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20/12/2008 - 11:57

Sobre Satigrahas e lixos

No dia em que a Polícia Federal constatou que não há nenhuma prova sobre a existência do tal grampo no Supremo, a Folha deu destaque absoluto à entrevista de Gilmar Mendes – que não tem uma informação relevante sequer – e escondeu a nota sobre o fato em que há suspeita de um crime contra o Estado.

Como se explica?

Na página 2, o seguinte artigo de  Mário César Carvalho, na Folha, sobre “O lixo da PF”.

Veja o que ele escreveu:

(…) Na mais importante investigação do ano, num caso que junta eventuais crimes financeiros e lavagem internacional de dinheiro, suspeita de corrupção e tráfico de influência na ante-sala do presidente Lula, a PF fracassou.

O maior sintoma desse fracasso foi a decisão da cúpula da polícia de refazer o inquérito depois de três anos de investigação. Refazer inquérito é coisa de ditadura, de polícia pretoriana. Parece encomenda dos donos do poder para calar desafetos ou evitar que a investigação chegue à ante-sala do presidente.

(…) O resultado dessa combinação é um inquérito esquálido em fatos e adiposo em adjetivos. O silêncio do Ministério Público diante de tantos indícios de irregularidades da PF mostra que os fiscais do poder cochilam justamente no momento em que mais se precisa deles.

Dentro da PF, a palavra mais delicada a que se referem ao inquérito de Protógenes é lixo. É conversa corrente entre delegados que boa parte das provas devem ser anuladas pelas instâncias superiores da Justiça por causa das ilegalidades.

(…) É essa polícia mais republicana e mais técnica que saiu ferida na Satiagraha. A baixa qualidade da investigação mostra que a PF ainda não tem um padrão de qualidade, só para usar uma imagem cara à Globo. Uma polícia errática, com investigações cuja qualidade varia conforme o titular de plantão, é atalho para a impunidade.

Não adianta depois tentar culpar o Supremo, com a fantasia recorrente de que os ministros protegem poderosos. O que se espera da polícia são investigações de qualidade, não teorias conspiratórias.

Não apresenta uma informação sequer sobre qual prova será anulada, sobre quem considerou o relatório esquálido e faz uma defesa do Supremo na qual Gilmar Mendes (que esta semana foi recebido na Folha pelo próprio diretor de redação) sequer analisou o mérito do relatório em si, mas uma decisão específica: o pedido de prisão consubstanciado em uma tentativa de suborno amplamente documentada.

Confira, agora, o que o próprio repórter escreveu em 14 de novembro passado:

(…) Esqueça as idéias grandiloquentes de conspiração e o apelo de chamar banqueiro de “capo” (chefe mafioso) -características que contribuíram para tornar folclórico o inquérito do delegado Protógenes Queiroz sobre a Operação Satiagraha. O novo relatório da Polícia Federal sobre Daniel Dantas é seco como um artigo do Código Penal. Em vez de teorias e especulações, o delegado Ricardo Saadi se concentra em descrever os crimes principais que a PF atribui ao banqueiro: gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro.

(…) As principais questões apresentadas no relatório da PF foram investigadas por Protógenes e já faziam parte do inquérito que se tornou polêmico pelo estilo derramado e conspiratório. Os documentos apreendidos pela PF no dia em que a Operação Satiagraha foi deflagrada, no dia 8 de julho deste ano, são citados brevemente.

(…) Assim como os policiais que participam da investigação, o procurador da República Rodrigo de Grandis refutou ontem a idéia difundida pelo ministro Tarso Genro (Justiça) de que Saadi estava “refazendo” o inquérito de Protógenes.

“Não tem nada a ver [com refazer]. O que há agora é um aprofundamento do que já foi feito. As investigações da Satiagraha foram os primeiros passos. É natural que agora se priorize alguns aspectos”, disse após evento no Ministério Público. De Grandis ressaltou que nenhuma prova do inquérito de Protógenes será descartada.

Por Guilherme Hanesh

Quem escreve que o relatório do delegado Protógenes é “um lixo”, ou não leu o relatório e repete a ladainha que se propaga entre o corporativismo de parte da comunidade jurídica, ou leu o relatório e não entendeu, ou leu, entendeu e tem medo dele. O fato de ser “adiposo em adjetivos” é um problema de estilo. Tanto quanto as “brilhantes” peças de Nélio Machado, sempre cheias de adjetivos e substantivos muitas vezes inventados.

O relatório do delegado Protógenes, ao que se saiba, não está nem sendo refeito, muito menos foi descartado, mas sim, apenas, complementado.

O relatório traz pelo menos uma informação que já seria suficiente para fazer valer todo o ano da Polícia Federal: a lista de cotistas do Opportunity Fund que remeteram dinheiro irregularmente ao exterior e todo o mecanismo pelo qual isso era feito. Esse é o maior escândalo de todos. É lá que estão os podres da Nação. É lá que está o esquema dos tubarões. Dantas era um operador deste esquema, e para isso construiu uma rede de corrupção que atinge o Estado e suas autarquias, que atinge a imprensa (por onde manipulava fatos enquanto jogava com informações privilegiadas o dinheiro dos cotistas na bolsa) e que atinge o Judiciário, para não falar de lobistas e espiões. Isso é Dantas. Isso é o que Protógenes se esforçou para mostrar. Isso é o que a imprensa tenta esconder.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Mídia Tags: ,

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43 comentários para “Sobre Satigrahas e lixos”

  1. Marco Vitis disse:

    Guilherme Anesh disse tudo o que penso. O foco tem que ser os milhões de dólares ilegais que a Operação Satiagraha identificou. Esse é o cerne e o que mais vair doer em certas personalidades…

  2. João Vergílio disse:

    Paladino,

    Pelo que têm dito pessoas muito mais preparadas do que eu, o relatório do delegado Protógenes tem defeitos, sim. Foi elaborado às pressas, e sob uma pressão enorme vinda de dentro e de fora da polícia. Pecou, ao que parece, por excesso em alguns pontos. Utilizou uma linguagem um pouco marcada pela emocionalidade aqui e ali. Mas a investigação comandada por ele reuniu um conjunto robusto de evidências contra um dos homens mais poderosos do país. Um homem que, depois de concluída a investigação, mostrou-se capaz de mobilizar autoridades da cúpula dos três poderes para ajudá-lo a se safar da cadeia. Ora, qual é a figura e qual é o fundo neste caso? O que deve ser ressaltado? Os pequenos defeitos que, se catados com a mesma tenacidade e com o auxílio das mesmas lupas, permitiram que críticas semelhantes fossem feitas a 99% dos inquéritos policiais do Brasil? Ou sua enorme e evidente qualidade, de ter conseguido reunir boas e fartas evidências de que Daniel Dantas comandava (e aparentemente continua comandando) um dos maiores esquemas de currupção e de lavagem de dinheiro do país? Esse é o ponto.

  3. alirio disse:

    Ao advogado do diabo: as conexões da imprensa com o Daniel Dantas são ridículas?? Até as gravações que demonstram a estratégia de assassinar reputações? Para quem não está aqui a soldo, e quer a apuração da verdade, não há graça nenhuma.

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