Gustavino e o culto da gentileza
Quando a babá empurrou a Bibi para me mostrar o trabalho da escola, admito que meu coração mineiro bateu mais forte. Especialmente quando ela se define como uma “menina gentil, que falava bom dia e boa tarde e tinha um porteiro muito amigo dela”.

Ela tinha apenas seis anos.
Conferi ao sair de casa e levar ela e a Dodó à aula de natação. Dobramos a esquina da Rua Pernambuco, entramos na Rio de Janeiro e estava lá, no prédio de esquina, o porteiro abanando a mão para as duas.
Já se tornaram amigas de todas as pessoas que fazem ponto no trajeto da escola à nossa casa. No apartamento anterior, desciam a Rua Sergipe, davam uma entradinha no salão de manicura, cumprimentavam as moças, uma a uma. Andavam mais um pouco, cumprimentavam o “vozinho”, um senhor aposentado que fica sentado em uma banca de revista da esquina da Veiga Filho. Cumprimentavam o jovem dono da banca. Quando chegavam ao prédio, diziam “boa tarde, seu Manuel”, para o porteiro.
Aí caiu a ficha sobre o significado desse valor tão menosprezado nos dias correntes: a gentileza. Meu pai era um poço de gentileza, capaz de conferir o mesmo tratamento ao lixeiro e à personalidade. Seu círculo de amigos era formado apenas por pessoas gentis, de todos os círculos sociais. Trata-se de um valor tão suave que não nos damos conta de seu enorme poder de atração dos iguais. Eram amigos de papai o Dr. Martinho de Freitas Mourão, médico, ex-prefeito de Poços, um poço de gentilezas, como o professor Antônio Cândido, o Chafik Frahya, o ex-Ministro da Cultura Aluízio Pimenta, o Sebastião Menelau, e outras pessoas que freqüentavam diariamente a farmácia, algumas atrás de remédios, todas atrás de bom papo.
A gentileza se manifesta não apenas nos gestos, no cerimonial, mas na voz baixa, na maneira de ouvir o interlocutor, sempre valorizando o que diz, na paciência em ouvir queixas, no princípio sagrado de sempre retribuir outras gentilezas. E me dou conta de que não herdei esses atributos do meu pai. Sou por demais egocentrado, distraído, dispersivo para fazer parte do clube refinado das pessoas gentis.
Mas a Bibi, não. No dia 25 de março de dois anos atrás, mandei-lhe um poema por e-mail:
“Estava sozinho na vida, / Com dores no coração, / Quando um anjo atrevido / Me procurou algo aflito / Com um bilhete esquisito / Trazendo uma predição. / Em breve seriam minhas / A capetinha Dodô / A madaminha Bibi / E Clara, sua sobrinha”.
Bibi não deu sossego à baba Tati. Queria aprender como se faziam poemas. A Tati passou uma receita simples. Que se lembrasse de alguma poesia que lhe contaram na escola, mudasse as palavras e pensasse em alguém para oferecer.
Ela baseou-se nos dois primeiros versos de que se lembrava e me deu esse presente:

E, de gentileza em gentileza, cheguei ao tema da minha crônica: Carlos Guastavino, o mais gentil dos compositores.
Nascido em 1912 em Santa Fé, a mesma cidade em que meu pai nasceu quatro anos depois, falecido em 2000, Guastavino tornou-se internacionalmente conhecido quando Martha Argerich e Nelson Freire arrebentaram com “”Bailecitto”, dele.
Aproveitei minha última ida a Buenos Aires para adquirir tudo o que pudesse de Guastavino. Tem uma obra pianística de primeira. Mas seu pai musical atende pelo nome de Heitor Villa Lobos. Tem um conjunto de peças de piano claramente influenciadas pelas cirandas de Villa Lobos, e algumas canções românticas (como o clássico “La Tempranera”), da mais genuína escola brasileira da canção, uma peça à altura de Heckel Tavares ou Tom Jobim pré-bossa nova.
Seu romantismo não é piegas, exagerado. Pode ser intenso, como em “La Tempranera”, mas no geral é leve, lírico. E porque essa relação com os amigos de bairro da Bibi e da Dodô? Porque uma das partes mais linda de sua obra são as peças dedicadas aos seus amigos do dia a dia, a “Ludovina”, “Horácio Lavalle”, “Pablo del aeroparque”, “Alina, de la calle Lacroze”, “Cassandra, de la calle Galileo”.
Como diria Chico Buarque, com suas definições definitivas, trata-se de um poço da delicadeza, que me ajuda a entender as raízes santafecinas de seu Oscar.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:

Caro Nassif:
O que nos diferiu de nossos pais foi a Espreita Adqurida. À proporção em nos armamos na defesa perdemos a elegância ancestral. Já conheço os passos dessa estrada… É uma pena que a realidade nos tenha afastado tanto deles. Mas os netos mostram sempre que nem tudo foi perdido, mesmo que só quando crianças. O Atavismo sempre dá um jeito de manter acesa a chama da labareda familiar. Nossos netos vão se defender que nem nós, mas os bisnetos, se ousarmos vê-los, haverão de nos lembrar dos pais. Tomara que possam persistir com tais comportamentos até a idade avançada, por não mais precisarem da nossa espreita. Como diria Noel Rosa: …Nesta prontidão sem fim…
Muito bom. Gostoso ver os versinhos da Beatriz. Estes dias andei pensando sobre gentileza. Depois de muito namoro, convencemos o Domingos Pelegrini a escrever um livro sobre a história de meu avo, Florindo Fabian – desde a infancia na fazenda Valdepalmas – no interior de SP (ele se lembra absolutamente TUDO sobre colonato italiano), a vinda como pioneiro para Londrina, etc. Pois bem, o Domingos acompanhou de longe meu avo indo a feira (ainda faz feira com 94 !!) e espantou-se como ele cumprimenta e é cumprimentado por todos – puxa papo com um, fala do corintihans com outro…. É mesmo um dom. Minha mais velha, Gabi – 11 – tem, o mais novo – Fabricio – 9 – nao. Estamos, eu e a mãe deles, tentando a todo custo com que o Fabricio ‘aprenda’…. rs. Abs,
E escolheram o melhor texto do país.
Luis Nassif, quando carinhosamente lhe chamam de\\turquinho\\ eles têm razão. Coração de Leão, lembra-me o Corujão da Globo \\Seção coruja\\. Parabéns e um beijo, se me permite no seu coração e minhas palavras e meu pensamento para sua hoje filhona.
Desculpe-me o termo \\turquinho\\. Quando jovem eu tinha amigos sírios que os chamava de \\turquinho\\ por coincidência um deles é irmão do maior fotógrafo do Brasil, Tenho amizade desde a infância com todos, \\CALÃO JORGE\\, fotografou a Vera Ficher em 1979,lembra? Abraços.
Nassif, não os genes impregnam, mas a alma cativa que abraça, ensina e nos eleva.
Inda ontem escutava também aquela série do Villa Lobos, das bonequinhas… com o próprio Nelson Freire. Essas coisas tocam a gente.
É incrivel saber que com tão pouco recurso possa se fazer um mundo mais colorido, no caso do Villa, algumas notas; de sua filha, mais doque palavras, seus nobres gestos. Ela usou a palavra esperteza para descrever sua vontade para amizade, inclusive com porteiros… mas a noção era de plena SABEDORIA.
…Neste post veio a sençação do final da guerra de tomates; quando depois da diversão e cansaço, tudo termina, e o saldo são apenas abraços, sem nos preocuparmos sequer se estamos manchados. Tenha um ótimo fim de semana.
Boa tarde! Encontrei o seu site por acaso, e posso dizer mas que feliz “acaso” gostei e vou continuar, já faz parte dos “meus favoritos”.
Obrigada
Sabe, todos os dias recebo alguns e-mails, muitos deles atribuindo sua autoria à alguém de renome, para ganhar credibilidade. Hoje recebi um muito feio, assinado por vc, chamado “Desabafo de Luiz Nassif”, o mesmo trouxe-me até aqui. Procurei por sua versão real e não achei, e fiquei feliz, pois adorei suas crônicas, me fazem te imaginar um poeta, um homem sensível, diferente daquele que imaginei hoje.
Tomara, de fato, não seja o senhor, pois se um homem da “elite privilegiada” (como diz no texto) já está desesperançoso e entregando os pontos daquele jeito, “se lixando” pros menos abastados, imagine nós ” povo” que somos resultado de uma série de erros, e de pessoas que ainda esperam tudo do governo sem colocar a mão na massa???!!!
Elisangela, jamais seria capaz de escrever aquela porcaria.
Companheiros de blog.preparemo-nos,pois logo,logo teremos na praça,alguem da família Nassif,a encher nossos dias de emoção,com seus versos,pois se alguem com apenas 6 anos,teve a capacidade de fazer algo tão poético,imaginem,quando resolver entrar de corpo e alma na poesia,herança pura do pai.Seja benvinda, poetisa!
Vou mandar o comentário para ela, Raí, para ver se estimula.
Luis Nassif vc definiu a gentileza das meninas de modo poético, acho que algumas pessoas já nascem gentis. Minha sobrinha tem apenas 9 meses e dá tchau para todo mundo, sorri para todos e nem sabe falar. VC falou de algumas pessoas gentis e gostaria e incluir o dr, Maurício, lembra-se dele? Aquele senhorzinho de cabelos brancos se foi mas me encanta até hj. VC se definiu como não sendo tão gentil qto seu pai, mas escrevi um comentário ontem em seu blog e vc respondeu hj, isso é gentileza.
Admiro muito seus textos!!!!
O médico que tinha uma filha com problemas motores? Maurício Vieira Romão?
Sim, Luis Nassif o dr. Maurício Vieira Romão. Ele era amigo do meu avô e me atendeu até a minha adolescência. Me curou de uma hepatite tipo A. Seu consultório ficava na rua Rio de janeiro. Meu tio até comprou o fusquinha que pertenceu a ele, e tinha uma ligação de afeto com o fusquinha pq o carro pertencera ao dr. Maurício.
Nassif, só hoje li essa bela crônica. Sei exatamente o que você sente, pois tenho um filho de quatro anos e como é bom ver todos no bairro saudá-lo, quando ele passa. No resturante em frente de casa, na banca de jornal, na padaria, na farmária, na portaria do prédio. De todos esses momentos, o mais bonito foi quando todos estávamos no carro e ele virou para nossa empregada (há 16 anos conosco) e disse: Bel, você não é minha babá, você é minha amiga. Pra que mais?
Um abraço.
Maravilha, né?
Nassif, você já percebeu como, sendo a gentileza uma coisa tão rara nos dias de hoje, a gente se sente bem quando o sujeito do carro da frente, ao qual demos passagem, nos faz um sinal de agradecimento? Não dá a impressão de que estamos revivendo uma época perdida?
É isso sim.
Nassif, me lembrei desta bela história sobre a gentileza humana contada pelo pianista Arnaldo Cohen, aí vai o link:
http://www.arnaldocohen.com/articles/36