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Arquivo de abril, 2007

29/04/2007 - 12:40

O sapateado negro

Aqui, um vídeo excepcional, com todos os sapateadores negros mencionados pelo Neves em seu comentário.

Os Nicholas Brothers, em Kalamazoo

Jumpin Jive – Cab Calloway and the Nicholas Brothers

Olha o show

Eles aí, crianças prodígio

Enviado por: Neves

Em Kalamazoo os irmãos dançam ao som da orquestra de Glenn Miller, que aparece ao final do número.

Jumpin Jive, que Fred Astaire considerava o melhor número de dança filmado, faz parte do filme Stormy Weather, realizado com o propósito de mostrar negros em musicais, eles raramente apareciam nos filmes do gênero feitos por Hollywood.

Quem quiser ver mais números do filme acesse:

Lena Horne – Stormy Weather

http://www.youtube.com/watch?v=1T-TZ lMX80c

Fats Waller – Aint Misbehavin’
http://www.youtube.com/watch?v=TzynQ 8LPyAM

Bill Bojangles Robinson e Lena Horne – I Can’t Give You Anything But Love

http://www.youtube.com/watch?v=VmcpG e1j-W0

Veja também esta linda homenagem de Astaire a Bojangles

Fred Astaire – Bojangles of Harlem
http://www.youtube.com/watch?v=9jFDE 4IumRo

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
29/04/2007 - 10:08

O rei da malandragem

Na relação cinco maiores sambistas da história, não pode faltar Wilson Batista. Dentre todos, nenhum foi tão eclético e com estilo tão pessoal. Apesar das características pessoais de cada compositor, suas linhas harmônicas e melódicas eram previsíveis. Um acompanhante médio de violão saberá intuir o caminho da maioria das composições de Ataulfo (influenciado pela toada mineira), de Geraldo Pereira, Roberto Martins, Noel. Haverá mais dificuldades com as sofisticações harmônicas de Cartola, menos com as de Nelson Cavaquinho.

Mas Wilson Batista compôs alguns clássicos em que as seqüências não tinham o equilíbrio da música convencional. É como se fosse um vôo desconjuntado, em que faltavam acordes, ou aparentemente se demorava demais para mudar o acorde, para a harmonia se definir. Apenas no final da linha se percebia a beleza estranha, o nível de criatividade, o padrão estético diferenciado. O clássico “Meus Vinte Anos” (”nos olhos das mulheres / no espelho do meu quarto / é que vejo a minha idade”) é um exemplo típico. “Nega Luzia” (”lá vem a nega Luzia / de braços com a cavalaria”) é outro, assim como “Chico Brito” (com Alberto Teixeira), gravado em 1950 por Dircinha Batista, e “Mãe Solteira” (com J.Castro).

O ecletismo de Wilson Batista ia muito além. Compôs obras-primas do samba convencional como “Emilia” (com Haroldo Lobo, “eu quero uma mulher / que saiba lavar e cozinhar”), e “Volta pra casa Emília” (com Antonio Almeida, “ai, ai / quando visto um terno amarrotado, meu Deus / tenho que me lembrar / da Emília que era tão cuidadosa mulher”), um dos meus clássicos prediletos, “Morro de Zinco” (com Nássara, “aquele morro de zinco que é Mangueira”). Ajudou a dar forma ao samba de breque, com “Etelvina, acertei no milhar” (em que Geraldo Pereira aparece na parceria, mas, pelo que se sabe, a música é apenas de Wilson). E fez marchinhas de muito sucesso, como “Balzaqueana” (com Nássara).

Anos atrás, ouvi um samba de breque típico, parceria de Wilson Batista e Sinhô nos anos 20. Não consegui encontrar o CD. É até possível que tenha havido um erro de informação, pois não consta parceria entre ambos no levantamento da obra de Wilson Batista por Ricardo Cravo Albim.

Wilson Batista nasceu em 1913, em Campos. O pai era guarda municipal. Aos 15 anos mudou-se para o Rio e trabalhou como acendedor de lampião. Para não ter que pegar no batente, largou a família e foi morar em uma pensão da Lapa.

Em 1933 envolveu-se em uma polêmica célebre com Noel Rosa. Wilson tinha apenas 20 anos, Noel 23. A polêmica teve duas partes. Na primeira, Noel Rosa, já consagrado, lançou “Rapaz Folgado”, para provocar Wilson Batista, que fizera a apologia da malandragem em “Lenço no Pescoço”. Wilson respondeu com “Mocinho da Vila” e Noel deu xeque-mate com “Palpite Infeliz”.

A segunda rodada foi quando estourou o “Feitiço da Vila”, de Noel, e Wilson devolveu a provocação com “Conversa Fiada”, com algumas boas passagens, mas longe da qualidade da música de Noel, que rebateu com “João Ninguém”, e Wilson apelou com “Frankestein da Vila”, que acabou deixando-o antipatizado com o público.

Na verdade, embora ambos fossem precoces, com 20 anos Noel já era um compositor maduro. Já a curva de maturidade de Wilson Batista atinge a plenitude apenas em 1940, quando tinha 27 anos. Seus sucessos, de verdade, começaram nos anos 40, com “Oh!, Seu Oscar” (com Ataulfo Alves), “Acertei no Milhar” (com Geraldo Pereira), “Emília”, “Bonde São Januário”, o clássico “Meus Vinte Anos”, de 1942, “Louco”, de 1947, “Mundo de Zinco”, “Nega Luzia”, “Deus no Céu, Ela na Terra”.

Teve alguns grandes intérpretes, como Ciro Monteiro e Jorge Veiga. Nos anos 50, já decadente, e com poucos sucessos, encontrou seu maior intérprete, Roberto Silva.

Nos anos 60, Wilson Batista já era um fiapo de homem, consumido pela boemia e pela bebida. Morreu em 1968, aos 55 anos, sem forças sequer para dar o último depoimento do Museu de Imagem e Som, de Cravo Albim.

Anos atrás, a Funarte soltou uma gravação especial do grande Roberto Silva com a grande Joyce. Recentemente, foi relançado pela Itaucultural. Um grande momento, inclusive com uma entrevista exclusiva de Wilson Batista, contando a polêmica com Noel.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
28/04/2007 - 22:06

A hidrelétrica do Madeira

Enviado por: JBA

Nassif, tenho muito respeito por suas posições no blog, não só pela seriedade e competência técnica, mas também pelo valor moral que lhes dão fundo especial.

Mas a questão do aproveitamento hidrelétrico de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia, não é tão simples como alguns setores do Governo – aliados ao projeto da OMC [hidrelétrica e hidrovia do Madeira-Beni] – exibiram nesse 41º Fórum de Debates, em mais um lance da ‘guerra de posições’ que a Globalização empreende no ‘avanço’ da chamada ‘fronteira oeste do capitalismo’, ganancioso e destrutivo.

Na decisão de escolher a construção das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau está também explícita a opção de colocar em risco de extinção a maioria das espécies de peixes que suprem as necessidades de mais de 80% da população ribeirinha não só do vale do Madeira, mas de todo a planície amazônica, com repercussão que se estende ao Estado do Pará.

A responsabilidade é grave. É necessário o máximo de cuidado, atenção e estudos visando prevenir os danos que por ora são inestimáveis, irreversíveis e incalculáveis: a hidrelétrica e a hidrovia promoverão bloqueio da rota de migração de grande parte das espécies de peixes amazônicos. No Madeira existem 19 acidentes geográficos que ambientalizam o santuário de reprodução de mais de 600 espécies da ictiofauna amazônica. A previsão de construção de um mecanismo de transposição dos peixes (escada), não resolverá o problema, porque o alargamento das margens do rio e a intersecção de seu leito impedirá a descida dos ovos e larvas para os trechos a jusante.

A conclusão do Fórum de que as hidrelétricas continuam sendo imprescindíveis, tanto para suprir o país de energia, como também para garantir um fornecimento a preços competitivos. Leva em conta apenas as necessidades econômicas do sul e sudeste. Essas usinas gerarão poucos empregos na Amazônia e os governos locais (AC/AM/RO) se contentam em ‘abocanhar’ 5% da receita das Usinjas. Um crime contra os interesses do povo amazônida.

No desafio de suprir demanda elétrica, é preciso levar em conta a proposta do greenpeace que aponta uma nova matriz energética para o País com ênfase em fontes de energias renováveis como eólica, biomassa e fotovoltaica. Somente em Rondônia existem hoje mais de 30 milhões de hectares de terras desflorestadas em estado ocioso. O aproveitamento dessas terras para a produção de fontes alternativas é uma alternativa econômica a ser apreciada.

Problema como esse – só pincelado superficialmente pelo EIA/RIMA – não encontra resposta no nível de conhecimento que a ciência acumulou sobre os rios e florestas da Amazônia. Nunca para um Governo e para toda a Sociedade sul-americana a pressa tem sido tão inimiga do planeta e das futuras gerações.

Comentário

A Ministra Marina Silva foi convidada para o Fórum. Não respondeu até a véspera, não mandou representantes, nem nada.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
28/04/2007 - 19:00

Os dobrados de Poços

Não posso dizer que Wilson Danza e eu fôssemos amigos. Companheiros éramos, sem dúvida. Mais que isso: éramos colegas da divisão de pífaros da gloriosa Banda do Colégio Marista, no início dos anos 60.

Wilson era bom de música. Quando entrei na banda, com 11 anos, ele, com 12, foi incumbido de me ensinar os 22 ou 23 toques da banda. Ensinou-me um a um, do “Semper Fidelis”, de John Philip Souza, ao nosso “Capitão Caçula”.

Em pouco tempo dominava os toques. Em vez de se sentir ameaçado, Wilson contava para os mais velhos os feitos do seu “discípulo”. Era uma alma generosa desde menino.

Tínhamos outro ponto em comum na ojeriza radical às aulas de educação física. Tínhamos que ouvir o professor Natalino berrando: “Quero ver quando vocês forem mais velhos e alguém mexer com a sua mulher. Vão fazer o que? Jogar um livro de latim nele?”. Os dois, moleques, nos entreolhávamos e falávamos baixinho: “Ué, será que o professor Natalino ainda não foi comunicado da invenção do revólver?”.

Depois da formatura no ginásio, cruzamos em algumas serenatas, eu com minha turma, o Wilson invariavelmente tocando flauta em duo com o saxofone do Paim.

Em uma noite, ao final da serenata, compartilhamos sonhos comuns no banco do jardim do Pálace, em frente ao coreto onde, aos domingos, se apresentava a Banda do Maestro Azevedo. O sonho era sair de Poços para estudar. Mais tarde, voltar para Poços, compor dobrados e tocar na banda.

Em 1966 fui estudar em São João Vista, Wilson seguiu para Belo Horizonte para cursar medicina. Perdemos contato até um dia de julho de 1974, quando decidi aceitar convite de amigos e ajudar a fundar o Jornal da Mantiqueira em Poços. Tirei um mês de férias da “Veja” e fui passar duas semanas em Poços.

Um dia entrou no jornal o velho Walter Danza, pai, amigo da minha família, ex-funcionário da Panair do Brasil. Estava desnorteado. Contou aos prantos que o Wilson fazia residência médica, quando foi incumbido de uma necropsia. Abriu o cérebro do cadáver sem se proteger e, só então, percebeu que o sujeito tinha doença contagiosa letal. O Wilson se deu conta, na hora, de que estava condenado. Passou os últimos dias de vida redigindo um trabalho médico sobre seus sintomas. Morrera alguns meses antes.

Durante dias, seu Walter Danza apareceu no jornal, perdido, acompanhado pelo também desnorteado Edmundo Cardillo, mestre maior de Antonio Cândido, flautista emérito, na casa de quem Wilson praticava música.

Muitos anos depois, já em meados dos anos 90, fui a Belo Horizonte e encontrei-me com meu primo Oscar, físico da UFMG. Por aqueles dias o Julinho, de Poços, colega de Wilson, estava preparando uma homenagem da faculdade de Medicina a seu ex-aluno -falecido vinte anos antes.

Fiquei comovido com a maneira como a memória de Wilson se perpetuara na faculdade. Houve show com músicas que compôs na época. Nem sabia que ele era compositor. Em Poços, sempre fui mais cara-de-pau de me apresentar em festivais de música. O Wilson estava sempre na dele, discreto, revelando seu talento para poucos.

Preparei um depoimento pessoal sobre ele, que entreguei ao Julinho. Depois, pelo Oscar, soube que sua família tinha recuperado os dobrados que o Wilson compusera e os estava encaminhando à Banda do Maestro Azevedo. Quando Oscar me contou, balancei. Lembrei-me das conversas adolescentes, do pacto da madrugada e fiquei surpreso em saber que Wilson cumprira a sua parte. E eu não.

