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terça-feira, 3 de maio de 2011 Mundo | 13:23

O império americano voltou

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A invasão da mansão e a morte de Osama bin Laden no Paquistão marcam o retorno do império americano. Em uma década, os Estados Unidos assistiram perplexos a uma série de eventos raríssimos que, como aqueles infernos de mapa astral, alinharam uma inédita sucessão de infortúnios: o maior ataque estrangeiro ao território americano, a ineficácia de suas máquinas de informações e de guerra, o quase colapso do sistema financeiro e a subversão dos valores liberais com a intervenção do Banco Central no mercado para atenuar a hecatombe de 2008.

Cada um desses elementos parecia fornecer, pela originalidade ou grandeza, sinais de decadência da maior democracia, maior economia e maior máquina militar da história. O ataque terrorista às torres gêmeas e ao Pentágono em 11 de setembro de 2001 usou como arma letal um dos maiores emblemas do sonho americano, o avião a jato, e como arma de propaganda dois de seus maiores componentes culturais: o desastre de imagens hollywoodianas, transmitido ao vivo pela televisão.

Foto: AP

Bin Laden, em 1998: o terror contra o império

Na sequência, a máquina de espionagem mostrava-se incapaz de cumprir a promessa de George W. Bush (“nós vamos caçá-los”) e seu poderio bélico se revelava frágil a ponto de deixar Bin Laden escapar nas montanhas do Afeganistão, onde os Talebans passaram a recuperar território e poder. Na mesma proporção do fracasso externo, os Estados Unidos reduziam-se às suas fronteiras, com medidas de segurança cada vez mais restritivas, num mundo em que a Al-Qaeda insinuava-se como ameaça global. Houve um hiato de vitória com a ocupação do Iraque e a captura de Saddam Hussein. Mas no campo da moral, a conquista do Iraque nasceu sob falsas premissas: nem o país era a principal base ou refúgio da Al-Qaeda, nem Saddam detinha as alegadas armas de destruição em massa. O império não era mais o mesmo e ainda iria enfraquecer-se.

Nas finanças, os dogmas do liberalismo foram arrastados pelo tsunami que arrasou o mercado após a quebra do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008. E para evitar outra grande depressão econômica, o país passou a flutuar sobre um déficit público anual do tamanho de um Brasil. O euro forte, a ascensão da China, o crescimento dos Brics: em uma década, tudo conspirava contra o império americano. Mas então na noite de domingo, primeiro de maio, Osama bin Laden foi morto e, do ponto de vista simbólico, muita coisa mudou.

A começar pelo fato em si. A caçada ao líder da Al-Qaeda nunca foi a guerra de um país contra um homem, mas ao que ele representava: o ódio cego, gerado por ideias capazes de arrastar seguidores para o assassinato indiscriminado de qualquer pessoa, a qualquer hora, em qualquer um dos continentes.

Qual outro país mobilizaria tantas forças, em dois governos distintos, para chegar a esse objetivo? Qual país poderia, nessa luta, gastar em dez anos a fortuna de R$ 2 trilhões — algo como se o dinheiro de uma década das exportações brasileiras fosse integralmente destinado à guerra ao terror? Qual país teria uma máquina de espionagem capaz de manter seu alvo sob vigilância durante mais de oito meses, até construir o cenário do ataque final? Qual país seria capaz de desferir essa operação a 12 mil quilômetros de distância da sua capital? Qual país teria equipamento, tropa e treinamento de elites para invadir o quartel-general do terrorista mais procurado do mundo sem sofrer nenhuma baixa?

Israel promoveu a caça aos terroristas do atentado de Munique e os serviços secretos da União Soviética e da Rússia já envenenaram opositores do regime que se encontravam no exílio ou no exterior. Mesmo o Chile do general Augusto Pinochet mostrou que a fúria vingativa de uma ditadura não respeita fronteiras ao assassinar dois adversários políticos: o chanceler Orlando Letelier, morto na explosão de uma bomba sob seu carro numa rua de Washington, e o general Carlos Prats, vítima de outro atentado a bomba em Buenos Aires.  Mas Rússia, Israel, China ou mesmo os países da Otan talvez possam manifestar o papel de potência regional respondendo uma ou outra dessas questões. No entanto,  só um império global domina todas elas.

