Blog do Luciano Suassuna - iG

Publicidade

terça-feira, 18 de setembro de 2012 Política | 18:51

Uma campanha eleitoral em crise de autenticidade

Compartilhe: Twitter

Celso Russomanno: no debate, os candidatos se parecem

A campanha eleitoral de 2012 está sofrendo de uma espécie de “Síndrome de Gabriela”. Tal qual a regravação da obra de Jorge Amado, tem personagens corretamente construídos, cenas esteticamente bem acabadas e filtros em excesso. O cuidado técnico é tão apurado que quase nada lhe restou de paixão e originalidade.

São Paulo à frente, nunca na história da redemocratização brasileira uma eleição foi tão asséptica, inodora e incolor. São muitos os sintomas dessa crise de autenticidade. Os debates estão cada vez mais chatos e repetitivos, culpa de uma marquetagem que tudo ensaia e copia, a ponto de transformar em pastiche os duelos entre adversários e igualar até mesmo o momento mais apelativo desses encontros, aquele minuto final em que o candidato diz ao eleitor por que deseja governar sua cidade.

José Serra: no debate, os candidatos se parecem

Nessa hora, um estranho ao mundo político brasileiro não conseguiria diferenciar José Serra de Paulinho da Força, Fernando Haddad de Celso Russomanno. No Recife, pode-se até achar que eles não têm nome, um é o candidato do governador, o outro, o do Lula. Em Belo Horizonte o processo tem sido tão propositivo e politicamente difuso que difícil é saber contra o que Márcio Lacerda e Patrus Ananias são. À exceção, claro, de que um é contra o outro.

A pior consequência dessa crise de autenticidade é a apatia generalizada com que o eleitor está acompanhando a disputa. A duas semanas do voto, a frustração venceu a esperança, o desencanto matou a alegria. Nenhuma ideia original circula pelo país, não existe um projeto a ser aclamado ou copiado.

Fernando Haddad: no debate, os candidatos se parecem

Amas, Upas, VLTs, Enem e Fatecs: o tecnicismo corrompeu os discursos para que a marquetagem encobrisse o debate do que existe atrás de cada campanha, a real face dos candidatos e seus interesses. Acrescente a isso uma pitada de fundamentalismo partidário ou religioso e assim a campanha oferece um mínimo de ilusão passional, enquanto as candidaturas vão avançando em temas que pouco tem a ver com o cotidiano das cidades.

Essa síndrome eleitoral entra em vigor quando as melhores intenções acabam por provocar os piores resultados. No Brasil, começou com leis nascidas para se evitar a baixaria ou a desigualdade de condições de disputa. O espaço no horário eleitoral para os partidos nanicos, que muitas vezes premia o espectador com 30 segundos de uma silenciosa tela azul, é um exemplo típico do resultado equivocado para uma ideia justa. Quando o partideco usa seu horário a serviço dos grandes, aí temos o resultado nefasto da boa intenção da lei.

Seguiu-se a isso uma prática que fez os marqueteiros trabalharem não para ganhar o jogo, mas para não perdê-lo. Os debates são o melhor exemplo. Cada candidato impõe limitações para evitar situações surpresa e limitar ataques a seu ponto fraco. E assim todos parecem iguais com suas gravatas vermelhas (ou colares tão elegantes quanto neutros para as mulheres). E se projetam igualmente falsos com suas ombreiras armadas (seja no terno deles ou no blazer delas).

Patrus Ananias e Marcio Lacerda: campanha propositiva e politicamente difusa não diferencia candidatos

Se o senso comum já dizia que, no governo, todos os políticos agem da mesma forma, agora o eleitor estende sua desconfiança também para a campanha: tal é a semelhança, todos os políticos parecem iguais. É uma pena porque o Estado brasileiro é bastante grande, e tão intrometido quanto assistencialista. É por isso que uma escolha entre o melhor e o pior faz diferença na vida das pessoas. Mas os melhores precisam urgentemente romper com a mesmice.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , ,

quinta-feira, 5 de julho de 2012 Política | 18:39

A arriscada tática de Dilma na eleição municipal

Compartilhe: Twitter

Agora que a campanha municipal começa para valer, com chapas registradas, debates entre candidatos e horário eleitoral no rádio e na tevê, vai ficar claro o quanto a presidenta Dilma Rousseff será técnica ou política. Essa definição marca a linha com a qual conduzirá o final do mandato e, provavelmente, a campanha à reeleição. Até agora, ela foi muito mais técnica do que política. E, por conta disso, o quadro que os partidos desenharam na disputa municipal não é o melhor para a presidenta.

Técnica ou política? Reeleição estará ligada à postura que Dilma vai assumir na eleição municipal

Se alguém quiser olhar esse mapa partidário como se analisasse um projeto de infra-estrutura, o resultado parecerá muito bom para o governo. Nele está marcado um PT menos influente que há quatro anos e um PMDB capaz de preencher lacunas locais sem alterar a aliança federal, como nos casos mais notórios de Salvador e São Paulo. Há também um PSB em fase de crescimento, na sua tentativa de sair da adolescência para a maturidade e ansioso por mais espaço na Esplanada dos Ministérios. E um PSD que não vê a hora de oferecer seu apoio aos projetos do Planalto. No memorial técnico dessa construção, Dilma sairá da disputa com mais votos no Congresso e com liberdade para manejar essa maioria ora com um partido, ora com outro.

Mas partidos são bichos ariscos, que têm cismas e manhas. Os embates entre candidatos da mesma base aliada costumam gerar mágoas duradouras. E, se a disputa de 2012 já produziu algo, foram rompimentos quase irreversíveis. Em São Paulo, o distanciamento político de Dilma liberou Marta Suplicy da campanha de Fernando Haddad, facilitou a histórica foto de Lula com Paulo Maluf, deu asas a Gabriel Chalita e permitiu que Celso Russomano usasse a tevê para largar bem na campanha. Sem ter de prestar contas políticas à presidenta, o PT fez no Recife a lambança de entrar nas prévias com três líderes e sair dela com uma intervenção que jogou dois deles na oposição, em detrimento de um senador que nunca lhe faltou.

Eduardo Campos: o governador de Pernambuco se lambuza com a lambança do PT

Ao decidir ser mais técnica do que política na montagem das chapas, Dilma passou aos partidos o recado de que, primeiro, cada um deve lutar por si, para depois ela premiar os vitoriosos. O problema é que confortar os derrotados é, na política, tão fundamental quanto adular os eleitos. Manter o distanciamento revela-se uma estratégia arriscada. A opção técnica faria sentido num quadro de economia em expansão segura, cujos resultados seriam capazes de dobrar resistências e superar ressentimentos. Mas se o ápice da atual fase de desaceleração acontecer nas próximas semanas, a falta de união entre os partidos da base governista pode ser ainda mais danosa para a presidenta.

E ela, de quebra, contraria a lógica da própria eleição de Dilma, quando o presidente Lula deu uma aula de política. Primeiro, ao unir o PT em torno da sua ministra da Casa Civil, depois ao seduzir Eduardo Campos e engabelar Ciro Gomes no PSB, compor com o PMDB a indicação de Michel Temer para vice e, por fim, forçar o PSDB a ficar com José Serra, o adversário que Lula tinha sonhado para o confronto com Dilma.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , , , , , ,

quinta-feira, 17 de maio de 2012 Política | 21:50

Collor ensinou ao Brasil tudo o que não deve ser feito no poder

Compartilhe: Twitter

Vinte anos depois do início da crise que o levou ao impeachment, a história não teve piedade com o governo de Fernando Collor. Se em muitos de seus aliados havia a esperança de alcançar um lugar de destaque pela abertura econômica do País ou por outras políticas adotadas pelo primeiro presidente eleito pelo povo após 29 anos, esse futuro nunca chegou.

Fernando Collor, 20 anos depois: o tempo não refez a história de seu governo

A maior herança dos anos Collor é a lição daquilo que não deve ser feito. E é pela sua face ora nefasta, ora arrogante, ora simplesmente equivocada que esse governo, paradoxalmente, acabou sendo positivo para o Brasil.

Se hoje os brasileiros falam com orgulho da necessidade de se respeitar contratos, é porque famílias inteiras foram humilhadas pelo confisco de suas economias com os bloqueios na poupança e nas aplicações financeiras.

Se os presidentes que o sucederam procuraram a todo custo (e alguns a um custo elevado demais) manter uma base aliada no Congresso, por pior que ela tenha sido em termos éticos e técnicos, é porque o governo Collor ensinou que não se governa sem Congresso.

Se as CPIs que vieram depois do Caso PC trabalharam com autonomia e levaram à cassação de inúmeros parlamentares, é porque o episódio de Collor gerou um modelo de eficiência, se não jurídica, ao menos política.

Se hoje a Polícia Federal promove operações de faxina dentro de ministérios, é porque a sociedade exigiu, no governo Collor, a abertura desse precedente.

Se o Ministério Público atualmente estende seus galhos para os mais diversos setores da sociedade, é porque fincou raízes legais, de respeito e de credibilidade, lá atrás, nos embates da Era Collor.

Se hoje algum figurão ganhar boladas por consultorias que nunca exigiram um parecer, é porque aprendeu com a EPC (a empresa do notório Paulo César Farias). E se hoje essas pessoas mal duram no cargo ao serem descobertas é porque o resto do Brasil sabe, há 20 anos, que a demissão é o mínimo que a opinião pública espera ver num caso desses.

Se, depois de Collor, os comensais da Corte evitaram o exibicionismo de símbolos de novos ricos e recusaram a ostentação para afirmar uma imagem de modernidade, é porque a República de Alagoas, apesar de não se ver assim, era simplesmente ridícula com seu deslumbramento por grifes francesas de luxo e máquinas importadas.

Veja aqui a página especial do iG com tudo sobre o impeachment de Collor e a história 20 anos depois

1992 foi um ano em que o Brasil viveu em perigo constante. De um lado estava o mais forte governo que o País poderia ter na época: nascido da vontade majoritária das urnas, após 21 anos de ditadura, eleito numa campanha que dividiu a sociedade ao meio, com cidadãos mobilizados e separados pelas emoções e pelas diferenças de propostas. Collor prometeu uma agenda de reformas que iria romper laços protecionistas, patrimonialistas e corporativos da elite nacional.

Muita dessa força não tinha origem no presidente em si, mas no momento histórico: o Brasil vinha da frustração de ver eleito um presidente que nunca assumiu (Tancredo Neves), decepcionado pelo fracasso do Plano Cruzado e massacrado pelo recorde de 84% de inflação em um único mês. Ou seja, hoje seriam precisos mais de dez anos para chegar no descontrole de preços que o Brasil vivia em apenas três semanas.

A juventude, o descompromisso e a personalidade intempestiva do presidente fizeram o resto e, em 1992, o Brasil era um país incrivelmente crispado: militares ressentidos com a crescente perda de influência, a população amargurada pela volta da inflação, os políticos abismados com a desenvoltura dos amigos do presidente, empresários fartos de ameaças, uma juventude absolutamente desiludida com a falta de empregos e perspectivas.

Tudo poderia acontecer no Brasil, do retrocesso institucional à crise federativa, passando pela débâcle econômica (houve um dia em que o Banco Central chegou a ter somente 2 bilhões de dólares de reservas após um ataque especulativo contra a moeda). As denúncias de Pedro Collor, o caçula da família do presidente, deram a liga que faltava aos descontentes e colocaram o Brasil no caminho para a frente. E obrigaram as instituições recém-nascidas da Constituição de 1988 a serem fortes desde seu primeiro grande teste. Esse é o lado positivo do governo Collor.

Se hoje a Constituição se faz respeitada em interpretações que vão das cotas raciais à união de pessoas do mesmo sexo, passando pela autorização para aborto de fetos anencéfalos, é porque ela foi o fio garantidor do impeachment do presidente. E se hoje o Brasil vive seu mais extenso período de liberdades e ninguém mais questiona o valor da democracia é porque, 20 anos atrás, o governo de Fernando Collor obrigou a sociedade a ir ao seu limite.

Confira aqui a linha do tempo, com fotos e videos, do impeachment de Collor

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , , , ,

quarta-feira, 11 de abril de 2012 Política | 23:03

2012, a eleição do 3G

Compartilhe: Twitter

Quanto mais governo melhor, essa é a regra para os candidatos que desejam ganhar a eleição deste ano.

Quem tiver o engajamento dos três níveis de governo, o municipal, o estadual e o federal — o 3G –, dificilmente perderá a disputa. O exemplo mais contundente é o do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB). Candidato dele mesmo, do governador Sérgio Cabral e da presidenta Dilma Rousseff, Paes tem a melhor rede 3G do mercado eleitoral. Além dos apoios, ele tem discurso porque representa o projeto carioca de virada econômica, com o pré-Sal, a Copa e a Olimpíada. Fora isso, pode usar a prefeitura como trampolim para a sucessão de Cabral, num momento em que empresas e eleitores do Rio querem a garantia da continuidade.

Sérgio Cabral, Dilma Rousseff e Eduardo Paes: a melhor rede 3G do mercado eleitoral

Situação semelhante vive o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB). Ele tem um 2G contratado para a campanha, já que disputa a reeleição e terá o PT na sua coligação. Como nunca lhe faltou o apoio da principal liderança de Minas, o senador Aécio Neves, a entrada em operação da sua rede 3G depende apenas de um detalhe legal, a formalização da inacreditável chapa que unirá PT com PSDB.

LEIA TUDO SOBRE ELEIÇÕES CLICANDO AQUI NA PÁGINA ESPECIAL DO iG

Como exceção que eventualmente pode confirmar a regra está Porto Alegre. José Fortunati (PDT), o atual prefeito, é uma espécie de 1,5G – tem a máquina pública para sua reeleição e seu partido integra a base do governo federal. Quem teria a rede 2G (estadual mais federal) seria o deputado estadual Adão Villaverde, do PT. Mas mantendo o espírito contestador que já havia se manifestado na eleição do governador Tarso Genro, os gaúchos, segundo as últimas pesquisas de opinião, deram-lhe apenas 2% das intenções de voto. Em Porto Alegre, eles estão abrindo a temporada pré-eleitoral com a candidatura menos governista na primeira posição — a da deputada Manuela D’Ávila, do PC do B, e uma espécie de 0,5G pelo apoio a Dilma no Congresso.

Em São Paulo, o ex-ministro Fernando Haddad, pelo PT, e o deputado Gabriel Chalita, pelo PMDB, pretendem se apresentar como candidatos do governo federal e receber a empatia do ex-presidente Lula (espécie de acelerador de rede para quem só tem 1G). O ex-governador José Serra fica com os outros 2G, o apoio das máquinas municipal e estadual.

Alckmin, com Serra e Kassab: o poder regulatório do governador interfere na autonomia do candidato

Mas nada impede que, numa eventual ascensão do candidato do PMDB nas pesquisas — um cenário hoje tão improvável quanto surpreendente –, Serra venha a ser rebaixado, pelo poder regulatório de Geraldo Alckmin, para 1,7G enquanto Chalita seria promovido a 1,3G. De todos os cenários, talvez seja o mais perturbador para Serra, já que o oposto disso, a candidatura do PT no segundo turno, fortaleceria radicalmente sua rede 2G.

Nos estertores da ditadura, havia um desejo de mudanças de tal magnitude que ao maior partido de oposição da época bastava um único slogan: “PMDB Neles”. No início da redemocratização, o fracasso dos planos de estabilização, a inflação galopante e o desemprego em alta permitiram ao PT faturar suas primeiras cidades em campanhas em que ele se apresentava “contra tudo isso que está aí”. Quanto menos envolvimento com o governo, melhor, era o lema da época, como mostrou a vitória da inexperiente e desconhecida Luiza Erundina contra o notório e experiente Paulo Maluf.

O fracasso do governo Fernando Collor alertou o eleitor para a importância da experiência administrativa e o pleito estadual de 1992 marcou a chegada do “eleitor de resultados” – ele estava pouco se lixando para os partidos, mas queria políticos que soubessem governar. De lá para cá, os sucessos do Plano Real no governo FHC e da expansão econômica do governo Lula levaram o eleitor a índices cada vez mais altos de adesismo.

O governismo é o que o move agora, mas dois fatores podem vir a inibir o bom funcionamento do 3G: o julgamento do Mensalão pelo Supremo Tribunal e as — sabe-se lá quais serão –, descobertas da CPI do Cachoeira. Hoje limitados ao signo do desconhecido, os dois eventos juntos têm potencial de gerar um sentimento hegemônico contra a classe política. Se isso acontecer, melhor do que mostrar apoios dos governos, será se apresentar como um candidato técnico.

VEJA AQUI TUDO O QUE O iG PREPAROU PARA A COBERTURA DA ELEIÇÃO MUNICIPAL DE 2012

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , , , , , , , , , , ,

terça-feira, 10 de abril de 2012 Política | 19:51

As águas profundas da CPI do Cachoeira

Compartilhe: Twitter

Nada mais representativo do atual momento da política nacional do que a iminente criação da Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o mundo subaquático do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Sinal de uma fratura mais profunda no sistema político, a instalação desta CPI move expectativas e interesses contraditórios nos Três Poderes – e, por isso mesmo, seu desfecho dificilmente contemplará todos os argumentos que justificam a abertura.

Carlinhos Cachoeira, em breve na CPI: cada partido tem um final para essa história

A proposta de CPI nasceu de um pedido do senador baiano Walter Pinheiro, líder do PT. E cresceu depois que o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), defendeu que ela fosse mista, unindo deputados e senadores. Todos os parlamentares têm autonomia e independência para recolher assinaturas para a CPI que quiserem ver criada. Mas Pinheiro, além de ser o líder do partido no Senado, é visto no Congresso como alguém muito ligado à presidenta Dilma Rousseff. Ele foi um dos dois únicos senadores do PT a não prestigiar aquela famosa ida de Lula a Brasília, no auge da crise que acabou gerando a saída do ministro Antônio Palocci. E sua atitude contou pontos no Palácio do Planalto.

Não há registro de governos que apoiem CPIs de notória consequência política, e mesmo o engajamento do presidente da Câmara no processo não oferece garantias de que a presidenta Dilma deseje a instalação dessa investigação. Mas os líderes do PT enxergam na CPI do Cachoeira a chance de imprensar o governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, e vários outros políticos da oposição, sejam do PSDB, do DEM ou do PPS.

Esperam, ao longo dos trabalhos, aniquilar o discurso anticorrupção da oposição e estender suas implicações para a disputa municipal deste ano. O cerco investigativo contra tucanos e democratas também traria efeito balsâmico para as dores que o provável julgamento do caso do Mensalão infligiria ao PT. Mais ainda porque, nessa avaliação, ambos eventos ocorreriam ao mesmo tempo.

O pedido está recebendo apoios tanto de outros partidos da base aliada, como da própria oposição. O bloquinho criado por senadores do PR, do PTB e do PSC poderá tirar da CPI do Cachoeira os benefícios que muitos parlamentares já recolheram em outras ocasiões – quando souberam dosar o afã denunciativo e a exposição gratuita na mídia às concessões de objetivos eleitorais. Numa provável divisão dos membros da CPI entre oposicionistas e petistas, eles podem atuar como fiéis da balança em votações importantes – e isso tem seu valor político.

O PSDB, encrencado pelo envolvimento de um deputado federal no inquérito que tramita no STF e pela suspeita de que os afluentes de Cachoeira tenham alcançado pelo menos as margens do governo de Marconi Perillo, quer a instalação da comissão para, no grande plano, ampliá-la, quem sabe, para uma espécie de CPI da Faxina.

Marconi Perillo: o governador de Goiás vive sua maior encrenca

Na conta menor, navegaria nas águas que passaram sob os viadutos do Distrito Federal, onde o PT comanda o governo. Não seria mau negócio, pensam os tucanos, sair dessa CPI com um empate: um governo de cada lado. Noutra frente, haverá quem batalhe para encontrar supostos vínculos de Cachoeira com políticos do Rio, Estado onde existia um ramo de seus negócios.

Como instituição, o Congresso tem na CPI a oportunidade de afirmar seu poder contra o que os parlamentares chamam usualmente de “usurpação legislativa” do Supremo. Não deixa de ser intrigante que o movimento de instalação da comissão parlamentar tenha ganhado força depois de o ministro Ricardo Lewandowski ter negado acesso da Corregedoria do Senado e do Conselho de Ética aos autos do inquérito da operação Monte Carlo. Se o primeiro ato da CPI for aprovar uma requisição ao Supremo da cópia do inquérito, então está definido o tamanho do fosso que se cavou entre os dois poderes. Será um início de trabalhos capaz de gerar um debate, se não quente, pelo menos acalorado sobre as prerrogativas de um e outro poderes da República.

Vinte anos atrás, quando a CPI do Caso PC Farias já havia se tornado uma necessidade política por força da opinião pública, o experiente Ulysses Guimarães, com seus mais de 50 anos de vida pública, relutava em apoia-la. “CPI a gente sabe como começa, mas não sabe como termina”, argumentava. Nesses 20 anos, nenhum governo incentivou a instalação das que têm implicações políticas. Itamar Franco foi quem chegou mais próximo disso, durante as investigações da chamada CPI dos Anões do Orçamento – mas antes tomou o cuidado de fazer um acordo que limitaria a investigação aos malfeitos dos parlamentares.

Se funcionar como as suas congêneres mais famosas, a CPI do Cachoeira ainda assim estará sob uma realidade desconhecida: será a primeira CPI política (e não temática) a acontecer na era digital. No passado, parlamentares sabiam para quem vazar informações e podiam pesar antecipadamente as consequências. Mas agora, com os recursos que a internet oferece, nada impede que um deles publique suas descobertas num blog do mandato, protegido pela imunidade parlamentar, repercutindo instantânea e mundialmente e alavancando o poder mobilizador das redes sociais.

A CPI do Cachoeira, portanto, promete ser tal e qual o nome e suas circunstancias: à distância oferece a ilusão de espetáculo cristalino, enquanto na origem remói águas revoltas. A menos que seja uma tremenda cascata, dali correrá água para uma limpeza que o Brasil não vê há 18 anos — já que nem sob FHC, nem sob Lula houve uma CPI política no Congresso. Como ocorreu em outras, antes deles, espera-se que um Brasil mais transparente possa emergir da profundeza dessas águas.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

quarta-feira, 7 de março de 2012 Economia | 21:41

O governo Dilma e a Nova Classe Rica

Compartilhe: Twitter

O fenômeno foi mensurado pela pesquisa “De Volta ao País do Futuro”, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas: proporcionalmente, até 2014 as classes A e B somadas irão crescer quase três vezes mais que o ritmo de expansão da classe C. Nos próximos dois anos, nada menos do que 6,5 milhões de brasileiros, uma população equivalente a do Paraguai, alcançarão as faixas mais altas da pirâmide social.

Isso significa que eles terão renda familiar acima de R$ 6.220, carro para passear e vários eletrônicos e eletrodomésticos (tevê, geladeira, máquina de lavar, computador) equipando a casa. A maioria será formada em universidades, terá um plano de saúde para usar médicos e hospitais particulares e deverá viajar de férias uma vez por ano. Quase todos terão televisão por assinatura e banda larga doméstica. A Nova Classe Rica, portanto, deverá entrar para a história do governo Dilma Rousseff assim como a Nova Classe Média, a incorporação de 35 milhões de pessoas ao mercado consumidor, esteve para o governo Lula.

Do ponto de vista econômico, trata-se de uma equação já desenhada: mantido o atual ritmo de crescimento do PIB e de aumento da renda média, o Brasil assistirá, em algum momento dos próximos 18 meses, a um evento inédito. Pela primeira vez na sua história, haverá mais gente no cume da pirâmide social do que na base – até a eleição presidencial de outubro de 2014, deveremos contar cerca de 30 milhões de brasileiros ricos contra 20 milhões de brasileiros miseráveis.

Do ponto de vista político, a antiga mentalidade verá na expansão da Nova Classe Rica quase a contradição de um governo que fez do “Brasil sem Miséria” sua bandeira social. Muitos brasileiros ainda se indignam mais com a riqueza do que com a pobreza, mas nesse caso a leitura social é exatamente a oposta. O estudo da FGV mostra que o Brasil sepultou definitivamente o ciclo de concentração de renda das décadas de 1970 e 1980. E o objetivo final do programa de Dilma Rousseff nunca foi o de manter uma massa de excluídos, mas de justamente extingui-la. Aos poucos, um pedaço crescente do Brasil perde a vergonha de celebrar a a adição de seis novos bilionários na lista da revista Forbes (agora são 36) ou a assunção de quase duas dezenas de novos milionários por dia (agora são quase 150 mil brasileiros com mais de um milhão de dólares em investimentos de liquidez imediata).

Getty Image

Eike Batista: o sétimo mais rico do mundo tem US$ 30 bilhões

A grande questão que a Nova Classe Rica suscita, para ela e para o futuro do país, está ligada ao retrato que fará de si mesma. Se herdar o comportamento individualista, patrimonialista e autoritário da velha elite, o Brasil será uma caricatura de país desenvolvido. Mas se essa nova força estiver baseada em igualdade de direitos e oportunidades, em progresso pelo esforço de cada um, no cuidado com os espaços coletivos, no aprimoramento intelectual e no refinamento do gosto, essa Nova Classe Rica mudará o patamar do Brasil uma segunda vez.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , ,

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012 Política | 21:46

Serra e Kassab estão fazendo o PT de bobo?

Compartilhe: Twitter

Se, e quando, for confirmada a candidatura de José Serra a prefeito de São Paulo, o PT deveria promover um encontro para pedir desculpas à senadora Marta Suplicy. Nos últimos quatro meses, ela foi a principal liderança petista a não se deixar levar pelas partículas de candidatos e alianças que permaneceram em suspensão no horizonte político da cidade. Enquanto o partido mergulhava na nuvem de poluição causada pela inversão térmica eleitoral, Marta registrava sua discordância e sinalizava o risco. Primeiro, pediu para evitar uma escolha antecipada do candidato do PT, mas foi atropelada. Depois, alertou para o feitiço da aliança com o PSD do prefeito Gilberto Kassab — e só não foi totalmente ignorada porque parte da militância petista ainda cobra um mínimo de coerência política.

Kassab na festa do PT: aliança em potencial ou jogo de dissimulação?

Marta terminou sendo posta à margem porque o PT precisava se renovar, enquanto ela nunca escondeu o desejo de tentar o cargo pela quarta oportunidade. Mas, por isso mesmo, o partido deveria tê-la ouvido: após passar quatro anos na prefeitura e perder duas eleições, uma para Serra e outra para Kassab, era Marta quem, no PT, mais tinha condições de interpretá-los. Teria sido, no mínimo, por respeito a uma tradicional regra da política: ninguém conhece melhor você do que o seu inimigo.

Quando perdeu a convenção do PSDB para Aécio Neves, em maio do ano passado, Serra sabia que seu projeto presidencial só seria retomado em duas hipóteses. Na primeira, ele atuaria de coadjuvante, capaz de ser promovido a protagonista por falta de nomes. Assim, a candidatura de 2014 teria de lhe cair no colo, com Aécio voltando para Minas Gerais e Geraldo Alckmin tentando a reeleição paulista. Para que pudesse ter um mínimo de autonomia sobre seu destino, no entanto, a Serra só restava uma candidatura a prefeito de São Paulo (leia, na coluna Análise de 28 de maio do ano passado, os motivos para isso).

Durante nove meses, portanto, Serra pareceu estar morto. No lugar de se apresentar como viúva, Kassab criou o PSD e vestiu-o de noiva, tentando ser vice-governador na eventual reeleição de Geraldo Alckmin ou ocupando, com seus parlamentares, ministérios no governo Dilma Rousseff. No projeto ideal de Serra, sua candidatura a prefeito permaneceria congelada, para despertar apenas no final do semestre – por questões legais, ele é o único nome forte capaz de ser oficializado no último minuto da convenção partidária. Mas a proximidade das prévias internas do PSDB para a escolha do candidato a prefeito, marcada para depois do carnaval, tirou-o da hibernação. Marta Suplicy teria direito igual, mas seu partido já saiu às ruas com a candidatura do ex-ministro Fernando Haddad.

Em outubro, quando a eleição chegar ao final, a história de Serra e Kassab será reescrita com base no resultado e o que até hoje era apresentado como desejo sincero provavelmente será interpretado como um jogo de dissimulação. Houve um momento em que Serra gostaria de não correr o risco da disputa em São Paulo e de ter se mantido à tona como presidente do PSDB. E Kassab preferia uma aproximação com o poder federal do PT.

Ao submergir, Serra recuperou a liderança política. E teria também reduzido a taxa de rejeição porque deixou todos brigando contra todos enquanto assistia tudo à distância. Isso é importante porque, desde a adoção do segundo turno, a maioria em São Paulo é formada em torno do nome do adversário de quem o eleitor não quer eleger – e não em torno do nome favorito. Essa decisão racional, baseada na rejeição a um candidato ou partido, e não na paixão pelo outro, garantiu os mandatos de Pitta, Marta, Serra e Kassab.

O atual prefeito agora dificilmente mudará de destino porque as resistências de Dilma Rousseff e de Geraldo Alckmin em aceitar suas condições para um acordo acabaram por criar um processo simbiótico com Serra. O fracasso de ambos desenhou o caminho que se trilha neste momento na capital paulista. Para que o PSD permaneça como um projeto viável de poder, Kassab depende de Serra na prefeitura. Afinal, se partidos com mais de 20 anos de história, como o PSDB, desidratam por estar na oposição, a sobrevivência de uma legenda recém-criada não acontecerá sem uma máquina com o peso da de São Paulo.

Para Serra, a confirmação da aliança com Kassab e um eventual retorno à prefeitura oferecem o que seu partido lhe recusou no encontro de maio do ano passado – estrutura para retomar o projeto presidencial. E, além de tudo, também serve de bóia partidária caso os tucanos o abandonem no meio da última chance que lhe resta de fazer a travessia para o Planalto.

Foi essa dependência mútua entre Serra e Kassab que Marta Suplicy vislumbrou como um jogo que acabaria por engabelar, além do PT, o governador Alckmin e os quatro pré-candidatos do PSDB. No caso do PT, o pedido de desculpas a Marta se fará necessário não apenas porque o partido precisa de sua experiência na campanha de Haddad, mas sobretudo como autocrítica. Afinal, não foi a nuvem de candidatos e alianças que turvou a visão das lideranças petistas, mas a mistura de poluentes eleitorais ainda mais básicos: arrogância, ambição, precipitação e desejo de vingança.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011 Política | 20:00

O Brasil de Lula vai finalmente aparecer no governo Dilma

Compartilhe: Twitter

Luiz Inácio Lula da Silva foi um presidente à frente de suas obras. Lançamento de projeto no Palácio do Planalto, inauguração de pedra fundamental, visita a canteiro de obras: Lula estava em todas, anunciado um colosso de aço e concreto que ninguém via. Macacão com mancha de óleo, boné de maquinista, capacete de operário: Lula posou com os apetrechos com os quais vendia ao grande público a retomada das grandes construções. Mas Lula se foi sem apertar o botão que move as engrenagens.

Lula em trecho de obra da transposição do São Francisco em outubro de 2009. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Exatamente como disse numa entrevista ao iG, antes de deixar o Planalto: quando o governo consegue superar todas as licitações, licenças e fiscalizações, o mandato já está no fim. Assim, Lula deixou Brasília sem que a água brotasse da transposição do São Francisco, sem que um kilowatt tivesse sido gerado pelas novas hidrelétricas da Amazônia, sem que os estaleiros tivessem lançado seus navios ao mar.

Lula na produção do primeiro óleo do pré-Sal em setembro de 2008. Foto Ricardo Stuckert/PR

O presidente operário queria perpetuar seu governo com imagens de concreto, asfalto, pedras e aço, mas viveu de construções que, embora efetivamente reais, são símbolos que podem ser usados, mas não são vistos (como o Bolsa Família), podem ser sentidos, mas não tocados (como a Nova Classe Média).

Na véspera da chegada de 2012, a Usina de Santo Antônio vai colocar a primeira turbina em operação, na sequência virá o maior navio já construído no País e ao longo do próximo ano tomará forma grande parte daquilo que a oposição ao ex-presidente classificava de jogada de marketing. Em parte, ela tinha razão.

O Brasil das grandes obras nasceu depois da reeleição de 2006, quando Lula, tendo iniciado as microreformas econômicas, ampliado a distribuição de renda e passado pela crise do Mensalão, definiu que precisava de um projeto mais arrojado para o segundo mandato. Empacotado sob o nome do PAC, em janeiro de 2007, o segundo mandato de Lula vai finalmente aparecer no segundo ano do governo Dilma. Ele ajuda a retocar a fotografia do passado, mas dele depende o país do futuro.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , ,

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 Economia | 01:24

Steve Jobs, o inventor das coisas que você não sabia que precisava

Compartilhe: Twitter

A partir do final da década de 1970 quando Steve Jobs e Bill Gates iniciaram sua história de competição e amizade no incipiente mercado de informática, só um deles soube enxergar o futuro. Era uma era de equipamentos caros, que rapidamente ficavam obsoletos. A Microsoft entendeu que a chave do sucesso seria fazer o comprador transformar esse investimento em ganhos de produtividade e assim dominou o mundo corporativo com seus softwares de apelo individual. Bill Gates anteviu onde aquela indústria nos levaria e venceu a primeira corrida contra a Apple – a da produtividade econômica.

Steve Jobs/AP

Steve Jobs no lançamento do Macbook Air: a Apple mudou os consumos de música, telefonia, informação e lazer digitais

O que Bill Gates não percebeu é que Steve Jobs estava, na realidade, 20 anos à frente daquele futuro. No lugar de desenvolver empresas, ele queria facilitar a vida das pessoas. O Macintosh (era assim, por extenso, que se escrevia o nome do principal produto da Apple), portanto, foi moldado para conquistar mentes e corações dos que precisavam criar: arquitetos, designers, publicitários, cineastas, músicos – era esse o primeiro e fiel público da Apple. O Mac era um equipamento muito mais caro que seu concorrente. Mas para os artistas da criação, o PC com seu Windows eram quadrados demais para fazer frente em funcionalidade, liberdade ou beleza. Envenenada pela mordida na maçã, essa tribo de inovadores fez da Apple uma empresa “cool”, dona de produtos de vanguarda, visualmente atraentes.

Em 1993, quando uma incipiente internet ameaçava reinventar o futuro dos computadores, Bill Gates ficou preso às redes corporativas. “A internet?”, disse ele numa entrevista. “Nós não estamos interessados nela.” Cinco anos se passaram, e ele reconheceu que o futuro havia mudado sem sua participação. “As vezes somos pegos de surpresa”, disse em julho de 1998. “Por exemplo, quando a internet veio, a gente a tinha como quinta ou sexta prioridade.” A primeira vitória de Bill Gates se deu, na realidade, na última corrida do século passado – e agora o resultado dela já não tinha mais importância.

O mundo estava entrando na era Google e em muitos pontos a filosofia da nova gigante do mundo digital era similar à da Apple: facilite a vida das pessoas, seja confiável, ágil, organizado, simples. Processadores cada vez mais rápidos e potentes, servidores baratos e de grande capacidade de armazenamento transformaram a economia e a criatividade: música, texto, fotos, conversas, documentos, vídeos, planilhas, gráficos, jogos (e agora até amizades, namoros, aventuras e viagens) – tudo resumido a bytes, guardado e acessado em qualquer ponto do ciberespaço.

E então o futuro chegou onde Steve Jobs o imaginara mais de duas décadas antes e a Apple saiu na frente na primeira corrida do século XXI – a da economia criativa. Ele mudou os consumos da música com o iPod, da telefonia com o iPhone, da informação e do lazer digitais com o iPad. Steve Jobs liderou uma empresa que inventou muitas coisas que você não sabia que precisava. E daquilo que parecia supérfluo, ele fez uma necessidade de consumo, um instrumento cotidiano, e revestiu-lhe do mais importante: o valor sentimental.

Leia tudo sobre a morte de Steve Jobs

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , , , , , ,

terça-feira, 23 de agosto de 2011 Política | 21:02

Novo clero é a tropa de choque do governo no Congresso

Compartilhe: Twitter

Nem Alto Clero, os grandes caciques dos partidos (como o hoje vice-presidente Michel Temer, do PMDB, ou o falecido Luís Eduardo Magalhães, do PFL) que durante o governo Fernando Henrique Cardoso transformaram as lideranças dos partidos e a Presidência da Casa no posto avançado do Planalto. Nem Baixo Clero, os deputados e senadores com larga bagagem parlamentar, mas de pouca influência política e pequena projeção pessoal, que desde a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) mostraram seu apetite na negociação com o governo. O que está em construção neste momento no Congresso é a formação do Novo Clero, um processo de renovação que divide quase todos os partidos, com o incentivo cada vez menos discreto do Palácio do Planalto.

Tão logo os parlamentares retornaram do recesso de julho, os fatos foram se acumulando de maneira eloqüente. No PP, o partido que abriga o maior contingente de baixo clero por metro quadrado do tapete verde da Câmara, a renovação veio num golpe. Em 12 de agosto, o líder Nelson Meurer, do Paraná, foi dormir sem o cargo. Meurer está no quinto mandato e no início do ano foi eleito por 30 dos 44 deputados do PP. Em seu lugar, entrou um deputado de primeiro mandato, Aguinaldo Ribeiro, da Paraíba, num movimento da bancada que, por mais contraditório que pareça, é contra o ministro da legenda, Mário Negromonte (ainda na Pasta das Cidades e também no quinto mandato parlamentar), porém a favor do Planalto.

Mendes Ribeiro: o novo clero do PMDB colhe o que plantou

Assim como Alfredo Nascimento (demitido dos Transportes), Wagner Rossi (que pediu demissão da Agricultura) ou Pedro Novais (entrincheirado no Turismo), o ministro Negromonte chegou lá muito mais por uma imposição dos antigos líderes partidários que numa combinação com a presidenta Dilma Rousseff. Se puder trocá-lo sem perder apoio no Congresso, o governo o fará. Repetirá a tática vitoriosa de duas semanas atrás quando foi surpreendido pelo pedido de demissão de Wagner Rossi, do alto clero do partido em São Paulo. Com a vaga aberta no Ministério da Agricultura, um pedaço da bancada sugeriu o nome do deputado Moacir Micheletto, do baixo clero do Paraná. Deu o representante do novo clero, Mendes Ribeiro, do Rio Grande do Sul.

Dono da segunda maior bancada e, portanto, do direito de nomear o representante em várias comissões importantes da Casa, o PMDB está vendo a rebelião do novo clero se alastrar. O caso mais recente gira em torno da indicação, feita pelo líder Henrique Eduardo Alves, para o cargo de relator da Comissão que analisará o novo Código de Processo Civil. Alves quer o deputado Eduardo Cunha (alto clero-RJ), contra a oposição de Danilo Forte (baixo clero-CE), que tenta se deslocar para o novo clero. A divisão da bancada pode custar a Alves a pretensão de se tornar presidente da Câmara em fevereiro de 2013.

A reação coletiva dos caciques de vários partidos à faxina ética promovida por Dilma foi interpretada por muita gente como um prenúncio de uma crise institucional entre Congresso e Planalto.  O que está ficando explícito agora é a existência de focos de revoltas nos diversos partidos contra o velho clero. E para enfrentar o governo cada um deles precisa antes recobrar o consenso interno. Para Dilma, a situação mais delicada do momento é a do PR, no qual alto clero e baixo clero se uniram contra a nomeação do ministro Paulo Sérgio Passos, dos Transportes. E o novo clero ainda não se apresentou para o jogo.

A ascensão desse terceiro clero é um movimento de risco. Num primeiro momento, ele paralisa muitas definições importantes, de cargos em comissões e relatorias de projetos de interesse do governo a nomeações nos vários escalões da Esplanada. Também incentiva o chamado fogo amigo, denúncias recíprocas entre aliados do próprio governo. Mas se o processo vier a se concretizar, o novo clero oferece a Dilma uma interlocução mais suave com o Parlamento, bancadas mais coesas e mais alinhadas com os projetos da presidenta, o que, no final das contas, reduziria a pressão no balcão da ministra Ideli Salvatti. Essa tropa de choque do governo será menos dependente de emendas individuais, menos sujeita aos desvios desses recursos, e mais comprometida com o sucesso de uma gestão que precisou apertar as contas públicas no presente oferecendo em troca a promessa de resultados na reeleição de cada um, daqui a três longos anos.

O novo clero é uma aposta da paciência sobre o pragmatismo, da confiança num projeto de governo sobre o interesse individual. Se ele triunfar, serão os seus representantes que estarão nas tribunas de honra dos novos estádios da Copa de 2014, num cenário de inflação e juros em declínio e economia novamente em ascensão, o que permitirá soltar as amarras das emendas individuais. O novo clero tem uma travessia complicada, mas, para quem nele embarcar, é um projeto eleitoral mais seguro que o atual – no qual todos os deputados brigam contra o governo pela liberação de emendas e nomeações de apadrinhados, montam suas campanhas com essas armas e partem para uma guerra fratricida pelas prefeituras.

Autor: Luciano Suassuna Tags: , , , , , , ,

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. 3
  5. 4
  6. Última