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Arquivo de março, 2007

31/03/2007 - 19:42

O swing cigano

Enviado por: Márcia W.

Olá Nassif e outros amantes de música.
Já que vocês estâo “cansados” do youtube, olhem por conta própria e risco esse outro manacial de vídeos.

abs

Observação: no vídeo, a única escola de música instrumental que se equivale, em swing, ao moderno choro: a cigana.

Aqui, o pai de tudo, Django Reinhardt com o violinista Grapelli, em um vídeo que já postei do Youtube.

Aqui, um Django de 1945.

Aqui o Rosenberg Trio mostrando claramente que, da mesma maneira que influenciaram o choro (especialmente através de Paco de Lucia) foram fortemente influenciados pela música brasileira.

Aqui, em “Bossa Dorada”, Jimmy toca um quase-choro, de influência direta dos Indios Tabajara, o notável duo de violonistas brasileiros que explodiu nos anos 60.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
31/03/2007 - 13:49

Laurindo e Sammy Davis Jr

Ouçam, aqui, o grande Laurindo de Almeida acompanhando Sammy Davis Jr em “Misty”.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
31/03/2007 - 13:27

Gustavino e o culto da gentileza

Quando a babá empurrou a Bibi para me mostrar o trabalho da escola, admito que meu coração mineiro bateu mais forte. Especialmente quando ela se define como uma “menina gentil, que falava bom dia e boa tarde e tinha um porteiro muito amigo dela”.

Ela tinha apenas seis anos.

Conferi ao sair de casa e levar ela e a Dodó à aula de natação. Dobramos a esquina da Rua Pernambuco, entramos na Rio de Janeiro e estava lá, no prédio de esquina, o porteiro abanando a mão para as duas.

Já se tornaram amigas de todas as pessoas que fazem ponto no trajeto da escola à nossa casa. No apartamento anterior, desciam a Rua Sergipe, davam uma entradinha no salão de manicura, cumprimentavam as moças, uma a uma. Andavam mais um pouco, cumprimentavam o “vozinho”, um senhor aposentado que fica sentado em uma banca de revista da esquina da Veiga Filho. Cumprimentavam o jovem dono da banca. Quando chegavam ao prédio, diziam “boa tarde, seu Manuel”, para o porteiro.

Aí caiu a ficha sobre o significado desse valor tão menosprezado nos dias correntes: a gentileza. Meu pai era um poço de gentileza, capaz de conferir o mesmo tratamento ao lixeiro e à personalidade. Seu círculo de amigos era formado apenas por pessoas gentis, de todos os círculos sociais. Trata-se de um valor tão suave que não nos damos conta de seu enorme poder de atração dos iguais. Eram amigos de papai o Dr. Martinho de Freitas Mourão, médico, ex-prefeito de Poços, um poço de gentilezas, como o professor Antônio Cândido, o Chafik Frahya, o ex-Ministro da Cultura Aluízio Pimenta, o Sebastião Menelau, e outras pessoas que freqüentavam diariamente a farmácia, algumas atrás de remédios, todas atrás de bom papo.

A gentileza se manifesta não apenas nos gestos, no cerimonial, mas na voz baixa, na maneira de ouvir o interlocutor, sempre valorizando o que diz, na paciência em ouvir queixas, no princípio sagrado de sempre retribuir outras gentilezas. E me dou conta de que não herdei esses atributos do meu pai. Sou por demais egocentrado, distraído, dispersivo para fazer parte do clube refinado das pessoas gentis.

Mas a Bibi, não. No dia 25 de março de dois anos atrás, mandei-lhe um poema por e-mail:

“Estava sozinho na vida, / Com dores no coração, / Quando um anjo atrevido / Me procurou algo aflito / Com um bilhete esquisito / Trazendo uma predição. / Em breve seriam minhas / A capetinha Dodô / A madaminha Bibi / E Clara, sua sobrinha”.

Bibi não deu sossego à baba Tati. Queria aprender como se faziam poemas. A Tati passou uma receita simples. Que se lembrasse de alguma poesia que lhe contaram na escola, mudasse as palavras e pensasse em alguém para oferecer.

Ela baseou-se nos dois primeiros versos de que se lembrava e me deu esse presente:

E, de gentileza em gentileza, cheguei ao tema da minha crônica: Carlos Guastavino, o mais gentil dos compositores.

Nascido em 1912 em Santa Fé, a mesma cidade em que meu pai nasceu quatro anos depois, falecido em 2000, Guastavino tornou-se internacionalmente conhecido quando Martha Argerich e Nelson Freire arrebentaram com “”Bailecitto”, dele.

Aproveitei minha última ida a Buenos Aires para adquirir tudo o que pudesse de Guastavino. Tem uma obra pianística de primeira. Mas seu pai musical atende pelo nome de Heitor Villa Lobos. Tem um conjunto de peças de piano claramente influenciadas pelas cirandas de Villa Lobos, e algumas canções românticas (como o clássico “La Tempranera”), da mais genuína escola brasileira da canção, uma peça à altura de Heckel Tavares ou Tom Jobim pré-bossa nova.

Seu romantismo não é piegas, exagerado. Pode ser intenso, como em “La Tempranera”, mas no geral é leve, lírico. E porque essa relação com os amigos de bairro da Bibi e da Dodô? Porque uma das partes mais linda de sua obra são as peças dedicadas aos seus amigos do dia a dia, a “Ludovina”, “Horácio Lavalle”, “Pablo del aeroparque”, “Alina, de la calle Lacroze”, “Cassandra, de la calle Galileo”.

Como diria Chico Buarque, com suas definições definitivas, trata-se de um poço da delicadeza, que me ajuda a entender as raízes santafecinas de seu Oscar.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
30/03/2007 - 21:35

Dúvidas sobre o gasoduto

Enviado por Paulo Roberto de Almeida

Gasoduto sul-americano pode querer muitas coisas: o que já existe, da Bolívia para Brasil e Argentina, ou o chamado “bolivariano”, que não se sabe bem ainda por que ou para que.

Enquanto não se responderem três perguntas cruciais, não se pode falar deste último: 1) quanto gás existe na Venezuela e qual seria o seu preço na boa co poço; 2) quanto custaria “arrastá-lo” por milhares de kms e qual seria a tarificação aplicada ao longo da rota?; 3) quanto custaria na porta da casa do cliente, industrias ou consumidores do Brasil e da Argentina?

Enquanto essas perguntas não forem respondidas — sem considerar aqui segurança dos contratos, pacta sunt servanda, etc — não adianta discutir gasodutos, bolivarianos ou não…

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
30/03/2007 - 20:36

O gasoduto Gasene

Enviado por Joaquim Leão

Prezado Nassif:

Muito interessante em termos geopolíticos, porém absolutamente inviável o tal gasoduto. Somente mentes megalomaníacas defenderiam tal projeto. Antes de fazer isso, nosso governo (por seus agentes, no caso a Petrobras) deveria, por exemplo, implementar o Gasene, que liga Cabiúnas (norte de Macaé) a Catu na Bahia, um projeto de US$1,3 bilhões e aproximadamente 1200km.

Aliás, sobre o Gasene, tivemos a “incompetência” de perdermos o financiamento da obra, oferecido pelo governo da China, o que por pouco não causou um incidente diplomático. A Sinopec é a main contractor do projeto, em um acordo em que a Petrobras abriu escritórios na China e a Sinopec no Brasil (a China tem 3 “Petrobras”: a Petrochina, a Sinopec e a CNOC).

Esse projeto que interliga as malhas de gasodutos nordeste e sudeste existentes no Brasil, absolutamente estratégica, está com seu cronograma atrasado, é financiada pelo BNDES (já que perdemos o financiamento da China…), e com certeza a Confab deve estar com seus parques cheios de tubos para serem entregues, a Sinopec não consegue andar com a execução do projeto, a obra em atraso, incrementando assim seus custos, fora o imenso prejuízo logístico de se ter a integração das malhas de gasodutos adiada sine die.

Enfim, antes de pensar em projetos de US25 bilhões, se o país conseguisse executar os projetos em andamento, seria já uma imensa vantagem. Todos os anos, revisam as projeções de investimentos da Petrobras, mas nunca ficamos sabendo do “projetado x executado”, ano a ano, em fim de cada ano, antes das novas projeções.

Bom, é somente um desabafo de quem gosta de ler sobre o assunto.

Abçs,

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
30/03/2007 - 07:00

O gasoduto sul-americano

Coluna Econômica – 30/03/2007

A história do gasoduto da América do Sul tem desdobramentos geopolíticos ainda pouco percebidos pela opinião pública. É importante entender algumas peças, para se montar o quebra-cabeças.

O primeiro ponto são as características políticas dos diversos países produtores de gás. O mais complicado deles é a Bolívia.

Na época em que procedeu à nacionalização da exploração de petróleo e gás, por exemplo, Evo Morales estava pressionado de dois lados. De um, por parte dos grupos radicais que o levaram ao poder, e que ameaçavam invadir o Palácio do governo se ele demorasse demais a tomar a decisão. Do outro, por um plebiscito que antecedeu sua eleição, que deu 95% de aprovação para a nacionalização das reservas bolivianas. Elas seriam nacionalizadas independentemente de quem fosse o presidente eleito. A saída encontrada pelo país consitiu em aumentar as compras da Bolívia pagando mais pelo adicional, de forma a permitir um mix de preço mais favorável ao vizinho.

Para melhorar as receitas nacionais, Evo passou a negociar com o governo Néstor Kirschner, da Argentina, a venda de 25 milhões de m3 de gás. Depois de ter sido mantida pelo gás durante décadas, a Argentina viu suas reservas minguarem. Hoje em dia, tem reservas comprovadas para apenas mais quinze anos. Parte do gás da Bolívia seria repassado pela Argentina para o Chile, já que a diferença histórica entre os países impede a venda direta.

Finalmente, era intenção da Argentina seria vender para o Paraguai -um barril de pólvora que, quando explodir, deixará a Bolívia no chinelo. Aliás parte da crise das “papeleras” com o Uruguai (a discussão em torno da instalação de fábrica de papel na fronteira entre os dois países) teve como pano de fundo a guerra do gás.

Do lado da Venezuela, havia a intenção do governo Hugo Chaves de impedir que o gás fosse transformado em “commodity” – em produto liquefeito. Como “commodity”, não haveria como estruturar um processo de industrialização, que poderia ser mais facilmente induzido por um gasoduto, já que as indústrias teriam que ser instaladas no seu entorno.

O primeiro lance foi dado por Chaves. Em cima de algumas idéias vagas, tratou de assinar um memorando de entendimento com Kirschner, deflagrando o processo. Lula assinou em seguida.

***

Onde entraria a estratégia brasileira? Numa ponta, aprovar uma perna do gasoduto passando pela Amazônia e indo até Ceará. Essa perna permitiria montar projetos e industrialização do nordeste além de reforçar a fronteira amazônica, permitindo a implantação de indústrias com acesso ao Pacífico.

Uma segunda perna seria montada para permitir ao país não apenas abastecer o centro-sul, como levar gás ao Paraguai e Uruguai através de Uruguaiana. Esse gasoduto seria criado num segundo tempo, e teria ligação com o primeiro, o da asa norte.

