iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

Arquivo de maio, 2006

30/05/2006 - 09:11

Pelas Salas do UOL

Não sei se por anos, décadas ou séculos,

esperei bater à minha porta

certa mulher

A queria altiva, não solene.

Não a queria simples, mas complexa.

Não devia ter a bússola, mas o leme

e com ele perseguir o rumo,

qualquer rumo, por qualquer quebrada,

contanto que em meio à sua caminhada

viesse dar à minha porta,

eu também sem rumo.

Não sei se por décadas ou anos,

esperei pela mulher que não chegava.

Onde estava? Talvez escondida

num desvão dos meus vinte e um anos.

no inventário dos meus desenganos,

numa curva daquela estrada abrupta

em que ingressei, quando encarei a vida.

Esperei pela mulher que não chegava,

que devia ser altiva, não astuta,

que devia ser paixão, não força bruta,

incendiando a minha existência.

Esperei por muito tempo, muito tempo, muito tempo, muito tempo, muito tempo…

Mas os anos passaram num relance,

e a mulher que eu queria já não era.

Ou era apenas o retrato de vinte anos atrás,

dolorido, saudoso, mas retrato.

Agora, dona de casa, compassiva e muda,

sem mais nada a ver, posto que presa à labuta

de acordar,

cozinhar,

servir a mesa,

levar os filhos para a escola…

E, à noite, quando o marido se vira para o canto,

Relembrar sonhos perdidos.

(continua)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
30/05/2006 - 09:10

Lhe abriria as portas e os salões da intelectualidade eloqüente da capital, que, com seus vanilóquios intermináveis, fascina a intelectualidade contida do interior.

Em troca, seria confidente e cúmplice,

incumbida de trazer ao chat

a mulher que um dia idealizei,

para um último papo, duas, três lembranças,

um arremate para a conversa inconclusa

cujo desfecho ficou parado no ar

na noite em que enterrei meus sonhos.

A moleca ouviu um tanto intrigada

a proposta descabida e louca,

vinda de quem mal conhecia

– um nick provocador e debochado

cuja diversão mais ostensiva,

consistia em ironizar sua erudição.

Pensou em tratar com desaforo

a proposta que a subestimava,

como se buscasse o autor, e não a obra,

como se mendigasse sobras de poesia,

como se fosse uma nova rica da cultura…

… mas não resistiu a penetrar, àquela altura ,

na porta que inesperadamente se entreabria.

(continua)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
30/05/2006 - 09:10

Aonde iria dar, em algum louco?

Em algum misógino? Em um fantasma delirante?

Em um alucinado amante? ou, pior, em um gozador?

Ou em um cético contaminado

pelas libações da Internet,

(como aquele médico pirado de Floripa,

que exercitou as armas da conquista…

E, depois, simulou a própria morte,

deixando-a perdida entre o real e a fantasia).

E o que viu a deixou mais intrigada.

Quem era aquele desbocado

que inesperadamente

lhe fazia confidências doloridas?

que usava as mensagens reservadas,

não para corte ou cantadas,

ou trepadas virtuais em malcomidas,

mas para confissões de vida?

Aceitou de pronto a proposta.

E, montando em conjunto a conspirata,

criou-se total cumplicidade,

entre os dois tipos mais trocistas da sala.

Primeiro, matricular-se no curso de inglês

onde a mulher preenchia sua vida vazia

dando aulas comedidas.

Depois, insinuar-se junto a ela,

falar dessa nova invenção que

permitia

a quem buscava, encontrar,

ao romântico, romancear,

ao incuravelmente travado

destravar a declaração reprimida.

(continua)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
30/05/2006 - 09:09

Durante semanas teceu-se a urdidura.
E Heddy Lammar, que era rocha pura,

e Salitre de Tal, pura armadura,

esqueceram por instantes de suas lanças,

e do exercício rotineiro do sarcasmo.

E o chat perguntava, o que deu neles?

De certo tramando a grande sacanagem,

a suprema parceria, o trote clássico e fatal,

entre Heddy Lammar e Salitre de Tal.

A cada noite, depois do batente,

encontrávamo-nos no ICQ para balanço

e aprimoramento da estratégia traçada.

A cada manhã, antes da labuta,

encontrávamo-nos de novo.

Na hora do almoço, mais uma vez.

E aproveitávamos os intervalos da grande armação

para confidências, revelações discretas,

plantadas distraidamente na conversa

como intervalos comerciais da grande novela.

E de revelação em revelação

rapidamente penetramos

nos recantos mais secretos de cada um.

Em breve, ela viu em mim um solitário.

Rapidamente a intuí tão só.

E enquanto as comportas se abriam

jorravam torrentes de dor e de agonia,

de dois náufragos navegando ansiosos

pela cósmica solidão de um mundo novo.

Pressentindo Heddy Lammar sozinha,

sentindo em mim a solidão latente,

tornamo-nos hóspedes permanentes

de nossa solidão vizinha:

eu abrigando minha solidão na dela,

ela amparando sua solidão na minha

(continua)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
30/05/2006 - 09:06

Aí, houve a necessidade mais premente.

de um mergulho fatal e inquietante

que permitisse decifrar num só instante

a árvore, o fruto, a polpa, a semente.

Não valia mais o grande enigma,

antes fascínio, agora, insegurança.

O que valia era a pronta resposta,

a comprovação de que a grande aposta

em vez de risco, era aventurança

E como doeu, meu Deus, como doeu,

desvestir cada véu, cada escama,

revolver cada lençol na cama,

farejar resquícios de paixão.

Como doeu espreitar a energia,

a vitalidade jovem e sadia

de quem aprendeu sem carregar as culpas,

que carregou a minha geração.

Como doeu decifrar as aventuras,

algumas vagas, outras muito duras,

umas antigas, outras invadindo,

o início tenso de nossa paixão.

Ao final do processo, eu exaurido,

não exaurido, diria bem mais sábio,

como leitor daqueles alfarrábios

que decifravam a condição humana,

entendi o início e o meio,

comprendi o desfecho e a conclusão.

E foi assim que esse amor tão louco,

encontrou-se como o barco ao porto

depois de noite de mil provações.

Hoje, a cada manhã que amanheço

A espreito no leito e me enterneço

Com o reencontro, o reinício.

E recomeço.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
30/05/2006 - 09:05

Raio X da Notícia: Segurança Pública

Na recente crise da segurança pública em São Paulo, sobrou mais para o Secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, menos para o Secretário de Segurança, Saulo de Castro Abreu.

Nagashi tem biografia. No início dos anos 80 cumpriu um trabalho exemplar de juiz em Bragança Paulista, regularizando os processos de adoção, e investindo corajosamente contra o poder político de Nabi Abi Chedid – cuja família controlava uma creche que vivia de verbas públicas, e tratava mal as crianças. Depois, notabilizou-se por seu trabalho de ressocialização dos presos. Em Bragança juntou-se à sociedade civil e criou uma delegacia modelo, na qual ficavam presos de menor periculosidade aprendendo profissões e a se relacionar com o mundo.

Mais tarde, tornou-se Secretário do ainda governador Mário Covas. No Prêmio Mário Covas de Inovação na Gestão Pública de 2004 – do qual fui jurado – foi, de longe, o Secretário com melhores iniciativas, práticas, criativas, humanas.

Nagashi representava o lado humano da segurança pública, Saulo o linha dura. Mas quem era o mais eficiente ou o menos ineficiente? É importante se deter menos sobre o estilo de ambos, e mais sobre a eficácia de cada um.

Há duas frentes de combate ao crime. No plano penitenciário, duas ações conjuntas. De um lado, descompressão das tensões do sistema carcerário com um trabalho de promoção social que permita a recuperação dos presos de baixa periculosidade, algo que Nagashi executou brilhantemente. De outro, um trabalho sistemático de isolamento das lideranças mais perigosas, o que, obviamente, não foi feito.

A segunda linha de ação é o trabalho de inteligência e de policiamento intensivo, o primeiro atuando sobre o crime organizado ou sobre crimes continuados, o segundo na repressão ao crime não previsto. O primeiro trabalho compete à Polícia Civil, o segundo à Polícia Militar. Para que o conjunto funcione, há a necessidade de cooperação, troca de informações, ação conjunta e sinérgica.

A partir daí, uma avaliação integral do episódio precisaria responder às seguintes questões:

1. A quem competia acompanhar o crime organizado e a atuação dos líderes presos: a Secretaria de Nagashi ou a de Saulo? A inteligência policial estava nas mãos de Saulo, não nas de Nagashi. O poder de quebra do sigilo telefônico é da Segurança, não da Administração Penitenciária. O Secretário demissionário alegou ter solicitado várias vezes a Saulo que mandasse policiais para um trabalho conjunto nos presídios, e os pedidos não foram atendidos.

2. Como era a integração entre ambas as Secretarias? Segundo Nagashi, em quase sete anos de atuação conjunta, não conseguiu mais do que dez reuniões com Saulo. Essa mesma dificuldade de trabalho conjunto com Saulo foi relatada por fontes do Ministério da Justiça. Notícias recentes davam conta de que não existe integração e trabalho sinérgico sequer entre as Polícias Militar e Civil. Aliás, o surpreendente é que, em sete anos de governo, o ex-governador Geraldo Alckmin manteve apenas uma reunião conjunta com os três secretários.

3. Não ter avisado a tropa sobre a transferência das lideranças do PCC para presídio de alta segurança foi uma imprudência que custou a morte de vários policiais. De quem era a responsabilidade, de Nagashi, que dirigia presídios, ou de Saulo, que tem contato direto com a tropa?

4. O governo foi derrotado nos dias em que o PCC tomou conta da cidade. O governador Cláudio Lembo foi imprudente em manter no posto os generais derrotados. Mordidos com as ações do PCC, a Secretaria de Segurança e o Comando Geral da PM liberaram geral. São Paulo foi derrotado duas vezes, com os policiais chacinados, e com todos os que foram vítimas das represálias policiais, em um campeonato macabro sobre quem executava mais.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/05/2006 - 09:04

O Blog

Depois de algum tempo de resistência, resolvi aderir aos blogs. Em parte, por acreditar que o futuro do jornalismo está na Internet. Em parte, devido à enorme e revitalizante interação com o público leitor. Durante alguns anos, em lugar de temas econômicos, publiquei crônicas na minha coluna de domingo na “Folha”. Era uma maneira de trazer à tona uma veia literária de juventude, que o jornalismo tinha contido por alguns anos.

Mas também uma forma de passar a mensagem de que um país não se fazia apenas com a vã economia. Havia valores relevantes, que absorvi ao longo da infância e da adolescência, do início da maturidade, que pareciam desaparecidos nessa geléia geral da internacionalização dos anos 90. E havia uma enorme demanda dos leitores por temas dessa natureza.

As crônicas me renderam enorme satisfação e um prêmio de finalista do Jabuti, categoria contos e crônicas, com o livro “O Menino de São Benedito”.

Quando a “Folha”, por razões editoriais internas, decidiu suspender a publicação, passei a prospectar a Internet, através de sistemas de mailing, de ferramentas de extração de endereços. E aí e emoção redobrou. Você assistia os e-mails sendo disparados, ía recebendo os retornos, acompanhando os lidos, os não lidos, e o mailing foi sendo enriquecido com pedidos de inclusão que muito me honraram, como os de Ivan Lessa, Jader de Oliveira, Artur da Távola, os incentivos de Moacir Scliar, dentre outros. Apenas uma coisa me incomodava.

Com o fim das crônicas na “Folha”, perdi os meus “velhinhos”, um público mais velho, pouco afeito à Internet, mais chegado ao papel, mas que aquecia meu coração com suas cartas e bilhetes.

O formato do Blog será o seguinte:

1. Durante a semana prevalecerão os comentários políticos e econômicos.

2. Nos finais de semana, as crônicas e comentários sobre músicas, além de trechos de livros meus já publicados.

Orgulho-me muito do nível de meus leitores. Sempre que levanto um tema polêmico, costumo receber e-mails consistentes, de pessoas com diferentes opiniões. Pretendo abrir espaço para esse tipo de comentário, mais do que para os comentários curtos e impressionistas dos blogs convencionais.

Por isso mesmo, quem tiver comentários maiores a fazer, poderá escrever para luisnassifonline@uol.com.br Os melhores serão publicados, dentros dos limites de espaço do blog.

O Blog será dividido em quatro categorias principais, o Blog propriamente dito, Crônicas, Minhas Músicas e Livros. Todo o material blogado sairá obrigatorimente na página do Blog. Mas ficará armazenado, inclusive para efeito de pesquisa, nas janelas correspondentes a cada categoria.

Em Crônicas pretendo trazer reminiscências, um pouco de historiografia e temas ligados à história da música. Em Minhas Músicas, vou expor pesquisas com músicas marcantes ou com lançamentos de novos autores. Eventualmente, incluirei composições minhas. Em Livros, trechos de livros já publicados, e ensaios de novos livros em que estou trabalhando.

Para temas mais complexos, pretendo exercitar um tipo de cobertura já ensaiada em discussões como a da TV Digital e a da transposição das águas do São Francisco. Haverá uma interação com o site do Projeto Brasil ( www.projetobr.com.br) e uma explicação didática dos diversos ângulos envolvidos na discussão, assim como a participação de cada ator trazendo seus argumentos, rebatendo os argumentos da parte contrária, tudo no tempo real que a Internet permite praticar.

Espero poder cumprir um papel dentro desse espaço precioso que o UOL me abriu.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/05/2006 - 14:37

A Morte de um Deus do choro

A morte de Dino Sete Cordas na semana passada me pegou de surpresa. Há tempos se sabia que sua saúde não ia bem. Tinha tido um derrame, deixara de tocar, mas seu nome continuava a referência viva maior do choro, ao lado de Altamiro Carrilho. E sempre fica a sensação de que os deuses não morrem.

Só quem é do mundo do choro saberá avaliar corretamente a importância do Dino para nossa tropa. Ele não foi o inventor do violão de sete cordas, que possui uma corda a mais nos bordões, mas foi o seu consolidador. Em dupla com Meira, produziu o que de melhor o acompanhamento brasileiro já criou, uma inovação de contrapontos que permitiu ao choro chegar perto do jazz, como criação coletiva contrapontística.

Tocando no Regional do Canhoto e, principalmente, no Época de Ouro, acompanhando Jacob do Bandolim, Dino criou uma escola de contraponto que serviu não apenas ao violão. O próprio Jacob, em suas inesquecíveis gravações com Elizeth Cardoso, utilizava os recursos de Dino nos desenhos que bordava ao bandolim.

Até o irascível Jacob se curvava ao talento e à personalidade de Dino. Tanto que, contam as lendas, mantinha duas formações de choro: a titular com Dino; depois, havia um terceiro violão, que aparecia menos, mas que era necessário porque acompanhava Jacob em qualquer sarau, enquanto Dino se restringia às gravações profissionais.

A primeira vez que vi pessoalmente Dino foi no Festival de Choro da Bandeirantes, lá pelos idos de 1977. Fui cobrir pela revista Veja, mas não resisti e pedi seu autógrafo. Ele era a estrela maior, cercado pelos jovens músicos e fãs do choro, atraindo mais gente que outras figuras históricas como K-Ximbinho ou mesmo os conjuntos da jovem guarda do choro da época, como os Carioquinhas (onde pontificava o futuro sucessor de Dino, Raphael Rabello) e A Cor do Som.

Em 1995 lancei um CD de choro, que foi lançado no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Pouco antes, Raphael produziria uma homenagem especial ao Dino, gravando em duo com ele. Sua gravação de “1 x 0″, está entre as maiores da história, de uma música que foi executada ao longo de todo o século.

Meu amigo Pelão, produtor do CD, levou o mundo do choro para lá. Nosso sete cordas, o Zé Barbeiro, estupendo acompanhador, passou a tocar em uma rapidez insuportável. “Calma Zé”, pedi-lhe. E ele, como se tivesse visto a face de Deus: “Mas, bicho, é o Dino lá na platéia”.

Terminado o show, Dino veio até nós e elogiou a interpretação de “A Feia”, valsa de Jacob do Bandolim. Saímos dali, o Conjunto Nosso Choro e eu, como se pisássemos em nuvens.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
27/05/2006 - 12:40

O último galanteio do seu Oscar

É minha irmã Regina quem me conta a história. Somos cinco irmãos, eu mais quatro irmãs. Sou o primogênito, Regina a segunda.

Em 1974, seu Oscar foi acometido de um AVC, que lhe tirou os movimentos do lado direito do corpo. Ainda houve um período em que se submeteu à fisioterapia. Depois, foi gradativamente desistindo da vida, tornando-se mais pesado, ficando mais tempo na sua poltrona e, curiosamente, mais tranqüilo, sem aquela ansiedade que o acompanhou permanentemente nos dez anos anteriores.

Passava horas na poltrona assistindo televisão e só se assustando um pouco quando os netos passavam correndo na sua frente, com medo de um pisão nos seus pés frágeis.

