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Arquivo de junho, 2007

30/06/2007 - 10:17

O pinhão manso

De Guilherme Ferreira, do Projeto Brasil

Com membros da Embrapa, Epamig e Petrobrás, comissão prospecta novas tecnologias

Em 2006, uma comissão formada por quatro pesquisadores brasileiros foi à Índia para conhecer a tecnologia agrícola do maior produtor mundial de mamona. Os brasileiros entrevistaram pesquisadores, visitaram universidades, viveiros de mamona e de pinhão manso. Na volta, condensaram todo o material prospectado em um único documento intitulado Viagem á Índia para Prospecção de Tecnologias sobre Mamona e Pinhão Manso.

Entre os dados coletados pelos representantes da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas (Epamig) e Petrobrás está o salto de produtividade da Índia rumo ao topo do ranking de produção da mamona. Em 1970, a produtividade era de 350 kg/ha, hoje, é de 1.972 kg/ha. Combinado com melhoramentos genéticos e boas práticas agrícolas, atualmente a Índia é responsável por 70% da produção mundial.

Sobre o pinhão manso, os brasileiros ouviram de pesquisadores locais que, na Índia, a produtividade não passa de 2.500 kg/ha/ano em condições de sequeiro, mas que pode chegar a 5.000 kg/ha/ano em condições irrigadas. Segundo Vinayak Patil, produtor há 17 anos, os primeiros quatro anos da planta são de colheitas fracas e ainda não existe colheita mecanizada.

De acordo com o documento, o programa de biodiesel da Índia, que importa 81% do petróleo que consome 2.500.000 hectares de pinhão manso para adicionar 5% de biodiesel ao diesel.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
30/06/2007 - 09:56

CQD (Como Queríamos Demonstrar)

Da coluna da Sonia Racy

O fato de o ministro Guido Mantega, presidente do CMN, na reunião desta semana, ter explicitado seu voto, dizendo que a fixação da meta de inflação de 4,5% ‘não significa que, se as condições macroeconômicas assim o indicarem, o BC não possa perseguir um objetivo de inflação ainda mais reduzido’, libera o BC de trabalhar com foco em 4%. Isto é, o Copom poderá focar um porcentual menor que 4,5%. Mas, atenção, não um maior.

‘Se não fosse isto, o BC teria que se ater aos 4,5%’, explica o ex-BC Ilan Goldfajn. Uma resolução do CMN tem, juridicamente, o mesmo peso da lei que criou o sistema de metas de inflação.

Enviado por: Andre Araujo

Na realidade o BC ampliou seu espaço politico às custas do Conselho Monetário Nacional, cada vez mais uma espécie de orgão-carimbador e não locus de discussão.. Ninguem mais consegue domar o poder avassalador do Banco Central, o verdadeiro centro do decisões na politica economica brasileira.

Nos tempos de Campos e Delfim jamais houve dúvidas de quem mandava, o BC obedecia e fazia o seu papel subordinado ao Estado e não o contrário, como hoje ocorre neste País dominado pelo núcleo do mercado financeiro, uma anomalia rara ha historia politica moderna.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
30/06/2007 - 09:48

O setor que emprega

Enviado por: Pedro

Caro Nassif,

Quando diz que vivemos um processo de desindustrialização, não se esqueça de que o setor de serviços que realmente gera empregos formais qualificados, de salários mais elevados e com maiores impactos sobre a economia é o setor de serviços produtivos, intimamente ligado à atividade industrial. O setor de serviços pessoais é um fosso de informalidade, precariedade, baixa qualificação e salários. Além disso, é apenas em um ambiente urbano que se tem o desenvolvimento de um setor terciário maduro. Deste modo, o urbano se torna fonte de crescimento e emprego não só por causa da indústria, mas também por causa dos serviços.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
29/06/2007 - 21:10

Fim de uma era na CVM

A indicação de Maria Helena Santana para a presidência da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) poderá por fim a um longo predomínio de grandes escritórios de advocacia cariocas sobre o órgão, emu ma promiscuidade que anulou grande parte da eficiência do órgão. Maria Helena foi superintendente de relações com empresas da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), e uma das criadoras do Novo Mercado.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
29/06/2007 - 14:32

Meta de inflação x crescimento do PIB

Enviado por: Antonio Corrêa de Lacerda

Publicado originalmente no “Estadão”

O Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu, na reunião realizada ontem, manter em 4,5% a meta da inflação de 2009. É a mesma meta atual, válida para 2007 e 2008, com uma banda-limite de dois pontos porcentuais abaixo ou acima do centro dessa meta. Foi uma decisão sensata. Havia discussões quanto à conveniência de se reduzir a meta de 2009 para 4%. Essa eventual redução, embora aparentemente pequena, representaria uma restrição potencial para a queda das taxas de juros reais, principalmente dadas as características brasileiras.

Os principais argumentos dos que defendem a redução são que a inflação efetiva de 2006, de 3,1%, e a esperada para 2007, de 3,5%, estão bem abaixo do centro da meta de 4,5% e que nossa meta ainda é elevada se comparada à média de 3% ao ano dos demais países que adotaram a mesma sistemática.

Segundo essa visão ortodoxa, uma redução da meta de inflação faria convergir as expectativas para uma inflação efetiva mais baixa, o que daria mais condições para o Banco Central (BC) reduzir a taxa de juros no futuro. Isso sem maiores sacrifícios da política monetária, uma vez que a inflação corrente está abaixo da meta.

Apesar desses argumentos favoráveis à redução, estou entre aqueles que apóiam a decisão de manter a meta atual de 4,5%. A situação favorável da economia internacional, desde 2002, é inédita nas últimas três décadas. Mas nada pode garantir que continuará assim.

No Brasil, não há nenhum mecanismo de tratamento para eventuais choques externos de juros e preços. Uma mudança brusca do quadro internacional exigiria uma política monetária mais apertada.

Há ainda um outro fator a ser considerado que é o fato de ainda prevalecer a indexação de preços, como os administrados, por exemplo, atrelados ao IGP e ao IGP-M (índices gerais de preços), fortemente influenciados pelas variações cambiais e de preços no atacado. Assim, um eventual choque de custos provocado por mudança cambial, por exemplo, tende a contaminar, via indexação, outros preços da economia, elevando a inflação.

Essa inflação maior, na visão ortodoxa – ainda predominante no Comitê de Política Monetária (Copom), que é quem define a política monetária -, inevitavelmente exigiria maior nível de juros, afetando negativamente o crescimento econômico.

Portanto, a questão que está em jogo não é apenas referente ao 0,5 ponto porcentual na meta de inflação para daqui a dois anos, mas, no fundo, qual a prioridade da política econômica. Não se trata do velho e falso dilema entre inflação e crescimento, mas de aprimorar os instrumentos de política econômica para preservar os avanços conquistados e, ao mesmo tempo, propiciar melhores condições para o crescimento sustentado da economia.

É claro que o crescimento não depende só da qualidade da gestão da política macroeconômica. Existem outros elementos tão importantes quanto, como a qualidade do ambiente de negócios, os demais fatores de competitividade sistêmica e o nível de produtividade, por exemplo.

Mas erros de gestão da política econômica podem desalinhar os preços fundamentais da economia, como a taxa de câmbio, por exemplo, afetando negativamente o crescimento econômico, os investimentos produtivos e provocando todos os efeitos colaterais decorrentes, os impactos perversos sobre emprego e renda.

Daí é muito importante que uma única variável da política econômica não se sobreponha às demais. Isso explica por que há países que relutam em adotar uma meta explícita de inflação. Não creio que ainda seja o caso do Brasil. A questão é que o alcance da meta de inflação não pode inviabilizar a realização das demais metas, explícitas ou implícitas, da política econômica. Ou seja, o problema maior está mesmo nessa história de o BC só olhar a meta de inflação. Como essas decisões de política econômica nunca são neutras, há sempre ganhadores e perdedores no processo.

Os ganhos de arbitragem propiciados pela combinação vigente entre juros e câmbio no Brasil têm sido muito mais favorável à especulação do que à produção. Há ganhadores nesse processo, mas com certeza há muito mais perdedores, embora isso nem sempre seja facilmente perceptível.

*Antonio Corrêa de Lacerda, doutor em Economia pela Unicamp e professor doutor da PUC-SP, é autor, entre outros livros, de Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil (Saraiva). E-mail: aclacerda@pucsp.br

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
29/06/2007 - 07:00

Salomonicamente inútil

Coluna Econômica – 29/06/2007

A história de que a virtude está no meio não vale para a decisão de Lula de definir uma meta de inflação de 4,5% para 2008 e de 4% para 2009. Como se sabe, cabe ao CMN (Conselho Monetário Nacional), ouvido o presidente da República, definir a meta de inflação. Depois, ao COPOM (Comitê de Política Monetária) e ao Banco Central definir a taxa de juros que eles consideram adequada para atingir a meta proposta. O Ministério da Fazenda queria manter a meta de 4,5% ao ano; o BC, reduzir a meta para 4%. Lula ficou no meio termo.

O que interessava na definição da meta era que induzisse o BC a acelerar a queda da taxa Selic. Isso não irá ocorrer por dois motivos.

O primeiro, é que como existe uma defasagem entre a fixação dos juros e os resultados alcançados, o BC sempre poderá apontar fatores imponderáveis para daqui a dois anos para manter intocado o ritmo de queda dos juros. Basta continuar fazendo o que fazem hoje: selecionam as notícias negativas e minimizam as positivas. Meramente através da manipulação dos fatores, levam o cavalo para aonde quiserem.

O segundo motivo é que o BC é criticado se a inflação fica acima da meta, mas é elogiado se erra para baixo. Em qualquer país informado, errar para baixo significa que a taxa de juros utilizada foi maior do que o necessário. O erro teve efeito nas taxas de crescimento da economia, do emprego, na dívida pública, no custo do dinheiro.

Por aqui, a opinião pública ainda não se tocou sobre o custo desses erros para baixo.

