15/10/2009 - 15:41
Aqui vai um resumo do “press release” divulgado nesta quarta-feira, 14 de outubro, pela FAO, anunciando a publicação da edição 2009 do relatório “A situação da insegurança alimentar”. Não há uma linha sobre o assunto nos principais jornais do País, nesta quinta-feira.
Segurança alimentar é um conceito que expressa a capacidade de uma sociedade prover, sem incertezas, comida de qualidade, na quantidade requerida para uma vida saudável e produtiva, todos os dias, para todos os seus integrantes.
O relatório mostra que, com todo o progresso e a prosperidade dos últimos anos, mesmo antes da crise global, aumentou a insegurança alimentar no mundo. Depois da crise, a situação piorou, como era de se esperar. Aqueles que vivem em insegurança alimentar cumprem o trágico destino de formar o exército das maiores vítimas das crises econômicas.
No meu modo de entender, qualquer progresso econômico, em ambiente de insegurança alimentar, mancha e desqualifica a civilização. Do ponto de vista econômico, é supérfluo e instável.
Segundo a FAO, a fome atingiu, em 2009, o maior número de pessoas desde 1970. Mesmo não configurando nada de novo, a fome no mundo é encarada com uma naturalidade inaceitável, que deveria envergonhar – ainda mais quando, em pleno século XXI, só faz aumentar. Ainda que conviver com a fome é a regra, o chocante é que problema não produza nenhum choque.
* * *
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (PAM) publicaram hoje um relatório sobre a fome no mundo.
São devastadores os efeitos da crise econômica sobre as populações carentes. Mais de 1 bilhão de pessoas passa fome no mundo, um aumento de 9% em relação ao ano passado, atingindo o nível mais elevado desde 1970.
Estes dados estão contidos no relatório da FAO e do PAM intitulado “A situação da insegurança alimentar”, edição de 2009, divulgado nesta quarta-feira, às vésperas do “Dia Mundial da Alimentação”, que se comemora amanhã, dia 16.
Segundo o relatório, a maioria das pessoas que passa fome se encontra nos países subdesenvolvidos. Na Ásia e no Pacífico são 642 milhões; na África subsaariana são 265 milhões; na América Latina e Caribe, 53 milhões; no Oriente Médio e na África do Norte, 42 milhões e nos países desenvolvidos, 15 milhões.
Na última década o número de pessoas subnutridas aumentou de maneira lenta, mas constante. Grandes passos foram dados contra a desnutrição nos anos 80 e nos anos 90, por causa dos investimentos na agricultura depois da crise mundial de alimento dos anos 70. Mas de 1995 a 1997 e de 2004 a 2006, com a queda da ajuda ao desenvolvimento da agricultura, o número de pessoas desnutridas aumentou em todas as partes do mundo.
“O número de pessoas que passam fome mostra a “extrema fraqueza dos governos em garantir a segurança alimentar de suas populações”, afirmou o diretor geral da FAO, o senegalês Jacques Diouf. Segundo a FAO, nos últimos anos, o número de famintos aumentou não só nos períodos de crises econômicos e preços em alta, mas também nos de prosperidade e queda nos preços.
“Os líderes mundiais reagiram com determinação contra a crise econômica e financeira e foram capazes de mobilizar bilhões de dólares num breve espaço de tempo”. Ressaltou Diouf, “a mesma determinação é necessária agora para combater a fome e a pobreza”.
Diouf concluiu ser necessário investir no setor agrícola dos países subdesenvolvidos, não somente para exterminar a fome e a pobreza, mas também para assegurar um generalizado crescimento econômico, a paz e a estabilidade no mundo.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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13/10/2009 - 20:11
Inebriados pela conquista de espaço nos fóruns globais de decisão, os países emergentes parecem não ter percebido, ainda, que estão tentando empurrar para eles uma parte da salgada conta da crise.
O melhor exemplo é a pressão para que a China valorize sua moeda e, com isso, reduzam seus superávits em conta corrente, competindo menos no mercado internacional e abrindo mais o mercado interno. É verdade que o assunto não veio à tona agora. O governo do ex-presidente George W. Bush criou até um esquema periódico de reuniões bilaterais cujo objetivo, no fundo, era convencer os chineses a mudar sua política cambial. Nas últimas semanas, porém, essa pressão se intensificou a ponto de se tornar um dos temas principais da recente reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Istambul, na Turquia.
