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quinta-feira, 17 de maio de 2012 Política | 21:50

Collor ensinou ao Brasil tudo o que não deve ser feito no poder

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Vinte anos depois do início da crise que o levou ao impeachment, a história não teve piedade com o governo de Fernando Collor. Se em muitos de seus aliados havia a esperança de alcançar um lugar de destaque pela abertura econômica do País ou por outras políticas adotadas pelo primeiro presidente eleito pelo povo após 29 anos, esse futuro nunca chegou.

Fernando Collor, 20 anos depois: o tempo não refez a história de seu governo

A maior herança dos anos Collor é a lição daquilo que não deve ser feito. E é pela sua face ora nefasta, ora arrogante, ora simplesmente equivocada que esse governo, paradoxalmente, acabou sendo positivo para o Brasil.

Se hoje os brasileiros falam com orgulho da necessidade de se respeitar contratos, é porque famílias inteiras foram humilhadas pelo confisco de suas economias com os bloqueios na poupança e nas aplicações financeiras.

Se os presidentes que o sucederam procuraram a todo custo (e alguns a um custo elevado demais) manter uma base aliada no Congresso, por pior que ela tenha sido em termos éticos e técnicos, é porque o governo Collor ensinou que não se governa sem Congresso.

Se as CPIs que vieram depois do Caso PC trabalharam com autonomia e levaram à cassação de inúmeros parlamentares, é porque o episódio de Collor gerou um modelo de eficiência, se não jurídica, ao menos política.

Se hoje a Polícia Federal promove operações de faxina dentro de ministérios, é porque a sociedade exigiu, no governo Collor, a abertura desse precedente.

Se o Ministério Público atualmente estende seus galhos para os mais diversos setores da sociedade, é porque fincou raízes legais, de respeito e de credibilidade, lá atrás, nos embates da Era Collor.

Se hoje algum figurão ganhar boladas por consultorias que nunca exigiram um parecer, é porque aprendeu com a EPC (a empresa do notório Paulo César Farias). E se hoje essas pessoas mal duram no cargo ao serem descobertas é porque o resto do Brasil sabe, há 20 anos, que a demissão é o mínimo que a opinião pública espera ver num caso desses.

Se, depois de Collor, os comensais da Corte evitaram o exibicionismo de símbolos de novos ricos e recusaram a ostentação para afirmar uma imagem de modernidade, é porque a República de Alagoas, apesar de não se ver assim, era simplesmente ridícula com seu deslumbramento por grifes francesas de luxo e máquinas importadas.

Veja aqui a página especial do iG com tudo sobre o impeachment de Collor e a história 20 anos depois

1992 foi um ano em que o Brasil viveu em perigo constante. De um lado estava o mais forte governo que o País poderia ter na época: nascido da vontade majoritária das urnas, após 21 anos de ditadura, eleito numa campanha que dividiu a sociedade ao meio, com cidadãos mobilizados e separados pelas emoções e pelas diferenças de propostas. Collor prometeu uma agenda de reformas que iria romper laços protecionistas, patrimonialistas e corporativos da elite nacional.

Muita dessa força não tinha origem no presidente em si, mas no momento histórico: o Brasil vinha da frustração de ver eleito um presidente que nunca assumiu (Tancredo Neves), decepcionado pelo fracasso do Plano Cruzado e massacrado pelo recorde de 84% de inflação em um único mês. Ou seja, hoje seriam precisos mais de dez anos para chegar no descontrole de preços que o Brasil vivia em apenas três semanas.

A juventude, o descompromisso e a personalidade intempestiva do presidente fizeram o resto e, em 1992, o Brasil era um país incrivelmente crispado: militares ressentidos com a crescente perda de influência, a população amargurada pela volta da inflação, os políticos abismados com a desenvoltura dos amigos do presidente, empresários fartos de ameaças, uma juventude absolutamente desiludida com a falta de empregos e perspectivas.

Tudo poderia acontecer no Brasil, do retrocesso institucional à crise federativa, passando pela débâcle econômica (houve um dia em que o Banco Central chegou a ter somente 2 bilhões de dólares de reservas após um ataque especulativo contra a moeda). As denúncias de Pedro Collor, o caçula da família do presidente, deram a liga que faltava aos descontentes e colocaram o Brasil no caminho para a frente. E obrigaram as instituições recém-nascidas da Constituição de 1988 a serem fortes desde seu primeiro grande teste. Esse é o lado positivo do governo Collor.

Se hoje a Constituição se faz respeitada em interpretações que vão das cotas raciais à união de pessoas do mesmo sexo, passando pela autorização para aborto de fetos anencéfalos, é porque ela foi o fio garantidor do impeachment do presidente. E se hoje o Brasil vive seu mais extenso período de liberdades e ninguém mais questiona o valor da democracia é porque, 20 anos atrás, o governo de Fernando Collor obrigou a sociedade a ir ao seu limite.

Confira aqui a linha do tempo, com fotos e videos, do impeachment de Collor

Notas relacionadas:

  1. As águas profundas da CPI do Cachoeira
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , , , ,

quarta-feira, 11 de abril de 2012 Política | 23:03

2012, a eleição do 3G

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Quanto mais governo melhor, essa é a regra para os candidatos que desejam ganhar a eleição deste ano.

Quem tiver o engajamento dos três níveis de governo, o municipal, o estadual e o federal — o 3G –, dificilmente perderá a disputa. O exemplo mais contundente é o do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB). Candidato dele mesmo, do governador Sérgio Cabral e da presidenta Dilma Rousseff, Paes tem a melhor rede 3G do mercado eleitoral. Além dos apoios, ele tem discurso porque representa o projeto carioca de virada econômica, com o pré-Sal, a Copa e a Olimpíada. Fora isso, pode usar a prefeitura como trampolim para a sucessão de Cabral, num momento em que empresas e eleitores do Rio querem a garantia da continuidade.

