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Arquivo de abril 14th, 2007

14/04/2007 - 23:26

Conversas com dona Tereza

Dia 12 de abril último foi seu aniversário de nascimento, não me esqueci. À tarde juntei minha tropa, as menininhas e as meninonas e fui almoçar na praça Vilaboim. Depois passei na loja de música e sem pressentir comprei um CD de Carlos Galhardo.

À noite, em casa sozinho, coloquei o CD no computador e estava escutando, quando a Lourdes telefonou lembrando da data. Naquele momento o CD entrou na faixa 12, da valsa “Último Beijo”, de Jorge Faraj e Roberto Martins. “Na carta, nem o nome ela escreveu / adeus, e torturando o meu desejo / igual aos falsos beijos que me deu / a mancha de carmim de mais um beijo”.

Foi uma música que entrou no meu cérebro, ainda criança, cantada por sua voz límpida e depois ficou adormecida em algum lugar da memória. Alguns anos atrás, em uma rodada, um amigo levantou o tema e as lembranças afloraram com a força do vulcão de Poços de Caldas.

Só então me dei conta que a senhora tinha preferência por duas valsas de nome “Último Beijo”. A que eu sempre me lembrava era a do Zequinha de Abreu, gravada pelo Roberto Fioravanti. A primeira vez que visitei a casa Manon, em São Paulo, com dez anos de idade, fiz questão de comprar a partitura em piano, que tirei para tocar para a senhora. Lembra? Agora, passando a Semana Santa em Poços de Caldas, quando a noite avança saio pelas ruas refazendo os mesmos caminhos que a senhora percorria. No trajeto entre a Farmácia Central, no início da rua Rio de Janeiro, e a nossa casa, no final da rua, me lembrei da senhora carregando sua sacola, ou alguma cesta, e parando em cada casa do caminho para conversar. Como gostava de conversar! Às vezes precisava parar para superar uma angina fortíssima, fruto de um hipercolesterol que a levou aos 63 anos, mas que jamais abateu sua força ou sua verve.

Fiquei lembrando das noites em nossa casa, eu mais a Regina, a Fátima e a Inês -a Lourdes ainda era bebê— sentados em torno da sua cama, ouvindo-a cantar as valsas do seu tempo. Como a gente caçoava, depois, de sua paixão por Galhardo. A senhora gostava tanto dele, que aquele LP de capa azul não saia da vitrola. Sei que a senhora não vai acreditar, mas não fui eu quem sumiu com o LP. Ele gastou mesmo, de tanto tocar.

Com todo respeito, ainda temos calos no ouvido de tanto ouvir a senhora contar a história da Revolução de 1932, e de como se escondeu com meus avós em uma fazenda para fugir das tropas mineiras. Foi uma autêntica constitucionalista aos 6 anos de idade.

Acho que a única vez que a gente conseguia devolver suas gozações era quando juntávamos com as primas para dizer que a senhora representava os derrotados de 1932. No mais, a liderança da gozação sempre foi sua. Até mesmo quando ironizava a fama de separatista dos paulistas, cantando a paródia de “Fita Amarela”: “Quando eu morrer / não quero choro nem lista / só quero uma fita paulista / gravada separatista”. E como a senhora foi linda! Sempre que me encontro com o professor Antônio Cândido ele se recorda de sua beleza, que nem o tempo reduziu, nem a doença prejudicou. Eu fico ouvindo, todo coruja.

Agora, cá para nós, não foi fácil esse tempo todo ficar me indagando se tinha cumprido os compromissos, atendido às suas expectativas, se não tinha cedido ao acomodamento ou a qualquer forma de prazer supérfluo. Podia ter maneirado um pouco, né?, reduzido o teor de auto-crítica. Podia ter permitido alguns momentos de deslumbramento, de comemoração de um ou outro sucesso, sem me sentir ridículo. Lembro da sua neta Luizinha, em um desses momentos, me dando um puxão de orelha: “Pai, para de pensar no dia seguinte, curte o momento, que é seu!”. E quem disse que sua lembrança deixava.

Agora que a maturidade avança, com a chama ainda acesa, mas com alguma obra legada, quando se olham as filhas e sobrinhos crescendo, sendo formados na mesma massa que a senhora legou, a idade autoriza momentos de relaxamento. Já estava sentindo falta mesmo, de um daqueles nossos bate-papos que ficaram interrompidos por algum tempo, por algum conflito mal resolvido.

Para incluir na lista Crönica Semanal

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
14/04/2007 - 21:59

Duelo de bateristas

Enviado por Neves

Mais duelos interessantes:

Gene Krupa vs Buddy Rich

E esse, gaiato e sensacional, Buddy Rich vs Jerry Lewis

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
14/04/2007 - 18:54

O som dos violinos

Concerto para Violinos, de Beethoven, por Yehud Menuhin, dica do Wilson

Aqui o grande Jascha Heifetz tocando o Capricho no. 24 de Paganini

Heifetz em “Hora Stacatto”

David Oistrakh toca Tchaikovsky Violin Concerto (3rd Mov.)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
14/04/2007 - 13:05

O som de Atahualpa Yupanki

Daniel Winocur

Estimado Luis.