Barack Obama: o império se faz lembrar

A morte de Bin Laden não traz nenhuma garantia de que a Al-Qaeda ficará mais dócil ou menos operante – ao menos não no primeiro momento. Os Estados Unidos não irão relaxar as medidas de segurança interna, pelo menos enquanto não conseguirem dimensionar o tamanho do golpe que a ausência do líder terrorista irá gerar no radicalismo islâmico.  O que o ataque de primeiro de maio em Abbottabad fez foi mudar o curso de uma guerra em que o governo americano era política, financeira, militar e moralmente questionado pela comunidade internacional. A morte de Bin Laden lembra aos outros países a diferença de poder que sustenta os Estados Unidos na condição de império global.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , ,

sexta-feira, 29 de abril de 2011 Mundo | 00:07

Uma monarquia precisa de casamentos e de escândalos

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O primeiro fruto do casamento de William de Gales com Kate Middleton é o renascimento da monarquia britânica. Ao materializar o conto de fadas da união entre o príncipe e a plebeia, a mais tradicional casa real do planeta encerra duas décadas de crise. Ela foi efetivamente assumida como tal no discurso que nasceu clássico, quando a rainha definiu 1992 como “Annus Horribilis”.

Elizabeth II deveria festejar o 40º aniversário de reinado, mas sua casa desmoronou. O Castelo de Windsor pegou fogo, sofrendo graves avarias. Na família, os dois filhos casados anunciaram a separação. A filha oficializou o divórcio. E o caçula era criticado por continuar solteiro. As aventuras extraconjugais do príncipe Charles e da princesa Diana foram expostas em livro, entrevistas e grampos telefônicos, gerando incertezas legais e políticas sobre a sucessão ao trono.

Portanto, nada como uma cerimônia grandiosa para a monarquia reafirmar a simbologia. Casamentos principescos por vezes alimentam esperanças de mudança no reino, mas essa é uma interpretação frequentemente equivocada. William não precisaria alterar seu estado civil para reivindicar um direito que ganhou no dia 21 de junho de 1982, quando nasceu. Na monarquia, a cerimônia de mudança começa no funeral do antecessor e termina na entronização. E William é o segundo na linha sucessória desde o nascimento.

Kate e William: uma cerimônia para encerrar 20 anos de crise na imagem da monarquia

O que o casamento traz como simbologia não é a mudança, mas o seu contrário. Ele é a imposição e o reconhecimento da suntuosidade, da pompa, da tradição e da reverência à realeza. Os convidados são obrigados a se curvar aos futuros reis e rainhas, que se mostram quase intocáveis – o protocolo proíbe abraços, beijos e qualquer outra manifestação de intimidade com os noivos.

A cerimônia de William e Kate representa ainda a oportunidade para a monarquia aprofundar com seus admiradores uma aliança que atualmente, para se justificar, depende mais do emocional que do racional. De um lado está a família real com seus castelos, bosques, fazendas, viagens, recepções e criados, e que, até o “Annus Horribilis” de 1992, nem imposto pagava. Do outro fica o contribuinte britânico que banca uma conta mensal de R$ 10 milhões para sustentar a mais cara monarquia da Europa.

Ao longo da década em que perdeu em popularidade para a princesa Diana, Elizabeth II soube capitalizar os infortúnios da Casa de Windsor. Os barões conservadores da mídia, justamente os que na pessoa física mais apóiam a monarquia, popularizaram os escândalos. E, como alquimistas da opinião pública, converteram indignação em espetáculo. Duas décadas depois do “Annus Horribilis”, Elizabeth II encontrou no casamento do neto, o atalho para retomar o trilho original e, finalmente, festejar com a solenidade que a cerimônia exige seu 60º ano de reinado.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , ,

quarta-feira, 23 de março de 2011 Mundo | 18:04

Elizabeth Taylor, a beleza que ajudou a mudar uma geração

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Quando Elizabeth Taylor apareceu, ainda criança, para as câmeras do cinema, o mundo vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial e as mulheres estavam presas aos papéis de antigamente: o casamento quase sempre precoce, a dedicação familiar anulando a vida profissional. Quando Elizabeth Taylor virou uma das primeiras grandes estrelas globais, o ocidente redescobria a prosperidade, e com ele o glamour.  Era uma época de urbanização acelerada, desenvolvimento da indústria de massas, incorporação da mulher ao mercado de trabalho e definição de novos papéis sociais. Pode-se limitar o obituário de Elizabeth Taylor aos seus 50 filmes em 70 anos de carreira. E a isso adicionar um pouco mais de tempero pessoal, com os oito casamentos e sete maridos e uma luta de décadas contra a dependência química, de barbitúricos ao álcool.

