São Paulo bombando. Aqui tem show em galeria, museu, salão de baile de idosos, casinha, casarão, apartamento, livraria, loja e… cemitério
Este texto abaixo eu escrevi há duas semanas só para o Caderno 2, do jornal “O Estado de S.Paulo”, mas a coisa toda já deu uma andada significativa boa, por isso resolvi dar uma atualizada e botar aqui na Popload. A história soa mais ou menos assim.
A banda inglesa Yuck, uma das revelações da nova música e destaque de grandes festivais do planeta, toca hoje em São Paulo na União Fraterna, um charmoso local de bailes para idosos na Lapa. Não é no Beco, não é no Studio SP, não é no Emme, Via Funchal, Clash, Citibank Hall ou qualquer outro tradicional “corredor” paulistano de bandas indies internacionais. É num salão de bailes da Terceira Idade.
Domingão besta passado, ali pelas 20h, na “ressaca” do Palmeiras goleando no Brasileiro, esperando o “Pânico” começar, resolvi sair do sofá e ir até o bairro do Cambuci, num casarão com grande quintal em que nos fundos tem um curioso puxadinho de dois andares. Em cima tinha um monte de beliche e a passagem para uma lage, dessas boas para pendurar a roupa lavada. Tinha várias toalhas secando ali. No andar debaixo do puxadinho, num cômodo com pé-direito alto, a banda gaúcho-carioca Brollies & Apples arrebentava a todo gás com seu electrogrunge sexy, vistas por umas 40 pessoas, embaixo de uma decentíssima estrutura de som e luz que abrigaria, na mesma programação, shows de um cara de Moçambique, a volta do famoso grupo paulistano Jumbo Elektro, Joe e a Gerência, bandas de Santa Catarina e Rio Grande do Norte. Eu estava na Casa Fora do Eixo, a sede da entidade agitadora e aglutinadora que monitora bandas e festivais do país todo e aos domingos faz um churrascão com cerveja e pencas de bandas relevantes para a cena.
Onde eu quero chegar:
Os ares da nova música, quando ela surgiu no começo dos anos 2000 graças às revigorantes guitarras de Strokes e White Stripes, não eram muito bem respirados numa cidade noturna infestada por notívagos chamada São Paulo.
Uma nova era para a musica independente estava tomando forma e os que se sentiam impelidos a (1) deixar de caçar os tais mp3 no Napster, (2) interromper as conversas definitivas nas salas virtuais de discussão pop (3) e desligar o computador para sair na balada atrás da “nova ordem” rodavam, rodavam, rodavam e caiam sempre no mesmo endereço: um bar-muquifo na Rua Augusta, onde o DJ era colocado num vão embaixo da escada e as bandas num palco (?!) onde mal cabia a bateria. Se a banda tivesse mais que três integrantes, então, o quarto elemento tocava no chão, ao nível do público.
Corte para 2011. Há pouquíssimas semanas, na mesma Rua Augusta, TRÊS novos endereços para a música independente (seja ela hoje em dia o novo e velho rock, a nova eletrônica, a nova MPB, o indie-fashion e todas as misturas possíveis e as inimagináveis desses estilos) foram inaugurados. Os clubes/bares Beat Club, The Society e Caos se juntam aos novíssimos Lab e Beco SP, mais os “velhos” Vegas, Studio SP, Inferno, Outs, Tapas, para compor uma rua musical que nem Londres tem. Nem Berlim tem. Talvez só Austin.
Aí você vai além da Augusta e coloca Clash, Lions, Casa92, Bar Secreto, Milo, Alberta, Glória, Neu, Estúdio Emme, Funhouse, DJ Club, Dorothy Parker, Alley, Sonique, Container e vários outros. E então está composta a São Paulo à noite, independentemente falando, indie-eletronicamente falando, enfim, (nova) musicalmente falando.
Essa movimentação cosmopolitana noturna incontrolável, aliada às outras fortes manifestações culturais da cidade e ao momento econônimo, ecológico futurístico do Brasil fez São Paulo abocanhar o número um do cada vez mais reconhecido Ranking Zeitgeist da Hub Culture na edição 2010. Significa dizer que São Paulo foi eleita a principal cidade no mundo para se estar hoje. Na frente de Berlim e São Francisco, respectivamente segundo e terceiros colocados.
Lembra 2001/2002, né? Orbital, o DJ debaixo da escada e o palco que não cabia a banda toda?
Pois é. Tem muito mais. E agora vem o curioso de toooooda a história.
São Paulo não se contenta com o “boom” de bares, clubes e casas de shows dos últimos dez anos. Vai muito além. Acompanhe:
* a nova música no salão de bailes de idosos – hoje, no União Fraterna, show da banda indie britânica Yuck, evento fechado, festa privada de uma grande marca de material esportivo.
