O maior momento do boxe
A história do boxe está repleta de combates históricos, desde os de Jack Dempsey e o argentino Luiz Firpo, Sugar Ray Robinson contra Jack La Motta, La Motta contra Marcel Cerdan, Joe Louis contra Max Baer. Uma das características do combate épico é o equilíbrio, a imprevisibilidade, o fato de se saber que qualquer um poderá cair na lona a qualquer momento.
Durante longos anos, por exemplo, o peso médio argentino Carlos Monzon -o maior da história, na sua categoria–, com seu corpo esguio, magro até, a maneira de jogar o tronco para trás para se desviar dos golpes dos adversários, foi previsível: vencia todas, como quem vai a um passeio, do mito italiano do mito italiano Nino Benvenutti ao extraordinário cubano-mexicano José “Mantequila” Nápoles. Épicos mesmo, pelo equilíbrio de forças, foram seus combates contra o talentosíssimo colombiano Rodrigo Valdez, que fez carreira paralela e invicta como a dele.
Épico também foi o combate entre o nicaragüense Aléxis Argüelo e o negro americano Ray “Boom Boom” Mancini, outra máquina de bater. Argüelo dominou até o penúltimo assalto, dando um dos maiores shows de boxe da história. Bastou um soco bem colocado do americano para ele vacilar e ser demolido por uma saraivada de golpes.
Mas o maior épico da história do boxe foi Muhamad Ali, especialmente quando voltou da suspensão a que foi submetido por ter se recusado a lutar no Vietnã. E digo especialmente não porque ele tenha voltado melhor. Voltou pior, mais pesado, menos efetivo nos seus golpes, ainda ostentando jabs fortes, posto que mais pesado do que antes, mas sem a leveza dos primeiros tempos, e sem aqueles golpes que, aparentemente sem forças, destruíam animais como Sonny Liston. E talvez no período em que vicejou o mais forte conjunto de pesos pesados da história.
Voltou, foi derrotado por Joe Frazier em uma luta histórica, na qual foi à lona do penúltimo assalto. Antes da revanche, Frazier foi demolido por George Foreman -provavelmente o mais forte lutador de todos os tempos–, com um murro no estômago no terceiro assalto que o levantou do tablado como a uma boneca de pano.
Para recuperar o título mundial, Ali tinha que enfrentar Foreman, e o significado dessa luta transcendeu o tablado. Foreman era o oposto de Ali. Era o representante típico do establishment americano, certinho fora de quadra, um animal de ferocidade dentro, embora não lutasse sujo. Tinha sido o negro que se enrolara na bandeira americana nas Olimpíadas, enquanto outros atletas negros protestavam contra o racismo e a guerra.
Era enorme e com um jeito de lutar todo especial. Cruzava os braços em xis, protegendo simultaneamente o tronco e a cabeça. E tinha um direto de direita fulminante. Nenhuma de suas lutas passara do quinto assalto, a maioria absoluta terminara antes do terceiro. Pois era esse gigante que Ali teria que enfrentar, se quisesse recuperar o título.
A luta foi na África, e repleta de significados. Era o herói pacifista, o representante dos rebeldes de Woodstock, das passeatas no Capitólio, enfrentando a mais poderosa máquina de bater, quase um desses personagens do Stallone criados não pela KGB, mas pela CIA.
Começa a luta e, desde os primeiros minutos, via-se um Ali irreconhecível, preso nas cordas, protegendo o rosto com as luvas e recebendo, inerte, uma saraivada de socos no fígado, no estômago e nos braços.
Assalto após assalto foi isso. Confesso que pensei em desligar a televisão para não ver meu ídolo naquele triste fim de carreira. A única coisa que não batia naquele enredo era que, sempre que terminava um assalto, depois de passar três minutos sob pancadaria Ali subia nas cordas e saudava a multidão de africanos que o aplaudia. Eu ficava pensando com meus botões, coitado, ele está comemorando o fato de poder respirar um minuto de intervalo antes de voltar a apanhar.
E foi assim até o oitavo assalto. No oitavo tinha-se um Foreman resfolegante que nem uma locomotiva velha, a esta altura dando socos sem direção contra um Ali que continuava paradão. Até que, em um determinado momento, Ali soltou um jab no queixo do adversário. O gigante estacou, olhos já vidrados. Ali saiu debaixo de seus braços e foi fulminante: uma seqüência memorável de um-dois na cabeça do adversário. E o que se viu, em seguida, foi o maior momento da história do boxe, o golpe que não houve. Aquele gigante desabando, que nem um jatobá podre, caindo em câmara lenta na frente de Ali. Este o acompanhando, pronto para desferir o último golpe. Com o gigante quase de joelhos, seu rosto fica a poucos centímetros das luvas de Ali. O campeão acompanha o adversário, os braços retesados, de quem está pronto para dar o golpe final. E se contém, o golpe não sai, porque não era mais necessário.
Nunca existiu nem existirá lutador como Ali.
Para incluir na lista Crönica Semanal
Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags: