Onde está o novo na campanha presidencial?
Nada mais sintomático de que há algo de muito diferente na eleição deste ano do que o fato de o Irã ter-se tornado tema candente na campanha presidencial. Some-se a isso o calor com que se falou nas Farcs, na complacência da Bolívia com os plantadores de coca e na dependência econômica do Paraguai (e dos outros países do Mercosul) em relação ao Brasil e um eleitor desavisado chegará facilmente à conclusão de que o próximo presidente terá um governo muito movimentado: lá fora, além das fronteiras nacionais.
Ledo engano. O problema do Brasil está aqui, bem na frente dos presidenciáveis. Ele consiste no esgotamento da agenda da redemocratização. Há 25 anos, quando a Nova República mandou os militares de volta aos quartéis, o poder civil estabeleceu três grandes contratos com a sociedade. Na política, a implantação da democracia e o respeito às regras. Na economia, o controle da inflação com crescimento. No social, a montagem de uma rede de proteção que garantisse serviços básicos a todos.
O contrato político ganhou forma na Constituição de 1988 e viveu seu maior teste prático no impeachment de Fernando Collor. Tirando a emenda da reeleição proposta por Fernando Henrique Cardoso, pode-se dizer que o Brasil se ergue há mais de duas décadas sob os mesmos pilares legais. Esse é um fenômeno inexistente desde o fim da República Velha, há 70 anos. Mas se compararmos no detalhe as duas fases históricas, pode-se dizer que nunca existiu período democrático tão longevo e amplo. O sepultamento da tentativa de mudar as regras para estabelecer o direto a um terceiro mandato de Lula é a coroação desse processo.
O contrato econômico da redemocratização era a estabilidade da moeda. Atacada numa primeira fase com o Plano Real, ele se consolidou com a manutenção, pelo PT, do tripé formado por responsabilidade fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação.
O contrato social foi aberto com medidas do PMDB nos primórdios do governo Sarney, como o seguro desemprego e a generalização de aposentadorias e pensões. Depois ganhou densidade com a universalização do ensino básico e a implantação do Sistema Único de Saúde, até ser completado com o Bolsa Família.
O que a democracia brasileira prometeu há quase três décadas foi sendo entregue a prestação pelos cinco governos do período: Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula. Mas essa agenda se esgota com a saída de Lula do Planalto. E é a partir dessa constatação que nasce a questão fundamental da eleição presidencial de 2010. O que deve ser feito a partir de agora? Quais serão os novos contratos político, econômico e social do Brasil pós-Lula? Na pré-campanha, não houve uma pálida sombra desse debate. Assim, os três principais candidatos têm, no encontro de quinta-feira, na TV Bandeirantes, uma grande oportunidade de revelar enfim ao eleitor que existe algo de novo vindo aí. É isso que irá conquistar mentes e corações de quem não deseja viver do passado.
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Autor: Luciano Suassuna Tags: Collor, debate, Eleição, FHC, Itamar, Lula, propostas, Sarney