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20/08/2008 - 07:30
Queridos amigos do Rotary:
Como todos vocês fazem parte de minha história, gostaria muito de compartilhar as experiências que tenho vivenciado aqui no sul da Etiópia, pra onde parti em missão durante dois meses em uma emergência nutricional.
Sempre serei imensamente grato pela generosidade de ter sido o primeiro brasileiro a receber uma Bolsa Rotary para a Paz e Resolução de Conflitos. A formação em Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos de Paris me preparou, de forma muito sólida, para entender melhor as dinâmicas da populações em sofrimento, como em guerras e crises alimentares. Hoje sou coordenador médico, no Brasil, da maior organização de saúde não governamental do mundo, e devo parte dessa conquista à formação que vocês me proporcionaram.
Os dias aqui são muito intensos e uma semana parece um mês. Faz apenas duas semanas que estou na missão, mas a sensação é de que já ficou longe, muito longe o desembarque no Aeroporto de Adis Abeba.
A missão de emergência nutricional de MSF está dividida em algumas áreas do país, basicamente aquelas onde a situação é mais preocupante. Estou na região de Kambata, onde iniciamos o atendimento às pessoas severamente desnutridas. Sabemos que alguém está severamente desnutrido quando, ao medir a circunferência do braço, a quantidade de músculo é tão pequena que na fita, chamada MUAC, a coloração fica vermelha, indicando a necessidade de ajuda urgente e risco de morte. Algumas crianças têm tanta carência de proteína que ficam edemaciadas, um outro sinal da severidade da desnutrição.
Normalmente acordo por volta das seis e meia. Tomo uma xícara do bom café etíope, como um pedaço de pão, preparo um sanduiche de ovo para o almoço e uma garrafa de água. É isso que vai me sustentar durante o dia, pois a região em que atendemos é bastante rural e isolada e não temos onde fazer refeições. Além disso, devo confessar que o apetite acaba diminuindo quando testemunhamos tanta gente se desesperando por falta de alimento. Antes de sair, passo no Centro de Estabilização, ao lado de nossa casa.
Nesse local ficam os pacientes mais graves, muitos dos quais estão tão fraquinhos que mal conseguem se alimentar. Dar alimentos normais para eles seria um risco. Na desnutrição grave, o corpo perde a capacidade de absorver e metabolizar nutrientes e fica muito mais suscetível às infecções. No Centro de Estabilização, examino os pacientes que encaminhei das clínicas onde tenho atendido. Essas clínicas são chamadas de OTPs (out reached patient) e nelas são acompanhados os pacientes severamente desnutridos, mas que conseguem se alimentar. Caso eles apresentem complicações médicas ou piorem suas condições de saúde, passam a ficar internados nos Centros de Estabilização, 24 horas em observação, por uma equipe de médicos e enfermeiros.
Os pacientes internados nos Centros de Estabilização passam por três fases até serem novamente encaminhados de volta para as OTPs. Na fase I, alimentam-se exclusivamente do leite chamado F75, que contém nutrientes na medida certa pra que eles possam, pouco a pouco, recuperar sua condição física. Na fase de transição passam a receber um leite um pouco mais enriquecido, chamado de F100. Na fase dois já alternam o leite com um preparado muito rico, chamado plumpynut, que continuarão usando mesmo depois de ir pra casa, até chegarem a um peso que consideramos seguro.
Cada vez que esse estágio é atingido e um paciente é liberado do nosso programa, dá aquela alegria difícil de explicar. No caso das crianças, o rostinho muda tanto que parece que a mãe entrou com um filho e saiu com outro. A criança desnutrida tem uma cara de velhinho, não sorri, é triste. Algumas têm a carinha inchada e até deformada pelo edema e, cada vez que isso regride, o ar entra mais fácil nos nossos pulmões. No entanto, nem sempre conseguimos ter sucesso. Algumas vezes o corpo fraquinho e suscetível a infecções perde a batalha da luta pela vida, e, mesmo com os cuidados oferecidos, perderemos algumas crianças e adultos para a fome.
Bem, mas como dizia, após o café passo no Centro de Estabilização. De lá saem todos os veículos 4X4 de MSF para as diversas áreas onde estão as OTPs. Minha função é atender aos pacientes nas OTPs e treinar as equipes de enfermeiros para que aprendam a avaliar corretamente um paciente com desnutrição. O acesso a esses locais não é fácil. Seria impossível chegar a muitos deles sem a ajuda dos nossos veículos de tração.
Uma outra questão importante é que aqui é uma região fria e montanhosa e tem chovido muito. O frio não é uma boa combinação com desnutrição, pois produz hipotermia, reduzindo excessivamente a temperatura do corpo e aumentando a gravidade da situação. Embora eu tenha circulado em diversas equipes, normalmente passo as manhãs na aldeia chamada Tunto. Nesse local trabalho com uma enfermeira irlandesa, Lilly, e uma equipe de enfermeiros etíopes.
Temos sempre conosco também uma equipe de logísticos, que é essencial. Em Tunto, especificamente, a situação é difícil. É que nessa semana abrimos ao lado da OTP nosso primeiro SFC. O SFC é o Suplementary Feeding Center. Aí acolhemos os pacientes moderadamente desnutridos, avaliados também pela circunferência do braço, peso e altura. Tanto nos OTPs quanto nos SFCs, as famílias dos pacientes com desnutrição recebem uma cota de alimentos. Isso é feito não só para prevenir que outras pessoas da família evoluam para a desnutrição, mas também para evitar que a terapia nutricional, que é dada para a criança, seja compartilhada com outras pessoas, uma vez que o paciente precisa dela toda.
