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Arquivo de agosto, 2007

20/08/2007 - 10:14

Meu tipo inesquecível

Coluna original de 28/12/1994

Meu tipo inesquecível foi um advogado. Com ele aprendi o significado da sua profissão, o devotamento solitário e fervoroso à causa, a solidariedade ao cliente, o culto aos valores essenciais que tornam o advogado instrumento permanente de consagração dos direitos individuais.

Doutor Francisco Rangel Pestana era advogado da “Folha” quando, em 1984, meti-me no meu primeiro processo –uma interpelação de um curso de inglês denunciado na recém-criada seção “Dinheiro Vivo”. Otávio Frias Filho alertou-me, brincando. “Vá falar com o dr Rangel. Se ele for com sua cara, você esta salvo. Se não for, precisamos arrumar outro advogado”.

Subi à sua sala, no décimo andar do prédio da “Folha”. Atrás de pilhas de processos, estava a figura alta e grisalha, mais de setenta anos, olhar severo por cima dos óculos, medindo o interlocutor. “Vocês jornalistas são todos uns irresponsáveis”, começou ele, “parece que não atentam para o significado das palavras”. E indagou o que eu tinha querido dizer com determinada expressão forte a respeito do curso. “Isso mesmo que as palavras significam”, respondi-lhe, algo mordido. “Você tem provas sobre o que está afirmando?”, continuou ele. “Tanto tenho, que escrevi”.

Sua expressão foi mudando. “Posso escapar pela tangente e dar uma explicação que satisfaça o advogado da parte contrária ou posso partir para o pau. O que você prefere?”. Expliquei-lhe que o curso em questão tinha procurado aproximações pouco ortodoxas comigo, e que preferia que ele partisse para o pau. Seu olhar iluminou-se. “Então, vamos para o pau”. E ficamos amigos.

O decreto do Cruzado

Tempos depois, no governo Sarney, envolvi-me num processo maior, movido pelo consultor-geral Saulo Ramos em função de denúncias de alterações na segunda edição do Plano Cruzado –recriando as indústrias da concordata e da liquidação extrajudicial.

Rangel Pestana assumiu a defesa, num momento em que o país mal saía das fraldas do autoritarismo. Foi uma guerra. No meio do processo, saí da “Folha” e abri mão da defesa judicial proporcionada pelo jornal. Orgulho besta, já que não tinha condições financeiras de contratar um advogado.

Fui me despedir do dr. Rangel, e agradecer seu empenho. “Você não está satisfeito com meu trabalho?”, indagou preocupado. “Pelo contrário, é que estou saindo do jornal e o senhor é advogado da ‘Folha’”, expliquei-lhe. “Engano seu. A ‘Folha’ me paga, mas meu cliente é você”, respondeu. Resolvi abrir o jogo. Disse-lhe que não tinha condições de pagar seus honorários. “Quem falou em honorários?”, redargüiu.

Sua atuação no processo foi heróica. Com problemas de saúde, chegou a sair direto do hospital para comparecer a uma das audiências, e retornar em seguida.

Quando o processo terminou –ele vencedor– já tinha condições de pagar ao menos parte dos seus honorários. Não aceitou. Comprei um jogo de canetas e fui visitá-lo em sua casa. Foi pouco antes de sua morte. Levei lá minhas filhas pequenas. Depois fomos até a Livraria Cultura, que mantinha um encontro todo sábado com jornalistas, poetas e escritores. Lá ele bebeu, divertiu-se a valer, contou histórias da mocidade, sua relação com Roberto Marinho, com a Antárctica.

Pouco depois morreu, deixando em mim lembranças para toda a vida.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
18/08/2007 - 09:45

O medo brasileiro

Publicada originalmente em 24/10/2003

Quando tinha cinco anos, minha filha me dizia que acordava de noite com medo, por causa de “sonho ruim”. A Mariana, hoje com 27, também passou por esses medos. Mas tinha uma babá que a embalava ao som de “boi, boi, boi do curá / pega essa menina que não quer mamá”.

O medo sempre fez parte da nossa cultura. Foi companhia permanente das nossas infâncias, muitas vezes trazido por babás e empregadas e suas histórias maravilhosas.

Menino ainda, provavelmente com a idade da Beatriz, tinha “sonhos ruins”. Imaginava o vendedor de amendoim fazendo plantão na frente de casa, em plena madrugada. A casa, então, não tinha grades e dava para o largo do São Benedito, um enorme terreiro onde, nos meses de abril e maio os congos traziam seus cantos rituais. Mas nem os espíritos dos congos que povoavam o São Benedito nos protegiam do medo do vendedor de amendoim.

Espalhou-se na época que o vendedor de amendoim era “tarado”. A gente imaginava que ele entregava amendoim enfeitiçado para os meninos que, depois de ficarem grogues, eram algemados e chicoteados. Nosso conceito de tarado não ia muito além disso.

