O boimate em cores
Em muitos aspectos o boimate – notável criação de 1984 do diretor de redação da Veja, Eurípedes Alcântara – tornou-se uma entidade mitológica no jornalismo brasileiro. Todo mundo sabia que tinha sido criado, certamente é a barriga mais significativa do jornalismo brasileiro nos últimos 25 anos, mas poucos tiveram acesso ao teor da reportagem e, principalmente, ao infográfico da matéria. Para quem não se lembra, a matéria falava de um cruzamento de boi com tomate, perpetrado pelo cientista Dr. McDonalds na Universidade de Hamburgo, Alemanha e que resultara em uma carne que já vinha com molho.
Graças ao acervo digital da Veja, muitos de vocês poderão ver pela primeira vez essa obra que entrou para a história do jornalismo brasileiro.
O lead da matéria é assim: “Familiarizados com as delicadas estruturas da células…”
Para repercutir, incumbiram um repórter de entrevistar um engenheiro genético da USP – o correspondente da Alemanha se recusou, mesmo sob ameaça de demissão. O repórter foi, o biólogo disse que era impossível. Precisando voltar com a resposta solicitada, o repórter soltou a casca de banana: “Mas suponhamos que…”. E o cientista caiu.
Deu nisso:
Aí, na edição seguinte, a seção de Cartas repercutiu o furo: obviamente com carta a favor.
Por fábio josé de mello
No site http://www.humornaciencia.com.br/noticias/boimate.htm tem um artigo muito engraçado.
“O espírito gozador e , mais surpreendente às vezes até irado do brasileiro, no entanto, não deixou por menos. Durante o intervalo entre a matéria da Veja e o desmentido do Estadão, cartas e mais cartas chegaram às redações.
Um delas que, maliciosamente, assinou ” X-Burguer, Phd, Capital”, lembrava que no Brasil já haviam sido feitas descobertas semelhantes: o jeribá, cruzamento de jabá com jerimum, ou o goiabeijo, cruzamento de gens de goiba, cana-de-açúcar e queijo, e adiantava que seus estudos prosseguiam para criação do Porcojão ou Feijoporco, cruzamento de porcos com feijões que ele esperava dar como contribuição à tradicional feijoada paulista’.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Justiça, Mídia Tags: barriga, boimate, Eurípedes Alcântara





Pois é. Imagina se a Veja resolver que a Engenharia Genética fundiu o boi com a graviola e anunciar o surgimento do boiola.
Em 1983, a Veja endossou como verdade científica uma brincadeira de 1º de abril, lançada pela revista inglesa New Science. Tratava-se de uma nova conquista científica, um fruto de carne, derivado da fusão da carne do boi e do tomate, que recebeu o nome de boimate. Se a editoria de ciências de Veja visse esta notícia num jornal brasileiro, evidentemente ficaria com um pé atrás. Para a revista, a experiência dos pesquisadores alemães permitia “sonhar com um tomate do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica”. Isso que a New Science dava uma série de pistas para evidenciar a piada: os biólogos Barry McDonald e William Wimpey tinham esses nomes para lembrar as cadeias internacionais de alimentação McDonald´s e Wimpy´s. A Universidade de Hamburgo, palco do “grande fato”, foi citada para que pudesse ser cotejada com hamburguer. Os alertas de nada adiantaram. Como se tratava de uma prestigiosa publicação européia, a Veja embarcou com entusiasmo na piada.
Quando o Mino Carta for grande, vai fazer uma destas, e não a bobeira da capa de demissão do Meirelles. Deve ser humor de gringo tentando ser brasileiro, sem conseguir.
Cabra bom mesmo é o Noblat, que anunciou a criação do Gilmar-Dantas, produto do cruzamento de gângster com juiz afetado.
Até hoje, não consigo entender como foi possível ao autor do boimate ter-se mantido no emprego e, de quebra, conquistado o cargo de diretor de redação da revista onde obrou tal grandiosidade. Por isso, esse caso do boimate vai muito além da barriga clássica, à qual todos nós estamos sujeitos, seja por ignorância, descuido, má sorte ou inexperiência. É algo que me deixa perplexo! É bom que o caso seja sempre relembrado, não para o linchamento do pobre coitado – que ao menos de minha parte não merece o esforço de erguer a mão para um bofete –, mas para que sejamos capazes de perceber a lógica das redações nos grandes grupos econômicos. Espanta-me também que casos como esse e outros ainda mais escabrosos não tenham sido objetos de análise por parte do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas. Barrigas são barrigas, como disse, e ninguém pode em princípio ser condenado por um erro fortuito, mas o Boimate e seu desenrolar no Grupo Abril e a coleção de baixarias conscientemente pautadas, editadas e publicadas pela Veja compõem provas de má fé, de crimes premeditados que não podem passar em branco. Se assim não for, será justo pensar que o currículo perfeito para uma carreira de sucesso no jornalismo deve seguir a receita de Veja. Aliás, dessa Veja que aí está, não a dos pioneiros e veteranos que a construíram.
“Pois é. Imagina se a Veja resolver que a Engenharia Genética fundiu o boi com a graviola e anunciar o surgimento do boiola.” – Stanley Burburinho
Esta foi demais
Kakakakakakakaka
Prezado Mauro A. Silva (25/01/2009 – 08:58).
Permita-me. A revista é a inglesa New Scientist.
P.S.- Fora isso que escrevera e o óculos, digo, dedo do Nassif deletou.
Não concordo com algumas mensagens crucificando o responsável por essa “barriga”. Claro que ficou chato! Mas se até na Internet, que é um campo aberto, tem gente que acredita em tudo, o que dizer numa época em que somente a imprensa disseminava informações em larga escala. E a notícia saiu numa revista conceituada. É desagradável, mas acontece. Ainda hoje tem jornalista que cai em Primeiro de Abril. Menos, mas tem.