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27/04/2009 - 15:30

Mercado Bipolar

Bastou uma tênue melhora das condições da economia brasileira para que os incontáveis arautos do apocalipse inflacionário voltassem a pedir cautela ao Banco Central na definição da taxa básica de juros. Bastou apontar uma ainda incerta recuperação no horizonte – melhor dizendo, bastou que, em alguns setores, o ritmo de queda aliviasse – para que o espectro da inflação acelerasse e, no mercado financeiro e entre os economistas-financistas, os batimentos do coração também acelerassem.

O efeito prático dessa verdadeira síndrome é ampliar o risco de uma redução da taxa de juros menor do que a recomendada. Primeiro, dificultando uma eventual recuperação mais abrangente da atividade econômica. E, depois, distorcendo o fluxo de capitais externos, pelo alargamento excessivo e desnecessário das margens de arbitragem de taxas.

O fato é que ficou para trás e entrou em fase de incerteza o que parecia definido não faz muito tempo. Quando o BC baixou a Selic em 1,5 ponto (para 11,25% ao ano), no dia 11 de março, o mercado em peso apostava em uma dose pelo menos do mesmo tamanho na reunião seguinte do Copom, prevista para amanhã e quarta-feira. Isso já era. E o primeiro sinal veio com um inversão na direção dos juros futuros.

Houve, nesses 40 dias, uma certa recuperação das bolsas de valores globais (com destaque para a brasileira), o governo anunciou mais medidas para estimular o consumo (como a redução do IPI na compra de eletrodomésticos) e alguns indicadores (como as vendas no varejo de março) passaram a mostrar que a atividade econômica tinha parado de piorar. Assim, a quase unanimidade que havia em torno de um novo corte da Selic de 1,5 ponto se transformou numa quase unanimidade de um corte nos juros básicos, na melhor das hipóteses, de 1 ponto percentual. Há até quem fale em 0,75 ponto.

É interessante notar que, nesse mesmo intervalo, as expectativas futuras de inflação (que o BC olha, pois a inflação corrente é resultado do passado) mantiveram-se comportadas. Os diversos índices de inflação usados para corrigir vários preços da economia brasileira – como o IGP-M, que corrige a maioria dos contratos de aluguel – estão cozinhando em fogo brando e, em alguns casos, em trajetória deflacionista. Ainda que os preços não permaneçam na tendência descendente acentuada dos períodos recentes, não é sensato esperar uma reviravolta nos índices de inflação.

Não é preciso escamotear um movimento de retomada com receio de colocar azeitona na empada dos viciados em juros básicos acima do peso. A economia pode ter começado a escalar de volta a montanha do crescimento, depois de uma queda rápida e profunda no precipício da recessão, sem que isso signifique um retorno da inflação. O próprio boletim Focus, síntese da opinião do mercado que influencia e é influenciada pelo Banco Central, mostrou nesta segunda-feira, depois de semanas de projeções em  baixa, uma melhora da expectativa para o crescimento do PIB em 2009: de -0,49% para -0,39%.

Essa pequena virada nas estimativas de mercado para o crescimento do PIB é quase uma senha para a mudança do próprio mercado em relação à política monetária. E, como a relação do mercado com o BC é o de cachorro que morde o próprio rabo, o risco maior do momento, na política monetária, não é o de produzir fricção de demanda, com conseqüências indesejáveis nos índices de preço. O risco maior é o de uma decisão muito conservadora do Copom atrasar um eventual movimento mais consistente de recuperação e, como tem sido a norma, no Brasil, exigir um esforço econômico além do necessário na hora da volta por cima.

Para essa turma, que ganha dinheiro mesmo com a economia em crise, o crescimento é uma maldição.

 

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: , , , , , ,
09/09/2008 - 16:07

A ortodoxia só vale ao sul da linha do Equador?

A ortodoxia liberal, obviamente constrangida, teima em não usar o termo correto – reestatização – para classificar o resgate de Fannie Mae e Freddie Mac. Começa lembrando o caráter paraestatal de ambas e segue alegando que a intervenção não significa estatização porque as ações das companhias não foram compradas ou nacionalizadas. Mas comprar ou estatizar o que já virou pó?
 
Nossos liberais ortodoxos não deviam se contorcer tanto. A operação, que poderá custar aos cofres públicos até US$ 200 bilhões, configurando o maior plano de salvação de empresas já levado a cabo pelo governo americano, era mesmo inevitável. Na realidade, o problema não é a intervenção, mas saber como ela vai funcionar, quem vai se dar bem ou não e, enfim, se vai funcionar.

Vamos falar claro: nada contra a intervenção do governo americano nas gigantes das hipotecas. Pode-se chorar a porta arrombada, pela ausência de controles e pela regulação frouxa, mas nem por isso é o caso de deixar uma enxurrada passar pela porta.

Vamos continuar falando claro: não ser contra a intervenção é admitir que o mercado falha. Foi o que ocorreu no maior, no mais aberto e se não no mais, num dos mais desregulados mercados do planeta. Aliás, não foi a primeira vez e, com toda a certeza, não será a última.

Não dá para louvar a infalibilidade do mercado, esfregar a acumulação de riquezas que beneficia uns tantos na cara dos outros, como prova da superioridade do sistema, e depois justificar a socialização dos prejuízos com o pragmático “era-preciso-evitar-o-risco-sistêmico”.

E não dá para impor a ortodoxia somente abaixo da linha do Equador.

Sim, é óbvio que se deve evitar riscos sistêmicos. Mas é muito melhor evitá-los, quando não for possível impedi-los, sem a hipocrisia do discurso ideológico das vantagens do laissez-faire. O discurso do laissez-faire, aliás, é o que torna impossível evitar a assunção de riscos sistêmicos.

A história, inclusive a recente, é pródiga em episódios de hipocrisia desse tipo. No domingo mesmo, o Estadão publicou artigo do editor da prestigiosa revista Foreign Policy. Moisés Naim, em que são listados alguns desses episódios.

Naim lembra, por exemplo, que, em 2001, quando o governo coreano socorreu a Hyundai, o Senado americano aprovou uma moção que exortava o governo Bush a assegurar que a “ajuda ilegal” seria suspensa. Lembra também que o governo americano pressiona países africanos devastados pela AIDS a não comprar medicamentos genéricos do Brasil ou da Índia, mas, também ameaçou comprar genéricos, para enfrentar os ataques terroristas com antraz, se a Bayer, detentora da patente, não reduzisse os preços. E nem estamos falando do caso do Long Term Capital Management (LTCM), fundo de hedge impedido de quebrar, em fins dos anos 90, por instituições privadas, mas num arranjo coordenado pelo Federal Reserve, de Nova York. Ou da ajuda à Chrysler, nos anos 70. Ou…a lista é longa.

Vamos também deixar de sofismar: aceitar intervenções no mercado financeiro, da mesma forma que defender ações afirmativas, como as de cotas, ou políticas setoriais, não é defender o “estado-babá”, nem a apropriação da coisa pública por “eleitos” privados. Esse é um golpe retórico manjado, que tenta inverter os termos do problema. O que se deve aceitar é que o mercado não se auto-regula – pelo menos nem sempre ou na dimensão necessária.  

Atualizado às 17h29

Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: , ,
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