Pena Branca e Xavantinho
A primeira vez que ouvi Pena Branca e Xavantinho creio ter sido no programa “Vitrine” da TV Cultura de São Paulo. Vou lhe contar, poucas vezes na vida uma interpretação me pegou daquele jeito, de ficar suspenso no ar sem conseguir respirar, como a emoção da primeira namorada. Talvez algumas interpretações de Jacob, as guarânias de Luiz Vieira, canções de Caymmi, as primeiras músicas que ouvi de Chico, Gil e Caetano, sei lá, e obviamente Cascatinha e Inhana.
Era isso, a emoção era a mesma da primeira audição de Cascatinha e Inhana, quando tinha meus dez anos e descobri em velhos discos 78 na casa de meu tio Léo. Ficava horas ouvindo “Meu Primeiro Amor”, “Índia”, “Luar do Sertão”, com aquela composição de vozes estranhamente simétricas, com o Cascatinha e a Inhana cantando uma oitava acima.
Apesar de periodicamente ouvir o programa “Alvorada Sertaneja” na rádio Cultura, apresentado pelo Compadre Zé Tomé e pelo Compadre Mesquita (meu tio Léo, carioquíssimo), as músicas caipira e sertaneja não me impressionavam muito. Não digo os clássicos, “Linda Flor do Ipê”, “Festa Junina”, “Chuá Chuá”, as obras de Valdemar Henrique, Joubert de Carvalho, J. Cascata e Leonel Azedo, Sá Pereira, o imenso Luiz Peixoto, João Pernambuco e outros, além dos paulistas Raul Torres, Capitão Furtado e Inezita Barroso, mas aquela música mais tosca de dupla caipira mesmo.
Nos meus tempos de moleque, havia uma distinção nítida entre a música caipira autêntica e a sertaneja, de funda influência mexicana e paraguaia. Minha casa ficava em frente o largo do São Benedito, onde tinha a quermesse anual mais concorrida de Poços. Todo início de maio, ficávamos nós lá, ouvindo “Pombinha Branca”, “Coração de Mãe” e outras menos votadas.
Mesmo depois que vim para São Paulo, toda manhã ia da Vila Maria à USP ouvindo o programa de Moreno e Moreninho na rádio Nove de Julho ou Marconi, não me lembro bem, e gostava muito do Zico e Zeca, de quem conhecia dois ou três clássicos. Gostava também de algumas músicas de Moreno e Moreninho, especialmente as congadas do sul de Minas, e adorava a viola caipira de Cafezal. Mas, no geral, era uma música muito pobre, esganiçada, que não me tocava a alma, mesmo quando interpretada pela mais popular dupla caipira de muitas décadas, Tonico e Tinoco.
Mas Cascatinha e Inhana, nunca ouvi coisa mais bonita. Aliás, até sozinha Inhana era imbatível. Há uns três anos saiu um CD póstumo da dupla, onde Inhana interpreta “Carinhoso”. Daquele período, não houve cantora romântica brasileira de voz mais bonita e de interpretação mais pungente, com exceção de Elizeth Cardoso e, talvez, de Alaide Costa e Nana Caymmi, na geração seguinte.
Pois Pena Branca e Xavantinho me despertavam as mesmas sensações. Ali no “Vitrine”, cantando clássicos de Milton Nascimento, Chico e Caetano, Pena Branca e Xavantinho não eram gente, eram anjos de ébano tecendo loas ao Criador. Xavantinho, aliás, tinha voz gêmea de Milton, o maior intérprete da MPB moderna.
Depois daquele dia, não houve show da dupla que eu não fosse atrás, que nem um fã despudorado. Nem tive pejo de pedir seus autógrafos em um desses shows e ruborizei como uma donzela quando escreveram meu nome, sem me perguntar qual era. Meus ídolos me conheciam! Até hoje minhas filhas mais velhas caçoam dessa demonstração de macaquismo explícito.
Todo mês entrava na Musical Box, ali na praça Vilaboim, e a primeira pergunta era se havia algum lançamento novo da dupla. Não perdi um. Eles formavam a linha de frente da música MPB rural de primeira linha, ao lado de Rolando Boldrin, Renato Teixeira, Sérgio Reis e do gênio Almir Satter.
A morte de Xavantinho foi tão triste quanto a de Inhana, muitos anos atrás. Naquele fim de semana, o som de casa ficou ligado direto nos seus CDs, especialmente em “Chuá Chuá”, de Sá Pereira, a música que me lembra minha mãe.
Lamento apenas que dona Tereza tenha partido antes que a dupla ficasse conhecida. Certamente teria ensinado todo o repertório de Pena Branca e Xavantinho aos seus netos, da mesma maneira que ensinou o de Cascatinha e Inhana aos seus filhos. Ensinaria “Cuitelinho”, recolhida por Vanzolini, “Velho Berrante”, do Adauto Santos, o hino a Mazaroppi, do Garfunkel, as músicas do Milton, Chico e Caetano que, na voz da dupla, perdiam o caráter moderno e ganhavam o tom intemporal, que provém das profundezas do tempo e do Brasil. E repetiria com aquela entonação pungente, o tipo de voz tremida que meu avô Issa usava quando cantava “Velho Realejo” para minha mãe criança, e que compõe o conjunto de valores intangíveis, que caracteriza a raça Brasil.
