Uma campanha eleitoral em crise de autenticidade
A campanha eleitoral de 2012 está sofrendo de uma espécie de “Síndrome de Gabriela”. Tal qual a regravação da obra de Jorge Amado, tem personagens corretamente construídos, cenas esteticamente bem acabadas e filtros em excesso. O cuidado técnico é tão apurado que quase nada lhe restou de paixão e originalidade.
São Paulo à frente, nunca na história da redemocratização brasileira uma eleição foi tão asséptica, inodora e incolor. São muitos os sintomas dessa crise de autenticidade. Os debates estão cada vez mais chatos e repetitivos, culpa de uma marquetagem que tudo ensaia e copia, a ponto de transformar em pastiche os duelos entre adversários e igualar até mesmo o momento mais apelativo desses encontros, aquele minuto final em que o candidato diz ao eleitor por que deseja governar sua cidade.
Nessa hora, um estranho ao mundo político brasileiro não conseguiria diferenciar José Serra de Paulinho da Força, Fernando Haddad de Celso Russomanno. No Recife, pode-se até achar que eles não têm nome, um é o candidato do governador, o outro, o do Lula. Em Belo Horizonte o processo tem sido tão propositivo e politicamente difuso que difícil é saber contra o que Márcio Lacerda e Patrus Ananias são. À exceção, claro, de que um é contra o outro.
A pior consequência dessa crise de autenticidade é a apatia generalizada com que o eleitor está acompanhando a disputa. A duas semanas do voto, a frustração venceu a esperança, o desencanto matou a alegria. Nenhuma ideia original circula pelo país, não existe um projeto a ser aclamado ou copiado.
Amas, Upas, VLTs, Enem e Fatecs: o tecnicismo corrompeu os discursos para que a marquetagem encobrisse o debate do que existe atrás de cada campanha, a real face dos candidatos e seus interesses. Acrescente a isso uma pitada de fundamentalismo partidário ou religioso e assim a campanha oferece um mínimo de ilusão passional, enquanto as candidaturas vão avançando em temas que pouco tem a ver com o cotidiano das cidades.
Essa síndrome eleitoral entra em vigor quando as melhores intenções acabam por provocar os piores resultados. No Brasil, começou com leis nascidas para se evitar a baixaria ou a desigualdade de condições de disputa. O espaço no horário eleitoral para os partidos nanicos, que muitas vezes premia o espectador com 30 segundos de uma silenciosa tela azul, é um exemplo típico do resultado equivocado para uma ideia justa. Quando o partideco usa seu horário a serviço dos grandes, aí temos o resultado nefasto da boa intenção da lei.
Seguiu-se a isso uma prática que fez os marqueteiros trabalharem não para ganhar o jogo, mas para não perdê-lo. Os debates são o melhor exemplo. Cada candidato impõe limitações para evitar situações surpresa e limitar ataques a seu ponto fraco. E assim todos parecem iguais com suas gravatas vermelhas (ou colares tão elegantes quanto neutros para as mulheres). E se projetam igualmente falsos com suas ombreiras armadas (seja no terno deles ou no blazer delas).

Patrus Ananias e Marcio Lacerda: campanha propositiva e politicamente difusa não diferencia candidatos
Se o senso comum já dizia que, no governo, todos os políticos agem da mesma forma, agora o eleitor estende sua desconfiança também para a campanha: tal é a semelhança, todos os políticos parecem iguais. É uma pena porque o Estado brasileiro é bastante grande, e tão intrometido quanto assistencialista. É por isso que uma escolha entre o melhor e o pior faz diferença na vida das pessoas. Mas os melhores precisam urgentemente romper com a mesmice.
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