Anos atrás, quando a Banda da Polícia Militar de São Paulo gentilmente executou o meu “Dobrado das Raças do Brasil”, sob os acordes fiquei pensando como, na vida da gente, existem pessoas que passam de leve, de manso, sem forçar, e acabam deixando recordações para o resto da vida. E conjeturando se, daqui a algumas décadas, os acordes dos dobrados do Wilson e do meu estarão presentes no repertório da Banda do Maestro Azevedo, celebrando um pacto de adolescentes sonhadores em uma madrugada fria de Poços.

Para incluir na lista Crönica Semanal

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
27/04/2007 - 07:00

Os americanos do etanol

Coluna Econômica – 27/04/2007

Membro da The Interamerican Ethanol Commision, ex-funcionário do Departamento de Estado norte-americano, William Perry é o homem de Jeb Bush para a Comissão do Etanol, montada para azeitar as relações entre empresários brasileiros e norte-americanos ligados ao tema.

Perry foi conselheiro sênior latino-americanista do Partido Republicano, servindo em tempo parcial ao governo. Serviu ao Conselho de Segurança Nacional e ao Comitê de Relações Exteriores do Senado. Há décadas é considerado o mais importante brazilianista do partido.

Em setembro de 2002, quando ficou claro que Lula iria vencer as eleições, coube a ele os primeiros movimentos de aproximação com o novo governo. Em novembro esteve na Granja do Torto com o sub-secretário Otto Reich, com o Chafe de Planificação Política para América Latina e o encarregado do Brasil no Departamento de Estado. Do outro lado, Lula, Antonio Palocci, José Dirceu e o senador Aluizio Mercadante.

No início se estranharam um pouco pela falta de familiaridade do PT com partidos estrangeiros, ainda mais o Partido Republicano. Ao contrário do PSDB de Fernando Henrique Cardoso, muito ligado ao Partido Democrata e ao ex-presidente Bill Clinton.

Mas pintou afinidade rapidamente, ao contrário do governo argentino de Nestor Kirschner, com o qual não logaram aproximação.

***

Em dezembro, coube a Perry e a Reich organizarem a visita de Lula a Washington. Foi um sucesso diplomático de lado a lado, porque não é usual visitas antes da posse, nem visitas seis meses depois da posse, como ocorreu com Lula.

Em vista disso, o Departamento de Estado adotou uma política clara em relação ao Brasil: colaboração com o que houver concordância; não atrapalhar o que não concordam.

***

O tema energia surgiu no PR ainda na campanha de 2000, estimulado pelo próprio Perry, que queria somar fatos novos à Nafta, que era a grande estrela da política externa desde 1990. Mas na época não se deu o sentido de urgência, mesmo porque o preço do petróleo estava em apenas 22 dólares o barril.

Agora, o tema pegou de vez, no embalo do relatório de mudanças climáticas. Como um americano pragmático, Perry não acredita muito na hipótese de que a mão do homem vai mudar o planeta. Acha que a atual onde de calor é apenas conseqüência da entrada do mundo em uma nova era, de temperaturas mais elevadas. O homem pode apenas contribuir um pouco mais para o processo. Mesmo assim, a humanidade tem enorme poder de auto-correção. É só conferir o índice de poluição das grandes metrópoles nos anos 70 e hoje.

O grande papel da Comissão será, além de aproximar empresários dos dois países, atuar como lobbista junto ao Congresso e à opinião pública americana. No Senado há a atuação muito drástica dos representantes de estados produtores de milho, como o Yowa.

O desafio será aumentar a mistura de álcool na gasolina. Aumentando, se verá que o milho americano não dará conta do recado. E que o seu uso indiscriminado provocará distorções na cadeia do milho e do frango. Nesse momento, as grandes empresas americanas, fundamentalmente a Cargill e a ADM são darão conta de que o melhor será abrir o mercado.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
26/04/2007 - 20:52

A Trindade Impossível

Por Antonio Carlos Lemgruber *

Os economistas especializados em análise macroeconômica de economias abertas gostam muito de citar a chamada “trindade impossível”, demonstrada nas décadas de 60 e 70 – ainda nos tempos das taxas fixas de câmbio – pelo prêmio Nobel Robert Mundell e outros como Fleming, Corden, Johnson e Fakuyama.

Basicamente, foi demonstrado que não é possível se ter ao mesmo tempo elevada mobilidade de capitais internacionais, taxa fixa de câmbio e política monetária independente. Ou seja: uma das três coisas tem de ser modificada – ou se reduz a mobilidade do capital, ou se flexibiliza a taxa cambial, ou se abandona o controle monetário.

Veja-se, por exemplo, o texto abaixo, que se encontra no nosso post de ontem sobre a Índia:

Fighting the Impossible Trinity

The RBI is increasingly facing the complex challenge of trying to pursue an open capital account, an independent monetary policy, and a managed exchange rate. Given that India has gradually opened up its capital account, the Central Bank is being forced to choose between the other two corners of the impossible trinity – i.e., an independent monetary policy and a stable exchange rate.

Acontece que, a partir da década de 70, mas sobretudo agora nesse século XXI, quando realmente aumentou intensamente a mobilidade de capitais, estamos descobrindo uma nova trindade impossível: com alta mobilidade de capitais, qualquer que seja o regime cambial, não é possível se ter uma política monetária independente.

Ou seja: independentemente do regime cambial, uma de duas coisas tem de ser modificada: ou se reduz a mobilidade de capitais ou se perde o controle monetário.

O que queremos dizer, com essa visão das trindades impossíveis, é que – mesmo com taxas flutuantes de câmbio – quando há grande mobilidade de capitais, perde-se o controle da política monetária. A taxa de juros nominal que seria a melhor para a política de metas antiinflacionárias passa a ser a pior taxa de juros nominal para o crescimento econômico e para a taxa de câmbio real efetiva. A atuação do Banco Central sobre a taxa de juros influencia a entrada (ou saída) de capitais internacionais, com taxas fixas ou taxas flutuantes de câmbio.

Na verdade, em termos operacionais, o mercado realmente ignora a possibilidade de desvalorização, o que faz com que um diferencial de juros tenha a mesma influência com taxas fixas ou flutuantes. Ou pior ainda: um diferencial favorável de juros tende a provocar uma enorme valorização da taxa nominal de câmbio – num fenômeno chamado de “overshooting” por Dornbusch na década de 70 – até um determinado ponto extremo e ultrasupervalorizado em que realmente o mercado passa a considerar a partir dali alguma expectativa de desvalorização.

A teoria da independência da política monetária – permitindo até mesmo a fixação de metas inflacionárias – num regime de flutuação cambial cai por terra, na medida em que a atuação sobre a taxa de juros passa a exercer efeito imediato sobre a própria taxa de câmbio, produzindo este efeito de overshooting. O Banco Central vai influenciar a inflação via taxa de juros pelos canais lentos de transmissão da política monetária mas influencia também a taxa de câmbio – e de forma mais imediata.

No caso brasileiro, a inflação tende a ficar sempre abaixo das metas, pode-se ter até deflação em reais, mas o câmbio fica extremamente supervalorizado. A política monetária não é independente da taxa de câmbio e não está focada na taxa de inflação apenas. No fundo, permanece o dilema: ou se mexe na taxa de juros por causa da inflação ou se mexe na taxa de juros por causa do câmbio.

Sem falar evidentemente no problema gravíssimo do desemprego e da recessão que de fato não pode ser ignorado por nenhum Banco Central, mesmo quando se afirma que o regime monetário só deve focar na meta inflacionária.

Resumo da ópera: ou se reduz imediatamente a taxa de juros para 9/8% ou se estabelecem controles sobre movimentos de capitais de curto prazo. O chamado “imposto Tobin” que dizia: é preciso colocar um pouco de areia nos moinhos de vento da movimentação financeira internacional.

• Ex-presidente do Banco Central

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
26/04/2007 - 19:49

Um monetarista contra o BC

Por Antonio Machado, no Correio Braziliense

(…) Um ex-presidente do BC, e dos mais monetaristas entre todos que passaram por lá, Antonio Carlos Lemgruber, ressurgiu de seu auto-exílio do debate econômico para botar lenha na fogueira onde arde a polêmica sobre uma estratégia que derrubou a inflação para muito abaixo de sua meta anual – 2,96% em bases correntes contra o alvo de 4,5%. E tornou, por isso mesmo, o real uma moeda de caça para a fina flor da especulação nativa e internacional.

“Estamos diante de um monetarismo burro”, disparou Lemgruber numa curta nota técnica enviada a amigos na qual sustenta sua opinião, precisamente, num conceito do qual é especialista: os efeitos para a economia do mecanismo da emissão de moeda.

Lembre-se: Lemgruber é monetarista de quatro costados, dos melhores que passaram pela FGV, segundo o já falecido ex-ministro da Fazenda Octavio Gouvêa de Bulhões (…)

Lemgruber diz que há uma preocupação excessiva com a emissão de moeda, o que seria natural, se o BC estivesse pressionado a botar a Casa da Moeda para imprimir dinheiro para pagar os déficits do orçamento fiscal. Existe uma limitação legal para isso desde 1994, o ano do Plano Real, de maneira que os déficits são financiados com a emissão de títulos da dívida pública.

(…)O que chamou sua atenção, segundo ele, é que o BC não diferencia a emissão de moeda com lastro (como seria a contrapartida para os dólares comprados a goladas praticamente diárias) da emissão oca, caso se destinasse a pagar os gastos governamentais, por exemplo.

Isso, diz Lemgruber, explica “porque o Banco Central está perdendo a guerra contra o ataque especulativo dos fundos de hedge” – como o economista Márcio Garcia, da PUC-Rio, segundo ele, demonstrou ao falar da influência sobre a taxa de câmbio das intervenções do BC.

A teoria é outra

Contra o ataque especulativo que leva à valorização do real, como discutido na coluna de ontem, o BC enxuga gelo, já que financia a compra de dólares com a emissão de dívida pública, não com reserva fiscal, que é inexistente na execução orçamentária pelo Tesouro.

O temor é que, se não esterilizasse os reais trocados pelos dólares, o aumento do dinheiro em circulação poria fogo no consumo e, logo depois, na inflação. A teoria é essa.

O problema é que como grande parte da dívida é referenciada pela taxa Selic, que continua muito alta, 12,5% ao ano, e o BC recupera com a aplicação das reservas não mais que 5%, há um baita prejuízo fiscal, limitador por isso da capacidade de intervenção. É um dos erros, segundo Lemgruber.

(…) Sua prescrição: “Comprar dólares, sem emitir reais, requer a venda de títulos públicos. Na verdade, para cortar o ataque especulativo, é preciso realmente emitir moeda e baixar a taxa de juros. Vai ser a chamada inflação importada, que se encontra nos livros-texto de economia. A esterilização funciona só quando há uma situação de aversão ao risco e fuga de capitais”.

“A hora é agora”

Lemgruber acredita que “chegou a hora, e é agora, de se anunciar uma banda cambial entre R$ 2 e R$ 3 e emitir moeda, se necessário, para comprar dólares no nível próximo a R$ 2″. Para ele, há hoje, “no Brasil, uma reversão completa da explicação da inflação como fenômeno monetário. Os problemas fiscais são tão graves, que o governo é obrigado a emitir títulos e aumentar tributos”.

Como se sai dessa? Como “não vai haver inflação dramática se a moeda tiver lastro, não se deve esterilizar nada”. Mas tem de haver, diz, uma banda cambial larga. “Senão vamos ter recessão e até deflação em reais.” É o que se insinua: dólar abaixo de 2 e inflação, idem.

(…) Tal distorção (aumento dos gastos fiscais), somada à cautela militante, faz do Brasil, segundo Lemgruber, “uma festa” com juros de 12% e apreciação cambial. “Tem fundo de hedge ganhando 100% no Brasil em poucos meses”, espanta-se. “E a porta de saída?”, ele indaga, remetendo aos movimentos de reversão dos capitais ocorridos em 1998 e 2002. O que impressiona, insiste, é que o país não precisa agora desses capitais.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
26/04/2007 - 07:00

O Senhor Gestão

Coluna Econômica – 26/04/2007

Aos 70 anos, Jorge Gerdau Johannpeter é incansável em sua cruzada pelo país. é das poucas lideranças empresariais que conseguem casar visão estratégica, espírito público e sensibilidade política.

Uma espécie de pregador em tempo integral das ferramentas de gestão na área pública, interlocutor contumaz do presidente da República, Gerdau pressente que Lula em breve deverá mexer na questão da gestão pública. Sentiu enorme vontade do presidente de cair de cabeça no tema. É capaz de apostar que virão novidades por aí.

