Os melhores livros que li em 2010
O convencional em circunstâncias de fim de ano seria fazer uma lista dos melhores livros da temporada, o que significaria falar a respeito dos livros lançados desde janeiro e pinçar, entre todos, os melhores. O problema é que, embora seja leitora voraz e quase obsessiva de livros dos mais variados tipos, consideraria levemente arrogante listar “os melhores” se, na verdade, estaria sempre falando dos melhores que li e dos melhores para o meu paladar.
Portanto, vou escapar um pouco da forma usual de fazer listas de fim de ano. Falarei dos melhores livros que li este ano, dando preferência a lançamentos, mas falando também de outros que, embora não sejam especialmente novos, me fisgaram e inspiraram durante a temporada.
Semana que vem falarei dos melhores livros que li em inglês e que ainda não foram lançados aqui. Uma prévia do que vem aí na literatura estrangeira em 2011.
Os livros não estão organizados por ordem de preferência.
1. Vida de Escritor – Gay Talese – Companhia das Letras – 509 páginas – R$62,50
Considero Talese um escritor fascinante e este livro em especial, delicioso. Talese, jornalista da velha guarda americana que ficou conhecido quando reportou sobre um certo resfriado de Frank Sinatra, escreve de forma coloquial, misturando jornalismo com literatura, criando uma espécie de jornalismo desprovido de pressa e de limites de tamanho. Vida de Escritor fala de algumas matérias inacabadas de Talese e aborda desde o nascimento da ideia original da pauta, até o momento em que tenta vendê-la a editores de revistas, contando em detalhes como faz para investigar cada um dos temas. É cheio de curiosidade de bastidores, referências a sua vida, quase uma autobiografia.
2. O Homem que Queria Salvar o Mundo – Samantha Power – Companhia das Letras – 667 páginas – R$ 62,50
Num ano repleto de boas biografias, a do diplomata Sergio Vieira de Mello é das mais edificantes. O brasileiro, um dos homens mais respeitados das Nações Unidas, morreu em atentado terrorista em Bagdad, em 2003, no auge da carreira. O livro da americana Power, que conviveu com Viera de Mello, carece de uma certa ginga de prosa, encontrada em excesso, por exemplo, no livro de Talese, mas tem técnica e informações em abundância.
3. Alice – Lewis Carrol com ilustrações de John Tenniel – Zahar – 317 páginas – R$ 79,90
De capa dura e tamanho original, o relançamento dos clássicos de Carrol ( Alice no pais das maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou por lá) é excelente passatempo. A leitura de Alice sob a ótica do mundo adulto é repleta de referências e sarcasmos que o paladar infantil não é capaz de captar, e acaba virando programa divertidíssimo. Livro para guardar na estante e, em certos dias de incompreensão da humanidade, ser lentamente saboreado.
4. Autobiografia de André Agassi – Editora Globo – 388 páginas – R$ 59,90
O tenista que virou escritor de qualidade. Agassi consegue colocar no papel a história de sua vida de forma cinematográfica. O escritor J.R Moehringer ajudou o ex número um do mundo a organizar as ideias e os principais episódios de sua vida com método e poesia, e o resultado é uma saga fascinante, cheia de lances bizarros e curiosos, bastidores, ironias e drama. Quem gosta de tênis, mesmo que de forma tímida, precisa ler este livro.
5. Gostaríamos de Informá-lo de que Amanhã Seremos Mortos com nossas Famílias – Philip Gourevitch – Companhia de Bolso – 350 páginas – R$ 26,50
Gourevitch é colaborador fixo da The New Yorker, especialista em Europa, África e Ásia. Ganhei o livro de Edson Rossi, amigo querido, professor de jornalismo e editor de qualidade rara. Edson está convencido de que todos os seus amigos devem ler a obra – e tem razão. O livro fala da dizimação da população de Ruanda em 1994, quando mais de 800 mil pessoas foram mortas em 100 dias, “o mais eficiente assassinato em massa desde os bombardeios atômicos de Hirochima e Nagasaki”. O título foi tirado de carta encontrada dentro de uma igreja onde dezenas de homens, mulheres e crianças estavam escondidos por terem cometido um único crime: não pertencerem à etnia que, naquela época, dominava o país. Não é lançamento, longe disso, mas deveria entrar em todas as listas feitas a respeito de livros que devem ser lidos.
6. Só Garotos – Patti Smith – Companhia das Letras – 240 páginas – R$ 39,00
Autobiografia da roqueira de alma punk Patti Smith. Estupidamente bem escrita, cheia de poesia, cenas pitorescas, passagens marcantes. Smith fala de seu relacionamento com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, que morreu de AIDS em 1989. Dessas histórias de vida que se fosse retratadas como obra de ficção soaria tremendamente exagerada. Patti conta como acabou morando nas ruas de Nova York, onde conheceu Mapplethorpe, e como sobreviveram durante anos sem um tostão, apenas com criatividade e intensidade.
7. José Alenca, Amor à Vida – Eliane Cantanhêde – Primeira Pessoa – 364 páginas – R$ 39,90
A história de um homem que se recusa a morrer, contrariando todos os prognósticos médicos. A jornalista da Folha de S.Paulo, autora da obra, investiga a vida de Alencar, desde o tempo em que morava na roça mineira, em casa sem luz elétrica, e conta como chegou a ser um dos homens mais ricos do País, e vice-presidente da República. Jornada humana que já seria suficientemente interessante, mas que acaba sendo pano de fundo para a história que realmente inspira: a luta de Alencar contra o câncer e as inúmeras batalhas que ele, a despeito de previsões médicas, vem vencendo. Não há como deixar de se emocionar.
8. Meio Intelectual, Meio de Esquerda – Antonio Prata – Editora 34 – 176 páginas – R$ 30,00
Antonio é filho da jornalista e escritora Marta Goes e do escritor Mario Prata. Natural que optasse pela carreira dos pais e herdasse o talento, mas nem tão natural assim que, ao fazê-lo, econtrasse tão rápida e eficientemente sua própria voz: original, autêntica, ácida, cômica. Cronista de primeira linha (talvez, ao lado de Xico Sá, o melhor desta época) e colunista de O Estado de S.Paulo, Prata reúne em Meio Intelectual, Meio de Esquerda aquelas que considera suas melhores crônicas até hoje. Leve, divertido, bem humorado e crítico na medida certa.
9. Se eu Fechar os Olhos Agora – Edney Silvestre – Record – 304 páginas – R$ 34,90
Das melhores surpresas do ano, o livro do repórter de TV Edney Silvestre é cativante do começo ao fim. A história de dois garotos que, ao encontrarem o corpo de uma mulher e decidirem investigar a coisa por conta própria, têm suas vidas transformadas para sempre.
10. Camus e Sartre, o polêmico fim de uma amizade no pós-guerra – Ronald Aronson – Nova Fronteira – 399 páginas – R$ 49,90
Ganhei o livro faz algum tempo e acabei deixando a obra de Aronson na pilha de livros que ainda precisam ser lidos que fica ao lado de minha cama e na qual tropeço diariamente. Num sábado qualquer à tarde, pincei Camus x Sartre da pilha e acabei devorando-o em poucos dias. Trata-se da história do rompimento dos dois pensadores, que eram grandes amigos até se degladiarem publicamente sobre a questão da violência, que, ao contrário de Camus, Sartre defendia como um caminho para grandes transformações.
