Cabala econômica rege definição dos juros
Em suas famosas atas, o Banco Central e o Copom contam muitas histórias, mas não algumas das mais relevantes. Como os biquínis e as estatísticas, mostram tudo menos o essencial. Não há menção, naqueles textos lavrados em idioma torturado, ao “produto potencial” e, obviamente, muito menos como os doutos do BC chegaram a ele. Mas é o “produto potencial” que baliza a decisão sobre os juros básicos (em tempo, antes que alguém se agarre ao detalhe: o “produto potencial” aparece no trimestral e alentado “relatório de inflação”, mas não nas atas do Copom).
“Produto potencial” é uma das denominações pelas quais atende a taxa “natural” de utilização da capacidade de produção instalada que não provoca inflação. Trata-se de uma construção macroeconômica tão sujeita a contorções metodológicas que, no fundo, só pode ser aceita como crença na fé de que o comportamento econômico obedece a princípios naturais – e não aos incertos desígnios das ações humanas.
Não faz muito tempo, a mitologia econômica jurava que o “produto potencial” brasileiro era de 3,5%. Ou seja, crescimento da economia acima desse nível seria sinônimo de inflação. Com base nessa crença, a diretoria do Banco Central – e o Copom, seu braço na definição da taxa básica –, passou a subir os juros, para conter a economia, já partir de fins de 2004. No ano anterior, o PIB registrara evolução de 5,7%, muito acima do previsto e da “taxa natural”.
Com os juros escalando, em meados de 2005, um pico de 19,75% ao ano, o resultado foi um crescimento de apenas 2%, em 2005, e de 3,7%, A inflação, em 2006, de 3,14%, ficou abaixo do centro da meta, de 4,5%, e pareceu um exagero.
Houve, então, entre seus cultores, uma revisão generalizada do “produto potencial”. A partir de 2006, a taxa de crescimento que não provocaria inflação, de acordo com os cálculos (sabe-se lá quais) dos sábios, avançou para 4,5%.
Dava para imaginar que o “produto potencial” havia mudado de patamar com as explicações dos economistas neoliberais para o erro que cometeram na estimativa do crescimento da economia em 2007. Dos 3,5% previstos, a economia galgou 5,2% de crescimento. Uma falha grotesca de projeção.
Ao tentar justificar o erro, o economista Edmar Bacha, da PUC- RJ e do Banco Itaú, levantou a lebre. Segundo ele, houve uma subestimação do produto potencial. Samuel Pessôa, da FGV-RJ, foi na mesma onda. Até se defrontar com a combinação de crescimento econômico acima de 5% e inflação no centro da meta, que o produto potencial brasileira era de 3%. Depois, passou a achar que era de 4,5%. Uma mudança de 50%, assim, da noite para o dia.
Seja como for, esses 4,5% parecem ser, hoje, a taxa genérica vigente nas arcas neoliberal para o “produto potencial”, Crescer mais do que isso, reza o catecismo desse pensamento compartilhado pela direção do BC, só numa trajetória de descontrole da inflação. Tome, então, mais juros, para colocar a economia, “tempestivamente”, como gosta de registrar num idioma pseudo-culto o redator das atas do Copom, nos limites do “produto potencial”.
Não é por coincidência que, no boletim Focus, que divulga a mediana das projeções de uma centena de economias de bancos e consultorias, a estimativa de crescimento do PIB para 2008 ainda gira na casa de 4,8%, quando já é muito mais provável que fique acima de 5%.
A busca de taxas “naturais” na economia é um sonho antigo na história do pensamento econômico, que seduz um tipo de economista que prefere encarar a economia como uma construção de relações naturais, como a Física, e não um encadeamento de conceitos que dependem da História e do comportamento humano para se concretizarem.
O “produto potencial” não passa da última criação de uma moda neoliberal que tem início com a “Curva de Philips”, ainda nos anos 50 e passa, nos anos 80 e 90, pela “Nairu” (a taxa de desemprego que não provoca inflação, numa tradução livre da sigla em inglês para non-accelerating inflation rate of unemployment).
Da “Curva de Philips”, que relacionava, inversamente, desemprego e inflação, mas que, o tempo se encarregou de provar, só funcionava no curto prazo, chegou-se à Nairu, já nos anos 70. Esta, porém, foi fragorosamente levada ao museu das invenções econômicas ao longo do governo Clinton, quando o desemprego ficou abaixo de 4% sem produzir descontrole inflacionário, que a Nairu então estimava ser de, no máximo, 5%. Da Nairu, “evoluiu-se” para o “produto potencial”, que é a Nairu com a substituição do desemprego pelo nível de utilização da capacidade instalada que não acelera a inflação.
Há enormes controvérsias sobre a maneira de calcular e aplicar, quando se trata de encarar a dinâmica econômica, “taxas naturais” e “produtos potenciais”. Pelos resultados do momento, pode ser que o “produto potencial” brasileiro já tenha subido para 5%. Já há quem o estime nesse ponto, mas vai saber.
Apesar do pântano técnico em que são obrigados a se embrenhar os aventureiros que tentam calcular as “taxas naturais” da economia, eles insistem. Agarrados a uma cabala econômica, não estão nem aí para os fatos da vida real e, pior, para as dificuldades e os sofrimentos que ajudam a perpetuar.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: Banco Central, Copom, inflação, PIB, produito potencial
Foto: Edu Simões