Dois pesos, duas medidas

No ano passado o diretor da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) Sérgio Miguelim foi acusado de ter vazado informações para o mercado a respeito do episódio envolvendo minoritários e a Telemar – em que se observaram movimentos estranhos de mercado pouco antes do anúncio de um episódio relevante.

Havia a possibilidade do vazamento ter sido provocado involuntariamente pelo próprio presidente do órgão, Marcelo Trindade, ao solicitar análises de uma instituição sobre o tema.

Mesmo assim, Miguelim foi exposto a um tiroteio, no qual o próprio Trindade sugeriu que ele se demitisse. Funcionário de carreira do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Miguelim se recusou. Trindade ameaçou com uma comissão de inquérito. Miguelim aceitou e se licenciou até o término das investigações.

Há poucos dias duas comissões, uma interna, outra externa, o absolveram por unanimidade. E sustentaram que não havia razão nenhuma para ele ter se licenciado.

Na próxima semana, a CVM vai julgar o caso de Luiz Antonio de Sampaio Campos, ex-diretor do próprio órgão, que era procurador de uma empresa ligada ao Banco Pactual.

O relator será o próprio Trindade, que está de saída do cargo. Ambos são amigos íntimos. Luiz Antonio trabalha no escritório de Barbosa, Müssnich & Aragão. Trindade tem ligações com o escritório. Outro membro da equipe que irá julgar Luiz Antonio é Pedro Marcílio, que deverá sair junto com Trindade para abrir um escritório de advocacia. O terceiro será Eli Lória, cujo filho é estagiário do escritório de Müssnich.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
28/06/2007 - 20:12

TV digital sob outra ótica

Enviado por: Daniel

Isso de sistema brasileiro foi uma enganação. Procurem se informar melhor.

O sistema escolhido foi o sistema japonês, com todos seus recursos. Os brasileiros incluíram possibilidade de suporte a MPEG4, mas que não será absorvido pelo padrão japonês, ou seja, aqui vai funcionar tudo que for feito para o padrão japonês, mas o que utilizar estas funcionalidades exclusivas vão apenas funcionar no Brasil.

O middleware ainda não foi definido. O Ginga pode ser adotado, mas hoje ele está no âmbito das especificações e aplicações simples, muito longe do que precisa para se produzir conteúdos interativos imediatamente. Faltam informações, ferramentas etc.

Cada fabricante terá que produzir seu firmware contemplando as especificações do middleware escolhido, portanto não existe isso de o governo pagar para alguém desenvolver o middleware, pois existirão dezenas de arquiteturas de set top box diferentes.

Pra fazer isso então seria melhor escolher o BML do padrão japonês como middleware.

Quanto ao DRM e controle de cópias, as emissoras fizeram pressão, mas o governo não abre mão (por enquanto) que não exista, e seja tudo liberado.

Enfim, todos os atores envolvidos, menos o governo, acreditam que a TV Digital não sai até o final do ano. Se sair é porque o governo vai empurrar uma solução meia boca, sem interatividade, que no final das contas não vai servir para nada. E o principal prejudicado será quem adquirir esses equipamentos, que dificilmente aceitarão alguma forma simples de atualização.

O processo da TV Digital deveria ser levado de forma mais transparente pelo governo, que até agora ja gasto milhões de reais em consultorias realizadas pelas universidades e centros de pesquisa (ou vocês acham que isso é feito de graça?), e até agora nada de novo foi inventado, e de certo apenas o padrão japonês, que aceitamos sem pedir nenhuma contrapartida pelo lado deles (nem comercial nem financeira).

Tudo é definido a quatro paredes, para apenas um seleto grupo saber com antecedência o que vai ser adotado, e dessa forma sair na frente comercialmente na venda de equipamentos, ferramentas e serviços.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
28/06/2007 - 12:38

Uma Litania ante o Sagrado Coração

Concebida em Paray-le-Maunial, à época do acidente fatal
de Anecy Rocha

Bruno Tolentino

Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível
é sempre assim? Não tens um refratário
à hora do massacre — um mais sensível

que atrasasse o relógio, o calendário?
Ao que parece a todos tanto faz
por quem o sino dói no campanário.

Começa a amanhecer e uma vez mais
rebelo-me, mas sei que a minha vida
não tem como ou porque voltar atrás.

Aceito que a mais dura despedida
é bem mais que metáfora do nada
a que se inclina no chão; que uma ferida

e a papoula sangrenta da alvorada
pertencem ao mundo sobrenatural
tanto quanto uma lágrima enxugada

à beira de um caixão. Mas afinal,
Senhor, amas ou não a humanidade?
Não fui ao escandaloso funeral

e imaginá-la em Tua eternidade
dói demais! Vou passar mais este teste,
sim, mas protesto contra a insanidade

com que arrancas a muque o que nos deste!
Tu sabes que a soberba da família
era maior que a dela e eu tinha a peste —

pai e mãe apartavam-me da filha
e o irmãozão nem… E hoje, coitados,
como hão de estar? Aqui é a maravilha,

as genuflexões…. Os potentados
e os humildes, a nata da esperança,
todos chegam por cá meio esfolados,

sangrando como a luz. Não só da França,
toda a Europa rasteja até aqui
esfolando os joelhos, não se cansa

de ensangüentar-se até chegar a Ti,
e ao menos a um pixote do Além Tejo
restituíste a vista: eu quando o vi

solucei — mas que o cego e o paraplégico
saiam aos pinotes, que o Teu coração
se escancare e esparrame um privilégio

aqui e outro acolá na multidão,
só me faz perguntar: E ela? E ela…?
Não consigo entender que a um aleijão

concedas tanto enquanto a uma camélia
Tu deixas despencar…. Porque, Senhor?
Olho tudo do vão de uma janela,

mas vejo a porta de um elevador
escancarar-se sobre um outro vão,
um vão sem chão… E a seja lá quem for

aqui absurdamente dás a mão!
Me pões trêmulo, gago, estupefato,
pasmo, Senhor — mas consolado não.

A mesma mão que fez gato e sapato
da minha doce Musa, cura e guia,
cancela as entrelinhas do contrato,

Dominus dixit… Mas quem merecia
mais do que uma açucena matinal
um manso desfolhar-se ao fim do dia,

quem mais do que uma flor, Senhor? Igual
nunca se viu nem mesmo entre os crisântemos,
tinha direito a um fim mais natural,

à morte numa cama, em casa ao menos…
Mas não — tinha que ser total o escândalo!
Por que, se nem nos circos mais extremos

Teus mártires andaram despencando
sobre os leões, se nem o lixo cai
de oito andares aos trancos, Santo Vândalo?!

Não vim denunciar o Filho ao Pai
ou o Pai ao Filho, não vim dar razão
aos que recusam e usam cada ai

contra a humildade; vim porque a Paixão
me chamou pelo nome a a alma obedece
e aceita suar sangue — como não?

Mas não sei mais unir o rogo à prece
do que a elegia ao hino de louvor,
não seu amar-Te assim… Caso soubesse

teria que ficar aqui, Senhor,
aqui, arrebentando-me os joelhos,
esfolando-me todo ante um amor

que vai tornando sempre mais vermelhos,
mais duros os degraus do Teu altar.
Tu, que tudo consertas, dos artelhos

que desentortas e repões a andar
até às pupilas mortas de um garoto,
do cachoupinho que me fez chorar;

Tu, que a este lhe dás a flor no broto
e àquele o lírio pútrido do pus;
Tu, que passas por um de quatro e a um outro

pegas no colo e entregas a Jesus;
Tu que fazes jorrar da rocha fria;
Tu que metaforizas Tua luz

ao ponto de fazer de uma agonia
um puro horror ou a morna mansuetude —
que hás de fazer, Senhor, comigo um dia?

Quando eu agonizar, boiar no açude
das lágrimas sem fundo… Quando a fonte
cessar de soluçar e uma altitude

imerecida me enxugar a fronte…
Como há de ser, Senhor? Oxalá queiras
que a mim me embale a barca de Caronte,

como o fazia a velha Cantareira,
o azul da travessia… A Irrecorrível
arrasta a cada um de uma maneira

e a quem quer que se abeire ao invisível
recordas a promessa: aquele a escuta
e este a recusa porque a dor é horrível,

mas, se a todos a última permuta
terá sempre o sabor da anulação,
o travo lacrimoso da cicuta,

a ela Tu negaste o próprio chão,
deixaste-a abrir a porta sem querer!
Nunca falou na morte, e com razão,

intuía, quem sabe, o que ia ver…
Sentença Tua? Em nome da promessa
não há negar Teu duro amanhecer —

mas quando arrancas mais uma cabeça
como saber que és Tu, que não mentia
O que ressuscitou? Talvez na pressa,

no pânico de Pedro, eu negue um dia
e trate de escapar, mas hoje não;
hoje sofro com fé e, sem poesia,

metrifico uma dor sem solução,
mas não vim negar nada! Faz efeito
essa dor: faz sangrar, mas faz questão

de defender-me como um parapeito
contra a queda e a revolta… Um Botticelli
despedaçou-se todo, mas que jeito,

se por Lear enforcam uma Cordélia
e encarceram a Ariel por Calibã…?
Alvorece, a manhã beata velha

enfia agulhas no Teu céu de lã,
antenas às Tuas cenas de TV,
e eu penso, ela morreu… Hoje, amanhã,

enquanto Te aprouver e até que dê
a palma ao prego e o último verso à traça,
vai doer — mas Amém! Não há porque

amar a morte, mas que venha a Taça,
aceito suar sangue até o final,
como não… Tudo dói, menos a graça,

mata, Senhor, que a morte não faz mal!

(Retirado do site “Plataforma para a Poesia”, em http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/_brunotdivino.htm)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
28/06/2007 - 12:09

Disseminando conhecimento

Enviado por: Octavio Tostes

Comecei a acompanhar a discussão sobre a TV digital no Brasil em suas colunas ainda na Folha, no início de 2006. Depois, vi todo o ótimo material do Projeto Brasil – que utilizei, citando a fonte, na redação de um paper.

