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Arquivo de novembro, 2006

30/11/2006 - 22:19

Selic a 10% não é inflacionária?
Por Alexandre Schwartsman

Ainda que o juro a 10% não impactasse tanto o câmbio, contas correntes positivas não são garantia contra a inflação

MEU AMIGO Paulo Tenani escreveu recentemente um artigo em que defendia a tese de que a Selic a 10% não seria inflacionária. A tese pode até ser verdadeira (torço para que sim; acho que não, pelo menos nas atuais circunstâncias), mas não pelos motivos que Paulo apontou no seu artigo.

São dois os argumentos. O primeiro parte de uma noção de arbitragem entre custos de captação do Brasil no exterior e a taxa Selic, que Paulo chama de “aritmética de convergência dos juros”. Como o custo de captação caiu para algo em torno de 6,7%, a Selic poderia cair para níveis inferiores aos atuais sem causar pressão no câmbio.

Esse argumento é verdadeiro, mas ataca o alvo errado. Se o objetivo da política monetária fosse manter a taxa de câmbio num dado patamar, a taxa Selic poderia de fato cair. Isso faria sentido num regime de câmbio administrado, em que a taxa doméstica de juros fosse determinada pela taxa de captação externa mais algum prêmio para compensar a desvalorização esperada e riscos de investimento no mercado doméstico, refletindo um fato conhecido há tempos pelos estudiosos de finanças internacionais: nesse regime, a política monetária deixa de ser autônoma, pois deve sustentar a taxa de câmbio.

Num regime de câmbio flexível, porém, é a moeda quem reage às taxas de juros. A política monetária passa a ter autonomia (não confundir com autonomia do BC) para perseguir objetivos domésticos, tipicamente a taxa de inflação, e o câmbio flutua ao sabor de diferentes variáveis. Buscar, dentro do regime flutuante, a paridade com os custos de captação externa pode até estabilizar o câmbio ao redor de certos níveis (desde que as demais variáveis não mudem muito), mas dificilmente seria compatível com o equilíbrio doméstico, entendido como uma taxa de inflação oscilando ao redor da meta.

No artigo, Tenani alerta para o fato de que o diferencial de juros atrai dólares, provocando uma apreciação adicional do Real e uma queda adicional da inflação. Para Schwarstman, o fator apreciação do Real não faz parte do problema, porque a meta única é a inflação. Aliás, no início do ano, Tenani já alertava que, justamente por esse efeito combinado de juros e câmbio, a inflação iria derreter, caindo abaixo da meta com as taxas praticadas pelo BC, e o câmbio também. E Alexandre sustentava que o alvo era a meta.

Mesmo que o câmbio não se depreciasse, ainda poderíamos ter pressões inflacionárias se originando da reação da demanda agregada à queda das taxas de juros.

Claro que Paulo sabe desse constrangimento e seu segundo argumento busca exatamente refutar a noção de que uma queda adicional de juros de 3,75 pontos percentuais causaria excesso de demanda. Segundo ele, isso talvez (e Paulo sublinha o “talvez”) ocorresse porque o país -ao contrário do observado em seu passado hiperinflacionário- apresenta superávit em conta corrente, um sinal de demanda agregada abaixo da oferta agregada.

Mesmo deixando de lado o fato de o Brasil ter apresentado superávits (não déficits) em conta corrente em média nos anos imediatamente anteriores ao Plano Real, esse argumento não fecha. Superávit em conta corrente implica demanda doméstica inferior à oferta agregada, mas a demanda agregada engloba também a demanda externa (ou seja, o próprio superávit em conta corrente). Vale dizer: superávit em conta corrente não é o mesmo que uma oferta excedente de 1,6% do PIB.

Sempre que há um aquecimento da demanda interna, ocorre um efeito substituição nas exportações, devido ao fato de que, em períodos de desaquecimento, os industriais acabam exportando com margem reduzida apenas para ocupar a capacidade de produção das fábricas. Em seu modelo, o aumento de demanda só provocaria inflação: não há indução ao investimento, aumento da capacidade instalada e exportação desviada para o mercado interno. E, no entanto, é só analisar o que ocorreu com a agoindústria no curto período de um câmbio favorável e preços internacionais favoráveis, para se comprovar a agilidade de ampliar investimentos, quando se tem a devida segurança da manutenção do crescimento.

Paulo sustenta ainda que demanda externa forte se materializa em moeda forte, não em estreitamento do hiato, o que não é necessariamente verdade, pois depende precisamente da política monetária. A esse respeito, sugiro observarmos o que vem ocorrendo com a Argentina, país que enfrenta condições internacionais semelhantes à brasileira, inclusive no que diz respeito à demanda por suas exportações, e que segue política monetária similar à sugerida por Paulo. Lá, o superávit em conta corrente está em 1% do PIB, mas o câmbio nominal não sai do nível de 3 pesos por dólar e o hiato de produto tem se estreitado de tal forma que a inflação, mesmo com controles de preços, está em mais de 10%, enquanto os preços de serviços privados têm subido 18%. O fortalecimento do câmbio real argentino, que é a resposta ao crescimento da demanda externa, vem se dando pela aceleração da inflação, alimentada pela redução do hiato de produto, ou seja, demanda agregada crescendo mais que a oferta agregada.

Schwartsman compara com a situação atual da Argentina, depois de alguns anos de economia super-aquecida. Parte do pressuposto que toda política de redução de juros será igualmente imprudente em relação à inflação. Não tem meio termo em suas análises. Em seu modelo, não se persegue a busca da dosagem correta de juros. Errar para cima (provocando queda do PIB e aumenta da dívida) não tem contraindicação. Errar para baixo (correndo o risco de provocar alguma elevação na inflação) tem. Schwartsman fez parte de uma diretoria do BC que comeu mais de um ponto percentual do PIB por errar por cima. E erra por cima quem não tem suficiente experiência para testar a dose certa.

Resumindo, ainda que a queda da Selic para 10% não causasse grande depreciação do câmbio, superávits em conta corrente não são garantia contra excesso de demanda e aceleração da inflação. Isso não quer dizer que devamos perder a esperança de ver taxas mais baixas no Brasil; apenas que os motivos apontados como razão para que uma queda brusca hoje não causasse inflação não resistem a um exame mais detalhado.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
30/11/2006 - 16:51

Idéias selecionadas

Das torrentes de idéias jogadas até agora sobre o segundo governo Lula, duas mereceriam ser desenvolvidas:

1. A montagem de um sistema de governança nas estatais, na qual o governo participaria apenas dos conselhos de administração, ao lado de outros acionistas minoritários.

2. O desmembramento de um Ministério da Gestão do Ministério do Planejamento, incumbido de pensar nos processos e no aprimoramento da gestão pública.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/11/2006 - 16:06

Soma zero

Quando escrevi que se Lula não sabe, dançou, não era um mero jogo de palavras. Lula está afogado em sugestões das mais diversas para promover o desenvolvimento. Assim como Fernando Henrique, ele não tem idéias claras sobre o que é relevante, quais os obstáculos que devem ser removidos. Um conjunto diversificado de sugestões econômicas para quem não tem clareza sobre o modelo a seguir, resultado, quase sempre, em soma zero.

A discussão está conseguindo produzir o seguinte: 1) Total paralisia, pois as propostas são conflitantes entre si; 2) uma desconfiança cada vez maior de Lula em relação às sugestões, manifesta em uma crescente irritabilidade com cada dica que recebe.

Resultado final: paralisia até que a próxima crise o desperte.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/11/2006 - 16:03

O “apagão” da infra-estrutura

O apagão da infra-estrutura não é tema para se brincar. O governo está cochilando com essa questão, ainda mais depois que a ANEEL divulgou novas projeções de oferta de energia, aumentando para 33% a vulnerabilidade brasileira.

O “apagão” liquidou com o governo FHC e custou alguns anos de crescimento no país. Lula está paralisado pelo medo do mercado de reduzir superávit e outros quetais. Mas não pode vacilar nessa área.

É hora de montar uma Câmara de Gestão da Crise, nos moldes da que foi adotada na crise de energia do “apagão”. Não dá para brincar mais. Nessa área os investimentos levam tempo para maturar. Quando a crise vier, será um vagalhão desmontando a economia.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/11/2006 - 15:56

O novo tempo político

O incidente entre o presidente do PSDB, senador Tasso Jereissatti, e o deputado federal Jutahy Magalhães Júnior era facilmente perceptível a quem acompanhava o rumo da correnteza do rio, sem se contaminar pelo clima beligerante eleitoral. E é mais um capítulo relevante no redesenho político do país.

Desde a campanha eleitoral, estava claríssimo que a partir do final das apurações, chegaria ao fim o tempo de validade dos senhores da guerra e o fim da era FHC.

A reforma do PSDB passaria, necessariamente, por exorcizar as lembranças da era FHC, aposentar a banda mercadista-carlista-carbonária, que tinha em Tasso seu maior expoente, e abrir espaço para os novos comandantes, negociadores e donos de uma visão mais sofisticada de país e de sociedade.

FHC sobrevive provisoriamente nos jornais. Desde ontem, Tasso é presidente deposto pelas circunstâncias. Poderá permanecer no cargo, mas não passará de um presidente simbólico.

Começou o segundo grande movimento de recuperação da política, que é a tentativa do PSDB de se reescrever e se livrar dos fantasmas da era FHC. O primeiro grande movimento é a tentativa do governo Lula e do PT de se livrarem do fantasma dos “operadores”.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/11/2006 - 10:20

A PEC da Previdência

No Guia Financeiro da Agência Dinheiro Vivo, mais dados sobre a PEC da Previdência ( clique aqui).

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/11/2006 - 09:18

Bucci e a mídia

É curiosa a carta que Eugênio Bucci enviou à “Folha”, pedindo retificação de declarações que foram suprimidas da entrevista concedida à repórter Vera Magalhães. Na edição, foi suprimida a afirmação de que a linha apartidária da Radiobrás “só foi viável porque teve o apoio do governo Lula”. E as críticas de Bucci a setores que defendem o apoio à “mídia independente” foram transformadas em críticas a todo o PT.

Na entrevista em questão, Bucci havia negado às pessoas do governo o direito até de “analisar a mídia”, o que é uma extravagância. Deve-se impedir o uso do poder de Estado para coibir à mídia. Mas jamais suprimir o direito de crítica ou de análise, que é inerente a qualquer ser racional.

Mas como se comporta o professor e homem de governo Bucci quando vítima da edição da sua entrevista? “Reafirmo que não cabe a governos ou a estatais fazer análise de mídia, tanto que interrompi as colunas que mantinha sobre esse tema quando assumi a presidência desta empresa. Mas é dever do servidor público, em respeito à própria sociedade, solicitar correções, quando necessárias, em notícias que lhe digam respeito. É o que faço agora.” Amar é não ter que pedir perdão.

É curiosa essa transformação de Bucci. O Bucci pré-Radiobrás era outro -e igualmente questionável. Certa vez tive uma polêmica com ele porque sustentava que o padrão Globo de qualidade dos anos 70 só teria sido possível pelo fato de ter ocorrido no regime militar, e o governo ter impedido a competição com as demais emissoras. Caso contrário, a Globo teria apelado ao popularesco, como ocorria na época da sua análise. Quando escreveu essa análise, Bucci tinha alto cargo na Editora Abril.

Ignorava o fato de ter havido uma competição acirrada nos anos 70 (Tupi, Record, Excelsior); de que havia uma profunda mudança no mercado de consumo e publicitário; de que para contentar o regime bastaria o documentário de Amaral Netto; e que o padrão Globo fazia parte da nova lógica do mercado de consumo moderno que se formava, na qual a análise das agências de publicidade privilegiava veículos com maior leque possível de consumidores-espectadores.

O “padrão Globo” foi um feito jamais igualado, de programação de altíssima qualidade conquistando audiência em todos os segmentos sociais. E só foi possível porque montou um time profissional de primeira qualidade.

Agora, o Bucci-Radiobrás dá uma volta de 180 graus, troca a visão conspiratória por uma visão idílica da mídia, mais uma vez fugindo do essencial. Ele avalia que a publicidade do governo deve ser distribuída de acordo com “critérios técnicos”. De acordo! Só que se exime de analisar o mercado hoje em dia, totalmente maculado pelos BVs (Bonificação de Veiculação), que os grandes veículos pagam às agências de publicidade para conquistar fatias maiores do bolo. Obviamente não se trata de uma prática de mercado. É uma distorção que fere amplamente qualquer norma básica de direito econômico dentro de uma economia de mercado, e que foi um dos grandes fatores a impedir a competição na mídia -um fator trágico porque, ao matar a competição, deixou a grande mídia acomodada, sem capacidade de inovação, resultando na atual crise de credibilidade.

Ora, Bucci não é apenas um “homem de governo”. É um analista da mídia e pessoa que ocupou alto cargo na Editora Abril. É impossível que não conheça essa realidade.

Tudo bem que homens de governo não possam analisar a mídia publicamente. Mas ao analisar políticas de publicidade não pode suprimir dados essenciais para entender o mercado atual. No fundo Bucci “editou” a sua análise de maneira muito pior do que a própria “Folha” o fez.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/11/2006 - 07:00

A Radiobrás e a BBC

Na aba de ECONOMIA, a Coluna Econômica discute o papel da Radiobrás e da rede pública de televisão.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/11/2006 - 23:37

O submarino alemão

Vamos a um novo capítulo sobre a guerra dos submarinos.

A Marinha brasileira pretende adquirir um submarino alemão modelo U-214, fabricado pelo estaleiro alemão HDW. O mesmo equipamento foi comprado pela marinha da Grécia, mas após os primeiros testes, uma série de problema técnicos preocupa os compradores. Segundo a imprensa grega, a marinha detectou seis problemas:

1. Variação de até 50 graus na inclinação em mares revoltos;

2. Problemas no sistema de propulsão e combate;

3. Vazamentos de água do mar no sistema hidráulico;

4. Nível de ruído que permite fácil detecção pelo inimigo;

5. Instabilidade no periscópio de ataque;

6. Aumento da temperatura interna

A empresa alemã informou que não era nada sério e de acordo com informações na marinha grega, o problema não foi resolvido. Isso só será feito, segundo a marinha em declarações à imprensa grega, após a fabricante se comprometer por escrito a consertar os defeitos, o que até agora não aconteceu.

A marinha grega rebate as acusações de que poderia ceder e aceitar a entrega dos quatro submarinos com sérios defeitos e ameaça jogar o contrato de 1,7 bilhão de euro por água abaixo. O problema é que o governo grego já pagou 80% do contrato e agora exige que a fabricante alemã acerte a encomenda.

Os alemães tentam pressionar os gregos e alegam que o segundo submarino está em construção com o mesmo molde do primeiro, que apresentou os defeitos. Eles chegaram a ameaçar com o fechamento do estaleiro Skaramangas, que compraram na Grécia para construir os submarinos. Isso criou ainda mais tensão no relacionamento Alemanha-Grécia. Veja no arquivo anexo uma seleção de matérias extraídas de jornais gregos (em inglês) com a seqüência dos fatos polêmicos.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/11/2006 - 15:26

Aproveitamento da biomassa

Do Projeto Brasil

Em um mundo onde as fontes de energia estão cada vez mais escassas, o aproveitamento total das matérias primas renováveis se torna importante. A biomassa de cana, por exemplo, pode ser fonte de biocombustível e eletricidade ao mesmo tempo, além de incentivar o setor de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). No processo de cogeração com biomassa, a obtenção de eletricidade e calor acontece com a queima de material orgânico.

Após a moenda, um terço do produto é usado para formação de açúcar e etanol (biodiesel). As sobras, formadas por bagaço, folhas e pontas são queimadas e geram eletricidade para alimentar as fornalhas. Cerca de 30% da eletricidade obtida é usada para consumo próprio e os 70% restantes podem ser exportados ao Sistema Interligado Nacional (SIN) ou a consumidores interessados.

Atualmente, o principal desafio para a disseminação da biomassa é a falta de redes de transmissão em áreas rurais, que pode impedir a venda de energia ao SIN. Representantes do setor afirmam que a previsão do ministério de que a fonte será responsável por 1% da geração de energia é tímida e pode ser ampliada.

O incentivo à P&D ocorre com a necessidade de se produzir equipamentos adaptados que podem garantir produtividade até 250% superior. Núcleos de P&D podem ser beneficiados já que quase todo maquinário necessário é produzido no Brasil. A eficiência permite que usinas produzam cada vez mais com as mesmas quantidades de matéria prima.

Embora necessite de ajustes regulatórios, as usinas de biomassa consolidam-se como geradoras de energia elétrica e calor em menor tempo, além de participar do mercado de créditos de carbono.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
29/11/2006 - 14:35

A Previdência e a PEC 20

Está no Congresso a espera de regulamentação a PEC 20, que praticamente resolve o problema da aposentadoria do funcionalismo público, além de alavancar o investimento através da indústria dos fundos de pensão.

Basta regulamentar.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/11/2006 - 09:43

Portadores de futuro

A coluna da antes de ontem foi escrita antes do evento de premiação da Fundação Nacional de Qualidade (FNQ), ocorrido na segunda-feira, em São Paulo.

Fosse este um país com exata compreensão do conceito de relevância, a cerimônia contaria com a presença do presidente da República, ministros e dos governadores eleitos.

Estavam todos os pioneiros lá, de empresários e executivos como Edson Vaz Musa, Jorge Gerdau, Bob Mangels, Herman Wever, Carlos Salles, a técnicos do governo da época, como Dorothea Werneck, Antonio Maciel. José Paulo Silveira e o pai de todos, ex-Ministro José Israel Vargas que lançou as bases dos programas de qualidade no bojo do Acordo Nuclear com a Alemanha, nos anos 80.

A Fundação Nacional da Qualidade me deu a honra de me incluir entre os 25 nomes que ajudaram a criar a história do setor do país.

Nos intervalos, deu para reconstituir a primeira ação efetiva para dotar a economia brasileira de competitividade: a saga da Câmara Setorial da Indústria Automobilística.

Foi uma montagem política extraordinária, depois que o recém-eleito presidente Fernando Collor lançou a provocação sobre a “carroça” que o Brasil fabricava.

Do lado empresarial, o acordo foi amarrada com dezoito entidades, incluindo os presidentes de todas as montadoras, em um plano meticulosamente planejado por Maciel. Do lado sindical, a Ministra Dorothea Werneck logrou um apoio inédito da CUT. A entidade não apenas aderiu ao acordo automotivo, como começou a implementar programas de gestão internamente.

Em pouco tempo abriu-se o horizonte e o país moderno começou a se impor. As empresas passaram a implementar programas de qualidade. Depois, descobriram que o melhor investimento que poderiam fazer seria em pessoas. Até a paisagem urbana começou a mudar. Em, Betim, a Fiat passou a enfeitar suas instalações com jardins e aquários e, em pouco tempo, montava ações para que as casas de seus trabalhadores pudessem se transformar em jardins.

O maior fenômeno da moderna história do país não foi captado pela mídia quando começou, nem quando ganhou vôo de cruzeiro. Nem quando completou quinze anos de vitórias e transformações.

Em 1994, o plano de abertura gradual da economia, com melhoria contínua dos processos gerenciais foi violentamente atropelado pela política cambial do Real. Da noite para o dia o real se apreciou em 20%.

As empresas nacionais foram jogadas em um vendaval. Cadeias produtivas inteiras foram destroçadas enquanto a personalidade acomodatícia de Fernando Henrique, primeiro, de Lula, sem seguida, iam matando as esperanças de promoção do desenvolvimento.

Mas os guerreiros da qualidade continuaram. Empresas nacionais, multinacionais instaladas no país, o setor secundário, o terceiro setor, funcionários públicos, o exército da qualidade não esmoreceu.

Quando se anunciou o nome do vencedor do ano, a Belgo Mineira, a platéia em ovação, na celebração dos avanços obtidos por um dos seus. No discurso do presidente da Promon (uma das finalistas), ficava clara a emoção por perseguir permanentemente a perfeição, e ajudar o país a crescer. Sabia estar cumprindo uma missão.

Nos discursos finais, Jorge Gerdau fez mais um chamamento à responsabilidade empresarial. “Nós que ganhamos esse conhecimento, e mudamos nossas empresas, temos a obrigação de disseminá-lo por todo o país”. E o presidente da FNQ, Pedro Passos, da Natura, chamou a atenção para a nova etapa do desafio nacional, as novas visões sobre a integração das empresas brasileiras do mundo e da melhoria da vida interna do país.

O evento passou em branco na mídia, no governo. Mas ali naquele hotel da Brigadeiro Luiz Antonio, havia um país vitorioso, com sentido de missão, entendendo que desenvolvimento é um processo sistêmico, que o melhor investimento que se faz é em pessoas. É um país de pensamento sofisticado, que fala em processos, em modelos de interdependência com fornecedores, em cadeias produtivas, em estratégias de globalização, em parcerias com trabalhadores, em inovação..

Ao longe, ouviam-se os ecos das últimas formulações dos cabeças-de-planilha repetindo bordões simplificadores sobre gastos públicos, Previdência, e sendo saudados por uma multidão de cegos fundamentalistas como se portassem as novas verdades.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/11/2006 - 09:10

Secretariado de Cabral

O convite a Joaquim Levy para ocupar a Secretaria da Fazenda, e a Jerson Kelman, atual diretor-geral da ANEEL, são indícios de que o novo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, tem discernimento para escolher bons quadros — pré-condição para qualquer governo eficiente.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/11/2006 - 08:58

O modelo chinês

Enviado por: Ruben
Nassif,

não entendo seu relativo pessimismo com a China. Alguns pensamentos:

1) existem duas estratégias de desenvolvimento econômico amplamente testadas e com grande sucesso: o mercantilismo, ou seja, o desenvolvimento de uma economia fundado num mercado exportador, e o que eu chamaria do modelo britânico, ou seja, viver sempre em deficits de conta corrente, consumindo bem mais do que produz, e fechando a conta com uma crise econômico-financeira periódicamente, que lhe permite recomprar os seus ativos por preço de banana que tinham sido vendidos a preços altíssimos. As duas, estratégias, complementares funcionam muito bem. Existe uma outra, que funcionou em somente 1 país, os estados unidos, de crescimento orgânico pela demanda interna. Nunca ninguém replicou isso, mas continua sendo propagado como modelo ideal pelos economistas-ideólogos americanos. O fisco da américa latina, e do brasil em particular, está aí para quem quiser ver. O príncipe do neo-liberalismo, o Chile, esta condenado à mediocridade: os cortiços continuam lá, e estarão lá daqui a 20 anos!

2) Investimento em infra-estrutura na China não é coisa nova, mas uma questão de visão estratégica. Qdo Deng assumiu o poder, seus assistentes econômicos chegaram para ele e disseram: bem achamos que a china precisa de muitas vias-expressas. Deng rebate: estão loucos? as pessoas não tem nem condições de comprar uma bicicleta e vcs querem vias expressas? Não obstante foi convencido, e no bom estilo chinês não construiu uma ou duas, mas definiu um plano muito ambicioso de construção, por 15 anos. Em 1997 a china tinha muitas vias expressas e nenhum fluxo nelas. Novamente a decisão estratégica: vamos construir mais. Hoje a China tem uma infra-estrutura só comparável a dos EUA. O desenvolvimento não teria sido possível sem isso. Enquanto isso no brasil discutia-se (afinal é só isso que se faz neste país, discutir) as condições para o desenvolvimento econômico sustentado…

3) A china ainda está perseguindo o modelo mercantilista. Ainda há muito espaço para ela na economia global. A china, que já se tornou uma exportadora líquida de bens de capital, tornar-se-á nos próximos anos a grande produtora delas, forçando os seus competidores à especialização: alemanha em instrumentos de alta performance, e japão em sistemas automatizados de alta performance, por exemplo. Tem muito ainda o que entrar na indústria mecânica… Vai pegar o brasil em cheio!

4) a fase final do desenvolvimento mercantilista é ineqüívoca: depois de atingir um certo patamar de riqueza, de atingir as condições demográficas adequadas, com uma taxa de câmbio valorizando-se, juros baixos, dá-se o desenvolvimento do mercado interno. Vide alemanha e japão nos anos 70…

5) A china não pretende entrar nesta fase ainda, mas como todos sabemos, há pressões de todos os lados. A demografia exige (é uma população envelhecendo), as pressões sobre a taxa de câmbio crescem a cada dia, as tensões sociais trasnparecem. Mas a china é ainda muito pobre. Precisa de mais 10 anos. Terá? Difícil dizer. Por enquanto tem feito um bom trabalho…

6) O capitalismo chinês está claramente na fase Schumpteriana: competição acirrada por crescimento, destruindo margens de lucro: o vencedor fica com tudo. Ainda haverá o movimento de consolidação do setor corporativo chines: qdo terminar diria que pelo menos 5 dos 10 mais ricos do mundo serão chineses.

7) Qdo Wall-Mart entrou na china, por exemplo, nos idos de 1996, o objetivo era singular: se 10 entre 10 pessoas antes viam a china como um mar de consumidores potenciais, Wall-Mart viu a china como um mar de trabalhadores baratos. Investiu, lucrou: não assumiu riscos desproporcionais. O capital investido pagou-se em muito pouco tempo. Qdo as empresas dos tigres asiáticos fizeram o mesmo, também não se arriscaram: o capital pagou-se em pouco tempo.

8) Talvez a grande frase do velho Fidel: não é ecologicamente viável o mundo ser como a economia americana! Muito verdadeiro. Que deus nos proteja no dia que os chineses quiserem andar com SUVs….

9) A grande oportunidade do brasil é a possibilidade de precificação do alimento pelo seu conteúdo energético além de seu conteúdo proteico. Que os EUA abram seu mercado de etanol: a gente descobre como plantar cana no mato grosso :)

Comentário

A China está seguindo a máxima de Friedrick List, de assimilar os fatores de produção. Em tudo, ela repete a velha Inglaterra, na atração de investidores externos, de imigrantes, na assimilação de tecnologia externa, no uso de todas as armas para aumentar a competitividade (do câmbio depreciado ao subfaturamento das exportações para pagar menos imposto). Como preconizava o próprio List, após a conquista do mercado externo, tem que consolidar o interno e ter uma base sólida. Caso contrário as empresas mudariam de país ao primeiro problema, como aconteceu com a Liga Hanseática.

No mais, muito boa a sua análise.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Economia Tags:
29/11/2006 - 07:00

O presidente dançou

Na aba de ECONOMIA, a Coluna Econômica mostrando como se joga fora um ponto percentual do PIB e não se ouve uma voz de lamento.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/11/2006 - 15:41

Um caso de intolerância

Enviado por: Aline Linhares

Nassif,

Por falar em intolerância como arma política, com referência ao regime militar e à intolerância no governo FHC a qualquer forma de valores nacionais, quero juntar esses dois temas no que importa ao trato que se tem dado à Saúde no Brasil. Não é bem o que você pede neste post, mas acho que é uma questão transversa que caberia aqui.

Gostaria de fazer um breve relato e, ao mesmo tempo, se você me permitir, uma homenagem a meu pai, Ericsson Soares Linhares, que foi sociólogo, médico e professor de medicina da UFRJ, um dos pioneiros (ou o pioneiro) em dosagens hormonais no Brasil e na América Latina.

Em meados da década de 50, Edinburgo, na Escócia, tornou-se o primeiro centro de referência mundial em dosagens hormonais, e a UFRJ não perdeu tempo, providenciou uma bolsa de estudos e enviou o prof. Linhares para lá. Na volta ele criou o serviço de dosagens hormonais da faculdade na Enfermaria 33 da Santa Casa da Misericórdia do RJ, e abriu seu laboratório particular.

Em 1969, a Dra. Rosalyn Yallow, de Nova York, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina pela descoberta do método radioimunoensaio (medicina nuclear), que permitia dosagens no sangue, e não mais na urina, aumentando a precisão dos resultados e abreviando o tempo do exame, antecipando diagnósticos. Estávamos no regime militar e a UFRJ não liberou nenhuma bolsa de estudos, mas o prof. Linhares, em 1970, resolveu ir por conta própria, e estudou com a Dra. Yallow por um ano no Mount Sinai Hospital, NY.

Na volta decidiu trazer duas aparelhagens completas, do próprio bolso, uma para a faculdade e outra para o seu laboratório. Ao chegar a grande surpresa foi que os militares impuseram uma taxa de importação de 100% mesmo para a aparelhagem que seria doada à faculdade. E os aparelhos já eram caríssimos sem tal taxação. Era como se desenvolvimento da ciência médica nacional fosse considerado ato subversivo e precisasse ser impedido. Mas o prof. Linhares pagou o preço exigido, para decepção dos militares, e a Enfermaria 33 continuou mantendo níveis de primeiro mundo nos seus serviços.

No governo FHC, e a sua gestão “moderna” da área da Saúde, os preços dos serviços médicos praticados alcançaram tamanha irracionalidade que chegou-se a ter casos de exames que não poderiam mais ser realizados porque apenas o preço do kit necessário para realização do exame já era bem superior ao pagamento que seria recebido.

Por volta de 1998, começaram a surgir boatos de que a intenção desta prática seria levar à falência os laboratórios nacionais que acabariam sendo comprados por grandes laboratórios estrangeiros. Inicialmente os pequenos laboratórios foram comprados pelos grandes laboratórios ainda nacionais, e depois, de fato, os grandes nacionais acabaram sendo comprados pelos estrangeiros. Os nomes originais dos laboratórios nacionais foram mantidos, por exemplo o Lâmina, do RJ, que hoje pertence a uma empresa americana.

É interessante lembrar que houve uma campanha prévia na mídia derrubando os laboratórios nacionais. Lembro de uma reportagem do Fantástico, na Globo, relatando o envio de guaraná, como se fosse urina, para os nossos maiores laboratórios, que teriam realizado diagnósticos improváveis no guaraná, como gravidez, por exemplo. Sempre tivemos dúvidas da razão, e até mesmo da veracidade, de tal pesquisa.

Alguns poucos laboratórios nacionais sobreviveram, mas não saberia dizer agora quantos nem como, já que os nomes brasileiros em todos os estrangeiros foram mantidos. Prof. Linhares, com muita tristeza, resistiu por algum tempo associando-se a um amigo, Braga Filho, que fazia patologia clínica geral, mas veio a falecer em seguida, em janeiro de 2002.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/11/2006 - 09:25

Quinze anos de qualidade

Na aba de ECONOMIA, quinze anos do programa que mudou o Brasil, e que nenhum presidente (com exceção de Collor) soube ou viu.

Clique aqui.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/11/2006 - 09:21

Dos fatos e das manchetes – 2

Manchete da “Folha” de hoje: “Publicidade oficial ajuda a bancar a TV do filho de Lula”. No primeiro parágrafo da manchete a informações de que “a Gamecorp (…) divide com o Grupo Bandeirantes o faturamento obtido com verbas federais em anúncios na Play TV”.

Diluídas nas páginas internas as seguintes informações:

1. Todas as informações foram fornecidas pela própria Bandeirantes, no processo que move contra a Editora Abril. O juiz tirou o segredo de justiça, e o repórter pode consultar os autos e selecionar as informações a serem destacadas na matéria.

2. Internamente, pela matéria fica-se sabendo que contrato da Gamecorp com a Bandeirante prevê a divisão em 50% de toda a publicidade arrecadada. Não há uma cláusula especial para publicidade de órgãos públicos, conforme sugere o texto destacado da primeira página. Internamente, artigo de Daniel Castro, o crítico da TV da “Folha”, informa que esse tipo de contrato é comum no mercado.

3. O infográfico mostra que a PlayTV deverá faturar R$ 5,2 milhões em 2006, e que o Banco do Brasil e a Caixa estao entre os maiores anunciantes (provavelmente estão entre os maiores de qualquer emissora ou editora). Quando se entra nos valores (perdidos no meio do texto), fica-se sabendo que, em 2006, as verbas federais para o PlayTv foram de R$ 597 mil, ou 11% do faturamento previsto, e 68% inferiores à publicidade oficial em 2005, ano em que a Gamecorp ainda não participava do faturamento do Canal 21.

4. Na defesa, feita pelo advogado Walter Ceneviva, fica claro que a PlayTV concorre diretamente com a MTV, da Editora Abril, que iniciou a campanha contra a Gamecorp.

5. A matéria envereda, assim como a “Veja”, em ilações sobre anunciantes privados. A intenção da “Veja” é intimidar esses anunciantes privados com o tom de escândalo conferido às matérias, sufocando a empresa por vias indiretas. A “Folha” acaba embarcando nisso, embora não seja de seu feitio.

6. Ao contrário da “Veja”, historicamente a “Folha” fornece todas as informações. Só que, ao se juntar todas as peças, não se encontra o todo anunciado na primeira página.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/11/2006 - 07:00

Quinze anos de qualidade

Na aba de ECONOMIA, os quinze anos do movimento que transformou o país. E que nenhum presidente ainda entendeu adequadamente.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/11/2006 - 07:00

Riscos e oportunidades na China

Na aba de ECONOMIA, a terceira matéria da série sobre a China, mostrando os riscos do modelo chinês de crescimento.

Clique aqui.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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