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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012 Política | 21:46

Serra e Kassab estão fazendo o PT de bobo?

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Se, e quando, for confirmada a candidatura de José Serra a prefeito de São Paulo, o PT deveria promover um encontro para pedir desculpas à senadora Marta Suplicy. Nos últimos quatro meses, ela foi a principal liderança petista a não se deixar levar pelas partículas de candidatos e alianças que permaneceram em suspensão no horizonte político da cidade. Enquanto o partido mergulhava na nuvem de poluição causada pela inversão térmica eleitoral, Marta registrava sua discordância e sinalizava o risco. Primeiro, pediu para evitar uma escolha antecipada do candidato do PT, mas foi atropelada. Depois, alertou para o feitiço da aliança com o PSD do prefeito Gilberto Kassab — e só não foi totalmente ignorada porque parte da militância petista ainda cobra um mínimo de coerência política.

Kassab na festa do PT: aliança em potencial ou jogo de dissimulação?

Marta terminou sendo posta à margem porque o PT precisava se renovar, enquanto ela nunca escondeu o desejo de tentar o cargo pela quarta oportunidade. Mas, por isso mesmo, o partido deveria tê-la ouvido: após passar quatro anos na prefeitura e perder duas eleições, uma para Serra e outra para Kassab, era Marta quem, no PT, mais tinha condições de interpretá-los. Teria sido, no mínimo, por respeito a uma tradicional regra da política: ninguém conhece melhor você do que o seu inimigo.

Quando perdeu a convenção do PSDB para Aécio Neves, em maio do ano passado, Serra sabia que seu projeto presidencial só seria retomado em duas hipóteses. Na primeira, ele atuaria de coadjuvante, capaz de ser promovido a protagonista por falta de nomes. Assim, a candidatura de 2014 teria de lhe cair no colo, com Aécio voltando para Minas Gerais e Geraldo Alckmin tentando a reeleição paulista. Para que pudesse ter um mínimo de autonomia sobre seu destino, no entanto, a Serra só restava uma candidatura a prefeito de São Paulo (leia, na coluna Análise de 28 de maio do ano passado, os motivos para isso).

Durante nove meses, portanto, Serra pareceu estar morto. No lugar de se apresentar como viúva, Kassab criou o PSD e vestiu-o de noiva, tentando ser vice-governador na eventual reeleição de Geraldo Alckmin ou ocupando, com seus parlamentares, ministérios no governo Dilma Rousseff. No projeto ideal de Serra, sua candidatura a prefeito permaneceria congelada, para despertar apenas no final do semestre – por questões legais, ele é o único nome forte capaz de ser oficializado no último minuto da convenção partidária. Mas a proximidade das prévias internas do PSDB para a escolha do candidato a prefeito, marcada para depois do carnaval, tirou-o da hibernação. Marta Suplicy teria direito igual, mas seu partido já saiu às ruas com a candidatura do ex-ministro Fernando Haddad.

Em outubro, quando a eleição chegar ao final, a história de Serra e Kassab será reescrita com base no resultado e o que até hoje era apresentado como desejo sincero provavelmente será interpretado como um jogo de dissimulação. Houve um momento em que Serra gostaria de não correr o risco da disputa em São Paulo e de ter se mantido à tona como presidente do PSDB. E Kassab preferia uma aproximação com o poder federal do PT.

Ao submergir, Serra recuperou a liderança política. E teria também reduzido a taxa de rejeição porque deixou todos brigando contra todos enquanto assistia tudo à distância. Isso é importante porque, desde a adoção do segundo turno, a maioria em São Paulo é formada em torno do nome do adversário de quem o eleitor não quer eleger – e não em torno do nome favorito. Essa decisão racional, baseada na rejeição a um candidato ou partido, e não na paixão pelo outro, garantiu os mandatos de Pitta, Marta, Serra e Kassab.

O atual prefeito agora dificilmente mudará de destino porque as resistências de Dilma Rousseff e de Geraldo Alckmin em aceitar suas condições para um acordo acabaram por criar um processo simbiótico com Serra. O fracasso de ambos desenhou o caminho que se trilha neste momento na capital paulista. Para que o PSD permaneça como um projeto viável de poder, Kassab depende de Serra na prefeitura. Afinal, se partidos com mais de 20 anos de história, como o PSDB, desidratam por estar na oposição, a sobrevivência de uma legenda recém-criada não acontecerá sem uma máquina com o peso da de São Paulo.

Para Serra, a confirmação da aliança com Kassab e um eventual retorno à prefeitura oferecem o que seu partido lhe recusou no encontro de maio do ano passado – estrutura para retomar o projeto presidencial. E, além de tudo, também serve de bóia partidária caso os tucanos o abandonem no meio da última chance que lhe resta de fazer a travessia para o Planalto.

Foi essa dependência mútua entre Serra e Kassab que Marta Suplicy vislumbrou como um jogo que acabaria por engabelar, além do PT, o governador Alckmin e os quatro pré-candidatos do PSDB. No caso do PT, o pedido de desculpas a Marta se fará necessário não apenas porque o partido precisa de sua experiência na campanha de Haddad, mas sobretudo como autocrítica. Afinal, não foi a nuvem de candidatos e alianças que turvou a visão das lideranças petistas, mas a mistura de poluentes eleitorais ainda mais básicos: arrogância, ambição, precipitação e desejo de vingança.

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Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011 Política | 20:00

O Brasil de Lula vai finalmente aparecer no governo Dilma

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Luiz Inácio Lula da Silva foi um presidente à frente de suas obras. Lançamento de projeto no Palácio do Planalto, inauguração de pedra fundamental, visita a canteiro de obras: Lula estava em todas, anunciado um colosso de aço e concreto que ninguém via. Macacão com mancha de óleo, boné de maquinista, capacete de operário: Lula posou com os apetrechos com os quais vendia ao grande público a retomada das grandes construções. Mas Lula se foi sem apertar o botão que move as engrenagens.

Lula em trecho de obra da transposição do São Francisco em outubro de 2009. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Exatamente como disse numa entrevista ao iG, antes de deixar o Planalto: quando o governo consegue superar todas as licitações, licenças e fiscalizações, o mandato já está no fim. Assim, Lula deixou Brasília sem que a água brotasse da transposição do São Francisco, sem que um kilowatt tivesse sido gerado pelas novas hidrelétricas da Amazônia, sem que os estaleiros tivessem lançado seus navios ao mar.

Lula na produção do primeiro óleo do pré-Sal em setembro de 2008. Foto Ricardo Stuckert/PR

O presidente operário queria perpetuar seu governo com imagens de concreto, asfalto, pedras e aço, mas viveu de construções que, embora efetivamente reais, são símbolos que podem ser usados, mas não são vistos (como o Bolsa Família), podem ser sentidos, mas não tocados (como a Nova Classe Média).

Na véspera da chegada de 2012, a Usina de Santo Antônio vai colocar a primeira turbina em operação, na sequência virá o maior navio já construído no País e ao longo do próximo ano tomará forma grande parte daquilo que a oposição ao ex-presidente classificava de jogada de marketing. Em parte, ela tinha razão.

O Brasil das grandes obras nasceu depois da reeleição de 2006, quando Lula, tendo iniciado as microreformas econômicas, ampliado a distribuição de renda e passado pela crise do Mensalão, definiu que precisava de um projeto mais arrojado para o segundo mandato. Empacotado sob o nome do PAC, em janeiro de 2007, o segundo mandato de Lula vai finalmente aparecer no segundo ano do governo Dilma. Ele ajuda a retocar a fotografia do passado, mas dele depende o país do futuro.

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Autor: Luciano Suassuna Tags: , , ,

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 Economia | 01:24

Steve Jobs, o inventor das coisas que você não sabia que precisava

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A partir do final da década de 1970 quando Steve Jobs e Bill Gates iniciaram sua história de competição e amizade no incipiente mercado de informática, só um deles soube enxergar o futuro. Era uma era de equipamentos caros, que rapidamente ficavam obsoletos. A Microsoft entendeu que a chave do sucesso seria fazer o comprador transformar esse investimento em ganhos de produtividade e assim dominou o mundo corporativo com seus softwares de apelo individual. Bill Gates anteviu onde aquela indústria nos levaria e venceu a primeira corrida contra a Apple – a da produtividade econômica.

Steve Jobs/AP

Steve Jobs no lançamento do Macbook Air: a Apple mudou os consumos de música, telefonia, informação e lazer digitais

O que Bill Gates não percebeu é que Steve Jobs estava, na realidade, 20 anos à frente daquele futuro. No lugar de desenvolver empresas, ele queria facilitar a vida das pessoas. O Macintosh (era assim, por extenso, que se escrevia o nome do principal produto da Apple), portanto, foi moldado para conquistar mentes e corações dos que precisavam criar: arquitetos, designers, publicitários, cineastas, músicos – era esse o primeiro e fiel público da Apple. O Mac era um equipamento muito mais caro que seu concorrente. Mas para os artistas da criação, o PC com seu Windows eram quadrados demais para fazer frente em funcionalidade, liberdade ou beleza. Envenenada pela mordida na maçã, essa tribo de inovadores fez da Apple uma empresa “cool”, dona de produtos de vanguarda, visualmente atraentes.

Em 1993, quando uma incipiente internet ameaçava reinventar o futuro dos computadores, Bill Gates ficou preso às redes corporativas. “A internet?”, disse ele numa entrevista. “Nós não estamos interessados nela.” Cinco anos se passaram, e ele reconheceu que o futuro havia mudado sem sua participação. “As vezes somos pegos de surpresa”, disse em julho de 1998. “Por exemplo, quando a internet veio, a gente a tinha como quinta ou sexta prioridade.” A primeira vitória de Bill Gates se deu, na realidade, na última corrida do século passado – e agora o resultado dela já não tinha mais importância.

O mundo estava entrando na era Google e em muitos pontos a filosofia da nova gigante do mundo digital era similar à da Apple: facilite a vida das pessoas, seja confiável, ágil, organizado, simples. Processadores cada vez mais rápidos e potentes, servidores baratos e de grande capacidade de armazenamento transformaram a economia e a criatividade: música, texto, fotos, conversas, documentos, vídeos, planilhas, gráficos, jogos (e agora até amizades, namoros, aventuras e viagens) – tudo resumido a bytes, guardado e acessado em qualquer ponto do ciberespaço.

E então o futuro chegou onde Steve Jobs o imaginara mais de duas décadas antes e a Apple saiu na frente na primeira corrida do século XXI – a da economia criativa. Ele mudou os consumos da música com o iPod, da telefonia com o iPhone, da informação e do lazer digitais com o iPad. Steve Jobs liderou uma empresa que inventou muitas coisas que você não sabia que precisava. E daquilo que parecia supérfluo, ele fez uma necessidade de consumo, um instrumento cotidiano, e revestiu-lhe do mais importante: o valor sentimental.

Leia tudo sobre a morte de Steve Jobs

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , , , , , ,

terça-feira, 23 de agosto de 2011 Política | 21:02

Novo clero é a tropa de choque do governo no Congresso

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Nem Alto Clero, os grandes caciques dos partidos (como o hoje vice-presidente Michel Temer, do PMDB, ou o falecido Luís Eduardo Magalhães, do PFL) que durante o governo Fernando Henrique Cardoso transformaram as lideranças dos partidos e a Presidência da Casa no posto avançado do Planalto. Nem Baixo Clero, os deputados e senadores com larga bagagem parlamentar, mas de pouca influência política e pequena projeção pessoal, que desde a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) mostraram seu apetite na negociação com o governo. O que está em construção neste momento no Congresso é a formação do Novo Clero, um processo de renovação que divide quase todos os partidos, com o incentivo cada vez menos discreto do Palácio do Planalto.

Tão logo os parlamentares retornaram do recesso de julho, os fatos foram se acumulando de maneira eloqüente. No PP, o partido que abriga o maior contingente de baixo clero por metro quadrado do tapete verde da Câmara, a renovação veio num golpe. Em 12 de agosto, o líder Nelson Meurer, do Paraná, foi dormir sem o cargo. Meurer está no quinto mandato e no início do ano foi eleito por 30 dos 44 deputados do PP. Em seu lugar, entrou um deputado de primeiro mandato, Aguinaldo Ribeiro, da Paraíba, num movimento da bancada que, por mais contraditório que pareça, é contra o ministro da legenda, Mário Negromonte (ainda na Pasta das Cidades e também no quinto mandato parlamentar), porém a favor do Planalto.

Mendes Ribeiro: o novo clero do PMDB colhe o que plantou

Assim como Alfredo Nascimento (demitido dos Transportes), Wagner Rossi (que pediu demissão da Agricultura) ou Pedro Novais (entrincheirado no Turismo), o ministro Negromonte chegou lá muito mais por uma imposição dos antigos líderes partidários que numa combinação com a presidenta Dilma Rousseff. Se puder trocá-lo sem perder apoio no Congresso, o governo o fará. Repetirá a tática vitoriosa de duas semanas atrás quando foi surpreendido pelo pedido de demissão de Wagner Rossi, do alto clero do partido em São Paulo. Com a vaga aberta no Ministério da Agricultura, um pedaço da bancada sugeriu o nome do deputado Moacir Micheletto, do baixo clero do Paraná. Deu o representante do novo clero, Mendes Ribeiro, do Rio Grande do Sul.

Dono da segunda maior bancada e, portanto, do direito de nomear o representante em várias comissões importantes da Casa, o PMDB está vendo a rebelião do novo clero se alastrar. O caso mais recente gira em torno da indicação, feita pelo líder Henrique Eduardo Alves, para o cargo de relator da Comissão que analisará o novo Código de Processo Civil. Alves quer o deputado Eduardo Cunha (alto clero-RJ), contra a oposição de Danilo Forte (baixo clero-CE), que tenta se deslocar para o novo clero. A divisão da bancada pode custar a Alves a pretensão de se tornar presidente da Câmara em fevereiro de 2013.

A reação coletiva dos caciques de vários partidos à faxina ética promovida por Dilma foi interpretada por muita gente como um prenúncio de uma crise institucional entre Congresso e Planalto.  O que está ficando explícito agora é a existência de focos de revoltas nos diversos partidos contra o velho clero. E para enfrentar o governo cada um deles precisa antes recobrar o consenso interno. Para Dilma, a situação mais delicada do momento é a do PR, no qual alto clero e baixo clero se uniram contra a nomeação do ministro Paulo Sérgio Passos, dos Transportes. E o novo clero ainda não se apresentou para o jogo.

A ascensão desse terceiro clero é um movimento de risco. Num primeiro momento, ele paralisa muitas definições importantes, de cargos em comissões e relatorias de projetos de interesse do governo a nomeações nos vários escalões da Esplanada. Também incentiva o chamado fogo amigo, denúncias recíprocas entre aliados do próprio governo. Mas se o processo vier a se concretizar, o novo clero oferece a Dilma uma interlocução mais suave com o Parlamento, bancadas mais coesas e mais alinhadas com os projetos da presidenta, o que, no final das contas, reduziria a pressão no balcão da ministra Ideli Salvatti. Essa tropa de choque do governo será menos dependente de emendas individuais, menos sujeita aos desvios desses recursos, e mais comprometida com o sucesso de uma gestão que precisou apertar as contas públicas no presente oferecendo em troca a promessa de resultados na reeleição de cada um, daqui a três longos anos.

O novo clero é uma aposta da paciência sobre o pragmatismo, da confiança num projeto de governo sobre o interesse individual. Se ele triunfar, serão os seus representantes que estarão nas tribunas de honra dos novos estádios da Copa de 2014, num cenário de inflação e juros em declínio e economia novamente em ascensão, o que permitirá soltar as amarras das emendas individuais. O novo clero tem uma travessia complicada, mas, para quem nele embarcar, é um projeto eleitoral mais seguro que o atual – no qual todos os deputados brigam contra o governo pela liberação de emendas e nomeações de apadrinhados, montam suas campanhas com essas armas e partem para uma guerra fratricida pelas prefeituras.

Notas relacionadas:

  1. Onde está o novo na campanha presidencial?
  2. Dilma pressiona o PMDB a ser governo
  3. Para entender o silêncio de Dilma
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

quinta-feira, 21 de julho de 2011 Política | 16:49

Para entender o silêncio de Dilma

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Dilma Rousseff completa 200 dias no Planalto envolta no mesmo silêncio que caracterizou seu governo até agora. Nenhum pronunciamento contundente, nenhuma entrevista franca, nenhuma frase de efeito para marcar a data. Tal qual aconteceu nos 100 dias, ou mesmo nas viagens e crises deste início de mandato, a presidenta faz das suas poucas palavras, em solenidades e aparições públicas, um não-evento.

Como não está afônica, o silêncio de Dilma poderia ser timidez, mas isso a campanha eleitoral do ano passado já desmentiu. Também poderia ser simplesmente por ela não gostar de falar, mas quem já foi recebido em audiência sabe que Dilma valoriza a dialética e adora um bom debate. Também não existe a possibilidade, dada à natureza do cargo, de que tamanho resguardo seria por não ter o que dizer.

Dilma e Temer: falar em público não colabora para o bom andamento dos trabalhos

Fica evidente, portanto, que a presidenta não deseja tornar públicos seus pensamentos. Dilma pouco fala porque a sinceridade, agora, não ajudaria no bom andamento dos trabalhos. Ao contrário de seus dois antecessores imediatos, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, cuja eloqüência pública ajudava-os a minimizar crises, Dilma resta em silêncio para não alimentá-las.

Seu maior foco de problemas é a relação com o Congresso. Premida pela necessidade de um esforço fiscal para evitar a disparada da inflação, a presidenta cortou o orçamento onde dava para cortar. Por crença e por coerência política, ela não iria, nem irá, reduzir o tamanho do Estado, privatizando e promovendo uma reforma administrativa. Por imposição do calendário, ela não tem como cortar recursos para as obras da Copa do Mundo de 2014 e nem é razoável sucatear ainda mais a infra-estrutura de um país ainda carente de obras que mal saíram do papel. Politicamente, o governo já aumentou os impostos possíveis, como o IOF sobre gastos em dólar no cartão de crédito.

Restou a Dilma abrandar o aumento real do salário mínimo, o que contrariou o populismo da base governista. E também segurar a bilionária verba das emendas parlamentares, abrindo o flanco para as mais explícitas chantagens políticas desde as concessões do governo José Sarney para obter o quinto ano de mandato na Constituinte de 1988.

Logo após a vitória na eleição, ela anunciou em conversas com os políticos que preservaria a coalizão e aceitaria indicações dos partidos aos cargos do novo governo, desde que os indicados tivessem qualificação técnica e boa reputação. Os partidos foram avisados que quem não seguisse a cartilha não obteria a nomeação. E que em casos de desvio posterior, políticos e apadrinhados teriam de se explicar à Polícia Federal e à Justiça. Foram os partidos, portanto, que decidiram testar Dilma e não a presidenta que quis se impor a eles.

Em duas ocasiões fundamentais, o PT reacendeu a chama das disputas internas e reivindicou independência do Planalto (coisa que nunca fez contra Lula porque trabalhou sob Lula): a escolha do presidente da Câmara dos Deputados e a eleição do novo presidente do partido. Os líderes tradicionais do PMDB excluíram das negociações com o governo alguns colegas recém-eleitos e que Dilma gostaria de ter como interlocutores seus dentro do partido aliado.

Essa política de muito apetite e pouca renovação foi uma aposta de todos os aliados do governo, quando a presidenta tinha sinalizado para que fizessem justamente o contrário. Se Dilma não os atendeu é porque eles não souberam ouvi-la ou não quiseram acreditar na presidenta. Se ela manifestar isso publicamente, criará ainda mais problemas.

O silêncio de Dilma é forçoso também na mudança de viés econômico. Se Lula teve condições de adotar medidas clássicas de elevação dos juros e corte de despesas públicas e responsabilizar a “herança maldita”, Dilma não pode creditar o ajuste de agora a eventuais excessos da política anticíclica do governo anterior. Os fatores inflacionários não estão ligados apenas ao aquecimento da economia no ano eleitoral de 2010 e o que resta à presidenta nesse primeiro momento é usar um mal menor, como a sobrevalorização do real, para combater um mal maior, a escalada inflacionária.

Depois de uma campanha presidencial que demonizou a privatização, o silêncio é bom conselheiro para um governo que vai realizar concessões privadas para expansão dos aeroportos e que aguarda capital privado para tocar o projeto de trem-bala, além de várias parcerias público-privadas para as obras que vão preparar o Brasil para receber a Copa do Mundo em 2014.

O país precisa de todos os capitais possíveis, estatal e privado, nacional e estrangeiro, para desafogar o gargalo da infra-estrutura e melhorar a competitividade da sua economia. Diante da queda de braço que os políticos decidiram travar com o governo, mesmo algo facilmente consensual, como esse esforço coletivo para melhorar estradas, portos e aeroportos, parece se tornar objeto de chantagem política. Nessas condições, enfrentar publicamente a classe política corresponde a retardar a agenda de modernização que Dilma deseja fazer no seu governo. Ceder aos políticos, no entanto, é comprometer a força da política de combate à inflação. Esse é o impasse que silencia a presidenta.

Notas relacionadas:

  1. A força de Dilma é sua fraqueza e sua fraqueza é o ponto forte
  2. Votação do salário mínimo revela embate entre três projetos de país
  3. Em 100 dias, o pragmatismo de Dilma Rousseff ainda não foi posto à prova
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , ,

sábado, 2 de julho de 2011 Política | 12:29

Itamar Franco, o presidente que garantiu a democracia

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A morte de Itamar Franco encerra uma fase privilegiada da história do Brasil – a de um país que tinha, atuantes, os cinco ex-presidentes da sua redemocratização. Se José Sarney foi o da transição democrática, Fernando Collor o da abertura de mercado, Fernando Henrique o da estabilização inflacionária e retomada do crescimento e Lula o da distribuição de renda e expansão econômica, Itamar Franco era, dos cinco, o que nunca foi consagrado por um epíteto. De fato, não era nada simples enxergar os melhores atributos de Itamar. E isso se dava em parte pelo seu temperamento, em parte pela época em que governou.

Pelo temperamento, foi um presidente mercurial, o primeiro a chegar ao Planalto sem uma primeira-dama, alguém ao mesmo tempo galanteador e quase tímido, um tipo que muita gente classificava apenas como “esquisitão”. Pela época em que governou, Itamar Franco foi um presidente do acaso, até mais ainda do que José Sarney, dadas as condições em que Fernando Collor e Tancredo Neves foram eleitos. E sendo do acaso, era frágil porque era desconhecido, tanto na grande massa quanto na maior parte da elite nacional. Sua popularidade estava restrita aos eleitores de Minas Gerais e aos colegas de Senado.

O presidente e seu topete: cabelos e temperamento revoltos, mas firmeza de propósitos

Hoje muita gente vai reconhecer Itamar Franco como o presidente do Plano Real, o que é um fato cronológico, já que a estabilização nasceu sob seu governo, mas não é necessariamente uma verdade política. O Real nasceu das lições dos fracassos anteriores, da confiança que os economistas envolvidos depositaram em FHC, mas, sobretudo, da necessidade da elite da época de fazer algo para barrar a vitória quase certa de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência. O Real é fruto do anti-Lula, e Itamar merece um epíteto melhor que esse.

É certo que se o Brasil vive seu mais longo período de normalidade democrática, isso é consequência de uma construção coletiva. Mas foi entre as denúncias que levaram ao impeachment de Fernando Collor e a eleição de Fernando Henrique Cardoso que as atuais regras democráticas mais balançaram. E se elas resistiram é porque o presidente Itamar Franco foi menos fraco, menos vacilante e mais determinado do que seus críticos possam fazer crer.

Na era Itamar, o Brasil pôde tudo, inclusive acabar com a República e criar o Parlamentarismo. Não foram poucas as conversas para que isso acontecesse, mesmo fora do plebiscito sobre o sistema de governo. Contra as aventuras havia, naturalmente, a força de Lula e do PT. Seus 40% de preferência eleitoral e a capacidade mobilizadora de seu partido tornavam qualquer tentativa golpista apenas isso, uma aventura. Mas se nem uma aventura existiu e o País seguiu no seu rumo constitucional é porque todas as vezes em que ofereceram a Itamar Franco um ingrediente da poção venenosa do golpismo, o presidente apareceu com o antídoto.

Contra o veneno da fragmentação política e da falta de apoio, ele ofereceu um governo de coalizão. Depois da desilusão nacional causada por um presidente que bloqueou poupanças e caiu sob graves acusações de corrupção, a classe política estava tão desgastada que a ela só restou aceitar a união proposta. E Itamar, mesmo sendo o símbolo máximo dessa fragilidade, soube ser capaz até de seduzir o PT. Veio daí um dos grandes momentos do folclore político de sua época, quando, ao ser chamado de “burro” depois de demitir a ex-prefeita petista Luiza Erundina de seu ministério, respondeu:

– Sou burro, sim. Burro de tê-la nomeado.

Esse temperamento, que ele usava ora como carapaça, ora como vitrine, era talvez o melhor símbolo da sua astúcia política. Quando se viu diante da poção venenosa do udenismo, Itamar mostrou esperteza ao matar na origem o ataque do então governador Antônio Carlos Magalhães ao governo. ACM avisou que levaria um dossiê da corrupção ao Planalto. Itamar marcou hora para receber o pacote de acusações. E, sem avisar ao governador, franqueou a audiência à imprensa. O dossiê de ACM era feito de alguns recortes de jornais, histórias menores. Ele ficou tão desconcertado com a iniciativa de Itamar que o caso (uma tentativa de repetir o que Fernando Collor fez com José Sarney, ao carimbar o governo adversário de corrupto durante a campanha de 1989) acabou ali mesmo, antes do fim da audiência no gabinete presidencial.

Confrontado com o veneno das denúncias de corrupção contra ministros, Itamar foi o único, dos cinco ex-presidentes da redemocratização, a apresentar o antídoto de afastar um auxiliar (o ministro Henrique Hargreaves, da Casa Civil e espécie de braço direito do presidente) enquanto aconteciam as investigações — e a trazê-lo de volta depois que elas não se confirmaram. Mandou para casa, por conta de denúncias, amigos de longa data, como Eliseu Resende, movimento decisivo para a ascensão de Fernando Henrique Cardoso.

Enfrentou uma revolta da polícia federal e, pressionado pela poção venenosa da insatisfação militar, cortejou os generais com aumentos e homenagens. Cercou-se de amigos que lhe davam apoio emocional e inúmeras vezes reviu suas mais históricas verdades. Antes do vice-presidente José Alencar, já na era Lula, era Itamar quem falava de caixa-preta do Banco Central. Balançou o mercado algumas vezes, mas não promoveu intervenções barulhentas, como seus antecessores. Voltou atrás em posições políticas, premido por uma vontade, se não apenas de acertar, de pelo menos não atrapalhar.

Administrou o veneno da inflação com os recursos que pôde: trocando ministros e bravateando contra os bancos. Assumiu com a taxa anual de 1.100% e terminaria seu mandato, dois anos depois, com cinco vezes mais, se não fosse o Plano Real. Para tentar colocar isso numa projeção de hoje, é como se Dilma Rousseff chegasse a 2013 tendo de conviver com uma inflação anual de 33% — com a diferença de que a destruição de valores e sonhos que se dá entre uma inflação de 5.500% e outra de 33% não permite comparações.

O governo de Itamar Franco está para a garantia democrática do País assim como Lula esteve para a garantia da estabilização econômica. Cada um representou igualmente um ponto de transição, Itamar na política, Lula na economia. O fato de eles terem escolhidos o caminho da não intervenção permitiu que o Brasil se tornasse um país melhor. Depois da sequência de fracassos que vinha do governo militar, Itamar foi o primeiro presidente que deu certo. E isso significou muito no Brasil que começou em setembro de 1992 e terminou no último dia de 1994. Por tudo isso, o melhor epíteto para ele seria outro. Hoje morreu Itamar Franco, o presidente que garantiu a democracia.

Notas relacionadas:

  1. Onde está o novo na campanha presidencial?
  2. Os mágicos cinco pontos que decidem a eleição presidencial
  3. Minas está no centro do segundo turno
Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

terça-feira, 7 de junho de 2011 Política | 19:50

O que vai ser do governo Dilma depois de Palocci

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O ministro Antônio Palocci se foi do governo de Luiz Inácio Lula da Silva por conta de uma quebra de sigilo e agora se vai do de Dilma Rousseff por decidir mantê-lo. O silêncio sobre os negócios da sua empresa de consultoria tornaram impossível dissociar o faturamento da influência que eventualmente teve no governo anterior. Mas como o contrário também não pode ser provado, na dúvida Palocci se vai para preservar Dilma do pior dos cenários, uma CPI de andamento imprevisível. Chegou ao fim uma relação de confiança que é menos longa e menos profunda do que o status de superministro fazia crer.

Palocci e Dilma: apesar do status de superministro, a relação de confiança era recente

O ex-chefe da Casa Civil foi ungido por Lula à coordenação da campanha de Dilma depois de uma reunião em que o então presidente interferiu para desfazer a percepção de que a candidata não gostava do ministro. A condução vitoriosa da campanha sublimou o potencial de atritos que uma crise nas pesquisas do ano eleitoral poderia ter causado entre ambos. Mas ela veio agora, aos cinco meses de governo, extraindo pontos na popularidade de Dilma e impondo à presidenta o constrangedor cerco dos políticos em defesa do governo.

Se é certo que ela não poderia mais ficar com seu ministro, as consequências dessa saída merecem várias leituras. No Congresso, tem quem veja nisso um sinal de fraqueza histórica. A primeira crise palaciana de Fernando Henrique Cardoso, o Caso Sivam, levou 11 meses. A de Lula, o Caso Waldomiro Diniz, levou 13 meses. Sob Dilma, ela chegou com apenas cinco meses. Detalhe: os três casos foram arquivados por falta de elementos que caracterizassem crime.

Em outra interpretação, a saída de Palocci levaria Dilma a se sujeitar àquilo que tem resistido desde a eleição, talvez o maior clássico político da redemocratização, de José Sarney a Luiz Inácio Lula da Silva: a abertura do balcão de cargos e favores no Planalto. O balcão palaciano cria uma linha tênue entre governabilidade e crise, na medida em que atrai para o Executivo os potenciais problemas gerados pelos pedidos parlamentares. Ele funciona melhor nos governos menos técnicos: José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e, a despeito da longa crise com o Senado durante o segundo mandato, Luiz Inácio Lula da Silva. E funciona pior com presidentes menos afeitos ao jogo congressual: Fernando Collor, Dilma Rousseff e, a despeito da sua origem parlamentar, Itamar Franco.

Sem Palocci, a presidenta estaria mais sujeita aos políticos, portanto mais dependente do PMDB, do PT, dos outros partidos da base aliada, dos sindicalistas que ela contrariou na votação do salário mínimo e mesmo de eventuais intervenções do ex-presidente Lula.

A questão central é que o mandato das urnas foi para Dilma e não para Palocci e o afastamento dele também oferece um roteiro menos submisso a todos que pressionaram pela saída do chefe da Casa Civil. Em início de governo, as crises palacianas costumam ser geradas pelos embates de poder dentro do governo. Foi assim no Sivam de FHC, e também no caso Waldomiro Diniz de José Dirceu e Lula.

Foto: Felipe Bryan Sampaio

Gleisi Hoffmann: novo rumo na Casa Civil

Sem Palocci, Dilma tem, portanto, a oportunidade de trabalhar com alguém que lhe seja mais devedora, como a senadora Gleisi Hoffmann, e deflagrar um movimento que poderia ser chamado de fim do governo de transição – aquele que ela e Lula, por repartir o crédito eleitoral, construíram de comum acordo no final do ano passado. A presidenta já deu sinais de que trabalha com quem quer ao bloquear, no contingenciamento orçamentário, grande parte do dinheiro de investimento dos ministros que teve de aceitar por força da política. Quem duvidar, pergunte aos ministros do Turismo ou das Cidades. Nessa leitura, o verdadeiro governo Dilma começaria a aparecer agora e se cristalizaria na reforma ministerial que terá de fazer quando os candidatos a prefeito tiverem que se desincompatibilizar em março do ano que vem.

Quando um governo perde um ministro forte, uma peça central, há um imediato realinhamento do poder, tanto entre as várias forças que compõem o Executivo, quanto na sua relação com o Congresso e com a opinião pública. Esse caso poderia deixar uma lição para Dilma, aprendida na prática pelos dois governos mais bem sucedidos da história recente, os de Fernando Henrique e de Lula: na crise, o silêncio é mau companheiro. O governante precisa aparecer, explicar, convencer.

Mantido o silêncio, o governo Dilma pode ceder às pressões, fraquejar diante do Congresso, se imobilizar e perder popularidade e credibilidade. Ou a presidenta aproveita a oportunidade para realinhar forças, reassumir um discurso, tomar iniciativa e recuperar o desgaste causado pelo episódio. Em qualquer alternativa, esta será sempre uma decisão exclusiva de Dilma.

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Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , ,

sábado, 28 de maio de 2011 Política | 18:45

Para José Serra restou a candidatura a prefeito de São Paulo

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Agora virão as declarações pacificadoras, o discurso de unidade e fortalecimento do partido. Mas o fato é que a convenção nacional do PSDB, no sábado, 28 de maio, teve um vencedor e um vencido. O senador Aécio Neves ganhou todos os cargos que desejou, sem ceder nenhuma posição para seu grande adversário, o ex-governador José Serra. E é, pela derrota de Serra, que o PSDB simboliza seu momento de mudança.

Terminado o segundo turno da eleição presidencial, Serra usou o discurso de que tinha 44 milhões de votos, como se as urnas da disputa de 2010 traduzissem uma intenção futura e não aquela expressa no dia 31 de outubro. Voto é feito de material volátil e, nas derrotas, evapora-se rapidamente. Mas com praticamente 44% dos votos válidos era justo que Serra mantivesse o desejo de voltar a ser candidato a presidente (em entrevista ao iG, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso falou sobre as chances de Aécio e Serra, confira abaixo).

A ambição, no entanto, precisava de elementos mais sólidos e, na política, dois são os instrumentos de concretização dessa força: controle da máquina pública ou expectativa de poder. Na falta de ambos, Serra primeiro perdeu um grupo de antigos aliados que migrou em grande parte para Aécio e em menor escala para Geraldo Alckmin. Sobrou-lhe um núcleo de bons amigos, dois dos quais faltaram à convenção por questões de saúde: seu antigo vice-governador Alberto Goldman e o senador Aloysio Nunes Ferreira.

Com minguados aliados, o ex-governador de São Paulo foi sendo espremido no partido. Não teve espaço para indicar o presidente – o deputado Sérgio Guerra foi reeleito contra a vontade de Serra. Ele tentou, então, assumir o Instituto Teotônio Vilela e seu orçamento de R$ 11 milhões anuais. Mas viu a costura entre Geraldo Alckmin e Aécio Neves levar o ITV para o seu mais renhido adversário, o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati.

O esvaziamento da liderança de Serra foi acelerado pelo estilo adotado na campanha do ano passado. Na forma, a postura centralizadora o desgastou com amigos de décadas, traduzindo em afastamento o que poderia ter sido solidariedade na derrota. No conteúdo, a irresponsabilidade fiscal da proposta de um salário mínimo de R$ 600,00, a tentativa errática de vincular uma invenção marqueteira, o candidato Zé, ao presidente Lula, a decisão de esconder as realizações do governo FHC e o apelativo discurso religioso, explorando desinformação e preconceito em temas sensíveis, acabaram por minar a coerência de sua vida pública.

O espaço que Serra guardou no partido, de presidente do Conselho Político, deve-se menos ao que vai fazer e mais ao que os novos líderes do PSDB ainda precisam tirar dele. “O conselho vai tomar decisões político-partidárias, discutir eventuais fusões (…) e formas de escolher candidatos”, disse Serra.

Para Aécio Neves, é melhor ter Serra aí do que fora do partido. Não faria bem a sua biografia de conciliador e, apesar de todas as divergências entre ambos, Serra ainda é, ao lado do ex-presidente Fernando Henrique, o rosto mais conhecido do PSDB. Seria ruim tê-lo no horário eleitoral do PSD do prefeito Gilberto Kassab, por exemplo. Em São Paulo, após a inquisição ocorrida na transição de poder, quando lançou o núcleo palaciano à fogueira, Geraldo Alckmin precisa de um pouco mais de tempo para terminar a conversão dos serristas que restaram no governo do estado.

O fato é que a convenção de 28 de maio fechou o caminho mais fácil para José Serra, duas vezes derrotado no segundo turno, fazer sua terceira incursão numa eleição presidencial. Ela pressupunha que ele controlasse o partido, presidindo-o. E extraísse daí o palanque e a máquina que homologassem sua aspiração. Nessa posição nacional seria fácil rebarbar a pressão pela candidatura a prefeito de São Paulo, onde seus adversários no partido tentariam encurralá-lo no próximo ano como forma de, em caso de eleito, tirá-lo da disputa de 2014.

Pois para ser candidato a presidente novamente, Serra tem agora que fazer o caminho mais difícil. Sem máquina oficial e sem força no partido, sua liderança esvaziará por completo antes que possa entrar no jogo de 2014. É por isso que ele precisa retornar à prefeitura de São Paulo. A Serra, uma escala na terceira maior máquina pública do país é etapa imprescindível para recuperar o terreno perdido hoje e manter a aspiração de uma vida. Ou entrará para a história, já escreveu certa vez a revista The Economist, como o melhor presidente que o Brasil nunca teve.

Notas relacionadas:

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terça-feira, 3 de maio de 2011 Mundo | 13:23

O império americano voltou

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A invasão da mansão e a morte de Osama bin Laden no Paquistão marcam o retorno do império americano. Em uma década, os Estados Unidos assistiram perplexos a uma série de eventos raríssimos que, como aqueles infernos de mapa astral, alinharam uma inédita sucessão de infortúnios: o maior ataque estrangeiro ao território americano, a ineficácia de suas máquinas de informações e de guerra, o quase colapso do sistema financeiro e a subversão dos valores liberais com a intervenção do Banco Central no mercado para atenuar a hecatombe de 2008.

Cada um desses elementos parecia fornecer, pela originalidade ou grandeza, sinais de decadência da maior democracia, maior economia e maior máquina militar da história. O ataque terrorista às torres gêmeas e ao Pentágono em 11 de setembro de 2001 usou como arma letal um dos maiores emblemas do sonho americano, o avião a jato, e como arma de propaganda dois de seus maiores componentes culturais: o desastre de imagens hollywoodianas, transmitido ao vivo pela televisão.

Foto: AP

Bin Laden, em 1998: o terror contra o império

Na sequência, a máquina de espionagem mostrava-se incapaz de cumprir a promessa de George W. Bush (“nós vamos caçá-los”) e seu poderio bélico se revelava frágil a ponto de deixar Bin Laden escapar nas montanhas do Afeganistão, onde os Talebans passaram a recuperar território e poder. Na mesma proporção do fracasso externo, os Estados Unidos reduziam-se às suas fronteiras, com medidas de segurança cada vez mais restritivas, num mundo em que a Al-Qaeda insinuava-se como ameaça global. Houve um hiato de vitória com a ocupação do Iraque e a captura de Saddam Hussein. Mas no campo da moral, a conquista do Iraque nasceu sob falsas premissas: nem o país era a principal base ou refúgio da Al-Qaeda, nem Saddam detinha as alegadas armas de destruição em massa. O império não era mais o mesmo e ainda iria enfraquecer-se.

Nas finanças, os dogmas do liberalismo foram arrastados pelo tsunami que arrasou o mercado após a quebra do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008. E para evitar outra grande depressão econômica, o país passou a flutuar sobre um déficit público anual do tamanho de um Brasil. O euro forte, a ascensão da China, o crescimento dos Brics: em uma década, tudo conspirava contra o império americano. Mas então na noite de domingo, primeiro de maio, Osama bin Laden foi morto e, do ponto de vista simbólico, muita coisa mudou.

A começar pelo fato em si. A caçada ao líder da Al-Qaeda nunca foi a guerra de um país contra um homem, mas ao que ele representava: o ódio cego, gerado por ideias capazes de arrastar seguidores para o assassinato indiscriminado de qualquer pessoa, a qualquer hora, em qualquer um dos continentes.

Qual outro país mobilizaria tantas forças, em dois governos distintos, para chegar a esse objetivo? Qual país poderia, nessa luta, gastar em dez anos a fortuna de R$ 2 trilhões — algo como se o dinheiro de uma década das exportações brasileiras fosse integralmente destinado à guerra ao terror? Qual país teria uma máquina de espionagem capaz de manter seu alvo sob vigilância durante mais de oito meses, até construir o cenário do ataque final? Qual país seria capaz de desferir essa operação a 12 mil quilômetros de distância da sua capital? Qual país teria equipamento, tropa e treinamento de elites para invadir o quartel-general do terrorista mais procurado do mundo sem sofrer nenhuma baixa?

Israel promoveu a caça aos terroristas do atentado de Munique e os serviços secretos da União Soviética e da Rússia já envenenaram opositores do regime que se encontravam no exílio ou no exterior. Mesmo o Chile do general Augusto Pinochet mostrou que a fúria vingativa de uma ditadura não respeita fronteiras ao assassinar dois adversários políticos: o chanceler Orlando Letelier, morto na explosão de uma bomba sob seu carro numa rua de Washington, e o general Carlos Prats, vítima de outro atentado a bomba em Buenos Aires.  Mas Rússia, Israel, China ou mesmo os países da Otan talvez possam manifestar o papel de potência regional respondendo uma ou outra dessas questões. No entanto,  só um império global domina todas elas.

Barack Obama: o império se faz lembrar

A morte de Bin Laden não traz nenhuma garantia de que a Al-Qaeda ficará mais dócil ou menos operante – ao menos não no primeiro momento. Os Estados Unidos não irão relaxar as medidas de segurança interna, pelo menos enquanto não conseguirem dimensionar o tamanho do golpe que a ausência do líder terrorista irá gerar no radicalismo islâmico.  O que o ataque de primeiro de maio em Abbottabad fez foi mudar o curso de uma guerra em que o governo americano era política, financeira, militar e moralmente questionado pela comunidade internacional. A morte de Bin Laden lembra aos outros países a diferença de poder que sustenta os Estados Unidos na condição de império global.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , ,

sexta-feira, 29 de abril de 2011 Mundo | 00:07

Uma monarquia precisa de casamentos e de escândalos

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O primeiro fruto do casamento de William de Gales com Kate Middleton é o renascimento da monarquia britânica. Ao materializar o conto de fadas da união entre o príncipe e a plebeia, a mais tradicional casa real do planeta encerra duas décadas de crise. Ela foi efetivamente assumida como tal no discurso que nasceu clássico, quando a rainha definiu 1992 como “Annus Horribilis”.

Elizabeth II deveria festejar o 40º aniversário de reinado, mas sua casa desmoronou. O Castelo de Windsor pegou fogo, sofrendo graves avarias. Na família, os dois filhos casados anunciaram a separação. A filha oficializou o divórcio. E o caçula era criticado por continuar solteiro. As aventuras extraconjugais do príncipe Charles e da princesa Diana foram expostas em livro, entrevistas e grampos telefônicos, gerando incertezas legais e políticas sobre a sucessão ao trono.

Portanto, nada como uma cerimônia grandiosa para a monarquia reafirmar a simbologia. Casamentos principescos por vezes alimentam esperanças de mudança no reino, mas essa é uma interpretação frequentemente equivocada. William não precisaria alterar seu estado civil para reivindicar um direito que ganhou no dia 21 de junho de 1982, quando nasceu. Na monarquia, a cerimônia de mudança começa no funeral do antecessor e termina na entronização. E William é o segundo na linha sucessória desde o nascimento.

Kate e William: uma cerimônia para encerrar 20 anos de crise na imagem da monarquia

O que o casamento traz como simbologia não é a mudança, mas o seu contrário. Ele é a imposição e o reconhecimento da suntuosidade, da pompa, da tradição e da reverência à realeza. Os convidados são obrigados a se curvar aos futuros reis e rainhas, que se mostram quase intocáveis – o protocolo proíbe abraços, beijos e qualquer outra manifestação de intimidade com os noivos.

A cerimônia de William e Kate representa ainda a oportunidade para a monarquia aprofundar com seus admiradores uma aliança que atualmente, para se justificar, depende mais do emocional que do racional. De um lado está a família real com seus castelos, bosques, fazendas, viagens, recepções e criados, e que, até o “Annus Horribilis” de 1992, nem imposto pagava. Do outro fica o contribuinte britânico que banca uma conta mensal de R$ 10 milhões para sustentar a mais cara monarquia da Europa.

Ao longo da década em que perdeu em popularidade para a princesa Diana, Elizabeth II soube capitalizar os infortúnios da Casa de Windsor. Os barões conservadores da mídia, justamente os que na pessoa física mais apóiam a monarquia, popularizaram os escândalos. E, como alquimistas da opinião pública, converteram indignação em espetáculo. Duas décadas depois do “Annus Horribilis”, Elizabeth II encontrou no casamento do neto, o atalho para retomar o trilho original e, finalmente, festejar com a solenidade que a cerimônia exige seu 60º ano de reinado.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , ,

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