Nos últimos tempos conseguiu sensibilizar vários estados a implementar programas de qualidade. Sergipe, do governador petista Marcelo Deda foi um deles. Outro provavelmente será a Bahia. Alagoas, já aderiu. Antes deles todos, Minas Gerais.

***

Com uma objetividade germânica, sua receita para o país é direta. O problema brasileiro é geração de emprego. Para tanto necessita de crescimento econômico. Para ter crescimento, necessita de investimento. Para ter investimento, de poupança. A questão é que 40% do PIB nacional está nas mãos do governo,e o governo não consegue gerar poupança para investimento.

Ele aponta dois caminhos. O primeiro, duas ou três reformas estruturais, como a Previdenciária e a Tributária. O segundo gestão, gestão e gestão.

***

Gerdau é fundamentalmente um pragmático, que acredita que o início de toda ação é o planejamento estratégico. Depois dele, a implementação que é basicamente a capacidade de entrar em todos os detalhes da operação.

Vem desse senso de detalhe sua admiração pelo consultor mineiro Vicente Falconi, que começa todo trabalho com uma reunião geral e uma pergunta essencial: qual é o problema? Definido, quais são as soluções? E aí entra a pedagogia do detalhe.

As consultorias sempre trabalham conceitualmente, diz ele. No chamado “choque de gestão” em Minas, constatou-se que na lavagem de toalhas e lençóis em hospitais públicos, 20% desapareciam. Que consultoria chegaria a esse nível de detalhe?

Consultores em geral não entram nos detalhes, assim como os economistas, diz ele. Cita a honrosa exceção de Yoashiaki Nakano, ex-Secretário da Fazenda de São Paulo.

***

Outra questão importante é a política, a maneira de vender os programas. Ele considera desgastado o termo “choque de gestão”, por ter ganhado conotação de eliminação de empregos.

Anos atrás, em Minas, o então Secretário do Planejamento Walfrido Mares Guia entrou com mão pesada no setor de educação, aproveitando sua experiência com a rede Pitágoras de ensino. Criou traumas na estrutura da máquina pública que perduram até hoje.

Menciona que os programas de qualidade implementados por diversas administrações públicas não resultaram em demissões, mas em remanejamento de funcionários para áreas mais relevantes.

***

O retorno do investimento não é ruim no Brasil para setor capitalizado, diz ele. Mas o mercado não cresce. É por isso que o empresário diz que vai bem, mas não investe.

Gerdau ressalta que vão bem aquelas empresas com as quais individualmente Lula toma contato, como a própria Gerdau, a Votorantim. Mas se analisar o quadro geral do país, a indústria calçadista, a de móveis, há problemas generalizados. O nível de emprego não está bom,

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
25/04/2007 - 09:37

Os destruidores do futuro

Coluna Econômica – 25/04/2007

Neste momento discute-se quais os setores que sobreviverão nesse país tresloucado. O câmbio continua descer ladeira abaixo. As vozes dissonantes são poucas. De um lado, há os beneficiários do modelo, os rentistas nadando de braçada em juros desproporcionais; o grande capital nacional entrando como se fosse capital estrangeiro, ganhando nos juros e na apreciação do real. Os recalcitrantes desistiram ou por falta de eco, ou por falta de vontade, ou por promessa de barganhas setoriais.

No mercado, já se aceita a apreciação cambial como uma realidade definitiva. E discute-se agora quem sairá vivo, quem morrerá.

***

A conta é simples, conforme noticiou outro dia a revista “Veja”, em uma capa absurdamente desinformada. A Estrela conseguiu sobreviver porque se aliou aos chineses e tornou-se importadora. Nem se pense nos empregos perdidos, nos fornecedores afetados. É como se a soma dos que sobreviverem compensará o restante, independentemente das condições da sobrevivência.

Quem sobreviverá? Setores onde o Brasil possui vantagens naturais, como na biomassa, papel e celulose, mineração e siderurgia. Nos demais, sobreviverá quem conseguir ampliar consideravelmente o conteúdo importado em seus produtos. Significa que parte de seus fornecedores desaparecerá.

Sem condições de concorrer com os importados em produtos de maior valor agregado, os sobreviventes reverterão à condição de “maquiadores”. Haverá perda de emprego de mão-de-obra mais qualificada.

***

Haverá oportunidades no setor da biomassa. E fala-se disso como se fosse algo mais natural do mundo os desabrigados da indústria, empresários, executivos e trabalhadores, se reciclarem e mudarem de profissão.

Mais: no novo setor há pouquíssimo espaço para inovação, que é ponto central de desenvolvimento, melhoria de salários, crescimento de empresas. Há uma pesquisa feita nos centros tecnológicos, grandes usinas e uma multidão de pequenos empreendedores plantando ou, no máximo, esmagando parte da produção e entregando o óleo.

Nos demais setores, haverá cada vez mais dificuldades em conquistar a produtividade necessária para enfrentar a apreciação do câmbio. A indústria de software, que estava conseguindo entrar no mercado americano, começa a dar sinais de falta de fôlego. A indústria automobilística começa a se preparar para importar carros da China, justamente para competir com os importados avulsos da China.

***

Na entrevista com Fernando Henrique Cardoso, que encerra meu livro “Os Cabeças de Planilha”, o ex-presidente admite os erros absurdos do câmbio e diz que as “explicações” técnicas para a apreciação -a de que induziria a ganhos de produtividade na economia, como afirmava Gustavo Franco—não passavam de “teorias para racionalizar posições”.

Agora, volta-se ao mesmo desatino. Não vai durar para sempre essa loucura. Mas já começou a segunda rodada de destruição estéril de setores econômicos.

O futuro de milhões de pessoas está sendo decidido, neste momento, nas salas do Banco Central e do Palácio de Planalto. Mas, assim como FHC, Lula, no auge da sua popularidade, está ajudando a destruir um pouco mais a estrada para o futuro.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
24/04/2007 - 17:56

Delfim e “Os Cabeças de Planilha”

FHC: duas lições memoráveis
Por Delfim Netto, em sua coluna de hoje no “Valor”

O competente economista, jornalista e polemista, Luis Nassif, acaba de publicar um livro – “Os cabeças-de-planilha” – que merece a atenção de quantos se interessam pelo processo de construção e execução do Plano Real. Este foi, sem dúvida, uma das mais sofisticadas formulações já concebidas pelos economistas brasileiros: logrou liquidar a inflação depois de um número substancial de tentativas mal sucedidas. Quando comparado com outros (Israel, 1984; México, 1987; e Argentina, 1990) é que podemos apreciar a sua maior eficiência na conquista da estabilidade.

Infelizmente, não se pode dizer o mesmo com relação às suas conseqüências para a volta ao crescimento econômico. Depois do início dos planos de estabilização, o Brasil foi o país que menos cresceu: 2,7% ao ano (contra 3,3% do México, 3,5% da Argentina e 5% de Israel).

A análise de Nassif é, certamente, polêmica, mas, não menos certamente, complementa outras versões já publicadas do Plano Real e ajuda a entender o “ambiente”: as convicções, as contradições e as dúvidas que atormentaram seus idealizadores e executores. O trabalho é severo, às vezes contundente, mas ilumina alguns espaços até aqui escuros do empreendimento. Não lhe tira o mérito, entretanto.

Uma resenha do livro (e ele merece pela argúcia de seus argumentos) fica para outra ocasião. Queremos chamar a atenção, nesta nota, para uma brilhante e esclarecedora entrevista que o ilustre ex-presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu ao autor e que se encontra como apêndice no livro. Trata-se de uma sincera, profunda e comovente confissão sobre duas questões que deveriam servir de aviso para o governo (as conseqüências malignas do que agora mesmo estamos repetindo, com a “super” valorização cambial) e para a oposição, que insiste na ridícula afirmação que o presidente é responsável por tudo (até pelo “aspone” que lê o jornal no banheiro…).

Os economistas “jurássicos” sabem que quando o governo jura que o câmbio está certo ou que ele é apenas uma questão de “produtividade” (mas não reconhece que quem não tem produtividade é ele), o câmbio está errado. É claro que sempre é possível filosofar sobre “o que significa câmbio errado”. A resposta pedestre é que ele se materializa como ectoplasma nos cartórios de protesto. O importante é saber que, quando o governo e o setor financeiro “filosofam” sobre o câmbio, afirmando que “ele é o resultado natural de um fenômeno natural”, ambos estão mistificando. Partem da hipótese que “oferta” e “procura” de divisas são construções divinas, produtos do altruísmo do Santo Deus.

A vitória do Plano Real sobre a inflação se deveu ao controle da taxa de câmbio, feita com os mais elevados juros reais que este país já praticou. O problema é que deixou como herança um déficit em conta corrente de US$ 186 bilhões entre 1995-2002 (contra o equilíbrio em 1990-1994) e uma dívida líquida/PIB de 52% em 2002 (contra 30% em 1994).

Confrontado com o respeitoso, mas cerrado, questionamento de Nassif, o ilustre ex-presidente dá uma lição de integridade e humildade: revela a sua angústia com o problema do câmbio valorizado. À pergunta “No final de 1994, a desvalorização do real virou guerra santa. Quando apareceu o déficit em conta corrente, o pessoal se assustou e aí o Gustavo e o Bacha deram entrevista dizendo que deveria aumentar ainda mais o déficit”, o presidente, agora reduzido à posição do intelectual honesto, confessa: “A idéia era teórica. Significava que nós éramos financiados lá fora, e isso era bom. Depois, Gustavo inventou (sic) a teoria de que estávamos compensando a apreciação cambial com aumento de produtividade aqui (sic). Mas aí já eram teorias para racionalizar posições (sic)”. É esta a mesma “racionalização” que hoje engana, de novo, a sociedade brasileira. Esta lição do sociólogo não pode e não deve ser esquecida.

Há muito mais na entrevista. Ela deveria, também, servir para acalmar a oposição, que exige que o “presidente saiba tudo”, que “responda por tudo e por todos, representantes eleitos ou burocratas acomodados”. Às várias perguntas sobre momentos críticos na execução do Plano Real, o presidente Fernando Henrique Cardoso responde, candidamente, “não soube”, “não sabia”, não “tenho idéia” etc. Trata-se de uma questão de materialidade. Seria absurdo exigir que o presidente tenha a obrigação de ser um “operador de mesa”.

A questão sobre o nível de responsabilidade do presidente com relação aos representantes eleitos que o apóiam ou aos atos dos servidores do Estado sob seu comando é muito velha. Nos Estados Unidos, o presidente Andrew Jackson (1829-1837) afirmava que era “responsável por todas as ações do Executivo”. A relativização dessa posição vinha do notável senador por Massachusetts Daniel Webster, que via como impossível esse “indefinido e indefinível ideal de responsabilidade da autoridade junto à sociedade”.

Essa disputa levou à posição atual. As ações do governo devem ser absolutamente transparentes e sujeitas às leis que também sujeitam os agentes públicos. São elas que definem o grau de responsabilidade de cada um. Hoje, mais do que nunca, os atos do governo são sujeitos e devem sê-lo cada vez mais, ao escrutínio dos grupos interessados, da mídia, dos mecanismos internos e externos de controle e do público em geral. Continua perfeitamente absurdo supor que o presidente é responsável pelos atos “indefinidos e indefiníveis” de todos os agentes públicos. Estes são agentes da lei e quem define a lei é o Congresso!

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
24/04/2007 - 07:00

As hidrelétricas e o meio ambiente

Coluna Econômica – 24/04/2007

A grande conclusão do 41º Fórum de Debates do Projeto Brasil, sobre “Energia: o Desafio de Suprir a Demanda Elétrica” é que as hidrelétricas continuam sendo imprescindíveis. Não apenas para suprir o país de energia, mas para garantir um fornecimento a preços competitivos.

Segundo o Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério das Minas e Energia, Mário Zimmermann, entre 2007 e 2010 estarão sendo finalizados os estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental de nove usinas hidrelétricas, em um total de 25.768 mw de potência. Há outras dez usinas sendo inventariadas até 2010, com um total de 32.950 mw de potência.

***

E aí começam a entrar as opções que o país terá que adotar nos próximos anos. Grande parte do potencial hidráulico está na região Amazônica. No caso da hidrelétrica do rio Madeira -segundo os participantes do Seminário—, devido à correnteza do rio, haverá condição de utilizar uma tecnologia que não exigirá grandes reservatórios. A área inundada será mínima e inferior (como proporção área inundada/mw) a das PCH (Pequenas Centrais Hidrelétricas).

