Comentários: Indicados ao Emmy 2010
Para nós que vivemos 24 horas por dia ligados em séries de TV, acompanhando todos os episódios e sofrendo com cada cliffhanger e final de temporada, o anúncio dos indicados aos Primetime Emmy Awards é sempre acompanhado de muita frustração. Em 2010 não foi diferente. Ainda que a Academia de Artes e Ciências Televisivas tenha trazido algumas surpresas positivas, é impossível não ficar indignado com as sentidas faltas. Exemplo disso é a exaltação de Glee com 19 indicações (algo que achei que iria ficar somente no Globo de Ouro) e a injustificável ausência de Communiy, por exemplo, nos principais páreos. A questão é que quem realmente assistiu às temporadas de estreia de Glee e Community na íntegra tem a noção real do disparate que foi a comédia estrelada por Joel McHale (ironicamente um dos apresentadores dos indicados na cerimônia ocorrida nesta quinta) ter sido simplesmente ignorada. Mas conforme eu já expliquei aqui no blog, estas incoerências não são incompreensíveis quando evidenciamos o falho sistema de votação que tem por base a promoção de apenas um episódio (ou alguns) para representar determinada série ou personalidade. Em premiações de TV são poucos os votantes que realmente assistem as temporadas completas das produções indicadas, conforme me contou a jornalista Ana Maria Bahiana em Los Angeles (que também é membro da Associação de Imprensa Estrangeira, responsável pelo Globo de Ouro).
Antes de falar nos acertos, cumpre ressaltar os erros dos votantes. A mim não fez nenhum sentido Sandra Oh (Grey’s Anatomy) não aparecer na lista de atriz coadjuvante, assim como a série Treme não figurar no rol de melhor série dramática ou, pelo menos, ter alguns de seus atores representando-a nas demais categorias mainstream. Ficou evidente, ainda, que o excesso de hype de Glee acabou empurrando outros merecedores pra fora premiação (de novo, cadê Community? ou Entourage? ou Weeds? ou The Big Bang Theory no lugar?). Como assim Matthew Morrison e Lea Michele como melhores em seus ramos? É difícil engolir, da mesma forma que não entendi como que quase todo o ótimo elenco de Modern Family entrou menos Ed O’Neil. Ah, e muitos de vocês também ressaltaram nos comentários da lista a completa falta de menções a Fringe, em especial dos atores John Noble e Anna Torv. A Academia tem um notório histórico de restrições com séries de ficção (exceto pelas disputas técnicas), o que é lamentável e estúpido.
Com relação às surpresas que mencionei, a maior delas diz respeito à presença de Kyle Chandler e Connie Britton, ambos de Friday Night Lighs. Atores talentosíssimos e reconhecimento merecido, assim como aconteceu com Matthew Fox (LOST), Larry David (Curb Your Enthusiasm), Martin Short (Damages) e as presenças duplas de Christine Baranski (The Good Wife, The Big Bang Theory) e Jane Lynch (Glee, Two and a Half Men). E mesmo não sabendo como Sharon Gless (Burn Notice) foi parar ali, fiquei feliz com a menção, por ela e pela série. Enfim, Emmy que é Emmy conta com as indicações anuais obrigatórias de Mad Men, Dexter, Michael C. Hall, duas de Jon Hamm (também por 30 Rock) Alec Baldwin, duas de Tina Fey (também por Saturday Night Live), Steve Carell, Kyra Sedwick, Glenn Close, Neil Patrick Harris (também com presença dupla, por How I Met Your Mother e Glee), Bryan Cranston e sua Breaking Bad. Indispensáveis as indicações (e estatuetas, que precisam vir) para John Lithgow (Dexter) e Michael Emerson (LOST). Foi muito positivo, por fim, ver o drama de Carlton Cuse e Damon Lindelof de volta aos holofotes da Academia, homenageando a série que marcou uma geração. Jimmy Fallon será o mestre de cerimônias no dia 29 de Agosto e até lá trarei a lista das minhas apostas para este ano.
Um adendo: Belíssimo tapa que a Academia deu na cara da NBC ao ter indicado o cancelado Tonight Show with Conan O’Brien, vítima da bagunça que o canal aprontou em seu late night. Melhor que isso somente se Conan ganhar e subir no palco na cerimônia que será transmitida ao vivo pela emissora de costa a costa.

Os americanos simplesmente não se cansam de dramas procedimentais forenses. A cada ano uma enxurrada deles invadem a telinha e a partir do próximo Fall Season o Dr. Gregory House não será o único médico ranzinza e genioso da televisão. A nova série da ABC americana, Body of Proof, trará Dana Delany (Desperate Housewives) como a Dra. Megan Hunt, uma brilhante neurocirurgiã que tem sua promissora carreira arruinada por um terrível acidente de carro. Comprometida pela tragédia, ela acaba aceitando um trabalho na Filadélfia como médica legista, pois dessa forma ela “não pode matar quem já morreu”. Com a máxima “o cadáver é a maior evidência de um crime”, ela passa a ajudar a polícia a resolver homicídios analisando os corpos das vítimas. A personagem de Delany possui um temperamento forte, escondendo certa vulnerabilidade e tristeza. Além de ser forçada a mudar de carreira, ela ainda precisa lidar com uma filha que vive sob a custódia do pai. Estão também no elenco de Body of Proof os atores Jeri Ryan (Boston Public) e Sonja Sohn (The Wire). A série será exibida nas sextas-feiras na ABC, concorrendo com Medium da CBS. Será que pega? Assista o trailer:
Pois é. Ano passado o intérprete do chefe mais ingênuo e querido das séries, Steve Carell, disse que provavelmente não iria continuar em The Office após o final de seu contrato e recentemente confirmou sua decisão em deixar a série para investir em sua carreira cinematográfica, que inclui sucessos como Uma Noite Fora de Série, Pequena Miss Sunshine e Agente 86. Até o final dos anos 90, Carell era um comediante pouco conhecido do grande público e fazia pequenas participações em atrações como The Dana Carvey Show e Just Shoot Me. Ele ganhou maior notoriedade como “correspondente humorístico” de Jon Stewart para o The Daily Show with Jon Stewart e em 2005 assinou com a NBC para dar vida à versão americana da aclamada série inglesa criada por Ricky Gervais, The Office, cuja curta 1ª temporada não foi bem de audiência. Contudo, graças ao sucesso do filme que estrelou no mesmo ano, O Virgem de 40 Anos, o canal renovou a comédia para a 2ª temporada e, a partir de então, ela passou a trazer um retorno satisfatório, alavancando ainda a retomada do bloco de comédia das quintas-feira.
True Blood (3×03: It Hurts Me Too): Neste 3º episódio, a trama de True Blood deu uma estacionada nada estratégica. Para uma série com 12 episódios por temporada, isso não é nada bom, pois denota que eles terão que apertar muito o passo daqui pra frente, possivelmente atropelando a narrativa. O problema principal é que em It Hurts Me Too a introdução de mais uma personagem – o lobisomem Alcide – atrapalhou a antecipada e promissora disputa de Sookie por Bill e Eric. Além disso, o drama certamente não estava precisando de mais rostos novos, pois é fato que estamos com muitas histórias paralelas para lidar e que ainda não se encontraram (e cito, em especial, as de Sam e Tara). Mas o que mais me preocupou neste capítulo foi aquela cena bizarra de “sexo exorcista” no final. Não sou contra o gore e a bestialidade da produção – aspectos que sempre ressaltei positivamente nas resenhas – mais ficou evidente que a cena fora colocada com o simples propósito de chocar, sem acrescentar algo de relevante à trama. Felizmente tivemos alguns bons momentos que ajudaram na média do episódio, como o interessante flashback de Bill e os sempre divertidos instantes com Jason Stackhouse. De toda forma, ainda que tenha muitos créditos com a gente, True Blood ainda não “aconteceu” nesta 3ª temporada e já está passando da hora de Alan Ball nos surpreender.


Heroes fez escola, quem diria. Bem, de certa forma… No melhor estilo da animação da Pixar Os Incríveis, Julie Benz (Dexter) e Michael Chiklis (The Shield) protagonizam uma série promissora para 0 Fall Season no canal ABC. Casados há 16 anos, Jim e Stephanie estão presos na mesma rotina, tentando balancear a vida pessoal com o trabalho. Para reunir a família, Jim propõe um viagem ao Brasil, mas tudo muda quando uma tempestade atinge o pequeno avião e todos caem no Rio Amazonas (!). Ao retornar para casa, a vida dos Powell passa de ordinária para extraordinária, pois após o acidente eles misteriosamente desenvolvem super poderes! Sim, isso mesmo! A princípio também torci o nariz para a ideia, ainda mais após o recente cancelamento do drama de Tim Kring com mesma temática. Mas este pode ser um bom exemplo de como o texto e a execução (que parece que irá adotar o tom mockumentary de Modern Family) conseguem superar uma premissa batida, ainda mais considerando os nomes envolvidos. As novas habilidades da família refletem os desejos de cada um, desde querer ser indestrutível para proteger as pessoas a sua volta, conseguir correr para fazer tudo em tempo até possuir uma inteligência super avançada. Os poderes dão uma nova perspectiva para os Powell, que agora devem se unir para descobrir como lidar com eles. Também estão no elenco Autumn Reeser (The OC, Entourage), Romany Malco (Weeds) e Kay Panabaker (CSI). Tate Donovan (Damages) e Christina Chang (CSI: Miami) participam do episódio piloto, mas suas personagens não farão parte do elenco fixo. Veja o
Imagine se Michael Scofield abrisse uma firma de consultoria para ajudar a capturar foragidos da justiça? Com o final de Prison Break, os produtores executivos e roteiristas da série de perseguição Matt Olmstead e Nick Santora desenvolveram um novo projeto para a FOX: o drama Breakout Kings. A história gira em torno de um grupo de ex-prisioneiros que passa a trabalhar em conjunto com agentes federais na apreensão de criminosos foragidos. O trato é esse: 1 mês a menos de pena para cada captura bem sucedida, mas condenação dobrada se os “consultores” apenas tentarem escapar antes do fim do acordo. A FOX, contudo, descartou encomendar a série a partir do elogiado piloto, pois comprometeu seu orçamento com a renovação de Lie to Me e Human Target, conforme lembrou a jornalista Fernanda Furquim do
True Blood (3×02: Beautifully Broken): Com os vampiros desmistificados após a Grande Revelação e andando livres por aí, a 3ª temporada de True Blood foi extremamente eficaz em abordar os mistérios que cercam uma outra raça, os lobisomens. E em vez de simplesmente introduzirem estes seres, a série criou um contexto histórico intrigante, que os coloca no centro da 2ª grande guerra com uma ligação direta com o nazismo, estabelecendo-os como os novos e grandes vilões da vez. Mesmo que ainda contando com contornos de uma subtrama, a tal Operation Werewolf integra muito bem o rico universo deste drama que, de tão vasto, já se mostra capaz de se autosustentar como bem vimos na cena em que Jason questiona a existência do Papai Noel (impagável) ou no momento que Sookie exprime sua vontade de ver Bill chegando à sua porta dizendo “Sooookeeeh“. True Blood é uma das poucas produções atuais que consegue fazer isso muito bem sem parecer indulgente, graças ao seu cuidadoso texto e ao sempre talentoso elenco. Dito isso, preciso reconhecer que embora conte com diversas (e ótimas) histórias paralelas, o episódio pecou em focar e desenvolver melhor algumas delas, já que no final ficou clara a impressão de que avançamos pouco. De qualquer forma, os elementos para que esta seja mais uma ótima temporada estão aí, com destaque especial para a missão imposta a Bill pelo “rei” do Mississipi, as aventuras de Jason com Andy e mais um cliffhanger matador. E foi só eu que achei ou deram a entender que Terry Bellefleur seria uma espécie de “lobisomem do bem”? Assista novamente e repare…
A NBC acertou na divulgação da série The Event, uma das grandes apostas do canal para o Fall Season 2010. Adotanto um tom modesto, cheio de mistérios e sem propagandear demais como a rival ABC fez com FlashForward no ano passado, a campanha instiga o espectador sem parecer prepotente. The Event promete ser um drama de suspense em que cada resposta gera um questionamento ainda maior e mais intrigante. O protagonista é Sean Walker que, ao investigar o súbito desaparecimento de sua noiva, se depara com uma grande conspiração no governo americano, que envolve até o presidente. O episódio piloto será exibido dia 24 de julho na famosa feira Comic-Con em San Diego e no painel da série estarão presentes, além de Jason Ritter (Parenthood), os atores do elenco regular Blair Underwood (In Treatment), Laura Innes (ER), Zeljko Ivanek (Damages). The Event tem produção de Evan Katz (24), Steve Stark (Medium), Jeffrey Reiner (Friday Night Lights), Nick Wauters (The 4400) e Jim Wong (The X-Files). Assista o trailer:



No início deste ano questionei o que estava acontecendo com Brothers & Sisters, pois o drama que geralmente se mostrou acima da média estava se esgotando. Infelizmente, ao final da 4ª temporada isso se confirmou. Mesmo contando com um elenco de primeira e personagens bem construídas, a história simplesmente começou a ficar mais e mais arrastada a cada episódio, a ponto de temas se tornarem recorrentes e repetidos, como foi o caso da barriga de aluguel de Kevin e Scotty e dos problemas na Ojai Foods. Aliás, o mistério sobre o tal Narrow Lake foi excessivamente postergado pelo roteiro até chegar num desfecho desinteressante e nada inventivo. A temporada passou e não tomou forma, pois a cada hora um pequeno caso tomava conta das atenções, mas tão rapidamente se apagava para dar lugar a outro. Exemplo disso foram os problemas com o visto de Luke, o draminha água-com-açúcar do casal Rebecca e Justin e a tal campanha de Kitty, que tenho certeza que não convenceu ou motivou ninguém. Até o ator Rob Lowe percebeu que Brothers & Sisters precisa urgentemente caminhar para um desfecho, pois simplesmente abandonou o barco para se dedicar a papeis menos densos (ele entrou para o elenco de Parks and Recreation e fará uma ponta em Californication). É certo que a morte de Robert e o acidente de carro renderão mais alguns dramas para a Família Walker, mas lembremos que a premissa da série já está pra lá de ultrapassada e a produção claramente segue em sobrevida.
Glee (1×21: Funk; 1×22: Journey): Glee iniciou sua 1ª temporada de forma até promissora, mas seu desempenho foi bastante prejudicado pelo excesso de divulgação, cultuação, dublagens e pela falta de uma estrutura narrativa coerente. O penúltimo episódio, Funk, foi um bom exemplo disso. O capítulo transcorreu limitando-se a repetir a expressão “funk” a cada diálogo, denotando a falta de um roteiro sólido sustendando-o. Afinal, no 45º minuto do 2º tempo a série resolveu abordar a competição entre os corais escolares, que há muito tempo estava de lado. Mesmo assim, não tivemos nenhuma preparação ou um arco narrativo decente para adentrarmos ao capítulo final com a disputa pelos Regionals. E mais uma vez Glee optou pela desconstrução de personagens na tentativa de fazer graça criando aqueles ilógicos momentos entre Will e Sue, enfraquecendo um dos poucos aspectos da série que funciona, que é a rivalidade entre os dois. Já Journey focou grande parte da atenção em Quinn e no nascimento de seu bebê, sendo que a própria série havia relegado a história da jovem mãe a segundo plano desde o retorno no mid season. Isso sem contar na situação de Rachel e sua mãe que, além de mal apresentada, sequer foi satisfatoriamente concluída. No final, a comédia musical resolveu apelar para a emoção barata para encerrar o ano escondendo suas diversas falhas. Cansei de ler comentários sobre como foi um final “tocante, emocionante” etc. – e pode até ter sido -, mas no geral esta foi uma temporada de estreia fraca, sustentada apenas pelo hype, ainda que seus defensores digam que é “pura diversão” ou que não é pra “ser levada à sério”. Glee agora não é mais novidade, por isso quero muito ver como farão para sobreviver mais duas temporadas inteiras subestimando a inteligência do público desta forma.
A Warner Channel preparou um interessante pacote de séries para o próximo mês de Julho no Brasil, a começar pela estreia das inéditas dos ex-protagonistas de Everybody Loves Raymond: a divertida The Middle, comédia sobre uma família suburbana estrelada por Patricia Heaton (14/07) e a bem recebida Men of Certain Age, dramédia com Ray Romano sobre homens de meia-idade (13/07). A emissora também definiu a data da aguardada 3ª temporada de Chuck (12/07) por aqui, que recentemente garantiu a renovação para mais um ano. No mesmo dia (12/07) retornam os inéditos de Californication, em seu 3º ano, e chegam também em Julho as últimas temporadas de The L Word e The New Adventures of Old Christine, sitcom com Julia Louis-Dreyfus que foi cancelada pela CBS no último upfront e que não será salva pelo canal ABC, conforme se cogitou. Confira os horários de exibição das atrações a partir de Julho no
FlashForward (1×19 – 1×22): Cancelada, FlashForward chega ao seu fim com um case perfeito de ingenuidade dos executivos de um grande canal de televisão. A série foi concebida, encomendada e vendida pela ABC americana para ser o novo LOST e, para tanto, eles seguiram à risca a cartilha que levou o drama dos sobreviventes do voo Oceanic 815 ao sucesso: criaram um roteiro complexo, introduziram muitos mistérios, planejaram o desenvolvimento da temporada através dos “pontos chave” (o que hoje é chamado no meio de “bíblia de produção”, que é uma espécie de manual para os roteiristas) e investiram milhões de dólares no episódio piloto e numa estrondosa campanha de divulgação. Contudo, em meio a toda esta agitação, eles esqueceram de acrescentar na fórmula o que é fundamental: competência. Assim, desde o seu capítulo inaugural, FlashForward foi sistematicamente perdendo espectadores em virtude da inépcia dos produtores, roteiristas e diretores em conduzirem a série com propriedade. E talvez tudo isso até teria funcionado se não fossem as expectativas jogadas lá em cima antes da estreia, pois da segunda metade da temporada o seu fim foi até possível perceber os avanços na trama e a resolução de alguns dos questionamentos principais, como a evidenciação do que causou o blecaute global e das interessantes teorias sobre linhas do tempo e visões. No fim das contas, o capítulo que narrou os acontecimentos no dia “D” trouxe até bons elementos, como a consecução dos flashforwards de formas inusitadas e um cliffhanger aceitável, mas que nunca será concluído. Contudo, a inexpressividade do protagonista Mark e de Olivia, a canastrice de Simon Campos e a irrelevância do físico Lloyd (fora as demais personagens secundárias) não farão a menor falta em nossa TV. Que tudo isso, pelo menos, tenha servido de lição sobre como não criar, produzir e vender uma série de televisão.

