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Arquivo de maio 5th, 2007

05/05/2007 - 20:00

O maior momento do boxe

A história do boxe está repleta de combates históricos, desde os de Jack Dempsey e o argentino Luiz Firpo, Sugar Ray Robinson contra Jack La Motta, La Motta contra Marcel Cerdan, Joe Louis contra Max Baer. Uma das características do combate épico é o equilíbrio, a imprevisibilidade, o fato de se saber que qualquer um poderá cair na lona a qualquer momento.

Durante longos anos, por exemplo, o peso médio argentino Carlos Monzon -o maior da história, na sua categoria–, com seu corpo esguio, magro até, a maneira de jogar o tronco para trás para se desviar dos golpes dos adversários, foi previsível: vencia todas, como quem vai a um passeio, do mito italiano do mito italiano Nino Benvenutti ao extraordinário cubano-mexicano José “Mantequila” Nápoles. Épicos mesmo, pelo equilíbrio de forças, foram seus combates contra o talentosíssimo colombiano Rodrigo Valdez, que fez carreira paralela e invicta como a dele.

Épico também foi o combate entre o nicaragüense Aléxis Argüelo e o negro americano Ray “Boom Boom” Mancini, outra máquina de bater. Argüelo dominou até o penúltimo assalto, dando um dos maiores shows de boxe da história. Bastou um soco bem colocado do americano para ele vacilar e ser demolido por uma saraivada de golpes.

Mas o maior épico da história do boxe foi Muhamad Ali, especialmente quando voltou da suspensão a que foi submetido por ter se recusado a lutar no Vietnã. E digo especialmente não porque ele tenha voltado melhor. Voltou pior, mais pesado, menos efetivo nos seus golpes, ainda ostentando jabs fortes, posto que mais pesado do que antes, mas sem a leveza dos primeiros tempos, e sem aqueles golpes que, aparentemente sem forças, destruíam animais como Sonny Liston. E talvez no período em que vicejou o mais forte conjunto de pesos pesados da história.

Voltou, foi derrotado por Joe Frazier em uma luta histórica, na qual foi à lona do penúltimo assalto. Antes da revanche, Frazier foi demolido por George Foreman -provavelmente o mais forte lutador de todos os tempos–, com um murro no estômago no terceiro assalto que o levantou do tablado como a uma boneca de pano.

Para recuperar o título mundial, Ali tinha que enfrentar Foreman, e o significado dessa luta transcendeu o tablado. Foreman era o oposto de Ali. Era o representante típico do establishment americano, certinho fora de quadra, um animal de ferocidade dentro, embora não lutasse sujo. Tinha sido o negro que se enrolara na bandeira americana nas Olimpíadas, enquanto outros atletas negros protestavam contra o racismo e a guerra.

Era enorme e com um jeito de lutar todo especial. Cruzava os braços em xis, protegendo simultaneamente o tronco e a cabeça. E tinha um direto de direita fulminante. Nenhuma de suas lutas passara do quinto assalto, a maioria absoluta terminara antes do terceiro. Pois era esse gigante que Ali teria que enfrentar, se quisesse recuperar o título.

A luta foi na África, e repleta de significados. Era o herói pacifista, o representante dos rebeldes de Woodstock, das passeatas no Capitólio, enfrentando a mais poderosa máquina de bater, quase um desses personagens do Stallone criados não pela KGB, mas pela CIA.

Começa a luta e, desde os primeiros minutos, via-se um Ali irreconhecível, preso nas cordas, protegendo o rosto com as luvas e recebendo, inerte, uma saraivada de socos no fígado, no estômago e nos braços.

Assalto após assalto foi isso. Confesso que pensei em desligar a televisão para não ver meu ídolo naquele triste fim de carreira. A única coisa que não batia naquele enredo era que, sempre que terminava um assalto, depois de passar três minutos sob pancadaria Ali subia nas cordas e saudava a multidão de africanos que o aplaudia. Eu ficava pensando com meus botões, coitado, ele está comemorando o fato de poder respirar um minuto de intervalo antes de voltar a apanhar.

E foi assim até o oitavo assalto. No oitavo tinha-se um Foreman resfolegante que nem uma locomotiva velha, a esta altura dando socos sem direção contra um Ali que continuava paradão. Até que, em um determinado momento, Ali soltou um jab no queixo do adversário. O gigante estacou, olhos já vidrados. Ali saiu debaixo de seus braços e foi fulminante: uma seqüência memorável de um-dois na cabeça do adversário. E o que se viu, em seguida, foi o maior momento da história do boxe, o golpe que não houve. Aquele gigante desabando, que nem um jatobá podre, caindo em câmara lenta na frente de Ali. Este o acompanhando, pronto para desferir o último golpe. Com o gigante quase de joelhos, seu rosto fica a poucos centímetros das luvas de Ali. O campeão acompanha o adversário, os braços retesados, de quem está pronto para dar o golpe final. E se contém, o golpe não sai, porque não era mais necessário.

Nunca existiu nem existirá lutador como Ali.