Há um ponto estratégico fundamental, porque nos próximos anos, segundo observadores, será inevitável uma enorme pressão do eleitorado paraguaio para que sejam revistos os acordos de Itaipu.

***

O desafio será conseguir o financiamento para o projeto – cerca de US$ 25 bi. Pronto, ele irá gerar duas vezes mais energia que Itaipu. Nesse sentido, um eventual Banco do Sur poderá ser o agente para alavancar capitais.

Para incluir na lista Coluna Econômica*

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
29/03/2007 - 22:49

Receita para desvalorizar o câmbio

Enviado por: arkx

Receita para desvalorizar o Real:

1. controle de fluxo de capitais (cfe. “Câmbio e Controle de Capitais”, Sicsú e Ferrari Filho);

2. queda dos juros até patamar correspondende a classificação de risco internacional do Brasil (cfe. “Macroeconomia Pós-Plano Real: as relações básicas”, Bresser-Pereira);

3. reforma monetária para terminar com a indexação dos títulos federais pela Selic, ou seja, sua indexação pela própria taxa de juros que o Banco Central estabelece sobre as reservas bancárias para realizar sua política de juros ( cfe. Conceição Tavares, J. Carlos de Assis, Bresser-Pereira);

4. desindexação dos preços dos serviços públicos, e, mais amplamente, a proibição terminante de o governo brasileiro aceitar qualquer indexação em seus contratos e preços administrados;

5. BC assumir como missão, além do controle da inflação, a manutenção do nível do emprego e do crescimento econômico.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
29/03/2007 - 19:55

Cem anos de Braguinha

Braguinha e Miúcha cantando “Balancê”.

Dick Farney cantando “Copacabana” (Alberto Ribeiro e Braguinha).

A deusa Marisa Monte acompanhada pelo deus Paulinho da Viola cantando “Carinhoso” (Pixinguinha/Braguinha)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
29/03/2007 - 12:26

A ocupação da Amazônia

Andressa Fernandes, do Projeto Brasil

Com uma superfície de 7 milhões de quilômetros quadrados, a floresta Amazônica equivale a um terço das reservas de florestas tropicais úmidas do planeta. Além disso, possui maior banco genético do planeta e abriga um quinto da disponibilidade mundial de água doce.

Em entrevista ao Projeto Brasil, Berta Becker, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) afirma que a Amazônia mudou, não é mais aquela que estava em fase de ocupação durante o regime militar. “A população quer se desenvolver, tem demandas de consumo, de escola, de lazer”, diz.

Segundo a professora, é preciso pensar em novos modelos de proteção à floresta, que permitam à população a possibilidade de trabalho e geração de renda. Becker propõe uma revolução científica e tecnológica para a Amazônia, a fim de colaborar com a integração continental e atender as demandas da população.

Projeto Brasil: Como seria uma ocupação inteligente da Amazônia? Qual é o maior entrave para o desenvolvimento da região?

Berta Becker: Na verdade, não é mais uma questão de ocupação, porque a Amazônia já foi ocupada há muito tempo. Durante as décadas de 70 e 80, houve um projeto de ocupação. A região já tem 20 milhões de habitantes, sendo que 70% deles moram em núcleos urbanos. Eu já chamo a Amazônia de “floresta urbanizada”. Hoje, há demandas importantes, porque as pessoas têm mais acesso à informação, se organizaram movimentos sociais. Por isso, não devemos mais falar de ocupação da Amazônia. Segundo ponto, eu não acho que seja um povoamento inteligente. Porque durante um tempo, no período militar, com a política da integração nacional, houve toda uma indução da ocupação. Mas desde 1985, não houve mais uma política tão forte assim de povoamento. Pelo contrário. A política que dominou a década de 90 e que ainda existe hoje foi a de conservação ambiental através das áreas protegidas (unidades de conservação e terras indígenas). Essas áreas já constituem hoje 36% de todo território da Amazônia. Fazer essa demarcação de áreas protegidas foi importante e inteligente, para evitar justamente o povoamento espontâneo que vinha se processando e que continua avançando pelas florestas. Essa política, dominante na década de 90, foi muito importante para barrar o movimento espontâneo da fronteira móvel, demográfico e econômico. Só que essa estratégia não é mais suficiente e não está mais dando resultado por duas razões:

Primeiro, não está conseguindo mais barrar a expansão da fronteira móvel induzida pela exploração da madeira, pela expansão das pastagens e da soja

Segundo, não está atendendo a grande demanda da população amazônica, que hoje não é mais a mesma. As pessoas querem se desenvolver. Possuem demandas de consumo, de escola, de lazer, de produção. Trabalho e renda, principalmente isso. E se fizer só área protegida, não há geração de emprego e renda.

É necessário todo um planejamento intensivo para desenvolver a produção nas áreas florestais — sejam protegidas de uso direto, sejam outras áreas florestais que não são protegidas. É preciso conceber novas formas de produção, que permitam gerar trabalho e renda.

Projeto Brasil: Qual é o maior empecilho para a implantação desse modelo?

Berta Becker: Eu tenho proposto uma revolução científica e tecnológica para a Amazônia, porque o Brasil já fez várias revoluções tecnológicas: a exploração do petróleo em águas profundas, a transformação da cana em combustível, a transformação do cerrado em área produtiva de grãos. Agora está na hora de fazer uma para os ecossistemas amazônicos, ainda mais porque nós temos que pensar hoje na Amazônia sul-americana toda, pois há toda uma iniciativa de integração continental amazônica.

Projeto Brasil: Qual a sua avaliação sobre Lei de Florestas Públicas?

Berta Becker: Eu acho que essa lei teve uma boa intenção, exatamente nesse sentido de gerar produção e riqueza. Acontece que ela esbarra em um problema tremendo, que é a impossibilidade, a dificuldade enorme que nós temos aqui de fazer cumprir a lei. Então as leis são muito boas, mas ninguém as cumpre.

Projeto Brasil: Há muitos controles regionais na Amazônia, de empresas que exploram a região?

Berta Becker: Até que existem poucos, pelo menos levando em consideração aqueles dos quais a gente sabe, porque tudo é feito muito subterraneamente. Eu acho que além da revolução cientifica e tecnológica, é preciso uma vontade política muito forte no sentido de estabelecer as regras do jogo. Elas têm que ser claras e obedecidas Isso é fundamental. É necessário que haja investimento em ciência e tecnologia e também no quadro institucional, mudando-o, pois há coisas muito obsoletas. É preciso fortalecer as instituições, porque elas é que podem estabelecer as regras e fazer com que elas sejam cumpridas.

Projeto Brasil: Quais são os riscos da internacionalização da Amazônia?

Berta Becker: Sobre isso a gente pode falar “Yo no creo en bruxas, pero que las hay…”, é um ditado espanhol, significa: “Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”. Sem dúvida há interesses internacionais. Mesmo que a gente não queira entrar na paranóia, esses interesses existem no controle de território, da biodiversidade e particularmente agora no controle da água, o chamado “ouro azul do século XXI”. Eles já têm projetos para conhecimento e gestão da água, eles já estão agindo. Além disso, há uma iniciativa de integração sul-americana que está muito forte, fazendo estradas bio-oceânicas, corredores. É preciso tomar cuidado com isso porque tem o risco de provocar mais desmatamento.

Projeto Brasil: Como o Brasil poderia proteger a Amazônia dessas abordagens internacionais mais ofensivas?

Berta Becker: Existe esse interesse internacional de vários tipos. Há alguns legítimos pela conservação da vida, porque a Amazônia é depositária da vida. Mas existem também interesses geopolíticos e econômicos pelos recursos. É preciso que haja um debate público para definir essas regras do jogo das quais eu estou falando. E tem que contar sempre com a participação da sociedade regional e local, que hoje em dia já tem se organizado. Essa participação no planejamento tem que ser fortalecida, levando em conta inclusive a escala da produção, porque esses pequenos assentamentos, como os do INCRA, não têm condições de fazer a população sobreviver. As pessoas ficam espalhadas no meio da mata, sem estrada, sem mercado. É preciso levar em conta a sociedade porque ela tem coisas a informar e a ensinar até mesmo às populações tradicionais. Mas para isso tem que fazer planejamento integrado, talvez num nível de meso-regiões na Amazônia, e então envolver também a empresa nacional, que não pode mais fazer apenas investimentos para o seu benefício. Hoje em dia, no século XXI, as empresas que ficarem apenas nesse esquema perdem terreno, porque as grandes empresas já sabem que devem participar do social, ao menos para fortalecer a própria imagem.

Projeto Brasil: Isso então já seria um uso inteligente desse potencial da Amazônia?

Berta Becker: Eu acho que sim. E quanto à geopolítica, embora exista toda essa pressão externa, uma das coisas mais graves no sentido de manter a soberania na região é a pobreza e a falta de desenvolvimento. A soberania tem uma face externa, das pressões das relações internacionais, e tem uma face interna, que depende do bem-estar da população. E essa população tem que ser integrada à nação, tem que ter condições dignas de vida, com educação, saúde, emprego e renda, ou trabalho e renda. Se conseguir se fortalecer, essa população vai ser muito benéfica para manter a soberania. Mas se não tiver condições, ficará disponível às influências externas.

Projeto Brasil: A população então já seria uma proteção?

Berta Becker: Exatamente. Sem essas condições a população torna-se uma presa fácil de múltiplas influências externas que fragmentam a sociedade regional — e isso não é bom para a soberania.

Projeto Brasil: O avanço dos biocombustíveis pode ameaçar a floresta?

Berta Becker: A bioenergia é uma grande janela de oportunidade para o Brasil e para a Amazônia, porque a floresta tem múltiplas plantas que podem ser utilizadas para fornecer energia. Acontece que, como em todas as coisas, isso tem que ser planejado. É preciso saber o que plantar ou extrair, como fazer isso (a questão da técnica e da tecnologia é fundamental). Não pode ser feito em qualquer lugar porque pode destruir a floresta. Aqui entra de novo a questão do planejamento integrado.

Projeto Brasil: E isso poderia fortalecer uma agricultura familiar?

Berta Becker: Poderia. Para os agricultores familiares, é preciso acabar com esses assentamentos que não conseguem fazer a população sobreviver. Eu tenho chamado de “fazenda solidária” uma alternativa para isso: junta-se uma série de produtores familiares em algumas áreas, uns 50 ou 100, e se forma um bloco de área protegida, um bloco de área produtiva, em vez de 20 hectares para cada um. Se você tiver 50 ou 100 colonos, vai ter muito mais hectares para plantar.

Projeto Brasil: Porque senão seriam feitas explorações desordenadas, não é?

Berta Becker: Desordenadas e mínimas, as propriedades não têm condição de sobreviver. E desse outro modo pode-se diversificar a produção,gera bioenergia, produzir alimentos. Enfim, é um outro modelo. Se o país fizer uma dúzia dessas fazendas em lugares estratégicos, com acesso a estrada e a mercado, ele poderá mais facilmente conter a expansão do gado e da soja, que também são importantes para a economia nacional, mas que devem ficar no seu devido lugar. Não é preciso destruir floresta.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
29/03/2007 - 07:00

As previsões do BC

Coluna Econômica – 29/03/2007

Grosso modo, os preços na economia podem ser divididos em tr^es grupos: os administrados (regulados por contratos, com indexadores definidos), comercializáveis (influenciados pelos preços internacionais e pelo dólar) e os não-comercializáveis.

A rigor as taxas de juros atuam apenas sobre o último grupo, obrigando a uma super-dosagem de juros para, através de um grupo (que responde `a renda do consumidor) poder compensar a alta registrada nos dois outros.

Nas projeções de inflação, a tarefa mais fácil é acertar as estimativas de preços administrados. São tarifas reajustadas por índices de preços passados.

Desde que o sistema de metas inflacionárias foi instituído, os preços administrados se constituíram no principal álibi para taxas de juros elevadas. Isso porque a maior parte dos contratos de serviços públicos era corrigido pelo IGP (índice Geral de Preços), índice fortemente influenciado pela taxa de câmbio. Com as maxidesvalorizações de 1999 e 2002 esses preços explodiram nos anos seguintes, levando o BC a aumentar substancialmente a taxa de juros.

Agora, com a apreciação cambial, os preços administrados tendem a correr atrás da inflação (que é a média dos aumentos de preços).

***

Agora, segundo matéria no jornal “O Valor” de quarta-feira passada, o BC passou a trabalhar com estimativas de preços administrados muito mais elevadas que as do próprio mercado.

O Departamento de Economia do Bradesco, por exemplo, estava estimando uma queda de até 10% nas contas de luz. O mercado apostava em uma queda de 3,3% nos custos com energia elétrica. E o Departamento Econômico do BC passou a apostar em elevação de 3,3%. É muito diferença. Como se explica essa disparidade em um índice de tão fácil previsibilidade? NÃO se trata de um erro banal.

***

Primeiro, afeta a credibilidade do BC, enfraquecendo seu papel como indutor de expectativas. É essa fragilidade analítica que tem levado a diretoria do banco a promover encontros reservados com analistas de mercado, pressionando aqueles que ousam enxergar um cenário mais róseo do que o que serve de álibi para as altas taxas de juros.

Depois, porque implica na manutenção de taxa Selic elevada, com profundos desdobramentos sobre o custo da dívida pública, crescimento e emprego.

Finalmente, porque coloca a nu a vulnerabilidade do país, entregue a um grupo de técnicos inexperientes,

***

O ponto central é a quase impunidade para errar. O BC não presta contas ao Executivo – Lula tem medo pânico do tal do mercado –; não presta ao Legislativo. Suas decisões são aceitas com notável complacência pela mídia em geral. Não respondem a nenhuma Lei de Responsabilidade Fiscal, não respondem à Justiça nem ao Ministério Público. Sequer são confrontados com os dados do próprio mercado, cujas expectativas em relação à inflação deveriam servir de base para suas decisões.

Não existe poder igual na República. E o preço desses super-poderes estão à vista: uma dívida pública que não para de crescer há doze anos; uma economia semi-estagnada; jovens se marginalizando ou, os que chegam a se formar, sem espaço de trabalho.

Meu candidato a próximo presidente da República será o político que se comprometer, de forma responsável, a libertar o país desse jugo.

Para incluir na lista Coluna Econômica*

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
28/03/2007 - 17:11

A estrutura de Collor

Enviada por Carlos Mussi

Caro Nassif,

Apenas para informar um pouco sobre a história das instituições gestoras da economia. O Ministério de Economia, Fazenda, Planejamento teve a sua estrutura estabelecida pelo Decreto 80 de 5/4/1991. Existiam 4 Secretaria, a Secretaria Especial de Política Econômica – SPE que ainda está em atuação e as seguinte três secretarias com seus respectivos departamentos:

Secretaria Nacional de Economia:

1. Departamento de Comércio Exterior;

2. Departamento da Indústria e do Comércio; e

3. Departamento de Abastecimento e Preços;

Secretaria da Fazenda Nacional:

1. Departamento da Receita Federal;

2. Departamento do Tesouro Nacional; e

3. Departamento do Patrimônio da União;

Secretaria Nacional de Planejamento:

1. Departamento Nacional de Planejamento e Avaliação;

2. Departamento de Orçamentos da União; e

3. Departamento de Assuntos Internacionais;

Como você observa, a atual Secretaria do Tesouro era o Departamento do Tesouro Nacional dentro da Secretaria de Fazenda e não de Planejamento. Como você cita.

Atenciosamente

Carlos Mussi

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
28/03/2007 - 07:00

Ministério para gestão

Coluna Econômica – 28/03/2007

Não existe trabalho mais desanimador do que acompanhar montagem de ministérios federais. As barganhas políticas, a enorme estrutura horizontal, totalmente disfuncional, fazendo com que, para administrar, sucessivos governos acabem recorrendo a gambiarras, como conselhos de ministros, supostamente coordenados pela Casa Civil — modelo que se mantém desde Fernando Henrique Cardoso.

O curto reinado de Fernando Collor, o breve, causou grandes desastres — como a reforma administrativa de João Santana — mas possibilitou algumas práticas bastante inovadoras de gestão.

A principal delas foi o desenho montado em torno de dois Ministérios, o da Fazenda e o da Infra-Estrutura e Desenvolvimento. Isso permitiu a Collor, no primeiro ano, um ritmo impressionante de implementação de medidas.

***

A principal perna era o Ministério da Fazenda, que tinha quatro secretarias embaixo dele. A primeira era a Secretaria Nacional do Tesouro, na época dirigida por Marcos Gianetti da Fonseca, tendo debaixo de si a estrutura do Tesouro, do atual Ministério do Planejamento.

A segunda era a Secretaria da Fazenda, dirigida por Geraldo Gadernalli, com a Receita embaixo.

Depois, a Secretaria Nacional de Economia dirigida por Edgard Pereira, tendo controle sobre o antigo Departamento de Abastecimento e Preços (antigo Conselho Interministerial de Preços), com a estrutura de crédito agrícola do Banco do Brasil, Departamento da Indústria e do Comércio e Departamento de Comércio Exterior (antiga Cacex), o antigo Conselho de Política Aduaneira, com pessoal do Banco do Brasil.

A quarta secretaria era a Secretaria de Política Econômica, dirigida por Antonio Kandir, e contando, entre outros, com Maria Silvia Bastos, e Sérgio Werlanger, esse pensando a política monetária e ajudando a Secretaria a coordenar a ação do Banco Central.

***

Esse modelo, com os quatro secretários reportando-se à Ministra da Economia e, depois, ao presidente, conferiu grande rapidez às decisões. Se se quisesse mudar uma alíquota de Imposto, rapidamente se compatibilizavam os objetivos da Receita com os do Departamento da Indústria e do Comércio e a Cacex.

***

Foi nesse ambiente que se acabou com o controle de preços, quando se percebeu que, além de não controlar, permitia a cartelização e a corrupção. Em seu lugar fortaleceu-se o sistema de defesa da concorrência. O Departamento de Preços fazia o acompanhamento técnico de mercado, identificando comportamentos estranhos de preços. Depois, mandava para investigação no Ministério da Justiça, cuja área de defesa da concorrência estava sendo montada por Pedro Bara.

***

Esse mesmo modelo foi implementado na segunda grande perna do governo, que foi o Ministério da Infra-Estrutura, entregue a Ozires Silva, com todas as áreas de Minas e Energia, Transportes e outras debaixo dele. Era uma estrutura com quatro ou cinco comandantes em sintonia direta com o presidente da República, que faziam acontecer.

Seu papel era similar ao exercido hoje em dia pela Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, mas dentro de uma estrutura que fazia fluir.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
27/03/2007 - 07:00

O Senhor Ministro

Coluna Econômica – 27/03/2007

Apanhado no meio do furacão eleitoral do ano passado, o ex-Ministro da Justiça Márcio Thomas Bastos levou tiro de todo lado. Futuramente o trabalho de Bastos será reconhecido como a primeira tentativa do Estado brasileiro de recuperar suas prerrogativas, ante a financeirização desbragada da economia.

A partir do Plano Real, abriram-se as comportas da conta capital, por onde transita o capital financeiro especulativo. Foi um trabalho deliberado, ideológico que não apenas trouxe a estagnação à economia, como dividiu o país em dois.

O grande capital nacional teve toda a liberdade para sair pelo duto dos doleiros, dos bancos de investimento e se organizar no exterior, em fundos “offshore” lotados em paraísos fiscais, à salvado da Receita, do Banco Central e da Polícia Federal.

Estimulado fortemente nesses doze anos, esse modelo permitiu juntar recursos de caixa dois, caixinha política, subfaturamento de exportações até recursos provenientes de atividades criminosas.

Foram anos de complacência absoluta com toda sorte de abusos, não apenas nos episódios em que se envolveu o Banestado, os golpes com dólares na fronteira, a proliferação de contas CC-5.

***

Esse capital passou a ter toda sorte de privilégios. Numa ponta, o direito à plena liquidez. Desde o início do Real, a monetização da economia (emissão da moeda) estava atrelada à compra de reservas cambiais. Com recursos lá fora, além de poder internalizar a qualquer momento os dólares, podiam alavancar empréstimos e financiamentos para aproveitar os momentos de bonança e o diferencial entre juros internacionais e internos, assim como se associar ao capital barra pesada internacional.

Na outra ponta, ficaram a salvo de qualquer investida do Fisco e do BC. No episódio dos precatórios, em 1996, por exemplo, o maior de todos os escândalos foi o interventor do Banco Central no Banco Vetor ter liberado recursos do fundo “offshore” administrado pelo banco que quase com certeza continha os ganhos com as operações de precatórios estaduais. A alegação do BC é que não poderia comprometer a imagem do Brasil com os investidores internacionais.

***

Esse quadro que começou a ser revertido quando Thomas Bastos assumiu o Ministério. Sua primeira medida foi juntar a cúpula da Receita, Ministério Público e Polícia Federal em um encontro, para estabelecer linhas de combate ao crime de evasão de divisas.
Evasão de divisas passou a ser considerado crime: uma obviedade atropelada por sucessivas diretorias do BC. A ponto de pegar o próprio Duda Mendonça, publicitário da campanha de Lula.

No domingo, o repórter Mário César de Carvalho escreveu reportagem na “Folha de S.Paulo” sobre a descoberta de ligações de funcionários da Merril Lynch com doleiros. A parte mais expressiva é o trecho de uma conversa grampeada em que o funcionário Alessandro Caiado se queixa de que, em sua atividade, tinha se tornado “capacho de milionários”.

O receio do intermediário financeiro é a prova mais eloqüentes dos resultados do trabalho exercido por Thomas Bastos.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
27/03/2007 - 00:43

A poupança externa promove crescimento?

Enviado por Derick David

As teorias do desenvolvimento têm como pressuposto que, quanto maior for a taxa de poupança e investimento, tanto maior será o crescimento econômico. Posto que os países em desenvolvimento não apresentam um patamar suficiente de poupança interna, uma saída inescapável é a utilização da poupança externa como fonte de financiamento, principalmente para países muito pobres. No entanto, é razoável para o pensamento ortodoxo aplicar este argumento também nos casos dos países com grau de desenvolvimento médio, como é o caso do Brasil.

Em primeiro lugar, é “natural” que os países desenvolvidos transfiram seus capitais excedentes para a periferia, de acordo com a teoria convencional. Essa poupança externa transformar-se-á, invariavelmente, em investimento produtivo. Desta forma, recomenda-se fortemente a abertura da conta de capital, a fim de atrair investimentos produtivos e, por extensão, elevar a renda per capita.

A justificativa é a seguinte. O produto marginal do capital é mais elevado em um país pobre, com baixo estoque de capital, do que em relação a um país rico, com alto estoque de capital. Isto implica que a taxa de retorno do investimento é maior na periferia. Portanto, em tese, os países pobres podem obter empréstimos para realizar seus investimentos e pagá-los somente no longo prazo, quando obtiveram os lucros. De outro lado, a vantagem dos países desenvolvidos em disponibilizar sua poupança à periferia refere-se à possibilidade de retornos maiores vis-à-vis a aplicação doméstica.

Com efeito, a abertura da conta de capital permite um processo de arbitragem que, na ausência de significativos custos de transação, iguala o produto marginal do capital dos diversos países e, assim, maximiza o bem-estar dos países em desenvolvimento e desenvolvidos. Portanto, os países em desenvolvimento devem incorrer em permanentes déficits em conta corrente, desde que sejam em “níveis aceitáveis”, ou seja, sem levar a crises de balanço de pagamentos, pois desta forma estariam aproveitando as benesses da poupança externa. Observe que neste raciocínio está implícito que a taxa de câmbio deve ser apreciada.

Todavia, num recente artigo publicado na Revista de Economia Política, Bresser-Pereira e Paulo Gala criticam fortemente a teoria “universalista” da poupança externa como promovedora do crescimento econômico. Em suas palavras, “… É certo que em muitos casos os países que aceitam a estratégia de crescer com poupança externa não percebem que isso implica câmbio apreciado, mas esta falta de consciência não muda o fato que de, seja pela manutenção de taxas de juros elevadas, seja pela aceitação sem restrição de fluxos de capital, estão administrando para baixo suas taxas de câmbio”.

Deve-se atentar que a taxa de câmbio é um preço fundamental em qualquer atividade econômica. Do lado da demanda, o patamar do câmbio determina os investimentos e as exportações; do lado da oferta, as importações e a poupança. Quanto mais apreciada por o câmbio, maior o déficit em conta corrente, ou seja, maior a poupança externa. Os autores ressaltam que a taxa de câmbio tem outra conseqüência menos discutida. Quanto mais valorizada esta for, maiores serão os salários e ordenados, em função da baixa do preço dos bens comercializáveis, e menores serão os lucros, seja em função do aumento real dos salários e ordenados, seja pela diminuição das exportações e do investimento. Considerando-se constantes os termos de troca e a renda líquida recebida ou enviada ao exterior, a taxa de câmbio determina a poupança externa.

Desta forma, o principal resultado dessa política de crescimento via poupança externa e valorização da taxa cambial é a elevação do consumo e do endividamento externo, em detrimento da elevação da taxa de investimento. Nos diversos casos estudados por Bresser Pereira, havia uma substituição da poupança interna pela externa. Exceto nos países com elevado crescimento econômico e/ou com grandes oportunidades de investimento, como foi o caso de Israel, é que a “taxa de substituição da poupança interna pela externa” era pequena e, assim, a poupança externa realmente contribuiu para o desenvolvimento. A crítica, portanto, refere-se à generalização da estratégia de “crescimento com poupança externa”.

No caso brasileiro, em particular, nos cálculos de Bresser-Pereira a poupança externa promoveu uma pequena diminuição da taxa de investimento, entre 1994 e 1999, quando o câmbio estava apreciado e o déficit no país eleva-se substancialmente. No entanto, entre 2000 e 2005, com a maxidesvalorização do câmbio, a poupança externa tornou-se negativa e isto não implicou em uma diminuição da taxa de investimento na economia; ao contrário, houve um pequeno aumento.

À luz destes fatos, não é de se estranhar a política cambial dos países asiáticos, que têm mantido sua taxa cambial depreciada, a qual contribui para altas taxas de investimento e, por extensão, de vigoroso crescimento econômico. Tudo isso sem abdicar da estabilidade monetária.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
26/03/2007 - 07:00

A lógica do investimento externo

Qual a utilidade do capital financeiro externo para a economia brasileira? Trata-se de questão amplamente discutida, pouco conclusiva devido aos interesses envolvidos.

Imagine uma economia fechada com uma taxa de investimento doméstico equivalente a 20% do PIB, mantido exclusivamente com poupança doméstica. Agora, abre-se a economia. Entram, digamos, 5% do PIB em investimento? Há três maneiras desses recursos serem tratados:

1. O Banco Central não adquire os dólares, há um excedente que provoca uma apreciação do real.

2. O BC adquire os dólares excedentes, injeta dinheiro na economia, mas esteriliza através da colocação de títulos públicos.

3. O BC adquire os dólares excedentes, mas esteriliza apenas parte da moeda emitida.

Os efeitos serão os seguintes:

Repare que, em todas essas alternativas, o livre ingresso de dólares pelo mercado financeiro ou é negativo, ou neutro. Em apenas uma hipótese pode ser positivo: quando o BC deixa de esterilizar todos os reais emitidos para a compra de dólares, e melhora o nível de atividade, pelo aumento da liquidez na economia.

Mas esse movimento independe da entrada de dólares. Corresponde a um aumento de emissão monetária, que pode ser feito por qualquer política monetária autônoma, sem necessariamente ser utilizado para a compra de dólares. Mesmo se houvesse uma economia fechada, o BC poderia obter o mesmo resultado através de emissão de reais.

Confira que, nos três casos apresentados, o investimento financeiro externo só aumentou a poupança externa no caso de aumento da emissão monetária – que pode ser feito independentemente de entrada ou não de dólares.

Em todos os demais casos, a economia doméstica, as empresas que dependem apenas do crédito interno, tiveram que pagar a conta:

1. Pelo efeito-substituição: cada dólar que entra ocupa espaço do real disponível, com a compra de dólares pelo BC e a posterior esterilização de moeda.

2. A compra de dólares aumenta o custo fiscal, obrigando a um pagamento maior de impostos ou redução maior de investimentos públicos.

Então, para quê efetivamente servem esses dólares que entram através do mercado financeiro?

Objetivamente, servem para colocar liquidez nas mãos de determinados grupos, que conseguem entrar, ocupar lugar da poupança doméstica, e aplicar em títulos públicos ou então em operações de Bolsa.

Um dos argumentos dos ortodoxos competentes do mercado, é que esse investimento externo está provocando uma baixa nos juros, obrigando o BC a, mais cedo ou mais tarde, render-se aos fatos e reduzir a Selic.

Como isso ocorre?

O investidor estrangeiro compara a rentabilidade dos títulos brasileiros no exterior com a aplicação interna.

Há dois componentes de rentabilidade quando internaliza os dólares: a taxa Selic e a apreciação do câmbio.

Por exemplo, se a taxa Selic está em 12,5% e há uma perspectiva de apreciação cambial de 10%, a remuneração esperada do investidor é de 25% (grosso modo).

Então ele vai tratar de trazer dólares à vontade para lá. Ele irá aceitar comprar dólares até que a cotação caia para níveis em que comece a trazer de volta o fantasma da desvalorização, ou seja, que zere a conta da balança comercial. Hoje em dia o mercado trabalha com uma taxa de câmbio de equilíbrio de R$ 1,80, para zerar a balança comercial.

Qual a taxa de câmbio de equilíbrio para zerar a balança comercial: estimam que é R$ 1,80. Qual a taxa de juros interna? 12,5%. Teoricamente, o risco seria minimizado até um câmbio de R$ 1,60.

Veja bem, taxa de câmbio de equilíbrio não é necessariamente a melhor taxa para a economia. Se a taxa de equilíbrio significa matar as exportações de manufaturados, para compensar o “boom” das commodities, obviamente é uma taxa maléfica.

Quando BC fala que quer controlar apenas os juros, perde controle sobre cambio

Argumentam esses analistas que a pressão externa dos mercados obrigará, mais cedo ou mais tarde, o BC a retomar a racionalidade e a reduzir os juros.

Ora, é uma vantagem, mas apenas para um BC esdrúxulo. No início, terceirizou-se a política monetária para os mercados, como antídoto à ação dos políticos. Cada medida populista seria “castigada”: pelos mercados. Agora, passa a ser antídoto contra a ação do BC?

Obviamente há maneiras muito mais baratas de racionalizar a ação do BC: colocando uma diretoria competente, por exemplo.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
25/03/2007 - 00:05

Meu Thesouro da Juventude

Mudam os tempos, e hoje em dia se sabe, em tempo real, as transformações que ocorrem no mundo. Nos anos 20 o mundo também atravessava um processo de transformações profundas. O sistema educacional nem de longe tinha condições de acompanhar o que ocorria. É nesse quadro que o “Tesouro da Juventude” cumpriu papel essencial na formação de gerações e gerações de brasileiros, dos anos 20 aos anos 70, não apenas trazendo novidades tecnológicas, como descobertas científicas, novos hábitos, novos conceitos..

Aprendi a ler no Thesouro da Juventude, assim mesmo com “th”, da W. M. Jackson Editores, edição de 1925, com prefácio de Clóvis Bevilacqua. Era de meu avô Issa. Contava os minutos para chegar à farmácia do meu pai, subir as escadas externas que davam no andar de cima, onde morava vovô. Corria para a estante, tirava um volume, abria no chão forrado por um cobertor, e ficava de bruços devorando as páginas e as ilustrações a bico de pena.

Na “Introducção”. Clóvis Bevilacqua indicava a obra para “meninos, adolescentes e homens do povo que teem sede de saber”. Os editores definiam-no como uma enciclopédia popular, “um livro acerca de tudo para todos e especialmente para os jovens”.

Eram 18 volumes, todos contendo uma seqüência de temas. A primeira gravura do primeiro tomo era uma pintura do sistema solar, com astros de todos os tamanhos e trens se lançando ao espaço para alcançá-los. Um trem expresso, correndo a 1.600 km por minuto poderia dar a volta ao mundo em menos de vinte dias, dizia o texto. Mas levariam 177 anos para chegar ao sol.

De cara, éramos apresentados à nossa insignificância, passeando por todas as lições de “O Livro da Terra”. Em seguida, se entrava em “O Livro da Natureza”, que tratava especificamente da vida nos animais e das plantas. Uma página colorida, finamente ilustrada, mostrava “os seres mais interessantes da terra”, dos conhecidos, águia, gaivota, gavião, leopardo, aos menos votados sariguéa, python, maçarico e buccinum.

Depois, pelo “O Livro de Nossa Vida”, destinado a desvendar a maravilha da humanidade. Havia “O Livro do Novo Mundo”, que tratava desde os homens primitivos, até à construção da América, e “O Livro do Velho Mundo”, falando das antigas civilizações, com amplo relato sobre a China, sobre o seu isolamento que tirou-lhe a noção de progresso, e de como, pouco a pouco, voltava a se abrir para o mundo.

Em um período de grandes inovações, as invenções eram tratadas no capítulo “Cousas que Devemos Saber” e as curiosidades em “O Livro dos Porquês”.

Meu tema predileto eram os “Homens e Mulheres Célebres, Nobres Vidas, Nobres Feitos”. Marco Pólo inaugurava o primeiro tomo da coleção. Depois, abordava-se a criação da famosa Escola de Sagres em Portugal, e os navegadores portugueses.