Mas e se questões ambientais impedirem as hidrelétricas do Amazonas? Hoje em dia -segundo dados do MME–, 84% da energia elétrica é renovável, 15% é térmica (óleo, diesel). Se forem construídas as usinas do Amazônia, em 2016 a proporção será de 69% de energia renovável, 29% de térmica.

Sem a usina do Madeira, mais as UTEs (Usinas Termoelétricas) de ajuste, em 2016 a proporção estaria em 64 e 34% respectivamente.

Sem as demais usinas do norte, em 2016 a proporção estaria em 56% de energia elétrica renovável, 42% de energia térmica poluente.

***

A questão central, portanto, é como viabilizar a construção das usinas amazônicas, sem comprometer o meio-ambiente.

Diretor de Meio Ambiente da Construtora Norberto Odebrecht, Sérgio Leão fez uma comparação entre a metodologia de defesa do meio ambiente adotada por organismos internacionais (Banco Mundial, BID, IFC) e o Brasil.

Há uma diferença básica de atuação. No caso dos organismos internacionais, exige-se uma licença ambiental e, depois, os planos e programas são de aprovação mais simplificada. As obras são acompanhadas por visitas trimestrais ou semestrais, analisadas, e há flexibilidade para ajustes no plano original. Por exemplo, se há erros nos dados sobre população atingida, ou sobre características da fauna e da flora, corrige-se e compensa-se, se for o caso.

***

No caso do IBAMA, há uma excessiva rigidez no processo inicial de aprovação, e quase não há acompanhamento na execução. Há um problema sério para quem aprova esses planos: pela lei, o técnico do IBAMA que assina um parecer aprovando determinado projeto, será responsável por ele até o final dos tempos, ou da sua vida. Essa circunstância torna a todos extraordinariamente cautelosos – com justa razão. Como não há também muita segurança técnica por parte dos analistas, acaba-se incorrendo em um sem-número de exigências que atrasa em muito a aprovação.

Exige-se uma licença prévia, uma licença de instalação, outra de operação, mais projetos específicos prévios para flora, fauna, supressão de vegetação, em um todo infindável.

O que se propõe é a mudança da metodologia para tornar a aprovação mais rápida, e a fiscalização mais eficiente.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
23/04/2007 - 18:40

A discussão do “quinto”

Roberto Wanderley Nogueira*

O ingresso via “quinto constitucional” nos Tribunais do país (art. 94, da Constituição Federal) tem sido assegurado pela Carta no sentido de garantir ao Poder Judiciário uma certa transparência social com que se permeia o sistema judiciário com diversas visões institucionais, no caso, também da advocacia e do Ministério Público (…).

Um vício do sistema faz com que esses representantes, no ato da posse, perpetuem-se como Magistrados, embora não de carreira, e não mais como advogados ou representantes do Ministério Público, segundo suas origens, de cujas funções estariam temporariamente afastados. Gera-se com isso uma inusitada perspectiva psico-funcional: o agente nem é mais advogado ou representante do Ministério Público e, nem como se jamais fora Magistrado, também passa a exercitar de forma não raramente incomum a judicatura.

O grande perigo de aproveitar esse pessoal da forma como ainda presentemente ocorre é justamente o de que venha a exercitar a Magistratura sendo exímios políticos. Nesse caso, o agente, parecendo Juiz, de fato acaba não o sendo para comprometer a saúde institucional do sistema como um todo. Despiciendo referir que para esses acessos muitos lobbies são gerenciados no sentido do amesquinhamento da própria instituição judiciária, valendo tais ações tanto para o ambiente dos Tribunais da eleição como para um concerto muito largo e complexo de politicidade em que o pretendente passa a atuar por si ou por seus prepostos sempre interessados em algum tipo de retorno que possa, quando menos, exprimir prestígio e poder.

Sob uma abordagem sistemática de que se compadece rigorosamente o Direito Positivo, não é para essa gente que se reservam os cargos de Juízes de carreira junto às instâncias superiores (104, inc. I, da CF), pois esses agentes, embora formalmente Juízes porque integrantes de Tribunais, e não obstante os méritos pessoais com que possam eventualmente vergastar suas judicaturas de ocasião, não o são de fato, pois jamais vivenciaram uma carreira judiciária como tal reclamada pela Constituição.

(…) Magistrados de carreira, que fizemos concurso e não devemos nada a ninguém, senão à Deus, à nossa consciência e à lei, tivemos de passar e nos vemos, por isso, desprestigiados com a perpetuação da política de resultados também nessa questão das investiduras originárias às Cortes Superiores deste já notoriamente reconhecido e infelicitado país.

(…) Os Magistrados de carreira não somos políticos, não lidamos com a política, não sabemos transitar com facilidade por ela e em meio aos seus praticantes. O pessoal do “quinto constitucional”, todavia, sabe muito bem como administrá-la, tanto por que aproveitados, e a competição que se estabelece entre uns e outros reflete, pois, uma cruel e desigual disputa.

(…) Sem pretender generalizar, pois toda generalização é odiosa, afirmo que enquanto o Poder Judiciário no Brasil for assim, prenhe de manigâncias e suscetível a todo componente de influenciação política e para além do profissionalismo que os Magistrados deveriam exercitar exclusivamente, não haverá motivos para que dele nos orgulhemos plenamente, seja enquanto Magistrados seja enquanto cidadãos!

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
23/04/2007 - 07:00

A manipulação da economia

Coluna Econômica – 21/0-4/2007

No livro “Os Cabeças de Planilha”, reconstituo o início do Plano Real e a maneira como o plano foi adaptado para permitir gordos lucros para instituições financeiras ligadas a alguns dos formuladores.

A intenção do livro foi menos a de fazer um escândalo, mais de abrir os olhos para um fenômeno pouco perceptível para a maior parte da opinião pública: a maneira como conceitos econômicos são manipulados, para benefício de alguns grupos ou pessoas.

A economia não é ciência exata. Há muitos caminhos teóricos alternativos para a definição de política econômica.

Os efeitos das medidas econômicas não são facilmente mensuráveis como, por exemplo, um cálculo de engenharia. Medidas tomadas hoje podem resultar em desastres daqui a alguns anos. E, muitas vezes, falta discernimento para a opinião pública conseguir estabelecer as relações de causalidade.

***

Essas características tornam as políticas econômicas extraordinariamente suscetíveis de manipulação. Especialmente quando não existe na mídia pensamento crítico para denunciar as manipulações, as falsas correlações apresentadas.

Quando falo em pensamento crítico, não é a voz isolada de um ou outro analista. Nas modernas sociedades de massa, o que conta é o coro, é a soma de vozes, é o efeito manada.

De 1995 a janeiro de 1999 poucas foram as vozes alertando para o desastre cambial. Uma semana antes da explosão do câmbio, um canal de TV a cabo entrevistava vários economistas para comprovar que “o mercado não acredita na mudança cambial”. Todos os economistas entrevistados pertenciam à mesma empresa de consultoria. Mas, em função desses truques de edição, apareciam como se fossem “o mercado”.

***

Os cidadãos menos informados – incluídos sucessivos presidentes da República – acaba acreditando que o coro representa a verdade. Não se dão conta de que o volume do coro é apenas conseqüência de se ter um segmento organizado na economia -os cabeças de planilha do mercado—e analistas amestrados, que aceitam clichês, ou por ignorância ou por malícia.

No início do Real, quem ousasse mostrar os absurdos do câmbio, e os benefícios trazidos para alguns dos economistas, era taxado de adepto da “fracassomania”, integrante do “arco do atraso”, e outras colocações desqualificadoras.

Ao mesmo tempo, havia todo um coro mistificador, elevando a reputação dos economistas às alturas. Fulano é gênio, beltrano é brilhante, e todo esse jogo de construção de reputações baseado apenas em clichês.

***

Os economistas do Real deram uma “tacada”, com a apreciação do câmbio em 1994. Alguns se tornaram inacreditavelmente ricos. Quem pagou foi o país, com a perda de uma enorme janela de oportunidade -perda que se prolongou no governo Lula, quando o presidente permitiu a Antonio Palocci e Henrique Meirelles trazer de volta a apreciação cambial.

A intenção do livro foi mostrar didaticamente como se dá essa manipulação, de que maneira se criam clichês, muitos sem pé nem cabeça, para dar sobrevida a um modelo torto. E mostrar também o custo para o país quando se tem uma mídia tão pouco crítica em relação aos rumos da economia.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
22/04/2007 - 18:27

A dança ritual das lembranças

Há uns dez ou doze anos dia fui a um terapeuta indicado por uma amiga. Ele trabalhava com uma técnica desenvolvida a partir dos anos 50 nos Estados Unidos. Partia-se da constatação de que cada trauma de vida, cada momento infeliz, gerava tensões no corpo, naquela rede de vida e energia que envolve os ossos, o sangue e os mantém sob a pele. À medida que o terapeuta identifica e vai desmanchando os nós, as lembranças afloram com a força de um furacão, como se os fatos fossem da semana anterior.

Em alguma parte do corpo tenho os nós da última visita à casa de infância. A mudança já tinha vindo com minha família para São Paulo. Eu já estava aqui há alguns anos. Saí de São Paulo no sábado, para minha despedida solitária. Cheguei a Poços, entrei na casa, passei por cada cômodo vazio, contemplei cada vestígio de lembrança, pensei nos velhos deixando toda sua história para trás e chorei em cada sala, em cada quarto e no quintal silencioso. Até algum tempo atrás, o fantasma da casa vazia me acompanhava nos meus piores pesadelos.

Certamente, o terapeuta encontraria os nós da noite que varei na estrada, com meu primo Oscar, vindo de Poços para um Pronto Socorro da Rua Ribeirão Preto, em São Paulo, onde meu pai estava internado com um AVC grave. Parte dos nós se formou na entrada da UTI, quando ele via em cada pessoa da sala, em mim, na Regina, o vulto dos irmãos falecidos. Chamava-nos de Felipe, Clara e Rosita.

Muitos nós se formaram na manhã seguinte, quando fui até nossa casa pegar seus documentos. Não há impotência maior do que invadir o dia a dia de uma pessoa abatida por morte ou doença grave. É como se captasse as últimas esperanças antes da desgraça; ou os últimos sinais de desespero antes da tragédia. E que ambos não servissem mais para nada.

Abri sua carteira, olhei os documentos, o pequeno patuá que alguém lhe deu para espantar o azar, a carteira de trabalho, o hollerith com o último salário. Encontrei o carnê do primeiro patrimônio que ele começava a tentar comprar, depois de perder os bens de toda uma vida: uma linha telefônica. Fui até o guarda roupa para apanhar algumas camisas. Estavam lá, todas impecavelmente brancas, impecavelmente limpas.

Outros nós se incrustaram na alma, quando, anos depois, o internei em uma Clínica de Saúde, para preservar dona Teresa, supondo-o tendo perdido completamente a razão. Mas voltei no dia seguinte retirá-lo e trazê-lo de volta ao lar.

Haverá nós da última noite de dona Tereza. Das onze da noite da véspera, quando me deu uma bruta ansiedade e passei na Beneficência para o que nem supunha fosse a despedida. Até o telefone que tocou de madrugada do hospital, e que pela primeira vez não me acordou, eu que passava noites sobressaltado com campainhas de telefone me convocando para levar dona Tereza ao Incor. Nós e nós quando cheguei ao andar e minhas irmãs me olharam com olhos de “acabou”. E outros nós quando, no velório, contemplei os olhos sofridos de vó Martha, cuja dor de mãe jogava para segundo plano dores de filhos e irmãos.

Certamente um dos nós será para Luizinha, quando, aos doze anos, soube da separação, silenciosamente desceu ao seu quarto e montou um quadrinho com fotos do pai e da mãe e colou no seu quadro de avisos. E outros para Mariana, nas duras conversas para ajudar a arrancar a angústia que sufocava seu coração de adolescente.

E aí me dou conta que felizes são aqueles que conseguem, no dia a dia, sufocar esse inventário de pequenas e grandes tragédias que acompanham todas as pessoas. Muitas vezes os nós vêm como armadilhas, como laços amarrando para sempre vontade e futuro à celebração soturna de cicatrizes abertas. Ou então estimulando o sentimento destrutivo da autocompaixão ou, pior, do arrependimento.

Para mim são lembranças fundas, que vêm me visitar vez por outra, quando os fins de semana são um pouco mais vazios, e as saudades um pouco mais apertadas. Convivo com esses fantasmas quando descem do sótão da lembrança, acolho-os, abrigo-os ao som de uma música adequada. Depois, com toda gentileza despacho-os de volta ao seu espaço, ajudado pelo ritmo piedoso da semana de trabalho, que impede a cabeça de surfar pelas ondas das más lembranças.