Mas não é só a China que anda sendo assediada pelo canto da sereia dos países ricos. Superavitários em seus balanços de pagamentos, os emergentes empilharam nos últimos anos trilhões de dólares em reservas internacionais. A China, primeira colocada desse ranking, já tem mais de US$ 2 trilhões. O Brasil também já acumulou mais de US$ 230 bilhões e ninguém sabe onde isso vai parar. Considerando os principais países desse grupo (África do Sul, Rússia, Índia e México, além de Brasil e China), são mais de US$ 5 trilhões. Esse dinheiro é fruto, principalmente, de superávits comerciais polpudos que os emergentes obtiveram com os países desenvolvidos, notadamente os Estados Unidos.
Para sair da crise, os americanos dizem que não podem mais exercer o papel de aspirador global. Precisam, assim como as economias européias ricas, estimular mais do que nunca suas exportações e com esse caminho óbvio, revigorar a economia. O problema é que, para a estratégia dar certo, é indispensável combinar com o outro lado. Por isso, pressionam a China, que, com seu regime de câmbio fixo, mantém o yuan propositalmente desvalorizado.
No Brasil, onde o câmbio é flutuante, o real vem se fortalecendo, o que se encaixa perfeitamente no objetivo dos americanos. Aqui, enfrentamos a pressão acumulando reservas. É tal a liquidez despejada na salvação dos dedos no capitalismo mais evoluído, que até em credor líquido internacional, inclusive do FMI, o Brasil se tornou. Claro que isso é uma anomalia. Assim, enquanto o presidente Lula usa o fato como peça publicitária, o país vai gastando recursos fiscais escassos para “ajudar” os ricos a sair do buraco.
Em Istambul, os países desenvolvidos apresentaram uma proposta segundo a qual os emergentes não precisariam mais acumular tantas reservas. Claro, acumular reservas significa resistir a uma valorização da moeda local frente o dólar. Mas o que oferecem em troca é uma duvidosa ajuda do FMI, em caso de problemas no balanço de pagamentos.
O Fundo, segundo a proposta, funcionaria como um banco central global, na função de emprestador de última instância. Não ficou claro como esse mecanismo funcionaria na prática. Se depender da história pregressa (que o Brasil conhece muito bem), não é algo para levar a sério.
Não dá para negar que o yuan desvalorizado distorce o comércio global. Também não dá para negar que o arranjo sobre o qual a economia mundial estava alicerçada precisa de mudanças. Mas isso não significa que os emergentes tenham de pagar o pato de uma crise que não provocaram, tendo de arcar com um pedaço grande do ajuste. Propostas como a que transforma o FMI em um BC global embutem um recado dos desenvolvidos que diz mais ou menos o seguinte: “Enquanto aquele jogo nos beneficiou, estávamos felizes. Agora nos machucamos e não queremos mais.”
Claro que, para evitar crises como esta, é necessário muito mais do que valorizar ou desvalorizar moedas. Aumentar a fiscalização e a regulamentação do sistema financeiro (que, afinal, recicla a dinheirama das reservas) talvez seja o passo número um. Há vários outros.
Um dos mais importantes e eficazes desses passos, no entender de mais e mais economistas, seria incorporar o acompanhamento da formação das bolhas financeiras – como se acompanha a trajetória dos preços dos ativos físicos – como premissa para a definição das políticas monetárias (e da fixação das taxas de juros). Sem isso, qualquer avanço se mostrará frágil e previsões como a do sempre pessimista Nouriel Roubini (para quem a próxima crise pode já estar sendo gestada) não demorarão a se confirmar.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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12/10/2009 - 15:31
O Prêmio Nobel de Economia, que havia dado uma no cravo na edição de 2008, com a premiação de Paul Krugman, deu outra na ferradura, em 2009, conferindo a láurea (e os US$ 1,2 milhão em dinheiro) aos americanos Oliver E. Williamson e Elinor Ostrom – esta a primeira mulher a ganhar o prêmio da área, instituído em 1968.
É típico do “Nobel” de Economia – que, na verdade, não é um Nobel como os outros, já que o prêmio é concedido pelo banco central sueco e não pela Real Academia de Ciências da Suécia e a Fundação Alfred Nobel – alternar premiados “conservadores”, de linha, digamos “mercadista”, e “progressistas”, de linha “intervencionista” (caso de Krugman e Joseph Stiglitz, entre os mais recentes). Na verdade, desta vez, o cravo e a ferradura vieram no mesmo pacote.
O comunicado oficial com a justificativa do prêmio informa que os dois professores americanos foram escolhidos por seus trabalhos sobre “governança econômica”. Quando se vasculha a internet, percebe-se que, de fato, eles estudaram, cada um de seu lado, como pessoas e instituições interagem nas sociedades. Mas, enquanto o economista Williamson, aluno direto de Ronald Coase e discípulo das idéias de Douglass North, outros dois laureados com o Nobel, desenvolveu pesquisas no campo da Economia Institucional e dos “custos de transação”, Ostrom, uma cientista política, buscou compreender, principalmente, o impacto das organizações no meio ambiente. Característica comum entre os dois laureados deste ano é o fato de que ambos trabalham em campos de pesquisa atuais em Economia, são reconhecidos no meio acadêmico, mas não figuram nas listas das celebridades da profissão.
O prêmio, no caso de Elinor Ostrom, acompanha a onda global de preocupações com um planeta sustentável. Suas pesquisas, relatadas em livro traduzido no Brasil este ano, do qual ela é uma das organizadoras (“Ecossistemas florestais”, 544 páginas, editora Senac São Paulo), concluem não haver regime de posse – privado, comum ou governamental – superior a outro quando se trata do bem-estar das florestas. A evidência é que as regras de uso, associadas ao manejo dos recursos, independentemente do regime de propriedade, determinam as condições das florestas.
No caso de Williamson, o júri do Nobel de Economia reafirma uma preferência por pesquisas sobre o funcionamento dos mercados, a partir de visões neoclássicas e/ou comportamentais. Ainda sem obras traduzidas em português (não encontrei nada na pesquisa que fiz), o premiado de 2009 é pelo menos o terceiro, em cerca de década e meia, a dedicar-se, principalmente, a estudos no campo da chamada Economia Institucional. As ações das pessoas, enquanto agentes econômicos, limitadas pelo conjunto de regras e normas que definem a vida em sociedade são o foco das pesquisas de Williamson.
Integrado à linha de pensamento econômico mais conservador, o novo Nobel de Economia alinha-se entre os que, descartando o papel da História na economia, centram esforços no estudo do desenvolvimento de normas e regras sociais – ou seja, das instituições – como chave para compreender as consequências dos comportamentos econômicos. O resumo do raciocínio, em largas pinceladas, é o seguinte: são as instituições que restringem o oportunismo (no mau sentido) inerente ao homem e, portanto, o desenvolvimento social depende de como as sociedades as moldam e fazem operar
* * *
Um resumo interessante da evolução do pensamento de Oliver Williamson pode ser obtido nesta resenha de seu livro “Human Actions and Economic Organizations”, de 1998, de autoria do economista Carlos de Brito Pereira, escrita em inícios dos anos 2000, quando o autor era doutorando no Departamento de Administração da Faculdade de Economia da USP.
Aqui, o link para o texto:
http://www.ead.fea.usp.br/WPapers/2001/01-013.pdf
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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09/10/2009 - 17:04
Entre o branco e o preto, no espectro das cores, há uma infinidade de tons de cinza. Mas, para ter uma idéia básica do campo político em que se situam os que pensam a economia brasileira, neste momento, basta identificar o vilão que cada lado escolhe para combater: a trajetória das contas públicas ou a trajetória da taxa de câmbio. Os que antigamente eram chamados de “monetaristas” costumam discordar da política fiscal. Os antes classificados como “desenvolvimentistas” acusam a política monetária e cambial.
Esse não é um debate novo, muito pelo contrário. A primeira das “leis do Kafka” – a “lei do comportamento discrepante” –, por exemplo, que já sumarizava o debate, é dos anos 50. Ela diz o seguinte: “Independentemente dos homens e de suas intenções, sempre que o ministro da Fazenda se entrega à austeridade financeira, o Banco do Brasil escancara os cofres – e vice-versa”.
As dez “leis do Kafka” foram estabelecidas pelo polêmico, mas sempre brilhante, Roberto Campos. Receberam o nome de “leis do Kafka” em homenagem, como explica o autor, em magnífico texto na revista “Senhor”, de março de 1961, “não ao Franz, mas a um primo remoto”, o economista Alexandre Kafka, durante décadas o representante do Brasil no FMI. São de um tempo em que o Banco do Brasil fazia o papel de Banco Central. Mas nem por isso, muitas delas, inclusive a “lei do comportamento discrepante” perderam a atualidade.
Agora, porém, apareceu uma novidade para embaralhar a velha história. O fato de o País ocupar, hoje, uma posição credora em dólares – e não devedora, como nos acostumamos ao longo de uma longa história econômica – também inverteu os termos da relação da política cambial (que é parte da política monetária) com a política fiscal. Enquanto o pensamento ortodoxo, para justificar o câmbio valorizado e relaxar ante as perspectivas de uma ultra-valorização cambial, continua a atacar os gastos públicos correntes, a política cambial vai corroendo a relação dívida pública/PIB em dose e velocidade preocupantes.
Não que os gastos correntes não tenham aumentado, inclusive em itens de desembolsos permanentes, como a folha de salários do funcionalismo. Mas, ao olhar apenas para o fluxo entre receitas e despesas, os que repetem a ladainha da necessidade de manter alto o superávit primário, não dão bola para o estoque da dívida pública que vai se acumulando. Pode ser simples incompetência ou esperteza política, mas qualquer que seja a razão, não faz o menor sentido.
A relação dívida/PIB não está se deteriorando rapidamente apenas em razão da redução do resultado fiscal nominal. Na verdade, este ainda é, no momento, elemento coadjuvante do movimento em curso. O que está lançando a dívida pública para o espaço é o impacto do câmbio sobre as contas fiscais.
“Quando mais o dólar derrete, mais o governo perde (pela conversão em reais das reservas mantidas aplicadas no exterior), e mais aumenta a dívida pública do País”, escreve, em nota técnica recente, o economista José Roberto Afonso, respeitado especialista em contas públicas. “Até há pouco tempo, o governo (devedor) perdia quando o real se desvalorizava muito; mas, no presente, o governo (credor) perde quando o real se valoriza muito – como vem ocorrendo neste ano”, continua. “E do mesmo jeito que este ano a dinâmica da taxa de câmbio tem prejudicado a posição da dívida brasileira, no ano passado, logo após a intensificação da crise, a desvalorização do Real ajudou na redução da dívida pública.”
Amir Khair, outro respeitado especialista em contas públicas, também em nota recente, bateu na mesma tecla. Ele calculou que quase metade do aumento da dívida líquida do setor público, em relação ao PIB, do final de 2008 a agosto deste ano, se deveu ao custo de acumular reservas internacionais e à valorização do real. Outros 40% se devem, nas contas de Khair, ao déficit fiscal nominal, causado pelas despesas com juros, que acumularam no período um montante equivalente a 3,9% do PIB. A recessão na economia, com a consequente redução de receitas, contribuiu com menos de 10% para a elevação da dívida líquida do setor público.
São muitas as implicações da nova situação. Mas duas delas se destacam. A primeira é que, diante dos crescentes fluxos de recursos externos para o Brasil, a atual política cambial não se sustenta. Será preciso, mais cedo ou mais tarde, sair da ortodoxia e encontrar caminhos alternativos mais eficazes.
A outra é que a discussão das contas públicas entre nós é intelectualmente muito pobre e ideológica. Nas palavras de Khair, com as quais Afonso concorda, é fundamental ampliar o debate sobre a questão fiscal, incorporando TODOS os fatores que a influenciam.
* * *
Nestes links, as notas de José Roberto Afonso e Amir Khair
http://docs.google.com/fileview?id=0B45uonV50BaeOWJhMDY0YzktZmM2Yy00NDdjLTk1OTItMDJmZDk5OGM5Zjgx&hl=en
http://docs.google.com/Doc?docid=0AY5uonV50BaeZGdyMmhidzhfMzlkNGJyejhmZg&hl=en
Atualizado às 17h21
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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08/10/2009 - 16:10
A crise da qual o mundo parece estar emergindo é mais um exemplo, entre tantos outros ao longo da história, do estrago que o comportamento irracional de investidores pode fazer. É um tipo de dano que o Brasil ainda não sentiu. Em geral, as crises, por aqui, foram detonadas por movimentos na direção contrária: fuga de dinheiro do País.
Agora, porém, tudo indica que o risco é outro, como alertou na manhã desta quinta-feira o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega – uma pessoa que, em condições normais, deveria estar soltando rojões. “É tão alto o nosso conceito que preocupa. O povo está louco para vir para cá fazer investimentos”, disse o ministro.
Uma das primeiras áreas em que esse risco pode se materializar é o mercado acionário. Depois de Visanet e Santander, analistas estão prevendo uma chuva de aberturas de capital (os famosos IPOs, da sigla em inglês) nos próximos meses. Não custa dar uma olhada no que ocorreu nesse segmento há não muito tempo.
Em 2007, uma onda de IPOs varreu o País. Foram 64 operações do tipo, um recorde. Hoje é consenso entre analistas que várias das companhias que foram ao mercado naquela época não tinham condições de fazê-lo. Puxada pelos estrangeiros, a demanda pelos papéis foi altíssima e, evidentemente, jogou os preços lá em cima. Obviamente, quem ficou com o mico na mão foi aquele que normalmente paga o pato – o investidor comum.
Ainda está fresco o exemplo da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F, que abriu o capital em novembro de 2007). A procura pelos papéis da bolsa, que então não havia se fundido à Bovespa, foi mais de dez vezes maior do que a oferta. No IPO, a ação saiu a R$ 20. No pior da crise, chegou a ser cotada a menos de R$ 5. Hoje, está em R$ 13. Ou seja, mesmo com a forte recuperação dos meses mais recentes, ainda registra uma queda 35%.
O próprio comportamento da ação do Santander no pregão de estreia serve de alerta para o investidor comum: o papel caiu quase 4%, em um indício de que muitos investidores profissionais estavam com o dedo no gatilho para tentar obter rápido um naco de lucro na operação. Foram tantos que o papel acabou deslizando e a estratégia naufragou.
Pelo andar da carruagem – e da liquidez internacional – muitos outros lances desse tipo devem acontecer em futuro próximo. Mais do que nunca, a euforia embute crescentes riscos.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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07/10/2009 - 12:14
As alterações positivas nos estratos sociais, no Brasil, depois de uma década e meia de maior estabilidade monetária e de aplicação mais intensiva de políticas de inclusão e transferência de renda, são um fato incontestável. Não há como negar, no agregado, a redução da pobreza e o crescimento do conjunto da população de renda dita média.
No detalhe, porém, o retrato ainda está longe do ideal. A ascensão de grupos da base da pirâmide revela uma trajetória de fôlego curto. Crescer mesmo só o segmento inferior da população que superou a linha da pobreza. Essa é a conclusão de um estudo do economista Waldir José de Quadros, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), da Unicamp, agora divulgado.
Ao analisar dados da PNAD 2008, Quadros constatou que o avanço dos diversos sub-segmentos da camada média, generalizado desde 2005, sofreu um freio no ano passado. Só o estrato inferior do grupo continuou crescendo.
O economista atribui o achado ao baixo conteúdo tecnológico da economia brasileira, que se concentra na oferta de produtos e serviços de menor valor agregado. Esses produtos e serviços, por definição, exigem mão-de-obra de qualificação limitada e propensa a aceitar menor remuneração.
Para Quadros, a concentração da remuneração nas faixas mais baixas é um ponto no círculo vicioso de uma política econômica que leva à valorização excessiva do real. É preciso dar algumas voltas no parafuso do processo econômico para entender o argumento. Mas ele faz sentido.
Uma moeda local muito valorizada inibe exportações de manufaturas de maior densidade tecnológica e, ao mesmo tempo, estimula a importação desses produtos. Sobra, no fim dessa linha, uma especialização na produção de baixa densidade tecnológica. No mundo desse tipo de produção, a remuneração dos trabalhadores também tende a ser mais baixa.
Quadros ressalta que essa situação também inibe os investimentos em formação de mão-de-obra e, no fim das contas, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de produtos e processos. O baixo dinamismo das camadas mais bem situadas na escala social, diz o economista, limita a mobilidade social.
A moral dessa história é fácil de tirar. Estabilidade monetária, transferências de renda e mesmo crescimento econômico são condições necessárias para impulsionar a mobilidade social. Mas são insuficientes se o objetivo é não apenas retirar pessoas da linha da pobreza, mas encetar um processo de melhoria generalizada de bem-estar social, inclusive com redução das desigualdades.
Sem políticas educacionais persistentes e eficazes, que dêem suporte a políticas de incentivo à inovação produtiva e ao aumento de densidade tecnológica na economia, o progresso social terá fôlego curto e alcance limitado.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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05/10/2009 - 11:45
O debate sobre o que levou os economistas a errarem como erraram, no episódio da atual crise da economia global, diferentemente daqui, continua forte nos Estados Unidos. Aqui vale a mão do gato. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém tem nada com isso. Aqui opera o “Paradoxo da rua suja” – ninguém joga papel nas ruas, mas elas vivem imundas.
O pior da história é que os que louvaram e suportaram, com ”teorias” e “ciências”, o processo tumoral que levou ao crash de 2008 continuam a dar as cartas no debate econômico aqui no Brasil. Por conta de uma visão ideológica e sectária, erraram na avaliação da evolução da economia global, erraram nas consequências e na profundidade da crise no Brasil, mas continuam dominando a agenda local do debate econômico. Nela, o terrorismo fiscal – expressão de um modo anti-povo de ver as políticas econômicas -, bem denunciado pelo secretário de Política Econômica do ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, é o tema recorrente.
Para esquentar o início da semana, segue um artigo do jornalista Harold Meyerson, colunista do The Washington Post, traduzido no domingo pelo Estadão. Meyerson faz uma analogia entre a “ciência econômica” dos sábios do mercado e a “ciência astronômica” pré Copérnico e Galileu. No mínimo, instigante.
Um trecho do artigo:
Existe um grupo de profissionais que tenha errado de maneira tão espetacular? Creio que só os astrônomos e cosmólogos antes de Copérnico. E pela mesma razão: eles tinham um sistema perfeito, consistente, teoricamente rico que descrevia o universo. Erraram: o Sol e outros corpos celestes, salvo a Lua, não giram em torno da Terra, como insistiam. Mas, não importa. A sua ordem cósmica era bela. E sua crença era corroborada em parte pela pseudociência – crença da qual livres pensadores como Galileu se desviaram por sua conta e risco.
E o link para a íntegra da tradução:
http://docs.google.com/Doc?docid=0AY5uonV50BaeZGdyMmhidzhfMzdkZDNoNXQ2OA&hl=en
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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04/10/2009 - 12:20
Todos que frequentam este blog sabem que aqui o assunto é economia e suas dimensões – inclusive políticas. Embora eu, obviamente, tenha opinião sobre quase tudo (em certos casos, até mais de uma…), considero que essas manifestações devem ficar no âmbito privado. Por isso, neste espaço, que é público, são raros os post que escapam ao seu declarado tema.
Dito isto, gostaria de compartilhar com o leitores a emoção da perda da cantora e compositora argentina Mercedes Sosa (1935-2009). Quando soube há alguns dias, que a grande artista, de 74 anos, estava internada em estado grave, voltei a ouvi-la, nos clássicos da canção latino-americana que ela eternizou.
Ouvindo-a cantar é natural compreender a razão do impacto transformador de sua arte: Mercedes Sosa é a voz da dignidade latino-americana.
Aqui, numa versão de “Gracias a la vida”, inspiradíssima canção de amor da chilena Violeta Parra, que, na voz poderosa de Mercedes, entrou para a trilha sonora dos tempos de rebeldia dos anos 68, uma entre as muitas provas disso.
http://www.youtube.com/watch?v=WyOJ-A5iv5I
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Além das contas, Blog
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02/10/2009 - 18:28
Na emoção e no entusiasmo da vitória brasileira com as Olimpíadas de 2016, no Rio, resumi em uma frase curta o que, na minha opinião, significa o fato: o risco é enorme, mas as chances são muito maiores.
É isso. Podemos fazer como Barcelona, que sediou os Jogos em 1992, ou como Atenas, em 2004. Em Atenas, houve desvio de dinheiro e, depois do evento, poucos benefícios permaneceram. Já no caso de em Barcelona, a realização da Olimpíada tirou a cidade do limbo e lançou-a na primeira linha dos destinos turísticos mundiais e resultou em melhorias notáveis na qualidade de vida urbana.
Leio que temos uma tradição de desperdiçar oportunidades. É verdade. Mas quantas tradições já fomos deixando pelo meio do caminho? Basta olhar para trás para confirmar que, aos trancos e barrancos, às vezes em velocidade mais baixa do que a desejável ou com recuos desanimadores, vivemos uma constante evolução. O fato é que, se tirarmos o paletó das preferências políticas e ideológicas, vamos conseguir perceber que, a cada geração, as oportunidades de melhorar de vida aumentam em nosso País.
Temos, agora, uma oportunidade realmente excepcional. A sinergia entre os esforços para a realização da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 é óbvia e muito importante. E, tanto para uma quanto para outra, dispomos, se quisermos, dos ensinamentos do Pan de 2007, com seus muitos erros – e perda de oportunidades.
Os descrentes e os mais pessimistas deveriam considerar o fato quando, com o olho no retrovisor, duvidarem da capacidade brasileira para realizar os Jogos e preservar os benefícios dos altíssimos investimentos requeridos. Afinal, o carro da economia vai andar com mais combustível.
Os cálculos do comitê organizador da candidatura brasileira, obviamente otimistas, preveem investimentos de até R$ 29 bilhões, dos quais três quartos oriundos de recursos públicos, e a geração de 100 mil empregos diretos – não apenas no Rio, uma vez que os fornecedores a serem contratados também estão espalhados por outros estados e, no fim das contas, pelo mundo, já que empresas internacionais deverão participar das licitações. Um estudo elaborado pela Fundação Instituto de Administração (FIA), da USP, sob encomenda da candidatura brasileira, estima que mais da metade da massa salarial e dos empregos serão aplicados fora do Rio. O estudo também projeta um impacto econômico dos investimentos nos Jogos acima de R$ 100 bilhões, com repercussões ate 2027,
Na planilha oficial, o ressarcimento dos investimentos está previsto para 10 anos. Seriam cobertos, basicamente pelo aumento da atividade econômica antes, durante e, principalmente, depois dos Jogos, com o consequente aumento no volume de impostos arrecadados.
Além dos eventuais benefícios palpáveis, não se deveria desconsiderar os ganhos intangíveis que a escolha do Rio para sede dos Jogos de 2016 e a realização deles podem trazer. Não é qualquer país que pode se apresentar para sediar um evento planetário desse porte. E o Brasil agora entra para o seleto grupo deles. Temos aí, também, a chance de chutar para escanteio nosso velho complexo de vira-latas.
Há quem pergunte por que os investimentos em infra-estrutura urbana e preservação (ou recuperação) ambiental precisaram da gorda e cara cenoura de uma Olimpíada para ganhar corpo. A indagação até faz sentido, mas, agora, não cabe perder tempo buscando respostas. Esses investimentos são necessários e o desafio é o de fazê-los, com o mínimo de desperdício e o máximo de benefícios permanentes.
Sediar os Jogos Olímpicos não é mais um sonho impossível. Será que o sonho impossível agora é o de superar o desafio de realizá-los com êxito? Quantos sonhos impossíveis teremos de vencer para confiar em nós como um país de que podemos nos orgulhar?
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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02/10/2009 - 13:56
Os riscos são enormes, mas as chances muito maiores.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Blog
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