Para incluir na lista Crönica Semanal

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
05/05/2007 - 12:42

O Youtube de um sábado musical

Enviado por: Wilson

Nassif,

dois links da Eva Cassidy cantando no Blues Alley (o show virou CD). Era uma grande voz que infelizmente se calou muito cedo, aos 33 anos. Seu primeiro disco (The Other Side) foi com o guitarrista Chuck Brown, ali se percebe seu grande talento acompanhando o vozeirão negro formidável de Brown.

Aqui, ela canta Cheek to Cheek.

Aqui, Autumn Leaves

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
05/05/2007 - 07:00

Os 70 anos da morte de Noel

Noel Rosa, o cruel e o lírico
Crônica publicada no livro “O Menino de São Benedito”

O lançamento da coleção com todas as músicas de Noel Rosa, em cima do trabalho monumental do pesquisador Omar Jubran, é um marco na história da MPB. E traz de novo para primeiro plano o maior mito da música popular brasileira.

Noel morreu em 1937, aos 26 anos, na condição de mais popular compositor brasileiro. Consta que nos anos que se seguiram à sua morte, foi relegado ao ostracismo. Depois, teve suas ressurreições. A primeira foi no início dos anos 50, quando seu maior parceiro, o paulista Vadico, retornou dos Estados Unidos, onde fez nome como violonista e arranjador, e preparou os arranjos para um hi-fi com músicas de Noel, interpretadas por Aracy de Almeida. Tenho em minha coleção esse disco histórico, graças a São Pelão, meu santo dos discos impossíveis. O disco tem o valor histórico de recuperar Noel, mas não chega a ser uma obra prima. Os arranjos são muito chegados aos sambas canções da época, Aracy troca a malandragem pelo vestido de noite, perdendo muito do sabor de Noel.

Curiosamente, a grande ponte entre o samba tradicional e a nova música -João Gilberto— não gravou Noel na época. Preferiu os sambas mais sincopados de Geraldo Pereira, Dorival Caymmi e Ari Barroso. Na época, alguns comentaristas, provavelmente egressos da bossa nova, consideravam fora de moda as letras com narrativas de Noel. Quem diz isso é Ruy Castro, em seu livro sobre a bossa nova. Confesso que não me recordo desse tipo de preconceito. A verdade é que a bossa nova não descobriu Noel porque João Gilberto não gravou Noel na época, seja lá qual for o motivo.

Minha geração foi apresentada a Noel através de um show histórico de Maria Bethânia, quando pela primeira vez ela trocou a roupa de guerrilheira de “Carcará” pela de cantora romântica. Já varávamos noites cantando “As Pastorinhas” (Noel e João de Barro), “O Orvalho Vem Caindo”, “Com Que Roupa” e outros. Com Bethânia vieram “Três Apitos”, “Último Desejo” e um enorme elenco de sambas lentos e românticos.

Bethânia se incumbiu de recuperar o gênio pela segunda e definitiva vez. A partir do final dos anos 60 ele estaria irreversivelmente entronizado no altar dos criadores da música popular brasileira.

A coletânea levantada por Jubran é preciosa por reconstituir a trajetória do gênio. No início de carreira, Noel foi influenciado pela música regional dos “Turunas da Mauricéia” -o grupo que veio do norte, constituído, entre outros, por João Pernambuco, Meira e Luperce Miranda. Eu já tinha ouvido as canções regionais de Noel em fitas que tenho em casa, reproduzindo a série “Nos Tempos de Noel Rosa”, que Almirante gravou para uma rádio, não me lembro se a Nacional ou a Mayrink Veiga.

Noel também transitou pelo choro. Mas é considerado por muitos críticos o pai do samba moderno, o compositor que teria feito a transição do maxixe para o samba, o branco que fez a ponte com os compositores negros. De fato, Noel foi parceiro de Cartola e de Ismael Silva, no início dos anos 30. Mas, embora aqui no Brasil a gente valorize demais o “pioneirismo”, me parece que Ismael, Cartola, Ari Barroso e outros também já produziam sambas que até hoje são contemporâneos.

Independentemente de seu pioneirismo ou não, Noel foi dos compositores fundamentais. Quando João Máximo escreveu sua biografia -em minha opinião a maior biografia já escrita sobre um músico popular no Brasil–, o compositor já estava reconhecido e consagrado. Emergiu do relato um personagem fascinante, cruel (capaz de botar fogo em mendigo), sentimental, ferino e, ao mesmo tempo, lírico, com todas as características que se juntam em uma pessoa brilhante mas complexada pela deformação do queixo -produzido por um fórceps mal conduzido, no seu parto.

Com esse misto de ressentimento sem perder a esperança, de sarcasmo sem perder a doçura, o guerreiro capaz de se render a um mero aceno de carinho, Noel não foi apenas dos maiores compositores do país, mas aquele que mais se aproximou da alma brasileira.

Para incluir na lista Crönica Semanal

Noel Rosa e o Bando de Tangarás

João Gilberto em uma gravação rara de Noel, “Feitiço da Vila”

Cristina Buarque canta uma das mais lindas músicas de Noel e Vadico, “Só Podia Ser Você”.

E o trailler do filme, que não vou perder.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
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