Chegando à OTP, inicialmente caminho no meio das pessoas, tentando identificar algum paciente que precise de cuidados imediatos e atendimento prioritário. Uma vez identificado, este paciente será imediatamente enviado para o Centro de Estabilização em nosso veículo. Lá os esperam Assad, médico iraquiano, ou Kariana, médica sueca, e uma equipe de enfermeiros etíopes para fornecer os primeiros cuidados e interná-los. Feita essa primeira triagem, eu e Lilly, munidos da fitinha do MUAC e de um bastão para verificar a altura, iniciamos a triagem para ver os pacientes que serão ou não recebidos em nosso programa. Aqui, o duro é dizer para uma mãe, ou mesmo para uma criança, que ela não entrou no critério. É que, embora nem todos estejam desnutridos, a imensa maioria é muito pobre e precisa de comida. Dá pra sentir a ansiedade no rosto das mães enquanto verificamos o MUAC, peso e altura. Algumas choram muito. O que mais cansa num dia aqui não é o trabalho, em si, mas a potência das imagens e dos sons, que continuam reverberando, mesmo depois que a cabeça já está no travesseiro.
Passada a fase de seleção na OTP, me desloco para a sala de consulta. Toda criança admitida no programa fará exame de malária, que é endêmica na região, e receberá um bracelete que a identifica como membro do programa. Também é fornecida a vacina contra sarampo e uma dose de vitamina A para aquelas que não receberam recentemente. Se o paciente for moderado e estiver no SFC, recebe o RUTF, um alimento reforçado, e se for avaliado como severo, irá para a OTP, recebendo o Plumpynut, o alimento específico para os severamente desnutridos. Na sala de consulta é hora de examinar com cuidado cada paciente, ver se tem suspeita de outras doenças: HIV, tuberculose, febre tifóide, infecções de olhos, ouvidos ou pele, pneumonias etc. Ao diagnosticarmos alguma dessas condições, tratamos. No caso da TB ou do HIV, encaminhamos para tratamento pelo Ministério da Saúde, que tem um programa que funciona direitinho.
Os atendimentos terminam lá pelas cinco, quando, reunidos com a equipe, discutimos um pouco o que vimos durante o dia e tiro algumas dúvidas das equipes de enfermagem.
É hora de entrar na caminhonete e voltar para casa. Muitas vezes à noite ainda tem trabalho, pois é a hora em que as diversas equipes se encontram para compartilhar os problemas e desafios que aconteceram durante o dia. Desse momento surgem idéias importantes, como, por exemplo, a que surgiu após uma convulsão de um paciente na OTP; de cada médico ter uma farmácia portátil; ou de como organizar melhor as imensas filas que se têm formado pelas pessoas em busca de ajuda.
Nesta semana, em Tunto havia cerca de mil pessoas. Precisamos interromper o atendimento por medo de que se perdesse o controle e de que alguma criança pudesse ser pisoteada. Essa é uma parte bem triste: ver tantas pessoas, cujo direito à vida é igual ao de qualquer outra, mas que precisam andar por horas na chuva e se expor a tantos riscos para conseguir acesso a cuidados e comida. Fico feliz que estejamos aqui, por sermos uma mão, por mostrarmos um pouco do que está acontecendo com o povo daqui. Ao final de cada dia, a tristeza e a alegria de algumas cenas se misturam, mas há também o orgulho de trabalhar com uma organização tão comprometida.
A vida na casa é despojada. Quartos simples, sem banheiro. Banho de caneca e, no lugar do vaso sanitário, as latrinas. A falta de conforto é compensada pela boa sensação de causar impacto direto na vida das pessoas e pela alegria e união de uma ótima equipe, que, sempre que falta luz, rapidinho monta uma fogueira. Não vou saber o nome de todos, mas temos aqui quatro médicos (Eu, Claudia, Kariana e Assad), enfermeiros, logísticos, administradores, motoristas. Hoje de manhã, tentando ajudar um logístico argentino a construir uma cerca, rimos muito ao nos ver, brasileiro e argentino aqui no coração da Etiópia, debaixo da chuva, fazendo uma cerca. Há gente da Noruega, França, Bélgica, Suécia, Chile, Brasil, Argentina, Iraque, Estados Unidos, Irlanda, Inglaterra, Libéria e, é claro, muitos etíopes.
Para terminar, talvez seja importante dizer que, por curiosidade, perguntei a várias crianças o que sabiam do Brasil. Para minha surpresa, até agora não encontrei nenhuma que soubesse o que é o Brasil. Os adultos sabem por causa do futebol, mas as crianças, muitas, nunca ouviram falar do Brasil.
Não é preciso dizer que, pra tudo isso acontecer, é necessária uma tremenda operação logística. Água limpa, alimentos, medicamentos, por estradas difíceis, para tantos lugares. Tudo muito caro e difícil.
Recentemente estávamos sem saber muito bem se conseguríamos ou não ter disponível o montante de comida e de plumpynut necessários para tocar o programa. Enfrentamos um problema de produção e de dificuldade de entrega. Decidimos receber em nosso programa todos os pacientes com desnutrição severa, mas, dos moderados, só os com menos de cinco anos. Isso acontece porque não temos a garantia de que teremos comida e plumpynut para todos, por uma questão de producão e de entrega.
