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quarta-feira, 11 de abril de 2012 Política | 23:03

2012, a eleição do 3G

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Quanto mais governo melhor, essa é a regra para os candidatos que desejam ganhar a eleição deste ano.

Quem tiver o engajamento dos três níveis de governo, o municipal, o estadual e o federal — o 3G –, dificilmente perderá a disputa. O exemplo mais contundente é o do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB). Candidato dele mesmo, do governador Sérgio Cabral e da presidenta Dilma Rousseff, Paes tem a melhor rede 3G do mercado eleitoral. Além dos apoios, ele tem discurso porque representa o projeto carioca de virada econômica, com o pré-Sal, a Copa e a Olimpíada. Fora isso, pode usar a prefeitura como trampolim para a sucessão de Cabral, num momento em que empresas e eleitores do Rio querem a garantia da continuidade.

Sérgio Cabral, Dilma Rousseff e Eduardo Paes: a melhor rede 3G do mercado eleitoral

Situação semelhante vive o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB). Ele tem um 2G contratado para a campanha, já que disputa a reeleição e terá o PT na sua coligação. Como nunca lhe faltou o apoio da principal liderança de Minas, o senador Aécio Neves, a entrada em operação da sua rede 3G depende apenas de um detalhe legal, a formalização da inacreditável chapa que unirá PT com PSDB.

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Como exceção que eventualmente pode confirmar a regra está Porto Alegre. José Fortunati (PDT), o atual prefeito, é uma espécie de 1,5G – tem a máquina pública para sua reeleição e seu partido integra a base do governo federal. Quem teria a rede 2G (estadual mais federal) seria o deputado estadual Adão Villaverde, do PT. Mas mantendo o espírito contestador que já havia se manifestado na eleição do governador Tarso Genro, os gaúchos, segundo as últimas pesquisas de opinião, deram-lhe apenas 2% das intenções de voto. Em Porto Alegre, eles estão abrindo a temporada pré-eleitoral com a candidatura menos governista na primeira posição — a da deputada Manuela D’Ávila, do PC do B, e uma espécie de 0,5G pelo apoio a Dilma no Congresso.

Em São Paulo, o ex-ministro Fernando Haddad, pelo PT, e o deputado Gabriel Chalita, pelo PMDB, pretendem se apresentar como candidatos do governo federal e receber a empatia do ex-presidente Lula (espécie de acelerador de rede para quem só tem 1G). O ex-governador José Serra fica com os outros 2G, o apoio das máquinas municipal e estadual.

Alckmin, com Serra e Kassab: o poder regulatório do governador interfere na autonomia do candidato

Mas nada impede que, numa eventual ascensão do candidato do PMDB nas pesquisas — um cenário hoje tão improvável quanto surpreendente –, Serra venha a ser rebaixado, pelo poder regulatório de Geraldo Alckmin, para 1,7G enquanto Chalita seria promovido a 1,3G. De todos os cenários, talvez seja o mais perturbador para Serra, já que o oposto disso, a candidatura do PT no segundo turno, fortaleceria radicalmente sua rede 2G.

Nos estertores da ditadura, havia um desejo de mudanças de tal magnitude que ao maior partido de oposição da época bastava um único slogan: “PMDB Neles”. No início da redemocratização, o fracasso dos planos de estabilização, a inflação galopante e o desemprego em alta permitiram ao PT faturar suas primeiras cidades em campanhas em que ele se apresentava “contra tudo isso que está aí”. Quanto menos envolvimento com o governo, melhor, era o lema da época, como mostrou a vitória da inexperiente e desconhecida Luiza Erundina contra o notório e experiente Paulo Maluf.

O fracasso do governo Fernando Collor alertou o eleitor para a importância da experiência administrativa e o pleito estadual de 1992 marcou a chegada do “eleitor de resultados” – ele estava pouco se lixando para os partidos, mas queria políticos que soubessem governar. De lá para cá, os sucessos do Plano Real no governo FHC e da expansão econômica do governo Lula levaram o eleitor a índices cada vez mais altos de adesismo.