A primeira vez que lhe mandei um email foi com motivo de uma coluna sua na Folha que falava de Don Ata, como carinhosamente chamamos os argentinos que gostamos da musica de raiz, a esse genio da poesia popular.

Naquela ocasião, me sorprendí que vc soubesse que ele era. O tempo fez que alguma vez conversaramos pessoalmente, e que eu seja hoje leitor / usuario / e comentador de seu blog. ( o único que vale a pena ).

Visitanto o youtube, descubrí que agora alguns videos do Atahualpa estâo lá. Tem um bem interesante, do dia em que o maior anfiteatro dedicado á música nativa, em Cosquin (pcia de Córdoba) foi batizado com o nome dele.

A poesia boa, e o violão inconfundivel:

Tambem achei isto:

Tal vez valga a pena repetir a crônica de anos atrás, agora com ajuda de imagem e som………….

Esperando que o cha que quebra-pedra tenha dado efeito.

Um grande abrazo

Daniel Winocur

Aproveito, por minha conta, para colocar o grande violonista Eduardo Falu, com a Camerata Bariloche. Falu surgiu no início dos anos 50, trazendo o refinamento da formação clássica para o folclore argentino.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
14/04/2007 - 09:07

Sofismas planilheiros

Um dos sofismas preferidos dos planilheiros consiste em levantar ou questionar algumas relações de causalidade, mas sem proceder à devida quantificação — logo eles, que costumam se valer mecanicamente da matemática quando se trata de defender teses esdrúxulas.

Repare no que ocorreu quando o IBGE afirmou que teria havido perda de 1,2 ponto percentual do PIB com o quadro externo, devido ao aumento das importações substituindo a produção interna.

Em um modelo virtuoso, o aumento do consumo teria induzido a um aumento da produção que, na etapa seguinte, levaria a um aumento do investimento, trazendo mais aumento de consumo.

O que o IBGE mostrava é que, com a apreciação excessiva do câmbio, o aumento da demanda foi suprido em grande parte por importações, cortando a correia de transmissão do consumo para a produção.

Economistas como Affonso Celso Pastore correram para desmentir a afirmação com base em uma constatação empírica. A apreciação do câmbio, ao tornar os importados mais baratos, na verdade foi uma das causas para o aumento da demanda interna.

Onde está o sofisma? Justamente em não quantificar de quanto foi a influência da apreciação do câmbio sobre o aumento do consumo; e de quanto foi a influência do câmbio na substituição da produção interna.

Ora, parte relevante do aumento do consumo se deveu ao fator crédito, certamente muito mais do que ao fator câmbio. Principalmente porque não houve deflação. É fácil conferir.

Suponha um consumidor que consiga gastar R$ 100,00. A uma taxa de juros de 7% ao mês, a cada seis meses ele conseguirá comprar bens de até R$ 477,00. Suponha que a taxa caia para 3% ao mês. Automaticamente, no mesmo período conseguirá adquirir bens no valor de R$ 542,00. Ou seja, houve uma elevação de 14% no seu poder aquisitivo, exclusivamente pelo fator juros.

Mais que isso. Podendo financiar em até 12 meses, o valor do bem adquirido salta para R$ 995.00 – aumento de 109% no poder aquisitivo. Em 24 meses, com os mesmos R$ 100,00 poderá adquirir bens no valor de R$ 1.694,00 – elevação de 225% na capacidade de compra.

Ele se endivida, sim, e os dados de inadimplência estão revelando esse processo. Mas conseguiu antecipar e ampliar substancialmente seu poder de compra.

Quando é que a apreciação do real vai conseguir efeito semelhante? Suponha que tenha mantido estável o preço de alguns produtos, ou mesmo produzido uma deflação de 5% nos importados.

Olhando à primeira vista, para um aumento na demanda da ordem de 4,5% do valor do PIB, quanto poder ser atribuído ao financiamento, quanto ao câmbio? Quando se desce na escala de renda, a estrutura de consumo dos beneficiados pelos programas sociais tem baixíssimo componente de importados.

A conta correta, portanto, teria que considerar os seguintes fatores:

1. Identificar os fatores efetivos que provocaram aumento de demanda, para dar o devido peso à apreciação do câmbio.

2. Descontar desse total a parcela da produção doméstica que foi subtraída pelas importações.

Para quanto seria a perda do PIB com o fator externo? Um ponto percentual? 0,9 ponto? Fazendo essas contas provavelmente constatariam que o “erro” metodológico do IBGE foi irrelevante, e que o fator externo foi o principal responsável, sim, pelo PIB menor de 2006.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
14/04/2007 - 08:12

Chico Viola o rei da voz

Publicada em 28/09/2002

Até onde a memória alcança, não me lembro do dia da morte de Francisco Alves, o “Chico Viola”. Eu tinha apenas dois anos. Mas lembro anos depois de minha mãe contando que nevou em Poços de Caldas, a serra de São Domingos cobriu-se de branco e ele apertou minha irmã Regina junto ao peito, para proteger do frio seus dois meses de vida.

Só vim a conhecer plenamente Chico Viola lá pelos meus 10 anos. Em casa, havia uma profusão de discos de 78 rotações de diversos cantores e gêneros, colecionados por meu pai. Nenhum Chico Alves.

Na época ganhei um radinho de pilha, e toda noite ia dormir com ele. Foi numa das noites que ouvi pela primeira Chico Viola. Nem me lembro da música. Só me recordo que o arranjo era longo, de um daqueles maestros maravilhosos da rádio Nacional, tomava quase metade da gravação. E a voz de Francisco Alves entrava da metade para frente, aquela voz de barítono, romântico, que me fazia sentir saudades de lugares que nunca vi.

Levantei da cama e fui direto cobrar explicações da dona Teresa. Quem era esse Chico Viola, que tinha me chapado? Ela me explicou que havia sido um dos maiores cantores brasileiros, que havia morrido em um desastre na via Dutra. Cobrei-lhe explicações: “Como a senhora nunca me falou dele, se ele é melhor do que Carlos Galhardo?”. Para minha surpresa, dona Teresa admitiu que era melhor do que seu ídolo, mas não sabia a razão de nunca ter me falado dele. E me mandou ir para cama, que já era tarde.

O repertório de Chico Alves sempre nos acompanhou em nossas serenatas, ao lado dos modernos seresteiros que surgiam, como Chico Buarque e Sidney Miller. “Risque” (Ari Barroso), “Caminhemos” (Herivelto Martins), “Serra da Boa Esperança” (Ary e Lamartine Babo), foram lançadas pelo mestre. Não houve cantor na história -nem mesmo Orlando Silva—que tenha acumulado lista tão impressionante de sucessos. A valsa “Boa Noite, Amor” (José Maria de e Francisco Matoso), “A Mulher que Ficou na Taça” (com Orestes Barbosa), “Foi Ela” (Ary Barroso), “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), “Onde o Céu Azul É Mais Azul” (Alcyr Pires Vermelho, João de Barro e Alberto Ribeiro), “Caminhemos” (Herivelto Martins) e “Cadeira Vazia” (Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves), são apenas alguns de uma lista interminável de sucessos.

Chico Alves começou em 1918, quando lançou “Pé de Anjo”, de Sinhô, e prosseguiu nos anos 20, com “Malandrinha” de Freire Júnior, uma de minhas serestas prediletas. No ano da sua morte emplacou um de seus maiores sucessos, a marcha-rancho “Confete” (David Nasser e Jota Júnior). Seu enterro, em 28 de setembro de 1952, foi acompanhado por uma multidão de 200 mil a 500 mil pessoas.

Quando comecei a trabalhar na imprensa, por volta de 1970, Chico Alves era quase um cantor maldito. A bossa nova consagrara um novo estilo de interpretação, e cometia-se a bobagem de desqualificar qualquer estilo diferente. Ora, dentro de um estilo que foi soberano, dos anos 20 aos 50, Francisco Alves foi dos maiores, talvez só suplantado por Orlando Silva.

Além disso, havia muitas críticas quanto ao seu caráter. Acusavam-no de “roubar” músicas de compositores menos conhecidos. Chegava-se a ponto de não lhe atribuir nenhuma das 132 músicas oficialmente de sua autoria.

Ao longo dos anos, Chico foi sendo gradativamente poupado pela crítica, porque esquecido. Um homem sem caráter, como o descrito pela crítica da época, certamente não arriscaria a lançar na música Carmen Miranda e Orlando Silva, sabendo que poderia desbancá-lo como maior cantor brasileiro. E um orelha de pau jamais ousaria, depois de acertar com Sinhô e Freire Júnior, ir ao Estácio e descobrir a riqueza musical de Ismael Silva, Nilton Bastos, Bide e Marçal; Brancura. O repertório dos novos sambistas, aliás, permitiu um conjunto de 24 gravações magistrais de Chico Alves em dupla com Mário Reis.

Pode-se alegar que ele impunha parcerias a compositores menos conhecidos. Mas como explicar que, sendo o orelha de pau como pretendiam os críticos, tivesse composto mais de vinte músicas com David Nasser, mais conhecido jornalista brasileiro da época, e longe de ser um compositor indefeso?

Nesse sábado, 50 anos da morte do cantor, em todo reduto seresteiro, de norte a sul do país, nas casas de empresários, profissionais liberais, no centro e na periferia, nos botequins do Brasil, na memória de intelectuais e de amantes da música brasileira, houve três minutos de silêncio, para que algum cantor dó-de-peito se levantasse e cantasse “A Voz do Violão”, de Horácio Campos (“não queira meu amor saber da mágoa / que sinto quando a relembrar-te estou / atestam os meus olhos rasos d’água / a dor que a tua ausência me causou”). E, depois dela, ergueram seu brinde à memória do mestre.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
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