Quando se reuniam minha mãe, minha avó Martha e minha tia-avó Mariana, aí o medo e a tragédia corriam soltos. Eu ficava encolhido enquanto elas contavam a história da linda normalista de São Paulo, que pegou o ônibus para casa, foi seguida por um marginal que a matou. Os crimes eram tão escassos na época que, cada qual, rendia uma novela caseira. São Francisco de Assis e o Sagrado Coração de Jesus me ajudaram a enfrentar os pesadelos que sempre se seguiam aos “causos” das três.

Nos anos 50, em Poços de Caldas, estávamos a léguas de distância de ter medo de ET. Nosso medo era concreto, de personagens que habitavam as fazendas –como sacis, caiporas, lobisomens e mulas sem cabeça. Tio Zito Vilela quase quebrou quando descobriram uma criação de sacis em sua fazenda em São Sebastião da Grama e houve uma debandada de colonos.

A história da região começou a mudar lá pelo início dos anos 70. Fui a São Tomé das Letras a serviço, por ocasião daquele fiasco que foi a visita do cometa Kohoutec, para saber o que os moradores achavam do cometa, da perspectiva de fim do mundo, e dos teosofistas que se mudaram para lá atrás de uma carona de disco voador, antes que o tal do mundo se acabasse.

Subi a pedreira, abri a porta da igreja, dei de cara com a pintura de um barão de olhar alucinado. Ao lado, uma velhinha quase nonagenária que tomava conta da igreja. Indaguei se era verdadeira a história. “É verdade”, confirmou. “E eles viram algum disco voador”. A velhinha, taxativa: “Nenhum”. “E a senhora, já viu algum?”. E ela, com ar de enfado por trás das lentes grossas dos óculos: “Eu? Estou cansada de ver”.

Foi o período em que os sacis começavam a ser expulsos do sul de Minas pelos discos voadores. Era o prenúncio do ET de Varginha.

Com o tempo, esses medos maravilhosos, mágicos, parte intrínseca da cultura brasileira, parte essencial de um país que ainda não se urbanizara, vão cedendo lugar a outras formas, mais contemporâneas e cruéis de medo.

Primeiro, o medo de enfrentar a metrópole, a primeira profissão, o medo das primeiras opções de vida. Em muitos, vi o medo do desemprego.

Nos anos 70, havia o medo permanente da tortura, pelo menos na nossa profissão.

E quem era o pai que nos confortava a todos? Quem me refresca a memória é o leitor Celso Dival Moreira Lima que me enviou e-mail sobre o caso Galdino, desses da gente guardar para sempre, sobre a necessidade da coragem para enfrentar o estabelecido, a unanimidade e a sede de sangue: “O maior cristão, talvez o único, que eu conheço é Dom Paulo Evaristo Arns, que teve até parte da sua Igreja voltando-se contra ele por ser o porta-voz dos oprimidos. Um preso político certa vez comentou: “Ele colocava a mão em meus ombros e falava apenas três palavras: coragem, coragem, coragem”. Esta é a única oração que eu até hoje aprendi”.

Para incluir na lista Crônica Semanal

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
11/08/2007 - 19:31

Das pequenas lembranças inesquecíveis

Do que minhas filhas irão se lembrar de mim, de que gesto, que molecagem, que pito, que conselho? Lá sei eu.

Outro dia conversava com o Paulo Leandro, diretor de jornalismo da TV Cultura, neto do grande compositor paulista Marcelo Tupinambá. O avô já velho, enxergando pouco, levava o Paulo, com cinco anos, o irmão dele, com seis, para andar de bonde. Em um dos passeios, Paulo pediu ao avô se podia descer do bonde pela janela. O avô não se fez de rogado. Foi até o motorneiro, cochichou alguma coisa. O bonde parou, Tupinambá desceu e tirou o neto pela janela.

Que neto há de esquecer?

Meu pai não chegava a essas liberalidades. Mas as melhores recordações dele são os pequenos gestos. Lembro-me, talvez com cinco anos, levantando de manhã, antes de ele abrir a farmácia, para uma volta na Circular de Poços. Chegávamos ao ponto final, descíamos, meu pai comprava uma guloseima em um carrinho, não sei se doces ou milho. Comíamos, depois entrávamos no Circular e voltávamos para casa. Só isso. Inesquecível!

Outra lembrança antiga era ele me dando a mão para andar na rua. Tinha um tique, um jeito de passar o afeto discreto, que era roçar com o mindinho a borda da minha mão. Com todas as minhas filhas repeti esse gesto. E em cada afago de mindinho me lembrava do seu Oscar e sua afetividade discreta.

Lembro-me como se fosse ontem da primeira vez que ele e dona Tereza me levaram ao cinema. Foi em uma sessão noturna. Acho que era um musical com o herói de guerra Audie Murphy. Eu era tão pequeno que, durante anos, me ficou a sensação de drama. No musical, há uma cena em que o mocinho leva uma martelada na cabeça e desmaia. Só décadas depois assisti novamente e descobri que ele era acordado por um beijo da mocinha.

O que mais me impressionou não era o filme, mas eu segurando as mãos de ambos, a caminho do cinema, olhando para cima, aqueles dois adultos imensos, poderosos, protetores, conversando em voz baixa, rindo de forma cúmplice. No cinema, a mesma sensação. Um comentava algo com o outro, que ria baixinho. Esticava a orelha tentando captar a conversa, mas não conseguia.

Do que minhas filhas irão se lembrar? Luizinha, certamente, do dia em que a deixei no Shopping Eldorado, depois fui buscá-la. Tinha um dos primeiros celulares. Ela me ligava de orelhão informando a posição. Pedi para ficar na porta do shopping. Passei, e nada. Meia hora para me ligar de novo. Pedi que ficasse na porta do supermercado. Outra volta, e nada. Mais meia hora, me liga de novo. Já impaciente, pedi que ficasse na porta do McDonalds. Estacionei o carro, fui até lá, e nada. Aí ela me liga, do alto de seus dez anos:

– Papai, em que shoppings você está?

– No Morumbi, ora!

– Mas você me deixou no Eldorado.

Pausa.

– Papai, sabe o que somos?

– Diga.

– O Debi e o Lóide (uma dupla que fazia filmes de humor na época).

Quem esquecer há de? Ou quando deixava a Maricota na Escola Pacaembu, e, na frente das amiguinhas, gritava para ela voltar a pedir a “bença”? Certamente Luizinha não se esquecerá jamais do dia em que joguei sorvete em sua cabeça, ela saiu correndo atrás de mim para descontar e, nesse instante, entram em casa quatro coleguinhas, certinhas como ela. Ou mesmo quando íamos para a banheira, eu enchia de espuma que ia crescendo, crescendo, até transbordar. E a Luizinha, naquele tempo com uns seis anos:

– Acho que mamãe vai dar uma bronca em nós!

Não sei se Maricota se lembrará de quanto ficava com ela para a mãe ir lecionar, trocava a fralda, que ficava sempre do avesso.

Bibi jamais se lembrará quando, com menos de um ano, a mãe pedia que eu desse banho, e ela escapava feito bagre ensaboado das minhas mãos e deslizava pela banheira. Mas vai lembrar quando viajamos sozinhos para João Pessoa, ela com apenas cinco anos. Dois anos depois, preparou um diário para a escola com o feito mais relevante de cada ano de vida. Com cinco anos, foi a viagem com papai.

Cacá certamente se lembrará do dia em que contou para o vovô que pretendia mudar de nome quando completasse 18 anos. A razão? Os colegas que mexiam: “Clara, onde está a Gema?” E vovô sugeriu que trocasse o nome para Omelete Nassif. Certamente se lembrará da “tia” Dodó, do alto de seus sete anos, recomendando: “Ignora, Cacá, ignora”.

Outro dia, provocadas, as três menores admitiram que o papai (e vovô) era chato. Aí indaguei:

- Querem que eu deixe de ser?

E elas:

- Assim está bom, mas não pode aumentar.

Neste dia dos pais, teremos um almoço com todas, preparado pela primogênita Mariana. Luizinha, minha primeira caçulinha estará fora, em Buenos Aires para onde se mudou. Antes de ontem, conversei com ela pelo MSN. Na despedida, me disse:

– Boa noite, papai.

Achei que depois de certa idade, as nossas crianças deixassem de falar “papai”. Ainda bem que não.

Para incluir na lista Crônica Semanal

Enviado por Luizinha de Rodinha

Papai,

Acabo de ler sua crônica (chorando), irei me lembrar do quanto você é carinhoso, afetuoso, tão afetuoso que às vezes se perde nas palavras e atitudes. Vou me lembrar de quando cheguei perdida em paris e lá você estava … de braços abertos, e me colocou de baixo das suas asas e eu dormi tranqüila, vou me lembrar de quando você e mamãe se separaram e você foi me ver jogar minha partida de futebol, ou de todas vezes que eu fui parar no hospital por me aventurar em meus esportes radicais rs e você largava seu dia corrido para ver se estava tudo bem e ali parecia esquecer de tudo, estaria a me proteger apenas estando ao meu lado e dizendo que tudo ficaria bem.

Me lembrarei dos sorvetes no Santa Rita (troféu porquinho), lembrarei da minha festa de 15 anos, me lembrarei de quando brigamos e eu devolvi Tudinhoo a você, lembrarei de quando fiquei mocinha e você me levou dar uma volta de carro, como deve ter sido difícil pra você, homem, pai e tendo que dar conselhos de mulher e mãe, e quer saber fez muito bem… lembrarei de tudo e com certeza os pequenos momentos, que passam despercebidos são os que marcam… estes sim são os de grande valor… às vezes expressadas materialmente, mas com o fundinho sentimental (estes sim valem).

Pensei demais em você hoje, queria estar ai com vocês, com minha família, te dando aquele beijo e parabéns e dizendo que você é o melhor pai que podia ter…

Então mesmo distante… deixo aqui meu amor por você, deixo meu agradecimento pelo pai maravilhoso que é, pela pessoa honesta e guerreira que nos ensina todos os dias como é cair na batalha diária…

Agora…. espero-te na MINHA casinha, na terrinha do vovô, para darmos voltas, tomarmos vinhos, descansar a mente e o coração, escutarmos uma boa musica e comer uma boa comida rs :-)

Amo você meu papai (alias sempreeee papai)… aqui comigo sempre

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
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