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31/05/2007 - 07:00

O “apagão” de preços

Coluna Econômica – 31/05/2007

A partir dos anos 50, uma das grandes vantagens competitivas brasileiras foi a energia abundante e barata, fruto do sistema de hidroeletricidade implantado a partir da criação da Eletrobrás. Foi o que permitiu ao país desenvolver uma forte indústria de eletro-intensivos, como a de alumínio, a siderúrgica, entre outras.

A partir de 2002, essa vantagem começou a se reduzir sensivelmente. Problemas na implantação do modelo elétrico, a chamada “descontratação” da energia antiga (que passou a ser colocada a preços de mercado, não levando em conta a depreciação dos investimentos) apagão, dificuldades com licenciamento ambiental, apreciação cambial, tudo está contribuindo para eliminar progressivamente as vantagens do país.

Em quatro anos, o aumento real da energia médio industrial foi de 120% (descontada a inflação), de acordo com levantamentos da ABRACE (Associação Brasileira dos Consumidores de Energia), que congrega 68 grupos industriais, responsáveis por 75% do consumo no mercado livre – aquele em que a energia é contratada livremente, sem passar compulsoriamente pela distribuidora.

Esse aumento ocorreu mesmo a energia hídrica ainda sendo majoritária na matriz energética brasileira.

O Plano Decenal de energia do governo mostra um quadro mais preocupante. Se se chegar à matriz pretendida, nos próximos dez anos a energia terá um aumento real de 25%. Se não se conseguir emplacar as grandes hidrelétricas, o aumento será maior ainda. Se configurará o que o setor está chamando de “apagão de preços”.

***

Dois fatores têm levado a essa escalada. O primeiro, a explosão de encargos, com o aumento do Pis-Cofins e de outros encargos. De 2002 a 2006, tributos e encargos passaram de 36% para 51% da receita bruta das geradoras. No caso da energia nova, o investimento representa 60% do custo. Só que 40% desses 60% são impostos pagos antes da operação.

O segundo, o modelo dos leilões de energia que, devido ao atraso da oferta de nova energia hídrica, tem privilegiado a energia térmica – mais de 70% da energia contratada.

Isso se deveu não apenas aos problemas de licenciamento, mas aos atrasos do segundo governo FHC e do primeiro governo Lula em realizar o inventário hídrico e preparar projetos e licenciamento.

***

Para tentar inverter essa lógica, a ABRACE criou o Projeto Energia Competitiva, visando encontrar alternativas. Na associação, se considera que o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) representou um avanço expressivo. Para usinas maiores (mais de 1.000 mw), significará uma redução de 18% no custo; de 15% para usinas médias e de 12% para usinas menores.

Mesmo assim, a redução da parte hídrica da matriz trará conseqüências graves. Vai se abrir mão de uma energia que custa R$ 120 o mw/hora para outras de R$ 150 (carvão, gás natural e nuclear) e, depois, para óleo combustível e diesel, que custam até seis vezes mais.

***

Uma das propostas do grupo é reduzir o ritmo dos leilões, a fim de dar tempo para que possa ser ofertada a nova energia hidrelétrica, que depende de licenciamento ambiental. Outra, é atuar para impedir a criação de novos encargos, além de racionalizar ou reduzir os já existentes.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Clique aqui para baixar o trabalho da Abrace.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:

19 comentários para “O “apagão” de preços”

  1. DEODATO FILHO disse:

    Nassif. Os problemas brasileiros se agravam cada vez mais pela falta de capacidade de planejamento das lideranças nacionais, que cada vez mais olham para seu umbigo em vez de mirar o horizonte. Você que se bate pelos juros altos, deveria se bater contra impostos altos, pois esse é o grande entrave do país. Não dá nem vontade de sair da cama sabendo que metade do seu dia vai para o governo (incrível, não?), e pior, não volta. Enfim, já estou desesperançado quanto alguma mudança desse PACderme sugador. Pergunto então, não era hora da iniciativa privada buscar alternativas visando economia de energia, água. e demais serviços públicos? Sendo engenheiro e trabalhando nessa área para clientes de pequeno porte sei que com poucos investimentos uma empresa pode reduzir o consumo de água, utilizando-se do reaproveitamento de águas pluviais, reduzindo o consumo de energia via equipamentos mais econômicos, ou fontes alternativas com solar e eólica, melhorando a qualidade das águas servidas ao fazer tratamento parcial dos esgotos. Essas atitudes reduziriam significativamente a demanda de serviços públicos, que poderia ser melhor direcionada. O governo poderia ajudar, mas aí esbarra na %!@$&@#(perdão) dos impostos e empaca todas suas providências (fora que alguém vai querer em cima e por aí vai). Enfim o Brasil pode existir e funcionar apesar do governo, mas os agentes econômicos ficam no aguardo dele, e isso é uma besteira imensa.