Menos épico, mais infantil, era “O Livro dos Contos”, estreando com “Sindbad o Marinheiro”, e um bico de pena magnífico mostrando “A Ave Gigantesca e o Homem do Mar”.

Uma parte que não me interessava muito, dada minha invencível falta de habilidade para trabalhos manuais era o “Cousas que Podemos Fazer”, que ensinava desde a fazer uma caixa de madeira até a cortar o cordel mágico.

E aí se entrava em outro dos meus temas prediletos, “O Livro das Bellas Acções, Heroes e Heroínas do Mundo”. A primeira história era “Irmãs pelo Sangue e pelo Heroísmo”, narrando um capítulo familiar da resistência portuguesa contra a invasão espanhola no século 17. Depois, “O Sacrifício do Padre Damien”, um belga que partiu para as Ilhas dos Mares do Sul para cuidar de leprosos.

Voltava-se para a literatura, com “O Livro da Poesia, o Bello Mundo dos Poetas”, com “O Gigante Adamastor”, trecho dos Lusíadas. Depois, a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, uma das paixões da minha infância. E “Manhã em Petrópolis”, de um certo José Maria Amaral, que “se não é dos maiores poetas brasileiros, ocupa um lugar muito honroso na nossa história literária”. Acho que houve alguma proteção em sua inclusão.

Para incluir na lista da Crônica Semanal

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
25/03/2007 - 00:00

O cego Levino Conceição

O violonista cego Levino da Conceição fez parte das fantasias da minha infância. Não sei por que, mas imaginava que em um determinado dia da minha infância, ele tinha tocado no casamento da tia Deca. E eu teria menos de sete anos, porque tinha sido na casa da Rua Santa Catarina. Provavelmente era outro violonista cego.

As fantasias sobre Levino vinham das histórias que tio Léo nos contava. Adolescente, no Rio de Janeiro, ele teve aulas com Levino, em um conservatório que ele mantinha na rua do Catete, junto com João Pernambuco.

Na parede da sua sala, havia um retrato autografado do violonista Dilermando Reis. Nome mais popular do violão brasileiro nos anos 50, Dilermando fora encontrado por Levino em uma excursão a Guaratinguetá. Durante algum tempo excursionou com Levino, carregando seu violão, segundo as lendas. No conservatório, depois do início das aulas, Levino passou ao discípulo Dilermando a tarefa de dar aula ao colega Leonardo.

Tio Léo tinha um repertório de umas quatro ou cinco músicas de Levino. Uma delas, com a mesma introdução que Dilermando utilizou em “Noite de Lua”. Tio Léo insistia, também, que o Choro número 1, de Villa Lobos, era baseada em uma música de Levino.

Levino nunca teve um tratamento condizente com sua importância histórica seu talento. Um dia cobrei de Raphael Rabello informações sobre o mestre. Raphael me disse estar pensando em gravar um CD com sua obra. Músico de Niterói, as partituras de Levino estão sob a guarda de um compositor da cidade, grande cavaquinho, cujo nome me falta agora.

Raphael morreu sem resgatar Levino. Anos atrás semana recebi do jovem Leandro Carvalho três CDs admiráveis, um dos quais com composições de Levino.

Há muito tempo já devia ter escrito sobre Leandro. Conheci-o anos atrás, na inauguração de um bar de música de São Paulo. Chegou um rapaz, mal saído da adolescência, e me presenteou com um CD que havia gravado com músicas de João Pernambuco. Além do talento instrumental, demonstrava uma enorme paixão com a história do violão.

Depois disso, acompanhei sua carreira por notícias de jornal. Não consegui assistir shows seus, por essa praga de televisão, que me toma todas as noites. Leandro já faz parte do primeiro time dos violonistas brasileiros, com um ecletismo e uma ausência de preconceitos musicais notáveis. Tem um CD com composições de João Pacífico (o autor de “Cabocla Teresa”), com a participação de Jair Rodrigues e duplas caipiras. Tem o “London”, com clássicos da bossa nova, acompanhado por quinteto The Brittan String. O CD “Cromo”, com as composições de Levino, tem a participação especial do Quinteto da Paraíba, com arranjos muito bem cuidados.

Nascido em Cuiabá em 1895, Levino Conceição fez parte do grupo de violonistas que revolucionou a música brasileira a partir dos anos 20, gravitando em torno dos históricos Turunas da Mauricéia, de João Pernambuco. Ficou cego aos sete anos de idade. Aos 12 mudou-se para o Rio de Janeiro e foi estudar no Instituto Benjamin Constant. Segundo o Dicionário Cravo Albim, em 1917 passou a ministrar cursos de violão para cegos.

Os anos 10 e 20 foram uma década incrível para o violão brasileiro. Nesse período, ocorre a aproximação de João Pernambuco e Levino com Villa Lobos e o paraguaio Agustín Barrios. No release do CD, Leandro conta acerca da divergência sobre a autoria da música “Tarantella”, que muitos atribuíam a Barrios. Segundo lhe afiançou Ronoel Simões -o maior expert de violão no mundo–, em grava;ao de Barrios a autoria é atribuída ao próprio Levino.

Dentre todas as músicas de Levino, uma de nossas preferidas era a “Saudades do Rio Grande”, que, com letra de Nelso Paixão (”álgida saudade que me maltrata / desta ingrata que não me sai do pensamento”), mereceu uma gravação histórica de Augusto Calheiros, o cantor dos Turunas.

No site cultural da Petrobrás, fica-se sabendo que patrocinou o projeto “Origens do Violão Brasileiro – Cego Levino”, de Ezequiel Paula Pias, de Curitiba, com CD, livreto, concertos e palestras,

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
24/03/2007 - 19:06

Não consegui entrar em todos os links postados por vocês. Aí vão aqueles em que foi possível

Enviado por: LUIZ EDUARDO

Bando da Lua

Mais uma volta ao passado: o Bando da Lua canta Aquarela do Brasil.
E a Dolores Duran:

Enviado por: Cesar

Nassif, acessei este link com a música A Lista de Oswaldo Montenegro. Muito bonito, e parabéns ao Sérgio de Tocantins pela sensibilidade.

Enviado por: Ricardo

Olá novamente,

Este youtube é uma verdadeira cachaça mesmo. Lá vai mais dois links:

Comerciais da Varig 1

Comerciais da Varig 2

Enviado por: LUIZ EDUARDO

Nassif, atendendo ao seu pedido,

aqui vai o endereço de um vídeo com a Rainha da Praça Tiradentes, que acho que desde que o Hermínio a ressuscitou no inesquecível show Rosa de Ouro, não se apresentava mais em público. Aliás, no show ela cantava uma bela marcha-rancho do Lamartine, de letra elaboradíssima, Os rouxinóis. Conhece?

Pra quem a conheceu, um bom modo de matar as saudades; para os mais jovens, que talvez nunca tenham ouvido falar nela, uma oportunidade para conhecer uma das divas da nossa música popular e uma das maiores atrizes do nosso falecido teatro de revista: Aracy Cortes. No vídeo, está com 80 anos, morreria no ano seguinte, 1985.

P.S. Pra quem não é carioca, a praça Tiradentes foi a capital do teatro de revista. Continua lá em pleno funcionamento uma histórica gafieira, a Estudantina Musical. Indo à praça, pela Carioca, calçada da esquerda, pouco depois do Bar Luís, uma placa de bronze indica a localização do Zicartola, o restaurante do casal Dona Zica/Cartola, que no início dos anos de chumbo foi um ponto de encontro dos grandes sambistas cariocas e dos amantes da nossa música popular.

Aracy Cortes

Ásia

Enviado por: Marco

Já que o tema é youtube…..

Para quem é chegado em rock progressivo é imperdivel.

1. Solo do sensacional Carl Palmer no show do Asia, ontem em São Paulo. A qualidade não é lá grande coisa pois filmei com máquina fotográfica….

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
24/03/2007 - 13:20

Jorge Aragão in concert

Enviado por: Gabriel

Nassif,

Aí vai uma dica…eu ouvi ontem e fiquei louco…Se bem que a versão que eu ouvi ontem era sem violinos e violoncelos, era só cavaquinho/bandolim e batuque (essa eu não ouvi, pois o som do meu computador deu pau…Tô mandando o post na confiança…não tem erro…é obra-prima, mesmo…)

Se o Papa Bento xvi ouvir essa versão do Jorge Aragão, ao vivo, ele chora ou desmaia de emoção.

Demais.

E olhe essa Cantilena da Bachiana no 5

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
23/03/2007 - 11:14

O teorema “Jorginho Guinle”

A apresentação de José Márcio Camargo no Fórum da Previdência Social (clique aqui) e o trabalho com Maurício Cortez Reis (clique aqui) lançam dúvidas no ar. A maioria das pessoas julgou que os trabalhos tentavam torpedear a Previdência Social. Para mim, foi a maior prova de apoio que a Previdência poderia receber.

Explico.

Analisar a Previdência pelos efeitos que possa ter sobre os netos dos aposentados é uma abordagem muito original. Sempre pensei que a análise deveria ser sobre os benefícios recebidos pelos aposentados. Mas essa abordagem imaginosa trouxe resultados interessantes.

Segundo a apresentação no Fórum da Previdência (e no trabalho do IPEA), o sistema de Previdência Social tem quatro efeitos sobre o mercado de trabalho:

1) Aumenta a probabilidade de desemprego, principalmente para trabalhadores menos qualificados. Com alguma renda, há uma redução do subemprego.

2) Aumenta a informalidade.

3) Aumenta a probabilidade de que o jovem dependente invista em educação.

4) Aumenta a probabilidade de que o jovem vagabundeie.

Vamos a uma análise dos argumentos do economista:

Desemprego de trabalhadores menos qualificados

Com a garantia da aposentadoria, segundo José Márcio, há um aumento no valor do salário de reserva (isto é, do menor salário que um trabalhador aceita para trabalhar). José Márcio acha ruim, “porque enrijece o mercado de trabalho”.

Mas é justamente esse princípio que – em qualquer estudo social – consagra uma rede seocial de segurança. Ao impedir que jovens sem recursos vão ao mercado de trabalho, estabeleçam uma competição desigual que acabe deprimindo ainda mais o piso salarial, há uma externalidade extraordinariamente positiva do gasto previdenciário.

José Márcio provavelmente ainda não percebeu que o que considerou ruim, é bom.

Vagabundagem dos jovens

Na página 13 do trabalho do IPEA-Rio, a Tabela 2 mostra que os jovens que não estudam nem trabalham, são de 12,3% nos domicílios sem aposentados, e de 10,25 naqueles com aposentados e/ou pensionistas. José Márcio apresentou no Fórum uma conclusão oposta à que chegou no trabalho.

Pela tabela em questão, fica-se sabendo que nos domicílios com um aposentado, e naqueles com um aposentado e um pensionista, há mais jovens na escola do que naqueles domicílios sem aposentados e pensionistas – respectivamente mais 4,5% e mais 3,01%. Na soma, 7,5%. Também há mais jovens trabalhando e estudando do que em domicílios sem o reforço da aposentadoria.

É uma conclusão extraordinária, que transforma o trabalho em grande fonte de argumentos positivos em favor da Previdência, principalmente porque, pelos dados do PNAD, o ensino médio sofreu uma terrível piora justamente pelo abandono da escola por jovens nessa faixa de idade.

Segundo os autores, “em comparação com a probabilidade de somente participar da força de trabalho, a presença de um aposentado no domicílio, na coluna 3, aumenta as probabilidades de apenas estudar em 12,7 p.p., de estudar e participar em 1,7 p.p. e de não participar e não estudar em 5,9 p.p.”

Some o aumento do estudo: 12,7 + 1,7 = 14,4. Compare com quem não participa nem estuda (5,9). Os jovens que vão para escola por conta da aposentadoria e/ou pensão de alguém no domicílio são em quantidade três vezes maior do que os que não estudam nem trabalham. E nem se pode dizer que não estar no mercado de trabalho seja, em si, ruim. Pode significar que o jovem, em vez de aceitar um primeiro emprego horrível, está se preparando (cursos como informática, datilografia e outros que não estejam nas estatísticas do PNAD) para entrar mais à frente.
Mas, pelas observações que os autores fazem desses dados, quanto mais pobres e necessitados forem as famílias, mais estimulará os jovens a trabalharem. Criaram uma nova categoria sociológica: o “teorema de Jorginho Guinle”.

Contribuição e aposentadoria aos 65 anos

Segundo o mesmo trabalho, a existência de uma pensão de um salário mínimo, direito de todo cidadão após os 65 anos, mesmo sem ter contribuído (apenas para quem comprove que a renda familiar per capita é de menos que um quarto de salário mínimo ), gera um incentivo a não contribuição para a Previdência.

Os testes empíricos suportaram essa hipótese para “jovens entre 15 e 21 anos, vivendo nas áreas urbanas”. Não sabia que esse tipo de preocupação com a aposentadoria era tão presente em jovens dessa faixa de renda. Estou atrás de explicações sobre porque os testes empíricos não funcionaram para todos os demais jovens. Assim que souber, conto a vocês.

Mas, pelas conclusões apresentadas, tenho para mim que José Márcio simulou não gostar dos resultados da pesquisa, para poder fortalecer ainda mais seus argumentos em favor da Previdência.

Acho que ele é um verdadeiro amigo dos aposentados.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
23/03/2007 - 10:51

O Brasil despejado do BID

Enviado por: Andre Araujo

O Banco Interamericano de Desenvolvimento foi criado por inspiração do Presidente do Brasil, Juscelino Kubitscheck a partir de uma ação diplomática idealizada por Augusto Frederico Schimidt, a Operação Panamericana.

O BID tem portanto as impressões digitais do Brasil. Ou melhor tinha.

Depois de três Presidentes com perfil de estadista, que equilibravam o complexo xadrez egional, o BID caiu nas mãos de um títere de Washington, o ex-Embaixador da Colombia nos EUA, Luis Alberto Moreno. O Brasil teve um bom candidato na pessoa de João Sayad, que perdeu por pouco, considerando o apoio dos EUA a Moreno, o voto americano corresponde sòzinho a 30%.

Moreno é um colombiano nascido na Filadelfia, totalmente americanizado e foi premiado com o apoio americano na eleição porque foi ele o idealizador e implementador do Plano Colombia, um projeto que despejou 5 bilhões de dólares em auxilio militar àquele País, colocando-o na prática sob dependência dos EUA. Pelos serviços prestados a Washington Moreno foi premiado com o BID, e o Brasil foi muito prejudicado com essa manobra. Explica-se: o Brasil tradicionalmente tem o 3º cargo do Banco, a Vice-Presidência de Finanças e Administração, que foi ocupada neste Governo por João Sayad e depois por Joaquim Levy. Este, prestando um desserviço ao Brasil, largou o cargo após 6 meses para ser Secretário da Fazendo do Governo Sergio Cabral no Rio. Moreno aproveitou a mancada e tirou do Brasil, pela 1ª vez na história do BID, a vaga que sempre foi de um brasileiro. Colocou lá um mexicano, Carlos Hurtado. Mas pior ainda, hoje o Brasil não tem ninguem não só na cúpula mas tambem nas gerências.

São 8 americanos, 2 colombianos, 2 espanhois, 1 chileno, 1 argentino, 1 canadense, 1 peruano e 1 guianense. Mais ainda. Moreno inventou agora mais tres vice-presidências, alem das duas tradicionais. E disse que vai colocar nesses novoc cargos elementos selecionados por uma consultoria de seleção. É sabido que muitos desses processos de seleção apenas legitimam a escolha pessoal de quem contrata a seleção. É truque velho. Alem disso, é um processo descabido em uma instituição multilateral, onde os cargos de cúpula refletem um critério politico e geográfico, assim é no FMI, Banco Mundial, Banco Europeu de Desenvolvimento, etc.

Moreno é um carreirista forjado nos salões de Washington, no mesmo circuito que criou o famoso Goni Sanchez de Losada, o Presidente da Bolivia que mal falava espanhol e que foi o incubador da reação que gerou Evo Morales.

Moreno e sua esposa Graziela são os reis das festas e coqueteis da cpital americana, ela tendo publicado um livro de decoração (muito bonito) luxuoso com o interior de todas as grandes embaixadas de Washington.

Moreno foi inventado no Departamento de Estado e de lá tira sua força, despejou literalmente o Brasil do BID.

Não se conhece nenhuma reação do Governo Brasileiro, que plàcidamente é posto para fora de uma Insittuição que tem tudo a ver com o Brasil.

Onde está a diplomacia pró-ativa e independente de que se orgulha este Governo?

O bloco do Brasil tem quase 11% do capital, assim como a Argentina, que tem tambem 11%.

Não deve nada ao banco e tem legitimidade para não deixar que se transforme o BID em um clube de amigos de Luis Moreno.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
23/03/2007 - 07:00

A desindustrialização em marcha

Coluna Econômica – 23/03/2007

A divulgação da nova metodologia do PIB (Produto Interno Bruto) trouxe surpresas desagradáveis. A principal é a comprovação da perda gradativa de participação no PIB da indústria de transformação – aquela que gera mais emprego, mais crescimento, mais dinamismo em economias continentais, como a do Brasil.

Pela metodologia anterior, a indústria de transformação teria 23% do PIB; pela nova, apenas 19,3% (dados de 2003). Pela antiga, a indústria geral teria 37,9%; pela nova, 30,3% (dados de 2005).

Esse esvaziamento ocorreu ao longo de toda a década de 1990, mas começou a se aprofundar muito violentamente nos últimos meses, com a aceleração da substituição por importações em praticamente todas as categorias de uso dos bens industriais.

***

No trabalho “Importações, Câmbio e Indústria: A Marcha da Desindustrialização no Brasil”, o IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) mostra , tomando-se por base janeiro de 2002, até praticamente janeiro de 2006 o crescimento das importações de bens de consumo duráveis acompanhava o crescimento da produção interna. Aí se desgarrou. No final de 2006, as importações estavam três vezes maior que no início da série; e a produção apenas 1,5 vezes. O que significa que a maior parte do aumento de consumo acabou sendo suprida por importações.

No caso dos não-duráveis, enquanto a produção ficou estagnada, as importações cresceram quase 50% nos últimos meses.

Em muitos casos, as empresas trocaram sua própria produção por bens importados, como na cerâmica, eletroeletrônico. Continuaram mantendo mercado, mas criando buracos cada vez maiores na cadeia de fornecedores.

***

De 2002 a 2006 a produção industrial ostentou índices de crescimento ínfimos. A exceção foi 2004, quando cresceu 8,5%, estimulada pela desvalorização cambial de 2002 e 2003. Depois, o crescimento caiu para 2,8% e 2,6% em 2005 e 2006. Nesse mesmo período, o crescimento do emprego patinou, oscilando pouco acima e pouco abaixo de zero. Já as importações aumentaram 27,4% em 2004, 17,6% em 2005 e 23.4% em 2006.

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Dois tipos de produtos passaram a entrar no Brasil. Um grupo, de produtos substituindo produção brasileira. Nesse caso, houve perda de produção e emprego na veia. Um segundo grupo é de produtos novos. Ao entrar, com preço muito barato em função do câmbio, desestimula investimentos na sua produção.

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Há duas maneiras de medir exportações e importações: pelo preço e pela quantidade. Quando se entra na quantidade, há um decréscimo das exportações brasileiras em todos os níveis, com exceção dos bens intermediários. Em bens de consumo durável a queda é de 7,3% (contra 73,5% de aumento nas importações); em não-durável, queda de 2,8% (alta de 14% nas importações); em intermediários, alta de 4,5% (de 15,5% nos importados) e em bens de capital, queda de 0,6% nas exportações (alta de 24% nas importações)

Em 2006, o aumento das exportações dependeu fundamentalmente de matérias primas (20,7%), petróleo (18,4%), agricultura tropical (16,3%) e química (10,3%).

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O indicador mais grave é o que mede o valor agregado na indústria (isto é, quanto, do preço final do produto, é gerado internamente). Em 1996 era de 48%. Em 2004, caiu para 42,2%.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
22/03/2007 - 07:00

A mudança no PIB

Coluna Econômica – 22/03/2007

O PIB (Produto Interno Bruto) mede a quantidade de bens e serviços produzidos por uma economia. É a melhor medição de crescimento de um país. Ontem, o IBGE anunciou mudanças na forma de medir o PIB.

Uma das razões é que a última pesquisa, que definiu o peso de cada setor, era de 1985. De lá para cá ocorreram mudanças substanciais na estrutura produtiva. Nos últimos anos, o IBGE passou a dispor de sistema de informação anual de comércio, indústria, agricultura, construção civil. Incorporou também dados de Pessoas Jurídicas.

Considerado o melhor especialista do mercado em contas públicas, Fernando Montero, da Corretora Convenção, anotou as seguintes mudanças relevantes na metodologia.

Governo

Uma das grandes dificuldades em medir o PIB do governo é que ele gera serviços que não tem preço. O governo só tinha estatísticas de quantidade. Alguns setores como educação e saúde tinham indicadores diretos. Mas 10% do PIB não tinham nenhum – como Defesa, Judiciário e Administração Direta. O que se fazia antes era estimar o crescimento de acordo com o crescimento da população.

Agora, o crescimento passa a ser função das contratações de funcionários no setor público, não mais do crescimento da população.

Com a mudança houve pouca alteração no tamanho da administração pública. Mas há um indicador importante, que foi a incorporação ao PIB da depreciação do capital público. Se o governo faz uma estrada, a cada ano tem que descontar (como despesa) parte do desgaste da obra. Em geral o governo “economiza” deixando de repor seus investimentos. Agora essa conta vai ser feita. Fazendo isso, a taxa de investimento da economia cai de 20% (taxa bruta) para 7 ou 8% (taxa líquida).

Serviços

Mudanças mais substantivas ocorreram com os serviços. Uma delas foi a terceirização de serviços pela indústria. A outra foi o aparecimento de novas formas de serviço. Como a matriz era antiga, acabava medindo setores que estavam em decadência, e deixando de fora setores que estavam crescendo. Com a mudança, o setor de serviços cresceu 10 pontos percentuais, de 46 para 56%.

A mudança do peso dos serviços será importante em função do deslocamento da produção do mercado externo para o mercado interno (em função do câmbio). Os serviços respondem muito mais rapidamente à melhoria da demanda interna porque não tem estoques nem vazamento (exportação). Antes da mudança, percebia-se uma melhora na demanda interna, mas que não se refletia no setor de serviços, justamente por esses problemas metodológicos. Agora a medição ficou mais exata.

Intermediação financeira

Outro ponto foi na área financeira. O PIB consiste em acréscimo no valor geral da produção. A intermediação financeira tem duas fontes: uma são as tarifas; outra é a intermediação do crédito. Se um banco emprestava dinheiro para uma indústria, o correto seria contabilizar o ganho do banco com a intermediação; mas descontar do ganho da indústria os efeitos da intermediação. Como não se descontava, havia uma dupla contagem do efeito financeiro. Com a mudança, passará a ser feito, o que diminuirá o peso da agricultura e da indústria no PIB – justamente por dependerem muito de financiamento.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
21/03/2007 - 19:38

As diversas escolas da valsa

Enviado por: Carlos Henrique Mach

Nassif

Chiquinha Gonzaga fez lindas valsas. Ao meu ver, Nazareth é o grande nome da valsa brasileira. Jacob, quando gravou Fidalga, de Nazareth, mostrou o quanto de delicadeza e sutileza a valsa brasileira guarda.

Li um tempo atrás um artigo seu sobre técnica, em que você chama atenção de que é confundida com velocidade. Executar uma valsa exige muito do instrumentista. Raphael gravou lindamente Modinha de Tom e Vinícius, numa interpretação única de um verdadeiro virtuose. De uns tempos pra cá, os grupos de choro, os solistas em geral não têm gravado mais essas valsas delicadas.

Lembro-me que quando o Galo Preto e Os Carioquinhas gravaram os seus discos, tiveram a preocupação de trabalhar as muitas variantes do choro, com formas novas de leitura. Os Carioquinhas gravaram Santa Morena, de Jacob e aquela maravilha de valsa de Luiz Americano que encerra o disco. O Galo Preto gravou em seu primeiro disco, a ainda inédita naquela ocasião, De Coração a Coração, Pra mim, a mais linda valsa de Jacob.

Era muito comum os grupos de choro gravarem uma ou duas valsas em seus discos. Os grandes músicos como Jacob, Altamiro, Valdir Azevedo, Pixinguinha, Benedito Lacerda e etc. reservavam sempre espaço em seus repertórios para as valsas dolentes. Acho que a valsa passou por várias transformações na sua estrutura harmônica e seu peso rítmico a partir de Villa Lobos. Aquela maravilha dele chamada Valsa da Dor, Villa Lobos incorpora toda a alma da valsa em seu contorno sentimental, aprofunda esse sentimento na melodia e busca uma lógica harmônica com uma tensão que chega a rasgar a gente, como é bem típico de Villa Lobos. Acho que ele raciocinava assim, se é para doer, vou às últimas consequências, só pode ser. Ao mesmo tempo Villa Lobos tira a marcação acentuada da valsa. Acho que Tom e Edu seguiram essa trilha. Imagino que isso dá ao compositor mais liberdade para escolher notas com possibilidades harmônicas mais amplas. A gravação de Milton em Noite do Meu Bem, creio que com arranjo de Wagner Tiso, mistura esses dois universos da valsa, ela, composta na escola tradicional interpretada com o formato mais livre, ficou lindo. Por isso, insisto que as nomenclaturas muitas vezes carregam um sentimento de mudança estrutural, quando na verdade, a coluna que desenha as músicas matrizes brasileiras continuam ali, é só prestar um pouco mais de atenção. As Bachianas de Villa Lobos são essencialmente estruturadas na dolência das nossas valsas mais profundas. Acho que é aquela coisa da antropofagia mesmo que os nacionalistas defendiam com unhas e dentes.

O interessante Nassif, é que até hoje as valsas, quando são gravadas pelos novos intérpretes na canção brasileira, se destacam das demais no repertório daquele artista. Elis quando gravava, o país inteiro se encantava.

Mas é isso que você disse aqui, isso é um assunto deliciosamente longo, de viciar mesmo. Se deixar, passamos dias falando nisso, de manhã, de tarde e à noite. Enfim, a música brasileira é tão apaixonante que não basta compor e tocar, a gente sente uma necessidade danada de falar e falar. Por sinal, hoje a coisa vai esquentar em Brasília. O Galo Preto está indo ao Clube do Choro pela primeira vez comemorar o seu CD de 30 anos, no ano em que o Clube do Choro de Brasília comemora também os seus 30 anos. Imagino como não deve estar o papo lá entre duas grandes escolas de choro. A turma do Galo Preto, primeiro grupo de garotos a surgir na década de 70 na retomada do choro no Rio e que está cheio de vida e o Clube do Choro com o Reco e aquela turma da pesada com o gás todo com o Espaço Cultural do Choro que vem por aí. Está faltando só você pra botar mais fogo naquele palheiro.

Abraços

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
21/03/2007 - 15:00

A Brasken e a Ipiranga

Do Guia Financeiro da Agência Dinheiro Vivo

A compra da Petroquímica Ipiranga aparentemente foi um jogo de ganha-ganha. No caso da Brasken, a aquisição da parte petroquímica da Ipiranga permitiu dobrar o EBITDA (de US$ 700 milhões para US$ 1,4 bi), ganhar 40% de margem bruta, para uma empresa que já faturava US$ 10 bi. Melhor: a Brasken manterá a mesma estrutura de capital, com um mesmo índice de alavancagem de 2,7 vezes o EBITDA, que tinha antes da aquisição, mesmo pagando US$ 1,7 bilhão em caixa e com alguns acertos com parceiros financeiros.

Essas informações foram passadas a Dinheiro Vivo por José Carlos Grubisich, presidente da Brasken. Como Copesul está desendividada e o indicador financeiro da Ipiranga é bom, na hora em que se consolida tudo, a estrutura de capital fica incólume. “Cozinhamos um pouco na banha deles”, explica Grubisich. Ou seja, houve uma ruptura em termos estratégicos, com a Brasken mantendo a estrutura de balanço inalterada, com uma empresa muito maior e mais rentável.

Apenas os ganhos de sinergia poderão chegar a US$ 500 milhões. Somados à valorização das ações de segunda e terça, a operação está praticamente paga.

Agora, a Brasken ficará majoritária na Ipiranga Petroquímica com 60%, os outros 40% com a Petrobrás; na Copesul terá 64%, contra 36% da Petrobrás. A Brasken vai assegurar liderança de todos os negócios. O que evita o conceito de que Petrobrás estaria voltando ao setor.

O próximo passo será o fechamento do capital da Copesul, para tirá-la do mercado e evitar conflitos com a Brasken, já que ambas são cotadas. O passo seguinte será a consolidação de toda a petroquímica debaixo das asas da Brasken. Mas ainda não estão definidos nem o calendário nem a forma.

Com a nova escala, e o novo fluxo de caixa, haverá a possibilidade da Brasken financiar todo projeto de crescimento no plano local ou na internacionalização.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
21/03/2007 - 10:32

A lógica da Braskem

No Guia Financeiro da Dinheiro Vivo (clique aqui) leia em primeira mão a estratégia da Braskem na petroquímica.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
21/03/2007 - 10:24

O “professor de Deus” e a dinâmica estática

Fora do lugar

ALEXANDRE SCHWARTSMAN

É PRATICAMENTE impossível ler certos textos sem se deparar com a expressão “câmbio fora do lugar” ou algo equivalente, usualmente acompanhada por uma historinha sobre a taxa de juros levar à apreciação “xxx” do câmbio (o leitor fica livre para preencher o “xxx” com “criminosa”, “irresponsável”, “leviana” ou qualquer outro adjetivo habitualmente utilizado).

Já tive oportunidade de examinar as dificuldades que membros dessa escola enfrentam em explicar por que o câmbio seguiu se apreciando com a diferença entre os juros domésticos e externos se estreitando a cada mês, mas hoje quero abordar a noção do “câmbio fora de lugar”.

O “professor de Deus” precisará voltar ao seu PhD externo para aprender que não existem “gradações” para arbitragem de taxas: enquanto houver espaço, elas continuarão a ser praticadas. Ainda não aprendeu também que a arbitragem é entre aplicações em títulos brasileiros (taxas internacionais + risco Brasil + volatilidade) e Selic. Se caem o risco Brasil e as taxas internacionais e a Selic não cai na mesma proporção, o espaço de arbitragem se amplia. Há duas explicações par Schwartsman não entender o princípio da arbitragem: malícia intelectual ou dificuldade de compreensão. Ele não me parece intelectualmente malicioso.

Uma das formas de olhar o problema consiste em acompanhar a evolução da taxa de câmbio ao longo dos anos ajustando-a pela diferença entre a inflação doméstica e a internacional. O melhor trabalho que conheço a esse respeito é o acompanhamento do Departamento Econômico do BC, que faz uma ponderação cuidadosa das diversas taxas de câmbio de acordo com o volume de comércio dos diferentes países com o Brasil. De acordo com esses dados, a taxa real de câmbio em janeiro deste ano estaria 1,7% abaixo da média observada desde janeiro de 1988, o que, convenhamos, não parece ser nenhum desastre.

O “professor de Deus” utiliza ferramentas velhíssimas para explicar um mundo que é totalmente diferente. Hoje em dia a maior parte das exportações de manufaturados brasileira sofre competição direta da China. De que maneira essa metodologia capta essa competição? Não lhe pergunte, porque ele aprendeu tudo antes da China entrar em cena. E, como é um sujeito leal ao conhecimento adquirido, não é uma mera revolução global que o fará abandonar as lições iniciais.

Isso dito, resultados com base nessa abordagem são muito menos robustos do que gostaríamos. Escolhas diferentes das medidas de inflação (preços no atacado ou ao consumidor) ou de período amostral levam a resultados distintos. A própria escolha da média do período como referência não é isenta de problemas, a começar porque, mesmo com um número bastante elevado de observações mensais, não há como ter certeza de que a taxa de câmbio é uma variável que retorna à média (acredito que sim, mas os testes estatísticos são inconclusivos).

Indagações metafísicas para um falso problema. É impressionante a capacidade de fazer embaixadas no meio-campo e não chutar a gol

Nessa situação o melhor é voltar à teoria econômica em busca de pistas que dêem sentido aos dados, e, de fato, ela nos oferece um modelo que identifica duas condições de equilíbrio expressas em razão da taxa real de câmbio e da demanda doméstica (consumo, investimento e gastos do governo). A primeira condição é o equilíbrio externo, ou seja, a manutenção de certo saldo na conta corrente que seja visto como sustentável ao longo dos anos.

Onde entra, no seu modelito, a elevação de preços de commodities? Se não definir o horizonte de manutenção desses preços, continuará sendo o rei da embaixada.

A segunda se refere ao equilíbrio doméstico, que pode ser interpretado como uma condição acerca da evolução das taxas de inflação dos produtos que não podem ser comercializados internacionalmente, tipicamente serviços (escola, aluguel, cinema, manicure). Se a taxa de inflação desses produtos estiver crescendo, é sinal de excesso de demanda nesse mercado; se caindo, excesso de oferta. Em equilíbrio geral, portanto, a inflação dos não-comercializáveis é estável e o país gera um saldo em conta corrente percebido como sustentável.

Caso, porém, a taxa de câmbio esteja “fora do lugar”, alguma dessas condições (ou ambas) não poderá ser atendida. Em particular, deveríamos observar uma piora nas condições do balanço de pagamentos ou uma queda acelerada das taxas de inflação de produtos não comercializáveis internacionalmente, ou ainda uma combinação desses dois fenômenos. O que dizem os dados?

No que se refere ao balanço de pagamentos, não apenas o país registra expressivo saldo na balança comercial, que se traduz em superávit próximo a US$ 14 bilhões na conta corrente, como também as expectativas coletadas pelo BC acerca do saldo da balança para 2007 (média superior a US$ 40 bilhões) sugerem manutenção daquele superávit em mais de 1% do PIB.

Seria sofisticação demais pedir para desagregar o superávit entre produtos primários e manufaturados para analisar sua dinâmica.

Esse superávit, porém, poderia resultar de uma demanda doméstica muito fraca, que reprimisse as importações e forçasse certos setores a exportar mais por falta de mercado.

Preços internacionais de commodities não entram no seu modelito.

Só que a demanda doméstica tem crescido bem (4% no ano passado), acima de sua média desde 1993 (2,4%), sugerindo mais força que se imagina, e deve crescer ainda mais neste ano. Consistente com isso, a inflação de não-comercializáveis tem oscilado desde meados de 2006 ao redor de 4%.

Assim, a combinação de superávits expressivos em conta corrente com demanda doméstica se expandindo vigorosamente não sugere nada de fundamentalmente errado com a taxa de câmbio. Se algo há fora de lugar, não é o câmbio, mas algumas idéias defendidas contra todas as evidências.

Schwartsman arma a embaixada, desenvolve circunlóquios em cima do irrelevante e batiza esse amontoado de princípios dispersos e inconclusivos de “todas as evidências”. É um modesto!

ALEXANDRE SCHWARTSMAN, 44, é economista-chefe para a América Latina do Banco Real, doutor em Economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
21/03/2007 - 10:01

O “insider” e os fundos off-shore

Enviado por: Cristiano Moraes

Nassif,

Assim também torço (para que os responsáveis pelo vazamento de informações do caso da compra da Ipiranga sejam punidos), mas a verdade é que os casos onde há punição, são aqueles onde as transações são feitas por amadores. Mesmo o Murat da Sadia, podia trabalhar na área, mostrou incompetência no uso de informação privilegiada.

Basta introduzir uma offshore para a CVM ficar de mãos atadas. Eles até levantam junto a corretora quem operou no papel, mas jamais vão conseguir descobrir quem está por trás da offshore.

Existe muito a ser feito para ter, como os americanos adoram dizer, um ‘playing field’ nivelado. Mesmo no caso da Ipiranga, apesar do volume elevado, o preço estava bem distinto da oferta de tag along. Isso tende a indicar que as pessoas sabiam das reuniões da empresa, mas não tinham detalhes exatos de como ocorreria a transação.

Para uma transação ocorrer sem vazamento de informações, considerando as dezenas de pessoas envolvidas, só realmente introduzindo penas elevadas e pegando pessoas para serem exemplos. O próprio Murat, em minha opinião, deveria ter sido banido pra sempre de assumir qualquer cargo em empresa pública.

Comentário

Tem toda razão, e esse tema já foi abordado aqui. É um baita jogo de cena um mercado onde o Banco Central, CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e Receita permitem o uso indiscriminado de off-shores, sabidamente tendo investidores brasileiros por trás. Cria-se uma legalidade de faz-de-conta.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
21/03/2007 - 08:21

A valsa brasileira

Esta crônica vai ser construída gradativamente com a colaboração de vocês

A história da valsa brasileira – e latino-americana— é curiosa. O gênero chegou ao Brasil com a Família Real Portuguesa, no início do século 19. Teve como primeiro cultivador o Imperador Dom Pedro I. Quando já tinha desaparecido de outras partes do mundo, começou o século 20 como o gênero romântico por excelência, se impondo sobre a modinha, a toada e a seresta e só perdendo o posto para o samba-canção nos anos 40.

Poucos gêneros produziram tantas obras-primas no século, quanto a valsa.

No CD que gravei em 1995, solando bandolim (semifinalista do Prêmio Sharp de música instrumental daquele ano, certamente pelo repertório escolhido), selecionei pelo menos quatro valsas clássicas: “Subindo aos Céus” (Aristides Borges), de 1908, “Louca”, (Chico Neto), de 1930, “Feia”, (Jacob do Bandolim) e a venezuelana “El Marabino”, de Antonio Lauro.

No início do século, já era o gênero brasileiro mais avançado ao lado do choro. É só conferir “Subindo aos Céus”, “Revivendo o Passado”, de Freire Júnior, “Ave Maria”, de Erotides Campos, as valsas eruditas de Ernesto Nazareth, alguns anos depois as valsas singelas de Zequinha de Abreu, o “Rapaziada do Braz”, de Marino Júnior, o “Abismo de Rosas”, de Américo Jacomino, “Rosa”, de Pixinguinha, as valsas de Cândido das Neves.

Na formação clássica dos regionais, é gênero tão cultivado quanto o choro, embora não tenha conseguido se modernizar na forma. Nos anos 40, Garoto (”Desvairada”) e Jacob do Bandolim (”Feia”, “Salões Imperiais”) tentaram injetar ânimo novo no gênero, mas em vão. Nos anos 70 e 80 foram compostas algumas das mais belas valsas da história, como “Luiza” (Tom Jobim), “Beatriz” (Chico e Edu), mas como produção esporádica, sem ressuscitar o gênero.

O cantor Carlos Galhardo (1913-1985) foi considerado o “rei da valsa” no país, assim como o compositor José Maria de Abreu, autor do clássico “Boa noite, amor”, em parceria com Francisco Matoso, com quem compôs outras 37 músicas.

Matoso morreu jovem, em 1941, com apenas 28 anos. Além desse clássico, em parceria com Lamartine Babo compôs “Eu sonhei que tu estavas tão linda” e uma penca de músicas com o grande pianista Nono, tio dos irmãos Peixoto.

O repertório de valsas de Galhardo foi imbatível. Desde “Cortina de veludo” (Paulo Barbosa e Osvaldo Santiago), “O Destino Desfolhou” (Gastão Lamounier e Mário Rossi), “Nós queremos uma valsa” (Nássara e Frazão) e sua gravação mais famosa, “Fascinação” (versão de Armando Louzada para a valsa de Marchetti).

Todos os grandes cantores até os anos 50 passaram pela valsa, assim como os grandes compositores do século. Lamartine Babo (”Serra da Boa Esperança”), Ary Barroso (”Canta Maria”), Claudionor Cruz e Pedro Caetano (”Caprichos do Destino”).

Algumas das mais belas valsas brasileiras foram compostas por compositores que ticaram pouquíssimo conhecidos fora dos círculos dos iniciados. É o caso de Jorge Faraj (1901-1963), que, com Newton Teixeira (1916-1990) compôs um de nossos clássicos prediletos, “A Deus da Minha Rua”.

Outros dois, extraordinários, foram Roberto Martins -sobre quem escrevi coluna semanas atrás—e Mário Rossi, compositor de alta qualidade. Juntos, compuseram uma das mais belas valsas brasileiras, o “Bodas de Prata” (”Beijando teus lindos cabelos / Que a neve do tempo marcou / Eu tenho nos olhos molhados / A imagem que nada mudou / Estavas vestida de noiva Sorrindo e querendo chorar …”)

Aldo Cabral foi outro autor fundamental, parceiro de Benedito Lacerda em “Boneca”. Saint-Clair Senna, de quem não se consegue nada, nem na Internet, compôs “Misterioso Amor”, entre outros clássicos de Galhardo.

J. Cascata e Leonel Azevedo conseguiram maior sucesso. É deles “Lábios que Beijei”, interpretação clássica de Orlando Silva. Sadi Cabral, que cheguei a assistir, já idoso, como ator de novelas da Globo, compôs a valsa predileta do meu avô, “Velho Realejo”, em parceria com Custódio Mesquita.

Enfim, é uma torrente tão imensa de talento e lirismo, que se não parar agora, ficarei escrevendo sobre a valsa brasileira a semana toda. Para alívio do presidente do Banco Central.

Para incluir na lista Crônica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
21/03/2007 - 07:00

A estratégia do grupo Ultra

Coluna Econômica – 21/03/2007

A Tríplice Aliança – Petrobrás, Ultra e Braskem – para a compra da Petróleo Ipiranga tem, por trás de cada aliado, motivações estratégicas diversas.

A operação que preservou em mãos brasileiras uma empresa de capital nacional, sem precisar recorrer ao BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social). Foi facilitada pelo fato da Ipiranga estar sendo bem administrada. Seus problemas eram decorrência exclusiva de conflito entre acionistas.

O grupo Ultra ficou com a parte da distribuição, o correspondente a 15% do mercado brasileiro. O pagamento será feito com emissão de ações do grupo, sem mexer no seu caixa. O faturamento multiplicará por cinco e a geração de caixa por dois, preservando os recursos acumulados até agora.

***

Os ganhos para o grupo Ultra são da seguinte ordem.

Haverá sinergia com a distribuição de gás na parte administrativa, na logística, tanto nas bases quanto na programação, na tecnologia de distribuição e no relacionamento com revendedores.

Além, disso, o Ultra é uma das empresas que aprendeu a trabalhar com choques de gestão, programas de qualidade e ganhos de eficiência. Embora a Ipiranga estivesse sendo bem administrada, percebeu-se possibilidades de bons ganhos adicionais com melhoria de processos.

***

A grande aposta do grupo é que a distribuição de combustíveis será fundamentalmente modificada com a entrada do álcool na matriz energética. Na prática, quebra-se o monopólio da Petrobrás do refino.

Além de passar a dominar 15% da distribuição, o grupo Ultra vem trabalhando na alcoolquímica, no desenvolvimento de novos processos, inclusive na hidrólise. Todos os processos petroquímicos podem ser refeitos a partir do álcool. Até a Segunda Guerra, a química era de fermentação, com o álcool desempenhando papel relevante. O petróleo a dois dólares brecou todo o desenvolvimento alternativo. No Brasil, até os anos 70, produzia-se eteno a partir do álcool, tanto pela Salgema quanto pela Union Carbide. Mas o álcool era subsidiado.

Agora, com aperfeiçoamento tecnológico, redução dos custos, nova relação de custo álcool/petróleo, esses processos estão sendo desengavetados. Os pesquisadores estão limpando as gavetas e retirando velhos projetos adormecidos.

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A nova empresa terá um novo fôlego econômico-financeiro. A aquisição quintuplicará o faturamento do grupo, dobrará a geração de caixa, e preservará os recursos que têm para investimento, mantendo o endividamento zerado.

No ano passado o grupo tentou sua primeira aquisição internacional, a Uniquema, divisão da ICI, com fábricas em quatorze países e um departamento avançado de pesquisa. Chegou a dar um lance de US$ 900 milhões, mas perdeu para um concorrente inglês que ofereceu US$ 1 bi. Com o aumento do tamanho e da geração de caixa, o Ultra já tem em mira outras compras externas.

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O último ganho do grupo é a possibilidade de entrar em um setor que tem um “hedge” natural contra eventuais futuras oscilações no câmbio. Cerca de 40% de seus ativos estarão defendidos contra vulnerabilidades futuras da política econômica brasileira.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
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