* a nova música no Cambuci – Enfileiramento dominical de bandas independentes brasileiras num puxadinho do casarão da galera do Fora do Eixo. Cerveja de graça.
A banda Brollies & Apple, que toca em julho no festival indie-gigante Porão do Rock, em Brasília, se apresentando domingo passado nos fundos da Casa Fora do Eixo, no Cambuci
* a nova música no museu – No começo deste mês, o MIS – Museu da Imagem e do Som, recebeu o DJ, produtor e compositor alemão Lopazz, para ocupar a área externa verde do museu, ao pôr do sol, na sétima edição do projeto Green Sunset, iniciativa “alta cultura” que está lotando cada vez mais.
O DJ francês Joakim tocou na área verde do MIS, em maio. Foto do Charroni
* a nova música em casa – Aqui é mais dentro de casa que a Casa Fora do Eixo, pensa. No sábado passado, o Cantor Mudo e a Sonora Vaia se aprentaram na Casa do Mancha, na Vila Madalena, em São Paulo. Isso mesmo: você paga ingresso, entra na residência do Mancha, pega uma bebida no bar montado no quintal do Mancha, arruma um lugar na sala e fica vendo (se der) a banda tocando no quarto. Dá para ver também da varanda, pelo lado de fora, se você achar um espaço perto da janela. Os shows na Casa do Mancha começam lá pelas 19h, não muito tarde. Porque o Mancha tem que dormir depois. No domingo teve show do Jair Naves no quarto do Mancha. É o literal indie domiciliar.
* a nova música no apartamento – Outra nova sede da música independente é o Apartamento Oitenta, situado no Baixo Augusta, que recebeu recentemente shows de Nevilton, Pelico, Los Pirata e, na última sexta-feira, teve Rafael Castro e os Monumentais.
Você chega ao prédio e toca a campainha do interfone do duplex de cobertura no número 80. Se a capacidade do apê não tiver ultrapassado 120 pessoas, vão deixar você pegar o elevador e subir. Ali você paga e entra. Tem show, DJs, um quintal bonito… Enfim, uma festa indie no apê.
Show recente do Rogério Skylab no Apartamento Oitenta, no Baixo Augusta
* a nova música na livraria – Tem o que tem em uma livraria: livros. Mas tem também shows, DJs, exposição de fotos, encontro de fãs de HQ, vende CDs de bandas independentes e outros “negócios” culturais. Amanhã, na denominada Livraria da Esquina, estão marcados shows das bandasLouye e S.U.N. A Livraria da Esquina fica na Barra Funda.
* a nova música na loja – No último dia 27 de maio, a banda indie Cabana Café se apresentou em show gratuito na loja American Apparel, grife americana de moda jovem que de dois em dois meses mais ou menos bota uma banda nova para tocar dentro de sua loja. Afastam-se os varals de roupas, guardam alguns dos manequins para o público não botâ-los para dançar e encosta a banda na vitrine principal. Rua Oscar Freire.
* a nova música na galeria – Inaugurado em 2009 como uma galeria de arte independente, o Espaço +Soma logo foi criando a fama de “espaço cultural multidisciplinar” para dar lugar, entre as obras, à nova música e afins. Com calendário musical esporádico mas intenso, o +Soma recebeu no último dia 28 de maio o DJ set do músico americano Questove, importante nome do hip hop americano de ontem e de hoje, seja como baterista ou produtor. Neo-soul na neo-galeria, que já foi frequentada por Michael Stipe e recentemente abrigou show pocket de Lou Barlow (Sebadoh, Dinosaur Jr).
* a nova música no cemitério – Não tem um mês, a dupla inglesa agora banda Fujiya & Miyagi apresentou suas novidades eletrônicas em uma balada armada na Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte paulistana. Se o endereço já causa estranhesa no circuito “normal” de shows e baladas, o que dá para falar, então, quando se sabe que a apresentação foi no cemitério local? A ligação da música viva com o mundo dos mortos é de responsabilidade do núcleo Voodoo Hop, agitadores culturais que criam eventos artísticos atípicos no Brasil todo, sempre com o endereço da festa mantido sobre sigilo até poucos dias antes do evento, quando não no próprio dia. Divulgada no sistema boca-a-boca (real ou virtual), a Voodoo Hop atua principamente em algum lugar inusitado de São Paulo. 200 pessoas enfrentaram os 10ºC para ver o F&M tocar no cemitério. A festa era chamada Cinetério.
Notas relacionadas:
- Que beleza! The Drums em São Paulo em abril, fechado. Devendra Banhart também deve vir
- Yuck em São Paulo! Semana que vem!!
- Vinte minutos de Cribs em São Paulo