  2. Alan Souza disse:

    Nassif,
    1)Interessante que o custo aumenta 6 vezes so por passar de gas para diesel? Mas o gas nao é cotado em Mega BTUs equivalente?

    2)A argentina acaba de restabeler o fornecimento de gas ao chile, que cortou no inicio da semana por causa do aumento da demanda interna devido ao frio. Dizem que 90% do consumo do chile vem da Argentina.

    3) Tambem na Argentina, empresas foram obrigadas a substituir o gas por diesel durante essa semana. No Brasil dizia-se que as emrpesas não estavam preparadas para fazer isso, quando o Morales começou a atacar. Falta de preparação das empresas brasileiras?

  3. Ricardo Fernandes disse:

    Mas você não defendia ferrenhamente que o novo modelo do setor elétrico é muito bom?

  4. Luis Nassif disse:

    Não são problemas do modelo em si. O aumento é derivado, em parte, da “descontratação” das usinas velhas, promovido pelo modelo anterior. Quando se analisa o aumento de custos, verá que é por conta do aumento de tributos, que não tem a ver com o modelo. O ajuste a ser feito é acertar rapidamente as licenças ambientais para impedir a ampliação da oferta de energia térmica.

  5. Sergio disse:

    Nassif,
    você conhece algum estudo mostrando o volume de recursos que as empresas do sistema de energia elétrica receberam no período pós-privatização e o quanto recebiam pré-privatização? A mesma questão vale para as empresas de telecomunicações. Para o consumidor residencial, o peso da energia elétrica em seus gastos mensais foi quintuplicado pós-privatização. Ou seja, há um processo de transferência de renda para esse setor, sem a efetiva contrapartida de melhor prestação de serviço. No caso de telecomunicações, seu peso na estrutura de gastos mensais de um consumidor residencial mais que decuplicou, isso levando em conta apenas a telefonia fixa, sem contar novos serviços (novas receitas para as empresas, portanto), como telefonia móvel, internet e tv a cabo. A apropriação de renda por parte desses setores de serviços explica boa parte da crise de renda da classe média nacional, mostrada por estudos diversos, por exemplo de Quadros (UNICAMP). Além disso, a apreciação do real torna, nos dias de hoje, os preços do setor de serviços comparáveis e valores internacionais. Como exemplo do cotidiano, o transporte público nunca foi tão caro: em Belo Horizonte, a tarifa t %!@$&@#quando do plano real era de US$0,33. Hoje, é de US$1,00. O mesmo vale para qualquer outra capital.

  6. Luis Nassif disse:

    Deve ter no Projeto Brasil (www.projetobr.com.br) Quando migrar para a nova plataforma, nos próximos dias, será mais fácil encontrar.

  7. Rodrigo disse:

    Boa parte do ajuste fiscal dos Estados vem se dando em cima das tarifas de energia elétrica.
    Aqui em Minas mesmo, o Aécio cobra 30% de ICMS sobre a energia, além de ter aumentado a tarifa em torno de 120%.

  8. gustavo disse:

    nassif,
    e por que ainda tem gente que , desde o II PND, insiste na implantacao das usinas nucleares?? bem mais caras e perigosas!

  9. Luis Nassif disse:

    Os cálculos, aí, são em cima de Angra 2, sem levar em conta a herança financeira, que já é dada.

