog no mês de fevereiro de 2008 e que estão no endereço: (http://www.projetobr.com.br/web/blog/6?p_p_id=HistoricoBlog_INSTANCE_UFeW&p_p_action=1&p_p_state=normal&p_p_mode=view&p_p_col_id=column-1&p_p_col_pos=8&p_p_col_count=10&_HistoricoBlog_INSTANCE_UFeW_struts_action=%2Fhistorico_blog%2Fview). Os dois textos são: “A nova reforma fiscal” de 29/02/08 às 07:00 saído na aba de economia e “O problema é o BC” de 04/02/08 às 00:58 apresentando a entrevista de Márcio Pochman, do IPEA, a Lu Aiko Otta, do “Estadão” de domingo.
Nos comentários para a chamada sobre a entrevista do Márcio Pochman, eu desenvolvo a idéia de separar as correntes políticas brasileiras em direita e esquerda segundo eles se aproximam da defesa ou do combate de um Estado forte. Comecei a falar sobre essa divisão em chamada denominada “Delfim na revista do IPEA” de 11/02/08 às 10:03 saída no seu blog na aba principal em recomendação de Alexandre Porto. O endereço para o mês de fevereiro no seu blog antigo na aba principal é: (http://www.projetobr.com.br/web/blog/5?p_p_id=HistoricoBlog_INSTANCE_4Ml2&p_p_action=1&p_p_state=normal&p_p_mode=view&p_p_col_id=column-1&p_p_col_pos=10&p_p_col_count=12&_HistoricoBlog_INSTANCE_4Ml2_struts_action=%2Fhistorico_blog%2Fview).
Reforçando meus argumentos pela utilização do critério da carga tributária como medidor da força do Estado, José Eli da Veiga apresentou ótimo artigo no Valor Econômico de 02/09/2008 intitulado “De onde vem a força do PIB”. O artigo pode ser encontrado no site de José Eli da Veiga (http://www.econ.fea.usp.br/zeeli/) ou diretamente no endereço: (http://www.econ.fea.usp.br/zeeli/artigos_valor/111%20-%20ForcadoPIB-02-09-08.pdf).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/01/2009
Acho que a única coisa essencial, ideologicamente falando, desta questão de direita e esquerda é de que a esquerda questiona ou tenta subverter o “status quo” e a direita defende, ou mesmo pretende aprofundar, estas relações sociais. Todo resto deriva daí, mesmo a tendência da direita se conservadora e a esquerda não. Questões como a do tamanho do Estado são laterais e devem ser encaradas sempre do ponto de vista histórico e em todos os seu detalhes, não admite simplificações. Senão sairemos por aí dizendo que anarquistas como Proudhon (que se intitulava um socialista científico) ou Bakunim eram de direita. E o que mais queriam os nazifascistas: a construção um Estado forte para proteger os monopólios privados. Óbvio que, como se diz, “na prática a teoria é outra”, quantos movimentos de esquerda e libertários não se tornaram conservadores ao alcançar o poder?
Você está coberto de razão, Nassif, quando diz que muitos movimentos não se enquadram nestas categorizações.
Fechar mercados para proteger a industria local e o Pais por tabela, é politica da esquerda ou da direita ?
Deixar de imprimir a própria moeda nacional e vinculá-la a políticas alienígenas e coisa da esquerda ou da direita?
Suspender os direitos civis e mandar as favas o Estado de Direito é política da esquerda ou da direita ?
Fraudar nações e empobrecer milhões é política da esquerda ou da direita?
Senhores, a única forma coerente que conheço para resolver estas questãozinhas é através da modelagem tri-dimensional com o uso da Astrologia, Tarot e Geometria, mas é lógico que gostaria muito de apreender novos truques, alguem ????