Até quando comemoraremos o Dia da Mulher?
Comemora-se hoje, domingo, 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. Infelizmente. A verdadeira comemoração só deveria ocorrer no dia em que não fosse preciso destacar um dia especial para as mulheres.
Infelizmente, ainda é necessário comemorar – e muito – o Dia da Mulher. Em todo o planeta, apesar do rápido e relativamente bem sucedido, em termos históricos, avanço das mulheres no caminho da igualdade de oportunidades, elas ainda são amplamente discriminadas. Social e culturalmente discriminadas, são vítimas, junto com as crianças, da violência mais abjeta, aquela que se dá no seio da família.
O Brasil, um país em que as mulheres são maioria na população, não só a desigualdade entre homens e mulheres é gritante. A cultura da violência – física e moral – contra as mulheres é inaceitavelmente disseminada.
Já faz um tempo em que a escolaridade das mulheres supera a dos homens. Mas, mesmo aliada a uma redução da taxa de fecundidade, o que faria supor redução das limitações do gênero à participação no mercado de trabalho, a melhor qualificação feminina não tem resultado em acesso mais igualitário aos postos de trabalho e, menos ainda, a rendimentos compatíveis.
Nas mesmas funções, seja qual for o nível de qualificação exigida, a remuneração das mulheres é cerca de um terço menor. Levantamento da pesquisadora Ana Amélia Camarano, do Ipea, a partir de dados da PNAD 2007, citado na edição de hoje da “Folha de S. Paulo”, mostra que as mulheres formam metade do contingente de professores universitários, mais de 40% entre médicos e advogados e perto de 30% dos cargos executivos em empresas, mas sempre com remuneração inferior a dos homens. Mesmo nos serviços domésticos, em que as mulheres ocupam 95% do mercado, a renda dos empregados masculinos é 20% maior.
Na ocupação de posições de maior destaque no governo, onde, pelo menos em teoria, a discriminação deveria ser menor, a diferença de acesso entre homens e mulheres, relativamente à proporção de cada gênero na população é ainda maior. Isso vale tanto para o Executivo quanto para o Legislativo e o Judiciário.
São apenas duas, menos de 6% do total, as mulheres no vasto ministério do presidente Lula – e uma, justamente a que cuida das políticas para mulheres. Não passam muito de 10% do total as que exercem cargo eletivo em qualquer casa legislativa ou governam estados e municípios. Em todos os tribunais superiores, as mulheres somam somente 13% dos juízes.
Tem tomado corpo uma crescente consciência da necessidade da adoção de políticas afirmativas de inserção das mulheres – o que inclui um arcabouço institucional específico para atacar a violência contra elas. Políticas nesse sentido têm sido experimentadas, algumas com sucesso e outras nem tanto.
Prova disso é que, se há 25 anos, a participação da mulher na renda familiar não chegava a 25%, hoje passa de 40%. Em 30% das famílias brasileiras, mulheres respondem pela principal fonte de renda.
Sobra para as mulheres, mesmo assim, a sobrecarga das muitas jornadas de trabalho. Os dados mais recentes, da PNAD 2007, indicam que elas, ainda que contribuam cada vez mais para a renda familiar, continuam responsáveis absolutas pelos afazeres domésticos. Na pesquisa, o grupo de mulheres trabalhadoras que declararam cuidar da casa chegou a 90% das entrevistadas. Elas disseram gastar 22 horas semanais nessas tarefas (contra nem 10 horas semanais para os homens), o que permite concluir que a jornada da de trabalho da mulher ultrapassa em 50% o limite legal de 44 horas semanais
Mas tanto quanto no caso da redução da pobreza e da desigualdade de renda, a resistência da sociedade brasileira à inserção social de um modo geral faz com que os avanços sejam lentos. Ou, no mínimo, mais lentos do que o necessário e o desejável.
No fim das contas, a desigualdade de gênero e a violência contra mulheres são, com perdão da imagem, uma costela das muitas desigualdades que mancham a sociedade brasileira. Sua superação faz parte do projeto de cidadania plena da qual ainda estamos muito distantes e no qual os brasileiros – homens e mulheres – de bem deveriam estar engajados.
Só assim chegará o dia em que comemoraremos não ter de comemorar o Dia Internacional da Mulher.
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Não sei quantas mulheres acessam o blog, mas posso imaginar, pelos comentários, que também aqui ocorra uma desproporção de gênero. Às leitoras e às comentaristas, que se embrenham na selva do debate econômico, a homenagem do blog. É uma honra tê-las entre nós.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog Tags: Dia Internacional da Mulher, mulheres, políticas afirmativas de gênero, violência contra as mulheres
Foto: Edu Simões