A maior razão apontada para a atual crise é o aumento no preço dos alimentos e também o fato de a colheita, que era esperada, não ter acontecido por questões climáticas. Pra mim essas duas razões assustam, pois ambas estão fora do controle das mãos da população, que vive num tênue equilíbrio alimentar. Isso significa dizer que, se ano que vem, os preços continuarem a subir e a colheita novamente falhar, precisamos estar preparados para responder a crises – quem sabe ? – maiores, e a estar atentos para tudo o que seja necessário.
Quando voltar ao Brasil, espero vê-los para compartilhar, ainda mais de perto, tudo o que tenho vivido na Etiópia.
Queridos, vou ficando por aqui.
Saudações rotárias e um forte abraço em todos vocês!
David
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Textos e Estudos
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20/03/2008 - 08:13
Por Luis Eduardo Assis*
Há uma evidente desconexão entre as perspectivas ainda otimistas que prevalecem na economia brasileira e a visão soturna que os analistas internacionais manifestam a respeito do cenário mundial. Para os patriotas mais entusiasmados, isto pode significar que o Brasil, finalmente, fez prevalecer a força dos seus fundamentos econômicos, de tal sorte a ficar imune às implicações do que parece ser a mais grave crise financeira dos últimos tempos. Há até mesmo quem se impressione com as perspectivas justificadamente favoráveis do crédito imobiliário brasileiro em 2008, quando em vários outros países este produto passou a ser o centro das preocupações.
É possível perceber, no entanto, que, pelo menos no que se refere ao seu aspecto financeiro, não haveria mesmo nenhum motivo para se esperar uma contaminação. A crise que castiga os mercados financeiros desenvolvidos em nada se assemelha ao que ocorre no Brasil. Isto por duas razões. Em primeiro lugar, o imbróglio que se vive hoje na Europa e nos Estados Unidos chega no rastro de uma valorização – especulativa, por todos os títulos – dos preços do imóveis, crescimento este fomentado por uma forte expansão no crédito imobiliário, sua causa e conseqüência. Entre 2004 e 2006, o preço médio dos imóveis residenciais nos Estados Unidos subiu mais de 25%. Não por acaso, isto ocorreu logo após uma abrupta redução dos juros. A taxa básica do Fed caiu de 6,5% ao ano, em dezembro de 2000, para 1,75 % um ano depois. Continuou a cair e manteve-se em apenas 1% ao ano entre maio de 2003 e junho de 2004. Foi a valorização quase incessante dos imóveis, na seqüência de juros tão baixos, que induziu a uma crescente leniência nos critérios de avaliação do risco de crédito dos mutuários.
Como se sabe, o mercado financeiro tem uma vocação incorrigível para adotar um “comportamento de manada”, já que a penalidade para errar sozinho é muito maior do que a recompensa por acertar quando todos erram. Melhor, portanto, errar junto. “Enquanto houver música continuaremos dançando”, disse um famoso ex-banqueiro, candidamente. Nestes movimentos especulativos, ganha mais quem chega antes e dobra a aposta. Não vale a pena tentar acertar apostando que todos estão errados.
Como o resultado de uma seleção de risco de crédito mais generosa, e o acesso de milhões de novos mutuários ao mercado de imóveis, o preço das garantias se eleva, o que, em seguida, implica a redução do próprio risco de crédito, realimentando todo o processo. A roda gira cada vez mais rápida, o mercado se desdobra em produtos mais e mais sofisticados, ao mesmo tempo em que se reduz a importância dos critérios usuais para se aferir o risco de inadimplência – pois, afinal, os devedores ficam mais ricos. É bom enquanto dura.
Nada remotamente parecido aconteceu no Brasil. Muitas das características que foram introduzidas na década de 60 permanecem ainda hoje vigentes. Isto dificulta, por exemplo, a securitização dos créditos, ingrediente essencial para se explicar a alavancagem que tornou esta crise especialmente penosa. Também o próprio financiamento imobiliário entre nós é menos importante, representando cerca de 2% do PIB, contra mais de 50% nos EUA e Inglaterra e cerca de 40% nos países da Europa continental. Enquanto no exterior, há muitos anos, as instituições se especializaram nas várias fases que compõem uma relação comercial que pode se estender por mais de 30 anos, no mercado brasileiro quem origina o empréstimo está, na prática, fadado a carregá-lo até o vencimento.
Estamos ainda longe da sofisticação dos mercados mais desenvolvidos, o que paradoxalmente nos protege. Padecemos de dificuldades mais primárias. Da mesma forma, não se tem registro no Brasil de um movimento especulativo de valorização do preço dos imóveis comparável ao que aconteceu em outros países. Nesse aspecto, nossa precariedade é tamanha que não temos nem mesmo um número índice que afira com credibilidade o comportamento dos preços deste setor – para não mencionar produtos financeiros derivados deste índice.
Quanto subiu o preço dos imóveis no Brasil? Difícil saber. A evidência anedótica é que os preços dos imóveis foram sufocados pelos juros altos – precisamente a situação inversa dos países que enfrentam hoje a crise. O mercado de crédito imobiliário simplesmente não se desenvolveu o bastante para sofrer uma contaminação. Se o esquerdismo era a doença infantil do comunismo, para usar uma citação fora de moda, a simplicidade é a doença infantil do mercado imobiliário brasileiro.
Em segundo lugar, o Brasil é diferente porque sob muitos aspectos continua sendo uma economia fechada. A idéia de que a globalização é um processo avassalador que derruba as fronteiras precisa ser qualificada. No nosso caso, o mercado financeiro à disposição do investidor brasileiro é ainda um mercado essencialmente local. Os bancos e os investidores brasileiros não foram afetados pela desvalorização dos ativos financeiros lastreados em hipotecas, nem perderam o sono com complexos modelos de precificação de ativos subitamente ilíquidos, pela boa e simples razão de que, na prática, a compra destes ativos é restringida por uma legislação que tem ainda a marca dos tempos em que a escassez de reservas era a preocupação essencial.
O dinheiro brasileiro fala português. Isto força um desenvolvimento autóctone, necessariamente encruado, já que os canais de comunicação que dariam acesso a produtos financeiros sofisticados estão bloqueados. Tome-se a enorme preocupação que cerca o futuro dos produtos derivativos de crédito, por exemplo, em especial o problema que cerca as seguradoras “monolines”. Com um capital de apenas US$ 25 bilhões, elas tomaram um risco de US$ 2,4 trilhões, o equivalente a quase cinco vezes o total de operações de crédito de todo o sistema financeiro brasileiro. Deste total, cerca de US$ 1 trilhão está associado ao mercado de subprime por meio de operações estruturadas (basicamente CDOs) que estão fora do balanço dos bancos. Não há sombra, nem nas nossas diminutas proporções, de produto equivalente no Brasil. Se não há produto, e se a ele não temos acesso, não há crise.
Se isto significa que o Brasil não está na linha de frente da crise, não chega a garantir que não seremos afetados. Uma recessão na economia americana, cada dia mais certa, terá implicações sobre o crescimento brasileiro, não só pelo menor dinamismo das exportações, mas principalmente pelo possível efeito sobre a percepção de risco dos países emergentes e, consequentemente, sobre a taxa de câmbio, que pode induzir o Banco Central a uma postura mais conservadora. Mas nada que altere o cenário ainda positivo. A falta de sofisticação do crédito imobiliário e o isolamento do mercado financeiro – ambos herança dos tempos de inflação crônica – nos livraram dos primeiros sintomas da crise.
(*)Luis Eduardo Assis é executivo-sênior da HSBC Holdings (Londres), foi diretor de política monetária do Bacen e professor de economia da PUC-SP e FGV-SP.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Textos e Estudos
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15/01/2008 - 23:04
por José Carlos Braga*
Os percalços do debate econômico sobre as conseqüências para a economia mundial da crise imobiliária americana refletem não só a inexorável dificuldade de conhecer o futuro, mas também a imperativa necessidade de renovar a teoria econômica diante de um capitalismo que vem sofrendo mutações estruturais.
A teoria econômica dominante baseada nos modelos de Equilíbrio Geral limita-se a aperfeiçoar o argumento de “falhas de mercado”, como se essas não fossem nós intrínsecos. Seus economistas, face ao “choque” de capitalismo real, aparecem nas horas de crises com explicações que deixam intactas as supostas virtudes do sistema de mercado e da feroz concorrência instabilizadora que o acompanha na globalização.
Na Economia Política as novidades históricas têm exigido e implicado inovações analíticas. O primeiro problema detectado por um economista político do século XX foi o desemprego involuntário e a exclusão social. O drama apontado por John Maynard Keynes tem piorado, pois os mecanismos públicos de estímulo à demanda agregada vêm sendo cerceados pelas reformas privatizantes. As finanças públicas são afetadas pela especulação financeira, assim como pela utilização de recursos para impedir que as crises financeiras se alastrem globalmente em direção à economia produtiva.
A utopia reformista de Keynes era fazer a eutanásia do rentista para salvar o capitalismo da propensão a produzir crises monetário-financeiras. A sociedade burguesa seria preservada desde que prevalecessem o produtivismo e o pleno emprego. Ao contrário, vê-se hoje a institucionalização do rentismo, uma economia global em que as finanças ditam os rumos da economia e da sociedade. O oposto ao espírito reformador que imaginava um capitalismo capaz de empregar quem desejasse trabalhar e de distribuir renda e riqueza.
Joseph Schumpeter, como é sabido, expôs o êxito do sistema econômico (evitam-se aqui a discussão sobre Ordem capitalista, instituições etc). A hipótese era a de que numa economia “trustificada” diferentemente da de livre concorrência haveria maior estabilidade já que as inovações – a única causa da instabilidade – estariam programadas pelas grandes empresas. O progresso técnico não mais seria controlado por novos empresários que surgiriam a cada novo ciclo, destruindo as antigas firmas etc. A economia formada por grandes empresas seria uma máquina de crescimento com menor instabilidade.
A globalização capitalista tampouco se mostra legitimadora da hipótese schumpeteriana de que a economia tornar-se-ía menos instável. Aqui, é importante lembrar que ele opunha-se à intervenção do Estado na economia. Os ciclos eram intrínsecos ao desenvolvimento capitalista e deviam “cumprir seu papel”. Ficariam mais “bem comportados” na fase do capitalismo oligopolizado.
Ora, tem sido justamente nas últimas décadas, após a retirada do Estado das funções de regulação e regulamentação, que ressurgiram flutuações, instabilidades e crises. Por outro lado, a despeito do investimento com inovações das grandes empresas, assegurar um patamar mínimo de acumulação de capital na economia mundial ele não tem sido capaz de garantir processos longos de prosperidade, como Schumpeter sugerira.
Michael Kalecki, como Keynes, um teórico da dinâmica capitalista, preocupava-se com a distribuição da renda nacional. Previu que haveria um ciclo político, em que, quando a gestão governamental promovesse o crescimento e o pleno emprego, forças contrárias a aumentos de salários reais recomendariam a desaceleração mesmo que não houvesse risco inflacionário. Hoje se verifica um fenômeno que talvez possamos denominar de um ciclo político da plutocracia. Sempre que melhoram a taxa de emprego e os índices de remuneração do trabalho, na economia americana, por exemplo, surgem vozes, que clamam pelo aumento da taxa de juros para uma suposta prevenção da inflação. É a defesa preventiva do valor da riqueza financeira.
O conceito de capital fictício foi outra “criatura” da Economia Política. Neste caso, de Karl Marx. Fictício pois a expandir-se monetária e financeiramente independentemente do ritmo de valorização do capital produtivo. Evidentemente, sujeito a alternâncias de valorização e desvalorização. Mas, com a globalização, toda uma parte da economia passou a ser especulativo-fictícia. Nesse sentido, coexistem estruturalmente uma Macroeconomia da Riqueza Financeira e a tradicional Macroeconomia da Renda e do Emprego subordinada àquela.
Pelas razões acima expostas, chamar de bolhas especulativas a esses processos que são estruturais, recorrentes e de longo prazo é pobre retórica e teoria. O agravamento dos problemas detectados por aqueles autores fundamentais acerca da dinâmica capitalista impõe a reflexão renovada sobre a fase atual do capitalismo.
Há textos de Economia Política que com base em “velhos argumentos” prevêem há décadas uma Grande Crise do Capitalismo que repetiria os anos 1930. Nada disso se viu até agora. A crise tem assumido novas formas em razão das mutações em curso. Mudanças no dinheiro e nas finanças, nas corporações que se tornaram simultaneamente produtivas e financeiras, nas decisões de investimento, nas decisões de consumo, nas interações entre juros e câmbio, nas operações dos bancos centrais, nas relações entre Estado e mercado, na natureza das relações entre países centrais e periféricos etc.
Chegou agora com o estouro da malfadada “bolha imobiliária” a hora de uma grande crise? Indeterminação. Não está disponível teoria “arrematada” que esclareça com o mínimo de confiança qual a tendência em curso. Sabe-se que o sistema é incapaz de autoregular-se, que sem os bancos centrais as dificuldades já seriam mais graves. Sabe-se que colapsou a concepção neoliberal, que é necessário redefinir as relações Estado e mercado e o sistema monetário-financeiro internacional face às mudanças da problemática globalização capitalista.
Sabe-se que avançar na teoria econômica da Economia Política é preciso e é um caminho promissor na medida em que as categorias de análise se abram às mudanças trazidas pela História.
José Carlos Braga é professor livre docente do Instituto de Economia da Unicamp. Foi secretário de Abastecimento e Preços do Ministério da Fazenda (1986-1987). Este texto foi publicado no jornal “Valor Econômico”, em 11 de janeiro de 2008
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Textos e Estudos
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18/12/2007 - 08:50
por Cesar Benjamin*
Procuro um livro na estante de casa. Na folha de rosto, a dedicatória: “Para o César, que também caminha nas mesmas margens do mesmo rio. Gentio do Ouro, outubro de 2001.” De dentro do livro cai um cartão que já estava esquecido: “César, grato por sua inesperada suavidade, por sua lúcida e firme presença. Grato por você existir. Te abraço. Adriano.” Não consigo conter a emoção.
Entre de 1992 e 1993, durante um ano, Adriano e mais três pessoas realizaram uma caminhada de 2.700 quilômetros, das nascentes à foz do rio São Francisco. O livro que ganhei de presente quando os visitei no sertão – Da foz à nascente, o recado do rio, de Nancy Mangabeira Unger – narra poeticamente a empreitada desse grupo de heróis, cujas vidas se confundem com a luta pela vida do rio e das populações sertanejas que dele dependem.
O líder dos peregrinos era um frei franciscano, o mais franciscano de todos franciscanos que conheci, Luís Cappio. Não lembro em que localidade o encontrei – acho que foi em Pintada -, mas nunca o esqueci. É um homem raro. Vive visceralmente o cristianismo, a sua missão. Hoje, é bispo da Diocese da Barra. Continuou o mesmo simples peregrino, um irmão da humanidade, um pobre vivendo entre os pobres. Está em greve de fome há mais de vinte dias e pode morrer. Adriano continua ao seu lado.
Aboletado em Brasília, o presidente Lula acusa frei Luís e seus companheiros, contrários à transposição das águas do rio São Francisco, de não se importarem com a sede dos nordestinos. Para quem conhece os dois personagens, é patético. Um abismo moral os separa. Desse abismo nascem as suas diferentes propostas.
O Semi-Árido brasileiro é imenso: 912 mil km2. É populoso: 22 milhões de pessoas no meio rural. É o mais chuvoso do planeta: 750 mm/ano, em média, o que corresponde a 760 bilhões de metros cúbicos de chuvas por ano. Não é verdade, pois, que falte água ali. A natureza a fornece, mas ela é desperdiçada: as águas evaporam rapidamente, sob o Sol forte, ou vão logo embora, escorrendo ligeiras sobre o solo cristalino impermeável.
Há décadas o Estado investe em obras grandes e caras, que concentram água e, com ela, concentram poder. O presidente Lula quer fazer mais do mesmo. No mundo das promessas e do espetáculo, onde vive, a transposição matará a sede do sertanejo. No mundo real, apenas 4% da água transposta serão destinados ao consumo humano, em uma área equivalente a 6% da região semi-árida. “É a última grande obra da indústria da seca e a primeira grande obra do hidronegócio. Uma falsa solução para um falso problema”, diz Roberto Malvezzi, da Comissão Pastoral da Terra.
Graças a gente como Cappio, Adriano e Malvezzi, o Semi-Árido nordestino experimenta uma lenta revolução cultural. Centenas de organizações sociais, apoiadas pela Igreja Católica e por outras igrejas, adotaram o conceito de convivência com a natureza e desenvolveram in loco cerca de quarenta técnicas inteligentes, baratas e eficientes para armazenar a água da chuva. Ela é suficiente – corresponde a quase 800 vezes o volume d’água da transposição -, mas cai concentrada em um curto período do ano.
Eles lutam por duas metas principais: “um milhão de cisternas” e “uma terra e duas águas”. Combinados, os dois projetos visam a proporcionar a cada família do Semi-Árido uma área de terra suficiente para viver com dignidade, uma fonte permanente de água para abastecimento humano e uma segunda fonte para a produção agropecuária, conforme a vocação de cada microrregião. As experiências já realizadas deram resultados magníficos.
Para oferecer isso à população sertaneja, é preciso realizar a reforma agrária e construir uma malha de aproximadamente 6,6 milhões de pequenas obras: duas cisternas no pé das casas, para consumo humano, uma usual e outra de segurança; mais 2,2 milhões de recipientes para reter água de uso agropecuário. No conjunto, é uma obra gigantesca, mas desconcentrada. A captação de água realizada assim, no pé da casa e na roça, já é também a distribuição dessa mesma água, o que desmonta uma das bases mais importantes do poder das oligarquias locais. Armazenada em locais fechados, ela não evapora. Impulsionado por milhares de pessoas, este poderia ser um projeto mobilizador das energias da sociedade, emancipador das populações sertanejas, se tivesse um apoio decidido do governo federal.
A proposta tem respaldo técnico da Agência Nacional de Águas (ANA), que realizou um minucioso diagnóstico hídrico de 1.356 municípios nordestinos, um brilhante trabalho. O foco é a região semi-árida, mas o diagnóstico inclui grandes centros urbanos, como Salvador, Recife e Fortaleza, abrangendo um universo de 44 milhões de pessoas. As obras propostas pela ANA, as igrejas e as entidades da sociedade civil resolvem a questão da segurança hídrica das populações. Estão orçadas em R$ 3,6 bilhões, a metade do custo inicial da transposição do São Francisco.
Isso não interessa ao agronegócio, um devorador de grandes volumes de água em monoculturas irrigadas, produtoras de frutas para exportação e de cana para fabricar etanol. É para ele e para alguns grupos industriais – grandes financiadores de campanhas eleitorais – que a transposição se destina, pois esses precisam de água concentrada. Ao sertanejo, cada vez mais, restará a opção de migrar ou se tornar bóia-fria.
Para deter a marcha da insensatez, frei Luís entrega a vida, o único bem que possui. Não lhe restou outra opção, pois o governo se esquivou do debate que prometeu. Preferiu apostar na política do fato consumado. Agora, a farsa só poderá prosseguir sobre o cadáver do bispo. O presidente Lula deixou claro que considera essa alternativa aceitável. Porém, antes desse desenlace terrível, o presidente deve meditar sobre as palavras de Paulo Maldos, do Conselho Indigenista Missionário, seu tradicional aliado: “Ao redor do gesto radical do bispo está se formando uma corrente de solidariedade, de apoios, de alianças, de identificação ética, política, social, ideológica, cujos contornos são facilmente identificáveis: trata-se dos movimentos sociais, políticos, pelos direitos humanos, pastorais sociais, personalidades da Igreja Católica, da política, da cultura, que, desde os anos 80, constituíram Lula como liderança de massa em nosso país. (…) Se dom Cappio vier a falecer, será o final dessa história. Não será dom Cappio apenas que morrerá. Morrerá a referência política de Lula e do Partido dos Trabalhadores na história dos movimentos sociais do Brasil. (…) A história da liderança popular de Lula será a história de um fracasso. A morte física de dom Cappio sinalizará a morte política de Lula.”
Suplico que o presidente abra o diálogo com rapidez, por generosidade ou por cálculo: frei Luís precisa viver.
César Benjamin, editor da Editora Contraponto, foi candidato à vice-presidente da República, na chapa de Heloisa Helena, do PSOL. Fundador do PT, desligou-se do partido em 1995. É autor dos livros “E o Sertão, de Todo, se Impropriou à Vida” (Vozes, 1983), “A Opção Brasileira” (Contraponto, 1998, décima edição) e “Bom Combate” (Contraponto, 2003), entre outros.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Textos e Estudos
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12/12/2007 - 19:51
por David Kupfer*
Como todo ano, 2007 está se aproximando do seu final em meio a notícias positivas e negativas, dando margem à já surrada retórica das previsões econômicas. No caso, as boas notícias vêm do comportamento da economia, que faz com que esse ano lembre 2004 devido ao ótimo desempenho de produção, renda, comércio exterior, emprego, produtividade e investimento. Por sua vez, as más notícias vêm das políticas macroeconômicas, que fazem com que esse ano também lembre 2004 – nesse caso, em vista da velocidade com que o Banco Central está reagindo aos sinais de repique inflacionário, interrompendo a trajetória de queda das taxas de juros, a despeito do elevado preço que esse modelo de gestão macroeconômica, apoiado na manutenção de baixo dinamismo do mercado interno, já cobrou em termos de desestímulo ao desenvolvimento brasileiro.
Não há dúvida de que as duas últimas décadas foram marcadas por profundas alterações no ambiente macroeconômico, na inserção internacional e na organização da produção predominantes na economia brasileira. Embora, em tese, tais mudanças possuam um enorme potencial de transformação da estrutura produtiva nacional, o que pode ser observado, porém, é um virtual congelamento dessa estrutura, fruto da ausência de fôlego da política econômica na promoção do crescimento econômico.
Não é fácil montar séries longas de dados sobre produção e emprego em vista do surgimento de novos produtos e atividades, de mudanças nas classificações e nas metodologias, da inevitável dança dos preços relativos dos bens e salários e assim sucessivamente. Como é sabido, em março de 2007 o IBGE divulgou as novas contas nacionais, incorporando importantes mudanças estatísticas com o objetivo de modernizar conceitos e utilizar mais amplamente as informações das suas demais pesquisas. Se vantajosas no plano da produção das estatísticas econômicas, a revisão do sistema de contas nacionais gerou as habituais dificuldades de correlação entre as séries de dados anteriores e posteriores.
Visando construir uma série encadeada que permita a análise do padrão de mudança estrutural de longo prazo percorrido pela economia brasileira, realizamos no GIC-IE/UFRJ um esforço de encadeamento das séries disponíveis no Sistema de Contas Nacionais por intermédio de um procedimento de retropolação de dados, similar ao adotado pelo próprio IBGE, que é baseado na variação célula à célula dos valores registrados nas tabelas de recursos e usos calculadas a preço básico do ano anterior. Dessa forma, foi possível encadear os dados das contas nacionais desde 1985 até 2004, obtendo-se um banco de dados que possibilitará estimar as relações estruturais de longo prazo da economia brasileira.
Um primeiro resultado proporcionado por esse esforço estatístico é o referente à evolução da composição do Produto Industrial e do Pessoal Ocupado na Indústria entre 1985 e 2004, sintetizado na tabela adiante reproduzida. Quando se observa a composição do valor adicionado, verifica-se que houve um avanço da participação dos setores produtores de commodities, sejam elas agropecuárias (complexo soja, carnes) ou industriais (mineração, siderurgia, celulose, petroquímica), dando suporte aos estudiosos que vêm afirmando que está em curso um processo de especialização da indústria em produtos baseados em recursos naturais. No entanto, a participação do conjunto de setores de Alta e Média Tecnologia (material de transporte, mecânica, eletrônica) não recuou nos 20 anos cobertos pelos dados, não corroborando a tese desses mesmos estudiosos de que a especialização é regressiva, pois estaria ocorrendo em detrimento dos setores de maior conteúdo tecnológico. Já os fabricantes de insumos industriais, embora não tenham enfrentado um período muito favorável, conseguiram manter o ritmo de geração de valor adicionado em níveis próximos aos da média da indústria. Inquestionável, no entanto, é a perda de peso dos ramos da indústria tradicional voltados para o suprimento de bens de consumo não durável (alimentos, complexo têxtil-calçados, móveis), que recuaram de 22% para 15% nos últimos vinte anos.
Porém, é quando se observa a evolução da composição do pessoal ocupado que a mudança estrutural mostra-se muito menos acentuada, ou mesmo, quase nenhuma, reforçando a idéia de que o Brasil vive um longo período de rigidez estrutural. Essa constatação não decorre da observação da trajetória dos setores produtores de commodities, pois esses, embora tenham prosperado, são capital-intensivos e têm baixa capacidade de criação de novos empregos. É no outro extremo, nas indústrias tradicionais produtoras de bens salário, que a despeito da importante contração da participação na geração de valor permaneceram responsáveis pelos mesmos 47% dos empregos industriais totais, que está o problema: significa que a maior parte dos empregos está em setores que vêm apresentando uma evolução da produtividade muito abaixo da média da indústria.
Sabe-se que esse quadro indesejável deve ser em parte atribuído a um efeito-demanda, que se contraiu devido ao comportamento pouco dinâmico do consumo interno nos 20 anos analisados e, em parte, a um efeito-competitividade, que se deteriorou em vista de inúmeras razões, dentre as quais certamente sobressai a apreciação cambial que predominou em boa parte desses anos. Quanto foi a contribuição de cada um desses efeitos na explicação do desempenho tão negativo é tema que requer estudos adicionais. Sabe-se, no entanto, que esse comportamento revela os altos custos que o eterno freio imposto à demanda doméstica vem trazendo para a economia brasileira. O fato é que, ao longo de 2007, o debate concentrou-se na discussão dos impactos da apreciação cambial e esqueceu de contabilizar a igualmente importante influência que o baixo dinamismo da economia vinha e poderá vir novamente exercer sobre os destinos da indústria brasileira. Feliz ano velho para todos nós.
(*)David Kupfer é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ)
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Textos e Estudos
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07/12/2007 - 16:30
Silêncio e omissão entre as vozes femininas
Neste momento, chegam às telas dos pesquisadores de diferentes cantos do país os resultados do novo Censo do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, feito pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a agência do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) que se destina ao fomento de projetos de pesquisa científica e tecnológica e à formação de recursos humanos para o seu desenvolvimento. Com base em dados de 2006, o CNPq está revelando o cenário atualizado da ciência brasileira a partir de informações enviadas pelos próprios grupos de pesquisa. Pelo censo, é possível saber quantos grupos são, onde estão, quem são os pesquisadores e o que eles pesquisam.
O número de grupos atingiu 21 mil, com 90.320 pesquisadores fazendo pesquisa em 403 instituições espalhadas pelo Brasil. Embora a liderança dos grupos ainda seja majoritariamente masculina, o crescimento do número de pesquisadoras tem sido contínuo: em média, quase dois pontos percentuais a cada censo. Hoje elas são 48% dos pesquisadores.
São as mulheres que, em maior número, desenvolvem os projetos de pesquisa de gênero e fazem estudos sobre a mulher. Uma consulta à base corrente dos grupos de pesquisa no site do CNPq no final de novembro de 2007 mostrou que esses estudos não são muitos em relação ao volume da pesquisa em geral: entre nomes dos grupos, linhas de pesquisa e palavras-chaves, há para a palavra “gênero” apenas 698 entradas, somente 257 entradas para “mulher” e, para “feminino”, minguados 58. Esses estudos são muitos e variados, tentam repensar a sociedade ecoando as vozes femininas por anos silenciadas em uma história maciçamente escrita por homens.
Na contramão desses estudos, uma análise dos incidentes que envolveram mulheres violentadas em cárceres do Pará particularmente, o múltiplo estupro sofrido por uma menor em uma delegacia de Abaetetuba mostra que, na história do presente, há mulheres que não foram silenciadas, mas que, vergonhosamente, calaram-se. Ou, o que é pior, elevaram a voz para pronunciar desatinos.
Ana Júlia Carepa, governadora do Pará pela legenda do Partido dos Trabalhadores, é a responsável pela política de segurança e pelo sistema carcerário do estado. Admitiu que, dos 132 municípios do Pará, 123 não têm espaços apropriados para as mulheres e, por isso, é comum a prisão conjunta de homens e mulheres. Disse que, desde que assumiu o governo, existiam 94 vagas femininas nas cadeias do estado, número que ela afirma ter dobrado sem deixar claro, porém, se na duplicação contam as vagas ocupadas por mulheres em celas com homens.
Foi só após a manifestação de um homem o delegado Raimundo Benassuly, chefe da Polícia Civil, dizendo que a moça parecia ter alguma debilidade mental que a governadora falou grosso e alto, quase aos gritos: “Não tem justificativa. Se alguém tentar justificar, é um absurdo”.
Vera Lúcia Marques Tavares, advogada e titular da Secretaria de Segurança Pública do Pará, foi presidente da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos por seis anos. Fez questão de lembrar que a menina constava em oito processos como se isso desse ao Estado o direito de violar seus direitos.
Flávia Verônica Pereira, delegada e responsável pela custódia da menor, que só foi libertada graças a denúncia anônima ao Conselho de Infância e Juventude de Abaetetuba, disse que tinha conhecimento da prisão da menina em uma cela com homens, mas não sabia que ela era menor, como se isso atenuasse o crime impetrado sob suas vistas.
Clarice de Andrade, juíza da 3ª Vara Criminal de Abaetetuba, foi quem abriu processo contra a adolescente da cidade que dividiu uma cela com homens, como se ela fosse adulta. Acusada de omissão, preferiu não falar.
Liane Martins, delegada da Corregedoria da Polícia do Estado do Pará, está apurando as responsabilidades dos policiais envolvidos pelo que acontecia na carceragem. Declarou: “Ela sofreu abuso, mas não foi na dimensão que está sendo divulgado. Não aconteceu todos os dias, com vários presos”. A delegada esquece que, mesmo sendo uma só vez, com um só homem, ainda estamos diante de um crime.
Maria do Rosário, deputada federal pelo PT-RS e membro da comissão externa do Congresso Nacional que foi ao Pará investigar os fatos, não teve o menor pudor em defender a atuação da governadora de seu partido, em quem disse depositar toda confiança. Por via das dúvidas, pediu que Ana Júlia encaminhasse com rigidez os caminhos da responsabilização dos criminosos. Acrescentou: “É o que esperamos dela como chefe do Poder Executivo, como mulher, como mãe, como lutadora das mesmas causas”.
Mulheres menos importantes também falaram. “Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada”, disse uma. Outra lembrou: “Antes de comer, os presos se serviam dela”. Uma terceira falou: “Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar”.
Qualquer projeto de pesquisa que investigue a história do presente levará em consideração a representação da mulher na narrativa feita hoje nos jornais brasileiros. Encontrará evidências de que não há força na voz da cadeia de mulheres do lado de cá da carceragem, elas que poderiam trocar a história das mulheres que ainda estão ou estiverem do lado de lá das grades, sem voz. A voz das que podem e devem falar está baixa ou completamente muda.
Esse é o caso da voz feminina que deveria agora estar retumbando em nome de todas nós, mulheres, do lado de cá ou de lá: a de Nilcéia Freire. É importante dizer que a secretária especial de Políticas para Mulheres foi reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das mais importantes instituições em volume de pesquisa no país e uma das cinco únicas universidades brasileiras a figurar na classificação das melhores do mundo, feita pelo respeitado Instituto de Educação Superior da Universidade de Jiao Tong, de Xangai, China. É inexplicável, neste debate, a ausência física e política da ministra que deveria defender as mulheres.
Maria Jandyra Cavalcanti Cunha, lingüista, é integrante do Grupo de Pesquisa Vozes Femininas e do Núcleo de Estudos em Mídia e Política da Universidade de Brasília (UnB)
(*)Texto publicado em 5 de dezembro, na página de Opinião do jornal “Correio Braziliense”
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Textos e Estudos
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30/11/2007 - 15:58
Estudos, ensaios, críticas… esta é uma área dedicada à reflexão.
Autor: José Paulo Kupfer - Categoria(s): Textos e Estudos
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