O governismo é o que o move agora, mas dois fatores podem vir a inibir o bom funcionamento do 3G: o julgamento do Mensalão pelo Supremo Tribunal e as — sabe-se lá quais serão –, descobertas da CPI do Cachoeira. Hoje limitados ao signo do desconhecido, os dois eventos juntos têm potencial de gerar um sentimento hegemônico contra a classe política. Se isso acontecer, melhor do que mostrar apoios dos governos, será se apresentar como um candidato técnico.

VEJA AQUI TUDO O QUE O iG PREPAROU PARA A COBERTURA DA ELEIÇÃO MUNICIPAL DE 2012

Notas relacionadas:

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Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , , , , , , , , , , ,

terça-feira, 23 de agosto de 2011 Política | 21:02

Novo clero é a tropa de choque do governo no Congresso

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Nem Alto Clero, os grandes caciques dos partidos (como o hoje vice-presidente Michel Temer, do PMDB, ou o falecido Luís Eduardo Magalhães, do PFL) que durante o governo Fernando Henrique Cardoso transformaram as lideranças dos partidos e a Presidência da Casa no posto avançado do Planalto. Nem Baixo Clero, os deputados e senadores com larga bagagem parlamentar, mas de pouca influência política e pequena projeção pessoal, que desde a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) mostraram seu apetite na negociação com o governo. O que está em construção neste momento no Congresso é a formação do Novo Clero, um processo de renovação que divide quase todos os partidos, com o incentivo cada vez menos discreto do Palácio do Planalto.

Tão logo os parlamentares retornaram do recesso de julho, os fatos foram se acumulando de maneira eloqüente. No PP, o partido que abriga o maior contingente de baixo clero por metro quadrado do tapete verde da Câmara, a renovação veio num golpe. Em 12 de agosto, o líder Nelson Meurer, do Paraná, foi dormir sem o cargo. Meurer está no quinto mandato e no início do ano foi eleito por 30 dos 44 deputados do PP. Em seu lugar, entrou um deputado de primeiro mandato, Aguinaldo Ribeiro, da Paraíba, num movimento da bancada que, por mais contraditório que pareça, é contra o ministro da legenda, Mário Negromonte (ainda na Pasta das Cidades e também no quinto mandato parlamentar), porém a favor do Planalto.

Mendes Ribeiro: o novo clero do PMDB colhe o que plantou

Assim como Alfredo Nascimento (demitido dos Transportes), Wagner Rossi (que pediu demissão da Agricultura) ou Pedro Novais (entrincheirado no Turismo), o ministro Negromonte chegou lá muito mais por uma imposição dos antigos líderes partidários que numa combinação com a presidenta Dilma Rousseff. Se puder trocá-lo sem perder apoio no Congresso, o governo o fará. Repetirá a tática vitoriosa de duas semanas atrás quando foi surpreendido pelo pedido de demissão de Wagner Rossi, do alto clero do partido em São Paulo. Com a vaga aberta no Ministério da Agricultura, um pedaço da bancada sugeriu o nome do deputado Moacir Micheletto, do baixo clero do Paraná. Deu o representante do novo clero, Mendes Ribeiro, do Rio Grande do Sul.

Dono da segunda maior bancada e, portanto, do direito de nomear o representante em várias comissões importantes da Casa, o PMDB está vendo a rebelião do novo clero se alastrar. O caso mais recente gira em torno da indicação, feita pelo líder Henrique Eduardo Alves, para o cargo de relator da Comissão que analisará o novo Código de Processo Civil. Alves quer o deputado Eduardo Cunha (alto clero-RJ), contra a oposição de Danilo Forte (baixo clero-CE), que tenta se deslocar para o novo clero. A divisão da bancada pode custar a Alves a pretensão de se tornar presidente da Câmara em fevereiro de 2013.

