O resultado das pesquisas e o jornalismo
A cada eleição, na medida em que se aproxima o dia decisivo e a ansiedade suprime a costumeira frieza dos políticos, cada um deles escolhe, de acordo com a conveniência, o alvo mais fácil. Uma hora faz-se como o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que à véspera do primeiro turno criticou a imprensa, no geral, e algumas publicações, em particular. Outra hora faz-se como o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, que a dez dias do final da campanha atacou as pesquisas de opinião, o Instituto Vox Populi e o seu sócio mais conhecido, Marcos Coimbra (clique aqui para ler a reportagem).
Quando se agridem mutuamente, candidatos e partidos costumam levar suas desavenças à Justiça Eleitoral, quando não à Vara Criminal. Quando criticam os jornalistas, a imprensa, os institutos de opinião ou as técnicas de pesquisas, eles parecem atuar numa defesa prévia: o objetivo é tirar a credibilidade do trabalho.
O problema é que, de tão velho, esse estratagema ficou velhaco. Quem hoje reclama do jornalismo crítico (por si só uma redundância), antes comemorava a denúncia da malfeitoria alheia. Os que nessa campanha se sentem prejudicados por um instituto, numa eleição anterior eram seus contratantes. Quem agora reclama dos resultados, um dia já os festejou.
Sendo assim, o que queria o presidente Lula na véspera do primeiro turno? Com a vivência de quem já foi massacrado, tolerado e bajulado por jornalistas, empresários e empresas de comunicação, Lula tentou amenizar o prejuízo eleitoral provocado pelo episódio da ex-ministra Erenice Guerra. Diante da dificuldade de combater a denúncia, desqualificam-se os denunciantes.
E o que quer agora Sérgio Guerra? Reduzir os danos à campanha do PSDB. Para quem chega ao segundo turno e vê o adversário ampliar a distância nas pesquisas de opinião, o prejuízo se reflete em várias frentes, como um dia atestaram os petistas. Sérgio Guerra foi explícito ao citar “a animação dos companheiros”.
Campanha presidencial é apaixonante: tal qual enamorados, valoriza atributos, atenua defeitos e desperta emoções irracionais. A pesquisa é uma técnica cientificamente imprecisa, uma medição que reflete, atrasadamente, a reação do eleitor. Mas ainda assim fornece à campanha um trilho estatístico de previsibilidade, portanto de racionalidade. O seu elemento mais perturbador é justamente esse: chamar os apaixonados à reflexão.
E isso, para quem não está à frente, pode de fato ser um elemento desestimulante. A dez dias do final da campanha, uma eventual redução na diferença percentual entre os candidatos pode ajudar aquele que estiver atrás a envolver a militância, a agregar aliados e a convencer financiadores.
O problema no caso, não está apenas nas pesquisas, uma vez que cada partido encomenda a sua e todas as grandes empresas levam em conta, nas decisões estratégicas, as sondagens que compram, sejam de institutos que trabalham para partidos, ou não. O ruim, para muitos políticos, é o fato desses números virem a público. Paradoxalmente, nessa campanha, o descontentamento partiu de quem mais defendeu a liberdade de imprensa.
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