Sérgio Cabral, Dilma Rousseff e Eduardo Paes: a melhor rede 3G do mercado eleitoral

Situação semelhante vive o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB). Ele tem um 2G contratado para a campanha, já que disputa a reeleição e terá o PT na sua coligação. Como nunca lhe faltou o apoio da principal liderança de Minas, o senador Aécio Neves, a entrada em operação da sua rede 3G depende apenas de um detalhe legal, a formalização da inacreditável chapa que unirá PT com PSDB.

LEIA TUDO SOBRE ELEIÇÕES CLICANDO AQUI NA PÁGINA ESPECIAL DO iG

Como exceção que eventualmente pode confirmar a regra está Porto Alegre. José Fortunati (PDT), o atual prefeito, é uma espécie de 1,5G – tem a máquina pública para sua reeleição e seu partido integra a base do governo federal. Quem teria a rede 2G (estadual mais federal) seria o deputado estadual Adão Villaverde, do PT. Mas mantendo o espírito contestador que já havia se manifestado na eleição do governador Tarso Genro, os gaúchos, segundo as últimas pesquisas de opinião, deram-lhe apenas 2% das intenções de voto. Em Porto Alegre, eles estão abrindo a temporada pré-eleitoral com a candidatura menos governista na primeira posição — a da deputada Manuela D’Ávila, do PC do B, e uma espécie de 0,5G pelo apoio a Dilma no Congresso.

Em São Paulo, o ex-ministro Fernando Haddad, pelo PT, e o deputado Gabriel Chalita, pelo PMDB, pretendem se apresentar como candidatos do governo federal e receber a empatia do ex-presidente Lula (espécie de acelerador de rede para quem só tem 1G). O ex-governador José Serra fica com os outros 2G, o apoio das máquinas municipal e estadual.

Alckmin, com Serra e Kassab: o poder regulatório do governador interfere na autonomia do candidato

Mas nada impede que, numa eventual ascensão do candidato do PMDB nas pesquisas — um cenário hoje tão improvável quanto surpreendente –, Serra venha a ser rebaixado, pelo poder regulatório de Geraldo Alckmin, para 1,7G enquanto Chalita seria promovido a 1,3G. De todos os cenários, talvez seja o mais perturbador para Serra, já que o oposto disso, a candidatura do PT no segundo turno, fortaleceria radicalmente sua rede 2G.

Nos estertores da ditadura, havia um desejo de mudanças de tal magnitude que ao maior partido de oposição da época bastava um único slogan: “PMDB Neles”. No início da redemocratização, o fracasso dos planos de estabilização, a inflação galopante e o desemprego em alta permitiram ao PT faturar suas primeiras cidades em campanhas em que ele se apresentava “contra tudo isso que está aí”. Quanto menos envolvimento com o governo, melhor, era o lema da época, como mostrou a vitória da inexperiente e desconhecida Luiza Erundina contra o notório e experiente Paulo Maluf.

O fracasso do governo Fernando Collor alertou o eleitor para a importância da experiência administrativa e o pleito estadual de 1992 marcou a chegada do “eleitor de resultados” – ele estava pouco se lixando para os partidos, mas queria políticos que soubessem governar. De lá para cá, os sucessos do Plano Real no governo FHC e da expansão econômica do governo Lula levaram o eleitor a índices cada vez mais altos de adesismo.

O governismo é o que o move agora, mas dois fatores podem vir a inibir o bom funcionamento do 3G: o julgamento do Mensalão pelo Supremo Tribunal e as — sabe-se lá quais serão –, descobertas da CPI do Cachoeira. Hoje limitados ao signo do desconhecido, os dois eventos juntos têm potencial de gerar um sentimento hegemônico contra a classe política. Se isso acontecer, melhor do que mostrar apoios dos governos, será se apresentar como um candidato técnico.

VEJA AQUI TUDO O QUE O iG PREPAROU PARA A COBERTURA DA ELEIÇÃO MUNICIPAL DE 2012

Notas relacionadas:

  1. Os mágicos cinco pontos que decidem a eleição presidencial
  2. O risco de o PT virar PMDB
  3. Serra e Kassab estão fazendo o PT de bobo?
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , , , , , , , , , , ,

terça-feira, 10 de abril de 2012 Política | 19:51

As águas profundas da CPI do Cachoeira

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Nada mais representativo do atual momento da política nacional do que a iminente criação da Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o mundo subaquático do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Sinal de uma fratura mais profunda no sistema político, a instalação desta CPI move expectativas e interesses contraditórios nos Três Poderes – e, por isso mesmo, seu desfecho dificilmente contemplará todos os argumentos que justificam a abertura.

Carlinhos Cachoeira, em breve na CPI: cada partido tem um final para essa história

A proposta de CPI nasceu de um pedido do senador baiano Walter Pinheiro, líder do PT. E cresceu depois que o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), defendeu que ela fosse mista, unindo deputados e senadores. Todos os parlamentares têm autonomia e independência para recolher assinaturas para a CPI que quiserem ver criada. Mas Pinheiro, além de ser o líder do partido no Senado, é visto no Congresso como alguém muito ligado à presidenta Dilma Rousseff. Ele foi um dos dois únicos senadores do PT a não prestigiar aquela famosa ida de Lula a Brasília, no auge da crise que acabou gerando a saída do ministro Antônio Palocci. E sua atitude contou pontos no Palácio do Planalto.

Não há registro de governos que apoiem CPIs de notória consequência política, e mesmo o engajamento do presidente da Câmara no processo não oferece garantias de que a presidenta Dilma deseje a instalação dessa investigação. Mas os líderes do PT enxergam na CPI do Cachoeira a chance de imprensar o governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, e vários outros políticos da oposição, sejam do PSDB, do DEM ou do PPS.

Esperam, ao longo dos trabalhos, aniquilar o discurso anticorrupção da oposição e estender suas implicações para a disputa municipal deste ano. O cerco investigativo contra tucanos e democratas também traria efeito balsâmico para as dores que o provável julgamento do caso do Mensalão infligiria ao PT. Mais ainda porque, nessa avaliação, ambos eventos ocorreriam ao mesmo tempo.

O pedido está recebendo apoios tanto de outros partidos da base aliada, como da própria oposição. O bloquinho criado por senadores do PR, do PTB e do PSC poderá tirar da CPI do Cachoeira os benefícios que muitos parlamentares já recolheram em outras ocasiões – quando souberam dosar o afã denunciativo e a exposição gratuita na mídia às concessões de objetivos eleitorais. Numa provável divisão dos membros da CPI entre oposicionistas e petistas, eles podem atuar como fiéis da balança em votações importantes – e isso tem seu valor político.

O PSDB, encrencado pelo envolvimento de um deputado federal no inquérito que tramita no STF e pela suspeita de que os afluentes de Cachoeira tenham alcançado pelo menos as margens do governo de Marconi Perillo, quer a instalação da comissão para, no grande plano, ampliá-la, quem sabe, para uma espécie de CPI da Faxina.

Marconi Perillo: o governador de Goiás vive sua maior encrenca

Na conta menor, navegaria nas águas que passaram sob os viadutos do Distrito Federal, onde o PT comanda o governo. Não seria mau negócio, pensam os tucanos, sair dessa CPI com um empate: um governo de cada lado. Noutra frente, haverá quem batalhe para encontrar supostos vínculos de Cachoeira com políticos do Rio, Estado onde existia um ramo de seus negócios.

Como instituição, o Congresso tem na CPI a oportunidade de afirmar seu poder contra o que os parlamentares chamam usualmente de “usurpação legislativa” do Supremo. Não deixa de ser intrigante que o movimento de instalação da comissão parlamentar tenha ganhado força depois de o ministro Ricardo Lewandowski ter negado acesso da Corregedoria do Senado e do Conselho de Ética aos autos do inquérito da operação Monte Carlo. Se o primeiro ato da CPI for aprovar uma requisição ao Supremo da cópia do inquérito, então está definido o tamanho do fosso que se cavou entre os dois poderes. Será um início de trabalhos capaz de gerar um debate, se não quente, pelo menos acalorado sobre as prerrogativas de um e outro poderes da República.

Vinte anos atrás, quando a CPI do Caso PC Farias já havia se tornado uma necessidade política por força da opinião pública, o experiente Ulysses Guimarães, com seus mais de 50 anos de vida pública, relutava em apoia-la. “CPI a gente sabe como começa, mas não sabe como termina”, argumentava. Nesses 20 anos, nenhum governo incentivou a instalação das que têm implicações políticas. Itamar Franco foi quem chegou mais próximo disso, durante as investigações da chamada CPI dos Anões do Orçamento – mas antes tomou o cuidado de fazer um acordo que limitaria a investigação aos malfeitos dos parlamentares.

Se funcionar como as suas congêneres mais famosas, a CPI do Cachoeira ainda assim estará sob uma realidade desconhecida: será a primeira CPI política (e não temática) a acontecer na era digital. No passado, parlamentares sabiam para quem vazar informações e podiam pesar antecipadamente as consequências. Mas agora, com os recursos que a internet oferece, nada impede que um deles publique suas descobertas num blog do mandato, protegido pela imunidade parlamentar, repercutindo instantânea e mundialmente e alavancando o poder mobilizador das redes sociais.

A CPI do Cachoeira, portanto, promete ser tal e qual o nome e suas circunstancias: à distância oferece a ilusão de espetáculo cristalino, enquanto na origem remói águas revoltas. A menos que seja uma tremenda cascata, dali correrá água para uma limpeza que o Brasil não vê há 18 anos — já que nem sob FHC, nem sob Lula houve uma CPI política no Congresso. Como ocorreu em outras, antes deles, espera-se que um Brasil mais transparente possa emergir da profundeza dessas águas.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

quarta-feira, 7 de março de 2012 Economia | 21:41

O governo Dilma e a Nova Classe Rica

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O fenômeno foi mensurado pela pesquisa “De Volta ao País do Futuro”, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas: proporcionalmente, até 2014 as classes A e B somadas irão crescer quase três vezes mais que o ritmo de expansão da classe C. Nos próximos dois anos, nada menos do que 6,5 milhões de brasileiros, uma população equivalente a do Paraguai, alcançarão as faixas mais altas da pirâmide social.

Isso significa que eles terão renda familiar acima de R$ 6.220, carro para passear e vários eletrônicos e eletrodomésticos (tevê, geladeira, máquina de lavar, computador) equipando a casa. A maioria será formada em universidades, terá um plano de saúde para usar médicos e hospitais particulares e deverá viajar de férias uma vez por ano. Quase todos terão televisão por assinatura e banda larga doméstica. A Nova Classe Rica, portanto, deverá entrar para a história do governo Dilma Rousseff assim como a Nova Classe Média, a incorporação de 35 milhões de pessoas ao mercado consumidor, esteve para o governo Lula.

Do ponto de vista econômico, trata-se de uma equação já desenhada: mantido o atual ritmo de crescimento do PIB e de aumento da renda média, o Brasil assistirá, em algum momento dos próximos 18 meses, a um evento inédito. Pela primeira vez na sua história, haverá mais gente no cume da pirâmide social do que na base – até a eleição presidencial de outubro de 2014, deveremos contar cerca de 30 milhões de brasileiros ricos contra 20 milhões de brasileiros miseráveis.

Do ponto de vista político, a antiga mentalidade verá na expansão da Nova Classe Rica quase a contradição de um governo que fez do “Brasil sem Miséria” sua bandeira social. Muitos brasileiros ainda se indignam mais com a riqueza do que com a pobreza, mas nesse caso a leitura social é exatamente a oposta. O estudo da FGV mostra que o Brasil sepultou definitivamente o ciclo de concentração de renda das décadas de 1970 e 1980. E o objetivo final do programa de Dilma Rousseff nunca foi o de manter uma massa de excluídos, mas de justamente extingui-la. Aos poucos, um pedaço crescente do Brasil perde a vergonha de celebrar a a adição de seis novos bilionários na lista da revista Forbes (agora são 36) ou a assunção de quase duas dezenas de novos milionários por dia (agora são quase 150 mil brasileiros com mais de um milhão de dólares em investimentos de liquidez imediata).