No início desse ano, escrevi para a Scientific American Brasil uma materinha em que o título dizia que a TV digital no Brasil terá tecnologia japonesa e Ginga nacional. (Aliás, acho uma delícia o senso de humor do nosso pessoal de Informática. Ginga é uma delícia de nome. Saci, outro. Tem o Ubunto, do pessoal do Linux, não? Esses nomes ressoam brasilidade).

Sem as informações que colhi em seus trabalhos, não teria podido fazer os meus.

Abraço,

Obrigado.

Comentário

Registrei o comentário do Octávio, porque foi muito confortador para toda a equipe do Projeto Brasil. Justamente porque nosso objetivo é poder disseminar temas relevantes, colocar estudos e trabalhos à disposição, para estimular o debate sobre as políticas públicas.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
28/06/2007 - 11:55

Alimento x Energia, verdades e mitos

Do Projeto Brasil

Alegando que a discussão sobre o conflito entre agricultura alimentícia e energética é abastecida por uma “lógica desencaminhada, fraudes e táticas assustadoras”, os produtores americanos de milho lançaram um documento para provar que a oferta ainda é segura.

De acordo com a NCGA, o milho americano teve as três maiores safras da história nos últimos três anos. “Depois que todas as demandas foram atendidas, a indústria do milho terminou 2005 com aproximadamente 2 bilhões de bushels de excedente – um dos níveis mais altos desde os anos 80″, argumenta o documento.

Fato raramente citado no debate sobre conflito energia x alimento, segundo a NCGA, é que a produção de alimentos per capita hoje é a maior da história. De acordo com a associação, os dados são da Organização de Alimentos e Agricultura dos Estados Unidos e provam que acesso a capital e outras questões são as reais causas da fome no mundo, e não escassez de alimentos.

Leia a íntegra do estudo.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
28/06/2007 - 07:00

A TV digital avança

Coluna Econômica – 28/06/2007

Apesar de ter sumido do noticiário, a implantação da TV digital está permitindo a montagem de uma importante estrutura coordenada de governo, institutos de pesquisa, indústria e emissoras.

O Ministro de Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende é um dos responsáveis por se tentar obter frutos adicionais do acordo que acabou impondo o padrão japonês de modulação.

Está a pleno vapor o Comitê Brasileiro de TV Digital, que reúne os ministros com participação direta no tema, aprovando normas e interagindo com os fóruns. Há um Fórum da TV Digital, montado pelos empresários. Esse fórum se reúne semanalmente em São Paulo, com participação da Sepin (Secretaria de Política da Informática). Participam também técnicos da área acadêmica e das teles.

***

A modulação japonesa é apenas um dos pontos do projeto. A idéia central foi desenvolver um modelo que permitisse aos pesquisadores e empresas no Brasil desenvolverem tecnologia. Rezende compara à indústria automobilística, que define um projeto de engenharia, tem controle sobre ele. Depois, pode comprar alguns componentes de fornecedores específicos.

Dentro da modulação, há o sistema de compressão de imagem. Hoje em dia o sistema utilizado é o MPEG 2. O Brasil desenvolverá o MPEG 4, até agora inédito para esse tipo de transmissão.

***

Por baixo disso tudo tem o sistema operacional. No caso, será utilizado o sistema Ginga, no qual trabalham há quinze anos pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba e do Rio de Janeiro. O da Paraíba foi desenvolvido em software livre. Sem mercado, o autor se limitava a publicar papers em publicações internacionais.

Essa questão virou ponto de honra para a Ministra-Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Quando as emissoras sustentaram que o Ginga poderia atrasar a data de início do projeto, Dilma prorrogou o prazo, mas não abriu mão do desenvolvimento nacional.

A idéia do MCT será adquirir o sistema e fazer uma licitação para que seja desenvolvido por alguma empresa, obviamente remunerando os desenvolvedores. Depois, disponibilizar para outros desenvolvedores. Até dezembro se teria o sistema básico; os demais poderiam vir depois, desenvolvidos por outras empresas e fabricantes.

Por exemplo, o primeiro poderia simplesmente trazer a imagem e permitir alguma interação. Os demais poderiam permitir gravar imagem, e outros tipos de trabalho típicos de desenvolvimento de software.

A condição é que se tenha uma caixa barata. As primeiras avaliações indicam ser possível produzir uma caixa por 150 reais, mais 5 do sistema operacional, mais margem e impostos, resultando em um preço final de 200 reais.

***

Esse projeto mostrou que existe um conhecimento bom e não aproveitado nas Universidades brasileiras. O grande desafio é criar o ambiente adequado que permita a interação pesquisador-empresa, transformando conhecimento em inovação. É tarefa difícil, que não se cria de uma hora para outra.

Com o fechamento do ciclo da TV digital, haverá condição, agora, de definir uma política pública objetiva de fortalecimento das cadeias produtivas envolvidas.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
28/06/2007 - 00:04

PAC da Tecnologia

Depois do Ministério da Educação lançar o seu PAC, chegou a vez do MCT. O plano prevê quatro linhas.

1) Expandir e consolidar o sistema de tecnologia.

2) Promoção da inovação tecnológica das empresas.

3) Estimular pesquisa e desenvolvimento em áreas estratégicas.

4) Desenvolver ciência e tecnologia para desenvolvimento social.

O Ministro Sérgio Rezende já foi conselheiro do Bloco de Tecnologia do Projeto Brasil. Acertamos colocar todos esses documentos no site do Projeto Brasil para uma discussão pública com os segmentos interessados e com a sociedade.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
28/06/2007 - 00:03

A infovia da Eletronet

O governo caminha célere para criar a sua infovia, utilizando as linhas e transmissão da falida Eletronet, empresa da qual o governo participava e que faliu no rastro da ADS. Percebeu-se que, ao manter as comunicações com a Embratel, criava-se uma questão relevante de segurança pública. A idéia foi remontar a rede, que atenderá toda a área pública. Esse setor representa 10% do mercado.

A empresa foi privatizada separada da Eletrobrás. A idéia seria criar uma grande infovia, já que os cabos óticos são transportados ou em linhas de transmissão elétrica ou em beira de rodovias ou em gasodutos. Quando a Embratel montou sua linha submarina interligando todas as capitais costeiras, a Eletronet perdeu mercado e faliu.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
27/06/2007 - 07:00

O pacto de Campos

Coluna Econômica – 27/06/2007

O novo fenômeno da agroenergia está produzindo mudanças substantivas por todo o país. Importante região canavieira até os anos 70, o norte fluminense chegou a ter o segundo pólo de produção de açúcar e álcool do país. Depois, murchou. A produção despencou. Agora, com a explosão do etanol, a região poderá recuperar seu período de apogeu.

Essa possibilidade ficou clara no seminário promovido pelo jornal “O Dia”, do Rio de Janeiro, para analisar esse potencial.

***

A região é basicamente composta por pequenos proprietários, a maioria absoluta dos quais com agricultura familiar. Há uma flagrante diferença de produtividade entre as propriedades menores e as maiores. As maiores produzem de acordo com a média nacional. As menores têm, produtividade de 50%.

***

Além disso, a região dispõe de um sistema de canais para irrigação construídos há décadas pelo extinto Departamento Nacional de Obras de Saneamento. Os canais permitiram acabar coma febre amarela em vastas parcelas da região, abrindo espaço para o cultivo da cana de açúcar.

Além da drenagem dos terrenos, em períodos de pouca chuva permitiam puxar água do alto Paraíba, garantindo a irrigação. O DNOS foi extinto no início da década de 90, e nunca mais houve manutenção nos canais. Mas eles estão lá.

***

A queda da produção de cana deixou uma capacidade instalada ociosa expressiva, tanto no esmagamento de cana quanto na produção de álcool e açúcar. Para aumentar a produção, a região não demandará investimentos adicionais. Bastará organizar melhor os plantadores, disseminar novas tecnologias, estimular a cooperação entre eles, visando aumentar a produção via aumento de produtividade.

***

As vantagens da região são expressivas. Há o mercado interno. O Rio de Janeiro produz apenas 20% do álcool hidratado que consome. Além de poder suprir essa demanda, haverá uma demanda adicional expressiva, se o governo do estado reduzir o ICMS, a exemplo do que fizeram governos de seis estados, incluindo São Paulo e Minas Gerais.

O mercado externo está a menos de 50 km das zonas produtoras, no porto Açu, que está sendo construído em São João de Barra. É uma vantagem imbatível.

***

As instituições de ensino e instituições técnicas estão mobilizadas para pesquisa e treinamento de mão de obra. A Universidade Federal Fluminense tem um bom acervo de pesquisas nas áreas trabalhista e ambiental. Bancada pelo Sebrae estadual, a área acadêmica preparou um diagnóstico bastante completo sobre as condições da região, identificando vantagens e vulnerabilidades.

A Fatec de Campos está criando um conjunto de cursos para suprir a necessidade de mão de obra especializada. O Senai está treinando 2 mil trabalhadores para o porto de Açu. E, com os royalties da exploração de petróleo e gás, a prefeitura de Campos criou um fundo destinado a preparar a cidade para quando o petróleo acabar.

O fundo financiou a aquisição de uma usina média por uma cooperativa de produtores e financiou investidores para novas usinas.

Se bem sucedido, o Pacto de Campos — com essa articulação de atores diversos em torno de um objetivo comum – poderá ser replicado para outros estados.

Para incluir na lista Coluna Econômica*

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
26/06/2007 - 07:00

Uma transposição mal contada

Coluna Econômica – 26/06/2007

A transposição do rio São Francisco é um tema tão relevante, pelos recursos que envolve, pelos desdobramentos ambientais e sociais, que tem que haver uma discussão mais aprofundada sobre o tema. O presidente Lula não pode empenhar recursos públicos de tal vulto desconsiderando o que foi discutido até agora.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê investimentos de R$ 6,6 bilhões para conclusão do projeto até 2010. O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, acredita que a obra deve ser iniciada até o fim de 2007.

Em 2005, quando o projeto gerou discussão e polêmica entre ministros, governadores, especialistas e representantes da sociedade civil, o Projeto Brasil consultou políticos, órgãos oficiais e estudiosos, além de abrir espaço para participação dos leitores no fórum de discussão. O que emergiu do debate se resume, em suma, a opiniões contrárias à transposição.

***

Segundo o Ministério da Integração Nacional, a obra é uma integração de bacias cujo objetivo é garantir a segurança hídrica na região semi-árida. O projeto inicial era a construção de 700 quilômetros de canais artificiais (túneis, dutos e aquedutos), além da instalação de bombas que transportarão água do São Francisco até as bacias do nordeste setentrional.

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Disponibilidade Hídrica: o projeto prevê o bombeamento fixo e contínuo de 26,4 m³/s do rio São Francisco para as bacias do nordeste setentrional, aprovado pela Agência Nacional de Águas (ANA) apenas para consumo humano. No entanto, os opositores alegam que esse volume prejudica a fluência das águas. Há ainda uma discussão sobre o aproveitamento das águas, pois o volume bombeado pode chegar a 127 m³/s apenas quando o reservatório de Sobradinho, o que ocorre apenas em 40% do tempo.

População Beneficiada: Para o Ministério da Integração Nacional, o objetivo do projeto oferecer segurança hídrica a 12 milhões de pessoas. Porém, estudos apontam que o número de beneficiados pode ser muito menos.

Custo Operacional: Segundo o Ministério, a água será vendida aos estados receptores (Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco) a um custo de R$ 0,12/m³. Mas um estudo aponta que o custo aproximado é de 15,5 a 31,2 centavos de dólares por m³, dependendo do ano ser úmido ou seco – o valor divulgado pelo Governo seria menor por culpa de erros nos cálculos do governo na estatística de vazão, omissão da depreciação e dos juros. Como resultado, serão necessários subsídios por parte do Estado e aumento nos impostos para pagar a conta da obra nos próximos 35 anos.

Custos ao Consumidor Final: O MIN garantiu que a cobrança pelo serviço de água bruta (sem qualquer tipo de tratamento), representará um impacto médio de 4% em 2010 e 7% em 2025 sobre as tarifas atuais. O professor do departamento de engenharia civil da UFRN, João Abner Guimarães Júnior, afirmou que o custo da água será, no mínimo, 5 a 6 vezes maior.

Vou abrir uma discussão sobre o tema no site do Projeto Brasil (www.projetobr.com.br). Se quiser participar, entre e se cadastre.

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E aqui para consultar a Biblioteca do PrBr.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
25/06/2007 - 07:00

O país das pequenas batalhas

Coluna Econômica – 25/06/2007

Na falta de planejamento de longo prazo, visão estratégica, projeto claro de país, nos próximos dias haverá uma luta insana em torno de um tópico de política monetária: se o COPOM (Comitê de Política Monetária) deve manter ou reduzir a meta inflacionária para os dois próximos anos.
No final de semana passada, Lula anunciou a intenção de manter a meta em 4,5%. Na pratica, significará permitir ao Banco Central manter o ritmo atual de redução da taxa de juros. Caso decida reduzir a meta, significará reduzir o ritmo de queda dos juros.

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Há um conjunto de argumentos consistentes em favor da manutenção da atual meta de juros, brandido principalmente pelos técnicos do Ministério da Fazenda:

1. O cenário internacional é instável. Em caso de algum problema de liquidez internacional, haverá impacto sobre o câmbio e sobre a inflação. A manutenção da meta dará mais margem de ação para o BC, evitando que tenha que provocar um novo salto nos juros para fazer frente a algum imprevisto.

2. O aquecimento da economia deverá provocar alguma fricção de preço em 2009 e 2010. Serão altas localizadas em algum setor, sem se propagar para o restante da economia. Mais uma razão para se ter uma margem de folga.

3. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado) mostra que o único setor com pressão é o de serviços, com alta de 7% nos últimos doze meses. Mas essa alta reflete uma melhoria da renda dos trabalhadores desse setor, muito em função da queda do desemprego, dos programas de renda mínima que aumentou o chamado salário de reserva: o trabalhador deixou de entrar no mercado por qualquer salário.

4. A inflação brasileira é câmbio-dependente. O dólar está despencando. Uma hora vai ter que parar. Quando isso acontecer, não poderá mais se contar com ele para manter a inflação quase zerada. Mais uma razão para se ter margem de manobra.

5. Na maioria dos países que venceram a inflação, a convergência foi lenta. O Chile levou dez anos para derrubar a sua inflação, evitando sacrifícios demasiados para o crescimento. No caso do Brasil, a inflação despencou de 14% para 3% em apenas 4 anos. Bateu no piso. Com isso há um risco de inflexão na curva da inflação.

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Os defensores da redução da meta alegam que, como a inflação já está em 3,5%, não haveria nenhum sacrifício adicional reduzir a meta para esse nível. É uma falácia. Não se está falando da inflação de agora, mas da meta de inflação para os próximos dois anos. Inflação de 2009 é expectativa, não um dado da realidade.

Nos primeiros anos da política de metas inflacionárias, o BC tentou estabelecer metas muito rígidas, acabou não cumprindo o estabelecido, lançando dúvidas sobre a eficácia do método. Em 2000 fixou-se para 2002 a meta de 3,75%: o resultado foi 12,53%. Para 2003, meta de 3,25%, resultado de 9,3%

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De segunda a quarta haverá um tiroteio só na imprensa, com os chamados analistas de mercado insistindo na redução da meta. A intenção é uma só: manter por mais tempo os juros escandalosos praticados pelo BC.

Lula já anunciou sua intenção de manter a meta. Vamos ver se resistirá até a próxima reunião do COPOM.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
22/06/2007 - 10:00

A gênese do Projeto Brasil em 3 Tempos

O Projeto Brasil em 3 Tempos nasceu a partir de uma coluna que escrevi. Reproduzia uma conversa com Vicente Falconi, do INDG, onde ele sugeria que em vez de gastar dinheiro com publicidade melhor faria a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República) em encomendar trabalhos para especialistas, que permitissem diagnósticos mais precisos para o planejamento de longo prazo. Não se aproveitava o conhecimento disseminado pelas universidades.

O então assessor da presidência, Ricardo Kotscho, mostrou o artigo para Lula, que chamou Luiz Gushiken, ordenando-lhe que atuasse naquela direção. Como conseqüência, foi criado o Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência, englobando pessoal técnico do CGE, um centro de inteligência competitiva, criado no âmbito do Ministério da Ciência e Tecnologia, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso.

Tive o prazer de ser o primeiro jornalista a ser apresentado e o desprazer de constatar que tinham copiado diversos conceitos do Projeto Brasil, inclusive o próprio nome. Mas a cópia se resumiu ao modelo de disseminação de informações. No que vale mesmo – a metodologia de levantamento de dados – o coronel Oliva Netto conseguiu trazer uma sofisticação inédita ao planejamento estratégico.

Os três tempos do projeto são 2007, 2015 e 2022. A idéia é chegar no bicentenário da Independência conquistando um estágio avançado de desenvolvimento e bem-estar social. 2007 é o início do planejamento de longo prazo, e 2015 a data para que sejam atingidos os objetivos do milênio, compromisso firmado pelos países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2000. Para cada objetivo, há uma meta e um prazo.

Nas pesquisas, o projeto definiu a seguinte ordem de prioridades: 1 – Erradicar a extrema pobreza e a fome. 2 – Atingir o ensino básico universal. 3 – Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres. 4 – Reduzir a mortalidade infantil. 5 – Melhorar a saúde materna. 6 – Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças. 7 – Garantir a sustentabilidade ambiental. 8 – Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
22/06/2007 - 07:00

Construindo o futuro

Coluna Econômica – 22/06/2007

Se o presidente da República quiser promover um pacto nacional, tem o caminho das pedras aplainado pelo trabalho “Agenda para o Futuro do Brasil”, deixada pelo coronel Oswaldo Oliva Neto, do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência, para seu sucessor, Roberto Mangabeira Unger.

Trata-se da proposta de criação de um Conselho do Estado, integrado, entre outros, por ex-presidentes dos poderes constituídos, por lideranças da sociedade, para discutir os temas e propor leis de responsabilidade estratégica

Trata-se de um documento precioso, não apenas como prestação de contas, mas como bússola para orientar os que chegam, responsabilidade que deveria ser compartilhada por todos os gestores públicos.

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Egresso da Escola Superior de Guerra, Oliva assumiu o NAE na sua criação. Passou a trabalhar com metodologia avançada, baseado em alguns princípios importantes. O planejamento estratégico não poderia ser feito sem consulta à opinião pública. A metodologia precisaria identificar, dentre todas as carências do país, aquelas que estivessem mais amadurecidas para a opinião pública, e que poderiam ter mais desdobramentos positivos.

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A “Agenda para o Futuro do Brasil” é um documento de 69 páginas com diversos capítulos consolidando o conhecimento acumulado em 300 encontros, nos trabalhos de mais de 600 pesquisadores e 20 instituições de pesquisa.

É dividido em três blocos. No primeiro, os conceitos de planejamento estratégico utilizados. No segundo, os principais fatos portadores de futuro a serem planejados e acompanhados nas próximas décadas: da qualidade da educação básica, às mudanças climáticas e ao papel dos biocombustíveis; da reforma política à nanotecnologia.

Na terceira parte, um inventário das parcerias internacionais firmadas nesses anos, como com a União Européia, a Universidades de Coimbra e o Strategy Unit, órgão de planejamento do governo britânico.

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O NAE atuou em cima de três eixos estruturantes: o social, o político e o econômico. No social foi definida como missão criar uma sociedade do conhecimento, estabelecendo para 2015 a meta de universalizar a educação básica de qualidade. Na parte política, a montagem de um tratamento permanente dos temas estratégicos nacionais de longo prazo. A meta é ter esse órgão até 2010.

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O trabalho constata que existem, no país, núcleos que apresentam processos de desenvolvimento compatível com os dos países mais desenvolvidos e estão perfeitamente inseridos no mercado mundial. Outros que apresentam extrema pobreza e são alijados, inclusive, do mercado interno de bens de subsistência. O desafio do Estado será regular o processo de desenvolvimento do Brasil 1 e atuar sobre o Brasil 2.

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Faltou apenas um ingrediente nesse planejamento: o governo brasileiro, que não aprendeu a trabalhar dentro de princípios de planejamento estratégico. Na abertura, trecho de uma palestra de Celso Furtado, feita em 2000: “Temos que preparar a nova geração para enfrentar grandes desafios, pois se trata de, por um lado, preservar a herança histórica da unidade nacional, e, por outro, continuar a construção de uma sociedade democrática aberta às relações externas”.

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Quem estiver cadastrado no Projeto Brasil poderá baixar o trabalho clicando aqui.

Para se cadastrar clique aqui.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
21/06/2007 - 23:27

Discutindo a repotencialização

Qual o real impacto das medidas de repotenciação das usinas hidroelétricas? Diante da escassez de energia que se avizinha, o País tem que definir estratégias que permitam o aumento da oferta no curto prazo e garantam a sustentabilidade do modelo no longo prazo. É possível aumentar a oferta de energia em curto prazo por meio da repotenciação? A medida é realmente efetiva?

Estamos abrindo essa discussão no Forum Online do Projeto Brasil. Para participar, clique aqui.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
21/06/2007 - 23:06

A Rodada de Doha

Em minha opinião, não foi ruim para o Brasil o fracasso da Rodada de Doha.

Tem-se o seguinte quadro:

A União Européia e os Estados Unidos estão encalacrados com a questão dos subsídios agrícolas. A cada dia que passa, aumenta o peso sobre os orçamentos públicos. Com a revolução do etanol, a situação ficará ainda mais complicada para eles. A partir de um certo preço do milho, parte relevante das usinas de álcool ficarão inviabilizadas. A falta de terras, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, será um fator adicional, ou expulsando culturas já estabelecidas, ou obrigando à importação do álcool.

Portanto, no campo dos subsídios agrícolas, o tempo corre contra os desenvolvidos.

Tudo o que eles queriam seria um acordo que resolvesse dois problemas: fornecessem argumento para tomar uma decisão que, mais cedo ou mais tarde, teriam que tomar; e ainda seus produtos industriais ganharem acesso amplo e irrestrito ao mercado dos emergentes.

Para o Brasil, reduzir ainda mais as tarifas de importação de industrializados seria um suicídio. O real apreciado já significou uma abertura inimaginável. Sobre esse câmbio, colocar uma redução tarifária adicional seria ampliar o desastre. E em troca de muito pouco, que, afinal, será oferecido mais cedo ou mais tarde.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
21/06/2007 - 07:00

Câmbio e produtividade

Coluna Econômica – 21/06/2007

O mercado diz: para ganhar produtividade, tem que ter reformas. Os céticos das reformas dizem: sem reformas, tem que se dar atenção ao câmbio. E “la nave va”, sem reformas e sem câmbio.

É inacreditável o grau de irracionalidade desse debate econômico. É um movimento tão cego, que tenho ouvido de algumas boas cabeças que o Brasil deve conformar-se com o câmbio como está e tratar de se especializar em produtos primários.

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Às vezes algumas pessoas me chamam a atenção para a excessiva ênfase dada ao câmbio. Vamos entender melhor o que ocorre.

Com a ampliação do comércio mundial, os produtos brasileiros concorrem com os estrangeiros (especialmente os chineses) tanto em terceiros mercados quanto no próprio mercado brasileiro.

Há dois fatores que definem a preferência por determinado produto: qualidade e preço. Se um produto tem melhor qualidade, marca, tecnologia mais avançada, poderá ser vendido por um preço maior do que um produto inferior. Se não tem esses avanços, terá que competir no fator preço. Oferece um produto inferior, mas o preço compensará para os mercados compradores.

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O motor do desenvolvimento é quando empresas conseguem ganhos de produtividade, de inovação, aumentando sua margem de lucro. Aí tem estímulo para investir em mais tecnologia, mais inovação, mais conquista do mercado externo.

O câmbio bate diretamente no preço, e afeta indistintamente os dois produtos.

Suponha um produto que custe US$ 100,00. Com inovação, melhoria de qualidade e marca, consegue-se aumentar seu preço para, digamos, US$ 120,00. Mas se o real se apreciar 20%, todo esse ganho será anulado pelo câmbio.

Com um câmbio competitivo, em pouco tempo a empresa estaria investindo mais e mais em inovação, em qualificação de emprego, em conquista de novos mercados. Com o câmbio, a empresa até poderá sobreviver, mas ficará nanica.

Na outra ponta, a empresa que não conseguiu inovar, que trabalha com margem apertada, quando o câmbio se aprecia em 20% morre ou se torna importadora.

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Todo investimento em tecnologia e inovação é bancado em reais. Suponha que uma empresa resolve investir, digamos, R$ 1 milhão, em uma determinada tecnologia que lhe permitirá ganhos de margem de 20%. Em vez de investir em tecnologia, sua concorrente irá preferir importar insumos ou componentes acabados.

No momento em que o real se aprecia em 20%, a margem da empresa que investe em tecnologia foi para o espaço. Por outro lado, a empresa que recorre aos importados, terá um barateamento de 20% nesses insumos.

Prevalecem, então, as empresas que aumentaram o índice de produtos importados, ou que passaram a importar produtos acabados. Elas sobrevivem. Mas o que acontecerá com sua natureza?

Como mera montadora, os empregos serão cada vez menos qualificados, tanto para quem tem curso universitário como para o pessoal de menor instrução. Ela perderá qualquer possibilidade de competir internacionalmente, porque o salto para se transformar em empresa competitiva, com desenvolvimento autônomo, foi abortado pelo câmbio.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
20/06/2007 - 07:00

O xadrez do etanol americano

Coluna Econômica – 20/06/2007

Como identificar o “golpe do etanol”? Primeiro, o sujeito monta um fundo e diz que captou US$ 1 bi (atenção: tem alguns que captaram mesmo). Depois, compra uma usina de álcool instalada nos cafundós do Judas. Quando indagado como pretenderá viabilizar economicamente a usina, já que a logística tem um peso considerável, dirá que já possui contratos de venda por vinte anos, e que está planejando um alcoolduto. Não adiantará argumentar que o governo não consegue fazer nem estrada nem ferrovia, quanto mais um alcoolduto.

Essa receita é passada pelo agrônomo André Pessoa, um dos melhores especialistas da área.

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Pelas últimas análises de Pessoa, a safra de milho 2006/2007 nos Estados Unidos fechou com a menor relação estoque/consumo: apenas 10%, contra 22% da safra anterior. A área plantada saltou de 31,7 milhões para 36,6 milhões de hectares, basicamente avançando sobre a soja – cuja área plantada recuou de 30,6 para 27,2 milhões de hectares – e sobre o algodão – redução de 6,2 para 4,9 milhões de ha. Como conseqüência, a produção de milho saltou de 268 milhões para 316 milhões de toneladas – basicamente impulsionado pelo etanol.

Esses dados são importantes para se tentar antecipar a tendência das principais commodities agrícolas nos próximos anos.

Da produção de milho nos EUA, por volta de 147 a 149 milhões de toneladas se destinam a ração; cerca de 50 milhões para exportação; 35 milhões para outros usos. A parcela destinada a etanol saltou de 56 para 82 milhões de toneladas.

Esse salto, na verdade, antecipou a alta do petróleo, que iniciou a escala de alta em janeiro de 2005, com US$ 46,7 o barril, e chegou ao pico em julho de 2006, com US$ 74,4. Justamente naquele momento o milho iniciou sua escalada de alta, passando de US$ 2,44 para US$ 3,69 o bushell.

Acontece que o milho é a matéria prima do etanol. Sobe o milho, cai a margem do produtor de álcool. Justamente em julho de 2007 o preço do petróleo começou a recuar, até bater nos US$ 63,5 o barril em maio agora. Nos últimos meses, o preço do milho se estabilizou na alta. Mas a Agrocult (consultoria de Pessoa) projeta um preço de US$ 4,75 para agosto de 2008.

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Foram desastrosos os efeitos da alta do milho sobre o etanol americano. Em agosto de 2006 a margem bruta do produtor alcançou notáveis 75% (tomando por base as cotações em Chicago). Depois de uma queda livre, em junho estava em 14%, e não dava mostras de redução na queda.

Isso acontece em um momento em que ocorre um boom na construção de novas plantas nos EUA. No ano passado havia 95 plantas, mais 31 em construção/expansão. Este ano são 119 plantas, mais 86 em construção/expansão.

O xadrez americano está assim, portanto: quanto mais sobe o preço do milho, mais usinas ficam fora do jogo. Para aumentar a produção, tem que se avançar sobre as áreas de soja e algodão, provocando um aumento nas cotações desses produtos. Quanto mais aumenta a produção de etanol, mais aumenta o preço do milho, e mais reduz a margem do produtor.

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Do lado brasileiro, a ameaça é o aumento nos preços dos insumos. Nas cotações atuais, Pessoa sustenta que usinas de álcool no entorno do estado de São Paulo manterão a competitividade. As mais afastadas servirão apenas para jogadas especulativas.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
19/06/2007 - 07:00

As mudanças demográficas

Coluna Econömica – 19/06/2007

Há várias maneiras de analisar e interpretar as mudanças que estão ocorrendo no mundo. Existem discussões sociológicas, antropológicas, as mudanças com a matriz energética, a visão geopolítica. Infelizmente, o país ainda é prisioneiro das análises curtas e imediatistas do mercado. “Investment grade”, abertura financeira, análise de fluxos de comércio.

A Brazil CFA Society é filial de uma ONG americana que nasceu após o crack de 1929 da Bolsa de Valores. Visa educar analistas para o mercado.

Em recente encontro em São Paulo, convidou como palestrante o demógrafo americano Richard F. Hosenson, que trouxe uma visão nova sobre o futuro da economia mundial, à luz dos fenômenos demográficos que estão ocorrendo.

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Sua constatação é que, pela primeira vez na história, o planeta está envelhecendo – isto é, a quantidade de crianças que nasce é inferior à dos velhos.