A reação coletiva dos caciques de vários partidos à faxina ética promovida por Dilma foi interpretada por muita gente como um prenúncio de uma crise institucional entre Congresso e Planalto.  O que está ficando explícito agora é a existência de focos de revoltas nos diversos partidos contra o velho clero. E para enfrentar o governo cada um deles precisa antes recobrar o consenso interno. Para Dilma, a situação mais delicada do momento é a do PR, no qual alto clero e baixo clero se uniram contra a nomeação do ministro Paulo Sérgio Passos, dos Transportes. E o novo clero ainda não se apresentou para o jogo.

A ascensão desse terceiro clero é um movimento de risco. Num primeiro momento, ele paralisa muitas definições importantes, de cargos em comissões e relatorias de projetos de interesse do governo a nomeações nos vários escalões da Esplanada. Também incentiva o chamado fogo amigo, denúncias recíprocas entre aliados do próprio governo. Mas se o processo vier a se concretizar, o novo clero oferece a Dilma uma interlocução mais suave com o Parlamento, bancadas mais coesas e mais alinhadas com os projetos da presidenta, o que, no final das contas, reduziria a pressão no balcão da ministra Ideli Salvatti. Essa tropa de choque do governo será menos dependente de emendas individuais, menos sujeita aos desvios desses recursos, e mais comprometida com o sucesso de uma gestão que precisou apertar as contas públicas no presente oferecendo em troca a promessa de resultados na reeleição de cada um, daqui a três longos anos.

O novo clero é uma aposta da paciência sobre o pragmatismo, da confiança num projeto de governo sobre o interesse individual. Se ele triunfar, serão os seus representantes que estarão nas tribunas de honra dos novos estádios da Copa de 2014, num cenário de inflação e juros em declínio e economia novamente em ascensão, o que permitirá soltar as amarras das emendas individuais. O novo clero tem uma travessia complicada, mas, para quem nele embarcar, é um projeto eleitoral mais seguro que o atual – no qual todos os deputados brigam contra o governo pela liberação de emendas e nomeações de apadrinhados, montam suas campanhas com essas armas e partem para uma guerra fratricida pelas prefeituras.

Notas relacionadas:

  1. Onde está o novo na campanha presidencial?
  2. Dilma pressiona o PMDB a ser governo
  3. Para entender o silêncio de Dilma
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

quinta-feira, 21 de julho de 2011 Política | 16:49

Para entender o silêncio de Dilma

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Dilma Rousseff completa 200 dias no Planalto envolta no mesmo silêncio que caracterizou seu governo até agora. Nenhum pronunciamento contundente, nenhuma entrevista franca, nenhuma frase de efeito para marcar a data. Tal qual aconteceu nos 100 dias, ou mesmo nas viagens e crises deste início de mandato, a presidenta faz das suas poucas palavras, em solenidades e aparições públicas, um não-evento.

Como não está afônica, o silêncio de Dilma poderia ser timidez, mas isso a campanha eleitoral do ano passado já desmentiu. Também poderia ser simplesmente por ela não gostar de falar, mas quem já foi recebido em audiência sabe que Dilma valoriza a dialética e adora um bom debate. Também não existe a possibilidade, dada à natureza do cargo, de que tamanho resguardo seria por não ter o que dizer.

Dilma e Temer: falar em público não colabora para o bom andamento dos trabalhos

Fica evidente, portanto, que a presidenta não deseja tornar públicos seus pensamentos. Dilma pouco fala porque a sinceridade, agora, não ajudaria no bom andamento dos trabalhos. Ao contrário de seus dois antecessores imediatos, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, cuja eloqüência pública ajudava-os a minimizar crises, Dilma resta em silêncio para não alimentá-las.

