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28/12/2008 - 09:38

A fraternidade da Satiagraha

Da Folha

A missão
Por Jânio de Freitas

A MAIS RECENTE novidade da Operação Satiagraha não se refere a grampo telefônico, não é criminal, não é policial, nem envolve ministro querendo derrubar alguém para dominar o seu cargo. É mais simples do que estes componentes ainda muito obscuros, também não está desvendada de todo, mas não é mais inofensiva do qualquer deles. Ei-la: a condução da Satiagraha orientou-se por uma espécie de sociedade ou fraternidade de fundo religioso, presente nos três âmbitos coordenados para a operação -o policial, o do Ministério Público e o judicial.

Esse vínculo imaterial é a fonte do caráter de missão justiceira e saneadora da sociedade, sobre a qual o delegado Protógenes Queiroz fala com crescente desenvoltura e exaltação, a seu próprio respeito, e o juiz Fausto De Sanctis o faz à sua maneira, com mais comedimento formal, mas total clareza de sua convicção missioneira, inclusive pelo despojamento em relação à carreira no Judiciário. O que o delegado Protógenes Queiroz também faz, agora, com a recusa à oportunidade de passar à política, que lhe é oferecida pela notoriedade e pelo PSOL.

A Satiagraha não é a primeira operação cujas características foram influenciadas pelos propósitos e maneiras da fraternidade. Antes houve ao menos uma em grande escala: a operação que prendeu o banqueiro Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos, manteve-o encarcerado por prazo incomum e tomou-lhe, entre outros bens, a estupenda coleção de arte, raridades e arqueologia. A propósito, o juiz De Sanctis determinou agora que as peças sejam expostas, por considerar que a coleção de arte é um bem público, não privado.

O delegado Protógenes Queiroz passou a ostentar na lapela, recentemente, uma imagem de santa.

Comentário

Na verdade, o que Jânio chama de fraternidade, são apenas funcionários públicos sérios, empenhados em cumprir corretamente seu trabalho. Assim como existem muitos jornalistas sérios amarrados por esse pacto inominável de defesa de Dantas. Mas poucos deles, como o próprio Jânio, com coragem para enfrentar a maré.

As ótimas observações sobre o comportamento de Protógenes e De Sanctis chamam a atenção para um ponto relevante: para enfrentar esse jogo criminoso, foram buscar forças na fé, na família, na crença no país.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Mídia Tags: , , ,

105 comentários para “A fraternidade da Satiagraha”

  1. Sérgio Notari disse:

    Que comentário inteligente! Tão sem intenção de desqualificar a investigação do delegado Protógenes, tão isento! Por comentários como esse é que me pergunto: O que seria de nós sem a análise de JF?!! Jornalismo analítico é isso; perceber a santa na lapela do Protógenes e identificar uma possível veia fundamentalista no delegado que quer prender o probo DVD.
    Continue assim JF. Certamente o OFF, o mano e o papai, lá no céu, ficarão muito orgulhosos de você.

  2. jcslopes disse:

    Nassif, é como eu já disse, o barco está afundando e eles estão inventando, falando e fazendo, tudo que for possível, na tentativa de estabilizá-lo.
    O jornalista em questão, está pensando em pular fora, mas ainda não tem certeza e coragem, bem como não sabe a força do pulo e acha que pode cair dentro d´água…..
    Afinal de contas, a Folha não é um jornal com bases religiosas?… Sdc

  3. Mauro disse:

    O Jânio de Freitas também é da “tropa” de defesa do Dantas? Isso seria decepcionante. Tão decepcionante quanto essa nota dele ser parcialmente verdadeira. Por que? Já que o post falou em remar contra a maré, como já escrevi em comentários anteriores, tenho pavor dos paladinos da moral, ainda que eles acertem de vez em quando.
    O Protógenes, para mim, é um paladino, assim como aquele Procurador Luiz Francisco (muito em voga na era FHC, lembra?). Você, Nassif, defendeu na época o Eduardo Jorge. Teve coragem. Pois eu não vejo diferença entre o Luiz Francisco e o Protógenes. São ambos imbuídos de espírito missionário, salvacionista. Isso é horrível, ainda que, repito, acertem de vez em quando.
    Sou filiado ao PT e conheço de perto esse lado moralista de parcela da esquerda. A maior parte desse pessoal (que perpassava todas as correntes do partido) foi para o PSOL após o mensalão. Aqui no Rio essa turma moralista estava toda na esquerda do partido, onde eu militava (hoje, estou muito afastado, pois no Rio o PT está pior e mais inoperante que antes).
    Essa “tendência” da esquerda brasileira vem da forte influência que as CEBs exerceram na formação política de um grande número de militantes. Mistura de marxismo com milenarismo, que hoje vejo ser terrível. Esse pensamento moldou o caráter de figuras diversas, que atuam em áreas distintas, como Dom Cappio, Heloisa Helena, Protógenes, Luiz Francisco. Nada planejado, como a “maçonaria” descrita pelo Jânio, mas pessoas com premissas políticas comuns. Tal qual os economistas formados pela PUC-Rio: podem ser diferentes um do outro, mas têm muitas coisas em comum.
    Assim, o que me deixa tenso nessa história do Dantas é que não está havendo espaço para o “veja bem”. É cheio ou vazio. Ou se ridiculariza a investigação toda (safando, portanto, Dantas) ou se defende de olhos fechados, endeusando o Protógenes e o Sanctis. Eu não compraria o carro usado do Dantas e compraria o do Protógenes, mas não votaria em nenhum dos dois.
    A opção não pode ser entre o cinismo e a canalhice de um lado e o moralismo salvacionista do outro. Não quero o privado misturado com o público, a corrupção endêmica, mas também não quero um Robespierre ou um estóico autoritário.
    Dá para conciliar? Claro que dá.

  4. Ana disse:

    Nassif
    Há algum tempo venho notando que o jornalista Jânio de Freitas, vem fazendo severas críticas aos servidores públicos sérios que procuram realizar as suas funções dentro da legalidade e na defesa do bem público como reza o código do Direito Administrativo do setor Público. Sempre admirei Jânio e nas muitas vezes que discordei dele não deixei de respeitá-lo, mas ultimamente a postura dele neste caso de Daniel Dantas me surpreendeu. Fico pensando, será que DD está pagando um salário a êle ou a alguém muito próximo e querido dele?

  5. Antonio Pinto de Oliveira Neto disse:

    Apesar de ter deixado de ler a folhasp após sua guinada psdbistademonológica, mantive o respeito por alguns de seus articulistas. Jãnio é um deles. Mas neste artigo dele que leio em seu post Nassif, a palavra que me atravessou a cachola foi: dubiedade, dubiez, dubieza, dúbio. Fui até no Houaiss para reconferir seus diversos sentidos. Texto que vacila, hesita, vagueia.

    A Operação Satiagraha, não sei porque, causa na tradicional prensa brasileira uma enorme miopia. E as melhores intenções acabam por se revelarem vesgas.

    Sei lá, quem sabe são as forças, aquelas ditas ocultas. Fenômeno em que um astro deixa de ser visível devido a alguma interposição entre o observador e o astro em questão.

    Ressalte-se que uma prensa ptmdbista também não seria solução para a questão. Talvez, apesar do esforço de alguns, não seja mais possível um bom e legitimo jornalismo nas bancas. O sol nas bancas de revistas foi eclipsado. A alegria, alegria que nunca será plena, migrou para os bons blogs. Afinal, quem lê tantas noticias?

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