Entre 2000 e 2010 a quantidade de crianças de 0 a 9 anos decrescerá cerca de 3%; entre 10 e 19 anos, cerca de 18%. Na outra ponta, aumentará em 25% a população de adultos com 50 a 59 anos; e em 12% a de adultos com mais de 80 anos.

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É um processo ainda desigual. O Japão envelhece muito mais rapidamente que a China. Em 1990 os velhos representavam 12%, e os jovens 18% da população. Até 2050, os velhos representarão 35% e os jovens 12%.

A alternativa para suprir a falta de mão de obra foi um investimento maciço em robôs. Em breve – prevê ele – a China começará a sofrer falta de mão-de-obra. Antes da Revolução Cultural, eram seis crianças por mãe; agora, é apenas uma. Obviamente, ainda existe um enorme contingente de população a ser incorporada ao mercado de trabalho. O que compromete um pouco sua análise

Em sua avaliação, o envelhecimento da China está ultrapassando o dos Estados Unidos. O fato de se ter 100 milhões de trabalhadores para 1,3 bilhão de habitantes cria um passivo previdenciário explosivo. Prevê ele que os aposentados não terão como cuidar de si próprios, já que o estoque de ativos dos fundos de pensão chineses equivalem a menos de US$ 100,00 / ano per capita. Com o aumento do custo do salário na China, a mão-de-obra já está migrando para o Vietnã e países vizinhos.

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No Brasil está ocorrendo um fenômeno que ele chama de “envelhecimento sutil”. A taxa de natalidade vem caindo, mas apenas em 2050 haverá um afunilamento da pirâmide. Portanto, o país tem tempo para resolver a questão da Previdência.

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Hosenson critica a visão da imprensa, de focalizar apenas a inflação em suas análises. É o emprego que determina o PIB diz ele.

Além disso, nos últimos anos as uniões familiares se estabilizaram. As pessoas estão se separando menos e, com isso, planejando seus gastos no longo prazo. E os EUA têm uma taxa de fertilidade similar à dos países emergentes.

Nos EUA, a economia tem sido turbinada por jovens entre 20 e 25 anos, entrando no mercado de trabalho e adquirindo seus primeiros bens, montando sua primeira casa. A partir dali, os investimentos familiares serão marginais.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
18/06/2007 - 07:00

Os portos e a municipalização

Coluna Econômica – 18/06/2007

Promulgada em 1993, a Lei dos Portos surgiu dentro desse espírito da descentralização, um dos ventos promissores do início dos anos 90. Acabava com a centralização obtusa da Portobrás, e dava autonomia a cada porto para ser gerido por um Conselho da Autoridade Portuária, com plenos poderes. O CAP contaria com a participação de representantes dos trabalhadores e dos usuários dos serviços portuários. Caberia ao órgão, também, definir tarifas, índices de produtividade.

O CAP seria gerido por quatro blocos, um com representantes do poder público; outro com representantes da administração e dos operadores; um terceiro com representantes dos trabalhadores e um quarto com representantes de usuários.

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Havia uma amarração política complexa a ser tentada. Como em todo início de processo, havia margem para erros, que teriam que ser consertados com o tempo. Onde o modelo funcionou, foi sucesso absoluto. O mais eficiente porto brasileiro é o Porto Municipal de Itajaí (Santa Catarina).

Na partida, houve um Pacto de Transição Negociada com os trabalhadores, visando conferir maior eficiência ao porto. Chegou-se a um acordo meticuloso discutido e assinado por todas as partes.

Ninguém perdeu. Como o pacto era de crescimento, garantiu-se aos trabalhadores a manutenção da renda. Só que o crescimento da renda não seria proporcional ao crescimento do porto. Todo ganho de produtividade decorrente de investimentos em modernização, seria apropriado, na maior parte, pelos investidores. Todo ganho decorrente de redução de custos de mão de obra, pelos trabalhadores.

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Definido o pacto, todas as partes saíram percorrendo o sul todo, atrás de clientela para o porto. Por exemplo, iam a Caxias do Sul ou Novo Hamburgo, um ônibus com representantes de todas as partes do porto. Lá, ouviam as demandas dos empresários. Se o problema fosse de mão de obra, estava lá o sindicalista para ouvir e resolver; se fosse de instalações, a autoridade portuária. O movimento do porto saltou de 20 mil para 530 mil containners ano.

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Porque esse aprendizado não valeu para outros portos? Porque a partir de 1998 houve uma volta à antiga centralização. Ainda no governo FHC foi criado o GEMPO (Grupo Executivo de Modernização Portuária). Depois, a Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviário). Por decisão de um almirante, em 1998 foram reintegrados todos os funcionários da Portobrás que haviam saído dentro de um Plano de Demissão Voluntário. E o torniquete da centralização sufocou o modelo.

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Hoje em dia, cada decisão do porto de Santos, por exemplo, até a mais banal, tem que passar por Conselho Deliberativo e Fiscal (porque é uma S/A), pelo Tribunal de Contas, Advocacia Geral da União (AGU), porque é ente público; e pela Antaq, Ministério dos Transportes e mais um sem-número de siglas, porque é do setor portuário.

O modelo inicial seria retomar o espírito da Lei dos Portos, e estabelecer um poder compartilhado em cada porto, mas com forte atuação do município.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
17/06/2007 - 11:57

Os Trigêmeos Vocalistas

Crônica de 22/09/2001

Há algumas cenas de infância que ficam registradas em todos seus detalhes na memória. Lembro-me até hoje no barracão do fundo da casa do meu tio Léo, com minhas primas mais velhas, a Cristina e a Rosa Maria ensaiando a primaiada para um “esquete” -como a gente dizia— que iríamos apresentar no sanatório de Divinolândia.

Uma das músicas dizia assim: “não sei se / meu vizinho quer ou não / me enlouquecer com seu piano alemão”. Era nossa preferida. A segunda música era o “Cachimbão”, ambas cantadas pelos Trigêmeos Vocalistas que, minhas primas juravam, além de cantar e tocar sapateavam. Eram os nossos Andrews Sisters.

Daquela geração de intérpretes curiosos, os que eu mais gostava eram os Trigêmeos e o Bob Nelson – o rei do faroeste, sobre quem falarei qualquer dia desses. Em quase todas as suas músicas eles davam aquele floreio de voz, em falsete, imitando os tiroleses.

Foi algum tempo depois, acho que em uma das comédias da Atlântida, que vi pela primeira vez aqueles três, cara de italianões de bem com a vida, sapateando, cantando de forma harmônica, enfiando larilalá tirolês em tudo quanto era samba.

O conjunto foi criado em 1937 pelos irmãos Armando Carezzato (1917) e os gêmeos Raul (1921) e Humberto, de uma enorme família italiana que morava no Brás, entre a rua Oriente e o alto do Pari. Humberto era o crooner e o cavaquinho, Raul o baixo, e tocava ritmo e flauta, Armando a terceira voz e violão tenor. O sapateado era feito por Humberto e Raul.

Em 1939 foram contratados por Raul Roulien — cantor brasileiro que fizera sucesso em Hollywood — para uma temporada no Cassino Atlântico, do Rio. Seu primeiro grande sucesso foi “Linda Baiana”, de autoria do trio e de Álfio Miranda. Seu maior sucesso — eu nem sabia que era deles, mas minha mãe cantava todo dia, e quando a gente ia passar férias em São Sebastião da Grama, o povo de lá gostava bastante – foi o “Sarita” – “adeus Sarita / vou partir para a fronteira / vou levar minha boiada / pra vender lá na feira / Com o dinheiro dessa venda / eu vou comprar / mais uma linha fazenda / e contigo namorar”.

Estrearam no Cassino da Urca em 1942, ao mesmo tempo em que Pedro Vargas fazia uma temporada cantando o clássico “Besame Mucho”. No Rio, trabalharam durante 22 anos na rádio Nacional, gravando autores dos mais clássicos aos mais extravagantes. “Cachimbão” era de B. Toledo. “Piano Alemão” era música de um certo Nagib. Em 1940, pela Odeon, gravaram “Sacrifício Demais” (Assis Valente e Leandro Medeiros) e “Vieni, Vieni” de Vicente Scotto.

Adoravam músicas que falavam em Zorro, Tigre, Tonto. Mas gravaram sambistas clássicos como “Quem Pode Pode, Quem Não Pode se Sacode” do histórico Bucy Moreira. De Nelson Cavaquinho gravaram “Agora é tarde” (”quem é você / pra dizer que manda no meu lar / agora é tarde / outro amor está no meu lugar”). Compuseram com Grande Otelo, Blackout, Jararaca.

Aposentaram-se em 1971. Faz seis anos que morreu Armando, o mais velho, violão tenor e dono da voz mais aguda. Os gêmeos Raul e Humberto estão firmes na paçoca. No dia 25 de março completaram 80 anos. Ambos moram juntos no Rio e estão passando uma temporada em Guarujá na casa de uma irmã.

Ao telefone, Raul começa a desfiar seus maiores sucessos, como “Dom Pedrito” (Djalma Esteves e Célio Monteiro) — “lá vem o dom Pedrito / montado num burrico / cantando o…”. E o Humberto lascava o tirolês final. O sapateado foi responsável por um de seus maiores sucessos, um fox que dizia:”Eu vou sapatear eu gosto tanto, tanto / de sapatear / se eu pudesse eu sapateava / dia e noite sem parar” (Nicolau Bruni).

Ao todo, gravaram quase 400 discos de 78 rotações. No momento estão passando todos os discos em fitas cassetes. E acham que, devido aos avanços do tempo e da globalização, da modernização dos costumes e tudo o mais, poderão gravar uma música interditada há muitas décadas, com evidente prejuízo para o cancioneiro popular, de nome “Peru de Fora” — “peru de for não se manifesta / o meu peru é que se faz a festa / com farofa bem fofinha / danço o galo e a galinha / meu peru não sai da roda / rodopia na farinha”.

