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19/01/2009 - 20:00

Trivial de Baden Powell

Coluna de 21.05.2005

Até Baden Powell, a história do violão brasileira estava centrada em três figuras. No campo popular, em João Pernambuco, com sua influência ibérica; e Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, uma mistura de influências de Debussy, Django Reinhardt e do choro. No campo erudito, houve Villa-Lobos, que reescreveu a história do violão clássico do século.
Baden entra nesse universo como uma síntese desses três gênios. De Pernambuco, absorveu o sotaque do choro, através das aulas com Jaime Florence, o Meira. De Garoto a influência veio através da rádio Nacional, quando o jovem Baden, com apenas 14 anos, ficava apreciando os estudos que Garoto tocava nos intervalos das gravações. Villa, Baden absorveu em ensaios exaustivos do violão clássico. Finalmente, completou seu ciclo de influências com o violonista norte-americano Barney Kessel recentemente morto.

Muito jovem ainda, depois de uma fase acompanhando instrumentistas e cantores, gravou seu primeiro LP ao vivo. Era um alucinado, como em geral são os gênios na fase de pré-maturidade.

Gradativamente foi aprimorando o estilo. No final da bossa nova, surgia como o grande elo de passagem da bossa para o movimento que veio a ser conhecido como MPB. De longe, era a figura mais reverenciada, a esta altura impulsionado pela parceria com Vinicius de Morais e pela série de afro-sambas um marco na música vocal-instrumental brasileira.

Em meados dos anos 60, atingiu o auge da popularidade no Brasil, influenciando toda uma geração de violonistas e compondo algumas das mais belas canções da história, de sambas irreverentes a prelúdios inesquecíveis.

Em breve, seu som começou a sair dos limites do país. Foi para a Europa, onde se consagrou especialmente na França e na Alemanha. Nos anos 70 tornou-se o maior violonista do mundo.

Há cerca de dez anos foram lançadas no Brasil gravações de Baden realizadas em 1974 no Olido, de Paris. Ali, foi o auge. Sua segurança, agilidade, capacidade de improvisar, de reescrever os improvisos do jazz na linguagem do choro tornam aquelas gravações um dos pontos altos do violão popular do século 20 à altura das gravações de Django no Hot Club de Paris nos anos 40. Daquele período, tem também uma gravação histórica com Stephen Grapelli, o violinista parceiro de Django.

Seu som era único. Conseguiu dar um sotaque internacional ao choro, cuja escola de improvisação, mais clara e mais ligada à melodia, se contrapunha à crescente complexidade estéril em que se meteu o jazz a partir dos anos 60.

Baden influenciou toda uma geração de violonistas brasileiros que, nas décadas seguintes, tornariam a escola brasileira a mais reputada do mundo. Alguns anos antes de morrer, apontou Raphael Rabello como seu sucessor.

No final da vida, seus shows perderam qualidade. Mas mantinha incólume a técnica nas gravações de peças lentas, valsas e serestas. Há poucas dúvidas de que foi o maior violonista brasileiro da história. E um dos dois ou três melhores do século.

Aqui, um Baden Powell de 1966

Autor: luisnassif - Categoria(s): Violão Tags: , ,

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17 comentários para “Trivial de Baden Powell”

  1. Marco Antônio disse:

    Obrigado, Nassif, pela republicação de uma síntese maravilhosa, erudita, impecável do ponto de vista histórico e um exemplo a seguir para os críticos musicais. Nunca me esqueci deste artigo, que vou guardar com todo o cuidado e que, certamente, foi a melhor homenagem escrita que o grande mestre do violão recebeu. A propósito, passei por um episódio desconcertante, mas sintomático dos novos tempos. Vendo-me pensativo e quieto, em virtude da morte de Baden, minha irmã caçula, com 17 anos, perguntou: o que aconteceu? Eu disse: morreu Baden Powell. Ela arregalou os olhos e redarguiu: ” meu Deus, Brian de Palma?” Não tinha ficado sabendo da morte de Baden. Nem de sua vida.

  2. Marko disse:

    E como comentou uma amiga, eqto o mundo espera a posse do novo “imperador” e continua sangrando pelas bordas nda como uma história romântica, não importa se Fake : http://www.youtube.com/watch?v=qtmdGMPgU7I&feature=channel_page

  3. Marcos disse:

    Europeus fazem fila para sacar dinheiro de caixa eletrônico que soltava o dobro da quantia.

    http://my.opera.com/Ricardo%20Belfiglio/blog/show.dml/2916391

    A vingança do jeitinho brasileiro.

  4. waden disse:

    Em 2000, visitando minha mãe no Rio, abri o jornal e vi que Baden se apresentaria à tarde, no auditório de um curso de inglês em copacabana. De graça. Corri pra fila e pude ver o que penso ser seu último show na cidade. Foi um presente que a vida me deu. Nassif, ouvindo Baden – e como ouvi e ouço – tornei-me alguém. Mergulho e ascensão em mim mesmo na vida tempo presente eternidade… desatando nós com facilidade tornando tudo leve e belo. Baden é parte de minha alma. Grato Nassif, grato.

  5. André disse:

    Baden, o gênio. Yamandú, que desdenhou o Baden, num comentário infeliz, deveria se olhar no espelho.