Meu receio é na hora da partida, os fantasmas surgirem e, valendo-se da fraqueza dos moribundos, entrarem travestidos de remorsos ou arrependimento. Até lá, creio que serão exorcizados para sempre das lembranças, e apareçam apenas como inspiradores de reencontros, que só a partida permite.

Para incluir na lista Crônica Semanal*

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
20/04/2007 - 08:30

A Embraer pré-privatização

Enviado por Ozires Silva

Caro Luis

Acabo de ler na edição de hoje, de O VALEPARAIBANO de S.J.Campos, a sua coluna O EXECUTIVO DA DÉCADA.

Parabéns por prestar uma sólida homenagem a realmente um Executivo que merece todo nosso respeito pelo que executou e pelo excelente exemplo de sucessão que nos dá, a nós mesmos, e ao Brasil, Confesso que, emocionado, estou na linha de frente para o aplaudir.

Apenas gostaria, para tentar fazer um pouco de justiça para um projeto vitorioso da FAB que, criando o ITA em 1948, lançou no mercado engenheiros e técnicos que tornaram tudo isto de hoje possível. A mesma FAB apoiou e investiu na criação da EMBRAER. Do mesmo modo, sem ela, não existiria a empresa que tanto comemoramos hoje.

Assim, creio que não seja necessário se minimizar o que aconteceu antes da privatização para engrandecer o que o Maurício fez nesses anos todos. Ele merece homenagens por si mesmo e, muito grandes, pois seus sucessos dispensam comparações, em particular as negativas.

É injusto dizer que a empresa “esbarrou em problemas de gestão e em falta de atenção ao mercado” além de outras colocações que a extraordinária equipe que, olhando o mercado, praticamente criou o mercado de transporte aéreo regional mundial, a partir da criação e produção do BANDEIRANTE, conseguindo sua certificação no primeiro mundo e conquistando vendas em quase 50 países. Criou o BRASÍLIA ainda largamente em operação..

Criou o maior sucesso mundial entre os aviões de treinamento militar o TUCANO, hoje formando pilotos de mais de 10 Forças Aéreas, entre elas a RAF inglesa e a Força Aérea Francesa. Desenvolveu o Super-Tucano que ainda reedita sucessos do modelo básico do final da década dos 1970.

Produziu o caça AMX, respondendo a requisitos da OTAN e da FAB, dos quais mais de uma centena foram fabricados e ainda operam no Brasil e na Europa. Projetou e fabricou o avião agrícola IPANEMA, ainda em produção pela empresa privatizada.

Note que a equipe comandada nestes últimos anos pelo Mauricio é, em grande medida, a mesma que existia antes da privatização. Você mesmo menciona que ele não trouxe quase ninguém com ele.

A crise da EMBRAER não foi somente dela. Afetou todo o mundo, logo após a invasão do Kuwait pelo Iraque. Somente a BOEING, entre outras, demitiu 70 mil empregados no mesmo período. Por outro lado, o Governo Collor, fez com que o BNDES interrompesse todo o processo de financiamento de vendas dos aviões da EMBRAER, encerrando o FINEX para abrir, mais de dois anos após, o PROEX, hoje importante sustentáculo das vendas internacionais merecidamente comemoradas no seu artigo. Não teve condições de lançar a produção do EMB 123, que realmente não vendeu nenhum – como assinala, pois não teve sua produção lançada em razão dos problemas externos acima mencionados.

A privatização foi difícil, penosa e longa, pois desejávamos que a empresa fosse controlada por capitais privados nacionais, para prosseguir sua trajetória de vitórias, dando-lhe a independência necessária para vender livremente no mundo. Isto foi conseguido pela equipe que “tinha problemas de gestão e que não prestava atenção ao mercado”.

Apesar de todas as restrições que você mesmo coloca, como congelamento de salários determinados pelo acionista Governo, proibição de investir, etc. a equipe especificou e projetou, para a EMBRAER privatizada, o EMB 145 – jato de 50 lugares – que estava praticamente pronto no início de 1995, ano em que o Mauricio assumiu o comando. Este avião carregou a empresa até há pouco tempo, dando-lhe a credibilidade técnica, gerencial e mercadológica para se lançar na bem sucedida criação dos EMB 170/190.

Desculpe-me ´por estas colocações que tem somente o sentido de resgatar a imagem de um grupo de abnegados e sonhadores que, sem ele, nada do que temos hoje seria conseguido. Não é uma crítica ao que escreveu, meu admirado amigo. Apenas creio que revela algo, muito possivelmente, que não era do seu conhecimento.

Um grande abraço e estou junto, na primeira fila, aplaudindo o trabalho destacado do Mauricio, merecedor do galardão O EXECUTIVO DA DÉCADA.

Ozires

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
20/04/2007 - 07:00

O BNDES com Luciano Coutinho

Coluna Econômica – 20/04/2007

Para entender o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a partir da índicação de Luciano Coutinho para a presidência.

Grosso modo, há três linhas de pensamento em relação ao BNDES. Uma, que vigorou de Eduardo Modiano (governo Collor) até o governo FHC, consistia em transformar o banco em um grande banco de investimento, trabalhando com modernas ferramentas financeiras e análises de planos de negócios, mas sem nenhuma visão estratégica ou estrutural.

Especialmente na fase da privatização, foi um período absurdo. Saía-se de um modelo estatal na siderurgia, petroquímica, fertilizantes. Para transitar para o modelo privado, havia a necessidade prévia de análises sobre as características desses setores no mundo.

Por exemplo, a petroquímica exige consolidação, escala. Com a implosão do sistema Siderbrás, havia condição de se montar um grande grupo privado nacional, de controle compartilhado. Nada isso ocorreu. Optou-se por vender picado, para maximizar o valor de venda.

***

A segunda linha de pensamento foi trazida de volta para o banco na gestão Carlos Lessa. Tentava se retomar o espírito dos anos 80, no qual o banco decidia sobre o futuro de setores, induzia o setor privado a investir maciçamente -muitas vezes, a realizar sobre-investimentos. Tentava-se recuperar não apenas o banco que ajudava a criar cenários futuros, como a moldar o país.

O modelo não foi ressuscitado, em parte devido ao terremoto da transição, que desarticulou os quadros do banco e fez a gestão Lessa perder um tempo enorme para remontar a estrutura. Em parte porque os novos tempos já não comportavam esse modelo.

***

Com Guido Mantega e Demien Fiocca, o banco acabou aderindo a uma linha já delineada nos anos 80 pelo grupo que comandou a “teoria da integração competitiva”, o plano de abertura econômica.

Com o tempo, esse grupo passou a contar com Antonio Barros de Castro como o grande teórico. Ex-presidente do BNDES (no governo Itamar), Barros voltou para o banco com Mantega.

Na sua visão, passou o tempo do banco definir setores vitoriosos. O Brasil é uma economia suficientemente sofisticada para que se apliquem as chamadas políticas horizontais -isto é, que influenciem todas as empresas indistintamente. Entre essas políticas estão a indução à inovação, à busca de novos mercados, à gestão etc.

Esse grupo também recuperou ferramentas financeiras desenvolvidas no período anterior, e que são bons instrumentos de ação. O problema do BNDES do período anterior não era o de utilizar ferramentas de bancos de investimento. Era o de se limitar a pensar como banco de investimento.

***

O pensamento do economista Luciano Coutinho é similar ao de Barros de Castro. Luciano participou dos primeiros estudos para mapeamento das cadeias produtivas brasileiras, ainda no governo Collor -encomendados pelo mesmo grupo da “integração competitiva”, que ocupou cargos no período.

Essa experiência setorial será relevante para juntar a parte positiva dos diversos modelos em uma ação mais efetiva. Principalmente porque, a exemplo do primeiro governo FHC, o BNDES terá papel crucial para evitar o desaparecimento de diversos setores da economia, por culpa do câmbio apreciado.

Para incluir na lista Coluna Econômica*

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
19/04/2007 - 17:14

O etanol na Argentina

La huella hacia el futuro
Publicado em El Clarin

Adecoagro avanza en su plan de producir etanol y tener un tambo estabulado para 45.000 vacas.

Emplear 500.000 toneladas anuales de maíz para elaborar 210 millones de litros de etanol y subproductos suficientes para alimentar a 45.000 vacas estabuladas. Producir y exportar casi 50.000 toneladas de leche en polvo y quesos. Procesar un millón de toneladas de estiércol para producir 37 millones de metros cúbicos de biogás. Autoabastecerse de energía eléctrica. Comercializar dióxido de carbono y biofertilizantes. Esta es la estrategia del modelo integrado que esta desarrollando y estudiando Adecoagro en Santa Fe.

Adecoagro es una empresa que forma parte del movimiento CREA y que inició sus actividades en 2002, con la compra de las tierras pertenecientes a la división de negocios agropecuarios del grupo Pérez Companc. Hoy, posee 240.000 hectáreas en la Argentina, Brasil y Uruguay.

En EE.UU., el principal subproducto de la elaboración de etanol son los DDGS (en inglés, Dried Distillers Grains with Solubles), que se obtienen a partir de la molienda seca del maíz. Pero también existe otro proceso a partir del cual se obtienen WDGS (Wet Distillers Grains with Solubles).

Adecoagro eligió esta última alternativa. “Optamos por un modelo de planta que es más eficiente para elaborar etanol, pero genera WDGS que tienen un 70% de humedad y deben ser consumidos en un radio de 50 kilómetros de la planta de origen”, explica Alejandro López Moriena, responsable del Grupo Técnico Adecoagro.

Por este motivo, la red de tambos con vacas estabuladas deberá estar en las inmediaciones de la planta de etanol. “La escala mínima para lograr una eficiencia adecuada son 500.000 toneladas anuales, las cuales -según las proyecciones que se están analizando- podrían generar alimento (WDGS) para 45.000 vacas en ordeñe”, indica López Moriena. “Hoy el sistema lechero argentino -más o menos intensivo- está basado en el pasto y es realizado de manera artesanal; pero el modelo integrado necesita un esquema de tipo industrial”, agrega.

Hace más de un año, José Ignacio Perkins, responsable de tambos de Adecoagro, se encargó de analizar diferentes esquemas en EE.UU. y Chile, además de evaluar los modelos lecheros industriales probados en la Argentina.

Hoy, Adecoagro cuenta con un rodeo lechero de 4.000 vacas en ordeñe distribuidas en 7 tambos de base pastoril.

“Pero para poder replicar lo que estamos haciendo hoy en lechería en una escala mayor, hay que desarrollar un esquema industrial y repetible a gran escala. La clave del modelo integrado es la eficiencia del tambo estabulado”, comenta López Moriena.

Modelo de prueba

En marzo del 2007 comenzaron los movimientos de suelo para la construcción de un primer módulo de prueba para 3.000 vacas en ordeñe en Christophersen, Santa Fe. Se estima que la obra estará concluida en noviembre del 2007 y su puesta a punto llevará unos meses más. “Estamos construyendo este módulo para evaluar todos los detalles operativos y técnicos. Una vez que tengamos todo aceitado, recién entonces podrá replicarse a gran escala”, apunta López Moriena.

El diseño del tambo modelo dispone de un gran galpón con corrales internos (”free stall”) donde duermen y se alimentan las vacas. Las raciones son distribuidas desde un pasillo central. El mecanismo de ordeñe consiste de una plataforma rotativa de 80 posiciones que alcanza un promedio de 400 vacas ordeñadas por hora.

La gran pregunta es ¿de dónde van a obtener un rodeo de 45.000 vacas? “Conseguir semejante número de vacas con una buena genética es más un tema biológico que económico”, señala López Moriena. “Si bien vamos a comprar una parte, apostamos a la generación del rodeo por reposición propia. Las nuevas herramientas tecnológicas, como el semen sexado, nos van a permitir lograr una reproducción mucho más rápida. De todas maneras, estamos hablando de un proyecto a largo plazo”, añade; y agrega que, además, están contemplando la posibilidad de que otros empresarios lecheros, con sus vacas, puedan sumarse al proyecto.

El aspecto más original del modelo integrado de Adecoagro es que transforma un problema -un volumen inmenso de estiércol y otros efluentes- en una gran solución. Todos los residuos van a ser procesados en una planta de biogás, a partir de la cual -por medio de la fermentación anaeróbica- se transformarán en metano. Posteriormente, una serie de turbinas generadoras producirán energía eléctrica a partir del gas.

“Nuestros cálculos indican que la energía limpia servirá para suplir las necesidad de consumo de la planta de etanol, de los tambos y de la usina láctea, y además quedaría un saldo que eventualmente se podría vender”, indica López Moriena.

Además, la planta de biogás -como así también la usina de etanol- permitirían obtener ingresos por venta de bonos de carbono. Y producirá 201.000 toneladas de biofertilizante equivalentes a 6.500 toneladas de urea.

Adecoagro produce leche en polvo en la firma láctea “La Sibila” (Nogoyá, Entre Ríos) y exporta su producción a diversos destinos. Pero la compañía siempre quiso tener una planta láctea propia, o en asociación con terceros. “El modelo integrado busca sinergizar todos los recursos del proceso para finalmente obtener productos exportables: etanol, leche en polvo y quesos; se trata de tres productos con perspectivas de alta demanda mundial”, comenta López Moriena.

Y destaca: “En términos agronómicos, buscamos secuestrar dióxido de carbono a través de la fotosíntesis, para generar energía y proteínas lácteas”.

¿Cómo surgió la idea? “Tenemos accionistas en EE.UU., y allá, con el boom del etanol, enfrentan la problemática del uso de los subproductos que genera este biocombustible. Esta idea surgió a partir de varios intercambios y viajes que tuvimos con estos accionistas y sus contactos”, dice.

López Moriena especialmente recalca que este modelo sigue todavía bajo estudio y análisis en todas sus etapas. “Pero como la parte fundamental es el asesoramiento del tambo estabulado, los esfuerzos se están focalizando en ese punto. Y para ello se incorporó hace 5 meses a un ingeniero industrial, Salvador Mackinnon quien colabora en la obra”, dice. Entre todos, desde Santa Fe, están haciendo historia.

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19/04/2007 - 07:00

O executivo da década

Coluna Econômica – 19/04/2007

Os anos 90, no Brasil, marcaram o início da era dos grandes executivos profissionais, os CEOs, assumindo a presidência executiva de companhias e prestando contas ao conselho de administração — onde passaram a se encastelar os controladores, em muitos casos grupos familiares.

Dentre todos os executivos dos anos 90, o mais brilhante foi Maurício Botelho, ex-executivo do grupo Odebrecht, que passou pelo grupo Bozzano Simonsen e, com a privatização, assumiu a presidência da Embraer.

No próximo dia 22, ao se aposentar da empresa, Botelho deixa o legado de tê-la transformado em uma das três maiores companhias aéreas do planeta, começando a competir, agora, nos terreno das gigantes Boeing e Airbus,

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A Embraer surgiu de um trabalho sistemático de pioneiros que nos anos 40 criaram um Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), depois o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e, no final dos anos 60, a Embraer.

A empresa logrou alguns feitos, como o avião Brasília, que lhe permitiu conquistar os primeiros contratos internacionais, no rastro do crescimento da aviação regional.

Depois, acabou esbarrando em problemas de gestão, em falta de atenção ao mercado e, a partir de meados dos anos 80, na crise fiscal do estado brasileiro.

Com a privatização, há doze anos, quando Botelho assumiu a presidência da companhia, ela estava proibida de contratar funcionários ou de conceder aumentos salariais.

O último projeto foi um turbo-hélice mais cômodo que o da concorrência, que voava mais alto, suportava mais carga. Mas custava 50% mais caro, um período em que os turbo-hélices começavam a sair de linha. Não vendeu um avião sequer e marcou a decadência que acompanharia a empresa até a privatização.

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Botelho assumiu com cinco prioridades. A mais crucial era trazer contratos com os modelos antigos. A segunda foi equacionar a questão financeira. A empresa tinha SU$ 250 milhões anuais em receita, US$ 350 mi em despesas e um endividamento de US$ 450 mi. A terceira, reconstruir a relação com os funcionários, de ressaca com o longo período de desesperanças. A quarta, dar toda atenção ao Projeto Redenção, de construção da família ERJ, a grande aposta da empresa. Finalmente, adequar custos às receitas.

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Botelho assumiu o cargo levando apenas três executivos de fora: o financeiro, o de planejamento estratégico e o de estrutura organizacional. A empresa tinha 6.200 funcionários. No ponto mínimo, chegou a ter 3.400. Hoje, tem mais de 20 mil funcionários espalhados pelo mundo inteiro.

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Reorganizada a empresa começou a disputar o mercado internacional. E, ali, o Brasil conheceu a sua primeira guerra mundial da globalização, o embate entre a Embraer e a canadense Bombardier. Foi uma luta hercúlea, em que os adversários se prevaleciam de regras acertadas no âmbito da Organização Mundial do Comércio, em um período em que a diplomacia brasileira sequer podiam avaliar os desdobramentos.

A vitória da Embraer marcou a maioridade brasileira nos fóruns internacionais, mostrou a capacidade do país em planejar o longo prazo – ainda que restrita a poucas companhias.

Para incluir na lista Coluna Econômica*

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
18/04/2007 - 07:00

As culturas regionais do biodiesel

Coluna Econômica – 18/04/2007

Um dos pontos mais interessantes do programa nacional de biodiesel é a diversidade de culturas regionais que permitirá produzir o combustível. De cara o país sai na frente -assim como no etanol do álcool–, não só pelos estudos sobre as diversas oleaginosas, como pelo fato de já dispor de mini-refinarias adaptadas para diversas espécies de plantas.

No momento, e Embrapa trabalha com seis tipos de matérias primas, e uma grande promessa. As matérias primas são a mamona, a soja, palmáceas, girassol, amendoim e algodão. A promessa é o pinhão manso, especial para recuperar terras degradadas, e também a macaúba.

Pelas avaliações da Embrapa, o primeiro ciclo será dominado pela soja e pela mamona. A partir de 2013 o dendê passará a ter expressão maior. Apesar de ser aposta de algumas grandes empresas, a Embrapa não coloca suas fichas no girassol.

A aposta no dendê dependerá da decisão do governo de começar a investir no seu desenvolvimento tecnológico

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Nas análises comparativas, a Embrapa prevê um rendimento médio da soja de 375 a 600 quilos de óleo por hectare (kg/ha), dependendo do teor de óleo da planta. Na mamona, é de 350 a 1.188 kg/ha. No dendê, essa produção salta para 2.000 a 5.000 kg/ha. No girassol, de 630 a 725 kg/ha. Esperança do futuro, o pinhão mansão pode produzir de 1.340 a 3.200 kg/ha. A Brasil Ecodiesel analisou as mesmas culturas e constatou que, na média, a soja rende 450 kg/ha, o girassol 550, a mamona 450 e o pinhão manso 700.

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No curto prazo, a maior fonte de insumos será a soja, que responderá por 80% da produção de biodiesel, ou um bilhão de litros em 2008. Ela permitirá o tiro de partida.

A médio prazo, o Plano Nacional de Biocombustíveis prevê a combinação de agricultura, biomassa energética, florestas (fibras, celulose e papel), integrando agricultura, pecuária e manejo florestal.

Ponto central do projeto é a disponibilização de sementes para plantio. Hoje em dia, a mamona tem sementes suficientes para atender a 150 mil hectares; o feijão caupi (que será plantado de forma consorciada com a mamona) para atender a 150 mil ha; o dendê, para 3 milhões de sementes/ano ou 21 mil ha e a soja para atender a 10 milhões de ha.

Pelos números se percebe a razão da soja ser o ponto de partida.

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É nesse universo que se dará a coordenação tecnológica das pesquisas no país. Até agora não existe um sistema montado. A Embrapa criou a Embrapa Energética, juntando nela as pesquisas ligadas ao biocombustível. Provavelmente caberá a essa divisão a coordenação das diversas pesquisas em torno do tema.

Serão montadas inicialmente cinco redes de pesquisa:

1. Álcool combustível, pesquisando etanol de cana, de grãos, de tubérculos, celulósico, metanol de biomassa e co-geração de energia.

2. Biodiesel, juntando as pesquisas sobre oleaginosas nas regiões norte, nordeste e centro-sul.

3. Biogás, com pesquisas sobre biodigestores, resíduos de suínos e aves, vinhaça e geração de energia elétrica.

4. Florestas energéticas, pesquisando a biomassa vegetal, carvão vegetal, geração de energia elétrica e crédito de carbono.

5. Resíduos agrícolas e florestais, juntando setor sucro-alcooleiro, resíduos de madeira, setor de arroz e resíduos e lixos.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
17/04/2007 - 07:00

A ciranda do dólar

Coluna Econômica – 17/04/2007

Aparentemente vai-se chegando à paz dos cemitérios na questão cambial. Há no ar o conformismo com a situação, a certeza de que nada será feito no curto prazo para reverter esse câmbio. E que a situação internacional é suficientemente favorável para dar que se mantenha por anos essa loucura, antes que venha a próxima crise nas contas externas.

Enquanto isto, o país curte as viagens internacionais mais baratas. E as empresas que estiverem sendo destroçadas pela competição externa, basta seguir a receita dada por uma revista semanal: tornem-se importadores de produtos chineses.

Fantástico! Queimam-se empregos, queima-se a vida de milhares de empresas, mata-se a oportunidade de empresas inovadoras se tornarem grandes companhias em troca da manutenção desse dólar, que beneficia grupos muito específicos.

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Um dos grupos beneficiados são aquelas empresas que querem vender ativos para investidores externos – que calculam seus ganhos em dólares.

Suponha uma empresa que tenha lucro de R$ 10 milhões por ano, em um setor em que a taxa de rentabilidade esperada seja e 15% ao ano.

Com o dólar a R$ 2,50, essa empresa valerá, em dólares, US$ 20 milhões. Se o dólar cair para R$ 2,00, passará a valer US$ 25 milhões. Portanto a apreciação do real equivale à apreciação de todos os ativos que possam estar na mira dos investidores externos.

Por aí, o interesse na apreciação cambial vem da parte das empresas que querem abrir capital (e aproveitar o momento), dos bancos de investimento (que lucram com a abertura de capital) e dos especuladores que esperam a valorização das suas ações para despejar para os investidores externos.

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Outro exemplo?

Suponha um investidor que tomou um financiamento em dólares a 10% ao ano por quatro anos com o câmbio a R$ 2,40. No vencimento, se o câmbio estiver a R$ 1,90, o custo do financiamento (em reais) será equivalente a apenas 3,8% ao ano. Mesmo com o câmbio a R$ 2,20, o custo anual será de meros 7,6% ao ano. Ou seja, ele já tem acesso a juros favoráveis no financiamento externo. Com a apreciação cambial, o custo fica menor ainda porque, o a valorização do real, serão necessários menos reais para pagar o empréstimo em dólares.

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É pouco? Vamos a outra conta. O sujeito toma o financiamento de US$ 10 milhões, com o dólar a R$ 2,40 e a taxa a 10% ao ano, em dólares, por prazo de quatro anos. Suponha que aplique essa quantia a uma taxa Selic de respectivamente 20%, 17%, 15% e 12% ao ano. No vencimento, caso o dólar esteja a R$ 1,90, seu lucro será de US$ 8,2 milhões.

A rentabilidade foi infinita porque, no exemplo, apontado, ele não precisou usar seu capital: meramente pegou dinheiro emprestado, aplicou em títulos do governo e, com os juros internos e a apreciação cambial, quitou o financiamento e ainda ficou com US$ 8,2 milhões no bolso.

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Quem perde é o conjunto das empresas e dos trabalhadores. Cada vez que a empresa ou investidor traz dólares de fora, esses dólares são convertidos em reais. O excesso de dólares provoca apreciação do câmbio, sufocando a produção interna. Para tirar o excesso de reais da economia, o Banco Central emite títulos, pressionando ainda mais a dívida pública.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
16/04/2007 - 20:48

Shakespeare, emendas e barganhas

No “Valor” de 16/04/2007

Por Fábio Wanderley dos Reis

Em artigo recente em “The New Republic” a propósito de certa “santificação” de Barack Obama na imprensa dos Estados Unidos (”The Character Issue”), David A. Bell cita um ensaio de Stephen Greenblatt sobre Shakespeare do qual destaca uma observação: “Em Shakespeare, nenhum personagem dotado de clara visão moral mostra vontade de poder e, ao revés, nenhum personagem fortemente inclinado a exercer poder sobre os outros tem desígnios eticamente adequados”. Há reflexões clássicas sobre a política, como as de Harold Lasswell, que de certa forma vão mais longe, apontando suas raízes psicopatológicas. De todo modo, divergindo da interpretação do próprio Greenblatt, que liga a “visão trágica” de Shakespeare à ausência de instituições democráticas em seu tempo, Bell propõe que a ausência importante era antes a de instituições “republicanas”, entendidas como “instituições especificamente destinadas a controlar os políticos ambiciosos e inescrupulosos e a evitar o mal que possam fazer”. E assinala que os “pais fundadores” da república estadunidense, elaborando a Constituição e os “freios e contrapesos” como aparelhagem institucional orientada pela preocupação de neutralizar as deficiências éticas e os egoísmos variados, conheciam bem o seu Shakespeare.