Para incluir na lista Crônica Semanal
Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:

Cio da Terra e Cálix Bento cantadas pela dupla são sublimes. Aquela outra, acho que Nossa Senhora, creio do Renato Teixeira, é também demais. Escutei muito Cascatinha e Inhana no rádio quando criança, mesmo sem querer. Talvez pelo gênero guarânia, ou quem sabe influenciado pelo ambiente urbano em que vivia, não apreciava muito.
Belo,rico e verdadeiro artigo
“Compõe o conjunto de valores intanjiveis,que caracteriza a raça Brasil”
Citou tanta gente e esqueceu do caipira-nordestino-boêmio carioca que foi Catulo da Paixão Cearense.
Dele só conheço “Luar do Sertão” e “Flor Amorosa”, mas até hoje lembro do impacto que foi ler uma poesia dele em caipirês no Livro da Poesia do Tesouro da Juventude, no mesmo espaço em que só aparecia Olavo Bilac e Alphonsus de Guimaraens (A que eu lia era a última edição impressa do Tesouro da Juventude)
Parece que o Brasil do Rio de Janeiro, capital cultural e Distrito Federal, só começou a (re)conhecer a música do Brasil caipira quando conheceu o Catulo da Paixão Cearense. Nordestino, mas caipira no estilo.
Catulo, Turunas e João Pernambuco. Nos anos 10 e 20 a música regional era o maior sucesso no Rio.
NASSIF, boa tarde.
Quando iremos assistir novamente, o surgimento de novos cantores, novos interpretes da verdadeira música raíz brasileira? Lembre-me caso esteja fazendo inustiça com alguém.
Abraços
Nassif.
Um dos melhores CD’s já lancados nos últimos anos é o da dupla com o Renato Texeira, ” Ao vivo em Tatuí”.
Uma observacao se permite; faltou citar o João Pacífico, autor de “Cabocla Tereza”, “Pingo d’agua” e tantas outras.
Tenho esse CD. É maravilhoso.
Em 1992 Pena Branca e Xavantinho fizeram um disco maravilhoso com Renato Teixeira (Ao Vivo em Tatuí), produzido pela Kaurup. Indispensável.
hoje já não acho ruim a influência paraguaia na nossa música sertaneja. E mesmo argentina, com o chamamé, que, entrando pelo Rio Grande do Sul hoje é a música de Mato Grosso do Sul. Afinal, como disse Riobaldo: “o sertão está em toda parte”. Ruim mesmo é ver gente se macaqueando de cowboy, cantando breganejo!
Luiz,
Isso explica a diferença que você faz no jornalismo brasileiro.
Abraço fraterno.
Asta. Brasília-DF
Caro Nassif,
Me perdoe a ignorância, mas sei muito pouco a seu respeito. Primeiro me chamou a atenção em seu blog o texto sobre o Tião Carreiro, depois entrei na parte musical e ví que você conhece muito de música raiz. Meus parabéns, gostaria de um dia tomar uma cachaça de alambique com você ouvindo Zico e Zeca, Liu e Léo, Tião Carreiro e Pardinho, Pena Branca e Xavantinho, etc. É isso aí, continue prestigiando o canto ingênuo do caboclo.
E Cascatinha e Inhana…
Grande Nassif,
Quando você postou essa nota aqui na aba de músicas , no mês passado, pensei em comentar. Passou o tempo e, no meio da correria, esqueci. Lembrei novamente quando você colocou nas crônicas os “momentos inesquecíveis”. Só hoje tive tempo de sentar e escrever.
Eu me lembrava vagamente da dupla Pena Branca & Xavantinho da minha infância e adolescência em Uberaba, onde eles eram razoavelmente conhecidos – embora ambos fossem da arqui-rival Uberlândia (o Pena Branca na verdade é um paulista, quase mineiro, já que nasceu em Igarapava, no “lado errado” do Rio Grande).
Anos depois, acompanhei quando a dupla foi apadrinhada no mundo da MPB urbana pelo Milton Nascimento, culminando com a participação deles num show da ECO 92, se eu não me engano. Eu ouvia, gostava, mas ainda não havia caído a ficha.
A ficha desabou em 1993, quando resolvi dar de presente ao meu irmão agrônomo (cujo gosto musical, então, se aproximava perigosamente do mundo breganejo) um CD de música caipira de raiz. Na boa lojinha de CDs do subsolo do Shopping Paulista encontrei “Violas & Canções” da dupla, CD recém-lançado pelo selo Velas. Gostei da capa e do repertório, comprei.
Curioso, desci correndo para casa – um pequeno apartamento na Cel. Oscar Porto, onde hoje funciona meu escritório. Coloquei o disco para tocar e, já aos primeiros acordes do violão de aço do Kapenga Ventura em “Arruda com Alecrim” meu queixo começou a cair. No meio de “Viola Quebrada”, onde a Ná Ozetti faz uma intervenção com a delicadeza e precisão usuais, eu já estava, como você bem descreveu “suspenso no ar sem conseguir respirar”. Quando os dois começaram a cantar “Uirapuru”, logo após um solo de gaita do Dinho Nascimento eu tive certeza que precisaria comprar um CD adicional para dar de presente para o mano, já que não iria me desfazer daquele.
Comprei outros discos da dupla posteriormente, dentre eles o excelente “Ao vivo em Tatuí”, já citado aqui. Mas eu ainda considero “Violas & Canções” o disco mais bem cuidado, de repertório mais primoroso. Ao que parece, essse CD está esgotado. Mas, se vale como consolo, as músicas estão à venda na loja do iTunes/Apple (que, ao menos oficialmente, não aberta à vendas para brasileiros).
Alguns anos depois, creio que no final de 1998, Pena Branca e Xavantinho se apresentaram no TUCA, lançando um novo CD – “Coração Matuto”. A voz de Xavantinho – preso à cadeira de rodas – dava evidentes sinais de que fraquejava em decorrência do agravamento do seu estado de saúde.
O carisma da dupla e a qualidade do trabalho, no entanto, continuavam excelentes. No decorrer do show, me vi por vezes chorando qual bezerro desmamado diante de uma inusitada interpretação em duas vozes de “Lambada de Serpente”, poesia do meu conterrâneo Cacaso, ou da singeleza de “Leilão” (Heikel Tavares – Joracy Camargo).
Também não resisti à tietagem explícita. Comprei o CD, fui até o camarim buscar os autógrafos e passei quase uma hora proseando com os três (Pena Branca, Xavantinho e Kapenga), contando e ouvindo “causos” do Triângulo. Descobri que os dois haviam morado um tempo em Amoroso Costa, na época um povoado junto a uma estação e um entroncamento de linhas da Cia Mogiana – hoje um bairro na periferia de Uberaba.
No ano seguinte, chorei de novo ao saber da morte de Xavantinho levado de nós precocemente, aos 56 anos de idade, devastado pelas consequências tardias de um acidente de carro sofrido na Via Dutra anos antes.
O último choro, esse de raiva, foi em Dezembro de 2000. Ladrões deram uma “limpa” no meu apartamento numa fatídica tarde de sábado (felizmente, na minha ausência) e levaram toda minha coleção de CDs. Te juro que eu lamentei mais pelos CDs e pelo meu arquivo de e-mails do que pelos três Macintoshes que foram roubados. O que o dinheiro compra, consegui de volta. Mas não há apólice de seguro que resgate a correspondência dos amigos e namoradas, menos ainda CDs autografados, com dedicatórias, cheios de histórias e lembranças.
Não somente a música, mas também a trajetória de vida dessa dupla caipira é um prodígio. Nascidos e criados na lida da terra bruta, esses “2 órfãos de Francisco”, ganharam um respeito no mundo da sofisticada MPB urbana jamais sonhado pelos seus contemporâneos (Almir Satter é ótimo, mas vem de outra enfermaria). Você pode ter uma breve idéia da história da dupla na página abaixo:
http://paginas.terra.com.br/arte/boamusicabrasileira/penabrancaexavantinho_20.html
Alguém deveria sugerir à Patrícia Andrade e à Carolina Kotscho que também a transformassem em roteiro, ao menos para um documentário.
Para concluir, algumas pérolas diponíveis no You Tube sobre os citados:
DE PENA BRANCA E XAVANTINHO
Pena Branca e Xavantinho cantando “Calix Bento”:
http://br.youtube.com/watch?v=zd1pvijIkxU
Os dois (em participação especial num show do Zezé de Camargo e Luciano) cantando a quatro vozes o que talvez seja sua interpretação mais conhecida do grande público: “Cio da Terra”, do Milton
http://br.youtube.com/watch?v=wSGg6_2pzFU
DE CASCATINHA E INHANA
Cascatinha e Inhana no Viola Minha Viola da TV Cultura, 1980, cantando “India”
http://br.youtube.com/watch?v=9A-ikkH-9Mg
A mesma dupla numa interpretação antológica de “Primeiro Amor”
http://br.youtube.com/watch?v=IikOElPqs1c
Dá para perceber que – seja em preto e branco ou em cores – a dignidade e o porte de Inhana não fica devendo nada ao das grandes damas do jazz norte-americano.
PARA ENCERRAR, MILTON NASCIMENTO
Cantando “Minas” à capella na abertura do DVD “A Sede do Peixe”
http://br.youtube.com/watch?v=5CdJbKcbdJs
Combinando sua voz iluminada com a percussão do mestre Naná Vasconcelos em “San Vicente”
\\http://br.youtube.com/watch?v=nLNiadGFhU0
Luiz Nassif,confesso que não conhecia este teu lado do bom gosto musical e vi varios comentarios com os quais e concordo.São verdadeiras relíquias que infelizmente não houvimos mais no rádio e que da uma saudade danada.Abraços!