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09/01/2009 - 08:47

Porque a Febraban peitou o BC

Vamos entender melhor esse embate entre o presidente do Bradesco, Márcio Cypriani, e o do Banco Central, Henrique Meirelles, em torno das taxas Selic.

O conjunto de operações de um banco comercial é muito maior do que aplicar em títulos do governo ou montar operações de IPO. Esse papel cabe à sua Tesouraria ou banco de investimento. O crescimento de um banco comercial depende, em grande parte, do crescimento e da modernização da economia real.

Embora os bancos comerciais tenham sido beneficiários do modelo implantado a partir de 1992 – e consolidado a partir de 1994 – o setor hegemônico do jogo foram os gestores de recursos, atuando de forma independente ou dentro da estrutura maior dos bancos comerciais.

Esse sistema que consolidou o poder ideológico do Banco Central é integrado pelos seguintes personagens:

1. Os gestores de recursos.

2. Economistas, analistas e operadores de mesa, em geral tendo a maior parte de sua remuneração através de bônus de desempenho.

3. Membros dessa comunidade servindo provisoriamente no Banco Central.

A rede de relacionamentos do BC é com esse escalão. Fosse um BC sério, iria buscar o pulso da economia com o Márcio Cypriani, o Abilio Diniz, o Jorge Gerdau, a CUT e a Força Sindical, as Federações estaduais, os grandes atacadistas.

Mas, em vez de falar com o Cypriani, eles falam com o Otávio de Barros; em vez do Fábio Barbosa, com o “professor de Deus”. Os mais seletivos falam com Luiz Carlos Mendonça (que representa o interesse dos gestores).

É um clube fechado, que se autoprotege. A Pesquisa Focus – que visa ascultar as expectativas do mercado – passa ao largo da economia real. Todas as decisões do BC não visam beneficiar os bancos em si, mas a atividade dos bancos diretamente relacionada com arbitragens de taxas, captação de investidores externos.
Os bancos comerciais aceitavam esse jogo porque ganhavam pesadamente com a Tesouraria. Quando retomaram a função de emprestar, acabou o pacto ideológico.

Com a economia ameaçada pela recessão, o risco de inadimplência aumenta substancialmente, criando um círculo vicioso. Selic alta aumenta as taxas de captação, reduz o spread dos bancos e os torna muito mais seletivos na concessão de crédito, espremendo gradativamente os clientes para fora do mercado de crédito. Quanto maior a recessão, maior o aumento da inadimplência.

Para o BC, pouco importa. Nos últimos anos, o BC permitiu a expansão das atividades offshore, fechou os olhos a atividades criminosas – exemplos típicos, os dez anos de lambança de Edemar Cid Ferreira, as aventuras em Foz do Iguaçu, o caso Banestado – e toda análise de juros levava em conta a relação custo x benefício para os gestores de recursos.

O jogo acabou mundialmente. A quebra do sistema americano de bancos de investimento, os bancos suiços sob investigação internacional, a estatização do sistema bancário europeu decretaram o fim do ciclo.

No Brasil, como tudo chega atrasado, ainda se terá que aturar por algum tempo essa poder do BC.

Por Guilherme Silva Araújo

Nassif,

Acho que nesta questão ajudaria resgatar o debate sobre o papel das inovações financeiras e o debate sobre endogenia da moeda. O Banco Central tem se mostrado fundamentalista ao julgar que apenas o instrumento “taxa de juros” é suficiente para controlar os agregados monetários. As inovações financeiras dos últimos quarenta anos deram às instituições financeiras um poder muito grande de criar moeda. Vide o exemplo dos derivativos: Para aumentar sua soma de encaixes reais e o volume de empréstimos, os bancos norte americanos passaram a comercializar tais ativos, comprometendo assim seu capital próprio. Na medida em que as instituições menores começaram a mostrar sinais de que não tinham recursos para pagar os empréstimos, engendrou-se um clima de incerteza porque as maiores tinham créditos a receber das menores. Como todas comprometem seus capitais para elevar seus encaixes reais e o volume de empréstimos, as chances de quebradeira se tornaram evidentes.

Segundo Minsky (Estabilizing an Unstable Economy), o sucesso dos Bancos Centrais em regular a oferta de moeda depende muito mais do marco legal existente do que da taxa de juros. Contudo, devido ao ritmo frenético com que as inovações ocorrem nos mercados financeiros, os marcos legais tornam-se obsoletos muito rapidamente. Neste sentido, os Bancos Centrais são mais eficientes como emprestadores de última instância, ou seja, como agentes normalizadores das expectativas. O BC brasileiro é falho em normalizar expectativas porque julga a taxa de juros instrumento suficiente para controlar a oferta de moeda. em um contexto com sinais de endogenia (tal como ocorre conteporaneamente), mudanças da taxa de juros têm pouco efeito sobre o volume de liquidez, principalmente se os agentes não desejam emprestar.