Um primeiro ponto a notar diz respeito ao sentido atribuído à idéia de “republicanismo”. Enquanto vemos com frequência a expressão associada, entre nós, com a virtude cívica, ela surge aqui ligada à necessidade de lidar de forma realista e eficiente com a falta de virtude. Tenho aderido a essa perspectiva, contra certo moralismo difuso que espera como que a “conversão” moral (e ideológica) das pessoas para que pudéssemos ter a boa política.

Mas tenho também introduzido uma ressalva importante, em que o caráter e a exemplaridade, ao menos de lideranças políticas maiores, surgem como requisitos da própria eficiência da construção institucional – se não por inspirar no plano propriamente moral os demais, quando nada por seu efeito sobre as expectativas gerais. Bell incorpora essa ressalva, com a distinção entre a moralidade privada e o sentido politicamente relevante do caráter do homem político.

A distinção é ilustrada pelo contraste entre Roosevelt, de moralidade privada questionável mas “capaz de buscar e alcançar altos objetivos morais na vida da nação”, e George W. Bush, com quem teríamos o inverso. Deixo ao leitor a avaliação, desse ponto de vista, do equilíbrio entre realismo e exemplaridade eficiente na atuação dos candidatos recentes a grandes líderes que temos tido no país.

As ramificações desse confronto de perspectivas são muitas e complicadas. Entre vários outros temas específicos, é possível ilustrá-las com o debate em torno das emendas parlamentares. Em artigo merecidamente premiado no ano passado (”Processo orçamentário e comportamento legislativo”), Fernando Limongi e Argelina Figueiredo examinam os dados sobre os votos dos parlamentares contra ou a favor do governo à luz da suposição, que integra a imagem negativa do Congresso, de que as emendas ao orçamento, e a barganha clientelista em torno delas, seriam o fator decisivo do apoio ao governo. O que a análise mostra, porém, é que a filiação partidária explica melhor o voto do parlamentar do que a barganha sobre emendas. Em princípio, talvez tenhamos aí algo que autorize ver de maneira mais positiva o processo político-institucional e as relações entre os poderes; mas qual o alcance real dos problemas envolvidos?

Para começar, se a referência ao partido é supostamente melhor que a barganha imediatista em torno de interesses estreitos (o que, de passagem, é relevante para o voto secreto ou aberto no Congresso: o voto aberto não favorecerá a pressão dos currais eleitorais interessados nas emendas?), existe a possibilidade, da qual as denúncias sobre o “mensalão” são clara evidência, de um clientelismo (ou pior) conduzido em termos partidários. Mas, pensando bem, o próprio partido ideológico e presumidamente mais consistente opera em correspondência com interesses. Duas observações se seguem.

Em primeiro lugar, a de que, nessa óptica, o que o mensalão tem de inaceitável é a forma pecuniária da troca de interesses. Se isso não torna menos ruins as práticas envolvidas, certamente permite ver com olhos menos negativos a barganha de que tratam os autores e cuja importância factual seu artigo procura contestar ou reduzir. Em segundo lugar, cabe relacionar, sem dúvida, o caráter menos ou mais “ideológico” de um partido com o contraste entre condenável “particularismo” e elogiável “universalismo” nos princípios que orientam as ações; mas como decidir entre os dois casos? Os pequenos partidos que representem pouca gente, ainda que se trate de todos os membros de um dado grupo de interesses, ou de sacrossantas identidades coletivas, serão particularistas ou universalistas, por contraste com os partidos empenhados em agregar maiorias diversificadas? Além disso, do caráter ideológico podem brotar o sectarismo e o maquiavelismo que ameaçam levar justamente à arrogância e à adesão ao vale-tudo de práticas como o mensalão. Corremos o risco de que não sobre, do lado “do bem”, senão um idealizado partido identificado com o “interesse público”, entendido como o interesse da coletividade abrangente (nacional, ou talvez mundial) como tal.

Em síntese, não há como escapar, na política, de certa dialética entre solidariedade e interesses – e do caráter equívoco do equilíbrio entre virtude e vício no jogo que opõe a suposta crueza dos interesses à nobreza e ao altruísmo (relativos) da solidariedade.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
16/04/2007 - 20:07

A escola chinesa de violão

Olha aí a invasão chinesa no violão: Daekun Jang

Aqui, no classic “Adelita”, de Tarrega

No Estudo no. 12 de Villa Lobos

Em “Alfonsina e o Mar”, de Ariel Ramirez

Três Mazurkas, de Tárrega

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
16/04/2007 - 17:01

Corsini, um pioneiro

Enviado por: Luiz Horacio

Os usineiros, a indústria automobilística brasileira, o governo e a economia brasileira têm demonstrado pouca ou nenhuma gratidão e reconhecimento ao professor Romeu Corsini, pioneiro no estudo e na pesquisa do álcool como alternativa viável para a gasolina.

Minha mãe e outra professora eram assessoras dele, no Instituto de Pesquisa. Sem nenhuma verba, completamente esquecidos, sem poder desenvolver nenhuma atividade de vulto ou de porte, ficaram praticamente paralizados, durante anos, aqui em São Carlos.

Ao mesmo tempo, não se chegou a respeitar e dar ao professor e ao seu gabinete de trabalho o nível de recursos e a categoria de estudos que toda a sua trajetória acadêmica atesta, desde a Politécnica, o IPT e a consolidação da Cidade Universitária em São Paulo e da Escola de Engenharia de São Carlos, que se tornaram modelos máximos na produção de tecnologia.

Totalmente desprestigiados, chegou-se a dizer, como se fosse maior feito, que ele foi o “inventor do avião Paulistinha”, para negar a importância gigantesca do seu trabalho pioneiro na indústria atual do álcool. Suas assessoras foram desvinculadas do gabinete e tentou-se dar a elas destinos também pouco dignos. Minha mãe chegou a ser demitida da Prefeitura, depois de ter feito renascer o Teatro Municipal de São Carlos, que passou a despertar a cobiça de outros setores e administrações, entre outras atuações sempre destacadas, em nossa cidade. Entrou com processo contra a Prefeitura e ganhou, em primeira instância. O processo agora está com recurso em instância superior. Ela não quis ser reintegrada, pois durante anos ficou afastada de suas funções regulares, como Chefe de Seção da Prefeitura, na área cultural.

Disseram que foi porque ela se aposentou, mas agora já há pareceres suficientes dizendo que aposentadoria não é razão para demitir ninguém. Então, como é que fica? Vamos ter de aguentar cara feia de administradores que estão chegando agora em São Carlos, quando nós estamos aqui há muito e muito tempo, desde os primórdios da cidade?

Fica o apelo aos usineiros, à sociedade brasileira, para que valorizem e reconheçam com o devido mérito, e na devida proporção o professor Romeu Corsini, e o que sucedeu com seu gabinete e com suas assessoras. Hoje pode-se falar em bilhões e bilhões de dólares, que não acabam mais, em milhões de famílias sendo diretamente beneficiadas, em populações inteiras usufruindo desses estudos, e o que receberam em troca essas pessoas? E não são eles que estão cobrando. Sou eu, que assisti de perto, e tenho de ficar vendo cara feia, quando saio na rua.

O setor brasileiro do álcool tem de continuar monstrando sua grande capacidade de aprender e se aperfeiçoar, e de mudar seus padrões arcaicos para os modernos, e estender essa visão abrangente para todo o ciclo produtivo, para as pessoas que ajudaram-nos a produzir tantas riquezas, para hoje e para amanhã.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
16/04/2007 - 07:00

Biodiesel e inclusão social

Coluna Econômica – 16/04/2007

Um dos grandes desafios do Programa do Biodiesel é a viabilidade econômica, financeira e operacional da inclusão da agricultura familiar na produção.

A maior experiência até agora tem sido a da Brasil Ecodiesel, empresa que abriu capital e acumulou boa experiência com esse público. Sua estratégia foi apresentada por seu presidente Nelson José Cortes da Silveira durante o 40º Seminário do Projeto Brasil. O primeiro grande projeto da Ecodiesel foi no Piauí, para servir de aprendizado.

Há diferenças fundamentais entre a agricultura familiar do nordeste e do sul. Para baixo há terras, clima e organização social. No nordeste a agricultura familiar controla 50% das terras, porque são terras sem atividade econômica agrícola intensiva.

No sul a agricultura familiar é dividida em cooperativas mistas. Quando se senta com um dirigente sindical, ele já conhece a linguagem do negócio. No nordeste, o grau de desorganização é muito grande. Apenas na Bahia se percebe o início da grande transição entre o mundo mais organizado do centro-sul e o do nordeste.

O maior desafio é organizar a agricultura familiar, sair do relacionamento corpo a corpo para trabalhar com entidades organizadas.

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Além disso, a lógica da pequena propriedade nordestina é cruel. O indivíduo recebe 10 hectares de terra, ocupa dos dois primeiros, cortando as árvores e plantando milho, feijão ou outra cultura de subsistência. Depois de colhido o milho, solta o gado, que come a forragem (cobertura vegetal), pisoteia o solo, que é ralo. No segundo ano aquela área virou areal. O agricultor vai então para os dois hectares ao lado. Em cinco anos completa-se o processo de desertificação e ele fica tentando sobreviver daquilo.

Com biodiesel da mamona, recorre-se a uma planta rústica, com tecnologia simples, que produz de 400 a 500 quilos/hectare sem nenhum investimento adicional.

A Ecodiesel orienta os agricultores a plantar mamona consorciada com feijão e eucalipto. Como a mamona tem raízes profundas, ajuda a descompactar a terra para plantio consorciado. Depois de dois anos, a mamona vai para o lote seguinte e abre espaço para novas culturas nos lotes recuperados.

Em dez anos, a propriedade estará recuperada, permitindo produzir culturas de maior produtividade.

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A vantagem da mamona é permitir fazer o programa da noite para o dia. A partir dela, pode-se pensar em culturas de maior produtividade, mas sempre com a mamona como cultura de rotatividade por ser a de menor risco.

A idéia é em quatro anos trazer o pinhão manso como alternativa à soja, para plantar nos dois hectares que foram recuperados, associados ao feijão e eucalipto.

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A Ecodiesel estima em dois a três anos o período de apoio à agricultura familiar. Depois disso, espera que o setor esteja suficientemente organizado para se unir em cooperativas, com auto-gestão dos negócios, para poder se relacionar como entidade econômica com menor dependência.

No caso do Piauí, a Ecodiesel organizou dois modelos. O primeiro, um assentamento privado, com 650 famílias e 4 mil pessoas, recebendo todos os serviços sociais. A rotatividade anual é de apenas 2,5%. O segundo, acordos de compra de 57 mil agricultores familiares.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
14/04/2007 - 23:26

Conversas com dona Tereza

Dia 12 de abril último foi seu aniversário de nascimento, não me esqueci. À tarde juntei minha tropa, as menininhas e as meninonas e fui almoçar na praça Vilaboim. Depois passei na loja de música e sem pressentir comprei um CD de Carlos Galhardo.

À noite, em casa sozinho, coloquei o CD no computador e estava escutando, quando a Lourdes telefonou lembrando da data. Naquele momento o CD entrou na faixa 12, da valsa “Último Beijo”, de Jorge Faraj e Roberto Martins. “Na carta, nem o nome ela escreveu / adeus, e torturando o meu desejo / igual aos falsos beijos que me deu / a mancha de carmim de mais um beijo”.

Foi uma música que entrou no meu cérebro, ainda criança, cantada por sua voz límpida e depois ficou adormecida em algum lugar da memória. Alguns anos atrás, em uma rodada, um amigo levantou o tema e as lembranças afloraram com a força do vulcão de Poços de Caldas.

Só então me dei conta que a senhora tinha preferência por duas valsas de nome “Último Beijo”. A que eu sempre me lembrava era a do Zequinha de Abreu, gravada pelo Roberto Fioravanti. A primeira vez que visitei a casa Manon, em São Paulo, com dez anos de idade, fiz questão de comprar a partitura em piano, que tirei para tocar para a senhora. Lembra? Agora, passando a Semana Santa em Poços de Caldas, quando a noite avança saio pelas ruas refazendo os mesmos caminhos que a senhora percorria. No trajeto entre a Farmácia Central, no início da rua Rio de Janeiro, e a nossa casa, no final da rua, me lembrei da senhora carregando sua sacola, ou alguma cesta, e parando em cada casa do caminho para conversar. Como gostava de conversar! Às vezes precisava parar para superar uma angina fortíssima, fruto de um hipercolesterol que a levou aos 63 anos, mas que jamais abateu sua força ou sua verve.