Liz Taylor: quase a contragosto, garota-propaganda de um novo comportamento feminino

Com seus olhos cor de lilás, Elizabeth Taylor protagonizou um papel maior ao simbolizar esse glamour dos chamados “anos dourados”. Suas roupas de gola larga abriam amplos e insinuantes decotes, em V ou em U, para um colo que quase rivalizava com o de Sophia Loren, numa fase em que a moral americana mal aceitara a revista Playboy (lançada em 1953). Mas enquanto Sophia Loren abrigava no pescoço colares de pérolas que pareciam valorizar apenas os seios, as pedras preciosas de Liz Taylor agiam em todas as direções: iluminavam os vestidos, emolduravam o colo e realçavam o brilho violeta de seu olhar. Era uma imagem para ser admirada e para servir de exemplo. Elizabeth Taylor foi ícone de um mercado de beleza, moda e acessórios em franca expansão.

E, quase a contragosto, garota-propaganda de um novo comportamento social da mulher. Com papéis geralmente densos na tela, ela era, fora do cinema, o rosto incrivelmente belo numa personalidade destinada a expandir a fronteira feminina nos “anos dourados”: separações seriais, abusos de barbitúricos, crises de bebedeiras e dificuldade na convivência com o envelhecimento renegaram o modelo dominante, atraíram discussões e emularam a mudança de comportamento de uma geração de mulheres, em vários países do Ocidente. Como quase sempre acontece com os ícones que morrem distante do apogeu, o tempo lhe foi cruel e hoje a inspiradora Liz Taylor do pós-Guerra seria, provavelmente, apenas uma garota-problema.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , ,

quinta-feira, 17 de março de 2011 Mundo | 19:49

Na tragédia nuclear, a segunda vítima é a informação

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Veja o vídeo abaixo. Nele, o cinegrafista filma a força do tsunami na cidade de Miyako. A câmera se desloca do mar em direção à cidade. Quando chega próxima à avenida, onde três carros se encontram no caminho da onda gigante, a imagem é cortada.

No país em que as pessoas fizeram da câmera de filmar uma extensão do olho, o terremoto seguido de tsunami foi, à primeira vista, exposto de forma ampla, geral e irrestrita: casas, estradas, aviões, barcos, carros, árvores, tudo desceu, água abaixo, nas telas do mundo.

Num olhar mais atento, contudo, nas impressionantes cenas havia de tudo, menos gente. Uma das raras pessoas a aparecer no meio do caos foi essa da imagem abaixo: pano branco à mão na segurança provisória de uma casa ilhada.

Não se trata de mostrar a morte ao vivo. No atentado terrorista do 11 de setembro, agências de notícias e emissoras de televisão optaram por não disseminar nem exibir imagens de pessoas desesperadas nos andares mais altos, fugindo do fogo num salto para o vazio. Seus corpos, estendidos ao chão, não ampliariam o drama humano, nem dariam sentido diferente ao terror dos atentados. O drama foi exaustivamente contado pelos parentes das vítimas, pela história dos bombeiros arrastados pelo desabamento, pelos sobreviventes.

Mas a escassa presença de gente nas imagens do tsunami,aliada às desencontradas informações sobre a extensão do acidente nuclear na planta de Fukushima, indica um jeito muito particular dos japoneses lidarem com suas tragédias. No caso do tsunami a omissão significa respeito aos que não conseguiram escapar a tempo. Mas o vazamento nuclear não pode merecer o mesmo tratamento. Nesse caso, omissão é irresponsabilidade.

Se governos estrangeiros indicam que a situação é pior que a informada oficialmente, as autoridades japonesas deveriam, no mínimo, abrir suas instalações para uma comissão independente dirimir a dúvida. Com o tempo, a história de Fukushima será contada em sua verdadeira magnitude. Mas se na guerra, a primeira vítima é a verdade (porque a mentira das autoridades vem antes dos embates armados), na tragédia nuclear japonesa ela é a segunda, imediatamente depois das vidas perdidas no maior terremoto da história do país.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011 Mundo | 18:20

Dilma prenuncia vida dura para os bolivarianos

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Depois da primeira viagem internacional, a política externa da presidenta Dilma Rousseff espera agora o verdadeiro teste. Nos preparativos da visita à Argentina, ela anunciou uma condução menos complacente quanto aos direitos humanos, mas também deixou entrever que manterá um pulso mais firme que seu antecessor no que tange aos interesses econômicos do Brasil. Muito pragmatismo, com menos política e mais negócios — esse é um recado inicialmente dirigido aos outros governantes da América do Sul.

