Lobato, Twain e a canetada póstuma
Mark Twain e Monteiro Lobato, onde quer que estejam, não estão felizes.
Lobato, em outubro, foi acusado de racismo pelo Conselho Nacional de Educação, que sugeriu o veto a um de seus livros (Caçadas de Pedrinho), em escolas públicas. Incomodou, entre outras coisas, Tia Nastácia ser chamada de negra.
Mas a caçada a Twain parece ser ainda mais problemática; Twain está prestes a ter sua obra alterada em nome do politicamente correto.
A bagunça começou quando uma editora de livros do Alabama – a New South Books – decidiu que em nova edição de As Aventuras de Huckleberry Finn, livro publicado em 1885, a palavra nigger, altamente racista e completamente banida do atual vocabulário americano, seria trocada por slave, ou escravo.
Deixemos de lado, por enquanto, a canetada póstuma e concentremo-nos no que caracteriza o preconceito mencionado.
Para entender o peso da discriminação contida na palavra suprimida da obra de Twain, nigger não é sequer mencionada nem mesmo quando é o próprio assunto da matéria em jornais e revistas. Se tem que ser citada, é chamada de N-word, ou a palavra da letra N (é importante não confundir o altamente ofensivo nigger com o aceitável negro). E em Huckleberry Finn Twain usa nigger por 219 vezes.
Não é preciso versar sobre a importância de Mark Twain para a literatura mundial, muito menos sobre a de Monteiro Lobato para a portuguesa. Nem talvez dizer, embora eu vá fazê-lo, que as duas obras foram escritas faz uma centena de anos, quando o mundo era um lugar ainda mais racista e preconceituoso do que hoje.
Mas é evidente que qualquer forma de racismo e preconceito deve ser contestada e não pode ser tolerada.
Só que alterar o que foi escrito por autores importantes, jogar a questão para debaixo do tapete e sair com as mãos no bolso assobiando pela vida como se tudo estivesse resolvido, além de ser infantil, é censura.
Faz muitos anos que li Huckleberry Finn, mas, se não me engano, o preconceito ali é fundamental para o entendimento do personagem central. Suprimi-lo é deixar o livro menos incômodo e, assim, tirar boa parte de sua importância.
Se a arte não incomoda, então talvez não esteja cumprindo todo o seu destino. Como instrumento fundamental de crítica da vida, é necessário que seja perturbadora, que faça pensar, que provoque o debate. Um mundo de arte cor-de-rosa é um mundo sem crítica e repleto de censura. Um mundo, portanto, que não queremos habitar.
Proibir o preconceito não basta. É preciso dialogar, esmiuçar suas vísceras e toda a ignorância nele contida.Só assim ele será liquidado pela raiz, só assim aniquilaremos suas causas e não apenas seus sintomas, sempre nocivos.
Para isso, temos que encará-lo de frente e arrastá-los à luz. Coibir a circulação de livros importantes como o CNE fez com o de Lobato, e, em pior escala, canetar postumamente escritores consagrados em nome do politicamente correto é um desserviço cultural.
Além de ser censura e politicamente irritante.
3 comentários | Comentar
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3 Felipe Rodrigues 16/04/2011 17:01
Parabéns pelo comentário, Milly. Acabei de ler Finn e concordo integralmente com isso. Além disso, a impressão que me passa é que, ao usar o termo racista, o escritor está ironizando o hábito. Embora Jim, o ‘nigger’, seja realmente o personagem mais ignorante do livro, ele também é o mais ingênuo, o mais puro e, por isso, o mais nobre (Finn, por exemplo, é altamente suscetível à mentira, apesar de ser ainda uma criança).
As questões atualmente são discutidas de forma equivocada, enfim… Ainda que o livro fosse racista, acharia importante mantê-lo de forma integral, como um registro histórico de um momento. Seria incorreto apenas o incentivo à leitura da obra.
Abraços, Felipe
Milly Lacombe 18/04/2011 11:19
Oi, Felipe. Concordo totalmente. E mais: ainda que o personagem fosse claramente racista deveríamos trazer o tema à tona, debater, elaborar e, assim, acabar com o preconceito. Jogar para debaixo do tapete mudando o significado de uma palavra e canetando o autor é simplesmente escapar do debate. E, sem diálogo, não há mudança possível. Obrigada pelo comentário
Abraço.
2 Abel 11/01/2011 8:46
O problema com Twain é que a palavra “nigger” não é “negro”, como foi dado a entender, mas “crioulo”. Não conheço nenhum negro que goste de ser chamado de “crioulo”…
Milly Lacombe 11/01/2011 13:23
Sim, Abel, é o que a palavra quer dizer, mas minha intenção não era elaborar a tradução, apenas criticar a canetada. Para entender o protagonista de Twain temos que engolir o “nigger” e todo o preconceito que vem com ele. Essa é a boa discussão, a que nos levará a um lugar sem preconceitos. Eliminar a palavra não elimina a intolerância. Muito pelo contrário: apenas a camufla. O que é pior.
1 Rafael Monteiro 10/01/2011 21:48
Considerando o Brasil pensei que a solução mais provável seria vir um folhetinho obrigatório explicando sobre o preconceito