  6. Paulo Alvim disse:

    No auge de sua forma ele foi o melhor instrumentista (de vilão) de música popular do Brasil. Não só pela apuradíssima técnica como também pelos excepcionais arranjos – simplesmente geniais. E de lambujem ainda compôs belíssimas canções, nos tempos áureos da bossa=nova.
    Seu único pecado foi o de não se renovar. Parece que a bebida lhe tirou o estímulo e a destreza.

  7. Paulo Alvim disse:

    André,
    Yamandu é ótimo instrumentista, de muita técnica, mas nenhuma criatividade, além de mau gosto na escolha de repertórios e arranjos. Baden improvisava primando as notas exatas das melodias enquanto o outro, se é que se possa dizer assim de instrumentistas, toca em falsetes, com excesso de floreios. Estará sempre a quilômetros de Baden.

  8. Marko disse:

    Sem dúvida, um dos maiores músicos da história, agora …as barbaridades q ouvi outros violonistas/guitarristas, principalmente o pessoal da mesma geração, falarem TAMBÉM dele qdo era vivo… sossegaram um pouco depois q morreu, enfim…

  9. Rick disse:

    Tive o privilégio de assistir Toquinho, Paulinho Nogueira e Yamandú tocando juntos. Foi pouco depois da morte de Baden. Os três lembraram que ali faltava um: Baden Powel. Cada qual no seu estilo, mas em uma homenagem ao grande “violão afro-choro-jazz”.

  10. Marcia disse:

    Baden é genial, Yamanduru é bom e tem muita bgente boa que não aprece.

  11. Renato disse:

    Yamandú é ótimo instrumentista, ninguém duvida disso. Moço inspirado, toca com vontade, e ainda sofre (como aponta o Nassif no texto acima) de uma espécie de alucinação típica da juventude talentosa, que se deslumbra consigo mesma – entre amigos, alguns músicos entre estes, brincamos sobre os que sofrem da “síndrome de Yngwie Malmsteem”, numa referência ao guitarrista sueco que, como o Yamandú, sempre toca num compasso mais acelerado, ainda que descabido ou que comprometa a harmonia e beleza da composição. É a necessidade de provar a todo tempo, em qualquer peça, que é virtuoso, ainda que a peça não forneça espaço para tanto. Espero que um dia o Yamandú alcance a tranqüilidade, técnica, inspiração e criatividade do Baden (porque na minha modesta opinião ainda falta bastante, sobretudo a tranqüilidade). Aquele estado de ser e sentir do gênio que se sabe gênio, e que apesar da unanimidade, não se deslumbra com isso, pois sabe que o mundo gira – e não é em torno de si – e, portanto, todas elas tem seu alvorecer… Saudades do Grande Baden!!! Oxalá toque agora nas serestas Celestes!!!

  12. João Cabral disse:

    Agora sim estamos falando de gênio.

  13. Navegador disse:

    Podem rir de mim e achar que é coisa de pai coruja, mas meu filho de 7 meses adora o violão do Baden. Quando está muito irriquieto, naquelas manhas que as criaças fazem quando estão com sono mas não querem dormir, basta botar o Baden a tocar. Ele arregala os olhos, concentra-se em ouvir, se acalma, e devagarinho vai adormecendo. O interessante é que isto não funciona com as canções de ninar tradicionais. Só com as valsas do Baden. Garoto esperto… e pai babão.

  14. Tio-avô disse:

    Baden no vioão e Jacó no bandolim.
    Não esqueçamos também do Catulo da Paixão Cearense.
    Vou ouvir agora “Apêlo” (não resisti à colocação do circunflexo), composição de Baden Powel e Vinícius de Morais, com a Divina.
    Tio-avô

  15. Tio-avô disse:

    Baden no vioão e Jacó no bandolim.
    Não esqueçamos também do Catulo da Paixão Cearense.
    Vou ouvir agora “Apêlo” (não resisti à colocação do circunflexo), composição de Baden Powel e Vinícius de Morais, com a “Divina”.
    Tio-avô

  16. Reynaldo disse:

    Devo ao Baden Powell a minha admiração pelo violão como instrumento musical de alta qualidade. Era jovem ainda quando ouvi o primeiro LP gravado pelo Baden. Aos 19 anos recebi o meu primeiro dinheiro por um biscate para reformar a casa da mãe de um amigo meu. Com este dinheiro comprei meu primeiro toca discos e meus primeiros 7 LP’s, que aliás tenho até hoje. Dois deles do Baden: 0 Mundo Musical de Baden Powel e Os Afro Sambas de Baden e Vinícius. Tive o privilégio de assistir Baden Powell quase duas dúzias de vezes quando se apresentava no teatro opinião em Copacabana em 1969 Ia quase todo dia. Inesquecível. Não tem como comparar com mais ninguém. É infinitamente superior a qualquer um. Era Bach no céu e Baden Powell na terra. Agora estão juntos.

  17. Exatamente, Nassif, este é de fato o Baden, tão bem descrito por você. A capacidade de recriação dele de cada um dos caminhos é impressionante. Baden é um desses casos à parte da nossa história musical. Ele mergulhou livremente neste universo do violão brasileiro com todas as linguagens, como você bem disse, e acrescentou, sem nenhum temor, uma africanidade até a raiz do cabelo. Por isso, sua música é tão visceral, seja na dolência, na delicadeza das valsas, no abuso debochado da rigidez ritimica como mostra de forma genial em “Choro para metrônomo” e “Berimbau” que é a hapotese dessa fusão.

    Não tem jeito, Baden é daqueles gênios que sempre nos emocionam muito.

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