Fora isso, seus dias foram se tornando cada vez mais silenciosos. Quando ia visitá-lo, sentava-me na poltrona ao lado e passávamos muito tempo sem conversar, mas um sentindo a presença do outro. Não sei como era com a Regina. Talvez houvesse mais conversa, porque ela sempre foi uma filha extraordinária desde que, com pouco mais de dez anos, ficava no balcão da farmácia atendendo os fregueses, mas, principalmente, aquecendo o coração do seu Oscar com a sua presença.

Depois do derrame, coube aos dois filhos mais velhos ajudar a segurar a barra de casa. Mas a Regina esteve lá desde sempre, presente desde menininha, com aquelas bochechas lindas, de menina rechonchuda, atendendo os fregueses da farmácia, jamais saindo do seu posto.

Pouco tempo antes do segundo derrame, seu Oscar já não tinha muita noção do que ocorria fora do apartamento. Um dia chamou a Regina e lhe fez um pedido: queria que comprasse o vestido mais bonito que achasse para a dona Teresa. Colocou a mão no bolso e tirou um punhado de notas e moedas, de valor irrisório, tudo o que havia conseguido guardar, mesmo sem ter noção clara sobre o valor do dinheiro.

A Regina foi e comprou um vestido bonito, que devolveu algum viço ao ar cansado da dona Teresa. Nova ainda, com pouco mais de 60 anos, o hipercolesterol tinha judiado de mamãe. Em 1977 fez a primeira cirurgia de ponte de safena. Em 1982, a segunda. Em 1988, o doutor Sérgio Oliveira não lhe deu mais esperanças. O colesterol tinha vencido a batalha e tomado conta de todo o coração.

Dona Teresa continuou lutando pela vida até o final. Mas se deixou abater. A beleza feneceu, o cabelo embranqueceu, ficou com um ar precocemente envelhecido. Seu Oscar sentia o fim se aproximando, mas quis o último reencontro com as lembranças da jovem que, um dia, incendiou seu coração. Queria enfeitar a sua “velha” – “meu velho”, “minha velha”, era como se tratavam.

Dona Teresa usou o vestido em todas as festas e reuniões de família no ano e pouco que viveu, depois daquele dia. Seu Oscar chegou a vê-la de vestido novo, mas por pouco tempo. Alguns meses depois, um segundo AVC acabou com ele. Foi levado à Beneficência. Lá, um raio-x constatou que seu cérebro tinha acabado. Um neurologista ambicioso prorrogou-lhe a vida, contra minha opinião. Durante um ano, vegetou em sua casa, mas sempre assistido por dona Teresa. Mantivemos os almoços de domingo. Algumas vezes, houve reuniões. E dona Teresa, sempre com o vestido bonito.

Agora, Regina me escreve, com seu texto claro e emocionado, lembrando o episódio. Mas não foi esse o último galanteio do seu Oscar. O último, mesmo, foi quando, na cama do hospital, já sem conseguir falar, fez um gesto chamando a Regina. Ela foi até o lado da cama, ele, com esforço, esticou o braço esquerdo e, com a mão fechada, passou o indicador pelo seu rosto e balbuciou: “Bonita”.

Naquele momento, revi a menina de pouco mais de dez anos, responsável desde cedo, no balcão da farmácia, onde eu me recusara a ficar. Depois, me lembrei de sua presença recatada, quase silenciosa, ao longo desses anos todos, sempre apoiando familiares, sem alarde, sempre presente, sem rompantes.

Ao longo desses anos todos, por minha retina cansada passaram cenas inesquecíveis, de filhas, de mãe, de amigos. Mas, por mais que viva, cena alguma conseguirá superar o último galanteio do seu Oscar, no último suspiro da sua consciência.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags:
27/05/2006 - 08:55

Os Violões Que Se Cansaram

O que deu nesses meninos? Quando eu era adolescente, lá pelos idos de 1969, não se falava de outra coisa no mundo do violão. Os irmãos Abreu eram tudo, o Sérgio com 21, o Eduardo com 20, prestes a serem aclamados os melhores do mundo. Seus LPs eram venerados nos círculos violonísticos do país e da região, de Poços a São João da Boa Vista.

Lembro-me até hoje, fazendo serenata para a namorada na praça de São João, acompanhado pelo jovem violonista Sérgio Assad, que se mudara para o Rio de Janeiro e prometia fazer carreira, junto com seu irmão Odair. Sérgio já impressionava pelo virtuosismo. Mas tudo o que ele queria na vida era chegar perto, apenas perto dos irmãos Abreu, porque suplantá-los, nem ousava sonhar.

Seu Assad, pai dos irmãos, juntou a trouxa e mudou-se para o Rio apenas para que os irmãos pudessem se tornar alunos da mesma Adolfina Raitzin de Távora, que burilara os irmãos Abreu. O grande Isaías Sávio, o maior mestre do violão brasileiro do século, e que freqüentava nossa casa, em Poços, ficou injuriado de não ter os meninos entre seus alunos. Mas o sonho do seu Assad era que os filhos pudessem seguir a trilha dos irmãos Abreu.

O primeiro professor dos irmãos Abreu foi seu avô, Antonio Rebelo, da geração de brilhantes violonistas do Rio, ao lado de Luiz Bonfá, todos discípulos do mestre Sávio.

A segunda mestra foi Adolfina, figura extraordinária, das alunas prediletas do maior mestre de violão do século, o espanhol André Segóvia (1893-1987). Com ela, os irmãos aprenderam técnica e interpretação. Depois, estudaram harmonia com os maestros Florêncio de Almeida Lima e Guido Santorsola. Adolfina não recebia profissionalmente pelas aulas. Mas só dava aulas para os escolhidos. Foi assim com os irmãos Abreu e, depois, com os Assad. Colocava os meninos para tocar, ouvia em silêncio e, depois, dizia se aceitava ou não como discípulos.

Em 1960 Eduardo Abreu recebeu medalha de ouro no Concurso de Arte Infantil, do Ministério da Educação e Cultura. Em 1967, antes dos 20 anos, os irmãos Abreu receberam o primeiro prêmio do Concurso Internacional de Violão promovido em Paris, França, pela O.R.T.F. Em 1972 apresentaram-se no Festival de Windsor, em Londres, Inglaterra, tocando com o violinista Yehudi Menuhin, o maior de seu tempo. Com a English Chamber Orchestra, gravaram os concertos para dois violões e orquestra de Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968) e Guido Santorsola.

O país já tinha um contingente considerável de violonistas populares. Entre os clássicos havia Barbosa Lima, precoce e que cedo se mudara para os Estados Unidos. Havia também Turíbio Santos, Maria Lívia São Marcos, e não muitos outros. Mas o Duo Abreu fora mais longe que todos. Foram os primeiros violonistas eruditos brasileiros que podiam ser considerados os melhores do mundo.
De repente, acabou. O que deu nesses meninos? Até hoje me lembro do meu estupor quando, lá por 1978, informaram que o duo havia se desfeito. Uma chama de incredulidade se alastrou por todos os círculos violonísticos do país. O que ocorrera com nossas duas maiores vocações?

Vieram explicações picadas, porque os jornais estavam distantes do mundo do violão. Disseram para a gente que simplesmente os dois jovens se cansaram da carreira de concertistas, de terem que viajar o ano todo, treinar dez horas por dia, não tomar sol. Assim! Não podia, ora! Eduardo foi o primeiro a parar, em 1975, e passou a se dedicar à engenharia eletrônica. Em 1993 concluiu o doutorado na Universidade de Santa Mônica, nos Estados Unidos. Deixar o violão brasileiro órfão em troca de um diploma de engenheiro eletrônico? Nem que ganhasse o Nobel da área, não supriria a perda deixada no país.

Sérgio continuou tocando até 1981. Depois, abandonou a interpretação e se especializou em construir violões. Tornou-se um dos luthiers mais prestigiados do mundo. Mas e seu som? E o som do duo?

Alguns anos depois, os irmãos Assad recuperariam para o Brasil o cetro de melhor duo violonístico do mundo. Outro dia, os ouvi tocar com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Lembrei-me das serenatas de São João, meu coração brasileiro bateu ao som de cada corda puxada, com cada detalhe de interpretação.

Mas continuei inconformado. O que deu nos meninos Abreu para nos deixarem assim na mão?

No link

http://www.youtube.com/watch?v=lV-ixJQMs5o&search=Abreu , veja uma momento inesquecível do Duo Abreu interpretando a Tocatta K-141 de Scarlatti.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Música Tags:
Voltar ao topo