  10. Walker disse:

    Recentemente o NY Times mencionou os problemas energéticos da Índia, que tem 600 milhões de pessoas no breu. Nova Delhi tem um deficit de 20% de sua necessidade. As empresas de informática precisam trabalhar com geradores a diesel. A China precisa construir usinas a carvão, a toque de caixa, para acompanhar seu crescimento. Com todos os nossos problemas, o Brasil ainda tem muito a seu favor.

  11. Rodrigo disse:

    Já ia me esquecendo: o que a ABRACE não lembra é que a mudança no PIS e COFINS, que aumentou as alíquotas, permitiu, por outro lado, o crédito calculado em relação à energia elétrica consumida, diminuindo, assim, os encargos suportados pelas empresas industriais. Quem arcou integralmente com o aumento foram os consumidores residenciais, e os que ainda calculam as contribuições pelo regime cumulativo.

  12. Sergio disse:

    Há muito deixei de esperar por medidas de governos e instituições sangue sugas, ao invés de esperar, captei agua da chuva em reservatorio de 5mil litros e uso para todos os tipos de limpeza(carro,casa, jardim, roupas). Coloquei energia solar para aquecimento de água(chuveiro), coloquei GNV no carro. Com a economia apliquei em ações, e estou prestes a completar o valor para instalar a energia eólica e talvez complementar com a fotovoltaica e SABESP E ELETROPAULO, que vão roubar outra freguesia- FAÇAM O MESMO e decretem a FALENCIA deste bando de SAFADOS LADRÕES, que pegam o dinheiro do povo e constroem usinas e mais usinas represando agua, causando males indiscritiveis ao meio ambiente, inundações, desmatamento, efeito estufa, enchentes. Com aumentos injustificáveis e insanos, isto sem falar na telefonia.

  13. Waldyr Kopezky disse:

    Mas não seria a crise do setor energético anterior a isso? Digo isso no sentido de lembrar dos verdadeiros “apagões”, crise energética que surgiu neste mesmo 2002 com “blackouts” em várias capitais brasileiras. No meu entender, esta situação remete à (malfadada) privatização no setor energético, tanto quanto outras que ocorreram no governo FHC. Manteve-se Furnas (corretamente), mas privatizou-se as distribuidoras. Agora, a luz pública (das ruas!) nas grandes cidades têm de ser cobrada de alguém. Tome-se como exemplo a capital paulista: houve uma pressão muito forte junto a José Serra – quando este foi prefeito de SP – para que liberasse parte do dinheiro devido pela municipalidade à AES Eletropaulo, que estava (e está) mal das pernas. Qual foi a resposta da Prefeitura? Pressionar ao inverso, ameaçando cobrar por cada poste fixado nas calcadas da cidade! Quer dizer, quando se fez um modelo de privatização, não se pensou na cadeia de consequências deste tipo de ação. Eu repito: não sou totalmente contra a privatização (afinal, certas áreas não são “core business” do governo, ele tem que se voltar para certos assuntos e atribuições específicas), mas
    a transferência de ativos públicos não pode – e nem deve! – ser feita de forma apressada, em oito anos de governo deste ou daquele partido político -, pelo bem de todos: empresários (que sofrem hoje com a majoração de seus custos de energia e uma infra de baixíssima qualidade), os governos (especialmente os municípios, que devem fortunas às distribuidoras em função da iluminação pública) e – por último, mas não em último – à população de nosso País.

  14. Luis Nassif disse:

    O erro vem de lá de trás, de fato.

  15. Alan Souza disse:

    O link para o projeto de energia competitiva da ABRACE é o mesmo do estudo da FGV!

  16. Luis Nassif disse:

    Eita. Vou corrigir, mas só segunda.

  17. luiz da silva dantas disse:

    pergunto:não seria mais saudavel taxar os dolares que entram para especular no mercado estancando assim parte de fluxo de entrada?Isso poderia levar a uma situação de mais equilibrio ao cambio?

  18. Luis Nassif disse:

    É um dos caminhos.

  19. Humberto Cattaruzzi disse:

    Curioso, leio agora que o iene já desvalorizou ( sim, DESVALORIZOU) este ano 3,88% ! Alguém pode me explicar o porquê já que segundo todos dizem o dólar está desvalorizando no mundo todo !? Talvez nós estejamos certos e os japoneses, pobres japoneses, estejam errados !

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