Eu me divirto vendo pôsteres de edições antigas de festivais grandes. Principalmente dos que eu fui, para ver as bandas que eu perdi. Ou as que eu vi e não deveria ter visto. Ou aquelas que estavam nos lugares principais do line-up e hoje não entrariam nem no palco 3.
Então, aproveitando o começo do gigante Reading Festival hoje e toda essa história de lembrar da época do Nirvana há 20 anos atrás, vamos dar uma olhada nos pôsteres do Reading de 1991, 2001 e, claro, mostra o da edição de 2011, que começou agora há pouco.
- 1991 – O ano em que o Nirvana tocou todo modesto, com o dia claro, no primeiro dia do festival. A “sexta banda mais importante da escalação”, o Nirvana tocou antes até que o Chapterhouse, pensa. Mas fazia sentido na época, acredite. A medida do que aconteceu quando o “Nevermind” saiu, TRÊS SEMANAS DEPOIS do Reading 1991 foi que o Nirvana, logo no Reading 1992, foi a maior de todas as atrações, incluindo todos os três dias, batendo o recorde de público do festival. O segundo dia do Reading 91 foi total brit. Blur no primeiro disco tocando ali no meio da lista, na humildade. James dominava a cena inglesa na época. As bandas de nomes bizarros Carter the Unstoppable Sex Machine e Ned’s Atomic Dustbin estavam impossível naquele ano. Eu adorava as duas.
- 2001 - O ano em que o Travis era uma das três maiores bandas do Reino Unido, muito por causa da pegajosa e triste “Why Does It Always Rain on Me”. Lembro de no mesmo ano, acho, assistir em Nova York um show do Travis que tinha na platéia Dave Grohl, Beck e o Brad Pitt, pensa. Travis era BIG. Mas o grande assunto no Reading de 2001 foi o fenômeno Strokes. A banda não era ninguém em fevereiro. Em abril, maio, já era a salvadora da humanidade. Daí o Reading Festival foi lá e botou o grupo nova-iorquino até com um bom destaque em sua escalação, mas no palco 2. A “New Musical Express” e a Radio One (BBC) encabeçaram um movimento para botar os Strokes no palco principal, por causa da loucura da época em torno da molecada de Nova York. O Reading a princípio não queria mudar, mas a pressão foi tanta e o medo de dar confusão de gente no palco menor fizeram o festival sucumbir. E foi os Strokes tocarem no Main Stage apenas com um ou dois singles na carreira. E, mudando de assunto mas seguindo no Reading 2001, olha a galera nos vídeos abaixo, primeiro para o grupo de rap-rock Fun Lovin Criminals, cantando a música do filme “Pulp Fiction” (1994), do Tarantino, e o grupo “local” Feeder, em “Buck Rogers”, megasucesso indie na época.
* Que ano que foi 1991, não? E o quanto ele ainda tem para contar para nós agora, 20 anos depois?
* Tem o “Nevermind” relançado, o Primal Scream vindo aí com o “Screamadelica”. E tem o vídeo circulando do primeiro show da história do Rage against the Machine. Olha que preciosidade. É o show todo. Repara a primeira música. Foi em Northridge, Califórnia, dia 23 de outubro de 1991. O primeiro disco sairia mais de um ano depois, homônimo, no dia 3 de novembro de 1992. “Killing in the Name”, que abre o vídeo, saiu com outra levada e letra como single, também um ano depois.
* Por favor, dá uma olhadinha no calendário para mim. Vê em que ano estamos.
Uma loja cool de tranqueiras pop de um shopping de São Paulo enfeita sua vitrine com este cara aí de cima, em versão pano. E ele só está na vitrine de 2009 por causa de 1991
* Não é a toa que a pequena Dinosaur Pile-Up, trio de moleque de Leeds, é a maior banda do mundo hoje. Eles cheiram like “teen spirit”. E foram escolhidos a dedo pelos Pixies para abrir a turnê do “Doolittle”.
* Substituição no PT. Yeah Yeah Yeahs respondeu ao chamado do festival brasileiro, finalmente. Disse que não.
O “plano B”, parece, está acertado: quem vem para o lugar do YYYs, está para ser anunciado, é mister… Iggy Pop. Esse cara sem camisa aí embaixo.
O grande Iggy Pop e sua barriga “tanquinho” versão lego. O velho roqueiro deve ser outra das atrações do Planeta Terra 2009. Além de estar oficialmente no próximo game Lego Rock Band, em novembro, Iggy Pop vai cantar “The Passenger” no jogo
Em 1991 foi a primeira vez que eu fui ao Reading Festival, na Inglaterra. No primeiro dia teve, entre várias atrações, Nirvana, Dinosaur Jr. e, fechando a noite, Sonic Youth e Iggy Pop. Fechando a noite no Planeta Terra 2009: Sonic Youth e Iggy Pop. Hein?
O Primal Scream também está no PT. Em 1991, a banda escocesa lançava o “Screamadelica”, seu principal disco e um dos mais importantes álbuns da música independente de todos os tempos. Muita gente vai ao Planeta Terra 2009 por causa do Primal Scream 1991.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, o festival Maquinaria bota para tocar o Jane’s Addiction e o Faith No More. Na Londres em que eu vivia em 1991, ambas as bandas eram hits de pista nos clubes da época. Molecada nervosa balançava muito a cabeça e a cabeleira comprida com esse som, Nirvana e o grunge chegando, os locais Ned’s Atomic Dustbin e Carter the Unstoppable Sex Machine mandando no Britpop.
Em 1991, o Faith No More dominava tudo com “Epic”, single lançado no ano anterior, e “Falling to Pieces”, que saiu na Inglaterra naquele ano. Já o Jane’s Addiction, em 1991, dominou as paradas de rock, as pistas, os pubs com o single “Been Caught Stealing”, lançado no finalzinho de 90.