Para incluir na lista Crönica Semanal

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
15/06/2007 - 07:00

A missão das Universidades

Coluna Econômica – 15/06/2007

Recentemente, o “Jornal do Campus” da Universidade de São Paulo (USP), do qual tenho o prazer de ser ombudsman, fez uma reportagem muito bem sacada. Primeiro, um cálculo sobre quanto a favela de Heliópolis pagaria anualmente de ICMS – calculado em cima da estrutura de consumo dela. Depois, estimou de quanto era o repasse para as universidades paulistas. A partir daí, calculou de quanto era a contribuição da favela de Heliópolis para a manutenção da USP. E encerrou gloriosamente, levando moradores da favela para conhecer a “sua” USP.

Poucas vezes li algo tão fortemente simbólico sobre o conceito de autonomia universitária e a enorme confusão que se formou, a partir da invasão da reitoria da USP por estudantes.

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Autonomia significa o poder de se auto-gerir de uma organização. Mas exige uma contrapartida relevante, que é a prestação de contas para seus financiadores: não apenas os moradores de Heliópolis, mas todos os cidadãos paulistas.

Nos anos 70 havia forte interferência militar nas Universidades, com aposentadoria de professores, imposição de diretores. Nos anos 80 criou-se uma blindagem que colocou as universidades a salvo do poder político, mas acabou criando um conceito deturpado de democracia. Por tal, no campus, se passou a tratar o poder de dirigentes, às vezes de docentes, alunos e funcionários de definirem as políticas internas, sem nenhuma espécie de satisfação à sociedade.

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O primeiro ponto a se considerar, é que a Universidade pode ser democrática, mas não uma democracia, que define o caminho que quer seguir. Ela é uma instituição com missão clara a cumprir. Como tal, seu compromisso é com o país, na forma de aprimoramento do ensino e da pesquisa.

Quando se mencionam indicadores de produtividade, no entanto, o que se vê é uma pobreza geral. No máximo, número de teses e publicações em revistas especializadas; ou dados genéricos sobre aumento de matrículas.

Não há informações detalhadas sobre planos de investimento e custeio. Pela própria leitura do “Jornal do Campus” dá para constatar ausência de planejamento e gestão. Os prédios são mal cuidados, não há manutenção adequada.

Pior. As universidades têm autonomia financeira. Significa que o que se coloca em uma ponta se tira da outra. Há um claro conflito distributivo que, muitas vezes, colide com os objetivos finais da Universidade. Por

Como esse conflito não é explicitado, acaba-se sempre buscando a saída externa: aumento nos repasses do ICMS, aumento nas verbas estaduais e assim por diante.

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A barafunda criada em torno dos decretos do governador, as supostas ameaças à autonomia universitária, não tem base no conteúdo dos decretos. As únicas coisas novas foram a criação de uma Secretaria de coordenação das Universidades e a obrigatoriedade de colocar diariamente no sistema os dados de despesa.

É muito pouco para o alarde sobre a suposta “perda da autonomia” universitária. De prático, conseguiu que se abortasse um debate crucial, sobre o papel das Universidades, a articulação das pesquisas e a prestação de contas para a sociedade.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
14/06/2007 - 14:36

Os empresários “incompetentes”

Coluna Econômica – 14/06/2007

No festival de clichês que sacode a economia, não há ignorância (ou má fé) maior do que a história de que apenas as empresas ineficientes são prejudicadas pelo câmbio, e que bastaria inovação e modernização para compensar a valorização da moeda.

É de um desconhecimento absoluto sobre o mundo real, sobre o processo de conquista de ganhos de produtividade. É falta de sensibilidade para números básicos, de noção de senso de proporção.

Ontem, o jornal “O Valor” mostrou uma reportagem de Sérgio Léo, direto da Índia. A Índia tem a mais poderosa indústria de TI (Tecnologia da Informação) entre as potências emergentes. É uma indústria que exporta bilhões de dólares por ano. A rúpia se valorizou 8% no ano (ínfimo, perto da valorização do real nos últimos três anos) e os indianos passaram a se sentir ameaçados.

Isso porque, na competição internacional, as margens das empresas são mínimas, dado o grau de disputa.

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Se um dos fenômenos mais reluzentes dos países emergentes – a indústria de TI na Índia — não está conseguindo segurar as pontas com uma valorização cambial aproximando-se dos 10%, como esses cabeções insistem nessa tese tresloucada de que será possível a uma empresa brasileira pequena, exportadora, que enfrenta um ambiente econômico perverso, ter fôlego para compensar valorizações do real que chegaram a 20% nos últimos anos?

Não apenas isso. Nesse período as empresas ainda tiveram que conviver com o aumento estrondoso do Pis-Cofins, com custos trabalhistas elevados, com falta de infra-estrutura.

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Quem são as sobreviventes? De um lado, um amplo espectro de empresas que passaram a ampliar o percentual de componentes importados. Sobreviveram mas à custa de abrir mão de qualquer veleidade de desenvolvimento tecnológico autônomo, de melhoria na estrutura de mão de obra e no próprio emprego.

É evidente que, quando maior o percentual de componentes importados, menor a necessidade de pesquisas, de engenheiros, de empregados nas diversas linhas. A cadeia produtiva do setor também será empobrecida, com pequenos fornecedores sendo substituídos por produtos importados.

Na outra ponta, as empresas campeãs, aquelas que conseguiram grandes saltos de produtividade, capazes de compensar a valorização do real, o aumento dos tributos. Qual o futuro dessa empresa, se teve ganhos de produtividade de 20% no período? Em qualquer outro país do mundo seria uma campeã certa a conquistar o mercado externo.

Com esse câmbio, no plano externo esse esforço todo será suficiente para a empresa não sair do lugar: não morre, mas também não cresce. No plano interno, a empresa terá como concorrente, além dos produtos importados, empresas nacionais que decidiram se transformar em meras “maquiadoras”. Ou seja, esse modelo cambial mata todo o estímulo e competitividade das empresas efetivamente inovadoras.

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Quando se desce para o espectro das empresas menores, a situação é pior. A idéia de que os fracos têm que morrer é uma estultice. Empresas são ativos de um país. Se não devem ser super-protegidas, menos ainda devem ser expostas a uma luta desigual.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
13/06/2007 - 07:00

Como construir o futuro

Coluna Econômica – 13/06/2007

Na segunda-feira houve debate sobre o meu livro “Cabeças de Planilha” na Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Juntou o economista Yoshiaki Nakano e o cientista social Fernando Abrúcio.

No livro, falo dos problemas cambiais do início do Real, que acabaram comprometendo o sucesso do plano, jogando o país em uma estagnação que perdura até hoje, e privando-o de se beneficiar de um dos períodos mais favoráveis da história. E comparo com os problemas criados por Rui Barbosa no início da República, que levaram à crise do Encilhamento (o movimento especulativo na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro).

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Rui teve muitas virtudes, inclusive a de ajudar a montar um federalismo mais consistente na primeira Constituinte da República, lembra Abrúcio. Mas cometeu um erro fatal, apontado por Oliveira Vianna, pensador brasileiro dos anos 20. Esse mesmo erro teria sido cometido por Fernando Henrique Cardoso com o Plano Real, no qual Abrúcio vê muitas virtudes, mas vê como erro central o abandono da palavra desenvolvimento.

O que Rui e FHC tinham em comum, indaga ele? Ambos não gostavam, não acreditavam no país. Sentiam-se internacionalistas, acreditavam apenas nas instituições internacionais e julgavam ser possível transplantá-las a seco, conferir poder a uma classe internacionalizada, a única que julgavam capaz de desenvolver o país. Jamais entenderam que a construção do país é algo muito mais complexo, que não poderá nunca prescindir do povo, dos empresários, dos trabalhadores nacionais.

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Abrúcio considera que seria muito difícil evitar os erros, porque o país padece da ausência da chamada vontade nacional. E vê dois pontos que explicariam a perda de oportunidade. O primeiro, uma elite social que não é voltada para o país. Segundo, o racha que ocorreu entre PT e PSDB, os dois únicos partidos com proposta reformista.

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Yoshiaki Nakano bateu na mesma tecla. A elite brasileira não difere em muito das colônias romanas. Roma recrutava os melhores cérebros nas províncias, trazia para estudar e se formar. Depois, voltavam para lá como agentes do poder imperial.

Nakano observou a enorme dificuldade dos cientistas brasileiros – economistas, cientistas sociais – em enxergar o país de forma sistêmica. E, em geral, recorrer a padrões internacionais, sem conseguir se debruçar na realidade nacional.

Lembrou que o Plano Real manteve intacto o sistema monetário criado na época da hiperinflação. Os títulos ainda são pós-fixados. Em outras economias, os títulos são pré-fixados. Quando o Banco Central aumenta os juros, inflinge perdas aos bancos. E essas perdas criam resistência a aumentos desnecessários de juros. No Brasil mantiveram-se os títulos pós-fixados. Quando o BC aumenta os juros, automaticamente aumentam os ativos dos bancos. Assim, cria-se uma força em favor dos juros altos.

A saída não é econômica. É começar a se desenvolver o conceito de Nação, de interesse nacional, recuperar a auto-estima no país e nos brasileiros. Apenas quando se aceitar a existência do conceito de Nação, se abrirá espaço para a união de todo o país em torno de uma proposta de desenvolvimento concreta.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
12/06/2007 - 14:17

Amor de Internet

Não sei se por anos, décadas ou séculos,
esperei bater à minha porta
certa mulher

A queria altiva, não solene.
Não a queria simples, mas complexa.
Não devia ter a bússola, só o leme
e com ele perseguir o rumo,
qualquer rumo, por qualquer quebrada,
contanto que na caminhada
viesse dar à minha porta,
eu também sem rumo.

Não sei se por décadas ou anos,
esperei pela mulher que não chegava.
Onde estaria? Talvez escondida
num desvão de meus vinte e um anos,
no inventário dos meus desenganos,
numa curva daquela estrada abrupta
que ingressei, quando encarei a vida

Esperei pela mulher que não chegava,
que devia ser altiva, não astuta,
que devia ser paixão, não força bruta,
iluminando a minha existência.
Esperei por muito tempo, muito tempo, muito tempo, muito tempo, muito tempo…

Mas os anos passaram num relance,
e a mulher que eu queria já não era.
Ou era apenas retrato de vinte anos atrás,
dolorido, saudoso, mas retrato.
Agora, dona de casa compassiva e muda,
sem mais nada a ver, presa à labuta
de acordar,
cozinhar,
servir a mesa,
levar os filhos para a escola…
E, à noite, quando o marido se vira para o canto,
relembrar sonhos perdidos.