A reclamação do Bradesco é válida, mas vai falar sozinho. O Bradesco, julgo eu, é um banco que guarda sólidas relações com a economia real, que tem um tino comercial, ao contrário das demais instituições, que direcionaram suas operações para os títulos públicos e outras quasi-moedas. Devido a estas relações, o sucesso do Bradesco depende muito do funcionamento da economia real. Mas não acho que os demais bancos serão solidários, até porque continuam batendo recordes de lucratividade mesmo no atual contexto. Abcs

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crise, Economia Tags: , , ,

30 comentários para “Porque a Febraban peitou o BC”

  1. Roberto São Paulo/SP disse:

    Em vários países se têm uma política monetária indepedente do resto da Polítca Econômica, isto não é nenhuma novidade.

    Não creio ser a melhor maneira de se conduzir a economia, isso é coisa do livre mercado, do qual vamos ficar um bom tempo afastado.

  2. Roberto São Paulo/SP disse:

    Ou melhor já está havendo redução da renda, em função da queda horas e dias trabalhados, mas não na magnitude em que está ocorrendo a queda das vendas de bens duráveis, principalmente automóveis.

  3. andrenf disse:

    De fato

    - As taxas elevadas beneficiam as tesourarias e gestores de recursos – os spreads e fees são maiores – atuei em asset management >> + bônus pra todo mundo!

    - Os Diretores e Presidente do Banco Central “guardiões da moeda” não possuem qualquer vinculo com o setor real – a balança fica desfavorável para o setor produtivo nesse contexto. Eles não sabem o que é uma fabrica fechando pela apreciação do real

    - O Conselho Monetário Nacional também não possui participantes do setor produtivo…de novo

    - O Banco Central é independente somente do governo > porém É DEPENDENTE DO MERCADO > muitos deles vão trabalhar nas tesourarias e gestoras de recurso após o mandato.

    >> Nesse contexto a que se pensar no conceito de independência > se na nomeação da diretoria houvesse um equilibrio de economistas desenvolvimentistas poderiamos ter um independência com sobriedade.

    - acho piada as reuniões do COPOM – 0,50% de aumento ou dimuição diante da maior taxa de juros no mundo 13,75% > numa economia com taxa de 4% a.a o 0,50% é representativo. No nosso caso faz um dano psicologico absurdo….

    - Ainda bem que o BNDES não caiu na mão da mafia do mercado..ufa

    Até quando o nosso governo terá medo do “Mercado” >> 4 duzias de tesourarias e gestoras de recurso – destroem as expectativas de crescimento.

    O Lula poderia aproveitar o caos mundial para mudar este circulo vicioso que estamos desde a decada de 90.

  4. Humberto Alencar disse:

    Meireles e toda diretoria do BC pedem demissão!
    Sonho meu,sonho meu……..

  5. flics disse:

    Flávio! Flávio!
    Flávio! Flávio!

    Qual é a bronca bicho? Eu escrevi alguma coisa contra? A popularidade do Lul*a é um fato. O que digo é que um dos pilares dessa popularidade é o “pacto” com o BC: segurar a “meta de inflação” e o resto tocado com isso mesmo, o resto. Não interessa nem saber se os métodos adotados pelo BC são necessários ou não. Eles tem total independência e a usam para favorecer o setor rentista. Só um novo equilíbrio entre esses setores e os setores que estão sendo prejudicados (da classe dominante, claro) vai modificar a situação.

    É esse o meu entendimento do post do Nassif.

    O Lul*la NÃO é um estadista. O horizonte dele é o seu mandato.

    “Pior para vocês”, quem bicho? Eu sou brasileiro, quero o melhor para povo ao qual pertenço.

  6. nassif:
    dizer que a popularidade do lula tem relação com “metas de inflação” é
    de um ridículo sem tamanho.
    romério

  7. Daniel Q. P. disse:

    Sem querer ser chato, mas não é Marcio Cypriano ?

  8. Oda Nobunaga disse:

    Eu tenho uma previsão para a próxima reunião do Copom:
    O BC VAI MANTER AS TAXAS DE JUROS.

    Vão dizer que o IPCA de 5,9% em 2008 ficou além do centro da meta e quem
    sabe, né? O Lula perde a paciência e manda todos pra casa e o abacaxi fica
    para outro.

  9. André Brum disse:

    Nassif,

    estou escrevendo no sábado pelo manhã. Acabo de assistir a uma matéria na TV Senado sobre a proposição do Sen. Arthur Virgílio que trata da autonomia legal do BC. Qualquer um pode pensar o que quiser sobre o assunto, mas a abordagem do repórter era de apoio à proposta, pois não considerou sequer a possibilidade de controvérsia sobre o tema. Pelo que se vê, autonomia só do Poder Executivo, mas com vínculo visível com os operadores. É sopa no mel.

  10. Flics disse:

    Meu Caro RR:

    O “pacto” do Lul*a com o BC é bem simples.:O BC segura a inflação dentro do que eles chamam “meta de inflação” e para isso eles tem autonomia total. Não importa o preço. E sim, acho parte da popularidade do Lul*a vem dai.

    Esta é a MINHA opinião. Tu podes concordar ou não. Tu podes entender ou não. Tu podes manifestar a tua opinião ou não. Mas sempre mantendo o respeito pela opinião alheia. Pelo menos esta tem sido a regra por aqui.

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