Fiquei lembrando das noites em nossa casa, eu mais a Regina, a Fátima e a Inês -a Lourdes ainda era bebê— sentados em torno da sua cama, ouvindo-a cantar as valsas do seu tempo. Como a gente caçoava, depois, de sua paixão por Galhardo. A senhora gostava tanto dele, que aquele LP de capa azul não saia da vitrola. Sei que a senhora não vai acreditar, mas não fui eu quem sumiu com o LP. Ele gastou mesmo, de tanto tocar.

Com todo respeito, ainda temos calos no ouvido de tanto ouvir a senhora contar a história da Revolução de 1932, e de como se escondeu com meus avós em uma fazenda para fugir das tropas mineiras. Foi uma autêntica constitucionalista aos 6 anos de idade.

Acho que a única vez que a gente conseguia devolver suas gozações era quando juntávamos com as primas para dizer que a senhora representava os derrotados de 1932. No mais, a liderança da gozação sempre foi sua. Até mesmo quando ironizava a fama de separatista dos paulistas, cantando a paródia de “Fita Amarela”: “Quando eu morrer / não quero choro nem lista / só quero uma fita paulista / gravada separatista”. E como a senhora foi linda! Sempre que me encontro com o professor Antônio Cândido ele se recorda de sua beleza, que nem o tempo reduziu, nem a doença prejudicou. Eu fico ouvindo, todo coruja.

Agora, cá para nós, não foi fácil esse tempo todo ficar me indagando se tinha cumprido os compromissos, atendido às suas expectativas, se não tinha cedido ao acomodamento ou a qualquer forma de prazer supérfluo. Podia ter maneirado um pouco, né?, reduzido o teor de auto-crítica. Podia ter permitido alguns momentos de deslumbramento, de comemoração de um ou outro sucesso, sem me sentir ridículo. Lembro da sua neta Luizinha, em um desses momentos, me dando um puxão de orelha: “Pai, para de pensar no dia seguinte, curte o momento, que é seu!”. E quem disse que sua lembrança deixava.

Agora que a maturidade avança, com a chama ainda acesa, mas com alguma obra legada, quando se olham as filhas e sobrinhos crescendo, sendo formados na mesma massa que a senhora legou, a idade autoriza momentos de relaxamento. Já estava sentindo falta mesmo, de um daqueles nossos bate-papos que ficaram interrompidos por algum tempo, por algum conflito mal resolvido.

Para incluir na lista Crönica Semanal

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
14/04/2007 - 21:59

Duelo de bateristas

Enviado por Neves

Mais duelos interessantes:

Gene Krupa vs Buddy Rich

E esse, gaiato e sensacional, Buddy Rich vs Jerry Lewis

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
14/04/2007 - 18:54

O som dos violinos

Concerto para Violinos, de Beethoven, por Yehud Menuhin, dica do Wilson

Aqui o grande Jascha Heifetz tocando o Capricho no. 24 de Paganini

Heifetz em “Hora Stacatto”

David Oistrakh toca Tchaikovsky Violin Concerto (3rd Mov.)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
14/04/2007 - 13:05

O som de Atahualpa Yupanki

Daniel Winocur

Estimado Luis.

A primeira vez que lhe mandei um email foi com motivo de uma coluna sua na Folha que falava de Don Ata, como carinhosamente chamamos os argentinos que gostamos da musica de raiz, a esse genio da poesia popular.

Naquela ocasião, me sorprendí que vc soubesse que ele era. O tempo fez que alguma vez conversaramos pessoalmente, e que eu seja hoje leitor / usuario / e comentador de seu blog. ( o único que vale a pena ).

Visitanto o youtube, descubrí que agora alguns videos do Atahualpa estâo lá. Tem um bem interesante, do dia em que o maior anfiteatro dedicado á música nativa, em Cosquin (pcia de Córdoba) foi batizado com o nome dele.

A poesia boa, e o violão inconfundivel:

Tambem achei isto:

Tal vez valga a pena repetir a crônica de anos atrás, agora com ajuda de imagem e som………….

Esperando que o cha que quebra-pedra tenha dado efeito.

Um grande abrazo

Daniel Winocur

Aproveito, por minha conta, para colocar o grande violonista Eduardo Falu, com a Camerata Bariloche. Falu surgiu no início dos anos 50, trazendo o refinamento da formação clássica para o folclore argentino.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
14/04/2007 - 09:07

Sofismas planilheiros

Um dos sofismas preferidos dos planilheiros consiste em levantar ou questionar algumas relações de causalidade, mas sem proceder à devida quantificação — logo eles, que costumam se valer mecanicamente da matemática quando se trata de defender teses esdrúxulas.

Repare no que ocorreu quando o IBGE afirmou que teria havido perda de 1,2 ponto percentual do PIB com o quadro externo, devido ao aumento das importações substituindo a produção interna.

Em um modelo virtuoso, o aumento do consumo teria induzido a um aumento da produção que, na etapa seguinte, levaria a um aumento do investimento, trazendo mais aumento de consumo.

O que o IBGE mostrava é que, com a apreciação excessiva do câmbio, o aumento da demanda foi suprido em grande parte por importações, cortando a correia de transmissão do consumo para a produção.

Economistas como Affonso Celso Pastore correram para desmentir a afirmação com base em uma constatação empírica. A apreciação do câmbio, ao tornar os importados mais baratos, na verdade foi uma das causas para o aumento da demanda interna.

Onde está o sofisma? Justamente em não quantificar de quanto foi a influência da apreciação do câmbio sobre o aumento do consumo; e de quanto foi a influência do câmbio na substituição da produção interna.

Ora, parte relevante do aumento do consumo se deveu ao fator crédito, certamente muito mais do que ao fator câmbio. Principalmente porque não houve deflação. É fácil conferir.

Suponha um consumidor que consiga gastar R$ 100,00. A uma taxa de juros de 7% ao mês, a cada seis meses ele conseguirá comprar bens de até R$ 477,00. Suponha que a taxa caia para 3% ao mês. Automaticamente, no mesmo período conseguirá adquirir bens no valor de R$ 542,00. Ou seja, houve uma elevação de 14% no seu poder aquisitivo, exclusivamente pelo fator juros.

Mais que isso. Podendo financiar em até 12 meses, o valor do bem adquirido salta para R$ 995.00 – aumento de 109% no poder aquisitivo. Em 24 meses, com os mesmos R$ 100,00 poderá adquirir bens no valor de R$ 1.694,00 – elevação de 225% na capacidade de compra.

Ele se endivida, sim, e os dados de inadimplência estão revelando esse processo. Mas conseguiu antecipar e ampliar substancialmente seu poder de compra.

Quando é que a apreciação do real vai conseguir efeito semelhante? Suponha que tenha mantido estável o preço de alguns produtos, ou mesmo produzido uma deflação de 5% nos importados.

Olhando à primeira vista, para um aumento na demanda da ordem de 4,5% do valor do PIB, quanto poder ser atribuído ao financiamento, quanto ao câmbio? Quando se desce na escala de renda, a estrutura de consumo dos beneficiados pelos programas sociais tem baixíssimo componente de importados.

A conta correta, portanto, teria que considerar os seguintes fatores:

1. Identificar os fatores efetivos que provocaram aumento de demanda, para dar o devido peso à apreciação do câmbio.

2. Descontar desse total a parcela da produção doméstica que foi subtraída pelas importações.

Para quanto seria a perda do PIB com o fator externo? Um ponto percentual? 0,9 ponto? Fazendo essas contas provavelmente constatariam que o “erro” metodológico do IBGE foi irrelevante, e que o fator externo foi o principal responsável, sim, pelo PIB menor de 2006.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
14/04/2007 - 08:12

Chico Viola o rei da voz

Publicada em 28/09/2002

Até onde a memória alcança, não me lembro do dia da morte de Francisco Alves, o “Chico Viola”. Eu tinha apenas dois anos. Mas lembro anos depois de minha mãe contando que nevou em Poços de Caldas, a serra de São Domingos cobriu-se de branco e ele apertou minha irmã Regina junto ao peito, para proteger do frio seus dois meses de vida.

Só vim a conhecer plenamente Chico Viola lá pelos meus 10 anos. Em casa, havia uma profusão de discos de 78 rotações de diversos cantores e gêneros, colecionados por meu pai. Nenhum Chico Alves.

Na época ganhei um radinho de pilha, e toda noite ia dormir com ele. Foi numa das noites que ouvi pela primeira Chico Viola. Nem me lembro da música. Só me recordo que o arranjo era longo, de um daqueles maestros maravilhosos da rádio Nacional, tomava quase metade da gravação. E a voz de Francisco Alves entrava da metade para frente, aquela voz de barítono, romântico, que me fazia sentir saudades de lugares que nunca vi.

Levantei da cama e fui direto cobrar explicações da dona Teresa. Quem era esse Chico Viola, que tinha me chapado? Ela me explicou que havia sido um dos maiores cantores brasileiros, que havia morrido em um desastre na via Dutra. Cobrei-lhe explicações: “Como a senhora nunca me falou dele, se ele é melhor do que Carlos Galhardo?”. Para minha surpresa, dona Teresa admitiu que era melhor do que seu ídolo, mas não sabia a razão de nunca ter me falado dele. E me mandou ir para cama, que já era tarde.

O repertório de Chico Alves sempre nos acompanhou em nossas serenatas, ao lado dos modernos seresteiros que surgiam, como Chico Buarque e Sidney Miller. “Risque” (Ari Barroso), “Caminhemos” (Herivelto Martins), “Serra da Boa Esperança” (Ary e Lamartine Babo), foram lançadas pelo mestre. Não houve cantor na história -nem mesmo Orlando Silva—que tenha acumulado lista tão impressionante de sucessos. A valsa “Boa Noite, Amor” (José Maria de e Francisco Matoso), “A Mulher que Ficou na Taça” (com Orestes Barbosa), “Foi Ela” (Ary Barroso), “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), “Onde o Céu Azul É Mais Azul” (Alcyr Pires Vermelho, João de Barro e Alberto Ribeiro), “Caminhemos” (Herivelto Martins) e “Cadeira Vazia” (Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves), são apenas alguns de uma lista interminável de sucessos.

Chico Alves começou em 1918, quando lançou “Pé de Anjo”, de Sinhô, e prosseguiu nos anos 20, com “Malandrinha” de Freire Júnior, uma de minhas serestas prediletas. No ano da sua morte emplacou um de seus maiores sucessos, a marcha-rancho “Confete” (David Nasser e Jota Júnior). Seu enterro, em 28 de setembro de 1952, foi acompanhado por uma multidão de 200 mil a 500 mil pessoas.

Quando comecei a trabalhar na imprensa, por volta de 1970, Chico Alves era quase um cantor maldito. A bossa nova consagrara um novo estilo de interpretação, e cometia-se a bobagem de desqualificar qualquer estilo diferente. Ora, dentro de um estilo que foi soberano, dos anos 20 aos 50, Francisco Alves foi dos maiores, talvez só suplantado por Orlando Silva.

Além disso, havia muitas críticas quanto ao seu caráter. Acusavam-no de “roubar” músicas de compositores menos conhecidos. Chegava-se a ponto de não lhe atribuir nenhuma das 132 músicas oficialmente de sua autoria.

Ao longo dos anos, Chico foi sendo gradativamente poupado pela crítica, porque esquecido. Um homem sem caráter, como o descrito pela crítica da época, certamente não arriscaria a lançar na música Carmen Miranda e Orlando Silva, sabendo que poderia desbancá-lo como maior cantor brasileiro. E um orelha de pau jamais ousaria, depois de acertar com Sinhô e Freire Júnior, ir ao Estácio e descobrir a riqueza musical de Ismael Silva, Nilton Bastos, Bide e Marçal; Brancura. O repertório dos novos sambistas, aliás, permitiu um conjunto de 24 gravações magistrais de Chico Alves em dupla com Mário Reis.

Pode-se alegar que ele impunha parcerias a compositores menos conhecidos. Mas como explicar que, sendo o orelha de pau como pretendiam os críticos, tivesse composto mais de vinte músicas com David Nasser, mais conhecido jornalista brasileiro da época, e longe de ser um compositor indefeso?

Nesse sábado, 50 anos da morte do cantor, em todo reduto seresteiro, de norte a sul do país, nas casas de empresários, profissionais liberais, no centro e na periferia, nos botequins do Brasil, na memória de intelectuais e de amantes da música brasileira, houve três minutos de silêncio, para que algum cantor dó-de-peito se levantasse e cantasse “A Voz do Violão”, de Horácio Campos (”não queira meu amor saber da mágoa / que sinto quando a relembrar-te estou / atestam os meus olhos rasos d’água / a dor que a tua ausência me causou”). E, depois dela, ergueram seu brinde à memória do mestre.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
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