Seu maior foco de problemas é a relação com o Congresso. Premida pela necessidade de um esforço fiscal para evitar a disparada da inflação, a presidenta cortou o orçamento onde dava para cortar. Por crença e por coerência política, ela não iria, nem irá, reduzir o tamanho do Estado, privatizando e promovendo uma reforma administrativa. Por imposição do calendário, ela não tem como cortar recursos para as obras da Copa do Mundo de 2014 e nem é razoável sucatear ainda mais a infra-estrutura de um país ainda carente de obras que mal saíram do papel. Politicamente, o governo já aumentou os impostos possíveis, como o IOF sobre gastos em dólar no cartão de crédito.

Restou a Dilma abrandar o aumento real do salário mínimo, o que contrariou o populismo da base governista. E também segurar a bilionária verba das emendas parlamentares, abrindo o flanco para as mais explícitas chantagens políticas desde as concessões do governo José Sarney para obter o quinto ano de mandato na Constituinte de 1988.

Logo após a vitória na eleição, ela anunciou em conversas com os políticos que preservaria a coalizão e aceitaria indicações dos partidos aos cargos do novo governo, desde que os indicados tivessem qualificação técnica e boa reputação. Os partidos foram avisados que quem não seguisse a cartilha não obteria a nomeação. E que em casos de desvio posterior, políticos e apadrinhados teriam de se explicar à Polícia Federal e à Justiça. Foram os partidos, portanto, que decidiram testar Dilma e não a presidenta que quis se impor a eles.

Em duas ocasiões fundamentais, o PT reacendeu a chama das disputas internas e reivindicou independência do Planalto (coisa que nunca fez contra Lula porque trabalhou sob Lula): a escolha do presidente da Câmara dos Deputados e a eleição do novo presidente do partido. Os líderes tradicionais do PMDB excluíram das negociações com o governo alguns colegas recém-eleitos e que Dilma gostaria de ter como interlocutores seus dentro do partido aliado.

Essa política de muito apetite e pouca renovação foi uma aposta de todos os aliados do governo, quando a presidenta tinha sinalizado para que fizessem justamente o contrário. Se Dilma não os atendeu é porque eles não souberam ouvi-la ou não quiseram acreditar na presidenta. Se ela manifestar isso publicamente, criará ainda mais problemas.

O silêncio de Dilma é forçoso também na mudança de viés econômico. Se Lula teve condições de adotar medidas clássicas de elevação dos juros e corte de despesas públicas e responsabilizar a “herança maldita”, Dilma não pode creditar o ajuste de agora a eventuais excessos da política anticíclica do governo anterior. Os fatores inflacionários não estão ligados apenas ao aquecimento da economia no ano eleitoral de 2010 e o que resta à presidenta nesse primeiro momento é usar um mal menor, como a sobrevalorização do real, para combater um mal maior, a escalada inflacionária.

Depois de uma campanha presidencial que demonizou a privatização, o silêncio é bom conselheiro para um governo que vai realizar concessões privadas para expansão dos aeroportos e que aguarda capital privado para tocar o projeto de trem-bala, além de várias parcerias público-privadas para as obras que vão preparar o Brasil para receber a Copa do Mundo em 2014.

O país precisa de todos os capitais possíveis, estatal e privado, nacional e estrangeiro, para desafogar o gargalo da infra-estrutura e melhorar a competitividade da sua economia. Diante da queda de braço que os políticos decidiram travar com o governo, mesmo algo facilmente consensual, como esse esforço coletivo para melhorar estradas, portos e aeroportos, parece se tornar objeto de chantagem política. Nessas condições, enfrentar publicamente a classe política corresponde a retardar a agenda de modernização que Dilma deseja fazer no seu governo. Ceder aos políticos, no entanto, é comprometer a força da política de combate à inflação. Esse é o impasse que silencia a presidenta.

Notas relacionadas:

  1. A força de Dilma é sua fraqueza e sua fraqueza é o ponto forte
  2. Votação do salário mínimo revela embate entre três projetos de país
  3. Em 100 dias, o pragmatismo de Dilma Rousseff ainda não foi posto à prova
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , ,