
“Até eu fiquei perturbado com isso”, pensou Dexter em determinado momento de mais um excelente episódio, ao deparar-se com o peculiar e grotesco trabalho de um famoso fotógrafo. Por isso, quando uma de suas modelos apareceu morta, todos os dedos foram imediatamente apontados para o arrogante artista que costuma retratar mulheres com sangue, tripas para fora e olhos negros em seus editoriais. Enquanto isso, o analista da polícia de Miami continua na luta para conciliar sua vida familiar com a secreta e, para isso, recorreu mais uma vez aos sábios conselhos de seu algoz Trinity. Claramente fascinado com o assassino tríplice – afinal, ele passara tanto tempo matando sem ser pego – Dexter está postergando matá-lo enquanto este vem sendo útil com seus conselhos. Mas algo deu muito errado. Um inocente fora morto pelas mãos do Dark Defender. A pergunta que pode ser feita é: diante de todos os fatos, Dexter teve culpa em matar a pessoa errada? Teve, e muita. Depois de ignorar o Código de seu pai Harry mais uma vez e apressar a due dilligence sobre sua potencial vítima, ele praticamente ignorou diversos fatos como, por exemplo, investigar os outros funcionários do estúdio, deixando suas emoções (leia-se: o desprezo pelo artista) falar mais alto.

Dexter poderia sim ter evitado este terrível resultado empregando os meios dos quais costumeiramente utiliza para selar o destino dos criminosos que captura. A máscara do justiceiro caiu, sem nenhuma atenuante. Imputabilidade, potencial consciência sobre a ilicitude do fato e exigibilidade de conduta diversa são os elementos da culpabilidade presentes (e que sempre existiram em suas execuções), mas que antes eram (por nós) relevados, já que ele fazia em prol do “bem” da sociedade. Qual é a diferença, então, entre Dexter e Trinity depois deste ocorrido? Ambos são psicopatas que cometem crimes relacionados com um passado traumatizante e que justificam suas ações com base em verdades que optaram acreditar ou seguir. Como eu disse nos comentários das primeiras temporadas, bastaria uma execução falha para que o sistema inteiro de Dexter, inclusive o Código de Harry, (seja ele seguido à risca ou não) entrasse em colapso. Porém, da mesma forma que Trinity é uma figura ambígua, misteriosa e sombria, que atiça a curiosidade de Dexter; este, da mesma forma, consegue despertar em nós este mesmo sentimento: o fascínio incondicional. Esta é a prova irrefutável da qualidade e distinção do roteiro desta incrível série.
Cotação Bruno Carvalho: 




Episódio “4×07: Slack Tide” exibido em 08/11/2009 no Showtime americano.