Muita gente vai ao Maquinaria 2009 por causa do Jane’s Addiction 1991 e do Faith No More 1991.
Tudo muito bom, tudo muito bem. Coisa linda de se ver todas essas maravilhosas bandas acima. Mas ainda bem que tem o Metronomy e o Ting Tings no PT. Ainda bem que tem o Dirty Projectors no Goiânia e SP Noise. Ainda bem que vem aí o Popload Gig 3.
* 1991, O ANO EM QUE… - Visto daqui de 2009, 1991 foi um ano musicalmente incrível, mas bem bizarro em outros aspectos.
- O Bragantino era um dos grandes times do futebol brasileiro e o Criciúma conquistou título nacional, com o Felipão no comando.
- No dia 2 de fevereiro, nos EUA, foi revelado quem era o assassino de Laura Palmer. Quase 40 milhões de pessoas estavam de olho na TV para saber quem era. E, depois de 14 anos de sucesso, o seriado “Dallas” acabou.
- Um famoso “Globo Repórter” da época foi sobre “a febre dos videogames” que estava tomando conta da molecada brasileira.
- Uma jovenzinha e indefesa Juliette Lewis, antes atriz, hoje cantora, chupou o dedo do Robert DeNiro, no cabuloso “Cabo do Medo”, na mais perturbadora cena do cinema no ano. Outra cena superperturbadora foi em “Os Trapalhões e a Árvore da Juventude”, mas deixa para lá.
- A capa de fim de ano da “Playboy” foi a Sonia Lima, a “tentação das tardes de domingo do SBT”.
* 2009/1991: O LIVRO DO GRUNGE – O famoso fotógrafo do rock Michael Lavine lança em outubro um livro que conta através de suas valiosas imagens a história do grunge. A obra, 160 fotos em preto-e-branco, conta com textos de uma importante testemunha ocular da última grande revolução roqueira baseada em Seattle: Thurston Moore, do Sonic Youth, uma espécie de padrinho da cena.
O líder do Sonic Youth, tão de Nova York quanto Michael Lavine, relata desde a descoberta da cena punk de Seattle, a explosão mainstream da cultura independente, até a morte de Cobain, marco do fim do grunge.
As fotos de Michael Lavine até hoje ilustram o rock. O fotógrafo tem incrível trabalho atual que vão de ótimas imagens de bandas como TV on the Radio, Rapture, Kings of Leon até… Jonas Brothers.
Esse “Grunge” vem fazer par ao excelente “Touch Me I’m Sick”, livro de fotos do grunge de Charles Peterson, que tem texto de Eddie Vedder (Pearl Jam), entre outros. Peterson também foi um importante fotógrafo do rock de Seattle na virada dos 80 para os 90.
* SUA MÚSICA PREDILETA – Aposto que nem você tinha percebido que sua música favorita de 2009 é esta aqui abaixo:
* 2009/1991: A VOLTA DO PAVEMENT E O ÚLTIMO SHOW DO HOLGER - A cena continua bem ouriçada com a notícia da volta do grande grupo de Stephen Malkmus. Enquanto a gente por aqui não achar que “já deu”, vamos soltar pérolas do Pavement, para saudar o retorno da banda. Esta aqui embaixo é a de um show em Nova York em 1991, comecinho da banda, tocando a inacreditável “Trigger Cut”, bem ao estilo lo-fi tosco que foi a grande marca da banda.
E hoje, 22 de setembro de 2009, acontece no bar Tapas, em São Paulo, o último show da banda Holger, espécie de Pavement brasileiro. Último show antes de eles irem tocar no Pop Montreal, festival indie do Canadá. Músicas novas, primeiro álbum a caminho, ou segundo EP sei lá, o Holger é desde o ano passado o melhor grupo indie nacional, o show mais bacana, as melhores groupies (número que só aumenta).
E fizeram pôster de divulgação, tal qual as ótimas bandas americanas dos 90, tipo o Pavement.
A discotecagem da balada do Tapas, deu para você ler no pôster, fica a cargo do DJ Kurc, considerado grande revelação das picapes e das remixagens em 2009.
* SEU VÍDEO PREDILETO - Muse novo. O disco é chatongo, o single é mais-do-mesmo mas bom, o vídeo é cool. Lá vem o Muse com “Uprising”.
O Muse está metido com vampiros.
* PROMOÇÃO F.R.A.N.Z. F.E.R.D.I.N.A.N.D – DO YOU WANT TO? Poucas coisas nesta vida é tolerável deixar passar. Uma delas é o show único que a banda escocesa Franz Ferdinand fará em São Paulo na próxima quarta-feira, dia 30, na The Week. Vi recentemente uma apresentação da banda em Londres, show dessa turnê do disco “Tonight: Franz Ferdinand”, e posso dizer que eles ficaram melhores ao vivo do que já eram. Está desesperado porque não conseguiu nenhum dos 500 ingressos que se esgotaram em minutos quando colocados a venda? Não tem problema. A Popload tem dois deles para sortear. Para concorrer aos DOIS únicos ingressos que restam no mundo para o show do FF em SP, tudo o que você tem que fazer é ir ali nos comentários ou no lucio_ribeiro@ig.com.br e… pedir. Sem perguntas, sem frases.
Lúcio Ribeiro é jornalista de cultura pop. Edita o Popload e é colunista do “Caderno 2″ (Estadão), da MTV, das revistas “Capricho” e “Homem Vogue”. É curador do festival Popload Gig, já na terceira edição, e DJ residente dos clubes Vegas e Lions, além de viajar o Brasil tocando em festas de rock.