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Eike Batista: o sétimo mais rico do mundo tem US$ 30 bilhões

A grande questão que a Nova Classe Rica suscita, para ela e para o futuro do país, está ligada ao retrato que fará de si mesma. Se herdar o comportamento individualista, patrimonialista e autoritário da velha elite, o Brasil será uma caricatura de país desenvolvido. Mas se essa nova força estiver baseada em igualdade de direitos e oportunidades, em progresso pelo esforço de cada um, no cuidado com os espaços coletivos, no aprimoramento intelectual e no refinamento do gosto, essa Nova Classe Rica mudará o patamar do Brasil uma segunda vez.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , ,

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012 Política | 21:46

Serra e Kassab estão fazendo o PT de bobo?

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Se, e quando, for confirmada a candidatura de José Serra a prefeito de São Paulo, o PT deveria promover um encontro para pedir desculpas à senadora Marta Suplicy. Nos últimos quatro meses, ela foi a principal liderança petista a não se deixar levar pelas partículas de candidatos e alianças que permaneceram em suspensão no horizonte político da cidade. Enquanto o partido mergulhava na nuvem de poluição causada pela inversão térmica eleitoral, Marta registrava sua discordância e sinalizava o risco. Primeiro, pediu para evitar uma escolha antecipada do candidato do PT, mas foi atropelada. Depois, alertou para o feitiço da aliança com o PSD do prefeito Gilberto Kassab — e só não foi totalmente ignorada porque parte da militância petista ainda cobra um mínimo de coerência política.

Kassab na festa do PT: aliança em potencial ou jogo de dissimulação?

Marta terminou sendo posta à margem porque o PT precisava se renovar, enquanto ela nunca escondeu o desejo de tentar o cargo pela quarta oportunidade. Mas, por isso mesmo, o partido deveria tê-la ouvido: após passar quatro anos na prefeitura e perder duas eleições, uma para Serra e outra para Kassab, era Marta quem, no PT, mais tinha condições de interpretá-los. Teria sido, no mínimo, por respeito a uma tradicional regra da política: ninguém conhece melhor você do que o seu inimigo.

Quando perdeu a convenção do PSDB para Aécio Neves, em maio do ano passado, Serra sabia que seu projeto presidencial só seria retomado em duas hipóteses. Na primeira, ele atuaria de coadjuvante, capaz de ser promovido a protagonista por falta de nomes. Assim, a candidatura de 2014 teria de lhe cair no colo, com Aécio voltando para Minas Gerais e Geraldo Alckmin tentando a reeleição paulista. Para que pudesse ter um mínimo de autonomia sobre seu destino, no entanto, a Serra só restava uma candidatura a prefeito de São Paulo (leia, na coluna Análise de 28 de maio do ano passado, os motivos para isso).

Durante nove meses, portanto, Serra pareceu estar morto. No lugar de se apresentar como viúva, Kassab criou o PSD e vestiu-o de noiva, tentando ser vice-governador na eventual reeleição de Geraldo Alckmin ou ocupando, com seus parlamentares, ministérios no governo Dilma Rousseff. No projeto ideal de Serra, sua candidatura a prefeito permaneceria congelada, para despertar apenas no final do semestre – por questões legais, ele é o único nome forte capaz de ser oficializado no último minuto da convenção partidária. Mas a proximidade das prévias internas do PSDB para a escolha do candidato a prefeito, marcada para depois do carnaval, tirou-o da hibernação. Marta Suplicy teria direito igual, mas seu partido já saiu às ruas com a candidatura do ex-ministro Fernando Haddad.

Em outubro, quando a eleição chegar ao final, a história de Serra e Kassab será reescrita com base no resultado e o que até hoje era apresentado como desejo sincero provavelmente será interpretado como um jogo de dissimulação. Houve um momento em que Serra gostaria de não correr o risco da disputa em São Paulo e de ter se mantido à tona como presidente do PSDB. E Kassab preferia uma aproximação com o poder federal do PT.

Ao submergir, Serra recuperou a liderança política. E teria também reduzido a taxa de rejeição porque deixou todos brigando contra todos enquanto assistia tudo à distância. Isso é importante porque, desde a adoção do segundo turno, a maioria em São Paulo é formada em torno do nome do adversário de quem o eleitor não quer eleger – e não em torno do nome favorito. Essa decisão racional, baseada na rejeição a um candidato ou partido, e não na paixão pelo outro, garantiu os mandatos de Pitta, Marta, Serra e Kassab.

O atual prefeito agora dificilmente mudará de destino porque as resistências de Dilma Rousseff e de Geraldo Alckmin em aceitar suas condições para um acordo acabaram por criar um processo simbiótico com Serra. O fracasso de ambos desenhou o caminho que se trilha neste momento na capital paulista. Para que o PSD permaneça como um projeto viável de poder, Kassab depende de Serra na prefeitura. Afinal, se partidos com mais de 20 anos de história, como o PSDB, desidratam por estar na oposição, a sobrevivência de uma legenda recém-criada não acontecerá sem uma máquina com o peso da de São Paulo.

Para Serra, a confirmação da aliança com Kassab e um eventual retorno à prefeitura oferecem o que seu partido lhe recusou no encontro de maio do ano passado – estrutura para retomar o projeto presidencial. E, além de tudo, também serve de bóia partidária caso os tucanos o abandonem no meio da última chance que lhe resta de fazer a travessia para o Planalto.

Foi essa dependência mútua entre Serra e Kassab que Marta Suplicy vislumbrou como um jogo que acabaria por engabelar, além do PT, o governador Alckmin e os quatro pré-candidatos do PSDB. No caso do PT, o pedido de desculpas a Marta se fará necessário não apenas porque o partido precisa de sua experiência na campanha de Haddad, mas sobretudo como autocrítica. Afinal, não foi a nuvem de candidatos e alianças que turvou a visão das lideranças petistas, mas a mistura de poluentes eleitorais ainda mais básicos: arrogância, ambição, precipitação e desejo de vingança.

Notas relacionadas:

  1. O que esperar do horário eleitoral?
  2. Os mágicos cinco pontos que decidem a eleição presidencial
  3. Para José Serra restou a candidatura a prefeito de São Paulo
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011 Política | 20:00

O Brasil de Lula vai finalmente aparecer no governo Dilma

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Luiz Inácio Lula da Silva foi um presidente à frente de suas obras. Lançamento de projeto no Palácio do Planalto, inauguração de pedra fundamental, visita a canteiro de obras: Lula estava em todas, anunciado um colosso de aço e concreto que ninguém via. Macacão com mancha de óleo, boné de maquinista, capacete de operário: Lula posou com os apetrechos com os quais vendia ao grande público a retomada das grandes construções. Mas Lula se foi sem apertar o botão que move as engrenagens.

Lula em trecho de obra da transposição do São Francisco em outubro de 2009. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Exatamente como disse numa entrevista ao iG, antes de deixar o Planalto: quando o governo consegue superar todas as licitações, licenças e fiscalizações, o mandato já está no fim. Assim, Lula deixou Brasília sem que a água brotasse da transposição do São Francisco, sem que um kilowatt tivesse sido gerado pelas novas hidrelétricas da Amazônia, sem que os estaleiros tivessem lançado seus navios ao mar.

Lula na produção do primeiro óleo do pré-Sal em setembro de 2008. Foto Ricardo Stuckert/PR

O presidente operário queria perpetuar seu governo com imagens de concreto, asfalto, pedras e aço, mas viveu de construções que, embora efetivamente reais, são símbolos que podem ser usados, mas não são vistos (como o Bolsa Família), podem ser sentidos, mas não tocados (como a Nova Classe Média).

Na véspera da chegada de 2012, a Usina de Santo Antônio vai colocar a primeira turbina em operação, na sequência virá o maior navio já construído no País e ao longo do próximo ano tomará forma grande parte daquilo que a oposição ao ex-presidente classificava de jogada de marketing. Em parte, ela tinha razão.

O Brasil das grandes obras nasceu depois da reeleição de 2006, quando Lula, tendo iniciado as microreformas econômicas, ampliado a distribuição de renda e passado pela crise do Mensalão, definiu que precisava de um projeto mais arrojado para o segundo mandato. Empacotado sob o nome do PAC, em janeiro de 2007, o segundo mandato de Lula vai finalmente aparecer no segundo ano do governo Dilma. Ele ajuda a retocar a fotografia do passado, mas dele depende o país do futuro.

Notas relacionadas:

  1. O barco de Dilma e o sopro de Lula
  2. Dilma pressiona o PMDB a ser governo
  3. O que vai ser do governo Dilma depois de Palocci
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011 Economia | 01:24

Steve Jobs, o inventor das coisas que você não sabia que precisava

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A partir do final da década de 1970 quando Steve Jobs e Bill Gates iniciaram sua história de competição e amizade no incipiente mercado de informática, só um deles soube enxergar o futuro. Era uma era de equipamentos caros, que rapidamente ficavam obsoletos. A Microsoft entendeu que a chave do sucesso seria fazer o comprador transformar esse investimento em ganhos de produtividade e assim dominou o mundo corporativo com seus softwares de apelo individual. Bill Gates anteviu onde aquela indústria nos levaria e venceu a primeira corrida contra a Apple – a da produtividade econômica.

Steve Jobs/AP

Steve Jobs no lançamento do Macbook Air: a Apple mudou os consumos de música, telefonia, informação e lazer digitais

O que Bill Gates não percebeu é que Steve Jobs estava, na realidade, 20 anos à frente daquele futuro. No lugar de desenvolver empresas, ele queria facilitar a vida das pessoas. O Macintosh (era assim, por extenso, que se escrevia o nome do principal produto da Apple), portanto, foi moldado para conquistar mentes e corações dos que precisavam criar: arquitetos, designers, publicitários, cineastas, músicos – era esse o primeiro e fiel público da Apple. O Mac era um equipamento muito mais caro que seu concorrente. Mas para os artistas da criação, o PC com seu Windows eram quadrados demais para fazer frente em funcionalidade, liberdade ou beleza. Envenenada pela mordida na maçã, essa tribo de inovadores fez da Apple uma empresa “cool”, dona de produtos de vanguarda, visualmente atraentes.

Em 1993, quando uma incipiente internet ameaçava reinventar o futuro dos computadores, Bill Gates ficou preso às redes corporativas. “A internet?”, disse ele numa entrevista. “Nós não estamos interessados nela.” Cinco anos se passaram, e ele reconheceu que o futuro havia mudado sem sua participação. “As vezes somos pegos de surpresa”, disse em julho de 1998. “Por exemplo, quando a internet veio, a gente a tinha como quinta ou sexta prioridade.” A primeira vitória de Bill Gates se deu, na realidade, na última corrida do século passado – e agora o resultado dela já não tinha mais importância.

O mundo estava entrando na era Google e em muitos pontos a filosofia da nova gigante do mundo digital era similar à da Apple: facilite a vida das pessoas, seja confiável, ágil, organizado, simples. Processadores cada vez mais rápidos e potentes, servidores baratos e de grande capacidade de armazenamento transformaram a economia e a criatividade: música, texto, fotos, conversas, documentos, vídeos, planilhas, gráficos, jogos (e agora até amizades, namoros, aventuras e viagens) – tudo resumido a bytes, guardado e acessado em qualquer ponto do ciberespaço.

E então o futuro chegou onde Steve Jobs o imaginara mais de duas décadas antes e a Apple saiu na frente na primeira corrida do século XXI – a da economia criativa. Ele mudou os consumos da música com o iPod, da telefonia com o iPhone, da informação e do lazer digitais com o iPad. Steve Jobs liderou uma empresa que inventou muitas coisas que você não sabia que precisava. E daquilo que parecia supérfluo, ele fez uma necessidade de consumo, um instrumento cotidiano, e revestiu-lhe do mais importante: o valor sentimental.

Leia tudo sobre a morte de Steve Jobs

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , , , , , ,

terça-feira, 23 de agosto de 2011 Política | 21:02

Novo clero é a tropa de choque do governo no Congresso

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Nem Alto Clero, os grandes caciques dos partidos (como o hoje vice-presidente Michel Temer, do PMDB, ou o falecido Luís Eduardo Magalhães, do PFL) que durante o governo Fernando Henrique Cardoso transformaram as lideranças dos partidos e a Presidência da Casa no posto avançado do Planalto. Nem Baixo Clero, os deputados e senadores com larga bagagem parlamentar, mas de pouca influência política e pequena projeção pessoal, que desde a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) mostraram seu apetite na negociação com o governo. O que está em construção neste momento no Congresso é a formação do Novo Clero, um processo de renovação que divide quase todos os partidos, com o incentivo cada vez menos discreto do Palácio do Planalto.

Tão logo os parlamentares retornaram do recesso de julho, os fatos foram se acumulando de maneira eloqüente. No PP, o partido que abriga o maior contingente de baixo clero por metro quadrado do tapete verde da Câmara, a renovação veio num golpe. Em 12 de agosto, o líder Nelson Meurer, do Paraná, foi dormir sem o cargo. Meurer está no quinto mandato e no início do ano foi eleito por 30 dos 44 deputados do PP. Em seu lugar, entrou um deputado de primeiro mandato, Aguinaldo Ribeiro, da Paraíba, num movimento da bancada que, por mais contraditório que pareça, é contra o ministro da legenda, Mário Negromonte (ainda na Pasta das Cidades e também no quinto mandato parlamentar), porém a favor do Planalto.

Mendes Ribeiro: o novo clero do PMDB colhe o que plantou

Assim como Alfredo Nascimento (demitido dos Transportes), Wagner Rossi (que pediu demissão da Agricultura) ou Pedro Novais (entrincheirado no Turismo), o ministro Negromonte chegou lá muito mais por uma imposição dos antigos líderes partidários que numa combinação com a presidenta Dilma Rousseff. Se puder trocá-lo sem perder apoio no Congresso, o governo o fará. Repetirá a tática vitoriosa de duas semanas atrás quando foi surpreendido pelo pedido de demissão de Wagner Rossi, do alto clero do partido em São Paulo. Com a vaga aberta no Ministério da Agricultura, um pedaço da bancada sugeriu o nome do deputado Moacir Micheletto, do baixo clero do Paraná. Deu o representante do novo clero, Mendes Ribeiro, do Rio Grande do Sul.

Dono da segunda maior bancada e, portanto, do direito de nomear o representante em várias comissões importantes da Casa, o PMDB está vendo a rebelião do novo clero se alastrar. O caso mais recente gira em torno da indicação, feita pelo líder Henrique Eduardo Alves, para o cargo de relator da Comissão que analisará o novo Código de Processo Civil. Alves quer o deputado Eduardo Cunha (alto clero-RJ), contra a oposição de Danilo Forte (baixo clero-CE), que tenta se deslocar para o novo clero. A divisão da bancada pode custar a Alves a pretensão de se tornar presidente da Câmara em fevereiro de 2013.

A reação coletiva dos caciques de vários partidos à faxina ética promovida por Dilma foi interpretada por muita gente como um prenúncio de uma crise institucional entre Congresso e Planalto.  O que está ficando explícito agora é a existência de focos de revoltas nos diversos partidos contra o velho clero. E para enfrentar o governo cada um deles precisa antes recobrar o consenso interno. Para Dilma, a situação mais delicada do momento é a do PR, no qual alto clero e baixo clero se uniram contra a nomeação do ministro Paulo Sérgio Passos, dos Transportes. E o novo clero ainda não se apresentou para o jogo.

A ascensão desse terceiro clero é um movimento de risco. Num primeiro momento, ele paralisa muitas definições importantes, de cargos em comissões e relatorias de projetos de interesse do governo a nomeações nos vários escalões da Esplanada. Também incentiva o chamado fogo amigo, denúncias recíprocas entre aliados do próprio governo. Mas se o processo vier a se concretizar, o novo clero oferece a Dilma uma interlocução mais suave com o Parlamento, bancadas mais coesas e mais alinhadas com os projetos da presidenta, o que, no final das contas, reduziria a pressão no balcão da ministra Ideli Salvatti. Essa tropa de choque do governo será menos dependente de emendas individuais, menos sujeita aos desvios desses recursos, e mais comprometida com o sucesso de uma gestão que precisou apertar as contas públicas no presente oferecendo em troca a promessa de resultados na reeleição de cada um, daqui a três longos anos.

O novo clero é uma aposta da paciência sobre o pragmatismo, da confiança num projeto de governo sobre o interesse individual. Se ele triunfar, serão os seus representantes que estarão nas tribunas de honra dos novos estádios da Copa de 2014, num cenário de inflação e juros em declínio e economia novamente em ascensão, o que permitirá soltar as amarras das emendas individuais. O novo clero tem uma travessia complicada, mas, para quem nele embarcar, é um projeto eleitoral mais seguro que o atual – no qual todos os deputados brigam contra o governo pela liberação de emendas e nomeações de apadrinhados, montam suas campanhas com essas armas e partem para uma guerra fratricida pelas prefeituras.

Notas relacionadas:

  1. Onde está o novo na campanha presidencial?
  2. Dilma pressiona o PMDB a ser governo
  3. Para entender o silêncio de Dilma
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

quinta-feira, 21 de julho de 2011 Política | 16:49

Para entender o silêncio de Dilma

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Dilma Rousseff completa 200 dias no Planalto envolta no mesmo silêncio que caracterizou seu governo até agora. Nenhum pronunciamento contundente, nenhuma entrevista franca, nenhuma frase de efeito para marcar a data. Tal qual aconteceu nos 100 dias, ou mesmo nas viagens e crises deste início de mandato, a presidenta faz das suas poucas palavras, em solenidades e aparições públicas, um não-evento.

Como não está afônica, o silêncio de Dilma poderia ser timidez, mas isso a campanha eleitoral do ano passado já desmentiu. Também poderia ser simplesmente por ela não gostar de falar, mas quem já foi recebido em audiência sabe que Dilma valoriza a dialética e adora um bom debate. Também não existe a possibilidade, dada à natureza do cargo, de que tamanho resguardo seria por não ter o que dizer.

Dilma e Temer: falar em público não colabora para o bom andamento dos trabalhos

Fica evidente, portanto, que a presidenta não deseja tornar públicos seus pensamentos. Dilma pouco fala porque a sinceridade, agora, não ajudaria no bom andamento dos trabalhos. Ao contrário de seus dois antecessores imediatos, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, cuja eloqüência pública ajudava-os a minimizar crises, Dilma resta em silêncio para não alimentá-las.

Seu maior foco de problemas é a relação com o Congresso. Premida pela necessidade de um esforço fiscal para evitar a disparada da inflação, a presidenta cortou o orçamento onde dava para cortar. Por crença e por coerência política, ela não iria, nem irá, reduzir o tamanho do Estado, privatizando e promovendo uma reforma administrativa. Por imposição do calendário, ela não tem como cortar recursos para as obras da Copa do Mundo de 2014 e nem é razoável sucatear ainda mais a infra-estrutura de um país ainda carente de obras que mal saíram do papel. Politicamente, o governo já aumentou os impostos possíveis, como o IOF sobre gastos em dólar no cartão de crédito.

Restou a Dilma abrandar o aumento real do salário mínimo, o que contrariou o populismo da base governista. E também segurar a bilionária verba das emendas parlamentares, abrindo o flanco para as mais explícitas chantagens políticas desde as concessões do governo José Sarney para obter o quinto ano de mandato na Constituinte de 1988.

Logo após a vitória na eleição, ela anunciou em conversas com os políticos que preservaria a coalizão e aceitaria indicações dos partidos aos cargos do novo governo, desde que os indicados tivessem qualificação técnica e boa reputação. Os partidos foram avisados que quem não seguisse a cartilha não obteria a nomeação. E que em casos de desvio posterior, políticos e apadrinhados teriam de se explicar à Polícia Federal e à Justiça. Foram os partidos, portanto, que decidiram testar Dilma e não a presidenta que quis se impor a eles.

Em duas ocasiões fundamentais, o PT reacendeu a chama das disputas internas e reivindicou independência do Planalto (coisa que nunca fez contra Lula porque trabalhou sob Lula): a escolha do presidente da Câmara dos Deputados e a eleição do novo presidente do partido. Os líderes tradicionais do PMDB excluíram das negociações com o governo alguns colegas recém-eleitos e que Dilma gostaria de ter como interlocutores seus dentro do partido aliado.

Essa política de muito apetite e pouca renovação foi uma aposta de todos os aliados do governo, quando a presidenta tinha sinalizado para que fizessem justamente o contrário. Se Dilma não os atendeu é porque eles não souberam ouvi-la ou não quiseram acreditar na presidenta. Se ela manifestar isso publicamente, criará ainda mais problemas.

O silêncio de Dilma é forçoso também na mudança de viés econômico. Se Lula teve condições de adotar medidas clássicas de elevação dos juros e corte de despesas públicas e responsabilizar a “herança maldita”, Dilma não pode creditar o ajuste de agora a eventuais excessos da política anticíclica do governo anterior. Os fatores inflacionários não estão ligados apenas ao aquecimento da economia no ano eleitoral de 2010 e o que resta à presidenta nesse primeiro momento é usar um mal menor, como a sobrevalorização do real, para combater um mal maior, a escalada inflacionária.

Depois de uma campanha presidencial que demonizou a privatização, o silêncio é bom conselheiro para um governo que vai realizar concessões privadas para expansão dos aeroportos e que aguarda capital privado para tocar o projeto de trem-bala, além de várias parcerias público-privadas para as obras que vão preparar o Brasil para receber a Copa do Mundo em 2014.

O país precisa de todos os capitais possíveis, estatal e privado, nacional e estrangeiro, para desafogar o gargalo da infra-estrutura e melhorar a competitividade da sua economia. Diante da queda de braço que os políticos decidiram travar com o governo, mesmo algo facilmente consensual, como esse esforço coletivo para melhorar estradas, portos e aeroportos, parece se tornar objeto de chantagem política. Nessas condições, enfrentar publicamente a classe política corresponde a retardar a agenda de modernização que Dilma deseja fazer no seu governo. Ceder aos políticos, no entanto, é comprometer a força da política de combate à inflação. Esse é o impasse que silencia a presidenta.

Notas relacionadas:

  1. A força de Dilma é sua fraqueza e sua fraqueza é o ponto forte
  2. Votação do salário mínimo revela embate entre três projetos de país
  3. Em 100 dias, o pragmatismo de Dilma Rousseff ainda não foi posto à prova
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , ,

sábado, 2 de julho de 2011 Política | 12:29

Itamar Franco, o presidente que garantiu a democracia

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A morte de Itamar Franco encerra uma fase privilegiada da história do Brasil – a de um país que tinha, atuantes, os cinco ex-presidentes da sua redemocratização. Se José Sarney foi o da transição democrática, Fernando Collor o da abertura de mercado, Fernando Henrique o da estabilização inflacionária e retomada do crescimento e Lula o da distribuição de renda e expansão econômica, Itamar Franco era, dos cinco, o que nunca foi consagrado por um epíteto. De fato, não era nada simples enxergar os melhores atributos de Itamar. E isso se dava em parte pelo seu temperamento, em parte pela época em que governou.

Pelo temperamento, foi um presidente mercurial, o primeiro a chegar ao Planalto sem uma primeira-dama, alguém ao mesmo tempo galanteador e quase tímido, um tipo que muita gente classificava apenas como “esquisitão”. Pela época em que governou, Itamar Franco foi um presidente do acaso, até mais ainda do que José Sarney, dadas as condições em que Fernando Collor e Tancredo Neves foram eleitos. E sendo do acaso, era frágil porque era desconhecido, tanto na grande massa quanto na maior parte da elite nacional. Sua popularidade estava restrita aos eleitores de Minas Gerais e aos colegas de Senado.

O presidente e seu topete: cabelos e temperamento revoltos, mas firmeza de propósitos

Hoje muita gente vai reconhecer Itamar Franco como o presidente do Plano Real, o que é um fato cronológico, já que a estabilização nasceu sob seu governo, mas não é necessariamente uma verdade política. O Real nasceu das lições dos fracassos anteriores, da confiança que os economistas envolvidos depositaram em FHC, mas, sobretudo, da necessidade da elite da época de fazer algo para barrar a vitória quase certa de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência. O Real é fruto do anti-Lula, e Itamar merece um epíteto melhor que esse.

É certo que se o Brasil vive seu mais longo período de normalidade democrática, isso é consequência de uma construção coletiva. Mas foi entre as denúncias que levaram ao impeachment de Fernando Collor e a eleição de Fernando Henrique Cardoso que as atuais regras democráticas mais balançaram. E se elas resistiram é porque o presidente Itamar Franco foi menos fraco, menos vacilante e mais determinado do que seus críticos possam fazer crer.

Na era Itamar, o Brasil pôde tudo, inclusive acabar com a República e criar o Parlamentarismo. Não foram poucas as conversas para que isso acontecesse, mesmo fora do plebiscito sobre o sistema de governo. Contra as aventuras havia, naturalmente, a força de Lula e do PT. Seus 40% de preferência eleitoral e a capacidade mobilizadora de seu partido tornavam qualquer tentativa golpista apenas isso, uma aventura. Mas se nem uma aventura existiu e o País seguiu no seu rumo constitucional é porque todas as vezes em que ofereceram a Itamar Franco um ingrediente da poção venenosa do golpismo, o presidente apareceu com o antídoto.

Contra o veneno da fragmentação política e da falta de apoio, ele ofereceu um governo de coalizão. Depois da desilusão nacional causada por um presidente que bloqueou poupanças e caiu sob graves acusações de corrupção, a classe política estava tão desgastada que a ela só restou aceitar a união proposta. E Itamar, mesmo sendo o símbolo máximo dessa fragilidade, soube ser capaz até de seduzir o PT. Veio daí um dos grandes momentos do folclore político de sua época, quando, ao ser chamado de “burro” depois de demitir a ex-prefeita petista Luiza Erundina de seu ministério, respondeu:

– Sou burro, sim. Burro de tê-la nomeado.

Esse temperamento, que ele usava ora como carapaça, ora como vitrine, era talvez o melhor símbolo da sua astúcia política. Quando se viu diante da poção venenosa do udenismo, Itamar mostrou esperteza ao matar na origem o ataque do então governador Antônio Carlos Magalhães ao governo. ACM avisou que levaria um dossiê da corrupção ao Planalto. Itamar marcou hora para receber o pacote de acusações. E, sem avisar ao governador, franqueou a audiência à imprensa. O dossiê de ACM era feito de alguns recortes de jornais, histórias menores. Ele ficou tão desconcertado com a iniciativa de Itamar que o caso (uma tentativa de repetir o que Fernando Collor fez com José Sarney, ao carimbar o governo adversário de corrupto durante a campanha de 1989) acabou ali mesmo, antes do fim da audiência no gabinete presidencial.

Confrontado com o veneno das denúncias de corrupção contra ministros, Itamar foi o único, dos cinco ex-presidentes da redemocratização, a apresentar o antídoto de afastar um auxiliar (o ministro Henrique Hargreaves, da Casa Civil e espécie de braço direito do presidente) enquanto aconteciam as investigações — e a trazê-lo de volta depois que elas não se confirmaram. Mandou para casa, por conta de denúncias, amigos de longa data, como Eliseu Resende, movimento decisivo para a ascensão de Fernando Henrique Cardoso.

Enfrentou uma revolta da polícia federal e, pressionado pela poção venenosa da insatisfação militar, cortejou os generais com aumentos e homenagens. Cercou-se de amigos que lhe davam apoio emocional e inúmeras vezes reviu suas mais históricas verdades. Antes do vice-presidente José Alencar, já na era Lula, era Itamar quem falava de caixa-preta do Banco Central. Balançou o mercado algumas vezes, mas não promoveu intervenções barulhentas, como seus antecessores. Voltou atrás em posições políticas, premido por uma vontade, se não apenas de acertar, de pelo menos não atrapalhar.

Administrou o veneno da inflação com os recursos que pôde: trocando ministros e bravateando contra os bancos. Assumiu com a taxa anual de 1.100% e terminaria seu mandato, dois anos depois, com cinco vezes mais, se não fosse o Plano Real. Para tentar colocar isso numa projeção de hoje, é como se Dilma Rousseff chegasse a 2013 tendo de conviver com uma inflação anual de 33% — com a diferença de que a destruição de valores e sonhos que se dá entre uma inflação de 5.500% e outra de 33% não permite comparações.

O governo de Itamar Franco está para a garantia democrática do País assim como Lula esteve para a garantia da estabilização econômica. Cada um representou igualmente um ponto de transição, Itamar na política, Lula na economia. O fato de eles terem escolhidos o caminho da não intervenção permitiu que o Brasil se tornasse um país melhor. Depois da sequência de fracassos que vinha do governo militar, Itamar foi o primeiro presidente que deu certo. E isso significou muito no Brasil que começou em setembro de 1992 e terminou no último dia de 1994. Por tudo isso, o melhor epíteto para ele seria outro. Hoje morreu Itamar Franco, o presidente que garantiu a democracia.

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