Mas eis que a fantasia me assombra no dia em que completei um ciclo de vida, uma batalha inquieta que sai da adolescência e chega muito rapidamente ao limiar dos meus cinqüenta anos.

E pela Internet faço um trato,
uma proposta indecorosa e safa
para a moleca que,
dizendo-se Heddy Lammar,
malandramente entra no chat para provocar
com sua jovem erudição desenfreada.

Abriria a ela as portas e os salões
da intelectualidade eloqüente da capital,
que, com seus vanilóquios intermináveis,
fascina a intelectualidade contida do interior.

Em troca, seria confidente e cúmplice,
incumbida de trazer ao chat
a mulher que um dia idealizei,
para um último papo, duas, três lembranças,
um arremate para a conversa inconclusa
cujo desfecho ficou parado no ar
na noite em que enterrei meus sonhos.

A moleca ouviu um tanto intrigada
a proposta descabida e louca,
vinda de quem mal conhecia
– um nick provocador e debochado
cuja diversão mais ostensiva,
consistia em ironizar sua erudição.

Pensou em tratar com desaforo
a proposta que a subestimava,
como se buscasse o autor, e não a obra,
como se mendigasse sobras de poesia,
como se fosse uma nova rica da cultura…
… mas não resistiu a penetrar, àquela altura ,
na porta que inesperadamente se entreabria.

Aonde iria dar, em algum louco?
Em algum misógino, em um fantasma delirante,
em um alucinado amante, ou, pior, um gozador?
Ou um cético contaminado
pelas libações da Internet
(como aquele médico pirado de Floripa,
que exercitou as armas da conquista…
E, depois, simulou a própria morte,
deixando-a perdida entre o real e a fantasia)?

E o que viu a deixou mais intrigada.

Quem era aquele desbocado
que inesperadamente
lhe fazia confidências doloridas?
que usava mensagens reservadas,
não para corte ou cantadas,
ou trepadas virtuais em malcomidas,
mas para confissões de vida?

Aceitou de pronto a proposta
e montando em conjunto a conspirata
criou-se total cumplicidade,
entre os dois tipos mais trocistas da sala.

Primeiro, matricular-se no curso de inglês
onde a mulher preenchia sua vida vazia
dando aulas comedidas.
Depois, insinuar-se junto a ela,
falar dessa nova invenção que
permitia
a quem buscava, encontrar,
ao romântico, romancear,
ao incuravelmente travado
destravar a declaração reprimida.

Durante semanas teceu-se a urdidura.
E Heddy Lammar, que era rocha pura,
e Salitre de Tal, pura armadura,
esqueceram por instantes de suas lanças
e do exercício rotineiro do sarcasmo.
E o chat perguntava, o que deu neles?
De certo tramando a grande sacanagem,
a suprema parceria, o trote clássico e fatal,
entre Heddy Lammar e Salitre de Tal.

A cada noite, depois do batente,
encontrávamo-nos no ICQ para balanço
e aprimoramento da estratégia traçada.
A cada manhã, antes da labuta,
encontrávamo-nos de novo.
Na hora do almoço, mais uma vez.
E aproveitávamos as pausas da grande armação
para confidências, revelações discretas,
plantadas distraidamente na conversa
como intervalos comerciais da grande novela.

E de revelação em revelação
rapidamente penetramos
nos recantos mais secretos de cada um.

Em breve, ela me viu um solitário.
Rapidamente a intuí tão só.
E enquanto as comportas se abriam
jorravam torrentes de dor e de agonia,
de dois náufragos navegando
pela cósmica solidão de um mundo novo.
Pressentindo Heddy Lammar sozinha,
sentindo em mim a solidão latente,
tornamo-nos hóspedes permanentes
de nossa solidão vizinha:
eu abrigando minha solidão na dela,
ela amparando sua solidão na minha

À medida em que os dias caminhavam,
as sombras do passado iam se esvaindo
como nuvens pesadas tocadas
por um vento forte e reparador.
Cada vez menos valia o trato inicial.
Sem perceber, um novo ciclo se iniciava,
agora, eu precisando de Lammar,
ela pedindo Salitre de Tal.

Mas não veio a paz de pronto, e sim o furacão,
desordenado, imprevisível, assustador, intenso.
E Salitre de Sal, que nunca desarmara ,
e Heddy Lammar, que nunca se excedera,
assustaram-se com o salto no escuro,
como quem transpõe o misterioso muro,
que transporta para o onde ainda não há.

Que sentimento era aquele que jamais sentimos,
nos fazendo ansiar, arfantes, loucos,
buscando incessantemente um ao outro
como viciados em drogas e poesia?
Que sentimento aquele, que jamais previmos,
nos fazendo derrubar muralha, paliçada,
elmo, armadura, e almas tão fechadas
pela grande solidão que construímos?

Não sabíamos decifrar a emoção,
que nos fazia vibrar a cada nervo
como as cordas tesas de um bandolim.
Só sabia que eu queria a ela,
e ela sabia que queria a mim.

Aí, houve a necessidade urgente
de um mergulho breve e incisivo
que permitisse decifrar o mais preciso
a árvore, o fruto, a polpa, a semente.
Não valia mais o grande enigma,
antes fascínio, agora, insegurança.
O que valia era a pronta resposta,
a comprovação de que a nossa aposta
em vez de risco, era aventurança.

E doeu, meu Deus, como doeu,
desvestir cada véu, cada escama,
revolver cada lençol na cama,
farejar resquícios de paixão.
Como doeu espreitar a energia,
a vitalidade jovem e sadia
de quem aprendeu sem carregar as culpas
que carregou a minha geração.
Como doeu decifrar as aventuras,
algumas vagas, outras muito duras,
umas antigas, outra invadindo
o início tenso de nossa paixão.

Ao final do processo, eu exaurido,
reflexivo, apaixonado e sábio,
como leitor daqueles alfarrábios
que decifravam a condição humana,
entendi o início e o meio,
compreendi o desfecho e a conclusão.

E foi assim que esse amor tão louco,
atracou-se como o barco ao porto
depois de noite de mil provações.
Hoje, a cada manhã que amanheço
a espreito no leito e me enterneço
com o reencontro, o reinício.

E recomeço.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
12/06/2007 - 10:22

Enviado por: Ruben

Reagan tinha talvez uma qualidade única: conseguia sintetizar a aparente complexidade do mundo numa afrontosa simplicidade, e muitas vezes verdadeira… Resumiu-se no seguinte: os EUA tinham a obrigação moral de exercer a soberania do sua situação imperial. No âmbito da economia, tinha que viabilizar sua vocação exploratória. No âmbito militar tinha que impor sua hegemonia. No âmbito da política tinha que demarcar uma frente unívoca. No âmbito da política externa tinha que impor sua ideologia. Simples assim, e muito efetivo. Lembro-me de uma entrevista em meados dos anos 80 com o Braudel no fim da vida. Perguntado sobre se a situação corrente, de aparente anemia dos EUA, consistia em uma refutação na sua abordagem centro-periferia da história e da economia. A resposta foi brilhante: sou velho, tenho paciência, o tempo passará rapidamente, e a hegemonia do centro será reestabelecida; o mundo ainda gira em torno de NY e Washington, não em torno de Frankfurt ou Tóquio. Dito e feito… em 1989 de cada 100000 economistas 99999 diriam que o futuro estaria na Alemanha e sobretudo no Japão. A pouca propensão à poupança americana impunha-lhe uma fraqueza intransponível…. Um em cem mil diagnosticou corretamente: a fraqueza era justamente a força. Reagan sem dúvida eram um destes.

Por aqui, ainda que o Nassif não concorde, o Lulão também tem uma visão simplificadora da realidade: é necessário re-colocar o pobre na vida econômica, social e política. No âmbito econômico, é necessário dar renda e crédito. No âmbito político é necessário criar a auto-estima. No âmbito militar é necessário unir a América Latina (o novo centro energético dos EUA?). No âmbito diplomático, é necessário impor os termos nações em desenvolvimento. Posso ser um entre cem mil, ou posso ser um idiota completo, mas tô com Lulão até o fim… todo o resto, é perda de foco: discutir o câmbio e a industrialização, discutir os padrões éticos da política, discutir a ascensão e Chaves e sua influência na América Latina, discutir a efetividade dos acordos multi-laterais e por ai vai! Perde-se a realidade simplificadora: perde-se a intuição do Estadista. Se os EUA tem a vocação Imperial do centro, o Brasil tem a vocação colonial da periferia: cabe definir os termos de troca, que não são pautados por relações t ão assimétricas como se costuma pensar.

Ruben

Enviado por: arkx

“é necessário re-colocar o pobre na vida econômica, social e política. No âmbito econômico, é necessário dar renda e crédito.”
simples? simples, não!

só que para termos desenvolvimento com inclusão social o FOCO passa pela macroeconomia: juros e câmbio.

para desenvolver o país o Bolsa Família, e mesmo o PAC, são insuficientes.

é preciso planejamento estratégico, com alterações nas políticas monetária, cambial e fiscal.

então, cabe a colocação do Nassif sobre o Estadista.

quem move a História? os homens ou suas circunstâncias?

ou há uma profunda e inseparável relação entre os homens e suas circunstâncias?

Lula ainda tem a iniciativa em suas mãos. a mudança da matriz energética mundial traz uma rara oportunidade.

produção de etanol pode ser descentralizada. micro-usina também outras fontes podem ser utilizadas. vide palmeiras.

as circunstâncias estão dadas. falta o homem se entregar para elas.

para Lula, o chamado da História é inequívoco e não contemporiza com recusas ou meias -medidas.

numa das encruzilhadas de seu destino, o Brasil se exaspera para que alguém o decifre, antes que sejamos todos devorados.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
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