Durante seus oito anos, Lula adotou como estratégia responder com afagos aos arroubos dos governos vizinhos. Cedeu sucessivamente à Bolívia (no preço do gás), ao Paraguai (na compra da energia de Itaipu) e à Argentina (nas tarifas sobre produtos brasileiros), a despeito de contratos estabelecidos. Até hoje parece incerta a real participação venezuelana na refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e tênue é a garantia das empresas nacionais que ajudam a construir a infra-estrutura do Equador.

Os resultados finais estão longe de serem negativos: na política, a Venezuela passou a participar do Mercosul, o eixo bolivariano (Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa) não representa mais ameaça e estabeleceu-se o consenso sobre o assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Na economia, a estrada para o Pacífico está finalmente pronta. A incipiente integração energética salvou Argentina e Venezuela do apagão, mas não do racionamento. Mas também não se pode dizer que as parcerias com os vizinhos tenham andado a passos largos.

Nesse ponto, o ritmo de Lula não foi muito diferente do de Fernando Henrique Cardoso. Há quase duas décadas o Paraguai dificulta a criação de um registro automotivo do Mercosul, que teoricamente facilitaria o trânsito entre os países e ajudaria a reduzir o contrabando, diminuindo o roubo de carros e barateando os seguros. Poucas medidas práticas surgiram para facilitar o trânsito financeiro, de pessoas e do trabalho, essenciais para quem deseja ter um mercado comum. Nada foi feito para desburocratizar o tráfego aéreo e um espaço aéreo integrado é um sonho ainda muito distante, mais por problemas deles do que nossos.

O Brasil venceu as resistências quanto à liderança continental. O PIB brasileiro é superior ao da soma de todos os países da América do Sul. E os quase 20 anos de Mercosul firmaram na mentalidade de uma geração de políticos, economistas e intelectuais do continente a convicção de que integração é desenvolvimento, e não dependência ou ameaça. Em dólares, o Mercosul representa mais para a Argentina do que seus negócios com todos os países da Comunidade Européia ou os Estados Unidos.

Ninguém precisa andar mais de um quarteirão na Recoleta para saber que os argentinos creditam apenas aos seus políticos o fracasso de duas décadas perdidas. A Argentina amargou 11 recessões em 22 anos, entre os estertores da ditadura e o início do governo de Nestor Kirchner. Na virada do milênio, quatro anos de PIB negativo deixaram o país 20% mais pobre. E mesmo com os últimos oito anos de crescimento a população ainda não elaborou os traumas da crise. O argentino médio parece acreditar que tudo o que pode dar errado, dará – a ponto de aplaudir os pousos de avião, talvez porque tenha embarcado imaginando que ele certamente cairia.

Está na hora, portanto, de o Brasil incitar os vizinhos a perseguir o nosso Tratado de Maastricht (que efetivou a união econômica na Europa) e também o nosso Acordo de Schengen (que na prática aboliu fronteiras no Velho Continente). Na eleição brasileira, o Mercosul foi um dos pontos de divergência absoluta entre Dilma e José Serra, que gostaria de denunciar o Tratado de Assunção. A presidenta tem agora a oportunidade de mostrar o acerto do programa do PT e acelerar o processo. Ela começou o trabalho ainda na campanha, quando recebeu o presidente Juan Manuel Santos e acenou com uma relação revigorada com a Colômbia, o país mais distante da política brasileira para o continente.

Um pulso mais firme no respeito aos contratos, aos investimentos brasileiros e aos direitos humanos está longe de criar contenciosos em potencial. Segurança jurídica é ponto básico para um mercado comum mais coeso e forte. Mas como acontece em boa parte das questões internacionais, só se sabe o seu real tamanho quando ela é provocada. É por isso que o encontro com Cristina Kirchner serviu como bom prenúncio do aprofundamento das relações continentais. Mas não como teste de que algo mudou entre a política de Celso Amorim e a de Antônio Patriota, no Itamaraty. Uma eventual confirmação das palavras da presidenta só virá após o próximo arroubo bolivariano.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , ,