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segunda-feira, 1 de novembro de 2010 Política | 00:10

A força de Dilma é sua fraqueza e sua fraqueza é o ponto forte

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A primeira presidenta do Brasil não fala direta e permanentemente com o Congresso e a elite, como Fernando Henrique Cardoso. Nem fala direta e permanentemente com os movimentos sociais e os cidadãos, como Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma Rousseff chega ao principal cargo da nação sem experiência eleitoral anterior, insuflada pela popularidade do seu maior cabo eleitoral, o presidente da República, e pelo governo mais bem avaliado desde a redemocratização. Mas o que as análises apressadas classificam de dependência e tibieza na realidade camufla uma situação de força da presidenta eleita.

Se o resultado das urnas não tiver sido suficiente para desfazer a enganosa imagem de que Dilma era uma marionete de Lula, não custa lembrar sua trajetória no governo. Primeiro, pegou o Ministério das Minas e Energia ainda assombrado com o apagão do governo FHC. Refez a política energética, foi amplamente contestada, mas o fato é que desde então o Brasil cresceu sem temor de racionamento. Depois, no meio da maior crise da era Lula, o Mensalão, foi escalada para substituir aquele que era tido como todo-poderoso, o deputado José Dirceu. De lá, geriu o principal programa de Lula, o PAC, com seus projetos cheios de arestas a arredondar, dentro e fora do governo: licitações de alto valor, licenças ambientais complexas, concessões em áreas sensíveis, pressão de governadores e parlamentares aliados, interesses estaduais divergentes, rivalidades empresariais.

Quem ainda acreditava nas lendas da imaturidade e inexperiência política deve ter se assustado com a agressividade e os argumentos com que Dilma se apresentou nos debates do segundo turno. Ninguém abre 12 pontos percentuais de vantagem sobre uma biografia como a de José Serra apenas pela herança do lulismo. Dilma fez a parte dela.

Mas sua vitória é fruto, sobretudo, do processo de institucionalização do País. Trata-se de algo menos afeito às manchetes justamente porque é mais distante do personalismo, do populismo, do partidarismo e do passionalismo comuns às campanhas eleitorais. Essa institucionalização é o emaranhado de apoios políticos, de ritos legais e de técnicas de comunicação que moldam as candidaturas e, depois da apuração, impõe limites aos governos. E, nesse ponto, a presidenta eleita jogou melhor que Serra.

Com Dilma, pela primeira vez o PMDB fez uma coalizão, dividindo a chapa, compondo candidaturas estaduais, repartindo tarefas e compromissos. Essa base atraiu mais partidos que a junção PSDB-DEM, o que lhe deu mais tempo de tevê e maiores palanques regionais. Se foi importante antes, ela será vital daqui para a frente. Com dois terços do Congresso, Dilma terá a base política que nenhum presidente, nem mesmo Lula, teve depois do fim do regime militar. E, por temperamento ou prática, deverá ter, com deputados e senadores, uma relação menos pessoal que a de FHC e menos tensa que a de Lula. Sem a interlocução direta com o povo e os movimentos sociais, Dilma é mais dependente do Parlamento que Lula. Sem o traquejo parlamentar de Fernando Henrique, ela precisará de intermediários para o serviço. Isso está longe de ser ruim: preserva a presidenta para os momentos decisivos, distancia a Presidência do jogo miúdo do Legislativo e deve obrigar os partidos a ter compromissos duradouros e maiorias programáticas.

Da mesma forma, o novo governo precisará de interlocutores que estabeleçam uma relação institucional em vários outros pontos sensíveis: sistema financeiro, Igreja, MST, representações empresariais, organizações sindicais. Na área externa é razoável esperar uma diminuição da chamada diplomacia presidencial, tão ao gosto de FHC e Lula, em favor de um espaço nacional, no qual os interesses dos outros países pelo Brasil e as ambições do nosso país no mundo falem mais forte que a capacidade de sedução do presidente da República. Essa necessidade de atuar de forma institucional, com interlocutores gabaritados em cada área, não deve ser entendida como fraqueza. É nessa escolha que a presidenta terá a oportunidade de mostrar o tamanho real de um governo mais técnico, num país mais relevante. É um desafio novo a que os brasileiros ainda estão se acostumando. Americanos e europeus praticam esse jogo institucional há mais tempo (não custa lembrar, por exemplo, que graças a isso um coadjuvante ator de Hollywood foi o responsável pelo fim da Guerra Fria). Assim, Dilma pode parecer fraca porque é mais institucional que seus antecessores, mas é justamente no apoio institucional que reside a força de seu governo. Esse trabalho começa oficialmente hoje e é pelo seu bom êxito que a presidenta será avaliada.

Notas relacionadas:

  1. Dilma no momento chave
  2. O barco de Dilma e o sopro de Lula
  3. Os mágicos cinco pontos que decidem a eleição presidencial
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , ,

62 comentários | Comentar

  1. 62 Rodrigo Frateschi 07/12/2010 14:38

    Caro Suassuna,
    Li teu texto e pra conhecer um pouco mais li alguns outros, como o que fala sobre uma peemebização do pt.
    Gostei de todos e acho que está certo quando diz que o contexto é esse. Veja que com a imprensa começa a funcionar comportamento semelhante e menos cascas de banana estão sendo pisadas. Já tentaram plantar CPMF e outras, bem como a corrida dos pequenos partidos ao PMDB para a formação de bloco.
    O que espero, como petista e como brasileiro é que, apesar dos percalços tortuosos obrigatórios na montagem do governo, que as questões ideológicas que ganharam a eleição sejam cuidadas com amor pela nossa Presidenta, como os princípios do estado laico e das liberdades individuais.
    A Presidenta dá seus sinais, como a discordância no caso do Irã, em que caracteriza-se como uma pessoa que não admite crime de gênero e a declaração de apoio incondicional aos direitos humanos.
    Mas o que quero de coração, é que ela fale, depois de montar o básico do governo, com mais gente, sem muito filtro, pois como disse o Lula, vá ao povo quando precisar, fale com o povo, pois essa gente mais simples sabe muito da vida e por isso doa seu amor mais fácil.

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  2. 61 yolette 02/11/2010 17:23

    Concordo com Jeremias não pode se comparar o cenário que o FHC assumiu com o que Lula
    assumiu. Na época de FHC foi necessário empréstimo ao FMI. FHC usou 20% do que recebeu
    e o restante ficou para o governo Lula usá-lo. O Brasil vinha de uma inflação forte. No governo
    Sarney chegou até a 84% ao mês. Collor também atrapalhou com problemas na poupança. De-
    pois veio Itamar na presidencia e FHC no ministério da fazenda e ambos criaram o Plano Real que deu certo. FHC na presidência criou a Lei de Responsabilidade Fiscal. Lula teve sorte rece-
    beu o país organizado e seguiu a política economica de FHC, o que foi muito importante para o
    Brasil. Entretanto, o país precisa melhorar e muito na educação, saúde e segurança.Em desi-
    gualdade social é uma vergonha, nas Américas só não perde para a Bolívia e Haiti.

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  3. 60 wilton 02/11/2010 15:53

    O seu comentário é excelente tomara que Dilma faça um governo tão bom quanto o anterior .

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  4. 59 oclécio 02/11/2010 15:43

    Esperamos que esse governo tenha a sorte que o anterior teve, os efeitos da política econômica global contribuíram de forma preponderante, exemplo; programa do álcool pertencente a outros governos, abertura do mercado interno de governo anteriores, crises em economia externa que contribuíram muito para a exportação, enfim é não inventar, por que o governo do Lula, apenas priorizou os mais pobres com o assistencial, programa, projeto de crescimento, praticamente nenhum, e graças a isso, é que ele fez um governo bom, que muitos acham, mas sem duvida foi considerado mais corrupto de toda a historia, em contrapartida apresentaram indicadores econômicos que não aconteciam a mais de 40 anos.

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  5. 58 Argenira Alves Ribeiro 02/11/2010 14:44

    Como é bom lermos um texto tão rico,mostrando o lado de uma pessoa que vai dirigir o
    nosso imenso pais,com grandes chances de chegar muito mais longe,com uma economia
    forte,o nosso real valorizado,as pessoas comprando mais.Lógico que cada presidenteteve
    sua contribuição,agora é vez da mulher mostrar a força que tem,levar o povo brasileiro ser valorizado.Vou pedir muito a Deus para que ela tenha um exelente governo,tendo sabedoria
    para decidir e ser firme nas sua ações.

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  6. 57 TANIA N. MORELO 02/11/2010 14:41

    Parabéns ao Luciano Suassuna! tomara ele tenha razão na sua análise quanto a nossa presidenta; mas quando vejo no palanque ao lado dela o Palocci não dá para acreditar num governo honesto, foi chocante!!!
    Quanto a desafios Há três fundamentais: EDUCAÇÂO, SAÚDE E SEGURANÇA.
    OBRIGADA PELA OPORTUNIDADE, AGRADEÇO PORQUE SOU UMA SIMPLES DONA DE CASA APOSENTADA QUE NÃO TEM DIREITO A NADA, SÓ DE SENTIR A SITUAÇÃO CADA VEZ PIOR E APERTAR O CINTO A CADA DIA, NA ESPERANÇA DE DIAS MELHORES POIS A ESPERANÇA AINDA NÃO PERDI.

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  7. 56 José Márcio Barros 02/11/2010 14:30

    Jorge, seu comentário é um dos mais lúcidos , e isento de rancorismo. É o que tenho dito. Não podemos contestar um governo que após oito anos tem um líder com 80 % de aprovação. Mas o que lhe antecedeu preparou o nosso país para mudanças importantes. Tem uma geração neste país, que não conheceu inflação de mais de 50 % ao mês, só para citar um exemplo de descontrole que era a nossa economia antes da era FHC.

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  8. 55 Igínia Caetana Finelli SIlva 02/11/2010 14:07

    Não há como se pensar em “fraqueza” da parte de uma mulher que, com menos de 20 anos de idade, teve a coragem de enfrentar as forças do regime militar e suportar, por quase três anos, os sofrimentos de uma prisão e as torturas impostas pela ditadura. Às vezes, prudência, cautela e sobriedade são confundidas com tibieza. Ao contrário, essas características pessoais, associadas à firmeza de própósitos, determinação, objetividade, responsabilidade e conhecimento teórico/técnico constituem-se na grande força de que dispõe a nossa futura presidente.

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  9. 54 carlos veneroso 02/11/2010 12:34

    Embora devemos dizer que os tempos são outros e que cada um dos antecessores de Dilma, poderiam ter feito muito mais, sempre estiveram envoltos em questões acirradas com o congresso nacional, a presidenta eleita não deve esquecer dos votos obteve e olhar com muito carinho para as classes sociais ainda menos favorecidas da população, os aposentendos, com até dois salários, os trabalhadores e principalmente com o prouni, o qual trará mais pessoas para as faculdades, para a educação, pois não adiantará termos condições de vida melhor, se o acesso ao ensino e a educação for restrito a poucos. Uma nação forte, não deve ser medida pela sua riqueza e sim pelo grau de instrução que seu povo possui.

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  10. 53 MICHEL FARHUD 02/11/2010 12:26

    -PARABÉNS AO JORNALISTA PELA IMPARCIALIDADE E COERÊNCIA DO SEU ARTIGO E AO BOM NÍVEL DOS COMENTÁRIOS, DIRIA ATÉ, MELHOR QUE O DOS PRÓPRIOS CANDIDATOS.
    -UM TEMA PORÉM NÃO FOI ABORDADO COM A DEVIDA ATENÇÃO, QUE É O DAS RELAÇÕES EXTERIORES.
    -NÃO PODEMOS ESQUECER QUE FOI GRAÇAS À QUEBRA DA DEPENDÊNCIA COMERCIAL COM OS EUA E À BUSCA POR NOVOS MERCADOS TAIS COMO CHINA, ÁFRICA, ORIENTE MÉDIO E EUROPA QUE ESCAPAMOS DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL E NOS DESPONTAMOS COMO UM PAÍS HOJE RESPEITADO.
    -ESTE FATO, TEVE REPERCUSSÕES DIRETAS NA ECONOMIA INTERNA , E POR UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA, DEVEMOS DAR MÉRITO AO VERDADEIRO ARTÍFICE DESTA CORAJOSA E ACERTADA MUDANÇA QUE FOI O MINISTRO CELSO AMORIN.

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